27/07/2026

Muros de Gibraltar



Gibraltar é um promontório britânico situado na ponta sudeste da Península Ibérica. Pode dizer-se sem melindre que se resume a uma cidade com um porto, um pequeno aeroporto e um gigantesco rochedo calcário com cerca de 420 metros de altura, encimado por uma crista de declive acentuado. Em frente, estão Marrocos e Ceuta (que já foi portuguesa, mas é enclave espanhol em África desde 1668), com o Mediterrâneo de um lado e o Atlântico do outro a trocarem águas, sal e vento através de um estreito com cerca de 15 quilómetros de largura no ponto mais afunilado.



Durante a nossa viagem a Algeciras em Abril, guardámos um dia para conhecer a vegetação de Gibraltar. O rochedo abriga uma reserva natural com vários endemismos botânicos que justificam plenamente uma visita, apesar do incómodo da fronteira (agora finalmente aberta), da multidão de turistas e dos preços exorbitantes. Estacionado o carro num vasto parque (pago) à entrada de Gibraltar, ainda do lado espanhol, o resto do caminho é feito em parte pela pista do aeroporto e depois por uma escadaria íngreme, que se juraria ser interminável, até ao posto que controla o acesso (pago) ao rochedo. À entrada da reserva está um muro muito fotografado por ali se recostarem alguns macaquinhos, uma pequena população, introduzida em Gibraltar há muitos séculos, de Macaca sylvanus, espécie nativa de Marrocos, Argélia e Tunísia. Nota-se também o desenho de uma planta, Silene gibraltarica, endemismo de Gibraltar, resgatado da quase-extinção há uns 30 anos, que não estava ainda em flor. Os percursos permitidos no rochedo são sobretudo a pé por estrada, mas um ou outro segue junto aos penhascos. E, nas fendas das rochas, nas cascalheiras e nas escarpas havia numerosas plantas floridas.

Iberis gibraltarica L.


Esta herbácea perene tem uma inflorescência em corimbo grande (uns 6 cm de diâmetro), com flores de pétalas desiguais rosadas ou violáceas. Não é muito diferente das espécies de Iberis que vemos por cá, mas é maior e tem um contorno mais vincado de almofada. Ocorre também em Marrocos.

Saxifraga globulifera Desf.


É curiosa a aparência glandulosa muito frágil desta planta, com folhas que parecem garfinhos, talos de cerca de 20 cm tingidos de púrpura e flores minúsculas brancas com um anel de anteras amarelas ao centro. Este é, porém, um formato frequente no género Saxifraga. Aprecia recantos soalheiros na rocha calcária, e é nativa do norte de África e do sul de Espanha.

Thymus willdenowii Boiss.


Esta é uma planta subarbustiva de hábito rasteiro, com folhas densamente cobertas de pêlos finos e hastes de flores erectas. Como outros tomilhos, é aromática, libertando uma fragância agradável quando as folhas se esmagam. A sua distribuição inclui também Marrocos, Argélia e o sul de Espanha.

Chaenorhinum villosum (L.) Lange


As folhas em forma de coração pequenino cobertas de lanugem ajustam-se perfeitamente ao epíteto desta herbácea cespitosa. A Flora Ibérica distingue duas subespécies de acordo com a cor, branca ou amarela, do indumento. Pode também ver-se no norte de África e noutros locais do sul da Península Ibérica, quase sempre em substrato margoso.

Linaria tristis (L.) Mill.


Esta é outra herbácea perene dos muros do rochedo de Gibraltar. É uma planta grande, cujos talos ascendentes podem chegar aos 50 cm de altura, e muito vistosa quando está em flor. As folhas são elípticas, ligeiramente curvadas; as corolas medem cerca de 3 cm e hesitam entre várias tonalidades, do branco ao amarelo, violeta e púrpura. O epíteto parece contradizer a exuberância desta espécie, que é um endemismo do sul da Península Ibérica.

Surgiram ainda nas escarpas de Gibraltar duas plantas em flor cuja presença frequente foi uma surpresa: a Succowia balearica, que ocorre também nas ilhas Baleares e, embora raramente, no Barlavento Algarvio; e a bela Scilla peruviana.

15/07/2026

De Cádiz a Málaga, à boleia das boninas

Los Alcornocales, Algeciras
Tratadas com desdém e perseguidas com afinco: essa é a vida das boninas (Bellis perennis) nos relvados dos nossos jardins públicos ou privados. Acreditam elas, as ingénuas, que a visão de um relvado pontilhado por malmequeres só nos pode alegrar. Bom, talvez alegre certas boas almas, mas não aquelas que supervisionam, com rigidez burocrática e sentido estético embotado, os chamados espaços verdes — espaços onde o verde é apenas contingente e as plantas formam uma massa indiferenciada cujo crescimento é preciso combater. Ainda assim, as boninas nunca desistem, assim como nunca desistem outras flores de surgimento efémero que aproveitam as curtas semanas de intervalo entre dois cortes rasos.

Da cidade para o campo, as boninas não deixam de nos acompanhar. Contudo, a B. perennis, de apetências mais urbanas, é em geral substituída por uma espécie mais vocacionada para espaços naturais, justamente chamada B. sylvestris. A mesma arquitectura básica — uma roseta compacta de folhas de onde saem escapos rematados por um único capítulo — é partilhada pelas duas espécies, mas a B. sylvestris costuma ter capítulos maiores e folhas mais alongadas e estreitas. Como tira-teimas, podemos desenterrar a planta: a B. perennis, ao contrário da B. sylvestris, é estolhosa, com várias rosetas unidas por caules subterrâneos. E as duas espécies também se diferenciam pelos aquénios: os da B. sylvestris (pelos menos os da subespécie pappulosa, prevalecente em Portugal) são encimados por um penacho, que está ausente na B. perennis.

Bellis cordifolia (Kunze) Willk.


E sobre boninas estaríamos conversados. Conhecíamos, claro está, outras espécies de Bellis em nada confundíveis com estas duas espécies irmãs, como a açoriana B. azorica e a sulista (e minúscula) B. annua. Mas a nossa visita a Algeciras em Abril deste ano ensinou-nos que as boninas são assunto mais vasto e intricado do que julgávamos; e, de surpresa, elas ganharam a nossos olhos um interesse renovado. O primeiro episódio foi termos deparado, num dos extensíssimos sobreirais que formam o Parque Natural Los Alcornocales, com umas boninas de folhas grandes e arredondadas, distintamente cordiformes. Eram boninas indiscutíveis, mas as folhas destoavam. Convocada a prestar esclarecimentos, a Flora Iberica não se vez rogada, e de pronto identificou a descoberta como sendo a Bellis cordifolia (acima ilustrada), endémica dessa região da província de Cádiz.

Encantados por uma planta que nos era familiar se ter transmudado em raridade de distribuição restrita, passámos a olhar as boninas com mais atenção. A dada altura já não diríamos que a Bellis cordifolia fosse assim tão rara, pois na Sierra Bermeja, já na província de Málaga, ela parecia surgir com regularidade. Ter-se-ia a Flora Iberica equivocado? Observando com atenção as folhas das plantas de Málaga (fotos em baixo), constatamos que elas, apesar de muito largas, não são de facto cordiformes, ou são-no em grau muito menor que as de Algeciras. A Flora Iberica é da opinião que plantas como esta da Sierra Bermeja, apesar de poderem confundir-se com a B. cordifolia, se situam num extremo de variação da B. sylvestris subsp. pappulosa.

Talvez a história não se fique por aqui. Mesmo com os estudos moleculares, a taxonomia não é ainda uma ciência exacta, e entre os botânicos há, como sempre houve, opiniões divergentes sobre como valorizar certas discrepâncias morfológicas. A verdade é que custa a crer que as plantas de Málaga, de folhas tão diferentes, encaixem na mesma espécie e subespécie que a vulgar B. sylvestris dos nossos montes.

Bellis sylvestris subsp pappulosa (DC.) Coste