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19/07/2020

Bandeiras brancas


Thalictrum tuberosum L.


No final de Maio, as bermas de estradas na Cantábria enchem-se de flores brancas em hastes longilíneas que se agitam ao menor sopro de vento. São bandeiras que nos intimam a parar e às quais obedecemos de bom grado. A morfologia das flores, lembrando a das anémonas e das clematites, situa claramente a planta na família Ranunculaceae, mas é com alguma surpresa que, inspeccionando-lhe as folhas tripinadas, concluímos que ela pertence ao género Thalictrum. Uma consulta rápida aos manuais desvenda-lhe a identidade: Thalictrum tuberosum.

Em Portugal estão assinaladas como espontâneas duas espécies de Thalictrum, mas só uma delas, T. speciosissimum, é vista com regularidade. A semelhança das suas folhas com as do T. tuberosum é flagrante, mas as flores parecem ser de outro planeta. À primeira vista, dir-se-ia que as flores do T. tuberosum têm todas as componentes tradicionais (pétalas, estames, carpelos...), enquanto que as inflorescências do T. speciosissimum são nuvens de algodão-doce que, vistas mais de perto, parecem ser compostas apenas por uma confusão de estames.

Nenhuma destas impressões está correcta. As flores brancas que vicejam aí em cima não têm pétalas, mas sim sépalas, que em flores mais convencionais costumam ser verdes e constituir o cálice. E as mesmas peças que formam estas flores reaparecem no T. speciosissimum, que contudo tem sépalas e carpelos de muito menor tamanho, ocultos pela exuberância dos estames.

Embora partindo das mesmas componentes básicas, arquitecturas florais tão distintas sugerem que a polinização não se processa do mesmo modo nas duas espécies. As sépalas petalóides do T. tuberosum cumprem a óbvia função de atrair polinizadores, mas o T. speciosissimum, que quase reduziu as sépalas à invisiblidade, não parece interessado em jogos de sedução. Será que o segundo dispensa os serviços dos insectos e confia a polinização ao vento?

A grande variabilidade das flores dentro do género Thalictrum torna esse género ideal para estudar as adaptações às diferentes formas de polinização. Um estudo comparativo, publicado em 2018, de 81 espécies americanas, europeias e asiáticas concluiu que 36 delas são predominantemente anemófilas (polinizadas pelo vento) e as restantes entomófilas (polinizadas por insectos), havendo algumas (poucas) espécies que recorrem a ambos os tipos de polinização. Sem grande surpresa, as do segundo grupo têm floração bastante mais vistosa que as do primeiro. Além do mais, as espécies anemófilas são amiúde dióicas (com flores masculinas e femininas em indivíduos separados), fenómeno esse não reportado em espécies entomófilas.

O T. speciosissimum, exclusivo da Península Ibérica, não foi incluído no estudo, mas presume-se que tenha comportamento igual ao do T. flavum, que é a sua versão no resto da Europa. Ao contrário do que fomos levados a supor, essas espécies parecem ser sobretudo polinizadas por insectos. Contudo, os autores do artigo colocam o T. flavum numa clade evolutiva onde a maioria das espécies (sete em dez) são polinizadas pelo vento, e em que o antepassado comum mais próximo terá tido essa mesma característica. Ou seja, o T. flavum recuperou a faculdade de ser polinizado por insectos que tinha sido perdida por um seu antepassado. Acreditando que a anemofilia é mais "avançada" do que a entomofilia, não é descabido falar de uma regressão evolutiva. (Quando uma característica ancestral perdida é recuperada, a expressão usada é reversão evolutiva, que em si mesma não contém qualquer juízo de valor sobre a maior ou menor "modernidade" dessa característica.)

De um modo geral, as espécies do género Thalictrum nada têm para oferecer aos insectos. Algumas espécies usam o perfume ou as sépalas vistosas para atrair esses obreiros voadores, mas as flores não produzem néctar e não há recompensa pelo trabalho feito. Se os insectos desaparecerem ou ficarem mais espertos, é ao vento que o futuro pertence.

05/07/2020

Correjola imperial

Reconhecer um objecto, ou uma imagem dele, é uma virtude que aprendemos cedo a dominar. Em criança, não hesitamos entre um gato ou um cão, ainda que ambos se possam inicialmente confundir na mente infantil com um triciclo. À medida que o mundo se agiganta e o cérebro de aprimora, a lista de objectos desconhecidos vai-se reduzindo. Conseguimos identificar a maioria instantaneamente, e até os substituimos por entradas num catálogo abstracto, um vocabulário, o que facilita o armazenamento na memória de toda essa informação. Descrito assim, parece fácil criar um algoritmo computacional que permita a uma máquina bem informada repetir este procedimento, segmentando a imagem para destacar elementos do fundo e reconhecer automaticamente o que nela é essencial. Mas não. Na busca de imagens nos motores de pesquisa da internet, o que em regra se procura é uma palavra, ou várias, no texto de apoio às imagens. O que parece batota. Ainda que alguns destes mecanismos consigam seleccionar imagens parecidas com outras, comparando por exemplo a gama de cores que exibem, decerto tais tentativas podem ingenuamente reunir aviões e pássaros numa mesma classe.



Este arrazoado vem a propósito do trabalho de investigação muito interessante que se tem vindo a desenvolver em matemática sobre reconhecimento de imagens, seja para conseguir ler pautas de música antigas e quase ilegíveis, seja para aperfeiçoar a focagem automática nas máquinas fotográficas, ou ainda para se identificarem plantas numa saída de campo. Não temos notícia de que um algoritmo de reconhecimento de plantas por imagens digitais esteja já em uso, mas seria realmente muito conveniente poder fotografar num prado uma planta em flor, e surgir de imediato no écran o nome científico dela. Na falta dessa ajuda, o que fazer? Vejamos um exemplo.



Telephium imperati L.


Nestas fotos estão imagens de uma planta que vimos em rochas calcárias na Cantábria. As flores redondas em cimeiras densas e a folhagem glauca e glabra, com talos de couve e hábito rastejante, lembram, em tamanho grande, as das espécies do género Corrigiola, não? Com este palpite, vamos a alguma Flora consultar a família deste género, que é a Caryophyllaceae, verificar se há alguma espécie parecida. Esta é uma tarefa de comparação que o cérebro humano faz em geral perfeitamente, e que em poucos minutos nos fornece o bilhete de identidade da planta fotografada:

Família: Caryophyllaceae
Subfamília: Paronychioideae
Tribo: Corrigioleae
Género: Telephium L.
Espécie: T. imperati L.

E ficamos a saber, através de um motor de pesquisa da internet buscando pela palavra Telephium, que é um género monoespecífico, e que a sua única espécie ocorre na região mediterrânica, na metade este da Península Ibérica e um pouco mais a leste. Uma nota adicional dá conta de que o nome actualmente aceite, proposto por Lineu em 1753, alude ao deus Telephus da mitologia grega, de quem se diz ter sido ferido por Aquiles na trágica história de Helena de Tróia, e depois curado por uma destas plantas.

27/06/2020

Muros de Villaescusa



Villaescusa de las Torres é uma aldeia de 22 habitantes, uma igreja e uma trintena de casas, situada na província de Palência, em Espanha, a três quilómetros da vila de Aguilar de Campoo. O rio Pisuerga, apesar do compasso de espera a que o obriga a albufeira de Aguilar, tem um caudal generoso à passagem pela vila e pela aldeia, criando uma serpenteante fita azul e verde que une a paisagem edificada às amplas extensões de campos cultivados. A uma altitude rondando os 900 metros, onde a neve cai quase todos os anos, não é lugar para refúgio do hipotético crocodilo que terá sido avistado, no início de Junho, uns 150 km a sul, na foz do Pisuerga em Valladolid. Por altura da nossa visita, há dois anos, ninguém suporia que este rio de margens tranquilas pudesse abrigar tão agressiva fauna exótica.

O planalto palentino, que faz a transição entre a monótona planura de Castela e a acidentada cordilheira cantábrica, é rasgado aqui e ali por afloramentos calcários de grandes dimensões. O próprio Pisuerga corre, em certos troços, apertado entre escarpadas paredes de rocha branca. Muros e casas de Villaescusa são feitos da mesma pedra, deixada ao natural ou caiada de branco ou bege. O calcário é a escolha de eleição para muitas plantas, garantindo uma diversidade florística muito superior à que é de regra noutros substratos. E, apesar de não faltarem em redor da aldeia habitats naturais em quantidade e qualidade, não são poucas as plantas que colonizam muros e telhados. Para aquelas que vivem nas bolsas de solo que se acumulam em fissuras de rochas, os muros tradicionais de pedra solta são até um habitat preferencial, por reproduzirem em versão concentrada as condições do habitat natural.



Saxifraga cuneata Willd.


Mais do que a Arenaria e o Alyssum, que só timidamente se aventuram em muros, é a Saxifraga cuneata que entre Maio e Junho enfeita com empenho as três ou quatro ruas de Villaescusa. Como o nome indica (Saxifraga significa partir pedra), estas plantas, de que há umas sessenta espécies só na Península Ibérica, sentem-se em casa em habitats pedregosos, algumas preferindo o calcário e outras o granito ou o xisto. Esta S. cuneata é irrepreensivelmente decorativa tanto nas folhas como na floração exuberante, mas talvez ao vê-la nos acometa uma impressão de déjà-vu. De facto, ela é quase igual à Saxifraga trifurcata, endémica das montanhas do norte de Espanha e também de peferências calcícolas. Não que seja problemático distingui-las: as folhas são claramente diferentes, mais recortadas as da S. trifurcata, que além do mais, ao contrário da S. cuneata, costuma apresentar hastes avermelhadas. Mas há um ar de família indisfarçável, e as duas saxífragas, juntamente com a S. portosanctana, formam uma tríade muito homogénea.

A Saxifraga cuneata vive na metade norte da Península Ibérica, com uma localização adicional em França perto da fronteira com Espanha. É especialmente frequente em Palência nos afloramentos calcários ao longo do curso superior do rio Pisuerga. Este ano o desconfinamento já vem tarde para quem queira admirar-lhe a floração.

07/06/2020

Abertura de fronteiras

Resguardado pelo confinamento, atento apenas às notícias sobre a evolução da pandemia e porventura zangado com a natureza, o leitor talvez não se tenha apercebido de que, no final de Abril, foi descoberta mais uma espécie para a flora portuguesa. A proeza é de António Flor, vigilante da natureza ao serviço do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que a encontrou durante a prospecção de uma zona menos explorada do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (notícia aqui).



Arenaria grandiflora L.


A novidade é do género Arenaria, e esta nova espécie portuguesa é fácil de avistar em fendas de rochas calcárias no norte de Espanha, mas talvez o nosso clima mais cálido não lhe agrade tanto. Estando o país em estado de emergência durante o mês de Abril, obrigado ao teletrabalho e a restrições de circulação de vária ordem, saúda-se que os membros do ICNF não tenham adiado esta iniciativa, decerto sorrindo dos alertas pela presença da notável colónia de morcegos que mora no PNSAC. É que, se essa saída de campo tivesse sido feita apenas agora, com a Primavera a terminar, talvez já não houvesse flores nas plantas avistadas e seria mais problemático identificá-las.

As flores desta espécie, com sépalas glandulosas e pétalas recurvadas, são, como o epíteto indica, especialmente grandes para o género, e as cimeiras de flores podem chegar aos 20 cm de altura. A planta é perene, cespitosa e ocorre nas montanhas do norte de África e do Centro e Sul da Europa. As fotos são da Cantábria e dos muros de Vilaescusa de las Torres, já em Palência; as flores amarelas que surgem de permeio são do Alyssum montanum, outra espécie com preferências calcárias, de que (ainda) não há registo no maciço calcário estremenho. Aqui vai um retrato mais de perto para o caso de alguma vez ser vista deste lado da fronteira.


Alyssum montanum L.

26/05/2020

Sinos da neve

Numa visita à estância de esqui de Lunada, na Cantábria, no fim de Maio de 2018, tivemos oportunidade de ver plantas que se apressam a florir logo que a neve começa a derreter. São, em geral, herbáceas perenes, de pequeno porte, com folhas espessas de formato arredondado para captarem toda a luz disponível, e com pé longo para não ficarem rentes ao solo onde correriam o risco de se estragarem com o excesso de humidade. Esperam ter as flores fáceis de localizar, no que ajuda ter uma haste floral erecta e alta, e estar prontas para atrair a também recém-nascida, e decerto esfomeada, geração de polinizadores que ainda aprende a interpretar o mundo. Apesar de os dias já serem um pouco mais quentes no fim da Primavera, nesse ano havia ainda muita neve a uns 1350 m de altitude, e eram poucas as horas do dia sem nuvens a ensombrá-las. É talvez difícil detectar flores nestas condições, sobretudo se elas forem minúsculas e pouco coloridas. Mas as da Soldanella (cujas hastes não excedem os 12 cm de altura) jogam pelo seguro: são vistosas pela cor e pelo formato das pétalas.


Soldanella alpina L.
Todos nós conhecemos outras espécies com pétalas fimbriadas, ou corolas com franja,  embora só recentemente nos tenhamos questionado sobre o eventual benefício de florir com tais enfeites. Não demorámos, porém, a descobrir que já houve botânicos a investigarem esta questão. Num estudo a propósito das flores do género Trichosanthes (da mesma família que produz as abóboras, as melancias, os melões ou os pepinos), os autores propõem algumas respostas. Conjecturaram que este formato das flores estaria relacionado com a acção dos polinizadores, embora a origem e função da subdivisão das pétalas pudesse variar com as espécies. Compararam então espécies do mesmo género, umas com flores fimbriadas e outras não, de várias regiões com habitats distintos, e concluíram que os polinizadores noctívagos são especialmente atraídos para flores com orlas franjadas. O recorte das pétalas decerto aumenta o contraste entre as suas margens e a escuridão envolvente, e a área (ou a impressão dela) exposta ao polinizador. Quando este perfil se combina com uma tonalidade adequada, um aroma sedutor e o ondear das tirinhas ao vento, a visibilidade da flor e o sucesso da polinização estão garantidos. Talvez a confirmar a conjectura, a adaptação a polinizadores diurnos em algumas espécies levou à perda do carácter fimbriado das corolas.

O género Soldanella abriga umas 10 espécies cuja distribuição se restringe às montanhas da Europa. Em todas elas, as flores têm um hábito pendente, mais ainda se chove, protegendo desse modo o interior da flor. Pode ver aqui os frutos da S. alpina, e ainda imagens de mais três espécies.

21/08/2019

Feto dos lapiás


Gymnocarpium robertianum (Hoffm.) Newman


Talvez os lapiás tenham inspirado a criação da calçada à portuguesa, embora o risco de queda por se meter o pé num buraco seja muito maior no segundo tipo de revestimento. É que nas cidades os olhos esvoaçam pelas fachadas ou pelos outros transeuntes enquanto os pés cumprem distraidamente a sua função locomotora; não esperamos que uma cratera se abra para nos engolir, embora não seja preciso tanto para darmos um trambolhão. Num campo de lapiás, por contraste, os buracos na pedra branca são muitos e estão bem à vista: cada passo tem que ser cuidadosamente planeado e os olhos nunca se podem descolar do chão.

Nos maciços calcários do centro-oeste, entre Condeixa e Torres Novas, são muitos e variados os campos de lapiás. Entre a vegetação fissurícola que coloniza esses espaços contam-se vários fetos: o polipódio (Polypodium cambricum) e a douradinha (Ceterach officinarum), que são abundantes; o avencão (Asplenium trichomanes) e a arruda-dos-muros (Asplenium ruta-muraria), que aparecem com regularidade; o Cheilanthes acrosticha, que é raro; e o avencão-peludo (Asplenium petrarchae), que é raríssimo (embora seja frequente nos calcários do Algarve). Não nos podemos queixar de falta de variedade, ainda que certos fetos calcícolas estejam ausentes do nosso país. Afinal, as grandes cadeias montanhosas peninsulares (cordilheira cantábrica, Pirenéus) são predominantemente calcárias, enquanto que as maiores elevações de Portugal continental são xistosas ou graníticas. Não existindo em Portugal montanhas calcárias, são muitas as espécies peninsulares sem habitat propício no nosso país.

Um dos fetos calcícolas que cá não existe é o Gymnocarpium robertianum, que tem decidida preferência por climas frescos e apresenta uma distribuição circum-boreal, estendendo-se por partes da Ásia, Europa e América do Norte. Na Península Ibérica está quase restrito ao extremo norte (cordilheira cantábrica e Pirenéus), ainda que reapareça, muito escassamente, a sul, na serra de Almijara. Trata-se de uma planta de rizoma rastejante, em que as folhas, de formato triangular e com 15 a 30 cm de altura, brotam espaçadamente em vez de formarem tufos. O nome Gymnocarpium, que se pode traduzir por "frutos despidos", refere-se ao facto de os esporângios não estarem protegidos por indúsios; e o epíteto robertianum deve-se à (pouco óbvia) semelhança das suas folhas com as da erva-de-São-Roberto (Geranium robertianum).

Uma segunda espécie do género, Gymnocarpium dryopteris, está presente na Península Ibérica, também com distribuição sobretudo cantábrica e pirenaica. Os dois fetos são semelhantes no aspecto geral, mas as preferências ecológicas divergentes raras oportunidade lhes dão de se encontrarem na natureza. O G. dryopteris vive em bosques (o epíteto específico pode aliás traduzir-se por "feto dos carvalhais"), ou mais ocasionalmente em rochas sombrias e húmidas, e quase sempre em substrato silicioso. Mesmo que o habitat não deixe dúvidas sobre qual dos dois fetos temos perante nós, há um detalhe morfológico que permite distingui-los sem dificuldade: o G. robertianum, ao contrário do seu congénere, tem o pecíolo e a ráquis das folhas densamente cobertos por pêlos glandulosos (veja-se a 2.ª foto acima).

Obrigados a conviver com a neve, os dois Gymnocarpium abdicam de ter folhas durante mais de metade do ano. Elas só começam a surgir a meio da Primavera, e é no Verão, com a maturação dos esporos, que atingem o seu pleno desenvolvimento, para logo depois secarem e desaparecerem.

14/08/2019

Feto lunar


Botrychium lunaria (L.) Sw.


Atingindo uns 10 a 15 cm de altura máxima, e surgindo de modo efémero entre Junho e Agosto, a parte aérea do feto-lunar (Botrychium lunaria) é formada por duas partes: uma folha (ou fronde) dividida em segmentos com o feitio de lua crescente ou minguante; e uma haste fértil em que os esporângios, pela forma e disposição, lembram um cacho de uvas (é esse precisamente o significado de botrys, palavra grega de que deriva o nome Botrychium). A mesma arquitectura básica, mas com um desenho muito diferente, é partilhada pelas línguas-de-cobra - os fetos do género Ophioglossum, de que são três as espécies espontâneas em Portugal. À afinidade morfológica junta-se a semelhança dos estilos de vida: tanto os Ophioglossum como os Botrychium são plantas vivazes que passam a maior parte da sua vida reduzidas a rizomas subterrâneos; se as condições forem desfavoráveis, podem mesmo em certos anos não emitir folhas, sobrevivendo com a ajuda dos fungos simbióticos que se lhes agarram às raízes. Os dois géneros são os únicos representantes na Europa da família Ophioglassaceae, que representa uma etapa primitiva na evolução dos pteridófitos.

Pela sua pequenez, coloração inconspícua e carácter fugidio, o feto-lunar, tal como as línguas-de-cobra, é de difícil detecção. Está contudo muito disseminado pelas zonas frias ou temperadas dos dois hemisférios, estendendo-se por toda a Europa e Ásia, pelos extremos norte e sul das Américas, pelo norte de África (montanha do Atlas), e pela Austrália e Nova Zelândia. Portugal é o único país do continente europeu onde ele nunca foi visto; em jeito de compensação, sabe-se que ocorre no Pico (no topo da montanha) e na Madeira (Encumeada). Na Península Ibérica, a julgar pelo mapa de distribuição no portal Anthos, é frequente nos Pirenéus e esporádico ao longo da cordilheira cantábrica.

Foi para remediar essa lacuna no nosso currículo de avistamentos botânicos que em Julho de 2015 rumámos à Cantábria e ao Pico Três Mares. Embora o intento saísse frustrado, a viagem foi inesquecível por muitos motivos, tanto que a repetimos em 2017 e 2018. O feto-lunar nada quis connosco, talvez porque, a 2100 metros de altitude, só em Agosto ele se dê a ver. A terceira visita, no final de Maio de 2018, tinha tudo para correr pior do que as anteriores: uma Primavera invulgarmente fria atrasara o degelo e os cumes cobertos de neve permaneciam inacessíveis. Nesse dia, acossados por chuva persistente, a nossa exploração botânica resumiu-se a umas curtas paragens em bermas de estrada. Quando revisitávamos o local onde no ano anterior víramos duas espécies de Gentiana, eis que nos surge o feto-lunar num tapete de musgos e entre tufos de Potentilla montana (espécie abundante na Cantábria). Um encontro inteiramente inesperado, a 15 km de distância e 1000 metros abaixo do local onde anteriormente o procuráramos, e para mais em zona calcária, sabendo nós que o Pico Três Mares é formado por quartzitos.

De modo que aqui está ele exibido como troféu: um único exemplar em condições de ser fotografado entre muitos outros que apenas despontavam. Gostaríamos de o ter encontrado na Madeira ou no Pico, mas quem não tem cão caça com gato e as grandes escaladas de montanha já não são para nós.

11/07/2018

Altas campainhas


Campanula patula L.


Campânula é um nome de origem latina para um sino (campa) pequeno, a que alude a designação das herbáceas do género Campanula, tendo elas flores com pétalas mais ou menos reviradas e unidas pela base em tubo, o que dá à corola a forma de uma... campânula. As flores da C. herminii, endemismo ibérico de que por cá só há registos na serra da Estrela, são talvez a versão campaniforme mais perfeita. O nome vernáculo destas plantas, de flores roxas, cor-de-rosa ou brancas, adopta para algumas espécies o diminutivo campa + inha, ou sininho, ainda que tal denominação também se use, sob risco de confusão, para outros géneros. Na obra De historia stirpium commentarii insignes (1542), o botânico alemão Leonhart Fuchs terá registado oficialmente, talvez pela primeira vez, o termo campanula para designar precisamente uma planta (que Fuchs desenha com muito rigor, algo inusitado para a época) das que Lineu, em 1753, viria a incluir no género a que chamou Campanula.

Mas por que razão a forma destas flores se designa campânula? O dicionário Houaiss não arrisca mais do que uma menção à palavra latina campaña, explicando que era usada nos anos 560-600 para designar uma balança romana; algum tempo depois este vocábulo já soava a campanula, e ainda no século VI passou a designar também um sino (com ou sem badalo). A utilização em botânica, segundo Houaiss, data do século VIII. Voltemos, porém, à Flora Ibérica, que oferece uma explicação mais detalhada: um vaso Campana seria um tipo de recipiente em forma de cone invertido e oco, feito em bronze de grande qualidade na região (italiana, supomos) de Campania.

Curiosamente, o termo sino (do latim signum), referindo-se aos instrumentos em geral feitos em bronze que davam o sinal da hora de oração, de escalas de serviço a bordo de navios, de fecho de tabernas e de recolha a casa, apropriou-se no século passado do papel atribuído à palavra campânula para designar uma certa forma. Referimo-nos à moda das calças boca-de-sino, ponto alto do vestuário dos anos 70 e ícone do estilo «hippie». Deveriam afinal ter-se chamado calças boca-de-campânula.

A campânula hoje na montra é uma versão alta da C. lusitanica, de flores tão patentes e vistosas que Lineu lhe chamou patula.

27/06/2018

Tabuleiro de xadrez


Fritillaria pyrenaica L.


Se há herbáceas fáceis de identificar quando em flor são as do género Fritillaria. É que as flores, com o perianto campanulado formado por seis tépalas de cor púrpura com uma banda amarela na face externa e um padrão axadrezado na face interna, são inconfundíveis. Então por que há cinco espécies ibéricas? O que afinal as distingue? A chave da Flora Ibérica indica que se reconhecem sobretudo pelas folhas (mais ou menos lanceoladas, fininhas ou nem tanto, mas as diferenças contam-se em escassos milímetros) e pela forma dos nectários (informação a que jamais acederemos para não destruir as flores). Ajuda também estar atento à ecologia, pois algumas espécies preferem clareiras de matos na montanha, outras têm predilecção por fendas de rochas calcárias, e há as que se dão bem em dunas costeiras. Talvez aqui o anseio por endemismos torne este estudo mais complicado do que seria desejável, e explique por que razão a descrição na Flora Ibérica não está de acordo com a taxonomia adoptada pela Nova Flora de Portugal de Franco e Rocha Afonso, nem com os registos de observação destas espécies em Portugal. Por exemplo, a espécie Fritillaria nervosa Willd. (descrita em 1809 por Carl Ludwig Willdenow), que conhecemos das serras do Gerês, Açor e Estrela, surge na lista de plantas elaborada pelos Royal Botanic Kew Gardens e Missouri Botanical Garden como sinónimo de Fritillaria pyrenaica. É, porém, designada na Flora Ibérica como Fritillaria caballeroi, a partir de uma publicação de F. M. Vásquez em 2009. Para a lista dos Kew Gardens, contudo, a F. caballeroi é sinónimo de F. lusitanica... Havendo tempo, os botânicos ibéricos arrumarão melhor este género.

Para terminarmos, falta só chamar a sua atenção para um pormenor curioso nestas herbáceas vivazes. As flores são em geral solitárias e pendentes, mas na frutificação a haste floral torna-se erecta e a cápsula com as sementes nasce no topo dela. Deve ser um esforço considerável para a planta ter de levantar a corola da flor murcha para que o fruto se coloque nessa posição cimeira. Mas decerto é vantajoso para atrair polinizadores e proteger a flor que ela se incline para baixo, e mais eficiente para a disseminação das sementes que o fruto se localize inteiramente exposto ao vento. Ao abrir, solta inúmeras sementes minúsculas com asinhas alaranjadas.

12/06/2018

Presas na neve


Androsace cantabrica (Losa & P. Monts.) Kress


Na nossa terceira visita ao pico onde nascem rios que desaguam em três mares, optámos por uma data intermédia às das visitas anteriores, que tinham sido em Maio e Julho. Desse modo esperávamos conhecer todas as plantas que, à vista da estância de esqui do Alto Campoo, florescem desde a Primavera até ao início do Verão. Só que a metereologia trocou as voltas ao calendário: chegando três semanas mais tarde do que em 2017, a muita neve que faltava derreter, impedindo o trânsito de veículos e de caminhantes, sugeria, em vez disso, que chegáramos um mês mais cedo. A estância encerrara já a temporada, mas alguns esquiadores ainda ensaiavam umas descidas trôpegas. O cenário bonito da neve cobrindo os picos, com uns caóticos rasgões negros quebrando aqui e ali a uniformidade do branco, significava que os nossos planos tinham saído furados e não havia onde apresentar reclamação. Todas as plantas com que tínhamos combinado encontro estavam prisioneiras da neve, e nenhuma pôde comparecer. Como na lenga-lenga infantil, apetecia-nos implorar ao "sol que és tão forte" para derreter a neve e libertar as plantinhas. Mas a força do sol estava atenuada pelas nuvens carregadas de chuva que se interpunham entre ele e nós; e, mesmo que toda a neve se fosse, as plantas têm os seus vagares e nós não poderíamos ficar à espera.

Estas fotos de Maio de 2017 documentam dois dos reencontros que não tivemos em 2018. São duas espécies perenes de Androsace, uma com a floração bem adiantada e a outra acabando de abrir a primeira flor. A de flores cor-de-rosa, A. cantabrica, desautorizava a Flora Iberica (F.I.) de forma escandalosa, uma vez que essa douta publicação só lhe permitia florir a partir de Julho. A A. vitaliana, de flores amarelas, desobedecia no sentido oposto, pois a F.I. dava-lhe licença para florir já a partir de Abril.

Da família das prímulas, com numerosas flores pequeninas (3 a 4 mm de diâmetro) formando almofadinhas de um colorido atraente, as Androsace vivem em ambientes rupestres nas altas montanhas da Europa e da Ásia. Os Himalaias albergam o maior número de espécies, mas a Península Ibérica, com 15 espécies, várias delas endémicas, não tem razão de queixa. Uma das endémicas é a Androsace cantabrica, que está confinada às montanhas entre as províncias de Cantábria e Palência (Pico Três Mares e uns poucos cumes adjacentes). Verdade que, sem uma contagem de cromossomas ou a verificação (nem sempre conclusiva) de alguns miúdos detalhes, a A. cantabrica distingue-se mal de espécies próximas como a A. halleri. De modo que o leitor talvez não precise das quinze espécies ibéricas para inaugurar o seu rock garden: poderá conseguir o mesmo efeito com apenas umas sete ou oito.


Androsace vitaliana (L.) Lapeyr.

04/06/2018

Ouro branco

Ainda que, depois do Verão muito seco e dramático no ano passado, muitos tenham passado a apreciar mais a chuva, não deixa de ser um mistério que haja plantas terrestres que espontaneamente colonizem meios aquáticos. É que a sobrevivência em habitats palustres exige cuidados que podem ser ignorados em terra: é essencial que as folhas se mantenham a flutuar, para o que faz falta uma estrutura celular esburacada como a da cortiça, ou algum tipo de bóia; é imprescindível que as hastes florais sobressaiam na água para atrair os polinizadores sem os colocar em risco de se afogarem; os frutos têm de se dispersar na água sem apodrecer com a humidade excessiva; a planta tem de aprender a retirar nutrientes da água, uma sopa demasiado diluída; e há que saber aproveitar as interacções que o ambiente novo proporciona. Uma lista idêntica, a que se deve juntar a capacidade de hibernar debaixo de neve por largos meses, aplica-se às plantas vivazes que se adaptam a locais com invernos inclementes. Certo é que, depois de milhões de anos aflitos em ensaios e ajustes, com os pés molhados ou sob frio intenso, o planeta ganha novas espécies, e nós podemos hoje maravilhar-nos com as soluções engenhosas descobertas por elas neste processo.

A família Ranunculaceae, de que o género Ranunculus é o mais numeroso, é exemplar nesta adaptação a novos habitats, merecendo o prémio de uma distribuição invejável. Em Portugal, ocorrem espécies de berma de estrada, de turfeiras, de solos arenosos, de rochas expostas ao sol, de prados húmidos na montanha, de lagoas e charcos. Mas não há registo da espécie que está hoje na montra.


Ranunculus amplexicaulis L.


Com as informações genéticas a que os botânicos têm actualmente acesso, é possível identificar as alterações nos genes que acompanharam a transição do meio terrrestre para o aquático, ou do litoral para regiões acima dos mil metros. Curiosamente, no caso dos ranúnculos, essas mudanças não correspondem a alterações radicais nas flores. Estas são sempre do mesmo formato achatado, com pétalas ovadas amarelas brilhantes, ou brancas com um centro amarelo vistoso, por vezes raiadas por uns tons rosados. Mas a morfologia das folhas é bastante variada, o que até nem supreende: enquanto que a uma planta aquática interessam folhas fininhas, leves e muito recortadas, a uma espécie perene de montanha servem melhor folhas robustas, inteiras, penugentas e coriáceas.

O Ranunculus amplexicaulis, um quase endemismo ibérico de zonas montanhosas acima dos 1300 metros, tem folhas generosas que abraçam o caule e a haste floral para os agasalhar entre Maio e o início do Verão. A flor é por vezes solitária mas vistosa, com o centro amarelo protegido por alguma penugem. Vimos estes exemplares no Pico Tres Mares, na Cantábria, durante a primeira semana de Maio do ano passado. Neste início de Junho, o Pico tem ainda estradas cortadas pela neve, a maioria das plantas ainda não floriu, e poucos polinizadores estão ao serviço. Quem sabe, é apenas um atraso ocasional, como quando nos deixamos ficar mais meia hora no quentinho dos lençóis por sabermos do frio lá fora.