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04/09/2018

Lábios pulcros


Cheilanthes pulchella Willd.


Noutras eras geológicas, há seis ou sete milhões de anos, este feto terá existido na Europa e no norte de África, mas foi expulso pela clima progressivamente mais árido e frio da última etapa do Mioceno, com o mar Mediterrâneo secando quase por completo e convertendo-se num deserto salobro. Refugiou-se nas Canárias, onde ficou a salvo das glaciações que atingiram o continente europeu, e onde hoje está presente em cinco das sete ilhas: Grã-Canária, Tenerife, El Hierro, La Palma e La Gomera. Com base num único exemplar de herbário de origem duvidosa, colhido em 1810 talvez na província galega de Orense, várias vezes se alegou a sua existência na Península Ibérica, mas esse improvável encontro (erro de atribuição ou canto do cisne?) nunca se repetiu. A sua presença na Madeira, que seria menos estranha, também está minada por dúvidas, e por isso é apropriado considerar o Cheilanthes pulchella como um endemismo canário, pese embora a sua presumível origem noutras paragens. Antes de migrar para as Canárias terá produzido descendência, desse modo perpetuando os seus genes no continente europeu: juntamente com o C. maderensis, é um dos progenitores do C. guanchica, um feto que em Portugal continental ocorre apenas na serra de Mochique.

O epíteto pulchella pode, em português refinado, traduzir-se por pulcro, e é forçoso admitir que este Cheilanthes pulchella suplanta em beleza qualquer um dos seus cinco congéneres em territónio nacional. As suas folhas têm um desenho mais elaborado, executado por uma mão mais firme, sem as rugosidades e hesitações que maculam as outras espécies. São também maiores, amiúde com porte erecto e crescendo a descoberto, tendo assim melhores oportunidades para se mostrarem do que as que se escondem em fendas de rochas.

O Cheilanthes pulchella dá-se bem com a secura, mas não tolera o frio. Nas Canárias vive sobre rochas vulcânicas, em lugares onde a chuva quase nunca cai; as brisas que pela manhã sopram do mar parecem trazer-lhe humidade que baste. Em Tenerife, nas bermas da estrada que sobe para a montanha do Teide, começa a ver-se a uns mil metros de altitude, num solo caótico formado por calhaus e fragmentos de rocha que dir-se-ia terem sido passados numa trituradora. O coberto arbóreo, que se diria impossível em tal substrato e em tais condições de secura, é composto exclusivamente por pinheiros-das-Canárias (Pinus canariensis). Ao Cheilanthes pulchella juntam-se alguns raros arbustos e outros dois fetos xerófilos, Notholaena marantaea subsp. subcordata e Cosentinia vellea, na tarefa ingrata de pincelar de verde esta paisagem em tons de castanho e cinzento.

28/02/2017

Madeira Fern Fest (4)


Notholaena marantae subsp. subcordata (Sw.) C. Presl


Abandonando por momentos os ambientes húmidos do interior da ilha, descemos à soalheira costa sul da Madeira. Embora o senso comum associe os fetos à presença da água, a verdade é que, na Madeira como em toda a parte, também os há em lugares secos, aproveitando as bolsas de solo nos interstícios das rochas ou de velhos muros de basalto. Esses fetos xerófitos, com uma apetência quase suicida pela luz solar, têm porém uma fraqueza, que é o de se encarquilharem todos na estação seca. Mostram-se de peito feito para enfrentar o sol, mas encolhem-se quando o sol escalda. O seu seguro de vida é a capacidade de reverdecerem com o regresso da humidade: as folhas amarfanhadas, na aparência totalmente secas, têm uma capacidade de regeneração de fazer inveja a Cristo ressuscitado. (Veja-se nesta página a extraordinária recuperação de uma douradinha — Asplenium ceterach — em apenas 24 horas.)

Graças a essa vulnerabilidade que é sobretudo uma forma de defesa, os fetos xerófitos no continente só costumam observar-se em boas condições na metade mais fresca do ano. Na Madeira, apesar de situada mais a sul, o efeito temperador do oceano faz com que a estação quente não seja tão extremada. E as plantas que vivem frente ao mar, como o feto que hoje apresentamos, beneficiam diariamente de um suplemento de humidade trazido pela neblina. Para quem sobrevive com tão pouca água, essa condensação pode bastar para que as folhas (ou boa parte delas) se mantenham verdes mesmo no Verão. Apesar de o termos fotografado em Dezembro, é provável que este feto não estivesse menos fotogénico no pico de Agosto.

A Notholaena marantae distribui-se por todos os países do sul da Europa, no norte de África fica-se por Marrocos, e alcança ainda a Turquia, os Himalaias e o Iémen. Também ocorre no arquipélago das Canárias e na ilha da Madeira, mas sob uma forma peculiar (subespécie subcordata), que se distingue da forma continental (subsp. marantae) pelo maior tamanho das frondes, e pelo maior número de pinas e de pínulas em cada pina. (Nas fotos acima, em especial na terceira, o leitor pode verificar que as pinas têm amiúde 9 ou 10 pares de pínulas, enquanto que na N. marantae do continente — veja aqui ou aqui — têm no máximo 5 ou 6.) De resto, ambas as subespécies têm a face inferior das pinas revestidas por escamas arruivadas e a face superior lustrosa, como que envernizada. Quanto ao tamanho, as frondes da subsp. subcordata podem chegar aos 45 cm de comprimento, mas as da subespécie marantae não ultrapassam os 35 cm.

Outra coisa em que as duas subespécies divergem é na ecologia. No continente não existem as rochas basálticas, ou os muros do mesmo material, onde se acolhe o feto madeirense. Mesmo que existissem, é improvável que servissem de morada à N. marantae subsp. marantae, reconhecidamente picuinhas na escolha de habitat: em Portugal (e, com raras excepções, ao longo de toda a sua distribuição europeia) só lhe servem os afloramentos ultrabásicos, o que limita a sua presença por cá a uns escassos lugares em Trás-os-Montes. Em contraste, como na ilha o que não falta é basalto, a N. marantae subsp. subcordata dispõe na Madeira de inúmeros possíveis habitats. É fácil de encontrar na costa sudoeste, nos muros ladeando as veredas íngremes que eram a única ligação entre os povoados antes de se rasgarem as modernas estradas.

11/10/2016

Ouro em pó

Uma das obrigações do turista em São Miguel é, pelo menos uma vez, tomar banho nas águas sulfurosas e tépidas da Caldeira Velha. Não será bem uma obrigação, já que pode fazer o mesmo no parque das Furnas, mas a Caldeira Velha é um lugar mais recatado, tanto por ter entrada paga como por ser afastado das povoações. Há uma fonte de água escaldante, capaz de cozer qualquer incauto que nela mergulhe, mas que logo depois se mistura com a água fria de um ribeiro para alimentar várias piscinas naturais a uma temperatura tão deliciosa como a do banho lá em casa.

Desde a entrada até às piscinas, são muitos os avisos aos visitantes para não saírem dos caminhos e não pisarem ou danificarem a vegetação. Quem ignora as indicações é imediatamente admoestado pelos vigilantes que patrulham o recinto. Justificar-se-á tanta preocupação por estarmos num refúgio de espécies raras da flora açoriana, que importa pôr a salvo das tropelias dos visitantes? O coberto vegetal, infelizmente, não merece tal desvelo, dominado que é por plantas ruderais e pelas mesmas exóticas invasoras a que nos habituámos. Sim, a colecção de fetos ou afins (Dryopteris azorica, Diplazium caudatum, Culcita macrocarpa, Palhinhaea cernua) é valiosa e atraente, mas não chega para disfarçar o desmazelo no controle da vegetação infestante. Um pífio "jardim de endémicas", em estado de completo abandono, com uma dúzia de árvores que nunca hão-de crescer, algumas já secas, esconde-se envergonhado num canto. Será tudo isto resultado da falta de pessoal? Há com certeza falta de gente qualificada ou de quem saiba dirigi-la, mas, tudo somado, vimos umas 20 pessoas a trabalhar: na bilheteira, na vigilância, nos balneários, ou até a varrer as folhas secas do chão.



Pityrogramma calomelanos (L.) Link var. austroamericana (Domin) Farw.


Se o problema da Caldeira Velha fosse a penúria orçamental, talvez o pó dourado que recobre o verso das folhas do Pityrogramma calomelanos pudesse dar uma ajuda. Mas nem tudo o que luz é ouro, e fora dos contos de fadas nenhuma planta é capaz de produzir o metal precioso. Porém, mesmo que não enriqueça quem decida cultivá-lo, este feto neo-tropical, visto por trás ou pela frente, é um dos mais bonitos que conhecemos. Originário da América Central e do Sul, a sua beleza serviu-lhe de passaporte para muitas regiões tropicais e subtropicais da África, Ásia e Oceania, onde conseguiu naturalizar-se com maior ou menor sucesso. Na África do Sul, por exemplo, frequenta bermas de estrada e outros sítios perturbados e mais ou menos pedregosos na metade leste do país, em geral na proximidade de lugares habitados, não se esperando que venha a ter comportamento invasor problemático. Já na Ásia e em certas ilhas do Pacífico ele não parece ter usado de igual parcimónia, e as notícias são bem menos optimistas. Nos Açores, onde está assinalado desde 1907, foi até hoje visto em São Miguel, Faial e Terceira, mas permanece muito raro e talvez já não exista no Faial. As temperaturas moderadas do arquipélago não devem ser favoráveis à disseminação de um feto que preferirá ambientes mais cálidos. Na Caldeira Velha instalou-se junto à fonte de água quente, sobre um solo borbulhante e instável que parece a tampa de uma panela de pressão, e por entre os vapores de enxofre que nos coçam o nariz e embaciam a vista.

O Pityrogramma calomelanos é um feto de tamanho médio. As suas frondes arqueadas, que se dispõem em tufos, têm pecíolo negro, comprido, e lâminas foliares bipinadas, de formato lanceolado, com uns 40 cm de comprimento máximo (no seu continente de origem é capaz de duplicar esta marca). A sua elegância e simetria, ajudadas pela cor verde brilhante, são irrepreensíveis.

Pityrogramma ebenea (L.) Proctor
Oriundo também da América tropical, mas de presença reportada só em 1993, está naturalizado em São Miguel um outro feto do género Pityrogramma. Trata-se do P. ebenea, menos prendado do que o seu conterrâneo, com frondes desenhadas a traço mais grosso, o pó de talco (que não é talco) fazendo as vezes do pó de ouro (que não é ouro). Mesmo sem lhe espreitarmos o verso das pínulas para conferir a cor, podemos notar que as pinas têm um remate rombudo em vez de pontiagudo, e que as pinas superiores são perpendiculares à ráquis, enquanto que no P. calomelanos elas fazem com esta um ângulo agudo.

Ao contrário do P. calomelanos, o P. ebenea, que é algo maior do que o seu congénere, não parece buscar só ambientes de sauna. Vimo-lo em dois pontos a caminho da lagoa do Fogo, e é de supor que a sua expansão em São Miguel esteja apenas no início.

13/10/2015

Cabrinha de Sichuan



Onychium japonicum (Thunb.) Kunze



Este feto asiático, que encontrámos numa berma de estrada na ilha do Pico, poderia ter vindo de Sichuan, uma das províncias da China central, mas também de muitos outros lugares e países do extremo oriente, como o Japão, Coreia, Taiwan, Tailândia, Vietname, Nepal, Índia, Paquistão e Filipinas. Os horticultores ocidentais comercializam-no com o nome de Sichuan lace, pois as suas frondes muito recortadas e de textura delicada são comparáveis à mais fina renda. Iguais encómios têm merecido alguns fetos do género Davallia: no Brasil, a Davallia fejeensis (que não é portuguesa nem europeia) tem sido chamada de renda-portuguesa. O que temos à mão em Portugal continental e na Madeira é a Davallia canariensis, que apelidamos de cabrinha por causa do rizoma alongado, coberto de escamas arruivadas, que faz lembrar as patas desse bicho. Embora o Onychium japonicum tenha um rizoma curto que não suscita tal comparação, parece-nos desculpável chamar-lhe cabrinha-de-Sichuan. Até porque já houve gente muito qualificada que a confundiu com a verdadeira cabrinha, e que vai daí anunciou ao mundo que a Davallia canariensis é espontânea nos Açores. Os erros de gente qualificada podem ter uma longevidade assombrosa, já que os desmentidos, para produzirem efeito, terão de vir de gente não menos qualificada. Foi em 1899 que Michel Gandoger (que já referimos a propósito do folhado açoriano), no artigo Plantes nouvelles pour les îles Açores, proclamou que, ao contrário do que Trelease (em Botanical observations on the Azores, 1897) afirmara, a Davallia canariensis existia realmente no arquipélago. Quem tinha razão, segundo Gandoger, era Drouet, que defendera isso mesmo em 1866, no seu Catalogue de la flore des îles Açores. Eis o que escreveu Gandoger:
Davallia canariensis Sm. — Cette Fougère, indiquée aux Açores par Drouet, Cat., p. 213, en a été exclue par Trelease, Bot. azor., p. 170, qui dit: «Evidently an error, the specimens perhaps from Madeira.» Mais M. Carreiro vient de l'y retrouver, au Pico do Salomão. Cependant les échantillons des Açores ne cadrent pas exactement avec ceux que je possède d'une quinzaine de localités des Canaries, de Madère, de Portugal et d'Éspagne. La plante des Açores devra être dénommée (...)

... e a essa peculiar forma açoriana da cabrinha deu Gandoger o nome de Davallia canariensis var. azorica. Na descrição em latim, Gandoger chama a atenção para a disposição linear dos esporângios, bem diferente da que a Davallia costuma apresentar. De facto, o feto colhido em São Miguel que Gandoger descreveu como um novo táxon não era senão o Onychium japonicum — comparem-se os seus esporângios com os da D. canariensis. Os estudiosos da flora açoriana não se deixaram enganar pelo erro — nem Palhinha nem Franco incluem a D. canariensis na lista de espécies do arquipélago — mas, na falta de um desmentido formal escrito na mesma língua por botânicos igualmente reputados, persiste ainda hoje, em obras de referência francesas (por exemplo no livro, de resto excelente, Les fougères et plantes alliées de France et d´Europe occidentale, de Rémy Prelli, publicado em 2000), a ideia de que a D. canariensis existe nos Açores. Embora, curiosamente, nunca se faça menção da var. azorica.

O Onychium japonicum, que está naturalizado nos Açores há mais de um século, tem-se comportado com louvável comedimento. Mantém-se nas mesmas três ilhas em que foi assinalado — São Miguel, Pico e Faial — e pelo menos nas duas últimas continua a ser muito raro. A razão talvez seja a fraca produção de esporos, já que não conseguimos detectá-los nas plantas que examinámos.

Uma outra confusão rodeia o nome Onychium japonicum, pois esse binómio tanto parece aplicar-se ao feto que apresentámos como a uma certa orquídea também asiática cujo nome actual é Dendrobium moniliforme. Um dos princípios basilares da taxonomia botânica é que o mesmo nome não pode designar duas espécies diferentes. Este caso viola tal princípio de forma agravada: Onychium tanto parece ser nome de um género de fetos como de um género de orquídeas. O que sucedeu foi que em 1825 o holandês Carl Ludwig Blume (1796-1862) baptizou um género de orquídeas com o nome Onychium, ignorando que o mesmo nome já tinha sido atribuído em 1820 pelo alemão Georg Friedrich Kaulfuss (1786–1830) a um género de fetos. Por força da regra da prioridade, o uso do nome Onychium para designar orquídeas é ilegal, e portanto Onychium japonicum é a designação válida de um feto e não de uma orquídea. Mas este estranho caso do feto e da orquídea homónimos ilustra ainda a conveniência de usar nomes botânicos completos, que incluam os respectivos autores: Onychium japonicum (Thunb.) Kunze já é diferente de Onychium japonicum Blume, e só a primeira combinação é válida.


Açores: Pico com São Jorge ao fundo

14/04/2015

Decifrar os lábios


Cheilanthes maderensis Lowe


São motivo de justificado espanto o zelo e a perspicácia com que os botânicos, esses mexeriqueiros, investigam a vida amorosa dos fetos. Um leigo até apostaria que o assunto é vazio, já que (julga ele saber) é pelas flores que as plantas se amam e se reproduzem, e os fetos nem flores têm. Mas também algum historiador ingénuo poderia pensar que, por força do celibato, nada haveria a contar da vida carnal do clero católico, e afinal foram muitos os filhos de pais incógnitos gerados no silêncio dos mosteiros e das casas paroquiais.

A promiscuidade vegetal tem aspectos interessantes, em particular entre as pteridófitas. Quando se cruzam duas espécies distintas, o mais provável é que o híbrido resultante seja estéril, já que os cromossomas do "pai" e da "mãe" são incompatíveis e não conseguem formar pares perfeitos. Um modo de fintar a esterilidade é, em vez de tentar o emparelhamento, duplicar o número cromossómico, juntando todos os cromossomas dos dois progenitores. O filhote dessa relação é chamado de poliplóide (triplóide, tetraplóide, pentaplóide e assim por diante, dependendo de quantas cadeias de cromossomas herdou); e, tal como sucede com os híbridos, exibe caracteres morfológicos intermédios entre as duas espécies. Trata-se, contudo, de uma nova espécie, capaz de se multiplicar por reprodução sexuada. Ainda que muito raramente um acasalamento interespecífico resulte em poliploidia, calcula-se que ela seja responsável por mais de metade das espécies vegetais existentes à face da Terra. O mecanismo darwinista de evolução e adaptação graduais não é pois o único a actuar na diferenciação das espécies.

Das cinco espécies de Cheilanthes existentes na Península Ibérica (e em Portugal), duas delas (C. hispanica e C. maderensis) são diplóides, significando isto que se situam na base da árvore genealógica. Destas duas e dos seus parceiros de ocasião descendem as restantes três espécies, todas elas tetraplóides: C. guanchica, C. acrostica e C. tinaei. O facto de os poliplóides guardarem a informação genética completa dos seus antepassados imediatos permite identificá-los mesmo em casos de paradeiro incerto. Assim, o que hoje aqui trazemos é o retrato de uma família algo disfuncional, em que se vêem a mãe (C. maderensis, em cima) e o filho (C. guanchica, em baixo) mas falta o pai (C. pulchella), que ultimamente só tem sido visto nas ilhas Canárias. Se a genética fornece provas inequívocas deste parentesco, aquilo que nos é dado observar (com a ajuda da lupa ou de fotos muito ampliadas) torna-o ainda mais plausível: tanto na forma das pínulas como na dos pseudo-indúsios (que no C. maderensis são fragmentados e no C. pulchella revestem continuamente as margens), o C. guanchica é a média aritmética perfeita dos seus progenitores.

Todos os Cheilanthes gostam de lugares secos, vivendo em fendas de rochas ou de muros com maior ou menor exposição solar. Não sendo o apreço pelo sol ou o grau de secura do habitat um dado fiável para diferenciar as espécies, é porém útil saber que o C. acrostica prefere rochas calcárias (sendo por isso o único dos cinco que ocorre nos afloramentos calcários do Centro Oeste, desde Sicó até à Arrábida), que o C. guanchica também gosta de substratos básicos, e que os restantes três se refugiam em rochas siliciosas ou (no caso do C. hispanica) em quartzitos. Sendo o C. hispanica de fácil identificação pela cor ferruginosa do verso das frondes, resta-nos o problema real de distinguir o C. maderensis do C. tinaei. Além do que está explicado nesta página, é de assinalar a presença de pêlos glandulares só no C. tinaei, e de algumas páleas (ou pequenas escamas) ao longo da ráquis do C. maderensis (3.ª foto acima).

O regresso do C. guanchica aqui ao escaparate justifica-se não só para compor este retrato de família, mas também para celebrar o nosso reencontro, na serra do Monchique (Algarve), com um feto que antes apenas víramos na ilha do Pico (Açores).



Cheilanthes guanchica Bolle (fotografado em Monchique, Algarve)

23/09/2014

Ao sol no basalto


Cheilanthes guanchica Bolle


Os anglo-saxónicos chamam lip fern aos fetos do género Cheilanthes, o que etimologicamente se justifica notando que esta palavra de origem grega é composta por cheilos (= lábio) e anthos (= flor). Até os mais distraídos sabem que os fetos não dão flor, mas neste contexto o termo faz referência aos esporos, que são o modo que estas plantas ditas primitivas têm de se reproduzir. Os esporos aparecem resguardados por uma dobra na margem das pínulas que, podemos concedê-lo, são algo semelhantes a lábios humanos. E tal como há lábios grossos ou finos, uns mais rectilíneos e outros mais arredondados, também nos Cheilanthes essa parte da anatomia (ou, mais propriamente, da morfologia) varia consideravelmente, permitindo distinguir espécies que de outro modo se confundiriam. Verdade seja dita que, no trato entre humanos, o expediente de reconhecer as pessoas apenas pelos lábios causaria estranheza. Na verdade, o que as pessoas têm de mais individual (o código genético, a impressão digital) não é usado no quotidiano para nos reconhecermos uns aos outros. As caras são facilmente falsificáveis pela habilidade de um cirurgião plástico ou, muito mais prosaicamente, pelo talento de um actor. Se alguma espécie mais avançada fizesse da nossa objecto de estudo, certamente não se deixaria guiar pelas caras ao catalogar os espécimes estudados.

É então pelos lábios, neste caso algo ressequidos pela estiagem que acontece em Agosto mesmo nas ilhas (as fotos são do Pico), que podemos identificar com segurança este feto como Cheilanthes guanchica, diferente dos seus congéneres que costumamos encontrar em habitats rochosos de diversa natureza (granítica, xistosa, calcária) no continente português. Tal diferença entende-se melhor comparando a terceira foto de hoje com as da última coluna desta página. Os lábios têm uma membrana branca e transparente que os prolonga: chama-se pseudo-indúsio. No C. guanchica o pseudo-indúsio é alongado e praticamente contínuo; no C. maderensis ele é fragmentado em pequenos segmentos; no C. acrosticha é fimbriado; e no C. tinaei ele quase não existe. Só com vista muito apurada, ou com o auxílio de lupa ou de macro-fotografia, é que este receituário se pode usar na prática. E só na presença de frondes férteis, frescas e bem desenvolvidas ele se revela inequívoco. Por isso a melhor altura para destrinçar estes fetos, e para os observar em boas condições, é entre o final do Inverno e o início da Primavera. Ainda que tenham a fama de gostar de sol e de procurar os lugares mais secos e expostos, o certo é que as frondes estiolam e desaparecem durante os meses secos e quentes — podendo no entanto algumas delas reverdecer com o regresso das chuvas.

O Cheilanthes guanchica, que terá origem no cruzamento de dois dos seus congéneres (C. maderensis e C. pulchella, este último endémico das Canárias), é um feto com frondes de 8 a 15 cm de comprimento, dispostas em tufos, que nos Açores surge, e muito raramente, no Pico e em São Jorge, preferindo altitudes baixas e fendas de muros ou rochas basálticas com boa exposição solar. Parece ser a única espécie de Cheilanthes que ocorre no arquipélago, pois as referências à presença do C. maderensis (que já se chamou C. pterioides) dever-se-ão a erros de identificação. Foi originalmente descrito, em 1859, a partir de exemplares colhidos em Tenerife, pelo botânico alemão Carl August Bolle (1821-1909), aludindo o epíteto guanchica aos Guanches, povo que ocupava as Canárias antes da conquista do arquipélago pelos castelhanos. Também há notícia do C. guanchica na Madeira, no norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia), na Grécia, em algumas ilhas do Mediterrâneo (Córsega, Sicília), no sul de Espanha e, em Portugal continental, nas serras de Monchique e de Sintra. Seria um feito assinalável, a merecer recompensa, que o leitor encontrasse o feto nalgum desses lugares e nos enviasse um comprovativo da descoberta.

09/09/2014

Migrações & metamorfoses


Pellaea viridis (Forssk.) Prantl


Antes de os humanos baralharem tudo, primeiro com as viagens de barco e mais tarde com as de avião, as ilhas eram universos fechados onde as leis da evolução se cumpriam sem interferências externas. Os organismos vivos que o acaso forçara a uma existência tão confinada tinham de se adaptar para sobreviver, e como resultado desse processo surgiam organismos diferentes de quaisquer outros que existissem no resto do planeta. A evolução, como é evidente, também ensaiou as suas habilidades nas grandes massas continentais, mas aí não houve obstáculos geográficos de monta à disseminação das espécies. Existem endemismos continentais de distribuição restrita (temos alguns em Portugal), mas são poucos e, por regra, são parentes próximos de espécies com distribuição mais ampla. Nas ilhas o número de espécies endémicas é percentualmente muito maior, e é mais marcada a diferença em relação às espécies de outras paragens. A Azorina vidalii, que deveria ser símbolo dos Açores em vez da malfadada hortênsia, não se parece com mais nada neste mundo.

Considera-se que uma espécie pertence à flora nativa de uma região se ela (ou alguma sua antepassada) chegou lá por meios naturais: as sementes ou esporos responsáveis pela colonização original foram trazidos pelo vento ou pelas marés, ou foram transportados pelos pássaros. Quando a introdução é feita, mesmo que involutariamente, pelo homem, já a espécie é classificada como exótica. Dito de outro modo, o homem não se considera parte da natureza. De facto, a civilização humana tem sido construída, e de um modo acelerado nos últimos dois séculos, à custa da destruição ou adulteração do mundo natural. Os Açores de modo nenhum escaparam a essa sina, apesar de serem habitados há menos de seiscentos anos. Sabemos, pelas amostras que nos ficaram de herança, como era a floresta nativa das ilhas, composta por juníperos, azevinhos, loureiros, sanguinhos, paus-brancos e faias-da-terra. Sabemos que as criptomérias, as hortênsias, as conteiras e os incensos foram importados do oriente. Mas nem sempre a destrinça entre o exótico e o nativo se faz de modo tão seguro. Compreensivelmente, as preocupações imediatas dos primeiros habitantes não incluíam a elaboração de uma lista exaustiva do revestimento vegetal das ilhas — se bem que o cronista Gaspar Frutuoso tenha feito, século e meio mais tarde, nos volumes das suas Saudades da Terra (1586-1590), um esforço notável mas não sistemático nesse sentido. Quando, no século XIX, os primeiros botânicos visitaram as ilhas já as transformações tinham sido grandes, e em vários casos já seria difícil decidir se uma dada espécie era nativa ou introduzida. Hoje em dia há técnicas para dar respostas mais seguras a essa pergunta: se uma planta deixou vestígios fósseis, por exemplo, não restam dúvidas sobre a sua presença ancestral nas ilhas. Na ausência de tais provas taxativas, a dúvida permanece. Se o habitat da planta parece relativamente intocado, se a planta nunca foi comercializada por não ter interesse ornamental ou económico, se não está associada a práticas agrícolas (como acontece com certas infestantes de campos cultivados), então é razoável supor que não é exótica. No caso açoriano, um atestado adicional de não-exotismo, ainda que algo incerto, é a planta ter sido referida pelos botânicos oitocentistas ou, melhor ainda, por Gaspar Frutuoso.

Devemos admitir que, aplicando tais critérios à Pellaea viridis, o tribunal botânico, reunido para lavrar sentença, está fortemente inclinado a considerar que nos Açores ela é culpada de exotismo. Só em 1937 ela foi pela primeira vez detectada numa das ilhas, mais exactamente no Faial, e desde então foi vista também em São Miguel, Terceira e Pico. Não sendo moradora das labirínticas florestas de nuvens, mas sim dos lugares desbravados e humanizados do litoral das ilhas, é pouco provável que, se já existisse no arquipélago, a sua presença escapasse aos Hochstetter, Watson, Drouet e Trelease, todos eles pioneiros do estudo da flora açoriana nos idos de oitocentos. E é sabido que ela é estimada por jardineiros e coleccionadores, e que já se naturalizou em lugares distantes como a Austrália e o Hawai. Nas alegações da defesa, algo débeis e pro forma, é lembrado que a área de distribuição natural deste feto abrange boa parte da África, incluindo Madagáscar e o arquipélago de Cabo Verde, além da Índia e de algumas ilhas do Pacífico. Não deverá admitir-se que quem já tanto viajou sem ajuda não teria dificuldades em dar o pequeno salto de 2200 Km entre Cabo Verde e os Açores? Acha bem, meritíssimo senhor juiz — e o advogado de defesa tenta, num último esforço, jogar a cartada emocional —, que se negue a cidadania açoriana a uma das mais elegantes e fotogénicas plantas das nossas ilhas sem haver provas irrefutáveis da prática de exotismo por parte da ré?

O juiz reconhece a fotogenia, mas não a considera como circunstância atenunante, e não muda o teor da sentença condenatória. Sente, porém, um discreto contentamento por ter tido oportunidade de fotografar a Pallaea viridis, ré neste processo, na berma da estrada que liga Cachorro a Lajido, na ilha do Pico. O dossier judicial, ilustrado com as fotos, ficou muito bonito. Agora é só esperar que a sentença transite em julgado.


litoral do Pico entre Cachorro e Lajido

03/02/2014

Tremuras de um feto


Pteris tremula R. Br.


Enquanto imigrantes clandestinos, os fetos têm uma capacidade para passar incógnitos que as outras plantas só podem invejar. E não é por mérito próprio, mas sim pela dificuldade que nós, humanos, temos em distingui-los. Se, num país pouco dado à observação da vida natural, as plantas são, na maioria das vezes, um adereço a que não prestamos atenção, o caso agrava-se desmedidamente quando se trata de fetos, que têm o inconveniente de não florir e por isso quase nunca sobressaem pelo colorido vistoso. Mesmo entre pessoas que professam algum interesse por plantas, não é raro encontrar quem pense que os fetos são todos iguais, ou que no máximo deles haverá duas ou três espécies diferentes.

Os fetos são capazes de se adaptar aos ambientes mais diversos, e também de sobreviver à negligência e ao abandono. Quando o jardim de um palacete arruinado é invadido por silvas em renhida disputa com as demais plantas oportunistas, já sabemos que em poucos anos as flores requintadas e os arbustos exóticos que fizeram o orgulho de gerações de jardineiros se irão perder para sempre. Por vezes nem as árvores resistem ao assalto. Não é incomum, porém, que os fetos, também eles adquiridos a bom preço em algum horto (houve um tempo, há mais de um século, em que os fetos estiveram na moda), tenham artes de se empoleirar nalgum muro e daí procurar poiso menos ameaçado. Quando o matagal tiver sido obliterado pelo betão e convertido em condomínio fechado, já eles estarão a salvo noutras paragens.

É essa a história de vida do Pteris tremula, um feto originário da Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, enquanto imigrante na cidade do Porto. Já o vi em jardins decadentes, onde além dele só havia relva porque tudo o resto morrera sem ser substituído. Já o vi a colonizar muros velhos. Por duas ou três vezes tentou crescer nos jardins do Palácio de Cristal: a motosserra dos motojardineiros sempre lhe frustrou os intentos, mas desistir não é com ele. Sem se importar com o trânsito atroador da VCI, encontrou o seu refúgio mais seguro no canteiro de fetos do Jardim Botânico do Porto, e por lá se tem multiplicado livremente.

Dizem que, nos climas tropicais ou subtropicais onde teve berço, o feto-tremedor pode lançar frondes que chegam aos 2 metros de comprimento; mas, no nosso clima e nas condições algo precárias em que por cá é forçado a viver, elas atingem não mais que uns 70 cm. Tal como sucede com todos os outros fetos do género Pteris (entre eles o P. vittata e o macaronésio P. incompleta), o P. tremula ditingue-se pela disposição linear dos esporângios, protegidos pelas margens recurvadas das pínulas (4.ª foto).

12/04/2013

Vida ultrabásica

Notholaena marantae (L.) Desv. [= Cheilanthes marantae (L.) Domin]


Daqui de cima avista-se o rio Sabor. Gostaríamos de dizer que a paisagem permanece intocada, mutável apenas em obediência às estações: o caudal do rio, que já vimos diminuído, é agora farto, os salgueiros com um pé na água ainda não deram folhas novas. Mas muitos quilómetros a sul cresce a barragem que vai domesticar o ímpeto das águas, e logo aqui abaixo, na margem esquerda, abre-se um aterro como uma grande ferida cor de terra. É possível enquadrar a foto mentirosa para mostrar que nada mudou. Sabemos porém que não é verdade, e desistimos do gesto fútil.

O remédio está em adoptar a atitude de defesa que é necessária noutros pontos do país, mas aqui julgaríamos dispensável. Viemos para ver plantas, coisas pequenas, rentes ao chão, que exigem apenas um olhar de curto alcance; não para olharmos em volta com a voracidade de quem chega a território estrangeiro. E o feto com que marcámos encontro encabeça há longo tempo a nossa lista de plantas-a-ver. No ano passado, confiantes na nossa estrelinha, vagueámos pela margem direita do Sabor em busca dos afloramentos ultrabásicos que o fiel Alyssum serpyllifolium não deixaria de assinalar, mas da Notholaena marantae nem sinais. Este ano, para não repetirmos a excursão mal sucedida, pedimos ajuda a quem sabe, que nos indicou uma localização na margem oposta. Parece óbvio, não é? Se não é de um lado do rio, é do outro. Mas, na impossibilidade de atravessar o rio a salto, uma distância de poucas centenas de metros converte-se num desvio de dezena e meia de quilómetros, boa parte deles por trepidantes estradas de terra batida. Sem a certeza do prémio no final, é pouco provável que alguma vez aqui viéssemos, por muito que nos seduzissem as encostas revestidas de sobreiros.

À hora e no local previstos, deparámos com a Notholaena marantae, feto que em Portugal continental é exclusivo dos ultrabásicos transmontanos, embora noutros pontos da sua distribuição (que inclui a região mediterrânica, a Macaronésia e os Himalaias) possa ocupar rochas vulcânicas e substratos mais ácidos. A excitação do encontro foi algo atenuada por serem poucas as folhas em bom estado: quase todas se apresentavam encarquilhadas, e só uma ou outra folha nova começava a desenrolar-se [foto 4]; um mês depois o panorama seria bem mais alegre. Em comum com outros fetos xerófilos, as folhas da Notholaena marantae ficam engelhadas em períodos de seca prolongada, mas basta um regresso da chuva para reverdecerem. Não duram, contudo, mais que um ano, e as plantas que vimos aprontavam-se ainda para a renovação anual do vestuário.

Meia dúzia de frondes hirtas, com pínulas lisas e de contorno arredondado, pintadas de um verde glauco, davam, aqui e ali, bom testemunho da beleza elegante deste feto. No auge da Primavera elas deverão mostrar-se em formação cerrada, quase militar. Têm de 20 a 30 cm de altura, e exibem um pecíolo longo, pontuado por escamas brancas; na face inferior, iguais escamas deixam entrever os esporângios [foto 5]. É esse revestimento escamoso fazendo as vezes do indúsio que explica o nome do género, derivado das palavras gregas nothos (= falsa) e chlaina (= manta); em floras antigas era usada a forma Nothochlaena. O epíteto marantae atribuído por Lineu vem de Bartolomeo Maranta, médico e botânico veneziano do século XVI que primeiro descreveu a espécie.

02/10/2012

Lábios de xisto

Cheilanthes hispanica Mett.



Um pouco ao modo dos veraneantes indiferentes às doenças de pele, o Cheilanthes hispanica gosta de sol para se queimar. Dizem os manuais, e confirma-o a nossa experiência, que este feto escolhe para habitação as fendas de rochas xistosas ou quartzíticas amplamente expostas aos raios solares. Mas, quando o estio aperta, as folhas ficam engelhadas e quebradiças, como que (para citar Florbela Espanca) pedindo a Deus a gota de água que as faça revigorar. E essa capacidade de ressurreição, ainda que não seja exclusiva dos Cheilanthes (também os polipódios a possuem), é que lhes permite sobreviverem em lugares inóspitos sem terem constantemente de lançar folhas novas para substituir aquelas que sofrem queimaduras graves.

As relações familiares entre os cinco Cheilanthes presentes em Portugal dariam boa matéria para as revistas cor-de-rosa, se essas publicações se interessassem pelo mundo vegetal. O C. tinaei, que já aqui mostrámos, é uma espécie tetraplóide que resulta do cruzamento de duas espécies diplóides, C. hispanica e C. madeirensis. O C. madeirensis, promíscuo talvez por ser raro e querer assegurar descendência, é pai de mais duas espécies da flora pteridófita portuguesa, C. acrostica e C. guanchica, tendo para o efeito acasalado com duas espécies inexistentes no nosso país, C. pulchella e C. persica. Parece que a duplicação dos cromossomas traz alguma vantagem competitiva, pois tanto o C. tinaei como o C. acrostica são, pelo menos por cá, bastante mais comuns do que os seus progenitores.

Tanta consanguinidade faz recear que as semelhanças morfológicas entre os diversos Cheilanthes tornem problemática a tarefa de os distinguir. O C. hispanica, porém, diferencia-se bem dos seus congéneres pelo verso das frondes revestidas por pêlos cor de ferrugem, e pelo pecíolo desproporcionalmente comprido (confira na 1.ª e 2.ª foto). Já o C. maderensis, C. tinaei e C. acrostica parecem formar uma brigada de trigémeos, mas, além das miudezas morfológicas aqui tão bem explicadas, deve ter-se em conta a geologia do habitat: o C. acrostica é exclusivo dos calcários, enquanto que os outros dois preferem rochas siliciosas.