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08/05/2018

Sanguinho das escarpas

Rhamnus alpina L.
Chamamos sanguinho, indiferenciadamente, aos arbustos e árvores dos géneros Rhamnus e Frangula: os primeiros são arbustivos, os segundos esforçam-se por ser árvores e têm no sanguinho açoriano (Frangula azorica) o seu mais formoso representante. Estes dois géneros da família Rhamnaceae têm flores pouco vistosas, esverdeadas, de quatro ou cinco lóbulos (quatro no Rhamnus, cinco na Frangula), mas os cachos de frutos (que são pequenas drupas vermelhas ou negras) são bonitos de se ver. Apesar destas fortes semelhanças, não é apenas o tamanho que distingue a Rhamnus da Frangula: a diferença mais importante é sexual, pois uma é dióica e outra hermafrodita. Trocando por miúdos, em cada espécie de Rhamnus há indivíduos masculinos e femininos, cabendo aos insectos polinizadores a tarefa de transportar o pólen fecundante de uns para outros; já na Frangula as flores são todas do mesmo tipo, com orgãos funcionais masculinos e femininos (foto), e cada indivíduo é capaz de produzir sozinho sementes viáveis. O indivíduo de Rhamnus alpina acima retratado é masculino: cada flor tem quatro estames salientes, mas não dispõe de estigma nem de ovário.

O sanguinho-dos-Alpes (como passaremos a chamar à Rhamnus alpina) é um arbusto que, para se resguardar do frio, se fez mais rasteiro do que os congéneres que lhe conhecemos em Portugal (lista aqui). Diz a Flora Iberica que pode atingir um máximo de 5 metros de altura, mas os exemplares que vimos pouco ultrapassavam os 50 cm; e, com os seus ramos tortuosos, pareciam moldar-se à escarpa em busca de protecção. As folhas, bem maiores do que é habitual no género, são arredondadas, lustrosas e de margens crenadas, e têm a venação bem marcada.

Vegetando a altitudes que variam dos 250 aos 2600 m, de preferência em substratos calcários, o sanguinho-dos-Alpes distribui-se pelo sul da Europa desde a Península Ibérica até à Itália, e no norte de África tem presença pontual nas montanhas do Atlas (Argélia e Marrocos).

17/07/2012

Sopa de espinhos

Rhamnus lycioides subsp. oleoides (L.) Jahandiez & Maire


Se um dos nomes vernáculos deste arbusto, espinheiro-preto, parece apropriado — pois a planta é provida de espinhos e tem uma tonalidade mais sombria que outros arbustos igualmente aculeados — já o outro, fura-panelas, suscita perplexidade. Será que alguém tentou fazer sopa com ele e os espinhos romperam a panela? Tratando-se de uma planta algo tóxica (as suas bagas, apesar de apreciadas pelos pássaros, são desaconselhadas para os humanos), o acidente só pode ter sido providencial.

O espinheiro-preto, arbusto semi-caducifólio de crescimento lento, tem o aspecto desgrenhado que as fotos documentam e não costuma exceder um metro de altura. Distribui-se pelas duas bandas da bacia mediterrânica, da Península Ibérica à Turquia e de Marrocos ao Egipto, e é um dos dois do seu género espontâneos em Portugal. O outro, Rhamnus alaternus ou aderno-bastardo, é componente habitual dos matos mediterrânicos do centro e sul do país, e distingue-se do bem menos frequente R. lycioides pelas folhas com margens dentadas e pela ausência de espinhos. Ambos têm preferência por terrenos secos, mas o espinheiro-preto é quase exclusivo dos calcários. Outro traço comum é o aspecto das flores, pequenas e amarelo-esverdeadas, com as sépalas, que são quatro no R. lyciodes e cinco no R. alaternus, a fazerem as vezes das inexistentes pétalas.

Das seis subespécies de Rhamnus lycioides, só a oleoides, que já foi espécie autónoma sob o nome R. oleoides, tem presença confirmada em Portugal. Em Espanha e nas ilhas Baleares ocorre também a forma típica da espécie (subsp. lycioides), que apresenta folhas consideravalmente mais estreitas.

28/07/2011

Sanguinho das ilhas

Frangula azorica V. Grubow
O sanguinho-das-ilhas (Frangula azorica) é a versão açoriana do sanguinho-de-água (Frangula alnus), árvore frágil e de pequeno porte que surge esparsamente junto a rios e ribeiras na metade norte do país. Na sua encarnação atlântica, ganha um porte mais robusto (até 10 m de altura) e folhas maiores (10 a 15 cm contra 3 a 7 cm da F. alnus); e, talvez por a chuva no arquipélago ser um fenómeno quotidiano, perde a compulsão de viver junto a cursos de água. Gosta da companhia de loureiros e juníperos na floresta de nuvens, mas também aparece dispersa em ravinas e sebes. De todas as ilhas açorianas, só não está presente em Santa Maria, Graciosa e Corvo. Embora não seja rara, o pastoreio, o abate e a invasão de exóticas têm vindo a depauperar as suas populações, a ponto de ela ter sido listada na Directiva Habitats (Decreto-Lei n.º 140/99). Na Madeira, onde também terá existido, só subsistem dela vestígios fósseis.

Contrariando a opinião do seu predecessor Tournefort (1656-1708), Lineu, no seu Species Plantarum (1753), incluiu estas árvores no género Rhamnus. Foi Phillip Miller, em 1768, que emancipou o género Frangula, caracterizando-o pelas flores hermafroditas de cinco pétalas. Nos arbustos do género Rhamnus, por contraste, as flores têm quatro pétalas e são de dois tipos: masculinas ou femininas. (Veja as fotos acima e também aqui.)

Por muito insignificantes que pareçam - e a verdade é que ninguém planta sanguinhos pelo seu valor ornamental -, as flores são um bilhete de identidade que raramente engana. Antes de os estudos genéticos virarem a taxonomia às avessas, era a morfologia das flores que ditava a fixação dos géneros e das famílias botânicas. Por isso não se entende que uma obra tão conservadora como a Flora Ibérica (que persiste, por exemplo, em reconhecer a circunscrição tradicional da família Scrophulariaceae) queira suprimir o género Frangula, diluindo-o novamente no género Rhamnus. Mas, visto que o tomo correspondente ainda não viu o prelo, talvez a omissão seja um lapso ainda a ser corrigido.

22/12/2009

Verde vegetal

Em 1845, era a ilha de Hong Kong britânica, a França enviou à China uma equipa de negociadores (Fortune, Randot e De Montigny) para fomentar, na nova conjuntura, as trocas comerciais. Voltaram anos depois com alguns objectos na bagagem, um deles de valor menos óbvio mas que se revelaria o mais precioso: um pote de argila verde, o lo kao.

Até essa altura, colorir tecidos de verde significava mergulhá-los numa cuba de azul e depois noutra de amarelo. Para além do problema de conseguir os mordentes adequados para fixar o pigmento, o processo raramente permitia obter matizes idênticos porque estes dependiam da concentração dos ingredientes e da temperatura desses caldos. Exigências que encareciam o corante: Robin Hood e os seus companheiros vestiam verde-Lincoln não para se camuflarem mas porque esta cor, feita de azul extraído de Isatis tinctoria L. e amarelo da Reseda luteola L., era muito cara, e por isso um bom exemplo do que devia ser roubado aos ricos e distribuído pelos menos afortunados.

A lama verde lo kao era obtida de duas espécies chinesas, Rhamnus utilis Dcne. e Rhamnus chlorophorus Dipp. Na Europa, era conhecido o uso de plantas do género Rhamnus para a confecção de tintas: por exemplo, as folhas de Rhamnus cathartica L. eram utilizadas para produzir amarelo; e as bagas, brevemente fervidas com alúmen, cozinhavam uma seiva esverdeada, tida contudo como um verde de fraca qualidade. Os chineses, porém, produziam o seu verde a partir da casca daqueles arbustos, e dispensavam o uso de mordentes. A cor intensa e resistente à luz era o sedimento, vendido a alto preço, que resultava de um método moroso e complexo. Por isso foi dos primeiros pigmentos a ser substituído na Europa, em 1870, por versões sintéticas que passaram a rumar à Ásia. Os que antes celebravam a natureza renderam-se sem agravo à tecnologia.


Rhamnus alaternus L.

As flores amarelas de R. alaternus (o sanguinho-das-sebes), planta dióica de folhagem perene abundante na região mediterrânica, não têm pétalas. As 5 sépalas das flores masculinas são reflexas, as das femininas são erectas. (Reveja as fotos, estimado leitor, para as identificar.)


Frangula alnus Mill.

Dos ramos de Frangula alnus (ou Rhamnus frangula L., o sanguinho-das-ribeiras da Europa, Ásia e Norte de África), um arbusto lenhoso de folha caduca, com flores verdes hermafroditas de 5 pétalas e 5 sépalas (maiores), e que pode chegar aos 5m de altura, faz-se o melhor carvão para desenho - ou, por ser leve, para o fabrico de pólvora.

08/12/2009

Árvore das passas


Hovenia dulcis Thunb.

No fim do ano passado, naquele minuto e meio em que se engolem com fervor 12 passas - cobiçando apenas o útil e agradável, sem nunca entender o alcance dessa oração em que se comem as contas do rosário - desejámos conseguir identificar esta árvore. Mora num canteiro de cimento nas traseiras de uma estufa do Jardim Botânico do Porto e, confessamos, tentámos forçar a sorte questionando um dos jardineiros sobre o nome dela. Sei o nome, sim senhora, disse-mo uma vez o Doutor (...), mas agora não o tenho presente.

Observem-na como nós o fizemos semanas a fio. Tem uma copa aberta, ramagem longa, folhas alternadas em forma de coração, com três nervuras na base, um longo pecíolo, ápice pontiagudo, margens serradas e face inferior levemente pubescente. As panículas terminais de flores pequeninas hermafroditas (é certo, isto mal se vê) branco-verdosas de cinco pétalas nascem no Verão e são muito perfumadas. E os pedúnculos, depois de a flor cair, intumescem e o recheio sabe a passas sem graínhas embebidas em mel.

Releia isto, natalício leitor, não é todos os dias com árvores que aqui servimos tão singela iguaria.

E para que serve tal requinte de mesa, a quem se destina? Com quem faz esta árvore negócio através desta ambrósia? Dizem os cientistas que se trata de mutualismo com formigas, sobretudo enquanto a planta é jovem, para a proteger de animais herbívoros.

O fruto é essa bolinha verde na ponta do açúcar-em-pau, que amadurece pardusca e contém três sementes, essenciais à planta pois ela não tem outro modo de se multiplicar.

Por mero acaso (ou foram as passas?), quando já não o esperávamos, descobrimos uma foto dela no livro Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, de G. López González (Mundi-Prensa, 2.ª edição, 2006). Sabemos agora que o género Hovenia é pequeno (sete espécies, que talvez se venham a reduzir a duas, do este e sudeste da Ásia, desenvolvendo-se melhor em regiões de clima quente e seco e solos alcalinos) e que Hovenia deriva de David ten Hove (1724-1787), um holandês que financiou a expedição de Thunberg em 1772-1776 à África do Sul, Java e Japão.

09/05/2007

Lilás-da-Califórnia


Ceanothus thyrsiflorus var. repens

O Ceanothus thyrsiflorus é da família Rhamnaceae e nativo da América do Norte. Tem inflorescências piramidais (daí o epíteto thyrsiflorus) que lembram as do lilás, mas as flores são mais elaboradas: 5 sépalas pontiagudas, que se unem num disco, e 5 pétalas orelhudas, como capuchinhos que se estreitam na base. É arbusto de crescimento rápido, e rasteirinho, por isso apropriado como tapete em canteiros ensolarados - ou para jardins que têm dificuldade em sair do papel.

As espécies Ceanothus que dão flores brancas têm em geral ramos espinhosos (e keanothus é o termo grego correspondente). A mais famosa é a prima C. americanus, conhecida como New Jersey tea, cujas folhas substituíram as de chá chinês durante a guerra da independência americana (1775–1783), na sequência da Boston Tea Party - um protesto de colonizadores e índios americanos contra a Grã-Bretanha em Dezembro de 1773, durante o qual se afundaram cerca de 45 toneladas de chá chinês que, durante as semanas seguintes, revestiu as areias do porto de Boston.

14/04/2006

Salmo



Deste-nos, é certo, o corrimão.
Mas os degraus,
os degraus onde começam?

José Miguel Silva, O sino de areia (Gilgamesh, 1999)


Colletia cruciata