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31/01/2026

Confusão de línguas

Habitat de Ophioglossum polyphyllum em Lanzaote

As línguas-de-cobra (género Ophioglossum) são propícias à confusão, por falta de características diferenciadoras que separem claramente as diversas espécies. O botânico norte-americano Robert T. Clausen, numa revisão da família Ophioglossaceae publicada em 1938, concluiu que nem a venação das folhas, nem o seu formato, nem o tamanho ou ornamentação dos esporos, podiam, cada um por si, ser usados para delimitar as espécies de Ophioglossum de modo fiável. Certas pequenas diferenças evidenciadas por populações restritas, ou às vezes apenas por indivíduos isolados, perdiam, segundo esse autor, todo o significado quando vistas no contexto da distribuição mais alargada das espécies. O resultado de estudos parcelares ou muito localizados, valorizando diferenças miúdas, teria sido a proliferação de novas espécies de validade duvidosa — que, na opinião de Clausen, nunca deveriam ter sido publicadas.

O trabalho de Clausen foi assim, em grande medida, o de reunir, para cada uma das espécies que considerou válidas, todos os nomes que, no seu entender, representariam simples sinónimos dessa espécie, não merecendo especial reconhecimento taxonómico. Do Ophioglossum vulgatum, uma das espécies do género mais disseminadas a nível mundial, Clausen contabilizou nada menos que 15 sinónimos.

Acontece que a taxonomia botânica evoluiu muito desde 1938, e nas últimas décadas foi revolucionada de alto a baixo pelos estudos moleculares. Espécies que visualmente mal se distinguem podem agora ser certificadas como distintas por via genética. Além disso, um estudo mais minucioso das diferenças observadas, a par de considerações sobre a distribuição, pode levar ao reconhecimento, como espécies distintas, de entidades morfologicamente próximas mas geografi­camente afastadas. Por exemplo, ao contrário do que defendia Clausen, não se considera hoje que o verdadeiro O. vulgatum ocorra na América do Norte: o que lá há são espécies semelhantes como O. pycnostichum (na costa leste) e O. pusillum (com uma distribuição mais nortenha).

A um olhar contemporâneo, Clausen avulta como praticante extremo de lumping, o acto de amalgamar coisas muito diversas sob o mesmo nome, adoptando conceitos muito latos de espécie e desvalorizando diferenças com o estafado argumento das “formas intermédias” — como se a existência de mulas demonstrasse que cavalos e burros são da mesma espécie.

Ophioglossum azoricum e Ophioglossum polyphyllum são dois dos nomes que, segundo Clausen, seriam sinónimos de Ophioglossum vulgatum. Ambas essas espécies são hoje reconhecidas como válidas — e, nos exemplares típicos, a diferença entre elas e o O. vulgatum é flagrante: são plantas muito mais pequenas, em geral com duas ou mais folhas em vez de uma só, e estas parecem brotar directamente do solo (as do O. vulgatum têm pecíolos muito longos), sendo lanceoladas em vez de largas e rombudas; além disso, cada espiga tem no máximo uns 20 pares de esporângios, quando no O. vulgatum esse número pode chegar aos 40.

Ophioglossum polyphyllum A. Braun


Resta a questão de diferenciar o O. polyphyllum do O. azoricum. Para isso, ilustramos o texto com fotos de ambas as espécies, as da primeira obtidas em Lanzarote, em Dezembro de 2025, perto da playa del risco, as da segunda em Maio de 2022 num prado húmido no concelho de Miranda do Douro. O período de visibilidade destas espécies é desde logo um dado importante: o O. polyphyllum surge no Inverno, o O. azoricum só o faz com a Primavera em velocidade de cruzeiro. Também salta à vista a diferença de habitat: o O. polyphyllum foi fácil de fotografar porque se destacava do solo argiloso-arenoso praticamente nu; o O. azoricum, camuflado numa confusão de mini-herbáceas, fez tudo para dificultar a tarefa do fotógrafo. Quanto às diferenças morfológicas, as folhas do O. polyphyllum são mucronadas e têm um vinco longitudinal notório; as hastes férteis são amiúde ultrapassadas pelas folhas, e o seu ponto de inserção situa-se na base da lâmina foliar (no O. azoricum a folha e a haste fértil separam-se quase a nível do solo); por fim, a espiga dos esporângios é nitidamente mais engrossada no O. polyphyllum do que no O. azoricum.

Ophioglossum azoricum C. Presl
O O. azoricum distribui-se sobretudo pela Europa ocidental, de Itália a Portugal e deste à Grã-Bretanha, Irlanda e Islândia; e, além de estar presente nos Açores, foi assinalado na Madeira e, muito residualmente, nas Canárias. O O. polyphyllum, por seu turno, está presente também em Cabo Verde e tem uma distribuição muito vasta em zonas tropicais e subtropicais de África, Ásia, Austrália e América Central; e, apesar de velhas notícias em contrário, está totalmente ausente da Europa. Só nas Canárias é que as duas espécies coexistem, mas não nos mesmos habitats e nem sequer em lugares próximos.

J. Amaral Franco & M. Rocha Afonso, no livro (de 1982) Distribuição de pteridófitos e gimnospérmicas em Portugal, informam que o O. polyphyllum ocorre em Portugal, algures nas margens da Douro perto da Régua. Além de o habitat favorável não existir nessa região (nem, provavelmente, em nenhuma parcela do território português), o desenho com que os autores pretendem ilustrar a espécie em nada se assemelha às plantas que vimos em Lanzarote. É provável, portanto, que perfilhem um conceito da espécie diferente daquele que é aceite na actualidade. A que se deve tal discrepância?

O nome Ophioglossum polyphyllum foi originalmente publicado em 1844, pelo alemão Moritz Seubert, no seu livro Flora Azorica, sendo então atribuído a plantas que os também alemães Hochstetter (pai e filho) haviam colhido na Terceira no final da década de 1830. Contudo, o nome da espécie e a sua descrição, tal como aparecem no livro, são da autoria de A. Braun, e referem-se a exemplares colhidos por este último em 1837 na Península Arábica. A conclusão da posteridade foi que as plantas árabes são diferentes das açorianas, e portanto o nome Ophioglossum polyphyllum, ainda que aparecido num livro dedicado à flora dos Açores, não pode ser aplicado às plantas açorianas. Os mesmos exemplares colhidos pelos Hochstetter na Terceira serviram de base à descrição, publicada em 1845 pelo botânico checo Carl Presl, do Ophioglossum azoricum; e, ainda que se tenha posteriormente constatado não estarem elas confinadas aos Açores, é esse o nome válido que hoje as ditas plantas ostentam. Para agravar a confusão, o O. azoricum foi, a dada altura, subordinado ao O. vulgatum sob os nomes de O. vulgatum var. ambiguum ou O. vulgatum subsp. ambiguum. Assim, os exemplares colhidos pelos Hochstetter, ainda que pertencentes todos à mesma espécie, levaram a que autores mais incautos decretassem nos Açores (e, em particular, na Terceira) a existência de nada menos que três espécies: O. azoricum, O. polyphyllum e O. vulgatum. Só a primeira dessas línguas-viperinas é que ocorre no arquipélago, embora na verdade haja lá mais uma — O. lusitanicum — que, por ser minúscula, é impossível confundir com qualquer uma dessas três.

Toda esta confusão de línguas foi deslindada cabalmente pelo italiano Rodolfo E. G. Pichi-Sermolli, em 1954, num trabalho dedicado à flora etíope (Adumbratio Florae Aethiopicae 3. Ophioglossaceae, Osmundaceae, Schizaeaceae). O jugo italiano sobre a Etiópia durou apenas de 1936 a 1941, mas treze anos depois ainda havia quem trabalhasse nos despojos do frustrado império. Na parte que nos interessa, desde 1954 que o conceito de O. polyphyllum deveria ter deixado de suscitar dúvidas, pelo que insistir que esse feto existe em Portugal (seja no Continente ou nos Açores) ou em algum lugar da Europa continental só revela distracção ou teimosia.

15/02/2024

Língua de Menorca

Passámos a última semana de 2023 em Menorca; exactamente um ano antes, tínhamos estado em Maiorca. Ficámos assim habilitados a emitir juízos comparativos sobre as ensaimadas de uma e de outra ilha. Gostámos mais das de Menorca, talvez por as termos comido mais vezes e com diferentes recheios: todos os dias ao pequeno-almoço havia novas variedades para experimentar. Mas nem este blogue se chama Dias com Doces, nem os agrados de boca são a motivação principal (ou secundária) das viagens que fazemos. Fomos a Menorca para ver um feto, o mesmo que procuráramos em vão em Maiorca no ano anterior. Desta vez a busca foi coroada de êxito, e é natural que tenhamos ficado mais agradados com a ilha que nos mostrou os seus tesouros do que com aquela que os escondeu. É possível que Maiorca não o tenha feito por avareza: por culpa das cabras devoradoras que assolam a ilha, se calhar já lá não existem o tal feto nem outras preciosi­dades botânicas. Não é por acaso que a caça às cabras assilvestradas em Maiorca está aberta o ano inteiro; em Menorca o problema parece não existir, e essa caça nem está prevista.

É cada vez mais difícil encontrar a língua-cervina (Asplenium scolopendrium) em Portu­gal continental. Há 13 anos, no primeiro e até hoje único concurso Dias com Árvores, desafiá­mos os leitores a descobrir populações desse feto em certos concelhos do Grande Porto. Rui Soares, único participante do concurso, reportou-nos várias localizações em Ovar, concelho que não fazia parte da lista; ainda assim, foi com gosto que o declarámos vencedor e lhe atribuímos o prémio anunciado. Desde então, nós próprios encontrámos a língua-cervina, sempre com poucos exemplares, em Gaia, Espinho e Paredes. No século XIX, pelo testemunho de Augusto Luso no seu Herbaryum Cryptogamicum do Porto e seus arredores (1872-73), a espécie era frequente em Gaia, Fânzeres (Gondomar) e Paranhos (Porto). E não foi apenas a destruição de habitats causada pela expansão urbana que fez o feto rarear: ele também desapareceu de lugares aparente­mente bem conservados onde outros fetos se mantiveram sem problemas. É de suspeitar que, com a subida gradual da temperatura, o nosso clima esteja menos propício à sobrevi­vência da língua-cervina. No norte da Europa, a espécie continua a ser frequente e abundante — e, para não termos motivos de inveja, nos Açores também.

O feto que procurávamos nas Baleares era também uma língua-cervina. Se o povo fosse dado a erudições, chamar-lhe-ia língua-cer­vina-sagitada; o seu nome científico é Asple­nium sagittatum. Tal como o Asplenium scolo­pendrium, tem folhas inteiras e os soros apre­sentam-se geminados: no verso das frondes, cada risca que aparenta ser um único soro é na verdade formada por dois, cada qual com o seu indúsio. Essa característica diferencia estas duas espécies das restantes do género Asplenium (mesmo do A. hemionitis, igualmente com folhas inteiras), e explica que elas tivessem sido tradicionalmente segregadas no género autónomo Phyllitis.

Asplenium sagittatum (DC.) Bange [= Phyllitis sagittata (DC.) Guinea & Heywood]


Como o nome indica, a língua-cervina-sagitada difere da normal pelas folhas... sagitadas — ou seja, pela presença de lobos triangulares na base das folhas. Contudo, essa forma das folhas só é evidente em plantas adultas bem desenvolvidas, e as folhas jovens do A. sagittatum confundem-se facilmente com as do A. scolopendrium. De resto, o A. sagittatum tem folhas de menor tamanho (com 15 a 20 cm de comprimento máximo, enquanto que as do A. scolopendrium podem chegar aos 40 cm) mas com um pecíolo proporcionalmente mais longo, amiúde excedendo em comprimento a lâmina da folha.

Com uma distribuição circum-mediterrânica, e vivendo exclusivamente em fendas de rochas calcárias, o A. sagittatum prefere lugares muito sombrios e húmidos. Em Menorca encontrámo-lo em vários barrancos, mas onde o vimos mais feliz foi em Pas d'en Revull, num caminho estreitíssimo entre grandes paredes rochosas onde a penumbra era permanente. Talvez as peculiares exigências de habitat expliquem a sua raridade em toda a área de distribuição: se no entorno do Mediterrâneo não escasseiam afloramentos calcários, parecem ser poucos os lugares com o grau de frescura que ele exige.

27/06/2023

Açoriano tropical

Grammitis azorica (H. Schaef.) H. Schaef. [fotografada na Terceira]


Entre 1998 e 2001, o botânico Hanno Schaefer levou a cabo, no Faial, nas Flores e em Santa Maria, um exaustivo trabalho de campo que lhe permitiu o mapeamento praticamente completo da vegetação vascular dessas ilhas. Entre as novidades então aportadas à flora açoriana sobressaem o trovisco-macho de Santa Maria e, no extremo oposto da escala de tamanhos, um feto epífito diminuto, de poucos centímetros de comprimento, morador dos hiper-húmidos bosques de juníperos com turfeira que preenchem as cotas elevadas da ilha das Flores. Ainda que estreitamente aparentado com Grammitis marginella, feto tropical cuja área de distribuição abrange Jamaica, Costa Rica e partes do Brasil, o feto descoberto nas Flores singulariza-se pela menor pubescência das folhas, pela presença de pêlos glandulosos ao longo das margens, e pelas frondes de menor tamanho e de ápice obtuso. Estas características diferenciadoras bastaram para que o novo feto fosse oficialmente reconhecido como endémico do arquipélago, primeiro como subespécie de Grammitis marginella, mais tarde como espécie autónoma sob o nome de Grammitis azorica. Embora houvesse suspeitas da sua ocorrência noutras ilhas, até 2013 só havia a certeza da sua presença nas Flores. Nesse ano, Rui Bento Elias e Fernando Pereira encontraram dois exemplares na Terceira, ambos epífitos de Juniperus brefivolia mas em dois lugares afastados; e em 2021 os mesmos botânicos da Universidade dos Açores descobriram no Pico dois exemplares de G. azorica, também em lugares distintos. Assim, apesar de haver apenas quatro exemplares adicionais a atestá-lo, sabe-se hoje que a G. azorica vive em pelo menos três ilhas dos Açores: Flores, Terceira e Pico — as mesmas onde está assinalado o único outro feto da família Grammitidaceae na flora açoriana, Ceradenia jungermanioides (foto em baixo).

Estes dois fetos açorianos de ascendência caribenha são fáceis de distinguir mesmo a olho nu: a Ceradenia jungermanioides tem as frondes mais estreitas, compridas e hirsutas, enquanto que as da Grammitis azorica apresentam margens conspicuamente debruadas a negro. Esse é aliás um carácter distintivo do género Grammitis, que já abrangeu centenas de espécies mas foi em anos recentes drasticamente reduzido, cifrando-se em pouco mais de 20 espécies: a maioria das que se mantiveram exibe folhas com margens sublinhadas a traço preto, como se vê nestes exemplos.

As latitudes a que estão situadas as ilhas, e as temperaturas moderadas que nelas se sentem, não autorizam que se chame tropical à floresta húmida açoriana. No entanto, a humidade exacerbada, a abundância de epífitos (não só fetos e musgos, mas também plantas com flor), o solo encharcado e movediço, a profusão de grandes fetos no sub-bosque — tudo isso cria uma ambiência que talvez só encontre paralelo nas florestas tropicais do Novo Mundo. Não será apenas a menor distância para o continente americano a explicar que estes fetos da familia Grammitidaceae tenham colonizado os Açores mas não a Madeira nem as Canárias. É que são muito poucas as afinidades entre a laurissilva da Madeira (e das Canárias) e a floresta endémica dos Açores — à qual, e também pela circunstância de a árvore dominante ser uma conífera, é por isso inapropriado chamar laurissilva, como muitos autores fazem.

Na 3.ª edição (de 2021) do seu livro Flora of the Azores — A Field Guide, H. Schaefer diz da Grammitis azorica ser provável que ela venha a extinguir-se nos próximos anos. Os escassíssimos exemplares que têm sido encontrados reforçam a ideia de que a planta tem grande dificuldade em reproduzir-se, e é também sabido que o desenvolvimento de um único indivíduo maduro, com produção regular de frondes, é um processo que demora anos, e que só pode desenrolar-se em habitats isentos de perturbações. No artigo de 2001 em que reportava a descoberta da planta nas Flores, Schaefer informava ter apenas encontrado 22 exemplares em toda a ilha. É provável que a maioria deles já não exista: à acção dos colectores sem escrúpulos, que nunca hesitam em colher os últimos exemplares de uma espécie ameaçada (sobretudo em locais onde a fiscalização é inexistente ou ineficaz), junta-se a destruição e degradação dos habitats provocadas pela abertura e alargamento de estradas nas zonas ambientalmente mais valiosas da ilha.

Pela sua inacessibilidade e por se situarem em zonas protegidas, os lugares do Pico e da Terceira onde a espécie foi descoberta têm ficado a salvo de agressões, e não há razões para supor que a alta qualidade desses habitats esteja ameaçada. Há assim uma esperança razoável de que a Grammitis azorica sobreviva nessas ilhas, mesmo quando já tiver desaparecido das Flores.

Ceradenia jungermanioides (Klotzsch) Bishop [fotografada no Pico]

05/05/2023

Fentilho de Maiorca



O barranco de Biniaraix, em Maiorca, ascende desde o vale de Sóller e proporciona um íngreme acesso à serra de Tramuntana, a cordilheira que se estende por todo o limite norte da ilha e atinge os 1445 metros de altitude no seu ponto culminante. Nos primeiros 400 metros da subida, e com excepção de alguns pontos de passagem mais estreitos, as encostas que ladeiam o barranco estão talhadas em socalcos ainda mais vertiginosos que os do Douro. Só que, em vez de vinhas, os patamares estão ocupados por olivais; e, em vez do avermelhado do xisto, os muros exibem a brancura do calcário de que a ilha é feita. A olhos portugueses parece uma paisagem híbrida, um cenário duriense feito de materiais arrancados ao maciço calcário estremenho. É bem apropriado que alguma da vida vegetal refugiada nesses muros seja também ela de origem híbrida.

Asplenium majoricum Litard.


Inicialmente descrito em 1911 pelo francês René Verriet de Litardière (1888–1957) com base em exemplares colhidos nos muros da cidade de Sóller, o Asplenium majoricum foi tido, durante muito anos, como endémico da ilha de Maiorca — ou até endémico do município de Sóller. É que esse feto não frequenta altitudes elevadas e a sua área de distribuição na ilha é bastante restrita. Contudo, sabe-se hoje que o mesmo feto ocorre na Espanha continental, tanto em Valência como no sul da Catalunha, embora se suspeite, pelo estudo de marcadores genéticos, que as duas linhagens da espécie, a peninsular e a maiorquina, tenham surgido de forma independente. De facto, o Asplenium majoricum é um tetraplóide que resultou, por hibridação e duplicação do genoma, do cruzamento de dois fetos diplóides, ambos de apetências calcícolas, o Asplenium fontanum e uma forma ancestral do Asplenium petrarchae. Não é impossível que idêntico cruzamento de espécies, seguido de igual duplicação do genoma, se tenha dado em dois locais distintos: um caso desse tipo foi reportado na Escócia, há 11 anos, com a Erythranthe peregrina (= Mimulus peregrinus), produto da hibridação, ocorrida em pelo menos duas localidades bem afastadas uma da outra, de duas espécies exóticas naturalizadas, uma norte-americana e outra sul-americana.

Com folhas curtas, de 6 a 12 cm de comprimento, o Asplenium majoricum combina o porte miniatural do A. petrarchae com o carácter glabro e o desenho das frondes do A. fontanum. Ter optado pelo tamanho do mais humilde dos seus progenitores valeu-lhe a sobrevivência numa ilha em que as cabras assilvestradas vêm provocando grande destruição da flora espontânea. Encolhido nas fendas dos muros, sem deixar sobressair a ponta de uma folha, não há cabra que lhe ferre o dente. O A. fontanum, com frondes que ultrapassam os 20 cm, pagou cara a imprudência de se mostrar a descoberto: os últimos exemplares conhecidos na ilha foram, há poucos anos, protegidos com redes para não serem devorados por cabras (história completa aqui).

16/09/2022

Vida apomítica



Calcula-se que pelo menos 10% das espécies de fetos actualmente existentes no planeta sejam apomíticas, e portanto dispensem a reprodução sexual. Não significa isso, porém, que a reprodução seja vegetativa (como acontece com as plantas que produzem bolbilhos) ou que os descendentes assim gerados sejam geneticamente idênticos aos progenitores. O ciclo de vida dos fetos alterna entre dois estádios principais: os esporófitos (que apresentam o aspecto que consideramos normal num feto, com raízes e folhas) produzem esporos, e os esporos germinam para dar origem aos gametófitos (que parecem musgos gelatinosos e quase nunca conseguimos observar). São estes que, produzindo espermatozóides e dispondo ainda de orgãos femininos receptivos, se encarregam da tarefa reprodutiva de que resultam novos esporófitos. Os fetos apomíticos alternam igualmente entre estes dois estádios: os esporos que produzem são viáveis, e também se transformam naquela gelatina que são os gametófitos, mas estes estão aptos a gerar novas plantas (ou, para sermos rigorosos, novos esporófitos) sem que haja qualquer fecundação. Assim, a nova planta só tem informação genética de um progenitor: aquele que produziu o (único) esporo que intervém na sua criação. Sucede que, na maioria dos fetos apomíticos, a criação de esporos envolve prévia duplicação de cromossomas seguida por uma redução (meiose). O resultado é que, embora cada esporo tenha os mesmos cromossomas que o indivíduo que o produz, estes podem estar emparelhados de modo distinto (o processo é sumariamente explicado neste artigo); e, se for esse o caso, o descendente não será, geneticamente, uma cópia do seu progenitor.

Assim, ao contrário do que tradicionalmente se supunha, a apomixia pode não ser um beco sem saída no processo evolutivo dos seres vivos. E também não é verdade que o afunilamento genético daí resultante produza sempre linhagens frágeis e pouco competitivas. Um desmentido eloquente é dado pelo vigoroso (e apomítico) falso-feto-macho (Dryopteris affinis subsp. affinis), que está largamente difundido na Europa, e é dos fetos mais comuns em bosques e lugares frescos tanto em Portugal continental como nos Açores e Madeira.

Asplenium filare subsp. canariense (Willd.) Ormonde [= Asplenium canariense Willd.]


Nos arquipélagos da Madeira, Canárias e Cabo Verde existem duas linhagens do Asplenium aethiopicum. Como várias vezes acontece em grupos taxonomicamente intrincados e ainda não inteiramente compreendidos, este nome não designa propriamente uma espécie mas sim um agregado de espécies próximas, com distintos números cromossómicos e diferentes modos de reprodução — o que nem sempre se reflecte em diferenças morfológicas claras ou em preferências ecológicas distintivas. Uma dessas linhagens está ilustrada nas fotos acima, obtidas nos pinhais de Arafo, em Tenerife; recebe o nome de Asplenium filare subsp. canariense, e é exclusiva de três das ilhas Canárias: Tenerife, La Palma e El Hierro. A outra, de que já aqui falámos, corresponde ao Asplenium aethiopicum subsp. braithwaitii, e está presente na Madeira, em La Palma, e em cinco ilhas de Cabo Verde: Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Santiago e Fogo. Segundo José Ormonde, autor de ambas as combinações, estes dois fetos não se distinguem pela ecologia (ambos buscam lugares mais ou menos sombrios em substrato rochoso), mas morfologicamente são suficientemente díspares para serem reconhecidos à vista desarmada: o primeiro tem frondes mais estreitas, nitidamente caudadas. Geneticamente, as diferenças entre eles são importantes: A. filare subsp. canariense é hexaplóide e apomítico, enquanto que A. aethiopicum subsp. braithwaitii é dodecaplóide e de reprodução sexuada.

Que o segundo surja num maior número de ilhas do que o primeiro pode ser apenas um acaso, pois ambos são relativamente raros na generalidade das ilhas onde ocorrem. E não há dúvida de que estes dois nomes correspondem a entidades taxonómicas distintas. Mas serão esses nomes apropriados? Afinal, a generalidade das floras considera que Asplenium filare é ele próprio uma subespécie do A aethiopicum. E estarão essas duas linhagens realmente restritas aos arquipélagos da Macaronésia? Ou existirão também no continente africano ou até em paragens mais longínquas? Ormonde não parece ter chegado a compará-las com plantas de outras proveniências, e o grupo do Asplenium aethiopicum tem uma distribuição vastíssima, que inclui a América tropical, a África, a Austrália e o sudeste da Ásia. Morfológica e geneticamente é um grupo muito variado, e dentro dessa variabilidade não é difícil encontrar, no continente africano (e, em particular, na África do Sul), plantas muito semelhantes às das ilhas. Só um estudo exaustivo, ainda por realizar, poderá esclarecer estas questões.

20/12/2021

A finura dos fetos



A floresta endémica açoriana é uma esponja mergulhada num caldo de nuvens. E as nuvens, em vez de serem aquelas brancas manchas etéreas num céu azul, são cinzentas, espessas, quase sólidas, carregadas de água; não precisam de se esfarelar em chuva para nos encharcarem os ossos. E, naqueles raros intervalos de bonança em que as nuvens se ausentam e o céu se torna visível, percebemos que o solo continua empapado de água e que as galochas são a única escolha sensata de calçado para quem se aventure entre o arvoredo.

Como conseguem as árvores, arbustos e herbáceas aguentar rega tão persistente? São quase anfíbias, de tal modo desenvolveram uma predilecção por meio tão aquoso. Com excepção da criptoméria — que, plantada em extensos povoamentos mono-específicos, substituiu, na maioria das ilhas, a floresta original —, são poucas as árvores exóticas que toleram tal regime hiper-húmido. No Pico, os muitos pinheiros que se plantaram na encosta noroeste da montanha estão a morrer aos poucos, dando lugar a uma floresta nativa em franca regeneração. Com o vagar paciente de quem dispõe de todo o tempo do mundo, a natureza vai corrigindo as asneiras dos homens.

Hymenophyllum wilsonii Hook.


Os cedros-do-mato (Juniperus brevifolia), azevinhos (Ilex perado subsp. azorica), urzes (Erica azorica), sanguinhos (Frangula azorica), loureiros (Laurus azorica) e troviscos-machos (Euphorbia stygiana) que compõem a floresta nativa mergulham as raízes não propriamente em solo firme mas em grandes almofadões de musgão (Sphagnum). Há muitos fetos que se acolhem no bosque, com predomínio, entre os de maior porte, da Culcita macrocarpa (feto-do-cabelinho) e de diversas espécies de Dryopteris. Mas os fetos de menor dimensão (Polypodium azoricum, Elaphoglossum semicylindricum, Trichomanes speciosum) optam, na maioria das vezes, por se empoleirarem em árvores. Muitas delas têm um revestimento de tal modo espesso de fetos e de musgos que não fica um palmo de tronco à mostra.

Nessas florestas, os fetos epífitos mais abundantes, mas menos conspícuos por causa da sua pequenez, são os do género Hymenophyllum, de que ocorrem duas espécies nos Açores: H. tunbrigense e H. wilsonii. São fetos translúcidos, com frondes de 3 a 4 cm de comprimento, muito finas, da cor da azeitona. Formam um rendilhado muito típico que, nas árvores, fica pendente dos ramos ou da base dos troncos. O H. tunbrigense é de longe o mais frequente dos dois, enquanto que o H. wilsonii tem tendência a restringir-se, em cada ilha, às altitudes mais elevadas. É raro encontrar o segundo sem que o primeiro lhe faça companhia, e por isso se torna importante saber diferenciá-los. A distinção entre eles pode fazer-se à vista desarmada, porque o H. tunbrigense tem frondes planas, com divisões relativamente largas, e o H. wilsonii tem-nas dobradas longitudinalmente (fazendo lembrar as águas de um telhado), com divisões estreitas. Para uma identificação mais segura, porém, a lupa ou a macro-fotografia são indispensáveis: a diferença crucial está nos indúsios (membrana ou cápsula que protege os esporângios), que são redondos e fimbriados no H. tunbrigense (fotos abaixos), e alongados e de margens lisas no H. wilsonii (fotos acima).

Hymenophyllum tunbrigense (L.) Sm.

20/09/2020

Ervas do Fresno



Miranda do Douro tem um rio. Não, não é aquele rio das arribas vertiginosas que vem de longe e vai para longe, e que, por ser o rio de muitas terras, afinal não é de nenhuma. Falamos do Fresno, um rio maneirinho que faz todo o seu percurso de 15 km no concelho de Miranda, e que só não se chama ribeira porque rio é título honorífico e num planalto de pouca chuva todos os cursos de água merecem ser festejados. As gentes de Miranda gostam tanto do Fresno que à sua passagem pela cidade o enfeitaram com um repuxo e fizeram das suas margens um parque urbano. Refreando a vontade suicidária das (escassas) águas de se lançarem, de um desnível de 150 metros, no leito amansado do Douro, construíram-lhe represas e engordaram-no com espelhos de água. Assim disfarçarm também a secura que aflige o rio todos os verões, quando a vida se suspende à espera das chuvas de Outono.

Porque preferimos um rio menos ataviado de enfeites, não passeámos no Parque Urbano do Fresno. Em vez disso, fomos para montante, com paragens em Palancar e em Ifanes, para espreitar as ervas que boiavam na água ou se escondiam nas margens entre salgueiros e freixos. As chuvas da Primavera, que tinham sido regulares, ainda permitiam no final de Junho que o caudal se apresentasse nutrido. Seria por pouco tempo, garantiu-nos alguém que colhia couves num quintal à beira-rio. Mais duas semanas e as ervas do Fresno que se mostravam tão frescas estariam todas secas: juncos e ciperáceas, gramíneas, ervas-salgueiras, tábuas, ranúnculos, alismatáceas, miosótis e muitas plantas mais, todas na urgência de florir e frutificar antes de serem vencidas pela estiagem.


Alopecurus aequalis Sobol.


Uma das gramíneas que crescia nas águas do Fresno destacava-se, apesar da modesta altura (não mais que 20 cm), pelas espigas compactas salpicadas com o cor-de-laranja das anteras. Por não precisarem de atrair polinizadores, é raro as gramíneas ostentarem cores vistosas. Tanto assim é que o detalhe colorido nos revelou, sem sombra de dúvida, a identidade dessa gramínea do Fresno. Trata-se da Alopecurus aequalis, planta cuja ampla distribuição abrange os três continentes do hemisfério norte, mas que é escassa em Portugal, onde aparece sobretudo no quadrante nordeste.


Azolla filiculoides Lam.
Formando grandes manchas cor-de-vinho à superfície das águas, aparecia também um feto aquático originário da América tropical, Azolla filiculoides, que aqui confirmava de modo exuberante a capacidade invasora que lhe foi reconhecida pelo Decreto-Lei n.º 565/99. Esta planta só não é um problema mais sério em Portugal porque não tolera o frio e desaparece (ou remete-se à dormência vegetativa) durante o Inverno. Do ponto de vista económico, a planta tem certas virtudes que não parece terem sido aproveitadas em Portugal, e que a levaram a ser introduzida em muitas partes do mundo. A sua capacidade de fixar azoto reforça a produtividade de arrozais e de outras culturas aquáticas, e a planta pode ainda ser usada como fertilizante se recolhida das águas.

01/03/2020

Namorando a avenca



Vista de cima, a ilha Gran Canaria parece uma concha redonda largada no oceano, com um pico vulcânico (las Nieves) com cerca de 2000 metros de altura situado mais ou menos ao centro. Dada a proximidade da costa norte de África (a apenas 150 quilómetros), não surpreende que seja mais verde a norte; a sul, há uma extensão impressionante de dunas (de Maspalomas) que lembram as do deserto do Sahara. Como as outras ilhas do arquipélago, esta é uma terra de barrancos pedregosos, quentes e secos, onde decerto noutras eras correram rios fartos. A Gran Canaria é, porém, uma das ilhas das Canárias com mais espaços naturais protegidos e um maior número de reservas ambientais classificadas pela biodiversidade que ainda conservam. E a lista de endemismos desta ilha é invejável, incluindo vários géneros que não ocorrem nas demais ilhas, como o desta planta que encontrámos, acompanhada por avenca, numa escarpa ressumante na Degollada de Tasartico, no sudoeste da ilha.


Camptoloma canariense & Adiantum capillus-veneris


Camptoloma canariense (Webb & Berthel.) Hilliard [= Sutera canariensis Sunding & G. Kunkel]


Do género Camptoloma, conhecem-se apenas duas espécies além da da Gran Canaria, uma de África e outra com uma região de distribuição mais a leste. Mas este género está ainda em arrumação, e até o nome actualmente aceite para a espécie canariense é recente, de 1991. Estas são plantas de folhagem quebradiça e muito penugenta, de base algo lenhosa, cujas folhas ovadas com margens crenadas formam tapetes, como acontece com alguns fetos em taludes húmidos. A floração da Camptoloma da Gran Canaria decorre oficialmente entre Setembro e Novembro mas, por sorte, havia ainda algumas flores para vermos em Dezembro. São solitárias e de pé longo, com corola tubular enfeitada por uma venação violeta que encontramos com frequência nos géneros Linaria e Antirrhinum, antes incluídos na mesma família Scrophulariaceae.

O nome Camptoloma, proposto pelo botânico inglês George Bentham em 1846, talvez aluda ao bordo (loma) curvado (kamptos) das flores. Como se faltassem nomes para distinguir os inúmeros seres do planeta, é também, desde 1874, a designação dada a um género de lindas traças de asas tigradas.

22/01/2020

Fonte seca


Asplenium fontanum (L.) Bernh.


Os erros em nomes botânicos têm uma história ilustre que remonta pelo menos a Lineu. O pai da taxonomia botânica baptizou plantas de todo o mundo, originárias de lugares que, nesse tempo de viagens demoradas, nunca pôde visitar. Recebidas as amostras, tratava de lhes dar nome tendo em conta as indicações de quem as enviava. Uma troca de etiquetas, a tresleitura de algum apontamento menos legível, o equívoco de se tomarem por nativas plantas cultivadas — tudo isso, em diferentes ocasiões, levou por exemplo a que plantas europeias assumissem identidade sul-americana ou vice-versa. São muito conhecidos os casos da Scilla peruviana, que não é do Peru mas sim de Portugal e Espanha, e do Cupressus lusitanica, de origem mexicana mas descrito (pelo inglês Philip Miller) a partir de exemplares cultivados em Portugal na mata do Buçaco.

Menos conhecidos são os nomes que dão uma ideia errada do hábito ou ecologia da planta. Um exemplo do primeiro tipo é dado pela Genista florida, que anda longe de ser a espécie do seu género com floração mais abundante. Para ilustrar o segundo tipo de erro, convocámos um feto a que Lineu chamou Polypodium fontanum e que, como mandam as regras da nomenclatura botânica, manteve o epíteto específico ao ser transferido para o género Asplenium. Uma tradução possível do nome seria feto-das-fontes; mas, embora haja muitos fetos que gostam de fontes ou de paredes ressumantes, o Asplenium fontanum decididamente não é um deles.

Com frondes estreitas de 10 a 15 cm de comprimento, dotadas de pecíolo curto e dispostas em tufos por vezes densos, e facilmente reconhecível pelo recorte das pínulas e pelo encurtamento muito acentuado das pinas inferiores, o Asplenium fontanum vive em fendas de rochas calcárias, por regra em sítios frescos onde a luz solar não incide directamente. Distribui-se por zonas montanhosas da Europa (Alpes, Pirenéus, maciço do Jura) e do norte de África (cordilheira do Atlas em Marrocos), a altitudes moderadas, maioritariamente entre os 500 e os 1500 metros, revelando especial predilecção pelos grandes vales cársicos. Fotografámo-lo no fabuloso vale de Añisclo, nos Pirenéus aragoneses, no talude de uma estrada que seria pecado não percorrer a pé.