Os objectos — os belos — são flor sem raiz: caem facilmente. A obra de arte da barbárie tem no terramoto a sua ideologia pura: as tempestades são absolutamente ilegais, grita um juiz, e um vento estranhamente manso no meio da gritaria vira página a página o livro de leis, como se o consultasse.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, Caminho, 2010

Pancratium canariense Ker-Gawl.

Da família dos narcisos, esta planta de flores brancas e perfumadas, a que alguns chamam açucenas, tem um
parente próximo nas nossas areias à beira-mar. Porém, ao contrário do continental
Pancratium maritimum, a espécie endémica das ilhas Canárias não gosta de sol forte, nem de terreno arenoso ou pouco fértil e, em vez de dunas, prefere empoleirar-se em taludes com algum resguardo mas sem humidade excessiva. Assim caprichoso e bem alimentado, não surpreende que apresente umbelas mais vistosas e seja em geral mais alto, chegando aos 80 cm de altura, o que é quase o dobro da altura do narciso-das-areias, que tende a rastejar nas dunas para evitar a agressão dos ventos marítimos. As hastes florais do
P. canariense são erectas e num tom verde saudável (ou menos glauco), optando sensatamente por florir no Outono (Outubro-Novembro no hemisfério norte) e por hibernar nos meses mais quentes. Se só tivermos em conta a época de floração, então é plausível que a espécie canariense descenda de plantas do norte de África, pois aí as especies do género
Pancratium têm frequentemente um curto período de crescimento e a floração decorre durante a época mais fresca do ano. Os
frutos do
P. canariense (e também do
P. maritimum) são pequenos, ovóides e leves, de casca impermeável e polpa fibrosa; as sementes têm uma testa esponjosa, como cortiça, que as ajuda a flutuar no mar até encontrarem terra firme e promissora.