22.5.18

Antes que a chuva caia


Draba dedeana Boiss. & Reut.


Um artigo na revista inglesa The Alpine Journal, em que o sr. John Ormsby descreve a cadeia de montanhas dos Picos da Europa entre Santander e Oviedo, chamou a atenção do sr. Edmond Boissier, de Genebra. No decurso do mês de Junho de 1878, concebeu ele o projecto de visitar essa parte de Espanha e de lá passar para Portugal, país que nunca visitara, regressando pela serra de Gredos, uma alta cadeia montanhosa entre Portugal e Madrid. Propôs a viagem a dois dos seus amigos botânicos. Um favor desses nunca se recusa. (...)
Passando outra vez na mesma linha, mas de dia, chama-nos a atenção a estação de Pancorbo. As falésias verticais de rocha calcária que ali existem junto à via férrea merecem ser cuidadosamente exploradas. É lá que está assinalada a Draba mawii Hook f., ilustrada no Curtis's Botanical Magazine, vol. XXXI (1875), estampa 6186, descoberta em 1875 pelo inglês sr. Maw. A figura mostra as folhas lanceoladas e densamente ciliadas da planta, assim como as flores brancas com cálices nitidamente bordejados de vermelho. (...) Em nossa opinião, essa Draba mawii é a mesma espécie que a Draba dedeana, descrita mais de trinta anos antes nas Additions au voyage dans le midi de l'Éspagne, pág. 718. A Draba dedeana foi conservada no herbário de Faucher (adquirido por Boissier), tendo sido colhida por um senhor Dédé, botânico, a quem foi dedicada. Posteriormente, a mesma espécie foi colhida por Boissier e Reuter acima de Reinosa no Pico Cordel, em 1858, por Leresche, em 30 de Julho de 1862, nas montanhas mais a oeste no limite da parte superior da bacia do Ebro, e por fim, abundantemente, por Boissier, Leresche e Levier, em Julho de 1878 e 1879, nos Picos da Europa. A indicação petalis flavis dada por Boissier (loc. cit.) é um erro, pois a planta decididamente dá flores de uma linda brancura. O exemplar de Dédé estava velho, o que poderá explicar o erro sobre a cor das flores.

A rocha calcária, pela sua menor dureza, presta-se a ser moldada pelas forças da natureza em formas muito mais caprichosas e acidentadas do que o granito. Mas esse trabalho de escultor decorre numa escala temporal que não é a nossa. Tudo o que é rocha nos parece eterno, e as abruptas paisagens cantábricas exploradas no último quartel do século XIX pelo botânico Edmond Boissier e pelos seus companheiros não são muito diferentes daquelas que podemos ver na segunda década do século XXI. É certo que há estradas e estâncias de esqui que nos permitem sem esforço chegar a muitos cumes, mas o recorte dessas montanhas não foi desfigurado por uma invasão de ventoinhas. E, nos interstícios das mesmas imperturbáveis rochas, parecem morar, indiferentes ao passar dos anos, as mesmas plantas que os nosso antecessores viram e catalogaram. Como esta Draba dedeana que Boissier, por a ter descrito a partir de material em más condições colhido por outrem, julgou ter flores amarelas como a Draba aizoides.

Talvez os aficionados de rock gardens prefiram a versão amarela à versão branca, mas os completistas hão-de querer tê-las das duas cores. Ambas têm uma folhagem muito característica, formando almofadinhas compactas eriçadas de pêlos. Nos cumes tempestuosos onde é costume acoitarem-se, é raro as flores poderem exibir a sua simetria perfeita sem que uma chuva desatada venha despenteá-las. As fotos que ilustram o texto foram tiradas no Picon del Fraile, quando as nuvens negríssimas ultimavam os preparativos para o granizo que iria desabar minutos depois. Vida bem diferente, rodeada de confortos burgueses, levam as plantas que migraram para jardins situados às vezes noutros continentes.

Sem os bons ofícios do comércio hortícola, a Draba dedeana, uma pequena planta vivaz com hastes até 8 cm de altura, nunca poderia ser vista fora da Península Ibérica, onde cresce nas montanhas do norte e do leste, sempre em rochas calcárias, e floresce de Março a Maio.

15.5.18

Ervilhas quadradas

Tantas plantas, tão sábias e tão silenciosas! Desde o início, parecem sobreviver sem apelar a sons, embora não saibamos se o nosso ruído as beneficia, as desgosta, ou se nem reparam nele. Experimentamos esse mundo surdo e mudo em que a flora vegeta quando passeamos em locais onde não se ouvem passarinhos ou rãs, nem o quebrar de folhas sob os pés, nem o embate da chuva no chão. Um sossego, retemperador para os desgastados pela agitação da cidade, dirão; mas a proximidade do vazio é pouco agradável, e o nada no escuro causa mesmo algum receio. Todavia, se alguma vez as plantas adquirirem voz que oiçamos, com as árvores animadas em longas conversas nas noites de Verão, as herbáceas a cavaquearem diariamente e as flores a sussurrarem entre si sem descanso, teremos de abandonar o planeta para local mais sereno.


Tetragonolobus maritimus (L.) Roth


Até lá, conversemos sobre ervilhas quadradas. O termo ervilha tanto designa a semente polposa de algumas fabáceas (tal qual as que se usam no arroz-de-ervilhas), como se refere à vagem que as contém. Este invólucro das sementes é espalmado no feijão-verde mas não no caso da planta das fotos. O fruto dela tem secção transversal que parece um anel com quatro apêndices exteriores. O arranjo resulta da presença de quatro asas salientes nas duas faces da vagem, que, como é usual nestes frutos, se abre ao longo de duas costuras para libertar as sementes. Essas asas formam os quatro ângulos a que alude o nome tetragonolobus; a configuração final sugeriu uma curiosa designação vernácula para este género de plantas, dente-de-dragão. Não havia ainda frutos do T. maritimus para fotografar, mas pode verificar este pormenor morfológico nas imagens do Tetragonolobus conjugatus ou do Tetragonolobus purpureus, duas espécies que ocorrem em Portugal continental. Ou, em alternativa, analisar os diagramas elucidativos da Flora Ibérica.

O T. maritimus é espécie perene, de folhas glaucas e exuberantes flores amarelas com o dorso do estandarte pintalgado de vermelho. Nativa da Europa, norte de Africa e Ásia, floresce no Verão e, diz a Flora Ibérica, aprecia prados húmidos em pleno sol. Os exemplares que vimos em Soncillo, na província de Burgos (Cantábria), cobriam luxuriantes o (de resto deselegante) talude do caminho que acompanha uma das margens do ribeiro Saúl.

8.5.18

Sanguinho das escarpas

Rhamnus alpina L.
Chamamos sanguinho, indiferenciadamente, aos arbustos e árvores dos géneros Rhamnus e Frangula: os primeiros são arbustivos, os segundos esforçam-se por ser árvores e têm no sanguinho açoriano (Frangula azorica) o seu mais formoso representante. Estes dois géneros da família Rhamnaceae têm flores pouco vistosas, esverdeadas, de quatro ou cinco lóbulos (quatro no Rhamnus, cinco na Frangula), mas os cachos de frutos (que são pequenas drupas vermelhas ou negras) são bonitos de se ver. Apesar destas fortes semelhanças, não é apenas o tamanho que distingue a Rhamnus da Frangula: a diferença mais importante é sexual, pois uma é dióica e outra hermafrodita. Trocando por miúdos, em cada espécie de Rhamnus há indivíduos masculinos e femininos, cabendo aos insectos polinizadores a tarefa de transportar o pólen fecundante de uns para outros; já na Frangula as flores são todas do mesmo tipo, com orgãos funcionais masculinos e femininos (foto), e cada indivíduo é capaz de produzir sozinho sementes viáveis. O indivíduo de Rhamnus alpina acima retratado é masculino: cada flor tem quatro estames salientes, mas não dispõe de estigma nem de ovário.

O sanguinho-dos-Alpes (como passaremos a chamar à Rhamnus alpina) é um arbusto que, para se resguardar do frio, se fez mais rasteiro do que os congéneres que lhe conhecemos em Portugal (lista aqui). Diz a Flora Iberica que pode atingir um máximo de 5 metros de altura, mas os exemplares que vimos pouco ultrapassavam os 50 cm; e, com os seus ramos tortuosos, pareciam moldar-se à escarpa em busca de protecção. As folhas, bem maiores do que é habitual no género, são arredondadas, lustrosas e de margens crenadas, e têm a venação bem marcada.

Vegetando a altitudes que variam dos 250 aos 2600 m, de preferência em substratos calcários, o sanguinho-dos-Alpes distribui-se pelo sul da Europa desde a Península Ibérica até à Itália, e no norte de África tem presença pontual nas montanhas do Atlas (Argélia e Marrocos).

3.5.18

Cruzes de Maio


Pritzelago alpina subsp. auerswaldii (Willk.) Greuter & Burdet


Em Maio, a 1100 metros de altitude, num vale cantábrico aninhado entre picos vertiginosos, já as plantas nos prados se podem dedicar à tarefa de florir agora que a neve derreteu. As apressadinhas, como a Hepatica nobilis, fazem-no tão prontamente que por esta altura são já poucas as flores que não se converteram em frutos. Outras mais avantajadas precisam de tempo para espigar antes de se enfeitarem: é o caso da Gentiana lutea – que, vendo-se por aqui aos milhares, só há-de mostrar o amarelo das flores a quem tenha a paciência de voltar no mês seguinte.

Na orla do prado, entre pequenos blocos de pedra calcária, brilham de brancura umas flores modestas que valem pelo conjunto. Pertencem elas a uma crucífera de caules sinuosos, de 10 a 25 cm de altura, com folhas basais pinatissectas que lembram muito as de uma outra crucífera dos calcários, a efémera e diminuta Hornungia petraea. De facto, embora a planta cantábrica seja tradicionalmente incluída no género mono-específico Pritzelago, alguns autores entenderam recentemente mudá-la para Hornungia, ficando ela a chamar-se Hornungia alpina subsp. auerswaldii. Do ponto de vista morfológico, essa opção parece justificar-se, pois também os frutos de uma e de outra são bastante semelhantes (confirme aqui e aqui). Há apenas o óbice de a (ex-)Pritzelago ser uma planta perene, quando todas as restantes espécies de Hornungia são anuais.

De entre as diversas versões de Pritzelago alpina (ou Hornungia alpina), a subespécie auerswaldii é distintiva por ser mais alta do que as outras (20 a 25 cm contra um máximo de 15 cm) e por possuir três ou mais folhas caulinares em cada haste (as restantes subespécies só costumam ter folhas basais). Algumas fontes indicam que a subsp. auerswaldii existe em França, mas é provável, segundo outras fontes, que essa informação esteja errada (em França, confirmadamente, ocorrem a subsp. alpina e a subsp. brevicaulis), o que faria da planta um endemismo ibérico. Está confinada ao norte da Península, e é particularmente frequente na cordilheira cantábrica, rareando nos Pirenéus, onde é substituída pela subsp. alpina. Aprendemos, com alguma surpresa, que ela faz parte da flora portuguesa: colhida pela primeira vez em 1971, em Vinhais, tem sido vista ocasionalmente por lá desde essa data; e, segundo Carlos Aguiar, "é um dos melhores exemplos de relíquias würmianas em Portugal". (E aqui damos licença ao leitor para ir espreitar à Wikipédia.)