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01/03/2020

Namorando a avenca



Vista de cima, a ilha Gran Canaria parece uma concha redonda largada no oceano, com um pico vulcânico (las Nieves) com cerca de 2000 metros de altura situado mais ou menos ao centro. Dada a proximidade da costa norte de África (a apenas 150 quilómetros), não surpreende que seja mais verde a norte; a sul, há uma extensão impressionante de dunas (de Maspalomas) que lembram as do deserto do Sahara. Como as outras ilhas do arquipélago, esta é uma terra de barrancos pedregosos, quentes e secos, onde decerto noutras eras correram rios fartos. A Gran Canaria é, porém, uma das ilhas das Canárias com mais espaços naturais protegidos e um maior número de reservas ambientais classificadas pela biodiversidade que ainda conservam. E a lista de endemismos desta ilha é invejável, incluindo vários géneros que não ocorrem nas demais ilhas, como o desta planta que encontrámos, acompanhada por avenca, numa escarpa ressumante na Degollada de Tasartico, no sudoeste da ilha.


Camptoloma canariense & Adiantum capillus-veneris


Camptoloma canariense (Webb & Berthel.) Hilliard [= Sutera canariensis Sunding & G. Kunkel]


Do género Camptoloma, conhecem-se apenas duas espécies além da da Gran Canaria, uma de África e outra com uma região de distribuição mais a leste. Mas este género está ainda em arrumação, e até o nome actualmente aceite para a espécie canariense é recente, de 1991. Estas são plantas de folhagem quebradiça e muito penugenta, de base algo lenhosa, cujas folhas ovadas com margens crenadas formam tapetes, como acontece com alguns fetos em taludes húmidos. A floração da Camptoloma da Gran Canaria decorre oficialmente entre Setembro e Novembro mas, por sorte, havia ainda algumas flores para vermos em Dezembro. São solitárias e de pé longo, com corola tubular enfeitada por uma venação violeta que encontramos com frequência nos géneros Linaria e Antirrhinum, antes incluídos na mesma família Scrophulariaceae.

O nome Camptoloma, proposto pelo botânico inglês George Bentham em 1846, talvez aluda ao bordo (loma) curvado (kamptos) das flores. Como se faltassem nomes para distinguir os inúmeros seres do planeta, é também, desde 1874, a designação dada a um género de lindas traças de asas tigradas.

22/01/2020

Fonte seca


Asplenium fontanum (L.) Bernh.


Os erros em nomes botânicos têm uma história ilustre que remonta pelo menos a Lineu. O pai da taxonomia botânica baptizou plantas de todo o mundo, originárias de lugares que, nesse tempo de viagens demoradas, nunca pôde visitar. Recebidas as amostras, tratava de lhes dar nome tendo em conta as indicações de quem as enviava. Uma troca de etiquetas, a tresleitura de algum apontamento menos legível, o equívoco de se tomarem por nativas plantas cultivadas - tudo isso, em diferentes ocasiões, levou por exemplo a que plantas europeias assumissem identidade sul-americana ou vice-versa. São muito conhecidos os casos da Scilla peruviana, que não é do Peru mas sim de Portugal e Espanha, e do Cupressus lusitanica, de origem mexicana mas descrito (pelo inglês Philip Miller) a partir de exemplares cultivados em Portugal na mata do Buçaco.

Menos conhecidos são os nomes que dão uma ideia errada do hábito ou ecologia da planta. Um exemplo do primeiro tipo é dado pela Genista florida, que anda longe de ser a espécie do seu género com floração mais abundante. Para ilustrar o segundo tipo de erro, convocámos um feto a que Lineu chamou Polypodium fontanum e que, como mandam as regras da nomenclatura botânica, manteve o epíteto específico ao ser transferido para o género Asplenium. Uma tradução possível do nome seria feto-das-fontes; mas, embora haja muitos fetos que gostam de fontes ou de paredes ressumantes, o Asplenium fontanum decididamente não é um deles.

Com frondes estreitas de 10 a 15 cm de comprimento, dotadas de pecíolo curto e dispostas em tufos por vezes densos, e facilmente reconhecível pelo recorte das pínulas e pelo encurtamento muito acentuado das pinas inferiores, o Asplenium fontanum vive em fendas de rochas calcárias, por regra em sítios frescos onde a luz solar não incide directamente. Distribui-se por zonas montanhosas da Europa (Alpes, Pirenéus, maciço do Jura) e do norte de África (cordilheira do Atlas em Marrocos), a altitudes moderadas, maioritariamente entre os 500 e os 1500 metros, revelando especial predilecção pelos grandes vales cársicos. Fotografámo-lo no fabuloso vale de Añisclo, nos Pirenéus aragoneses, no talude de uma estrada que seria pecado não percorrer a pé.

21/08/2019

Feto dos lapiás


Gymnocarpium robertianum (Hoffm.) Newman


Talvez os lapiás tenham inspirado a criação da calçada à portuguesa, embora o risco de queda por se meter o pé num buraco seja muito maior no segundo tipo de revestimento. É que nas cidades os olhos esvoaçam pelas fachadas ou pelos outros transeuntes enquanto os pés cumprem distraidamente a sua função locomotora; não esperamos que uma cratera se abra para nos engolir, embora não seja preciso tanto para darmos um trambolhão. Num campo de lapiás, por contraste, os buracos na pedra branca são muitos e estão bem à vista: cada passo tem que ser cuidadosamente planeado e os olhos nunca se podem descolar do chão.

Nos maciços calcários do centro-oeste, entre Condeixa e Torres Novas, são muitos e variados os campos de lapiás. Entre a vegetação fissurícola que coloniza esses espaços contam-se vários fetos: o polipódio (Polypodium cambricum) e a douradinha (Ceterach officinarum), que são abundantes; o avencão (Asplenium trichomanes) e a arruda-dos-muros (Asplenium ruta-muraria), que aparecem com regularidade; o Cheilanthes acrosticha, que é raro; e o avencão-peludo (Asplenium petrarchae), que é raríssimo (embora seja frequente nos calcários do Algarve). Não nos podemos queixar de falta de variedade, ainda que certos fetos calcícolas estejam ausentes do nosso país. Afinal, as grandes cadeias montanhosas peninsulares (cordilheira cantábrica, Pirenéus) são predominantemente calcárias, enquanto que as maiores elevações de Portugal continental são xistosas ou graníticas. Não existindo em Portugal montanhas calcárias, são muitas as espécies peninsulares sem habitat propício no nosso país.

Um dos fetos calcícolas que cá não existe é o Gymnocarpium robertianum, que tem decidida preferência por climas frescos e apresenta uma distribuição circum-boreal, estendendo-se por partes da Ásia, Europa e América do Norte. Na Península Ibérica está quase restrito ao extremo norte (cordilheira cantábrica e Pirenéus), ainda que reapareça, muito escassamente, a sul, na serra de Almijara. Trata-se de uma planta de rizoma rastejante, em que as folhas, de formato triangular e com 15 a 30 cm de altura, brotam espaçadamente em vez de formarem tufos. O nome Gymnocarpium, que se pode traduzir por "frutos despidos", refere-se ao facto de os esporângios não estarem protegidos por indúsios; e o epíteto robertianum deve-se à (pouco óbvia) semelhança das suas folhas com as da erva-de-São-Roberto (Geranium robertianum).

Uma segunda espécie do género, Gymnocarpium dryopteris, está presente na Península Ibérica, também com distribuição sobretudo cantábrica e pirenaica. Os dois fetos são semelhantes no aspecto geral, mas as preferências ecológicas divergentes raras oportunidade lhes dão de se encontrarem na natureza. O G. dryopteris vive em bosques (o epíteto específico pode aliás traduzir-se por "feto dos carvalhais"), ou mais ocasionalmente em rochas sombrias e húmidas, e quase sempre em substrato silicioso. Mesmo que o habitat não deixe dúvidas sobre qual dos dois fetos temos perante nós, há um detalhe morfológico que permite distingui-los sem dificuldade: o G. robertianum, ao contrário do seu congénere, tem o pecíolo e a ráquis das folhas densamente cobertos por pêlos glandulosos (veja-se a 2.ª foto acima).

Obrigados a conviver com a neve, os dois Gymnocarpium abdicam de ter folhas durante mais de metade do ano. Elas só começam a surgir a meio da Primavera, e é no Verão, com a maturação dos esporos, que atingem o seu pleno desenvolvimento, para logo depois secarem e desaparecerem.

14/08/2019

Feto lunar


Botrychium lunaria (L.) Sw.


Atingindo uns 10 a 15 cm de altura máxima, e surgindo de modo efémero entre Junho e Agosto, a parte aérea do feto-lunar (Botrychium lunaria) é formada por duas partes: uma folha (ou fronde) dividida em segmentos com o feitio de lua crescente ou minguante; e uma haste fértil em que os esporângios, pela forma e disposição, lembram um cacho de uvas (é esse precisamente o significado de botrys, palavra grega de que deriva o nome Botrychium). A mesma arquitectura básica, mas com um desenho muito diferente, é partilhada pelas línguas-de-cobra - os fetos do género Ophioglossum, de que são três as espécies espontâneas em Portugal. À afinidade morfológica junta-se a semelhança dos estilos de vida: tanto os Ophioglossum como os Botrychium são plantas vivazes que passam a maior parte da sua vida reduzidas a rizomas subterrâneos; se as condições forem desfavoráveis, podem mesmo em certos anos não emitir folhas, sobrevivendo com a ajuda dos fungos simbióticos que se lhes agarram às raízes. Os dois géneros são os únicos representantes na Europa da família Ophioglassaceae, que representa uma etapa primitiva na evolução dos pteridófitos.

Pela sua pequenez, coloração inconspícua e carácter fugidio, o feto-lunar, tal como as línguas-de-cobra, é de difícil detecção. Está contudo muito disseminado pelas zonas frias ou temperadas dos dois hemisférios, estendendo-se por toda a Europa e Ásia, pelos extremos norte e sul das Américas, pelo norte de África (montanha do Atlas), e pela Austrália e Nova Zelândia. Portugal é o único país do continente europeu onde ele nunca foi visto; em jeito de compensação, sabe-se que ocorre no Pico (no topo da montanha) e na Madeira (Encumeada). Na Península Ibérica, a julgar pelo mapa de distribuição no portal Anthos, é frequente nos Pirenéus e esporádico ao longo da cordilheira cantábrica.

Foi para remediar essa lacuna no nosso currículo de avistamentos botânicos que em Julho de 2015 rumámos à Cantábria e ao Pico Três Mares. Embora o intento saísse frustrado, a viagem foi inesquecível por muitos motivos, tanto que a repetimos em 2017 e 2018. O feto-lunar nada quis connosco, talvez porque, a 2100 metros de altitude, só em Agosto ele se dê a ver. A terceira visita, no final de Maio de 2018, tinha tudo para correr pior do que as anteriores: uma Primavera invulgarmente fria atrasara o degelo e os cumes cobertos de neve permaneciam inacessíveis. Nesse dia, acossados por chuva persistente, a nossa exploração botânica resumiu-se a umas curtas paragens em bermas de estrada. Quando revisitávamos o local onde no ano anterior víramos duas espécies de Gentiana, eis que nos surge o feto-lunar num tapete de musgos e entre tufos de Potentilla montana (espécie abundante na Cantábria). Um encontro inteiramente inesperado, a 15 km de distância e 1000 metros abaixo do local onde anteriormente o procuráramos, e para mais em zona calcária, sabendo nós que o Pico Três Mares é formado por quartzitos.

De modo que aqui está ele exibido como troféu: um único exemplar em condições de ser fotografado entre muitos outros que apenas despontavam. Gostaríamos de o ter encontrado na Madeira ou no Pico, mas quem não tem cão caça com gato e as grandes escaladas de montanha já não são para nós.

24/07/2019

O tempo rasurado

Feto-do-Gerês (Woodwardia radicans) nos jardins do Palácio de Cristal, Porto (Foto: © Daniel Ferreira)

Um antiquário adquiriu por atacado o espólio de um falecido. Entre muita poeira e bricabraque, deparou-se com várias caixas de jóias e adereços femininos. Após rápido exame, atirou ao lixo um colar de ouro que, baço de sujidade, lhe pareceu de latão, e separou com amoroso cuidado, por se lhe afigurarem valiosos, uns brincos de plástico dourado com incrustações de vidro.

Negociante dessa estirpe não mereceria certamente o nome de antiquário. Desacreditado pelos seus pares e pelos seus potenciais clientes, rapidamente se veria obrigado a abandonar uma actividade para a qual não tinha a menor competência.

Os jardins do Palácio de Cristal, no Porto, estão entregues a "jardineiros" que de plantas sabem tanto como esse antiquário sabia de jóias. Move-os uma irreprimível vocação para guardar o pechisbeque e deitar fora o ouro.

A gruta de Camões, rústica estrutura de pedra e betão ao gosto oitocentista de imitação da natureza, dotada de um pequeno lago artificial para recreio dos patos, sombreada por grandes padreiros e castanheiros-da-Índia, está situada no patamar inferior dos jardins, a sul do recinto infantil. Desde há muitos anos (provavelmente desde meados do século passado) que sobre a gruta pendiam as ornamentais folhas do feto-do-Gerês (Woodwardia radicans), que, beneficiando da proximidade da água e da frescura proporcionada pelas árvores, se aclimatou perfeitamente ao lugar, lançando todos os anos abundância de folhas novas. Era um cenário artificial que evocava, de modo notável, as cascatas do Gerês ou dos Açores onde esse feto legalmente protegido em Portugal continental tem o seu habitat.

Nem a beleza do feto, nem a sua óbvia adequação ao local, nem o seu estatuto de espécie protegida: nada pôde salvá-lo da acção ignorante, cega e destruidora dos "jardineiros" do Palácio de Cristal. Na Primavera de 2018, talvez no âmbito de uma renovação de treta cujo ponto alto foi a instalação de uns pindéricos tapetes de relva para disfarçar os estragos causados pelas barracas de feira, todos os exemplares de feto-do-Gerês existentes no Palácio foram cortados e, para garantir que não voltavam, arrancados pela raiz.

A mesma mão bruta que destruiu o ouro deixa em paz o pechisbeque. Plantas invasoras como Acanthus mollis, Tradescantia fluminensis, Ailanthus altissima e Acacia melanoxylon proliferam alegremente em canteiros desmazelados. Nada se planta, nada se cultiva. A única "jardinagem" que ali se pratica, sempre com grande estardalhaço de máquinas, é o corte periódico da vegetação desordenada para que ela não ultrapasse a altura regulamentar.

É por isso moderado o nosso entusiasmo pelas obras de recuperação do Jardim Emílio David, agora em fase de conclusão. O projecto é, com toda a certeza, tecnicamente correcto e historicamente informado, respeitador do histórico jardim e das suas memórias. Mas, sem jardineiros que conheçam e estimem as plantas, que metam as mãos na terra, não haverá jardim digno desse nome, e o Jardim Emílio David recuperado pouco mais será do que uma instalação efémera.



Rhododendron maddenii Hook. f.


A herança de Emílio David não se resume ao desenho, agora escrupulosamente recuperado, dos jardins formais à entrada do Palácio de Cristal. A ele se devem também os dois bosquetes laterais compostos por árvores e arbustos das mais variadas proveniências; e, se parte desse arvoredo é de plantio posterior a 1865 (ano em que os jardins foram inaugurados), é verdade que camélias, rododendros, metrosíderos, ciprestes-de-Lawson e ginkgos denunciam pelo porte uma idade respeitável. Quem por certo lá mora desde o início é o rododendro de flores brancas e tronco avermelhado descascando-se em tiras que se esconde no bosquete do lado nascente. Rodeado que está por árvores de maior envergadura, e florindo apenas entre Maio e Junho, não espanta que este Rhododendron maddenii seja desconhecido até pelos frequentadores mais atentos do jardim.

À data da inauguração dos jardins do Palácio de Cristal, estava no auge entre a elite portuense o entusiasmo pela jardinagem e pelo coleccionismo botânico. O afamado horticultor José Marques Loureiro, estabelecido na Quinta das Virtudes, publicou o seu primeiro catálogo precisamente em 1865. A diversidade das plantas listadas para venda era simplesmente inimaginável: entre inúmeras outras plantas (árvores, arbustos, palmeiras, herbáceas, fetos...) que não cabe aqui nomear, contavam-se mais de 700 variedades de camélias, 75 de rododendros, cerca de 110 azáleas e umas 250 roseiras.

Na pág. 11 do catálogo, e entre sete "espécies novas" de Rhododendron originárias "do Assam e do Butão", aparece o R. jenkinsii, que hoje é tido como sinónimo de R. maddenii. É pois plausível que Marques Loureiro tenha fornecido o exemplar dos jardins do Palácio. Outros rododendros que ainda hoje se mantêm no recinto poderão ter passado pelas suas mãos, entre eles o vistoso Rhododendron arboreum (chamado Rhododendron windsorii no catálogo), que produz grandes cachos de flores cor-de-rosa no início da Primavera.


Polypodium cambricum num muro da Quinta da Macieirinha
A renovação do Jardim Emílio David provocou um dano colateral que pouca gente terá notado; ou, se notou, por certo não considerou importante. É que o solo debaixo dos bosquetes e junto ao gradeamento, onde crescia uma mistura rala de relva, musgos, flores miúdas e fetos, valia como testemunho da passagem dos anos. Ou, se quisermos puxar da erudição, era uma amostra, ainda que em escala diminuta, do trabalho minucioso do tempo, esse grande escultor. Viam-se lá plantas espontâneas que seriam comuns na região quando havia mais espaço para a natureza, mas que no centro da cidade faziam figura de raridades. Eram prova de que, se lhe dermos tempo (um tempo que se mede em décadas), o que é artificial acaba por ser contaminado pelo que é natural. Eis uma lista incompleta dos emissários da natureza que por lá se haviam instalado: morangueiros (Fragaria vesca), violetas silvestres (Viola riviniana), erva-toira-das-heras (Orobanche hederae), fetos variados (Polypodium cambricum, Athyrium filix-femina, Polystichum setiferum), verónicas (Veronica serpyllifolia), e diversos juncos e ciperáceas (Luzula forsteri, Carex divulsa, etc.). Esse solo velho e ricamente infectado pela natureza foi revolvido e obliterado por novas camadas de substrato com os nutrientes na proporção certa para acolher buxos, gilbardeiras e camélias. Nada temos contra esses recém-chegados, mas o tempo foi rasurado, talvez desnecessariamente, e já não estaremos cá para o ver recuperar as décadas perdidas.

15/12/2018

Macho desdentado


Dryopteris oligodonta (Desv.) Pic.-Serm.


A própria etimologia da palavra sugere que os fetos do género Dryopteris (que designamos por fetos-machos) só aparecem, ou aparecem preferencialmente, onde existem aquelas formações vegetais a que chamamos bosques. Um bosque é dominado por árvores de tamanho respeitável, enquanto que os matos são formados pos arbustos de crescimento rápido e igualmente rápida combustão. Contudo, mesmo tendo apenas em conta as espécies europeias, a ecologia destes fetos é de facto mais diversificada: nem sempre o bosque faz falta, e o mais importante parece ser um elevado grau de humidade ambiental - um requisito que, a latitudes mais meridionais, só os verdadeiros bosques costumam satisfazer. Nas Canárias e na Madeira, os bosques típicos mais bem formados são os da laurissilva, que (como o nome indica) é composta sobretudo por lauráceas, mas alberga também outras folhosas perenifólias. O carácter da floresta laurissilva nos dois arquipélagos é diferente: a da Madeira é muito mais húmida, com árvores de maior porte; nas Canárias, algumas urzes arbóreas integram-se no coberto vegetal quase em pé de igualdade com as lauráceas.

É por isso que os fetos-machos são na Madeira muito mais abundantes do que nas Canárias. Na primeira ocorrem quatro espécies (Dryopteris aemula, D. affinis, D. maderensis e D. aitoniana), todas elas fáceis de obsevar na laurissilva e às vezes também em plantações florestais. Nas Canárias estão igualmente assinaladas D. aemula e D. affinis (a primeira só em La Gomera, a segunda em La Gomera e Tenerife), a que se juntam duas espécies adicionais: D. guanchica (La Gomera, El Hierro e Tenerife) e D. oligodonta. Com excepção da última, todas estas espécies são muito raras no arquipélago. A D. oligodonta, por seu turno, é uma componente usual da laurissilva de Anaga, em Tenerife; e, a julgar pelos mapas de distribuição no portal Anthos, o mesmo deverá suceder na laurissilva das outras ilhas. Só não aparece nas duas ilhas mais áridas, Lanzarote e Fuerteventura, onde a própria laurissilva não teve condições para se instalar.

O feto-macho ilustrado nas fotos, Dryopteris oligodonta, é pois o único do seu género que o comum dos visitantes ao arquipélago encontrará. É um feto grande, com frondes três vezes divididas, dispostas em tufos, capazes de ultrapassar um metro de comprimento. D. affinis, por contraste, tem as frondes só duas vezes divididas (compare-se a última foto acima com esta); e D. guanchica e D. aemula, além de serem bem menores, têm as pínulas mais recortadas, com dentes muito mais pronunciados (veja-se aqui e aqui). O epíteto oligodonta anuncia precisamente que este feto-macho tem poucos dentes, o que é injusto face a congéneres seus mais desdentados.

Várias fontes garantem que Dryopteris oligodonta é um endemismo das Canárias, contrapondo outras que o mesmo feto existe nas ilhas cabo-verdianas de Santo Antão e do Fogo. Um estudo exaustivo recente [Jacobus P. Roux (2012), A revision of the fern genus Dryopteris (Dryopteridaceae) in sub-Saharan Africa, Phytotaxa 70] confirma a existência da planta em Cabo Verde, embora ela pareça estar agora confinada a Santo Antão, não tendo sido observada na ilha do Fogo desde 1934, ano em que lá foi colhida pela única vez.

18/09/2018

Douradinha dourada



Ceterach aureum (Cav.) Buch [sinónimo: Asplenium aureum Cav.]


Apesar de ele ser mais prateado do que dourado, douradinha é o nome que em Portugal se dá ao Ceterach officinarum, um feto que aparece de norte a sul do país e é particularmente abundante em rochas e paredes calcárias. A Madeira tem a sua própria versão do feto em formato avantajado: leva o nome de Ceterach lolegnamense e vive na vertente sul da ilha, sobre velhos muros ladeando as íngremes estradas em redor do Funchal. Já aqui lhe dedicámos desenvolvida reportagem; demos então conta de que ele vivia separado dos seus presumíveis pais, Ceterach aureum e Ceterach octoploideum, ambos endémicos das Canárias. De uma espécie gerada por hibridação e poliploidia, espera-se que reúna os cromossomas dos dois progenitores. Sendo o C. aureum um tetraplóide e o C. octoploideum um octoplóide, deveria o Ceterach lolegnamense ser dodecaplóide, mas afinal fez a coisa por metade e ficou-se como hexaplóide. As leis da genética condenavam-no à esterilidade, mas os seus gametófitos praticam a apomixia - ou seja, dispensam a fecundação para produzir novas plantas - e desse modo a espécie logrou perpetuar-se.

Na nossa visita a Tenerife apenas se nos mostrou um dos progenitores do feto madeirense, precisamente o Ceterach aureum, que é o maior dos dois e em tamanho excede claramente o C. lolegnamense. A ecologia do feto canarino é assaz diferente da dos seus congéneres, procurando ele lugares abrigados e húmidos, muitas vezes em ambiente florestal. É um tipo de habitat que é bem menos frequente nas Canárias do que na Madeira ou nos Açores, e daí que o Ceterach aureum, ou douradinha dourada, não seja fácil de encontrar. Vimo-lo apenas no barranco de Añavingo, vicejando na frescura possível de um fim de ano cálido.

O tamanho não nos deixou dúvidas quanto à identidade do feto, mas o caso mudaria de figura se tivéssemos deparado com um feto mais débil. Estando nós mal equipados para contar cromossomas, e de um modo geral para executar tarefas microscópicas, ver-nos-íamos em maus lençóis para distinguir o C. officinarum do C. octoploideum, sendo certo que ambos ocorrem nas Canárias. De facto, e como se conta no artigo (de 2006) Asplenium ceterach and A. octoploideum on the Canary Islands (Aspleniaceae, Pteridophyta), já há muito se haviam detectado nas Canárias duas formas do Caterach, tidas as duas como variedades do C. aureum, e sendo a forma mais pequena chamada de C. aureum var. parvifolium. Essa variedade parvifolium seria octoplóide, e a variedade nominal tetraplóide. O estudo dos autores do artigo revelou porém que muitos dos exemplares atribuíveis à variedade parvifolium eram na verdade tetraplóides, e correspondiam, tanto morfológica como geneticamente, ao exacto Ceterach officinarum do continente europeu. Pior ainda: verificou-se que o holótipo da variedade parvifolium era um exemplar de Ceterach officinarum, o que automaticamente fazia com que C. aureum var. parvifolium e C. officinarum fossem sinónimos. Assim, esse estudo, além de estabelecer a existência de três formas de Ceterach nas Canárias, revelou que uma delas (a forma pequena octoplóide) não dispunha ainda de nome válido, e daí terem-na os autores baptizado como C. octoploideum.


04/09/2018

Lábios pulcros


Cheilanthes pulchella Willd.


Noutras eras geológicas, há seis ou sete milhões de anos, este feto terá existido na Europa e no norte de África, mas foi expulso pela clima progressivamente mais árido e frio da última etapa do Mioceno, com o mar Mediterrâneo secando quase por completo e convertendo-se num deserto salobro. Refugiou-se nas Canárias, onde ficou a salvo das glaciações que atingiram o continente europeu, e onde hoje está presente em cinco das sete ilhas: Grã-Canária, Tenerife, El Hierro, La Palma e La Gomera. Com base num único exemplar de herbário de origem duvidosa, colhido em 1810 talvez na província galega de Orense, várias vezes se alegou a sua existência na Península Ibérica, mas esse improvável encontro (erro de atribuição ou canto do cisne?) nunca se repetiu. A sua presença na Madeira, que seria menos estranha, também está minada por dúvidas, e por isso é apropriado considerar o Cheilanthes pulchella como um endemismo canário, pese embora a sua presumível origem noutras paragens. Antes de migrar para as Canárias terá produzido descendência, desse modo perpetuando os seus genes no continente europeu: juntamente com o C. maderensis, é um dos progenitores do C. guanchica, um feto que em Portugal continental ocorre apenas na serra de Mochique.

O epíteto pulchella pode, em português refinado, traduzir-se por pulcro, e é forçoso admitir que este Cheilanthes pulchella suplanta em beleza qualquer um dos seus cinco congéneres em territónio nacional. As suas folhas têm um desenho mais elaborado, executado por uma mão mais firme, sem as rugosidades e hesitações que maculam as outras espécies. São também maiores, amiúde com porte erecto e crescendo a descoberto, tendo assim melhores oportunidades para se mostrarem do que as que se escondem em fendas de rochas.

O Cheilanthes pulchella dá-se bem com a secura, mas não tolera o frio. Nas Canárias vive sobre rochas vulcânicas, em lugares onde a chuva quase nunca cai; as brisas que pela manhã sopram do mar parecem trazer-lhe humidade que baste. Em Tenerife, nas bermas da estrada que sobe para a montanha do Teide, começa a ver-se a uns mil metros de altitude, num solo caótico formado por calhaus e fragmentos de rocha que dir-se-ia terem sido passados numa trituradora. O coberto arbóreo, que se diria impossível em tal substrato e em tais condições de secura, é composto exclusivamente por pinheiros-das-Canárias (Pinus canariensis). Ao Cheilanthes pulchella juntam-se alguns raros arbustos e outros dois fetos xerófilos, Notholaena marantaea subsp. subcordata e Cosentinia vellea, na tarefa ingrata de pincelar de verde esta paisagem em tons de castanho e cinzento.

16/01/2018

Viagens com musgos


Huperzia selago (L.) Bernh. ex Schrank & Mart.


Por ser parecida com um ramo de abeto (fir) e no seu primivitismo lembrar um musgo, os anglo-saxónicos chamam fir clubmoss a esta planta. Se a comparação com o abeto é apropriada e inocente, pois ninguém vai confundir estas hastes atarracadas, de 5 a 20 cm de altura, com um árvore de grande porte (nem com um rebento, pois as árvores não crescem curvadas), já o chamar-lhe musgo pode induzir em erro. Há de facto musgos, como o Polytrichum comune, com aspecto vagamente semelhante, mas a H. selago é uma planta vascular e não um musgo. Situa-se, é verdade, na base da árvore evolutiva, e tem por isso o privilégio de encabeçar a listagem da flora de muitos dos países dos quais é nativa. Na Europa continental, onde é a única espécie do seu género, essa primazia é incontestada, mas na Ásia e na América já tem que disputar o seu lugar com numerosas congéneres. Preferindo climas frios e lugares húmidos, é mais abundante no norte da Europa do que no sul, onde se refugia em áreas montanhosas e, às vezes, aproveita o aconchego da neve a mais de 2000 metros de altitude. Está presente nas principais cadeias montanhosas ibéricas, mas Portugal fica fora do seu mapa de distribuição. O que não é grande motivo de queixa, pois Madeira e Açores acolhem duas espécies endémicas do género, Huperzia dentata e Huperzia suberecta, e a segunda delas só se diferencia da H. selago pela (pouco) maior envergadura e por caracteres microscópicos como a ornamentação dos esporos.

Uma característica em que a Huperzia é mais primitiva do que outras licopodeáceas é que a sua parte fértil não se distingue claramente da parte estéril: os esporângios estão aninhados nas axilas das folhas terminais das hastes (3.ª foto), folhas essas idênticas na forma e no tamanho às que estão situadas mais abaixo. Em géneros mais evoluídos, como Lycopodium e Diphasiastrum, os esporângios aparecem agrupados em espigas terminais perfeitamente destacadas (exemplos: 1, 2). Mesmo o licopódio-dos-brejos (Lycopodiella inundata), que na Europa leva a medalha de prata em primitivismo, apresenta uma diferenciação, embora menos óbvia, entre a parte da planta que produz os esporângios (que é a porção engrossada e terminal das hastes erectas - foto aqui) e a parte estéril (caules rastejantes e metade inferior das hastes erectas). Também considerado primitivo é o tipo de crescimento dicotómico da Huperzia, com as hastes sempre ascendentes bifurcando-se sucessivamente.

Encontrámos a Huperzia selago a uns modestos 1300 m de altitude, algures na cordilheira cantábrica. Nos meses de Inverno o branco dos afloramentos calcários é reforçado pelo branco da neve, e nenhuma outra cor é permitida na paisagem. Era isso que nos diziam um frio e um vento cortantes, atípicos do mês de Maio que atravessávamos. Só para confirmação, as nuvens negríssimas não tardaram em largar uma forte carga de granizo, obrigando-nos a abreviar a excursão.

25/07/2017

O voo do Corvo



Informações inúteis

Como ir. De avião pela SATA, ou de barco desde as Flores usando a lancha Ariel ou um semi-rígido. Os horários da SATA são flexíveis: o passageiro deve chegar com a antecedência regulamentar ao aeroporto, mas a transportadora exerce invariavelmente o seu direito de anunciar atrasos de última hora. No entanto, os atrasos das diversas ligações costumam encaixar na perfeição uns com os outros. Se uma das escalas for nas Flores, então nos melhores dias pode ser brindado com a mais paradoxal das surpresas, que é a chegada ao destino antes da hora da partida. Como é possível? O voo entre as Flores e o Corvo (ou vice-versa) dura cinco minutos; e, se já tiverem embarcado todos os passageiros, não há motivo para o avião não descolar de imediato. No nosso caso, com um total de seis passageiros que, para equilibrar o peso, se sentaram todos na parte de trás do avião, mais o comissário de bordo na outra ponta a despachar as instruções de segurança, levantámos voo oito minutos antes da hora marcada. Das ligações por mar, quem quiser ver golfinhos e saltar como eles sobre as ondas, com grandes borrifos de água salgada, deve escolher os fogosos semi-rígidos. Para os menos arrojados, recomenda-se a lancha Ariel da Atlânticoline, que costuma cancelar as ligações quando o mar está agitado e, nas festas das Flores ou do Corvo (ininterruptas em Julho e Agosto), só tem lugar para os previdentes que compram passagem com semanas ou meses de antecedência.

Onde comer. Quem faz turismo gastronómico não tem no Corvo um destino de eleição. Entre as nossas duas visitas à ilha, a primeira em Junho de 2016 e a segunda em Julho de 2017, há contudo novidades substanciais a reportar. Em 2016 havia dois restaurantes: o Caldeirão, junto ao aeroporto, e o Traineira, junto ao porto; ou, em rigor, já que distam 250 metros um do outro, os dois junto ao aeroporto mas o segundo mais encostado ao porto. Tendo jurado nunca servir peixe fresco aos clientes, pois quase tudo o que é pescado na ilha é vendido para o continente ou para as outras ilhas, tinham ainda assim pratos aceitáveis, com o Caldeirão esmerando-se um pouco mais e o Traineira monopolizando a clientela operária (há sempre no Corvo dezenas de trabalhadores vindos para obras do Governo regional). O duopólio permitia-nos diversificar as refeições, almoçando no Traineira e jantando no Caldeirão, ou almoçando no Caldeirão e jantando no Traineira. Nos dias em que algum deles fechava, íamos duas vezes ao que estivesse aberto, aproveitando a segunda ocasião para degustar o outro prato do dia. Se dispensássemos o luxo sibarita de uma segunda refeição completa no mesmo dia, podíamos ir ao BBC (Bar dos Bombeiros do Corvo, um must da noite corvina) para nos regalarmos com uma tosta mista (podia ser francesinha, se quiséssemos) regada com um néctar de pêssego ou de laranja (apesar de ter muitas e variadas bebidas alcoólicas, o BBC trata com igual afabilidade os que preferem bebidas não inebriantes). Por último, havia a opção ascética de, com pão, fruta e outros géneros adquiridos no comércio local (uma mercearia, duas lojas generalistas e uma padaria), improvisar um jantar ligeiro na sala de estar do hotel. De 2016 para 2017, BBC, mercearia, lojas e padaria (aberta só de manhã de segunda a sábado) mantiveram-se iguais a si próprias, mas um dos restaurantes deixou de funcionar como tal. Era isso mesmo que esperávamos, pois em 2016 soubéramos que os então concessionários do Caldeirão se iriam embora no final do Verão. Afinal o Caldeirão reabriu com nova gerência, e foi o Traineira que deixou de ser restaurante por ter perdido a cozinheira. Mantém-se aberto, mas servindo apenas sopas, sandes e bebidas. À porta, onde dizia Horário do restaurante diz agora Horário do; as horas de abertura e os dias de descanso são os mesmos. Esta oferta depauperada ainda mais se reduziu no fim-de-semana de 8 e 9 de Julho, quando todos os estabelecimentos de comes-e-bebes estiveram fechados: o Caldeirão o dia todo, o Traineira e o BBC a partir do meio da tarde. O motivo eram as festas da ilha, onde algumas barracas vendiam refeições: para garantir a afluência de clientes, toda a ilha se pôs de acordo em não lhes deixar alternativa. Mas a canja de galinha e a morcela com inhame até estavam boas.

Transportes. Na ilha há três ou quatro táxis; todos acorrem de pronto à chamada e fazem a volta à ilha cobrando 10 euros por pessoa. Quem for poupado e não quiser deslocar-se a pé facilmente arranja boleia numa carrinha de caixa aberta. Apesar de serem muitos os carros no Corvo, a ponto de os habitantes se terem desabituado de andar a pé mesmo em distâncias curtíssimas, não é possível alugar carros na ilha.



Agora a sério

Os parágrafos anteriores são o nosso contributo para moderar a afluência turística ao Corvo. Há lugares que foram feitos para o silêncio e combinam mal com multidões. Mas quem nos leu até aqui, e esteja disposto a despojar-se de alguns dos seus hábitos de vida urbana, merece saber que o Corvo é um lugar extraordinário. Não para visitar a correr, como fazem os que chegam de barco por umas horas, sobem de táxi à grande cratera, tiram umas fotos e já está, mas para ficar alguns dias, dando tempo a que os sentidos se ajustem e se possa entender como uma ilha de 6 Km de comprimento por 4 Km de largura, com 430 habitantes, também é um mundo. As refeições não serão um luxo, mas o alojamento não tem que ser espartano. O Hotel Comodoro (ou Guest House Comodoro), único da ilha, é mais acolhedor, confortável e asseado do que muitos hotéis cheios de estrelas. Não tendo a ilha, com excepção da fábrica de queijos, indústria que se veja ou uma economia de serviços, cada habitante cumpre muitos papéis: um taxista é também pescador e cultiva os seus legumes no quintal; muitos têm afazeres diurnos mas ao fim da tarde sobem às pastagens para ordenhar as vacas; e o dono do hotel pode ser presidente da câmara.

E quanto à natureza? Numa paisagem dominada por pastagens, de onde a manta arbórea original há muito foi extirpada, a maioria das árvores e arbustos refugiam-se em sebes ou em linhas de água temporárias. Os bosques de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) que cobrem grandes extensões da vizinha ilha das Flores estão quase totalmente ausentes do Corvo, sobrando, como últimas amostras significativas, um povoamento de algumas centenas de árvores adultas no Morro da Fonte e um outro, de menor expressão, no troço final do ribeiro da Cancela do Pico, perto do farol. Contudo, são frequentes pela ilha os exemplares isolados de cedro-de-mato, alguns de provecta idade. Ao contrário do que sucede nas restantes ilhas, a conteira (Hedychium gardneranum) não é um problema no Corvo e parece, aliás, ter sido completamente eliminada. O galardão de infestante mais nociva ficou para a hortênsia (Hydrangea macrophylla), que invade ribeiros de forma sufocante e ameaça ocupar de alto a baixo as vertentes do Caldeirão, lugar onde se concentra um número apreciável de endemismos botânicos. Apesar disso, o Caldeirão do Corvo é, sem favor, a mais fotogénica cratera vulcânica do arquipélago e, mesmo com o pastoreio intensivo de gado bovino, guarda habitats preciosos tanto no bordo como nas lagoas e turfeiras que lhe preenchem o fundo. Dado que o coberto vegetal ralo não representa obstáculo à nossa passagem, é fácil descer ao fundo, vencendo um desnível de 150 metros, e caminhar em redor das lagoas, com a necessária cautela não vão os pés afundar-se no terreno pantanoso. As muitas vacas que vamos cumprimentando são pacíficas e estão habituadas às visitas. Estas lagoas têm boas populações de Isoetes azorica, um raríssimo feto aquático que é também um endemismo açoriano, e que no início de Julho, tendo já largado os esporos, deixa ver as suas folhas como longos cabelos verdes e flutuantes. Outras raridades aquáticas igualmente discretas que aqui se fazem comuns são a Littorella uniflora e a Elatine hexandra, acompanhadas por Eleocharis palustris, Potamogeton polygonifolius e Juncus effusus. Nas valas que escoam a água das encostas para as lagoas aparecem grandes fetos (Osmunda regalis, Woodwardia radicans), escoltados aqui e ali por indivíduos dispersos de Vaccinium cylindraceum, Juniperus brevifolia e Ilex perado subsp. azorica.


Isoetes azorica Milde



Myosotis azorica H. C. Watson
Por muito interessante que fosse o fundo do Caldeirão, era no seu bordo que devíamos procurar o tesouro que o mau tempo de Junho de 2016 não nos permitiu alcançar, obrigando ao nosso regresso um ano mais tarde. Conforme comprovativo fotográfico acima, a persistência foi recompensada. Sem batota e sem ajuda, seis anos depois de iniciarmos a busca na ilha das Flores, encontrámos finalmente a Myosotis azorica na natureza. Todos os nossos encontros anteriores com este endemismo das Flores e do Corvo, devorado até à beira da extinção por cabras assilvestradas, tinham sido com plantas cultivadas. Desta vez, vimos umas trinta plantas em flor, duas que pudemos tocar e as restantes em lugares vertiginosamente inacessíveis. Por perto residiam outros dois endemismos destas ilhas, a Veronica dabneyi e a Euphrasia azorica, a segunda muito abundante no bordo da Caldeirão.


Festuca francoi à esquerda e Deschampsia foliosa à direita
Nem só de plantas floridas vive o ecossistema hiper-húmido e quase sempre ventoso do Caldeirão. Mesmo no bordo há muitas zonas turfosas, dominadas por Sphagum, e nos afloramentos rochosos várias gramíneas endémicas abanam as espigas ao vento. As dominantes são a Festuca francoi e, de menor tamanho e com folhas mais curtas, a Deschampsia foliosa. Vê-las lado a lado, como na foto em cima, é a melhor maneira de aprender a distingui-las.


Deschampsia foliosa Hack.