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20/12/2021

A finura dos fetos



A floresta endémica açoriana é uma esponja mergulhada num caldo de nuvens. E as nuvens, em vez de serem aquelas brancas manchas etéreas num céu azul, são cinzentas, espessas, quase sólidas, carregadas de água; não precisam de se esfarelar em chuva para nos encharcarem os ossos. E, naqueles raros intervalos de bonança em que as nuvens se ausentam e o céu se torna visível, percebemos que o solo continua empapado de água e que as galochas são a única escolha sensata de calçado para quem se aventure entre o arvoredo.

Como conseguem as árvores, arbustos e herbáceas aguentar rega tão persistente? São quase anfíbias, de tal modo desenvolveram uma predilecção por meio tão aquoso. Com excepção da criptoméria — que, plantada em extensos povoamentos mono-específicos, substituiu, na maioria das ilhas, a floresta original —, são poucas as árvores exóticas que toleram tal regime hiper-húmido. No Pico, os muitos pinheiros que se plantaram na encosta noroeste da montanha estão a morrer aos poucos, dando lugar a uma floresta nativa em franca regeneração. Com o vagar paciente de quem dispõe de todo o tempo do mundo, a natureza vai corrigindo as asneiras dos homens.

Hymenophyllum wilsonii Hook.


Os cedros-do-mato (Juniperus brevifolia), azevinhos (Ilex perado subsp. azorica), urzes (Erica azorica), sanguinhos (Frangula azorica), loureiros (Laurus azorica) e troviscos-machos (Euphorbia stygiana) que compõem a floresta nativa mergulham as raízes não propriamente em solo firme mas em grandes almofadões de musgão (Sphagnum). Há muitos fetos que se acolhem no bosque, com predomínio, entre os de maior porte, da Culcita macrocarpa (feto-do-cabelinho) e de diversas espécies de Dryopteris. Mas os fetos de menor dimensão (Polypodium azoricum, Elaphoglossum semicylindricum, Trichomanes speciosum) optam, na maioria das vezes, por se empoleirarem em árvores. Muitas delas têm um revestimento de tal modo espesso de fetos e de musgos que não fica um palmo de tronco à mostra.

Nessas florestas, os fetos epífitos mais abundantes, mas menos conspícuos por causa da sua pequenez, são os do género Hymenophyllum, de que ocorrem duas espécies nos Açores: H. tunbrigense e H. wilsonii. São fetos translúcidos, com frondes de 3 a 4 cm de comprimento, muito finas, da cor da azeitona. Formam um rendilhado muito típico que, nas árvores, fica pendente dos ramos ou da base dos troncos. O H. tunbrigense é de longe o mais frequente dos dois, enquanto que o H. wilsonii tem tendência a restringir-se, em cada ilha, às altitudes mais elevadas. É raro encontrar o segundo sem que o primeiro lhe faça companhia, e por isso se torna importante saber diferenciá-los. A distinção entre eles pode fazer-se à vista desarmada, porque o H. tunbrigense tem frondes planas, com divisões relativamente largas, e o H. wilsonii tem-nas dobradas longitudinalmente (fazendo lembrar as águas de um telhado), com divisões estreitas. Para uma identificação mais segura, porém, a lupa ou a macro-fotografia são indispensáveis: a diferença crucial está nos indúsios (membrana ou cápsula que protege os esporângios), que são redondos e fimbriados no H. tunbrigense (fotos abaixos), e alongados e de margens lisas no H. wilsonii (fotos acima).

Hymenophyllum tunbrigense (L.) Sm.

22/11/2010

Uma casa na árvore

Um erro comum nos percursos marcados em espaços naturais portugueses é o de supor que todos nós temos um interesse absorvente pela etnografia — ou, trocando por miúdos, que adoramos ver povo. E assim nos fazem deambular por aldeias (a)típicas e quase nos enfiam em casa de gente que não tem feitio para servir de atracção turística. Compreendo muito bem que alguns se sintam incomodados por ver chegar forasteiros tão abelhudos, e tomem medidas para os manter à distância. Em Paredes de Coura, por exemplo, um dos trilhos na paisagem protegida de Corno de Bico, o do Alto dos Morrões, passa por duas aldeias, Giesteira e Túmio, e proporciona uma vista desafogada para várias salas de estar, cozinhas e pátios de gente que, como nós, tem direito à privacidade. O resultado é que, na vizinhança dessas aldeias, principalmente em Giesteira, os indicadores do percurso foram metodicamente sabotados, chegando a ser colocadas cancelas a barrar o caminho. O percurso ainda se consegue adivinhar se for feito no sentido anti-horário (ao contrário do que é recomendado), mas no sentido oposto os caminhantes depressa perdem todas as referências. Quando, já perto de completarmos o circuito, deparámos com um portão e uma corda a travar-nos a passagem, fomos perguntar a um sujeito que trabalhava num campo se era mesmo aquele o caminho para Giesteira. A resposta foi estranhíssima: temos muito gosto em vos ver por aqui. Em vez de responder à pergunta, ele quis atenuar (ou, quem sabe, sublinhar) o repúdio pela nossa presença que transparecia de tão inesperados obstáculos. O homem pode ter sido sincero ou hipócrita, mas é certo que alguém ali (talvez ele mesmo) não gosta de nós.

Vila da Serreta — ilha Terceira
Os percursos que pude fazer na Terceira não sofrem desse pecado. Atravessam áreas de genuíno interesse paisagístico e natural e não insistem em desviar-nos para a Casa do Povo ou para a igreja. O trilho que vai da Serreta à Lagoinha, por exemplo, começa já fora do núcleo urbano da vila. Mas eu gostei da Serreta, onde me demorei a fazer horas para a camioneta de volta, apesar de a povoação pouco mais ser do que o casario baixo ao longo da estrada, com uma ou outra canada cortando em direcção ao mar. Aqui deixo pois duas fotos em que os únicos habitantes a botar figura são duas galinhas, captadas à distância para não se lhes reconhecerem as feições.

Hymenophyllum tunbrigense (L.) Sm.
Retomando o inventário das plantas que vivem na floresta húmida açoriana, falemos agora de epífitas. Tal como os espigos-de-cedro, andam às cavalitas das árvores, mas, ao contrário destes, não são plantas parasitas, pois fabricam honestamente o seu próprio sustento. Uma das epífitas mais comuns, tanto em juníperos como em loureiros ou até mesmo em criptomérias, é este feto de frondes semi-transparentes que gosta da companhia dos musgos. A semelhança do Hymenophyllum tunbrigense com o Trichomanes speciosum é notória, e de facto os dois fetos pertencem à mesma família botânica; mas as frondes do primeiro são mais pequenas (6 cm contra 15 a 20 cm) e têm as margens dentadas (clique nas fotos para ampliar). Além disso, o Hymenophyllum vive nas árvores e o Trichomanes prefere agarrar-se às rochas.

O Hymenophyllum tunbrigense é espontâneo na Macaronésia, na Europa ocidental e na América do Norte. Nos Açores aparece ainda uma espécie gémea, o H. wilsonii, com frondes mais curtas e menos divididas, que partilha os mesmos habitats aéreos mas tem uma distribuição mais escassa.

Sticta canariensis (Ach.) Bory ex Delise
As mesmas árvores que serviam de morada ao feto enfeitavam-se com outros adereços de índole vegetal. O mais vistoso era este líquen foliforme que julgamos ser a Sticta canariensis. É uma espécie de lugares húmidos e protegidos que habita troncos musgosos mas também aparece em rochas e pode mesmo descer até ao solo. Está presente em quatro das ilhas açorianas (São Miguel, Terceira, Pico e Flores) e, mais globalmente, na Macaronésia e na Europa. Se nos arquipélagos atlânticos a sua sobrevivência não suscita preocupações, já o mesmo não se passa no continente europeu, onde a espécie é considerada vulnerável ou mesmo em perigo de extinção.

A Sticta canariensis tem a peculiaridade de existir sob duas formas muito diferentes, que no entanto pertencem à mesma espécie por serem associações simbióticas do mesmo fungo. Quando o fungo se associa a uma alga verde, temos o morfotipo retratado na foto. Quando ele se associa a uma cianobactéria (também chamada alga azul), o resultado é este morfotipo com talos acastanhados e rugosos, mais comum no norte da Europa.

11/11/2010

Os fetos e as fendas

Trichomanes speciosum Willd. — ilha Terceira
No dia da chegada, para dissipar a sonolência pós-prandial, fui ao princípio da tarde revisitar o Monte Brasil, onde não punha os pés há quatro anos. O Monte Brasil, para quem não sabe, é uma protuberância vulcânica fartamente arborizada sobranceira à cidade de Angra do Heroísmo e ligada ao resto da ilha por um istmo. A vegetação, dominada por exóticas como a árvore-do-incenso (Pittosporum undulatum) e a criptoméria, não é entusiasmante, embora se registe a presença ocasional da faia-das-ilhas (Myrica faya) e, nas vertentes expostas ao mar, da urze açoriana (Erica azorica). Os grandes atractivos do Monte Brasil são porém de outra ordem. Há as velhas paredes da Fortaleza de São João Baptista, ainda hoje ocupada por um contingente militar, ressumando o verde que é a pátina dos séculos. E há, sobretudo, a vista para o casario de Angra empilhado nas ruas que descem para a baía. Gostaria de poder dizer que a realidade se confundiu com a memória, mas a paisagem estava ferida por um rasgão impossível de ignorar. No limite leste da baía, a falésia foi esventrada quase até ao fundo para lá se enfiar um edifício medonho, de fachada oblíqua e varandas a toda a largura. Dizem que ali funcionará o próximo grande hotel da ilha Terceira — mas, com as obras ainda por concluir, o edifício é desde já um borrão inimaginável no até agora intocado recorte urbano de Angra.

No Monte Brasil, a novidade é que foi inaugurado um desses percursos com marcas amarelas e vermelhas para os caminhantes não se perderem. Seguindo-o, reencontrei as beladonas (Amaryllis belladonna) e passei por locais que já conhecia e por outros que só agora desvendei, como a carreira de tiro rodeada por quatro cumes onde há muito não são disparadas balas. Já de volta a Angra, aconteceu-me deparar, à porta do Museu Vulcanológico, numa rua debruçada sobre a baía, com um aviso anunciando passeios pedestres; um deles, com destino ao Morro Assombrado, estava marcado para daí a dois dias. Como poderia recusar tal convite do acaso? Entrei no edifício — que, além de museu, é sede da associação Os Montanheiros — e fiquei a saber que o passeio era gratuito mas exigente. Aconselhavam-se galochas, vestes impermeáveis, boa resistência física e imunidade a vertigens. Em troca os participantes ficariam a conhecer lugares inacessíveis ao comum dos turistas: trilhos que mal se percebem em densas matas de loureiros e juníperos; desfiladeiros estreitíssimos forrados de alto a baixo por multidões de fetos; descidas impossíveis e escaladas não menos temerárias; e tudo banhado numa humidade intensa que se condensa em charcos, turfeiras e escorrências.

Mas quando soube do passeio, ali na sede dos Montanheiros, em conversa numa sala ocupada com modelos em relevo de várias ilhas açorianas, ainda essas impressões não tinham ganho corpo. O Morro Assombrado era só mais um dos inúmeros picos que no mapa tridimensional da Terceira apareciam assinalados por bandeirolas. Preocupado com as galochas e o impermeável — não dispunha nem duma coisa nem doutra —, não prestei grande atenção ao acervo exemplar do museu: pedras e fósseis, borboletas, imagens da fauna e da flora açorianas, descrições de grutas, etc. Acabei depois por comprar numa loja agrícola umas galochas (brancas) que afinal não usei. Não apenas por vergonha de atravessar o átrio do hotel com elas calçadas, mas porque as solas não tinham a aderência que o percurso acidentado recomendava. Antes meter o pé na poça do que despencar-me numa ravina.

O interior da metade oeste da ilha Terceira é ocupado por uma sucessão de picos, com o de Santa Bárbara, a 1023 metros, a assinalar o ponto mais alto. As povoações ficam todas na costa, a agricultura e a criação de gado só mordiscaram as faldas mais suaves das serras, e mesmo as plantações florestais de criptomérias foram travadas pelos acidentes do terreno. O resultado é que a floresta endémica das ilhas açorianas, dominada pelo cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), foi aqui preservada numa extensão que, no resto do arquipélago, só encontra paralelo no Pico e no Faial. É uma floresta cheia de sortilégios, quase sempre encoberta pela névoa, em que as árvores rejeitam a nudez dos troncos e ostentam longos véus de musgos, fetos e líquenes; chamam-lhe a floresta das nuvens, e quem quiser conhecê-la (muitos açorianos não a conhecem) terá que se juntar aos Montanheiros.

Abundante em fendas descomunais como a que se vê na foto acima, o Trichomanes speciosum é um pequeno feto (até 20 cm) notável pelas suas frondes brilhantes e translúcidas, que só se dá em lugares abrigados e permanentemente húmidos. Vive nos arquipélagos atlânticos dos Açores, Madeira e Canárias, e também, em núcleos esparsos e muito reduzidos, no limite oeste do continente europeu (Irlanda, Reino Unido, Bretanha, Península Ibérica). Terá sido dos fetos europeus que mais sofreram com as depredações de coleccionadores inconscientes.

Trichomanes speciosum Willd. — Valongo
Em Portugal continental, o Trichomanes speciosum é dado como extinto em Sintra, e hoje só subsiste uma população refugiada num dos fojos das serras de Valongo. Os fojos são grandes buracos escavados na ossatura da serra, que terão servido, no tempo dos romanos, para aceder às minas de ouro. Quando as serras foram eucaliptizadas, houve plantas (como este outro feto) que só nos fojos puderam continuar a existir. E lá estava, ao fundo do buraco a que chegámos com infinita precaução, e algo acabrunhada pela secura estival, uma população apesar de tudo promissora de Trichomanes speciosum. Se as deixarmos em paz, as plantas agarram-se à vida com uma tenacidade assombrosa.