27.3.18

Super-chícharo das altas montanhas



Lathyrus laevigatus subsp. occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Breistr.
[sinónimo: Lathyrus occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Fritsch nom. illeg.]


As altas montanhas onde vive o super-chícharo são os Alpes, os Pirenéus e a cordilheira cantábrica. Não é nos cumes gelados que ele encontra o seu lugar, mas no aconchego reconfortante dos bosques das encostas e do sopé dos montes: segundo a Flora Iberica, a sua zona de conforto altitudinal situa-se entre os 400 e os 2100 metros. E foi a uns 1000 metros de altitude, numa estrada sinuosa ensombrada por faias (Fagus sylvatica), que o aviso laranja dos seus cachos de flores nos obrigou a uma paragem de emergência.

O nome super-chícharo que atribuímos a este Lathyrus justifica-se pelo espanto de boca aberta que ele nos provocou. Só uma demorada consulta dos manuais nos permitiu enquadrá-lo num género ao qual nunca suporíamos que pertencesse. As espécies de Lathyrus em Portugal (confira aqui), ainda que muito variadas, não têm flores desta cor, nem dispostas em espigas como velas acesas. As folhas compostas pinadas, desprovidas de gavinhas, são tão grandes que fazem lembrar as das glicínias (Wisteria sinensis). E os caules erectos e robustos não são guarnecidos pelas membranas laterais que caracterizam muitos dos nossos chícharos (exemplos: 1, 2).

Tratando-se de planta tão vistosa, quem viva em climas temperados mas frescos pode até encomendar sementes para com ela ajardinar o bosque nas traseiras de casa. A fama e do proveito não a livram contudo da controvérsia taxonómica, havendo quem a subordine, como subespécie, a Lathyrus laevigatus, e outros que a promovem a espécie autónoma, sob o nome de Lathyrus occidentalis. A primeira opção parece mais razoável, porque as diferenças entre a subsp. occidentalis (de que aqui tratamos) e a subsp. laevigatus (que ocorre na Europa do Leste e na Rússia ocidental) são de pouca monta, resumindo-se à indumentação (a primeira é algo pubescente, a segunda quase glabra), à largura dos folíolos (os da segunda são um pouco mais largos) e ao comprimento dos dentes do cálice. A Flora Iberica alinhou pelos autonomistas, mas o nome que escolheu padece de ilegalidade: Karl Fritsch, ao chamar em 1895 Lathyrus occidentalis a esta planta, repetiu um nome que tinha sido usado em 1838 por Thomas Nuttall para designar uma espécie completamente diferente (tida hoje como sinónimo de Lathyrus palustris L.). Quando um mesmo nome é usado para coisas diferentes, o Código Internacional de Nomenclatura Botânica (ICBN) impõe que só é aceite o uso validado pela publicação mais antiga. Resumindo: para poder apresentar-se como espécie independente, falta a este super-chícharo um nome válido à luz do ICBN.

21.3.18

O capuchinho púrpura


Orchis purpurea Huds.


Lady orchid é a designação inglesa para a orquídea acima ilustrada. O nome alude ao formato de cada flor, a lembrar uma figura humana em miniatura, com um capuz de cor púrpura que contrasta com o tom esbranquiçado pintalgado de rosa do labelo; este divide-se em vários lóbulos para formar os braços e a saia da lady, com um subtil rebordo violeta. Desta espécie não há registo em Portugal, mas estes detalhes morfológicos são comuns a outras espécies que por cá existem, com destaque para a Man orchid (Aceras anthropophorum; em português chamamos-lhe rapazinhos), a Naked man orchid (a flor-dos-macaquinhos, de nome científico Orchis italica) e a Burnt orchid (Orchis ustulata), as duas primeiras frequentes no nosso país e a terceira (fotos em baixo) muito rara.


Orchis ustulata L. [sinónimo: Neotinea ustulata R. M. Bateman, Pridgeon & M. W. Chase]
A Lady é escultural e alta (pode atingir 1 metro de altura), com uma inflorescência fácil de detectar por causa do tom vermelho-arroxeado dos botões por abrir no topo, das dezenas de flores na haste e do aroma a baunilha ou amêndoa. Trata-se de uma planta de bosque que pede solo calcário bem drenado. É usual encontrá-la refastelada nos tapetes de folhas de árvores caducas, até empoleirada em raízes mais grossas destas árvores. Não recusa margens soalheiras de floresta se protegidas do vento, mas, não surpreendentemente, as flores de plantas em zonas mais sujeitas a sol intenso ou a intempéries tendem a ser mais pequenas, mais escuras e com os labelos pintalgados de castanho.

A distribuição da O. purpurea causa-nos alguma inveja. Ocorre em boa parte da Europa, com algumas populações no norte de África e Ásia, e em Espanha é comum no nordeste, sendo rara no centro e sul. Entre a germinação e a primeira floração de cada uma destas plantas podem passar  8 a 10 anos, vivendo ela depois mais uns 10, tendo florido apenas uma meia dúzia de vezes neste período. O declínio desta espécie em alguns habitats é preocupante, seja pela destruição dos bosques, pela má gestão da floresta, ou pelo repasto de coelhos, cervos e javalis que, entre Janeiro e Fevereiro não resistem às folhas muito verdes e longas desta orquídea, entre Abril e Junho se banqueteiam com as flores e, porque o Inverno está a chegar, ainda reservam barriga para os suculentos tubérculos.

13.3.18

Goivo cantábrico


Matthiola perennis Conti


As línguas vernáculas, por serem incapazes de abarcar a riqueza do mundo natural, chamam pelo mesmo nome coisas que são marcadamente diferentes. Essa simplificação é também um empobrecimento: sob a imprecisa designação de "mosca" ou "malmequer" escondem-se diversíssimos insectos e flores que se calhar mereciam o benefício da nossa curiosidade. Em menor escala, passa-se o mesmo com "goivo", nome que pode ser dado a umas tantas crucíferas de flores vistosas dos géneros Erysimum, Matthiola ou Malcolmia. O goivo mais famoso, Erysimum cheiri, é de origem hortícola e teve grande voga (mesmo em Portugal) no tempo em que havia flores nos jardins. Em quase todo o nosso litoral aparece o goivo-das-areias ou goiveiro-da-praia (Malcolmia littorea), que floresce alegremente de Janeiro a Dezembro. Os goivos mais felpudos, como aquele que está hoje no escaparate, pertencem ao género Matthiola, que inclui plantas bem nossas conhecidas: a Matthiola sinuata, a que com justiça chamaríamos também goivo-da-praia; a Matthiola maderensis ou goivo-da-rocha, vistoso endemismo do arquipélago da Madeira; e a Matthiola incana, um goivo de jardim com cultivares de muitas cores que está naturalizado em várias ilhas açorianas.

A Matthiola perennis, planta cespitosa com hastes até 30 cm de altura, é um endemismo da cordilheira cantábrica que vive em rochas calcárias e floresce entre Maio e Agosto. As pétalas cor-de-rosa, compridas e retorcidas fazem lembrar as da Matthiola fruticulosa que conhecemos do Douro internacional e de outros raros lugares em Trás-os-Montes. Mas há diferenças entre as duas que se detectam a olho nu: a Matthiola perennis tem hastes simples e desprovidas de folhas; a Matthiola fruticulosa tem-nas ramificadas e com folhas, dando à planta o aspecto de um mini-arbusto (é esse o significado do epíteto fruticulosa). Há ainda diferenças menos óbvias nas folhas, nos frutos e até no tamanho das sementes, com as da Matthiola perennis a terem o dobro do comprimento e da largura.

7.3.18

Menina para sempre


Erinus alpinus L.


Siempreniña é o nome comum por que é conhecida em espanhol esta planta, cuja floração enfeita em Maio rochedos calcários por toda a Cantábria. Hesitámos na tradução. Talvez a designação vernácula pretenda aludir ao porte diminuto da planta (como referência, anote que os cálices destas flores têm 3 a 7 mm de altura e as corolas 6 a 12 mm de diâmetro), como se ela vivesse eternamente na infância. Mas ficámos a saber pela Flora Iberica que a planta parece aumentar de volume no período de frutificação, como se de uma gravidez se tratasse: a inflorescência, que é densa enquanto as flores estão aptas para a polinização, fica mais larga e lassa quando as flores amadurecem, talvez para acomodar melhor os frutos que aí vêm.

O género Erinus tem uma distribuição vasta pelas montanhas do sul da Europa e do norte de África, abrigando umas trinta espécies. Não há registo em Portugal da única espécie que ocorre na Península Ibérica, apesar dos inúmeros afloramentos calcários do país à disposição para ela colonizar. A falta de frio intenso nas nossas montanhas pode ser o entrave mais relevante à sua vinda para cá; na serra da Estrela ainda neva, mas não há lá o substrato básico que esta espécie prefere.

Guardemos destas fotos, ou destas outras um pormenor que ajuda a identificar este género: as corolas tubulares terminam em geral em cinco lóbulos, dois deles mais estreitos, juntos e erectos como duas orelhas de coelho. Dirá de imediato o leitor que, por exemplo, as flores das lobélias também têm estas características. Pois sim, mas as correspondentes «orelhas» são de esquilo, não acha?