11.4.07

A vinca que não vinga

Visitando uma exposição de arquitectura, pode apreciar-se, reunido em ponto pequeno num único salão, aquilo que à escala real obrigaria a uma visita demorada a lugares diversos em pontos afastados da cidade. Há uma leitura unificadora que permite construir uma imagem simplificada de um certa realidade urbana, o que em si mesmo nada tem de errado: o mundo, afinal, só se deixa perceber em pequenas parcelas, e são essas incompletíssimas abstracções que formam os mapas mentais com que nos vamos governando. Mas a visão da maquete - ou do cenário digitalizado, ou das fotos cuidadosamente enquadradas - nunca pode substituir a experiência sensorial dos lugares. As pessoas não são feitas do mesmo material inerte que compõe os bonecos da maquete, nem são uma combinação evanescente de pixeis coloridos. Se não houver bancos para descansar, ou se os houver mas sem encostos e com assentos de pedra fria; se os abrigos não protegerem da chuva nem do vento; se a sinalética for tão discreta que se torne ilegível; se um jardim, em vez de plantas e flores, tiver a terra nua semeada de lixo e excrementos - então, experimentando estes desconfortos, as pessoas de carne e osso vão concluir que aqueles espaços não foram pensados para elas.



O arquitecto Eduardo Souto Moura cometeu cada um destes pecados contra os utentes do metro do Porto ou contra os frequentadores de espaços urbanos onde a empresa também interveio. Alguns dos «lapsos» foram já corrigidos, mas outros, em atenção aos direitos de autor do arquitecto (mais respeitáveis do que o bem-estar daqueles que diariamente sofrem com a sua obra), talvez nunca venham a sê-lo. O que não impede a obra de ser premiada internacionalmente como modelo de «inserção urbana», nem de sobre ela se inaugurar, na alfândega do Porto, uma exposição celebratória com muitas vénias e elogios. A mesquinha realidade quotidiana é triunfalmente obliterada pela maquete, pelo design, pela foto na revista de arquitectura, pelo discurso laudatório reproduzido acriticamente na imprensa.

Por isso, nada melhor do que tentar corrigir com alguns toques de realismo esse retrato idealizado, seja passeando pela pétrea avenida dos Aliados, dando um relance ao desgostoso Campo 24 de Agosto, ou parando num Jardim do Marquês deslavado, imune às cores da Primavera. Aliás, neste último caso, o arquitecto e a sua equipa parecem empenhados em demonstrar exuberantemente, quiçá com intuitos pedagógicos, que a sua aptidão para planear jardins é comparável à de um comum sapateiro para desenhar edifícios. Ou talvez o sapateiro, tendo a noção mínima de que uma casa precisa de paredes, saiba mais de arquitectura do que sabe de jardins e das suas funções um arquitecto que não vê necessidade de neles existirem plantas diversificadas. Esse terrume acastanhado que se vê na foto em cima, e que ocupa, assim despido e sujo, uma grande parte do Jardim do Marquês, deveria, segundo o projecto, estar forrado com uma única espécie vegetal, a vinca (Vinca sp.): trata-se de uma planta espontânea da nossa flora e, embora sozinha tenha pouca graça, é uma boa escolha para jardins. Acontece que nem sozinha ela quis ficar: desde Junho de 2006, data em que o jardim foi reaberto ao público, que a vinca se recusa a vingar. Primeiro protegeram-na com uma manta branca, fazendo do jardim cadáver amortalhado; retirada a manta, estenderam no chão uma rede presa com estacas. Mas da vinca, que viceja alegremente em muitos parques e jardins do Porto e arredores, só sobraram no Marquês uns fiozitos secos. Ou a vinca ou nada, resmunga o arquitecto. Será nada, suspiramos nós.

Fotos: Jardim do Marquês em Abril de 2007; Vinca major no Palácio de Cristal

7 comentários :

Anónimo disse...

E quem fala assim, não é gago!

JRP disse...

Assino por baixo.

Flor de magnólia disse...

Há menos de um mês ouvi, numa palestra na Fundação Eng. Antonio de Almeida, o Arq. Souto Moura dizer "o mundo está mal e a Natureza tem que ser corrigida" e mais a frente "a minha função, ou o meu sonho, é corrigir o mundo". Que atitude tão estranha esta. Não serão as grandes obras aquelas em que o autor consegue compreneder a natureza (comprender e respeitar o espaço, as pessoas, as plantas, a dinamica própria do lugar)?

bettips disse...

Qualquer arquitecto ou desenhador, deveria ter como principal objectivo, a harmonia da natureza com as pessoas que a habitam. Tanto mais numa cidade como o Porto, bombardeada de patos bravos da construção. Assim, deveria ser o trabalho dos mestres. Não terão vergonha de lá passar? Aliados, Cordoaria, Marquês ...

Anónimo disse...

Claro que nao têm vergonha de lá passar. Elas revêem-se nas obras e consideram-nas e consideram-se o máximo!

magma disse...

Mas afinal quem é Souto Moura para poder dizer impunemente tais besteiradas?

Não lobrigará ele que o mundo está mal por causa de tipos como ele?

Corrigir a natureza..?

E não houve ninguém nessa palestra que o "pusesse em casa".

A perorar para as paredes?

Corrigir a natureza...!?

Terá sido o homem entronizado à direita de Zeus no Olimpo da sua pesporrência? Sem sabermos?

O problema é que continuamos a dar-lhe corda.Pois...!

Valha-nos a serenidade dos simples!

kandimba disse...

É uma verdadeira tristeza ver o que os arquitectos do Porto fazem à sua própria cidade... Nunca me conseguirei conformar com a "sizentização" dos Aliados.