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01/04/2026

À janela

Barlia robertiana (Loisel.) Greuter
As metrópoles são, no fundo, casas grandes
em que as janelas servem para insultar
os outros — a amizade é impossível
em grandes aglomerações.
Até entre animais mínimos como moscas
ou formigas não é fácil detectar, na cidade,
um comportamento com o selo do companheirismo.

(As formigas, por exemplo,
sendo animais surdo-mudos
têm as patinhas da frente disponíveis
para o diálogo, mas tal facto impede-as
de conversar enquanto caminham
— prazer específico da espécie humana.)
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia - Canto III (Editorial Caminho, 2010)

27/03/2025

Gigil (*)

Narcissus pseudonarcissus L.
Não são as ervas daninhas, são as flores
que governam os jardins. Os tribunais são sensíveis
aos odores que vêm da janela, e os juízes reduzem
cada pena de prisão a metade,
pois consideram que, em cidade
tão bela e cheirosa, estar fechado equivale
ao dobro do sacrifício.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia (Editorial Caminho, 2010)


(*) Inebriamento sentido face a algo adorável, como um gatinho ou uma paisagem outonal (explicação aqui)

01/01/2025

2025

Degollada de Cofete — Fuerteventura
Até o ar livre precisa de mudar de quando
em quando de ar. A circulação é um bem
inestimável para qualquer forma da natureza.
Uma competição de ciclismo que percorra uma
montanha é uma dádiva para a montanha.
Os animais e tudo o que se move
movem-se também em nome das coisas imóveis.
Sem movimento em seu redor
a montanha cairia como um vulgar edifício antigo.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia (Editorial Caminho, 2010)

25/04/2024

Vinte e cinco

Um jardim tinha vinte e cinco árvores. Vinte e quatro eram pequeninas, e uma era enorme: com um tronco grosso e orgulhoso, com o topo parecendo tocar o céu. Visto de cima o jardim parecia ter uma única árvore.
Essa árvore, porém, cresceu tanto que os seus frutos ou eram comidos pelos pássaros, lá em cima, ou caíam: tornando-se autênticas bombas, tal a velocidade com que chegavam ao solo.
O dono do jardim, como não aproveitava nada dessa árvore e como a queda dos frutos se tornava a cada dia mais perigosa, decidiu cortá-la.
Agora quem visse de cima o jardim ficava com a sensação de este ter aumentado, pois conseguia distinguir, claramente, vinte e quatro árvores.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht (Editorial Caminho, 2004)

07/04/2023

Açafrão insular

Crocus cambessedesii J. Gay


A Natureza não seria ridícula ao ponto
de se resumir a qualquer fórmula literária
ou matemática.
Coloca o livro mais brilhante de Goethe
ao lado de uma pedra: volta no outro dia,
e no dia seguinte. E na semana seguinte.
Verás: nada aconteceu à pedra,
enquanto o livro, por todo o lado, por todas as partes,
começou a perder qualidades.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia (Editorial Caminho, 2010)

29/04/2021

Aprumo militar


Orchis militaris L.


Ninguém mata de tão longe como um homem,
e poderás dizer que esse facto prova
apenas a sua melhor pontaria ou tecnologia,
mas prova também a estratégia de uma espécie.
Não se ama de tão longe, por exemplo.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia (Editorial Caminho, 2010)

22/12/2020

Uvas com espinhos

Berberis vulgaris L.
  
As árvores, por exemplo, toleram bem o tédio:
praticamente nada acontece no reino vegetal de uma floresta,
e não é por essa razão que as exaltações guerreiras
se multiplicam. O homem
— disse o velho — deveria aprender a imitar
o ímpeto lento das árvores
que sem serem vistas e jamais parando, sobem sempre.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia — Canto VI (Editorial Caminho, 2010)

04/03/2019

Narcisos das Canárias

Os objectos — os belos — são flor sem raiz: caem facilmente. A obra de arte da barbárie tem no terramoto a sua ideologia pura: as tempestades são absolutamente ilegais, grita um juiz, e um vento estranhamente manso no meio da gritaria vira página a página o livro de leis, como se o consultasse.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, Caminho, 2010



Pancratium canariense Ker-Gawl.


Da família dos narcisos, esta planta de flores brancas e perfumadas, a que alguns chamam açucenas, tem um parente próximo nas nossas areias à beira-mar. Porém, ao contrário do continental Pancratium maritimum, a espécie endémica das ilhas Canárias não gosta de sol forte, nem de terreno arenoso ou pouco fértil e, em vez de dunas, prefere empoleirar-se em taludes com algum resguardo mas sem humidade excessiva. Assim caprichoso e bem alimentado, não surpreende que apresente umbelas mais vistosas e seja em geral mais alto, chegando aos 80 cm de altura, o que é quase o dobro da altura do narciso-das-areias, que tende a rastejar nas dunas para evitar a agressão dos ventos marítimos. As hastes florais do P. canariense são erectas e num tom verde saudável (ou menos glauco), optando sensatamente por florir no Outono (Outubro-Novembro no hemisfério norte) e por hibernar nos meses mais quentes. Se só tivermos em conta a época de floração, então é plausível que a espécie canariense descenda de plantas do norte de África, pois aí as especies do género Pancratium têm frequentemente um curto período de crescimento e a floração decorre durante a época mais fresca do ano. Os frutos do P. canariense (e também do P. maritimum) são pequenos, ovóides e leves, de casca impermeável e polpa fibrosa; as sementes têm uma testa esponjosa, como cortiça, que as ajuda a flutuar no mar até encontrarem terra firme e promissora.

04/02/2019

Grafonola altaneira


Convolvulus floridus L. f.



As cores muito olhadas e admiradas são mais altas — como uma torre — e as cores irrelevantes são mais baixas. E sobre todos os fenómenos do mundo, e da tua casa, poderás colocar essa grelha de perceber, que são as dimensões: grande e pequeno.

Tudo tem dentro de si espaço para ser pequeno ou grande. E até as coisas inchadas têm dentro de si oportunidade para serem minúsculas.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, Caminho 2010

24/07/2018

Flores de cera


Ceropegia dichotoma Haw.


Há muito que o homem entortou a Natureza.
Porque o homem pensa a Natureza como se esta
fosse uma mesa a que se pode cortar uma das pernas
para a endireitar.
Mas a paisagem não é uma coisa
que possa ser corrigida por cidadãos
bem equipados, a paisagem é que te corrige.
É a terra que te come, e não
o inverso.
Gonçalo M. Tavares
Uma viagem à Índia (Caminho 2010)

24/06/2011

Ilha das Flores

Fajã de Lopo Vaz
O cheiro da flor pode ser interceptado entre a flor
e o céu. E é aí que melhor o cheiro existe.
Na flor, em plena flor, é ainda uma potência;
e no céu, se chega lá, é já elemento abstracto.
Mas há então uns segundos de existência

nesse percurso intermédio.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

27/05/2011

O segredo do trevo



Os homens e as suas indústrias poluem os rios,
o mar, o ar que já escurece por cima das cidades
e a terra, as montanhas, a grande floresta.
Dos quatro elementos antigos – não sei se já reparou –,
o homem só é incapaz de poluir o fogo.
O fogo terá um mistério, certamente.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

22/04/2011

O pequeno touro

Orobanche minor Sm.
Um labirinto tem, pois, a forma espacial de uma religião. Diria que é o desenho de uma religião, de uma crença. No fundo, qualquer minotauro que se ponha por ali só apressa a coisa, e apenas nos segreda que somos mortais. Somos mortais porque há o minotauro que nos mata, portanto não podemos sentar-nos à espera da solução: tens de ser crente mas a passo de corrida, eis o que o labirinto ocupado pelo bicho mau nos diz: reza para descobrires a única saída, mas reza como um corredor de 100 metros, reza enquanto corres à tua velocidade máxima. Se correres muito rápido, não precisarás de palavras santas — a corrida terminará antes do início da prece.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego (Porto Ed., 2010)

01/04/2011

Adam Lonitzer (1528-1586), botânico alemão

Lonicera periclymenum L. [periclymenum = madressilva]


Para conheceres as melhores mentiras de um país
ou de um homem
terás que te sentar longamente ao pé dele.
Ninguém mente aos gritos, de longe.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

04/02/2011

Fórnea

Serra dos Candeeiros
Como encontrar na floresta, quando se está perdido, a verdadeira casa? Eis o difícil. Encontrar casa na casa é para pessoas que se orientam bem, que têm bússola, que reconhecem o caminho já feito e o rosto das pessoas que se sabe que, em princípio, não são lobos que de noite gostem do seu pescocinho tenro.

Voltar a casa é fácil, basta não te enganares no caminho. Não voltar a casa é que é difícil: é necessário que não queiras reconhecer, outra vez, o caminho.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego (Porto Ed., 2010)

03/12/2010

O jardim não mudou, o silêncio está intacto

Miradouro da Siradella
(O Grove, Pontevedra, Galiza)
...No fundo, este verso afirma que tudo continua na mesma, o que, diga-se, não é propriamente uma novidade. (...)
...Mas olhemos com mais pormenor para os pormenores.
...Em primeiro lugar há a constatação de um facto: o jardim não mudou.
...O importante — no entanto — é, de imediato, perguntar: em que pode mudar um jardim?
...Há dois tipos de resposta: ou um jardim muda tanto que deixa de ser um jardim e passa, por exemplo, a ser o edifício de um Banco que se construiu em cima; ou um jardim muda pouco e, em vez de ter vinte e três flores, passa a ter vinte e duas porque uma foi arrancada por três crianças sem consciência botânica. Entre uma mudança brusca (um jardim inteiro desaparecer) e uma mudança suave (uma flor do jardim desaparecer) há uma significativa distância. Esclarecer como é que o jardim não mudou parece-nos, pois, indispensável. O jardim de que fala o narrador do verso de Auden não mudou porque não desapareceu? Ou não mudou porque manteve as suas vinte e três flores?
(...)
...O homem prático pede que o avisem quando alguma coisa muda. Um poeta como Auden, ao contrário, insiste em avisar o mundo de que algumas coisas não mudam e que esse é, afinal, o seu fascínio.

...
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Eliot e as conferências (Editorial Caminho, 2010)

13/05/2010

Cruzes e credos



.....É contado por Píndaro a este propósito que chegando Alexandre — o Grande — à cidade do filósofo pediu que o levassem até ele pois dele conhecia as ideias e admirava-as. Com a sua imponente comitiva (como lembra Maquiavel: o poder naqueles tempos avaliava-se pela poeira levantada pelos acompanhantes de um homem), Alexandre, o Grande, deparou com Diógenes sentado no chão, exercendo, absorto, a sua preguiça. Depois de uma pausa solene, e saindo do meio dos seus subservientes acompanhantes, Alexandre dirigiu-se a Diógenes e proclamou:
.....— Estás perante o grande Alexandre; o que lhe tens a dizer?
.....Diógenes, o filósofo, olhou para Alexandre, o Grande, e respondeu:
.....— Não se importa de se desviar um pouco. É que me está a tapar o sol.
.....
(...)

.....Descia Mercatore umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, costas contra a parede, a comer lentilhas.
.....Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava e pelo estômago farto, Mercatore disse, para Diógenes:
.....— Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.
.....E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico?
.....Diógenes respondeu. À letra:
.....— E tu — disse o filósofo — se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei.

.....Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas (Campo das Letras, 2005)

24/04/2010

Orquídea mosqueada

Neotinea maculata (Desf.) Stearn
Um homem cruzou-se com um animal e leu-lhe três fábulas para o ensinar.

Mais tarde um animal cruzou-se com um homem e deu-lhe três dentadas para o ensinar.

Mais tarde a Natureza inteira cruzou-se com o homem e com o animal e enterrou-os com três pazadas de terra para os ensinar.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)

20/03/2010

Loba-anã

Chaenorhinum origanifolium (L.) Fourr.
As cabras e o modo como se aproximam de um fio de erva podem preencher todo o cérebro de uma pessoa inteligente, mesmo que tal facto se passe às sete da tarde.

Muitas coisas acontecem na natureza. Com tanta erva e animal a pastar, para quê procurar diversão nas cidades?

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)