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08/09/2026

Bando de pássaros

Com a saudável desatenção às notícias durante o Verão, talvez o leitor não tenha reparado que foi descrita em Agosto uma nova espécie de Linaria em Portugal continental. Trata-se de um endemismo raro do Algarve que ocorre em prados e orlas de matos. Junta-se a outra descoberta recente (divulgada em Janeiro), presente em arribas costeiras com solo calcário ou arenoso, e que é um endemismo da Estremadura; e a duas novas espécies de Linaria que são endemismos do Algarve, descritos há poucos anos.

Surpreende-nos que ainda se descubram novidades botânicas em locais relativamente acessíveis em Portugal. Neste caso, porém, isso resultou de um estudo morfológico e genético mais apurado, parte de um plano abrangente de arrumação da flora portuguesa. Que surjam novidades no género Linaria, que abriga cerca de 200 espécies anuais ou perenes, também se compreende, dada a sua fácil adaptação a substratos muito diversos, incluindo dunas no litoral e locais perturbados com solo seco ou pobre em nutrientes. Além disso, é um género propício a variações na folhagem e na pigmentação das flores, embora estas pouco mudem de formato: cada flor resume-se a uma corola levemente inchada com dois lábios (um superior dentado, como duas orelhas, e um inferior que serve de pista de aterragem para os polinizadores), cuja entrada é assinalada por uma coloração mais forte, frequentemente alaranjada, terminando com um esporão mais ou menos longo, mais ou menos curvado, onde guarda o néctar. O resultado é uma flor com perfil de passarinho, embora haja quem ali veja uma boquinha-de-sapo.  

O género Linaria é nativo das regiões temperadas da Europa, Norte de África e Ásia, com um pico de diversidade na bacia do Mediterrâneo, beneficiando a Península Ibérica de uma fatia considerável de espécies endémicas. As fotos seguintes, de plantas do sul de Espanha, mostram espécies vizinhas de Linaria que, além do território, decerto também partilham polinizadores e que, curiosamente, desenvolveram uma pigmentação distinta nas flores.

Linaria aeruginea (Gouan) Cav. [ou talvez não]


Linaria amethystea subsp. albiflora (Boiss.) Casim.-Sor. Solanas & Cabezudo


Linaria pedunculata (L.) Chaz.


Linaria platycalyx Boiss.


Linaria saturejoides Boiss.


Pode dar-se o caso de estas diferenças facilitarem a detecção da flor por este ou aquele polinizador, e este sucesso ser o principal responsável pela invulgar diversidade nestas plantas. Mas, dada a reconhecida compatibilidade genética entre espécies do género Linaria, outra origem plausível de tantas manchas, riscas e pintas, em matizes variados, poderá ser a hibridação natural entre espécies. A mistura de genes é capaz de produzir gradações de cor inteiramente novas, e até versões multi-coloridas. A selecção natural faz o resto se a nova coloração atrair mais polinizadores.

Naturalmente, nada disto seria possível se o mecanismo químico que determina a coloração das flores não contivesse uma paleta de amarelos, laranjas, azuis, violetas, carmins, etc, suficientemente vasto. E é isso mesmo que os estudos moleculares mostram: o género Linaria desenvolveu um sistema complexo (alguns dirão inteligente) de gestão de pigmentos que, por exemplo, se serve de um gene para ajustar a intensidade das cores (e assim gerar um violeta-claro ou um amarelo-intenso) e de alterações genéticas durante a divisão celular para desenhar, em certas zonas da flor, salpicos em tom púrpura que contrastam com o fundo homogéneo da corola.

Os polinizadores destas flores têm de ter uma língua longa e vigorosa para aceder ao néctar. Esta dependência de polinizadores tão especializados, cuja escassez se pode agravar com as alterações no clima a que vamos assistindo, é um perigo para várias espécies de Linaria, cujas populações estão já em declínio por outras ameaças ao habitat. Se não houver programas de conservação que protejam de facto as espécies mais vulneráveis de Linaria, daqui a alguns anos a notícia que aqui lhe daremos será infelizmente outra.

15/07/2026

De Cádiz a Málaga, à boleia das boninas

Los Alcornocales, Algeciras
Tratadas com desdém e perseguidas com afinco: essa é a vida das boninas (Bellis perennis) nos relvados dos nossos jardins públicos ou privados. Acreditam elas, as ingénuas, que a visão de um relvado pontilhado por malmequeres só nos pode alegrar. Bom, talvez alegre certas boas almas, mas não aquelas que supervisionam, com rigidez burocrática e sentido estético embotado, os chamados espaços verdes — espaços onde o verde é apenas contingente e as plantas formam uma massa indiferenciada cujo crescimento é preciso combater. Ainda assim, as boninas nunca desistem, assim como nunca desistem outras flores de surgimento efémero que aproveitam as curtas semanas de intervalo entre dois cortes rasos.

Da cidade para o campo, as boninas não deixam de nos acompanhar. Contudo, a B. perennis, de apetências mais urbanas, é em geral substituída por uma espécie mais vocacionada para espaços naturais, justamente chamada B. sylvestris. A mesma arquitectura básica — uma roseta compacta de folhas de onde saem escapos rematados por um único capítulo — é partilhada pelas duas espécies, mas a B. sylvestris costuma ter capítulos maiores e folhas mais alongadas e estreitas. Como tira-teimas, podemos desenterrar a planta: a B. perennis, ao contrário da B. sylvestris, é estolhosa, com várias rosetas unidas por caules subterrâneos. E as duas espécies também se diferenciam pelos aquénios: os da B. sylvestris (pelos menos os da subespécie pappulosa, prevalecente em Portugal) são encimados por um penacho, que está ausente na B. perennis.

Bellis cordifolia (Kunze) Willk.


E sobre boninas estaríamos conversados. Conhecíamos, claro está, outras espécies de Bellis em nada confundíveis com estas duas espécies irmãs, como a açoriana B. azorica e a sulista (e minúscula) B. annua. Mas a nossa visita a Algeciras em Abril deste ano ensinou-nos que as boninas são assunto mais vasto e intricado do que julgávamos; e, de surpresa, elas ganharam a nossos olhos um interesse renovado. O primeiro episódio foi termos deparado, num dos extensíssimos sobreirais que formam o Parque Natural Los Alcornocales, com umas boninas de folhas grandes e arredondadas, distintamente cordiformes. Eram boninas indiscutíveis, mas as folhas destoavam. Convocada a prestar esclarecimentos, a Flora Iberica não se vez rogada, e de pronto identificou a descoberta como sendo a Bellis cordifolia (acima ilustrada), endémica dessa região da província de Cádiz.

Encantados por uma planta que nos era familiar se ter transmudado em raridade de distribuição restrita, passámos a olhar as boninas com mais atenção. A dada altura já não diríamos que a Bellis cordifolia fosse assim tão rara, pois na Sierra Bermeja, já na província de Málaga, ela parecia surgir com regularidade. Ter-se-ia a Flora Iberica equivocado? Observando com atenção as folhas das plantas de Málaga (fotos em baixo), constatamos que elas, apesar de muito largas, não são de facto cordiformes, ou são-no em grau muito menor que as de Algeciras. A Flora Iberica é da opinião que plantas como esta da Sierra Bermeja, apesar de poderem confundir-se com a B. cordifolia, se situam num extremo de variação da B. sylvestris subsp. pappulosa.

Talvez a história não se fique por aqui. Mesmo com os estudos moleculares, a taxonomia não é ainda uma ciência exacta, e entre os botânicos há, como sempre houve, opiniões divergentes sobre como valorizar certas discrepâncias morfológicas. A verdade é que custa a crer que as plantas de Málaga, de folhas tão diferentes, encaixem na mesma espécie e subespécie que a vulgar B. sylvestris dos nossos montes.

Bellis sylvestris subsp pappulosa (DC.) Coste

28/06/2026

Abetos da Serra Vermelha

Abies pinsapo Boiss. — Sierra Bermeja, Málaga
As encostas nevadas de onde nos chegam as transmissões televisivas dos campeonatos de esqui (ou onde têm lugar frenéticas perseguições em certos filmes de James Bond) aparecem amiúde revestidas por densas formações de coníferas. São abetos, pinheiros, espruces, lariços, todos de formato cónico e com os ramos pendentes para que a neve não se acumule nas copas. Supomos que alguma vez o branco seja substituído pelo verde, mas essa parte nunca nos é mostrada, e aquelas árvores ficam-nos para sempre associadas a um frio impenitente e perpétuo. Em todo o caso, devemos reconhecer que no nosso país não há neve tão espessa, nem tão persistente, nem cobrindo extensões tão desmedidas, o que parece razão bastante para que as coníferas vinculadas a esses climas e altitudes não existam em território português. Temos pinheiros, é verdade, mas foram quase todos plantados, e são daqueles pouco adaptados à neve. E em Manteigas ensaiou-se uma plantação de lariços que ficou jeitosa, mas a neve é escassa para que o cenário seja credível. A situação indes­mentível é esta: abetos, espruces e lariços não fazem parte da flora espontâ­nea portuguesa.

Será que Espanha se saiu melhor do que nós? Basta lembrarmo-nos dos Pirenéus para reconhecermos que sim: grandes procissões de pinhei­ros-negros (Pinus mugo) e de pinheiros-silvestres (Pinus syl­vestris), às vezes acompanhados por abetos (Abies alba), trepam pelas encostas da cordilheira até aos 2000 metros de altitude. Acontece que os abetos peninsulares preferem, de um modo geral, altitudes mais baixas, e a espécie a que dedicamos o texto de hoje, Abies pinsapo, vive muito bem sem neve, ou só com neve muito ocasional. O abeto-espanhol (como é costume chamar-lhe) escolheu morar na Andaluzia; mas, se o manto branco não é para ele requisito importante, bem poderia ter atravessado a fronteira e fazer-se também português.

O Abies pinsapo é uma conífera de porte médio, não excedendo os 30 metros de altura, que vive em bosques puros ou mistos em algumas serras de Málaga e de Cádiz, entre os 900 e 1700 metros de altitude. Distingue-se de outros abetos pelas agulhas curtas e rígidas, dispostas radialmente — ou seja, guarnecendo os galhos a toda a volta, enquanto que nas outras espécies de Abies as folhas se organizam em duas fiadas opostas. Cada árvore produz na Primavera cones masculinos e femininos: os primeiros são vermelhos e aninham-se nas axilas das folhas na parte inferior da copa; os segundos, de cor acastanhada, brotam nas extremidades dos ramos superiores, dando origem no Verão a pinhas grandes e erectas.

Abies pinsapo Boiss.


Um dos mais importantes bosques de abetos-espanhóis, e o único que visitámos, ocupa uns 40 hectares nos cumes da Sierra Bermeja, a apenas dez quilómetros da costa mediterrânica. Não é a população mais numerosa da espécie: na Sierra de Grazalema, 35 quilómetros a norte, o bosque de abetos estende-se por uma área dez vezes superior. Contudo, foi na Sierra Bermeja que Pierre Edmond Boissier, o eminente botânico suiço que descreveu este abeto em 1838, primeiramente o avistou, aquando de uma expedição à província de Málaga. E a esse dado histórico acresce uma singularidade ecológica: a Sierra Bermeja justifica plenamente o nome que tem pela intensa cor vermelha das rochas que lhe dão forma. De facto, essa serra, que atinge os 1470 metros de altitude máxima, constitui o maior afloramento ultrabásico da Península Ibérica, e um dos maiores a nível mundial, ultrapassando os 300 km2 de extensão. Essas rochas ricas em magnésio são parte normal das camadas inferiores da crosta terrestre, e nos raros lugares onde assomam à superfície são sempre refúgio de uma vegetação peculiar. A Sierra Bermeja ostenta um número apreciável de endemismos botânicos, infelizmente ainda não em flor por altura da nossa visita, mas o que acolhe de mais improvável é este bosque de abetos, crescendo num substrato reconhecidamente adverso a um coberto arbóreo bem desenvolvido.

03/06/2026

Das soagens aos massarocos

Serra de Grazalema, Málaga
Em Portugal, é a soagem que tem a alegre incumbência de pintar os campos de roxo no início da Primavera. Começando pelo sul, onde as temperaturas amenas chegam mais cedo, progride como um incêndio benigno do Algarve até ao Minho, fazendo abrir afanosamente as flores e atraindo o zumbido alvoroçado das abelhas. A espécie mais comum de soagem, Echium plantagineum, embora largamente dominante nessa tarefa, é aqui e ali coadjuvada por congéneres como E. rosulatum (na metade norte do país), E. tuberculatum (nos calcários do centro-oeste) e E. creticum (na planície alentejana). Com dez espécies em carteira em Portugal continental, e dezanove se alargarmos o âmbito da amostra a toda a Península Ibérica e às ilhas Baleares, o género Echium é bastante diverso, tanto em número de espécies como nas formas que assume. De facto, as espécies ibéricas, ainda que quase todas herbáceas, variam consideravelmente tanto no aspecto geral como no tamanho: há as que têm um só caule (como o E. vulgare) e outras com caules múltiplos (como o E. lusitanicum); umas ficam-se pelo meio metro de altura e outras excedem os dois metros (como o Echium boissieri); umas apresentam caule simples e outras são bastamente ramificadas.

Nada disto deixa adivinhar o modo como o género Echium se viria a diversificar na Macaronésia: são 33 as espécies endémicas, muitas delas arbustos lenhosos, distribuídas pela Madeira, Canárias e Cabo Verde, levando o segundo destes arquipélagos, com 27 espécies, grande vantagem sobre os outros dois, cada um deles só com três espécies. Mas as espécies continentais de Echium, ainda que menos celebradas do que as insulares, também podem ser surpreendentes. É essa afirmação que tentamos hoje ilustrar com três espécies fotografadas em Espanha.

Echium creticum L.


O Echium creticum, que encontrámos em Almeria mas também ocorre no sul de Portugal, é uma soagem de aspecto convencional, que um olhar desatento poderia confundir com o Echium plantagineum. Observamos, contudo, que tem folhas (em particular as basais) mais verrucosas e estreitas, ramificação mais lassa, e flores com estames menos salientes. Às diferenças morfológicas soma-se a circunstância de o Echium plantagineum estar ausente do sudeste de Espanha. Nessa região, a tarefa de colorir a Primavera de roxo cabe ao E. creticum e ao também abundante E. sabulicola — que, como o nome indica, tem distribuição sobretudo costeira.

Echium italicum L.


Encontrámos o Echium italicum em Menorca, e de facto ele não existe na Península Ibérica; mas, ocorrendo em todos os países da Europa mediterrânica desde a França até à Turquia, não é abusivo tratá-lo como espécie continental. Embora tenha porte modesto, não ultrapassando a altura de um metro, recorda irresistivelmente, pelo formato cónico, os famosos tajinastes de Tenerife e de La Palma. Até nas flores pequenas e com estames proeminentes a semelhança é indesmentível. É como se a natureza fizesse, com o E. italicum, um primeiro esquisso mediterrânico das obras-primas que viria a criar no arquipélago atlântico.

Echium albicans Lag. & Rodr.
O Echium albicans, endemismo andaluz, chega-nos das serras calcárias da província de Málaga. É uma planta pequena, de não mais que 70 cm de altura, em regra de caule simples, não ramificado, e de flores comparativamente grandes. De formato mais cilíndrico do que cónico, destaca-se pelo aspecto lanudo e esbranquiçado, e pelas folhas estreitas e compridas, quase lineares, formando uma roseta basal bem definida.