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11/09/2019

Histórias da Lista Vermelha: Isatis platyloba



Vistos do alto de São João das Arribas, em Miranda do Douro, os barcos de cruzeiro deslizando no rio parecem brinquedos de criança, e as grandes aves de rapina que os sobrevoam reduzem-se ao tamanho de passarinhos. Nestas escarpas onde cair parece tão fácil e apetecível (não está o rio lá em baixo para nos abraçar?) vive uma planta crucífera de flores amarelas, capaz de atingir um metro de altura, que durante mais de um século se julgou exclusiva deste lugar. Trata-se da Isatis platyloba, assim baptizada em 1821 pelo alemão Ernst Gottlieb von Steudel mas já mencionada por Brotero na sua Flora Lusitanica em 1804 sob o nome de Isatis lusitanica. Sabe-se hoje que a planta existe nas duas margens do Douro pelo menos entre São João das Arribas e a barragem de Picote, e que também ocorre nos rios Duratón e Riaza, afluentes espanhóis do Douro. Talvez a preferência por estes precipícios rochosos escavados pelas águas limite a expansão da planta, afastando-a daqueles troços fluviais onde as margens são menos vertiginosas.

Sem nome vernáculo conhecido, não será inapropriado chamar-lhe pastel-português - não pastel de comer, mas de colorir. A Isatis platyloba, de distribuição tão restrita, é à primeira vista quase indistinguível do verdadeiro pastel, Isatis tinctoria, que se distribui por vastas zonas da Ásia, Europa e norte de África, e foi, até ao primeiro quartel do século XX, um dos mais importantes fornecedores de matéria-prima para a indústria tintureira. Curiosamente, o pigmento que se extrai das folhas verdes e ainda tenras do pastel é azul. Quando o caule se desenvolve e a planta floresce já as folhas pouca cor têm para dar. A afinidade entre as duas espécies de Isatis leva a suspeitar que o pastel-português também tenha vocação tintureira, e há notícias desse antigo uso nas aldeias de Miranda do Douro. Não é contudo improvável que os aldeões usassem o genuíno pastel, pois é sabido (como aqui documentou Francisco Clamote) que as duas plantas coexistem no planalto mirandês, e que a Isatis tinctoria, ao contrário da I. platyloba, tende a ocupar sítios acessíveis como bermas de estrada e terrenos baldios.



Isatis platyloba Link ex Steud.



Além de terem ecologias distintas, as duas Isatis divergem nos seus ciclos de vida: a Isatis platyloba é anual, enquanto que a I. tinctoria é bienal, formando uma roseta de folhas no primeiro ano e florescendo no seu segundo e último ano. Morfologicamente, há pequenas diferenças nas folhas, mas são pouco fiáveis. É quando produzem frutos que a distinção entre as duas espécies se torna óbvia: os da I. platyloba são orbiculares (foto aqui), contrastando com os frutos oblongos da I. tinctoria (foto aqui).

Na Lista Vermelha da Flora de Portugal, a Isatis platyloba está classificada como vulnerável. O contingente da espécie em Portugal, que talvez fique aquém dos mil indivíduos (número sujeito às oscilações próprias de uma planta anual), tem-se mantido aparentemente estável, sem que grandes estragos ou alterações afectassem o habitat em anos recentes. Tê-los-á havido, e sérios, com a construção das grandes barragens do Douro internacional na segunda metade do século passado. Contudo, a limpeza obsessiva da vegetação espontânea tem vindo a debilitar a população da planta em São João das Arribas, que é a mais numerosa que se conhece. Se essa tendência não for refreada, ou se não tiver em conta o ciclo de vida da planta, ela corre o risco de desaparecer do local.

07/06/2019

Histórias da Lista Vermelha: Allium schmitzii

Allium schmitzii Cout.


Um mês antes do São João já os alhos-porros silvestres (Allium ampeloprasum) começam a despontar nos campos. Foi talvez a sua aparição que nos incentivou a renovar as buscas por um outro alho que há seis ou sete anos faz parte da nossa lista de desejos. Em 2012, quando nos encontrámos em Lisboa para o lançamento do portal Flora-On, o Carlos Aguiar dera-nos a dica: a jusante da barragem de Bagaúste, na Régua, o Allium schmitzii é tão abundante que o seu cheiro se sente à distância. Fomos lá em Junho de 2013, já a canícula anunciava o inferno em que a Régua se transforma no Verão, mas desses alhos não detectámos qualquer rasto visual ou olfactivo, talvez porque a busca tivesse sido mal planeada, ou a época fosse tardia, ou esse ano a floração fosse escassa. Em 2017, o biólogo Paulo Pereira, ao serviço da Lista Vermelha da Flora de Portugal (LVF), visitou a área e confirmou a existência e relativa pujança do Allium schmitzii na Régua, tendo contado uns duzentos exemplares. Dois anos depois, chegou a vez de a nossa insistência ser recompensada, ainda que in extremis. O início de Maio deverá ser a melhor altura para observar a planta. Chegámos com três semanas de atraso, vimos-lhe os frutos (muitos) e quase nos escapavam as flores.

Endémico da Península Ibérica, o Allium schmitzii vive em leitos de cheias de rios. Em Portugal foi assinalado nas bacias do Douro, Tejo, Guadiana e Sado; em Espanha aparece sobretudo na província de Salamanca, com ocorrências isoladas na serra Madrona e nas montanhas do Sistema Ibérico. O seu habitat tem vindo a a diminuir gradualmente desde meados do século XX, quando em Portugal se iniciou o período de construção de grandes barragens. A planta já não existe nas margens do Tejo em Vila Velha de Rodão, local onde foram colhidos os exemplares usados por António Xavier Pereira Coutinho, em 1897, para descrever a espécie no n.º XIII do Boletim da Sociedade Broteriana. O enchimento da barragem de Alqueva, em 2002, quase a fez desaparecer da bacia do Guadiana. E na bacia do Douro ela parece ter sobrevivido em apenas três lugares: Régua e Bemposta, no rio Douro; e Almofala (Figueira de Castelo Rodrigo), na margem portuguesa do rio Águeda. No decorrer dos trabalhos da LVF, a existência da planta só pôde ser confirmada no Douro (Régua e Bemposta) e no Tejo (Tramagal): a somar aos duzentos exemplares na Régua, avistaram-se oito em Bemposta e uns cinquenta no Tramagal. Dir-se-ia que a sobrevivência do Allium schmitzii no nosso país está por um fio. Contudo, a prospecção foi tida como insuficiente para se obterem estimativas populacionais fiáveis, e por isso na LFV foi-lhe apenas atribuído o estatuto de "Vulnerável".

No mesmo artigo em que apresenta o Allium schmitzii, Coutinho descreve outro alho semelhante, esse colhido nas margens rochosas do rio Minho entre Monção e Melgaço, a que chama Allium schmitzii var. duriminium. O primeiro distingue-se do segundo, na opinião do autor, por ter flores menores com pedúnculos mais compridos, pelos estames salientes, pela umbela mais ampla - e, de um modo geral, pelo porte mais avantajado. Ambos estes alhos têm semelhanças marcantes, mais acentuadas na var. duriminium, com o Allium schoenoprasum, que é o cebolinho cultivado nas nossas hortas. Assinale-se porém que as flores do cebolinho, além de terem pedúnculos muito curtos que dão à umbela um aspecto compacto, são quase tubulares, com as tépalas muito mais compridas do que os estames. Na sua Flora de Portugal (1.ª edição em 1913), Coutinho muda de opinião sobre a var. duriminium, acabando por subordiná-la ao Allium schoenoprasum.

Seja ele uma variedade do A. schmitzii ou do A. schoenoprasum, esse alho duriminium parece existir apenas no rio Minho, o que faz dele um endemismo de distribuição muito mais restrita do que o A. schmitzii propriamente dito. Porém, como o troço fronteiriço do rio Minho não foi até hoje adulterado por barragens, o habitat tem-se mantido intacto, e a população de "Allium duriminium" atinge certamente as dezenas de milhares de plantas, ultrapassando largamente a do A. schmitzii. Quem visitar as pesqueiras do rio Minho por estes dias (a floração decorre principalmente em Junho) não poderá deixar de o ver.

As fotos abaixo, obtidas em Melgaço há já uns anos, permitirão ao leitor ajuizar das diferenças e semelhanças entre os dois alhos. A ecologia dos dois não é exactamente a mesma: o "A. duriminium" aparece exclusivamente em fendas de rochas, enquanto que, pelo menos na Régua, o A. schmitzii parece ausente dos afloramentos rochosos, vivendo em solos que estão encharcados ou mesmo submersos durante boa parte do ano.


Allium schoenoprasum var. duriminium (Cout.) Cout.

20/06/2017

Na pista da Pistorinia


Pistorinia hispanica (L.) DC.


Às vezes dá ideia que a fronteira luso-espanhola foi desenhada com o único intuito de nos espoliar de plantas interessantes. O roubo de Olivença, empurrando a linha fronteiriça uns quilómetros para oeste, foi tavez planeado para que alguma planta até então também nossa deixasse de existir em território português. Infelizmente, estão por estudar as motivações botânicas nas disputas territoriais entre estados vizinhos. Numa época de fronteiras abertas, em que as maiores diferenças entre cá e lá são as matrículas dos automóves e a dificuldade em encontrar um restaurante que nos sirva sopa, não é este um tema de pesquisa que atraia muitos eruditos. Podemos sem dificuldade visitar essas plantas que nos foram negadas, mas ainda dói pensar que não são nossas. Nessa partilha tão desigual, há géneros botânicos (como Sempervivum, Androsace e Petrocoptis) bastamente representadas na Península (cada um com pelo menos meia dúzia de espécies) que estão tristemente ausentes da flora portuguesa.

É assim motivo para moderado regozijo saber que a Pistorinia hispanica é também portuguesa, embora só saibamos dela na margem direita (a nossa) do Douro internacional, e em tão escasso número (vimos umas dez plantas em flor) que a sua futura permanência por cá é incerta. A sua preferência por margens arenosas de rios explica o seu gradual desaparecimento por perda de habitat. Em Portugal não há grande ou médio rio que esteja livre de barragens, e é pouco provável que a Pistorinia ainda exista, como reportava Franco na Nova Flora de Portugal, no Tejo ou no Sabor. Neste último, com o recente enchimento da barragem, as margens e as plantas que lá viviam foram afogadas numa extensão de 40 Km.

O número de espécies de Pistorinia é incerto: estão descritas umas seis, mas alguns nomes são tidos como sinónimos. Confirmadas (e documentadas com fotos nesta página) estão três espécies distribuídas entre a Península Ibérica e Marrocos; a que nos ocupa é um endemismo ibérico. Todas elas são plantas anuais carnudas, de porte erecto e baixa estatura (a P. hispanica não excede os 20 cm de altura), com flores tubulares dispostas em cimeiras. A decoração extravagante das "pétalas" -- ou, mas precisamente, dos segmentos terminais em que a corola se divide -- é a marca mais distintiva da Pistorinia hispanica: sobre um fundo rosa choque, traçam-se a vermelho três riscos paralelos, rematados por uma mancha também vermelha como se a flor pintasse as unhas.

06/06/2017

Dedaleira do Douro


Digitalis amandiana Samp.


A dedaleira é das plantas mais comuns no nosso país, e uma das poucas a que a generalidade dos portugueses sabe dar nome. Aprendemos, ainda crianças, que as dedaleiras são tóxicas, embora de facto só sejam perigosas se ingeridas em doses significativas. É pouco provável que tenhamos alguma indisposição só por enfiar o dedo numa flor (pois ela parece mesmo um dedal) ou por rebentá-la na palma da mão. Nesta época do ano, em que as dedaleiras floridas alegram terrenos baldios e bermas de estrada, cabe lembrar que mesmo uma planta tão corriqueira não é isenta de mistérios. Esses cachos de flores rosadas, bonitos mas gastos aos nossos olhos pela habituação, não podem, em rigor, ser declarados inconfundíveis, porque são várias as espécies que se escondem sob o mesmo aspecto geral. É verdade que aquela que Lineu baptizou como Digitalis purpurea é a mais abundante, mas no interior do país entre o Douro e o Tejo a Digitalis thapsi (dedaleira-peganhenta ou pegajo) faz-lhe aguerrida concorrência, chegando a suplantá-la na prontidão com que coloniza os taludes das auto-estradas. E, em certas zonas do alto Douro vinhateiro, particularmente em Carrazeda de Ansiães, a D. purpurea é substituída por uma espécie endémica da região, a D. amandiana, originalmente descrita por Gonçalo Sampaio em 1905. (A descrição de Sampaio foi reproduzida por Júlio Henriques, em 1906, no vol. XXII do Boletim da Sociedade Broteriana.) Tal como a sua congénere, a D. amandiana dá-se bem em terrenos perturbados, conseguindo assim sobreviver à fúria herbicida com que os vinicultores vêm dizimando a flora espontânea duriense.

Se compararmos a Digitalis amandiana (fotos em cima) com a D. purpurea (em baixo), as diferenças são notórias. O caule da D. amandiana é inteiramente glabro, enquanto que o da D. purpurea é peludo de alto a baixo. As folhas da D. amandiana são glabras, luzidias, estreitas, grosseiramente serradas nas margens -- em completo contraste com as da D. purpurea, que são penugentas, baças, largas, finamente dentadas. A corola da D. amandiana é exteriormente glabra, enquanto que a da D. purpurea está coberta de pêlos. Há também diferenças no cálice: os da D. amandiana são abertos, com sépalas largas e arredondadas; os da D. purpurea têm as sépalas comparativamente estreitas, mais ou menos pontiagudas, e encostadas à corola. Tudo somado, são mais óbvias as disparidades entre a D. amandiana e a D. purpurea do que entre a segunda e a D. thapsi. Não por acaso, são frequentes os híbridos entre a D. thapsi e a D. purpurea nas zonas onde as duas coexistem, mas nunca ninguém reportou um híbrido natural entre a D. amandiana e a D. purpurea.

Contudo, o reconhecimento deste endemismo duriense não tem sido unânime. João do Amaral Franco, que por certo nunca viu a planta, decretou, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 2, 1984), que D. amandiana era simples sinónimo de D. purpurea subsp. purpurea. A Flora Iberica (vol XIII, 2009) não cometeu esse erro, substituindo-o por outro um pouco menos grave: considerou que a singularidade da D. amandiana merecia apenas ser reconhecida ao nível de subespécie, ficando ela a chamar-se D. purpurea subsp. amandiana. Não menos plausível, embora igualmente arbitrário, teria sido subordiná-la à D. thapsi, chamando-lhe D. thapsi subsp. amandiana ou, como já sucedeu, D. thapsi var. amandiana.

(Sobre a Digitalis amandiana, leia-se ainda o informativo texto que, em 2009, Carlos Aguiar aqui publicou.)


Digitalis purpurea L.

28/04/2016

Alface dos mineiros


Montia perfoliata (Donn ex Willd.) Howell


É frequente ver-se em margens de regatos, fontes ou rochas com escorrências, por vezes mesmo parcialmente submersa, uma planta delicada, de folhas pequeninas e carnudas, a formar uns tapetes verdinhos, salpicados de pintinhas brancas na época de floração. Tal como a beldroega (Portulaca oleraceae), que é da mesma família (Portulacaceae), a meruginha (Montia fontana, herbácea anual ou vivaz a que os ingleses chamam blinks) já foi consumida em sopas e saladas, numa altura em que as hortas não resistiam a invernos tempestuosos. Perdeu o lugar à mesa quando se diversificou o mercado de alfaces e outros vegetais de maior porte ou sabor mais apurado.

Nesta história gastronómica entra outra beldroega, dita de Inverno (Montia perfoliata), que algumas Floras preferem arrumar no género Claytonia. Não há muitos registos da presença dela em Portugal ou na Península Ibérica, sinal de que esta planta anual e nativa da América do Norte (que, em inglês, se chama miner's lettuce por ter sido fonte preciosa de vitaminas para os garimpeiros nos primeiros tempos da Califórnia) se naturalizou na Europa mas não tem potencial invasor. Aprecia locais mais secos do que a sua congénere, dando-se bem em solos arenosos na orla de matos, mas as sementes precisam das chuvas de Outono para germinarem. A população que encontrámos mora perto da ribeira da Teja, no concelho de Vila Nova de Foz Côa.


Ribeira da Teja, Numão, Vila Nova de Foz Côa
O aspecto da Montia perfoliata é um pouco bizarro. Ao contrário da M. fontana, que só tem folhas caulinares, na M. perfoliata as folhas são essencialmente basais, a formar uma roseta, e parecem colheres de cabo longo. No talo, que é estriado, por vezes alado, há ainda um (e um só) par de folhas caulinares, unidas numa taça que talvez funcione como bráctea a proteger a inflorescência. Nas fotos desta parte da planta, parece que o caule fura estas duas folhas geminadas -- e é a isso que o epíteto perfoliata alude. As flores reúnem-se em racimos terminais que lembram enfeites (piercings) em volta de um umbigo.

14/04/2015

Decifrar os lábios


Cheilanthes maderensis Lowe


São motivo de justificado espanto o zelo e a perspicácia com que os botânicos, esses mexeriqueiros, investigam a vida amorosa dos fetos. Um leigo até apostaria que o assunto é vazio, já que (julga ele saber) é pelas flores que as plantas se amam e se reproduzem, e os fetos nem flores têm. Mas também algum historiador ingénuo poderia pensar que, por força do celibato, nada haveria a contar da vida carnal do clero católico, e afinal foram muitos os filhos de pais incógnitos gerados no silêncio dos mosteiros e das casas paroquiais.

A promiscuidade vegetal tem aspectos interessantes, em particular entre as pteridófitas. Quando se cruzam duas espécies distintas, o mais provável é que o híbrido resultante seja estéril, já que os cromossomas do "pai" e da "mãe" são incompatíveis e não conseguem formar pares perfeitos. Um modo de fintar a esterilidade é, em vez de tentar o emparelhamento, duplicar o número cromossómico, juntando todos os cromossomas dos dois progenitores. O filhote dessa relação é chamado de poliplóide (triplóide, tetraplóide, pentaplóide e assim por diante, dependendo de quantas cadeias de cromossomas herdou); e, tal como sucede com os híbridos, exibe caracteres morfológicos intermédios entre as duas espécies. Trata-se, contudo, de uma nova espécie, capaz de se multiplicar por reprodução sexuada. Ainda que muito raramente um acasalamento interespecífico resulte em poliploidia, calcula-se que ela seja responsável por mais de metade das espécies vegetais existentes à face da Terra. O mecanismo darwinista de evolução e adaptação graduais não é pois o único a actuar na diferenciação das espécies.

Das cinco espécies de Cheilanthes existentes na Península Ibérica (e em Portugal), duas delas (C. hispanica e C. maderensis) são diplóides, significando isto que se situam na base da árvore genealógica. Destas duas e dos seus parceiros de ocasião descendem as restantes três espécies, todas elas tetraplóides: C. guanchica, C. acrostica e C. tinaei. O facto de os poliplóides guardarem a informação genética completa dos seus antepassados imediatos permite identificá-los mesmo em casos de paradeiro incerto. Assim, o que hoje aqui trazemos é o retrato de uma família algo disfuncional, em que se vêem a mãe (C. maderensis, em cima) e o filho (C. guanchica, em baixo) mas falta o pai (C. pulchella), que ultimamente só tem sido visto nas ilhas Canárias. Se a genética fornece provas inequívocas deste parentesco, aquilo que nos é dado observar (com a ajuda da lupa ou de fotos muito ampliadas) torna-o ainda mais plausível: tanto na forma das pínulas como na dos pseudo-indúsios (que no C. maderensis são fragmentados e no C. pulchella revestem continuamente as margens), o C. guanchica é a média aritmética perfeita dos seus progenitores.

Todos os Cheilanthes gostam de lugares secos, vivendo em fendas de rochas ou de muros com maior ou menor exposição solar. Não sendo o apreço pelo sol ou o grau de secura do habitat um dado fiável para diferenciar as espécies, é porém útil saber que o C. acrostica prefere rochas calcárias (sendo por isso o único dos cinco que ocorre nos afloramentos calcários do Centro Oeste, desde Sicó até à Arrábida), que o C. guanchica também gosta de substratos básicos, e que os restantes três se refugiam em rochas siliciosas ou (no caso do C. hispanica) em quartzitos. Sendo o C. hispanica de fácil identificação pela cor ferruginosa do verso das frondes, resta-nos o problema real de distinguir o C. maderensis do C. tinaei. Além do que está explicado nesta página, é de assinalar a presença de pêlos glandulares só no C. tinaei, e de algumas páleas (ou pequenas escamas) ao longo da ráquis do C. maderensis (3.ª foto acima).

O regresso do C. guanchica aqui ao escaparate justifica-se não só para compor este retrato de família, mas também para celebrar o nosso reencontro, na serra do Monchique (Algarve), com um feto que antes apenas víramos na ilha do Pico (Açores).



Cheilanthes guanchica Bolle (fotografado em Monchique, Algarve)

24/06/2014

Destino trocado

Ranunculus paludosus Poir.
Desconfiamos do bom senso dos taxonomistas quando um ranúnculo como este, com vincada predilecção por lugares secos sobre solos pobres, arenosos ou pedregosos, recebe o epíteto de paludosus, indicador de preferências ecológicas exactamente opostas àquelas que a planta manifesta. Em nosso socorro, vem a Flora Ibérica esclarecer que o botânico francês Jean Poiret (1755-1834), autor da combinação, não quis usar de ironia ao escolher o nome Ranunculus paludosus: as plantas por ele descritas viviam mesmo em prados húmidos, e distinguem-se de outras que hoje recebem o mesmo nome por terem hastes mais ramificadas e mais robustas. É provável, segundo a mesma fonte, que esse amalgamento tenha que ser revisto, e que o "Ranunculus paludosus" de habitats secos venha a integrar uma espécie autónoma.

As plantas que vimos na Quinta das Carvalhas, no Douro, ocupando a berma de um caminho soalheiro e pouco frequentado, não ultrapassariam os 10 cm de altura. Tratando-se de um género em que a distinção entre espécies é por vezes problemática, convém notar, para uma identicação segura, o formato heterogéneo das folhas basais, que são todas longamente pecioladas mas variam de cordiformes a profundamente divididas (foto 4); e também (ver foto 3) a densa indumentação na haste e o cálice formado por sépalas patentes (ou seja, encostadas às pétalas e não reviradas para baixo, como sucede por exemplo no R. trilobus e no R. bulbosus).

Distribuído por toda a região mediterrânica, este Ranunculus paludosus de terrenos áridos só não faz o pleno das províncias portuguesas porque o Minho, culpado de excesso de pluviosidade, fica de fora. Como sucede com a maioria dos seus congéneres (contam-se mais de trinta só em Portugal), tem uma floração temporã, com início em Fevereiro, e esconde-se logo que o calor ameaça apertar. O Verão não é tempo de ranúnculos e são outras as flores a hastear a bandeira amarela.

03/06/2014

Palha azul


Galium glaucum L. subsp. australe Franco


No tempo em que os rios não tinham o seu percurso seccionado por muralhas de betão, usava-se a expressão «leito de cheia» para designar aquelas zonas que só ficavam submersas quando o caudal engrossava. Essas oscilações de nível acompanhavam o correr das estações, fazendo com que a mesma paisagem assumisse ao longo dos meses roupagens muito variadas. Agora, junto às grandes barragens, há uma única mudança, brutal e estática, no nível das águas: a montante, estende-se um imenso lago eutrofizado; a jusante, escoa-se um fio de água que mantém a custo um rio moribundo. E é assim de Janeiro a Dezembro.

A vegetação de leito de cheio, que tão ameaçada está em Portugal com a artificialização dos rios, é muito especializada, e em geral nem gosta de molhar os pés, preferindo em cada ano esperar que as águas desçam para cumprir o seu ciclo vital. É justo questionar tão dúbia preferência: para quê estar tão perto de um rio se, para a sobrevivência da planta, é necessário que ele recue? A resposta é de índole quase filosófica: por muito precário e improvável que seja um nicho ecológico, a natureza não o pode desperdiçar, e há sempre uma planta adaptada a viver nele.

A jusante da barragem de Bagaúste, na Régua, a redução do caudal do Douro é quase permanente, apenas contrariada nas épocas de muita chuva, quando o rio, alimentado por descargas sucessivas, revive glórias antigas e ameaça inundar a baixa da cidade. Mas esses episódios são esporádicos e de curta duração. A vegetação ribeirinha mudou definitivamente, dominada agora por um salgueiral exuberante que ocupa até as ilhotas surgidas com o emagrecimento do rio. Debruçamo-nos no paredão e, como botânicos amadores incorrigíveis, invade-nos a vontade de observar de perto essas manchas verdes. Como podemos descer até elas? Alugamos um barco na Régua? Saltamos um portão com avisos de perigo e de proibição de passagem a pessoas estranhas ao serviço? Dois pescadores à linha que não parecem estar ao serviço da EDP respondem-nos quando de longe os interrogamos aos gritos. Sim, há uma passagem debaixo da estrada por um ribeiro entubado que agora está seco. O acesso, escondido entre silvas, mal se vê, e o túnel, baixo e com 20 a 30 metros de comprimento, é de uma escuridão absoluta. No final, para rematar, há um lanço de escadas estreito e íngreme. Completamos a travessia não sem alguma palpitação e suores frios, à mistura com os suores quentes próprios do dia escaldante. Estamos nas rochas na margem esquerda do Douro, a uma centena de metros da barragem. Das surpresas botânicas que nos aguardam merecem realce a rara Petrohagia saxifraga e este azul Galium glaucum, não assim tão raro mas aqui talvez no limite oeste da sua distribuição em Portugal e, a uma altitude de 60 m, bem fora do intervalo de 345-730 m prescrito pela Flora Ibérica.

O género Galium, a que os ingleses chamam bedstraw por algumas espécies terem servido para enchimento de colchões, é dos mais diversificados da flora portuguesa. As 21 espécies listadas para o nosso país incluem plantas anuais, outras perenes, umas rastejantes e minúsculas, outras erectas que podem ultrapassar 1 metro de altura. Caracterizam-se pelas folhas verticiladas, em grupos de quatro ou mais, e pelas pequenas flores brancas (às vezes amarelas), de quatro pétalas, dispostas em cachos terminais ou axilares. Com os seus quase 80 cm de altura,o G. glaucum está no grupo dos mais taludos do género, e pela floração profusa, visível de Maio a Julho, é certamente dos mais atraentes. É uma planta perene que frequenta lugares pedregosos e ácidos, não necessariamente perto de algum rio. A subespécie australe, que já foi espécie autónoma sob o nome de Galium teres, é endémica do quadrante noroeste da Península Ibérica.