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04/03/2019

Narcisos das Canárias

Os objectos - os belos - são flor sem raiz: caem facilmente. A obra de arte da barbárie tem no terramoto a sua ideologia pura: as tempestades são absolutamente ilegais, grita um juiz, e um vento estranhamente manso no meio da gritaria vira página a página o livro de leis, como se o consultasse.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, Caminho, 2010



Pancratium canariense Ker-Gawl.


Da família dos narcisos, esta planta de flores brancas e perfumadas, a que alguns chamam açucenas, tem um parente próximo nas nossas areias à beira-mar. Porém, ao contrário do continental Pancratium maritimum, a espécie endémica das ilhas Canárias não gosta de sol forte, nem de terreno arenoso ou pouco fértil e, em vez de dunas, prefere empoleirar-se em taludes com algum resguardo mas sem humidade excessiva. Assim caprichoso e bem alimentado, não surpreende que apresente umbelas mais vistosas e seja em geral mais alto, chegando aos 80 cm de altura, o que é quase o dobro da altura do narciso-das-areias, que tende a rastejar nas dunas para evitar a agressão dos ventos marítimos. As hastes florais do P. canariense são erectas e num tom verde saudável (ou menos glauco), optando sensatamente por florir no Outono (Outubro-Novembro no hemisfério norte) e por hibernar nos meses mais quentes. Se só tivermos em conta a época de floração, então é plausível que a espécie canariense descenda de plantas do norte de África, pois aí as especies do género Pancratium têm frequentemente um curto período de crescimento e a floração decorre durante a época mais fresca do ano. Os frutos do P. canariense (e também do P. maritimum) são pequenos, ovóides e leves, de casca impermeável e polpa fibrosa; as sementes têm uma testa esponjosa, como cortiça, que as ajuda a flutuar no mar até encontrarem terra firme e promissora.

04/02/2019

Grafonola altaneira


Convolvulus floridus L. f.



As cores muito olhadas e admiradas são mais altas - como uma torre - e as cores irrelevantes são mais baixas. E sobre todos os fenómenos do mundo, e da tua casa, poderás colocar essa grelha de perceber, que são as dimensões: grande e pequeno.

Tudo tem dentro de si espaço para ser pequeno ou grande. E até as coisas inchadas têm dentro de si oportunidade para serem minúsculas.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, Caminho 2010

24/07/2018

Flores de cera


Ceropegia dichotoma Haw.


Há muito que o homem entortou a Natureza.
Porque o homem pensa a Natureza como se esta
fosse uma mesa a que se pode cortar uma das pernas
para a endireitar.
Mas a paisagem não é uma coisa
que possa ser corrigida por cidadãos
bem equipados, a paisagem é que te corrige.
É a terra que te come, e não
o inverso.
Gonçalo M. Tavares
Uma viagem à Índia (Caminho 2010)

24/06/2011

Ilha das Flores


Fajã de Lopo Vaz

O cheiro da flor pode ser interceptado entre a flor
e o céu. E é aí que melhor o cheiro existe.
Na flor, em plena flor, é ainda uma potência;
e no céu, se chega lá, é já elemento abstracto.
Mas há então uns segundos de existência

nesse percurso intermédio.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

27/05/2011

O segredo do trevo



Trifolium subterraneum L.

Os homens e as suas indústrias poluem os rios,
o mar, o ar que já escurece por cima das cidades
e a terra, as montanhas, a grande floresta.
Dos quatro elementos antigos – não sei se já reparou –,
o homem só é incapaz de poluir o fogo.
O fogo terá um mistério, certamente.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

22/04/2011

O pequeno touro


Orobanche minor Sm.

Um labirinto tem, pois, a forma espacial de uma religião. Diria que é o desenho de uma religião, de uma crença. No fundo, qualquer minotauro que se ponha por ali só apressa a coisa, e apenas nos segreda que somos mortais. Somos mortais porque há o minotauro que nos mata, portanto não podemos sentar-nos à espera da solução: tens de ser crente mas a passo de corrida, eis o que o labirinto ocupado pelo bicho mau nos diz: reza para descobrires a única saída, mas reza como um corredor de 100 metros, reza enquanto corres à tua velocidade máxima. Se correres muito rápido, não precisarás de palavras santas - a corrida terminará antes do início da prece.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego (Porto Ed., 2010)

01/04/2011

Adam Lonitzer (1528-1586), botânico alemão


Lonicera periclymenum L. [periclymenum = madressilva]

Para conheceres as melhores mentiras de um país
ou de um homem
terás que te sentar longamente ao pé dele.
Ninguém mente aos gritos, de longe.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

04/02/2011

Fórnea


Serra dos Candeeiros

Como encontrar na floresta, quando se está perdido, a verdadeira casa? Eis o difícil. Encontrar casa na casa é para pessoas que se orientam bem, que têm bússola, que reconhecem o caminho já feito e o rosto das pessoas que se sabe que, em princípio, não são lobos que de noite gostem do seu pescocinho tenro.

Voltar a casa é fácil, basta não te enganares no caminho. Não voltar a casa é que é difícil: é necessário que não queiras reconhecer, outra vez, o caminho.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego (Porto Ed., 2010)

03/12/2010

O jardim não mudou, o silêncio está intacto


Miradouro da Siradella (O Grove, Pontevedra, Galiza)

...No fundo, este verso afirma que tudo continua na mesma, o que, diga-se, não é propriamente uma novidade. (...)
...Mas olhemos com mais pormenor para os pormenores.
...Em primeiro lugar há a constatação de um facto: o jardim não mudou.
...O importante - no entanto - é, de imediato, perguntar: em que pode mudar um jardim?
...Há dois tipos de resposta: ou um jardim muda tanto que deixa de ser um jardim e passa, por exemplo, a ser o edifício de um Banco que se construiu em cima; ou um jardim muda pouco e, em vez de ter vinte e três flores, passa a ter vinte e duas porque uma foi arrancada por três crianças sem consciência botânica. Entre uma mudança brusca (um jardim inteiro desaparecer) e uma mudança suave (uma flor do jardim desaparecer) há uma significativa distância. Esclarecer como é que o jardim não mudou parece-nos, pois, indispensável. O jardim de que fala o narrador do verso de Auden não mudou porque não desapareceu? Ou não mudou porque manteve as suas vinte e três flores?
(...)
...O homem prático pede que o avisem quando alguma coisa muda. Um poeta como Auden, ao contrário, insiste em avisar o mundo de que algumas coisas não mudam e que esse é, afinal, o seu fascínio.

...
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Eliot e as conferências (Editorial Caminho, 2010)

13/05/2010

Cruzes e credos



Arabis sadina (Samp.) P. Cout.

.....É contado por Píndaro a este propósito que chegando Alexandre - o Grande - à cidade do filósofo pediu que o levassem até ele pois dele conhecia as ideias e admirava-as. Com a sua imponente comitiva (como lembra Maquiavel: o poder naqueles tempos avaliava-se pela poeira levantada pelos acompanhantes de um homem), Alexandre, o Grande, deparou com Diógenes sentado no chão, exercendo, absorto, a sua preguiça. Depois de uma pausa solene, e saindo do meio dos seus subservientes acompanhantes, Alexandre dirigiu-se a Diógenes e proclamou:
.....- Estás perante o grande Alexandre; o que lhe tens a dizer?
.....Diógenes, o filósofo, olhou para Alexandre, o Grande, e respondeu:
.....- Não se importa de se desviar um pouco. É que me está a tapar o sol.
.....
(...)

.....Descia Mercatore umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, costas contra a parede, a comer lentilhas.
.....Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava e pelo estômago farto, Mercatore disse, para Diógenes:
.....- Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.
.....E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico?
.....Diógenes respondeu. À letra:
.....- E tu – disse o filósofo – se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei.

.....Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas (Campo das Letras, 2005)

24/04/2010

Orquídea mosqueada


Neotinea maculata (Desf.) Stearn

Um homem cruzou-se com um animal e leu-lhe três fábulas para o ensinar.

Mais tarde um animal cruzou-se com um homem e deu-lhe três dentadas para o ensinar.

Mais tarde a Natureza inteira cruzou-se com o homem e com o animal e enterrou-os com três pazadas de terra para os ensinar.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)

20/03/2010

Loba-anã


Chaenorhinum origanifolium (L.) Fourr.

As cabras e o modo como se aproximam de um fio de erva podem preencher todo o cérebro de uma pessoa inteligente, mesmo que tal facto se passe às sete da tarde.

Muitas coisas acontecem na natureza. Com tanta erva e animal a pastar, para quê procurar diversão nas cidades?

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)

01/01/2010

Por vezes são os homens que dormem


Rios Cávado, Gerês e Caldo

Nem sempre é Deus. Se no mundo existirem mais uniformes que saias curtas, é porque nesse ano a guerra tem mais venda do que as paixões. E perante isto, procurarás mudar de cidade ou de ano.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)


Albufeira da Caniçada

12/12/2009

Pink quill


Tillandsia cyanea Linden ex K. Koch

Toda a estética é uma renúncia ao músculo.

Claro que a renúncia ao músculo é sempre temporária porque a morte vem, e nela o corpo tem de estar presente. Porém a estética não. A morte, poderias dizer, torna dispensável a estética.

Se colocares o ouvido junto ao dorso de uma vaca não escutarás o som do mar.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (2004)

24/10/2009

Madorneira-bastarda



Inula crithmoides L. - Murtosa, Ria de Aveiro

Para treinar os músculos da paciência o senhor Calvino colocava uma colher de café, pequenina, ao lado de uma pá gigante, pá utilizada habitualmente em obras de engenharia. A seguir, impunha a si próprio um objectivo inegociável: um monte de terra (50 quilos de mundo) para ser transportado do ponto A para o ponto B - pontos colocados a 15 metros de distância um do outro.

A enorme pá ficava sempre no chão, parada, mas visível. E Calvino utilizava a minúscula colher de café para executar a tarefa de transportar o monte de terra de um ponto para outro, segurando-a com todos os músculos disponíveis. Com a colher pequenina cada bocado mínimo de terra era como que acariciado pela curiosidade atenta do senhor Calvino.

Paciente, cumprindo a tarefa, sem desistir ou utilizar a pá, Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Calvino (2005)

27/08/2009

Thoreau




Se eu for viver para a montanha, a montanha sai de lá, para eu ficar absolutamente sozinho?

Desculparão a pergunta absurda, mas ao cidadão que vem da cidade ruidosa, uma montanha calada e calma, quieta e calma, paciente e calma, pode, quem sabe, ser ainda de mais se o que se quer é descanso.

Sozinho juntamente com a natureza composta pelas sete mil e quinhentas árvores de um bosque? Eis o que se poderá chamar de isolamento muito frequentado.

Sózinho só no ar, sendo pássaro, ou no caixão, sendo cadáver. De resto somos sempre incomodados pelo mundo, que desde há milénios incomoda muito.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (2004)


Carpinus betulus L. - Epping Forest

14/06/2008

Thunbergia-da-Malásia


Thunbergia laurifolia

«Desceu do cavalo apressado com mais pressa do que o cavalo e antes de o seu pé tocar no chão já as suas mãos tocavam no chão, rebolou, pois, como fazem os ginastas, e quando tinha a cabeça virada para a terra arrancou uma flor que no momento em que a sua cabeça estava já virada para o céu foi oferecida a uma mulher que o esperava há três horas. Para um homem tão rápido a agir, só uma mulher muito paciente.

Entenderam-se. Foram felizes para sempre. Mas o para sempre do cavalheiro (...) era rapidíssimo. Quase nada. Muito.»

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (2006)

31/05/2008

Seis, do latim sex


Bulbine frutescens (6 pétalas, 6 estames)

«Trazia um ramo de areia julgando trazer um ramo de flores. De noite olhou para o fim do braço e assustou-se: a mão era um ramo de cinco dedos como há ramos de cinco rosas. E se cinco mulheres amas a quem darás os dedos?

Olhando atentamente para a mão o número seis é inconcebível.»

Gonçalo M. Tavares, Jorge Luis Borges (Biblioteca, 2006)

23/04/2008

Posições no mundo


Amendoeira (Prunus dulcis) - vale do Tua

«No fundo, havia a sensação de que depois de muito se andar, depois das espantosas invenções técnicas, o homem continuava a depender de a árvore dar ou não frutos, apesar de já não haver árvores e de os frutos já não serem arrancados ou apanhados do chão, mas simplesmente negociados. Onde estava então a nova árvore? E que árvore era essa que fazia, subitamente, os preços subirem e a fome instalar-se em vários pontos do país, para depois, passados alguns anos, começar, sem justificação, a dar frutos em excesso?»

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica (2007)