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28/06/2026

Abetos da Serra Vermelha

Abies pinsapo Boiss. — Sierra Bermeja, Málaga
As encostas nevadas de onde nos chegam as transmissões televisivas dos campeonatos de esqui (ou onde têm lugar frenéticas perseguições em certos filmes de James Bond) aparecem amiúde revestidas por densas formações de coníferas. São abetos, pinheiros, espruces, lariços, todos de formato cónico e com os ramos pendentes para que a neve não se acumule nas copas. Supomos que alguma vez o branco seja substituído pelo verde, mas essa parte nunca nos é mostrada, e aquelas árvores ficam-nos para sempre associadas a um frio impenitente e perpétuo. Em todo o caso, devemos reconhecer que no nosso país não há neve tão espessa, nem tão persistente, nem cobrindo extensões tão desmedidas, o que parece razão bastante para que as coníferas vinculadas a esses climas e altitudes não existam em território português. Temos pinheiros, é verdade, mas foram quase todos plantados, e são daqueles pouco adaptados à neve. E em Manteigas ensaiou-se uma plantação de lariços que ficou jeitosa, mas a neve é escassa para que o cenário seja credível. A situação indes­mentível é esta: abetos, espruces e lariços não fazem parte da flora espontâ­nea portuguesa.

Será que Espanha se saiu melhor do que nós? Basta lembrarmo-nos dos Pirenéus para reconhecermos que sim: grandes procissões de pinhei­ros-negros (Pinus mugo) e de pinheiros-silvestres (Pinus syl­vestris), às vezes acompanhados por abetos (Abies alba), trepam pelas encostas da cordilheira até aos 2000 metros de altitude. Acontece que os abetos peninsulares preferem, de um modo geral, altitudes mais baixas, e a espécie a que dedicamos o texto de hoje, Abies pinsapo, vive muito bem sem neve, ou só com neve muito ocasional. O abeto-espanhol (como é costume chamar-lhe) escolheu morar na Andaluzia; mas, se o manto branco não é para ele requisito importante, bem poderia ter atravessado a fronteira e fazer-se também português.

O Abies pinsapo é uma conífera de porte médio, não excedendo os 30 metros de altura, que vive em bosques puros ou mistos em algumas serras de Málaga e de Cádiz, entre os 900 e 1700 metros de altitude. Distingue-se de outros abetos pelas agulhas curtas e rígidas, dispostas radialmente — ou seja, guarnecendo os galhos a toda a volta, enquanto que nas outras espécies de Abies as folhas se organizam em duas fiadas opostas. Cada árvore produz na Primavera cones masculinos e femininos: os primeiros são vermelhos e aninham-se nas axilas das folhas na parte inferior da copa; os segundos, de cor acastanhada, brotam nas extremidades dos ramos superiores, dando origem no Verão a pinhas grandes e erectas.

Abies pinsapo Boiss.


Um dos mais importantes bosques de abetos-espanhóis, e o único que visitámos, ocupa uns 40 hectares nos cumes da Sierra Bermeja, a apenas dez quilómetros da costa mediterrânica. Não é a população mais numerosa da espécie: na Sierra de Grazalema, 35 quilómetros a norte, o bosque de abetos estende-se por uma área dez vezes superior. Contudo, foi na Sierra Bermeja que Pierre Edmond Boissier, o eminente botânico suiço que descreveu este abeto em 1838, primeiramente o avistou, aquando de uma expedição à província de Málaga. E a esse dado histórico acresce uma singularidade ecológica: a Sierra Bermeja justifica plenamente o nome que tem pela intensa cor vermelha das rochas que lhe dão forma. De facto, essa serra, que atinge os 1470 metros de altitude máxima, constitui o maior afloramento ultrabásico da Península Ibérica, e um dos maiores a nível mundial, ultrapassando os 300 km2 de extensão. Essas rochas ricas em magnésio são parte normal das camadas inferiores da crosta terrestre, e nos raros lugares onde assomam à superfície são sempre refúgio de uma vegetação peculiar. A Sierra Bermeja ostenta um número apreciável de endemismos botânicos, infelizmente ainda não em flor por altura da nossa visita, mas o que acolhe de mais improvável é este bosque de abetos, crescendo num substrato reconhecidamente adverso a um coberto arbóreo bem desenvolvido.

07/04/2023

Açafrão insular

Crocus cambessedesii J. Gay


A Natureza não seria ridícula ao ponto
de se resumir a qualquer fórmula literária
ou matemática.
Coloca o livro mais brilhante de Goethe
ao lado de uma pedra: volta no outro dia,
e no dia seguinte. E na semana seguinte.
Verás: nada aconteceu à pedra,
enquanto o livro, por todo o lado, por todas as partes,
começou a perder qualidades.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia (Editorial Caminho, 2010)

06/02/2023

Folhado rijo

Há uns anos, uma notícia surpreendeu cientistas e vigilantes da natureza: durante a estação seca, num período particularmente quente, centenas de antílopes no sul de África foram envenenados por árvores do género Acacia. Depois de vários meses sem chuva, estas plantas desesperavam para manter alguma folhagem, e havia que impedir a herbivoria. O mecanismo de defesa incluiu então duas etapas, a cumprir em não mais de meia hora: a emissão de um alerta (com etileno) pelas plantas com folhas já danificadas, avisando sobre a presença de predadores; e a produção extra e imediata de tanino pelas árvores notificadas, tornando as folhas mais amargas. O objectivo deste processo não era matar os animais, para quem essas árvores sempre foram a fonte principal de alimento. O sabor desagradável das folhas deveria repeli-los e levá-los a procurar alimento noutras paragens, evitando desse modo que dizimassem as plantas. Infelizmente, sem alternativa num local tão árido, os bichos comeram as folhas tóxicas — e os botânicos descobriram que afinal as plantas, sempre tão silenciosas, comunicam entre si.

Esta é uma instância dramática de adaptação da folhagem ao habitat, mas há outras mais fáceis de reconhecer e menos perigosas. Se as folhas são coriáceas e pequenas, de textura rija ou mesmo espinhosa, é bastante provável que a espécie esteja exposta a um clima quente e seco, ou muito frio. Pelo contrário, as folhas grandes e mais frágeis, que parecem depender de bastante água e sombra, são mais comuns em plantas de bosque, com temperaturas amenas e chuva frequente. Nas florestas tropicais, onde a humidade é elevada, há longos períodos com temperaturas muito altas e a acção dos herbívoros pode ser debilitante, é fácil encontrar plantas com folhas enormes mas duras, rugosas e indigestas, com margens recurvadas e veios centrais vincados para que o excesso de água escorra facilmente, e venação pinada para que a seiva nutra devidamente as folhas grandes.

Na região mediterrânica, origem de muitas das espécies da flora da ilhas Canárias, o clima é quente e seco no Verão, mas ameno e húmido no Inverno. Não peca nem pelos destemperos do clima oceânico, muito chuvoso e dado a ventanias (o das ilhas açorianas), nem pelos ardores do clima semi-árido do norte de África (e o de várias ilhas das Canárias). Algumas das espécies que dali migraram para a Macaronésia mantiveram o porte arbustivo, ou até se esticaram para árvores, mas as folhas tornaram-se mais pequenas, ou mais rijas, ou mais espinhosas. É o caso do género Viburnum.

Viburnum rigidum Vent. [= Viburnum rugosum Pers.]


As espécies do género Viburnum que ocorrem em Portugal (V. tinus, V. opulus e V. lantana) gostam de orlas de bosques sombrios, da proximidade de cursos de água e de solos férteis. Têm folhas verdes, largas e mais ou menos lustrosas, que se dispõem horizontalmente de modo a maximizarem o benefício do calor e da luz. O Viburnum rigidum, endemismo do arquipélago das Canárias (que ocorre em El Hierro, La Palma, La Gomera, Tenerife e Gran Canaria) parece ser morfologicamente próximo do V. tinus. Em particular, a folhagem é igualmente perene, embora o porte seja mais alto, atingindo os 7 m de altura. Pode encontrar-se em bosques de laurissilva, mas é frequente em barrancos pedregosos e quentes, onde os ribeiros há muito desapareceram e raramente chove. Em resposta a este tipo exigente de habitat, ou a solo pobre em alguns nutrientes, a folhagem tornou-se mais tolerante à falta de água e pouco atraente para os herbívoros. As folhas do V. rigidum são longas (10-20 cm) mas têm textura coriácea e áspera, penugem densa em ambas as faces e ao longo das nervuras, margens inteiras e ápice agudo.



As fotos são de exemplares de um pinhal em Arafo (Tenerife). As umbelas densas de flores brancas (que desabotoam entre Fevereiro a Maio) são semelhantes às do V. tinus, mas mais vistosas. Pelo contrário, os frutos carnudos, escuros quando maduros, copiam o padrão do género na região mediterrânica.

16/09/2022

Vida apomítica



Calcula-se que pelo menos 10% das espécies de fetos actualmente existentes no planeta sejam apomíticas, e portanto dispensem a reprodução sexual. Não significa isso, porém, que a reprodução seja vegetativa (como acontece com as plantas que produzem bolbilhos) ou que os descendentes assim gerados sejam geneticamente idênticos aos progenitores. O ciclo de vida dos fetos alterna entre dois estádios principais: os esporófitos (que apresentam o aspecto que consideramos normal num feto, com raízes e folhas) produzem esporos, e os esporos germinam para dar origem aos gametófitos (que parecem musgos gelatinosos e quase nunca conseguimos observar). São estes que, produzindo espermatozóides e dispondo ainda de orgãos femininos receptivos, se encarregam da tarefa reprodutiva de que resultam novos esporófitos. Os fetos apomíticos alternam igualmente entre estes dois estádios: os esporos que produzem são viáveis, e também se transformam naquela gelatina que são os gametófitos, mas estes estão aptos a gerar novas plantas (ou, para sermos rigorosos, novos esporófitos) sem que haja qualquer fecundação. Assim, a nova planta só tem informação genética de um progenitor: aquele que produziu o (único) esporo que intervém na sua criação. Sucede que, na maioria dos fetos apomíticos, a criação de esporos envolve prévia duplicação de cromossomas seguida por uma redução (meiose). O resultado é que, embora cada esporo tenha os mesmos cromossomas que o indivíduo que o produz, estes podem estar emparelhados de modo distinto (o processo é sumariamente explicado neste artigo); e, se for esse o caso, o descendente não será, geneticamente, uma cópia do seu progenitor.

Assim, ao contrário do que tradicionalmente se supunha, a apomixia pode não ser um beco sem saída no processo evolutivo dos seres vivos. E também não é verdade que o afunilamento genético daí resultante produza sempre linhagens frágeis e pouco competitivas. Um desmentido eloquente é dado pelo vigoroso (e apomítico) falso-feto-macho (Dryopteris affinis subsp. affinis), que está largamente difundido na Europa, e é dos fetos mais comuns em bosques e lugares frescos tanto em Portugal continental como nos Açores e Madeira.

Asplenium filare subsp. canariense (Willd.) Ormonde [= Asplenium canariense Willd.]


Nos arquipélagos da Madeira, Canárias e Cabo Verde existem duas linhagens do Asplenium aethiopicum. Como várias vezes acontece em grupos taxonomicamente intrincados e ainda não inteiramente compreendidos, este nome não designa propriamente uma espécie mas sim um agregado de espécies próximas, com distintos números cromossómicos e diferentes modos de reprodução — o que nem sempre se reflecte em diferenças morfológicas claras ou em preferências ecológicas distintivas. Uma dessas linhagens está ilustrada nas fotos acima, obtidas nos pinhais de Arafo, em Tenerife; recebe o nome de Asplenium filare subsp. canariense, e é exclusiva de três das ilhas Canárias: Tenerife, La Palma e El Hierro. A outra, de que já aqui falámos, corresponde ao Asplenium aethiopicum subsp. braithwaitii, e está presente na Madeira, em La Palma, e em cinco ilhas de Cabo Verde: Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Santiago e Fogo. Segundo José Ormonde, autor de ambas as combinações, estes dois fetos não se distinguem pela ecologia (ambos buscam lugares mais ou menos sombrios em substrato rochoso), mas morfologicamente são suficientemente díspares para serem reconhecidos à vista desarmada: o primeiro tem frondes mais estreitas, nitidamente caudadas. Geneticamente, as diferenças entre eles são importantes: A. filare subsp. canariense é hexaplóide e apomítico, enquanto que A. aethiopicum subsp. braithwaitii é dodecaplóide e de reprodução sexuada.

Que o segundo surja num maior número de ilhas do que o primeiro pode ser apenas um acaso, pois ambos são relativamente raros na generalidade das ilhas onde ocorrem. E não há dúvida de que estes dois nomes correspondem a entidades taxonómicas distintas. Mas serão esses nomes apropriados? Afinal, a generalidade das floras considera que Asplenium filare é ele próprio uma subespécie do A aethiopicum. E estarão essas duas linhagens realmente restritas aos arquipélagos da Macaronésia? Ou existirão também no continente africano ou até em paragens mais longínquas? Ormonde não parece ter chegado a compará-las com plantas de outras proveniências, e o grupo do Asplenium aethiopicum tem uma distribuição vastíssima, que inclui a América tropical, a África, a Austrália e o sudeste da Ásia. Morfológica e geneticamente é um grupo muito variado, e dentro dessa variabilidade não é difícil encontrar, no continente africano (e, em particular, na África do Sul), plantas muito semelhantes às das ilhas. Só um estudo exaustivo, ainda por realizar, poderá esclarecer estas questões.

31/01/2021

Hortelã dos pinhais

Agrupar espécies num mesmo género antes de dispormos de estudos genéticos deve ter sido tarefa complexa e nem sempre rigorosa. Limitando-se a interpretar detalhes da morfologia das folhas, caules ou flores, o erro era quase inevitável. Foi, todavia, assim que funcionou durante séculos a etiquetagem das plantas, nascendo géneros novos sempre que a comparação era inconclusiva ou os botânicos não se entendiam sobre a autoria dos táxons. A arrumação recente, mais bem fundamentada, confirma, porém, que fiar-se nas parecenças é um bom ponto de partida.

Bystropogon canariensis (L.) L'Hér.


O género Bystropogon é exclusivo das ilhas Canárias e da Madeira, com algumas características que fazem lembrar os géneros Origanum (do orégão) e Thymus (do tomilho). São arbustos pequenos, de talos com secção quadrada e folhas simples, perenes, pubescentes e aromáticas (cheiram a hortelã), geralmente ovadas e com margens crenadas. As flores são tubos minúsculos com quatro estames, lobados como é usual na família Lamiaceae, agrupadas em vistosas panículas ramificadas que lembram nuvens pequeninas de flores brancas, rosadas ou violáceas. Os exemplares das fotos, de B. canariensis, habitam em Tenerife, no extenso pinhal de Pinus canariensis que, entre os 1000 e os 2000 metros de altitude, envolve a estrada ligando San Cristóbal de La Laguna à montanha do Teide.

Pinus canariensis C. Sm. ex DC. — Boca del Valle, Tenerife
No total, há registo de cinco espécies endémicas de Bystropogon no arquipélago das Canárias (B. canariensis, B. origanifolius, B. odoratissimus, B. plumosus e B. wildpretii) e duas na ilha da Madeira (B. maderensis e B. punctatus). Distinguem-se pela penugem, pelos dentes nos cálices, pela coloração das corolas, pela textura mais ou menos coriácea das folhas e, sobretudo, pelas preferências de habitat: as espécies da Madeira, bastante raras, vivem em taludes rochosos com humidade, mais frequentes no interior sombrio da laurissilva; as das Canárias, pelo contrário, apreciam solos secos e boa exposição ao sol. A floração é mais ou menos simultânea, com as espécies das Canárias ligeiramente adiantadas, decerto para evitar o calor excessivo do Verão.

O termo L'Hér. é a abreviatura padrão usada para indicar o botânico francês Charles Louis L'Héritier (1746 – 1800), a quem se deve a primeira distinção clara entre os géneros Geranium, Pelargonium e Erodium.

04/09/2018

Lábios pulcros


Cheilanthes pulchella Willd.


Noutras eras geológicas, há seis ou sete milhões de anos, este feto terá existido na Europa e no norte de África, mas foi expulso pela clima progressivamente mais árido e frio da última etapa do Mioceno, com o mar Mediterrâneo secando quase por completo e convertendo-se num deserto salobro. Refugiou-se nas Canárias, onde ficou a salvo das glaciações que atingiram o continente europeu, e onde hoje está presente em cinco das sete ilhas: Grã-Canária, Tenerife, El Hierro, La Palma e La Gomera. Com base num único exemplar de herbário de origem duvidosa, colhido em 1810 talvez na província galega de Orense, várias vezes se alegou a sua existência na Península Ibérica, mas esse improvável encontro (erro de atribuição ou canto do cisne?) nunca se repetiu. A sua presença na Madeira, que seria menos estranha, também está minada por dúvidas, e por isso é apropriado considerar o Cheilanthes pulchella como um endemismo canário, pese embora a sua presumível origem noutras paragens. Antes de migrar para as Canárias terá produzido descendência, desse modo perpetuando os seus genes no continente europeu: juntamente com o C. maderensis, é um dos progenitores do C. guanchica, um feto que em Portugal continental ocorre apenas na serra de Mochique.

O epíteto pulchella pode, em português refinado, traduzir-se por pulcro, e é forçoso admitir que este Cheilanthes pulchella suplanta em beleza qualquer um dos seus cinco congéneres em territónio nacional. As suas folhas têm um desenho mais elaborado, executado por uma mão mais firme, sem as rugosidades e hesitações que maculam as outras espécies. São também maiores, amiúde com porte erecto e crescendo a descoberto, tendo assim melhores oportunidades para se mostrarem do que as que se escondem em fendas de rochas.

O Cheilanthes pulchella dá-se bem com a secura, mas não tolera o frio. Nas Canárias vive sobre rochas vulcânicas, em lugares onde a chuva quase nunca cai; as brisas que pela manhã sopram do mar parecem trazer-lhe humidade que baste. Em Tenerife, nas bermas da estrada que sobe para a montanha do Teide, começa a ver-se a uns mil metros de altitude, num solo caótico formado por calhaus e fragmentos de rocha que dir-se-ia terem sido passados numa trituradora. O coberto arbóreo, que se diria impossível em tal substrato e em tais condições de secura, é composto exclusivamente por pinheiros-das-Canárias (Pinus canariensis). Ao Cheilanthes pulchella juntam-se alguns raros arbustos e outros dois fetos xerófilos, Notholaena marantaea subsp. subcordata e Cosentinia vellea, na tarefa ingrata de pincelar de verde esta paisagem em tons de castanho e cinzento.

01/03/2014

Mini fusca


Ophrys pintoi M. R. Lowe & D. Tyteca
As flores das orquídeas do género Ophrys, sem néctar ou outra recompensa para os polinizadores, apostaram em certo momento da sua evolução na mimetização de insectos, aproveitando-se do pequeno lapso de tempo entre o fim da hibernação dos insectos-macho e o das fêmeas para atraírem os primeiros e, através de falsas cópulas, lhes entregarem pólen ou receberem o que eles trazem de outras flores. Para além da aparência enganosa, com zonas no labelo que, quando brilham ao sol, parecem asas, as flores produzem feromonas quimicamente muito semelhantes às exaladas pelos insectos-fêmea, e distribuem de modo adequado o veludo e a penugem no labelo para que a semelhança táctil seja perfeita. Algumas orquídeas dependem inteiramente do sucesso deste mecanismo para produzirem sementes, e por isso o ardil tem de ser exímio: há que garantir que a planta se destaca na profusão de sinais químicos e visuais da natureza, como um canto de soprano rompendo a massa instrumental de uma orquestra. O resultado é uma especialização tão hábil das flores que raramente este emparelhamento entre a morfologia da flor e um insecto envolve espécies distintas. Mas acontece. O mesmo insecto pode visitar flores de diferentes espécies, e da troca de pólen nascerem híbridos. Isso não é de todo mau se as mudanças na morfologia continuam a ser apreciadas pelo polinizador, e até pode constituir uma vantagem: se o insecto burlado jura a patas juntas que não volta àquela flor, no ano seguinte visita ingenuamente o híbrido, e assim se perpetua o logro; ou então surge outro insecto que se adapta melhor à nova morfologia da flor e que, substituindo o polinizador original, aumenta as oportunidades de disseminação da planta.

Quando isto sucede, é natural que as alterações genéticas se tornem estáveis e se formem orquídeas que se distinguem claramente dos progenitores. É então legítimo propor que, na taxonomia, elas se tornem espécies independentes. Foi o que fizeram os autores deste artigo (Michael R. Lowe & Daniel Tyteca, Two new Ophrys species from Portugal, J. Eur. Orch.44 (1): 207 – 229. 2012) relativamente a duas formas de Ophrys do centro do país que à primeira vista pareceriam ser de incluir em Ophrys fusca (espécie altamente polimorfa) mas que exibiam características muito distintas. Uma delas, a que aparece nas fotos, assemelha-se a uma versão anã da O. fusca; a outra é alta, mais profusa na floração, e prevê-se que tenha um polinizador distinto. Para a primeira, Lowe e Tyteca propuseram a designação Ophrys pintoi, homenageando o botânico português António Rodrigo Pinto da Silva (1912-1992); à segunda chamaram Ophrys lenae, aludindo o epíteto específico ao rio Lena, da serra dos Candeeiros, onde foi colhido o holótipo da nova espécie.


Pinheiros-mansos (Pinus pinea L.) no Horst de Cantanhede
Vimos muitos exemplares de O. pintoi no Horst de Cantanhede, durante uma saída de campo organizada pela AOSP (Associação de Orquídeas Silvestres — Portugal). Ali o solo é branco de tanto calcário, margoso e escorregadio, a entremear rochas com belos fósseis do Jurássico. O horst é um pedaço longo de terra, do Zambujal até Lemede, que se ergueu quando apertada por duas placas da crosta da Terra que chocaram, provocando um desfasamento do chão. A fauna e a flora deste raro ecossistema, e a sua importância geológica e paleontológica, justificam e exigem dos responsáveis um programa de conservação exemplar.

25/03/2011

Manso planalto

Pinheiros-mansos (Pinus pinea) em Oliveira do Conde (Carregal do Sal)
9 de Dezembro de 1950 — Nem sei caçar aqui. As lebres correm para o infinito, as perdizes voam para o azimute, e cada passo que dou não acrescenta nem adianta. É tal a minha sensação de impotência diante desta imensidade, que chego a ter a impressão de que cada chaparro foi um homem que desesperou de atingir qualquer fim, e parou.

Miguel Torga, Diário (D. Quixote, 2010)

25/02/2011

Navegar é preciso

Punta Carreirón, Ilha de Arousa (Pontevedra, Galiza)
Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos marinha.

A Pedro Nunes está em tal estado que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever. O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes – mas não pode pedir troco. O Mindelo tem um jeito: é andar de lado; e uma teima – deitar-se. No alto mar, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar. Os oficiais da marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais. O Mindelo é um esquife – a hélice. A Napier saiu um dia para uma possessão: chega, e não pode voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier insensível não se mexeu. (...) Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor pelo respeito da idade. Quem ousa atacar as cãs de um velho?

Tem-se tentado muitas vezes introduzir nas fileiras destes vasos decrépitos alguns navios novos, robustos e sanguíneos. Tentou-se primeiro comprá-los. Sucedeu o caso da corveta Hawks: era esta corveta uma carcassa britânica, que o almirantado mandava vender pela madeira – como se vende um livro pelo peso. Por esse tempo o governo português – morgado de província ingénuo e generoso – travou conhecimento com a Hawks. Inexperiente com corvetas, achou-a nova, virgem, distinta, forte, – comprou-a. E quando mais tarde, para glória da monarquia, quis usar dela, a Hawks com um pudor abjecto – desfez-se-lhe nas mãos. (...)

Tentou-se então construir em Portugal. Sabia-se que o arsenal é uma instituição verdadeiramente informe: nem oficinas, nem direcção, nem instrumentos, nem engenheiros, nem trabalho, nem organização. Tentou-se, todavia – e fez-se nos estaleiros a Duque da Terceira. Gastaram com ela 156 contos. Foi a Inglaterra meter máquina, mas quando chegou – oh maravilha das dissoluções orgânicas! – a jovem Duque da Terceira, da idade de meses, tinha o fundo podre! Nova tentativa. (...) Fundo podre! O arsenal perdia a cabeça! Aquela podridão começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente anti-patriótica! Os engenheiros em Inglaterra já não se aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés... e com lenço no nariz. (...)

O arsenal, humilhado no género navio, começou a tentar a especialidade lancha. Fez uma a vapor. Lança-se ao Tejo, alegria nacional, foguetes, bandeirolas, e a lancha não anda! Dá-se-lhe toda a força, geme a máquina, range o costado, e a lancha imóvel! Mas de repente move-se: alegria inesperada e desilusão imediata! A lancha recuava: tinha-se erguido uma brisa que a repelia. Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava para trás. Para diante não ia. Pegava-se. O arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar... puxada a bois. O país riu durante um mês.

O arsenal roeu a humilhação, e encetou a espécie caique. Ainda o havemos de ver, no género construção em madeira, cultivar... o palito!

Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, As Farpas (edição Principia, 2004)

03/12/2010

O jardim não mudou, o silêncio está intacto

Miradouro da Siradella
(O Grove, Pontevedra, Galiza)
...No fundo, este verso afirma que tudo continua na mesma, o que, diga-se, não é propriamente uma novidade. (...)
...Mas olhemos com mais pormenor para os pormenores.
...Em primeiro lugar há a constatação de um facto: o jardim não mudou.
...O importante — no entanto — é, de imediato, perguntar: em que pode mudar um jardim?
...Há dois tipos de resposta: ou um jardim muda tanto que deixa de ser um jardim e passa, por exemplo, a ser o edifício de um Banco que se construiu em cima; ou um jardim muda pouco e, em vez de ter vinte e três flores, passa a ter vinte e duas porque uma foi arrancada por três crianças sem consciência botânica. Entre uma mudança brusca (um jardim inteiro desaparecer) e uma mudança suave (uma flor do jardim desaparecer) há uma significativa distância. Esclarecer como é que o jardim não mudou parece-nos, pois, indispensável. O jardim de que fala o narrador do verso de Auden não mudou porque não desapareceu? Ou não mudou porque manteve as suas vinte e três flores?
(...)
...O homem prático pede que o avisem quando alguma coisa muda. Um poeta como Auden, ao contrário, insiste em avisar o mundo de que algumas coisas não mudam e que esse é, afinal, o seu fascínio.

...
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Eliot e as conferências (Editorial Caminho, 2010)

29/11/2010

Senhor das suas folhas

Halimium halimifolium (L.) Willk. — Mata Nacional das Dunas de Quiaios


A foto de uma flor não é uma flor; e, para os saudosistas do papel, aquilo que se vê no écran, e que se pode apagar carregando numa tecla, talvez não seja bem uma foto, mas uma ilusão. Dupla ilusão, portanto: a ilusão de uma foto onde está representada a ilusão de uma flor. Mas que fazer quando a realidade da flor já não está ao nosso alcance? Quando no pinhal onde floriu esta sargaça, e que não nos fica assim tão perto de casa, a vida está suspensa até à próxima temporada? Mostrar a flor, ou a ilusão da ilusão da flor, é marcar no calendário de 2011 um lembrete para o regresso.

O Halimium halimifolium, que no nosso país vive nos pinhais costeiros do centro e do sul, e de um modo geral se distribui pela metade oeste da bacia mediterrânica, é certamente o arbusto mais atraente de um género a que temos prestado atenção assídua (confira aqui, aqui e aqui). Com o seu porte empertigado (pode ultrapassar o metro e meio de altura) e a sua folhagem de um verde prateado, destaca-se pelas grandes flores amarelas, com ou sem pintas, que brotam profusamente entre Junho e Agosto. É nessa altura que os pinhais onde vive se transfiguram em jardins requintados, atravessados por uma mescla de perfumes onde sobressaem a caruma e a maresia.

A variabilidade das flores merece uma nota: o tamanho da mancha castanha na base das pétalas pode variar, mas é uniforme em cada arbusto. A mesma planta ou dá só flores sem pinta, ou as dá só com pinta, e sempre com a pinta do mesmo tamanho. Contudo, essas oscilações cromáticas não parecem ter qualquer significado taxonómico.

O nome Halimium halimifolium, que traduzido à letra dá um lapalissiano halímio com folhas de halímio, pode suscitar alguma estranheza. A aparente idiotice deve-se a Lineu, por em 1751, no seu Species Plantarum, ter chamado à planta Cistus halimifolius; o alemão Wilkomm, quando em 1878 a transferiu para o género Halimium, foi obrigado a manter o epíteto específico. E, de facto, o halimifolium (ou halimifolius) não foi motivado pela semelhança do arbusto consigo mesmo, mas sim com a salgadeira (Atriplex halimus). Essa outra planta, a que os gregos chamavam hálimos, tem folhagem igualmente acinzentada e é característica dos sapais mediterrânicos, surgindo em Portugal da ria de Aveiro para sul.

19/03/2010

O pinhal antes do rei

Pinus pinea L.
O verdadeiro Pinhal de Leiria, ou Pinhal do Rei, fica, não em Leiria, mas no concelho da Marinha Grande. São uns 110 km^2 (ou 11000 hectares) de uma vegetação que só na aparência é monótona. Entre a estrada atlântica e o mar predominam os arbustos rasteiros: tojo, camarinhas, sabinas e sargaços fazem companhia às perigosas acácias (A. longifolia) e aos famosos pinheiros serpentes. À medida que caminhamos para a costa, vai surgindo a típica vegetação dunar, dela se destacando as armérias (Armeria welwitschii) pela beleza e os chorões (Carpobrotus edulis) pela nocividade. Para o interior, a leste da estrada atlântica, desenvolve-se o pinhal propriamente dito, em que um rico sub-bosque de adernos (Phillyrea angustifolia), urzes e samoucos (Myrica faya) se deixa engalanar por trepadeiras como a Rubia peregrina e a salsaparrilha (Smilax aspera). E há ainda os musgos, os líquenes e toda a vegetação herbácea.

Isto, porém, é só uma ténue amostra dos tesouros que se encontram naquela ínfima parcela das matas nacionais que é ocupada pelo pinhal manso. O Pinhal do Rei encontra-se dividido por aceiros e arrifes numa malha de rectângulos paralelos à linha costeira, cada um deles com cerca de 400 metros de largura por 880 metros de comprimento. Haverá uns 310 destes rectângulos. O pinhal manso, que fica situado uns 5 km a nordeste de São Pedro de Moel, estende-se por dois ou três rectângulos contíguos, mas a sua área não deverá exceder a de um único rectângulo. Dito de outro modo, o pinhal manso perfaz 0,32% do Pinhal do Rei: 35,2 hectares de um total de 11000.

O que este pinhal manso tem de especial é ser anterior à grande plantação de pinheiros-bravos que terá começado no tempo de D. Dinis. Por nos dar uma amostra de como era, em tempos imemoriais, a paisagem destes lugares, o pinhal manso é uma relíquia única; e, sendo embora pequeno, está tão pouco adulterado que talvez não haja, em Portugal, qualquer outro bosque natural de pinheiros-mansos que se lhe possa comparar.

A beleza deste conjunto de árvores forma um quadro digno de se ver, e o bosque seria uma preciosidade mesmo que só tivesse pinheiros-mansos. Mas a eles vieram juntar-se muitos arbustos: os mesmo que acima listámos e ainda carrascos (Quercus coccifera), folhados (Viburnum tinus) e medronheiros (Arbutus unedo). E este ecossistema riquíssimo, em plena maturidade, é também abrigo para numerosas aves de rapina.

Ainda decorrerá a eleição das sete maravilhas naturais de Portugal? E serão mesmo sete? Seja lá como for, deixamos aqui registado que este pinhal manso é o nosso candidato e que é dele o nosso voto.

15/03/2010

Branco da China

Pinus armandii Franch.
Enquanto as outras árvores não acordam, é altura de olharmos para os pinheiros. Imunes à sucessão das estações, não é deles que devemos esperar a surpresa de uma vestimenta nova. Apetece-nos culpá-los pela monotonia da paisagem, mas isso é esquecer os eucaliptos. Se os eucaliptais, em Portugal, são desertos verdes, os pinhais, pelo contrário, abrigam por vezes uma biodiversidade surpreendente. Afinal, os pinheiros, ainda que disseminados por acção humana muito para além da sua área de distribuição natural, não são estranhos à nossa flora. Os eucaliptos é que são os verdadeiros alienígenas.

Espontâneas em Portugal só há três espécies de Pinus: o pinheiro-manso, o pinheiro-bravo e — restrito a uns poucos locais no extremo norte do país — o pinheiro-silvestre. Algumas outras espécies encontram-se, sempre em escasso número, representadas num ou noutro jardim público. O Jardim Botânico do Porto, em particular, alberga uns quantos pinheiros exóticos que parecem ser raridades no nosso país. Um deles, que mostrámos em fascículo anterior, é o Pinus bungeana, tão oriental como o Pinus armandii que hoje aqui trazemos.

Um nome possível para o Pinus armandii, traduzido da designação inglesa, é pinheiro-branco-da-China, mas a origem geográfica da árvore também autorizaria os nomes pinheiro-branco-do-Tibete e pinheiro-branco-de-Burma. Já o adjectivo branco tem uma justificação menos imediata. O que acontece é que o género Pinus é geralmente dividido em três subgéneros; e os pinheiros do subgénero Strobus, no qual se incluem o P. armandii e o P. wallichiana, são conhecidos como pinheiros-brancos, designação talvez motivada pela cor ou textura das suas madeiras.

O Pinus armandii é uma árvore de pequeno ou médio porte que não excede os 20 metros de altura. Exibe um tronco liso que tende a ganhar fissuras com a idade. As agulhas, em molhos de cinco, são pendentes e brilhantes, de um verde intenso, e têm de 10 a 20 cm de comprimento. Comprimento semelhante têm as pinhas de formato cónico, como a que vemos aí em cima, já madura, aninhada entre as folhas secas tombadas da mesma árvore.