12.11.09

Peregrinação ao arco-íris


Rubia peregrina L.

Ofereceram-nos há dias um tapete persa. Tem um friso geométrico largo na moldura, traços escadeados nos cantos a acentuar a simetria do rectângulo, no centro um bordado arrebicado onde um olhar leigo julga distinguir flores, e a típica franjinha longa a rematar só um dos lados. É um desenho a três cores onde dominam o preto e o famoso vermelho-da-Turquia, obtido a partir de um corante extraído das raízes da Rubia tinctorum L, herbácea da região mediterrânica naturalizada por cultivo no centro e oeste da Europa.

A paleta de vermelhos disponível desde a Antiguidade é muito variada, mas nem todas as substâncias corantes, de origem vegetal ou animal, são igualmente resistentes à lavagem ou estáveis sob efeito da luz. Lembremos, por exemplo, o quadro de J.M.W. Turner, The Fighting Téméraire (National Gallery de Londres), em que uma fragata de guerra envelhece pacificamente sob um sol igualmente moribundo, pintado com iodeto de mercúrio cujo brilho e impressão melancólica hoje só podemos imaginar. O pigmento da ruiva-dos-tintureiros (madder em inglês) é duradouro, embora uma excessiva exposição à luz o converta em castanho. Mas tem a vantagem de apresentar variantes de tonalidade do vermelho e de, quando adicionado a mordentes, criar outras cores e matizes (azuis, violeta, púrpura ou o laranja-abóbora). Contudo, os processos de fabrico desta cor e de tingimento são ainda hoje morosos, o que agrava significativamente o preço dos tapetes.

Da família Rubiaceae, com mais de dez mil espécies tropicais, há uma Rubia espontânea em Portugal, a peregrina (wild madder), menos célebre do que a R. tinctorum L. mas mais fácil de encontrar a esgueirar-se entre os nossos rochedos. É uma planta ramosa, prostrada ou escandente, lenhosa na base, com talos de secção quadrada e folhas perenes de margens espinhosas agrupadas em volutas de 4 a 6 elementos. No Verão, produz flores bege com uns 5 mm de diâmetro (as da R. tinctorum são amarelas) e pétalas pontiagudas; no Outono só há as bagas, que ficam pretas quando maduras (castanhas as da R. tinctorum).

(O nosso tapete persa é pequenino, é para o rato do computador.)

5 comentários :

Gi disse...

Maria, estive quase a trazer um tapete desses de Londres para a minha mãe.

Maria Carvalho disse...

O nosso veio do Irão...

Maria da Luz Borges disse...

Pois nós, no JI de Valejas gostaríamos muito de ir nessa peregrinação. Uma das coisas que mais gostamos é do arco-íris... E também gostamos de duendes e parece que no fim do arco-íris, há um pote de ouro mágico escondido. Por isso se lá chegarem antes de nós por favor digam ao duende para nos guardar um bocadinho de magia.
Luz e meninos do JI Valejas

bettips disse...

Dum rato de tapete, ou melhor, dum pequenino tapete under mouse, a ciência que se destila e aprende, sobre a origem dessas cores transformantes, diria mesmo desviantes ...tão lindo!

Maria Carvalho disse...

Meninos de Valejas: E até pode ser que consigamos esvaziar o pote de ouro e trazer nele o arco-íris para casa.

bettips: Gostaria que o tapete fosse voador. Seria engraçado ver o ratinho do computador a levantar voo de repente, com a luzinha na barriga a imitar um pirilampo, e eu a puxá-lo como a um cachorrinho pela trela.