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28/12/2007

Escola do Porto

É um lugar-comum dizer-se que a Avenida da Ponte (Av. D. Afonso Henriques na toponímia oficial), no Porto, é uma ferida aberta na freguesia da Sé: é-o desde 1952, ano em que o bairro foi esventrado para se abrir uma ligação rodoviária desafogada entre a estação de São Bento e a ponte D. Luís. Agora que no tabuleiro superior da ponte só passa o metro, a avenida perdeu muita da sua importância para o tráfego automóvel. Teria sido bom aproveitar a ocasião para estreitar a rodovia e reconstruir, com materiais modernos, parte do casario demolido há meio século. Contudo, algo se ganhou: com a eliminação de duas ruelas secundárias paralelas à avenida, cada uma do seu lado, criaram-se nas suas margens dois espaços ajardinados bordejados por largos passeios.




Ganhou - ou poderia ter ganho. O jardim que a Metro do Porto aqui fez construir faz irresistivelmente lembrar o novo Jardim do Marquês, que é outra empreitada da mesma empresa: é a mesma terra nua e excrementícia, aqui e ali decorada com garrafas, papéis e outros detritos; tal como no Marquês, houve uma tentativa de a cobrir parcimoniosamente com vegetação (neste caso hera), que aqui igualmente não vingou. Há um eficiente sistema de rega que mantém a terra encharcada, pronta a acolher a sementeira que nunca há-de vir. Não há flores, não há arbustos, não há nada. Não há sombra de árvore a crescer em nenhum dos avantajados passeios. Há oito magnólias trémulas de susto que se juntaram encolhidas num canto: nunca esperaram viver em lugar tão feio.

Dadas as semelhanças entre estes dois espaços verdes, o transeunte desprevenido pode julgar-se perante mais uma obra de Souto Moura, principal arquitecto da Metro do Porto, mas de facto o jardim da Avenida da Ponte é criação de Siza Vieira. A confusão é perdoável, pois além de terem já colaborado um com o outro em intervenções como a da Avenida dos Aliados, os dois arquitectos são figuras de proa da celebrada escola de arquitectura do Porto. Escola essa que, como se vê, extravasou da concepção de edifícios para o desenho do espaço público - e que, nesse particular, em especial no que toca ao planeamento de jardins, mostra um grau de inépcia tão inacreditável que roça o virtuosismo.

24/10/2007

"Arrogância Castigada... mas ainda não os arrogantes"










A ler no PNED:
«Quem acompanhou o combate de diversas associações e cidadãos contra a forma como se destruíram os jardins dos Aliados e a sua calçada portuguesa sabe com que arrogância, autoritarismo, desprezo e até chacota várias "autoridades" e "personalidades" se referiram a essas associações e cidadãos por mais do que uma vez, e como até, muitos meses depois, chegam a invocar o facto de uma juíza ter assinado a petição respectiva para porem em causa a sua imparcialidade...

Pois bem. Segundo o JN de hoje (julgo que a notícia está reduzida online sendo a edição em papel bem mais explícita), um estudo encomendado a uma firma de consultadoria britânica para ver se conseguem "animar" os Aliados, chegou à conclusão brilhante (devem ter lido o blogue que os "contestários" criaram na altura e outros documentos de idêntica proveniência...) de que é necessário criar zonas de sombra na Avenida e recantos de repouso bem como (e já que não existe agora solo teria que ser em floreiras...) canteiros floridos. Mas, claro, sob supervisão do "arquitecto". Talvez, podemos nós imaginar, ele não ache agora "rodriguinhos" as tais floreiras e queira contribuir para "recuperar" os "aliados acabadinhos de recuperar"!

Belo puxão de orelhas à arrogância mas ainda não aos arrogantes, perante os quais, por enquanto, ainda continuam os salamaleques.
Saudações cordiais, JCM »

Aliados fora da rota das compras- no JN

17/10/2007

"Árvores a mais, árvores a menos"

Sem grande tempo para blogar (ultimamente), aqui deixo o destaque da PNED (Porto e Noroeste em Debate, lista mantida pela Campo Aberto), hoje selecionado pelo José Carlos Marques
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«Destaque: Árvores a mais, árvores a menos.
Não é no Noroeste, é em Cascais, mas é sempre animador ver que há cidadãos que decidem não aceitar passivamente a destruição de árvores centenárias: Cascais: moradores do Monte Estoril contra destruição de área verde. Também em Guimarães - Retirada de árvores gera discussão - há inconformismo perante mais uma retirada de árvores de uma praça a pretexto de "grandiosidade" e de "história".
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Que a praça nunca teve árvores até há 100 anos! Argumento despropositado pois que a árvore em meio urbano ganhou importância fulcral com o avanço da industrialização e a maior distância com ela criada entre meio urbano e meio rural mais próximo da natureza.
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Estamos perante uma "escola" que vê na árvore uma sombra ao edificado incómoda e inútil. As autarquias, perante o prestígio da "escola", multiplicam as encomendas. Mas as resistências de muitos cidadãos multiplicam-se e a "escola" começa a deixar de ter a aura que a nimbava... Está na hora de compreender que os tempos mudaram e que fazer riscos no ateliê é uma coisa, a realidade viva do meio urbano outra coisa por vezes muito diferente da prancheta vazia onde se expande livremente o "génio"...
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Já com isto só podemos estar de acordo: conferir prioridade ao peão e às bicicletas e reduzir a presença automóvel. Prova de que nem tudo é branco e preto... JCM »

29/09/2007

Para breve (mais) sizentismo em Guimarães?

Alerta via A Baixa do Porto


Condenados? Jardim da Alameda S. Dâmaso (11. 2006) e Largo do Toural (09.2006).

«Notícia JN: Revolução no Largo do Toural com a assinatura de Siza
Meus caros,
Será que não se aprende nada nessa nossa abençoada terra?

O que mais me estranha é como a coisa é feita.
1. Escolhe-se o arquitecto - assim, alguém o faz;
2. Encomenda-se o projecto - assim, como ele quer (?);
3. Põe-se o dito a debate público - assim, como um facto consumado.

Ora não sería melhor ter o debate à cabeça? Talvez se chegasse à conclusão que o que está, está bem. Ou que necessitava só de conservação. Ou de uns sanitários públicos por baixo do coreto e a revitalização do antigo café-esplanada. Mas assim não. Vai tudo abaixo, começando com as árvores que pouca falta fazem e os canteiros que só atrapalham e dão trabalho, em nome de uma modernidade importada e descaracterizante.

Que parolos: É que o rei vai nu!
Como já aqui disse, no Porto, olhai para os Jardins da Montevideu e Cordoaria, e as praças do Infante, Poveiros, Leões e D. João I, a Avenida dos Aliados, a Rotunda do Castelo do Queijo, o espaço em frente à Cadeia da Relação e do Piolho....

Alexandre Borges Gomes, Bruxelas » in A Baixa do Porto

  • Sobre a obra anterior de Siza Vieira nesta cidade, o Parque da Mumadona, ler a opinião de Francisco Teixeira transcrita aqui.

08/09/2007

Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas


Vidago

A propósito das obras que decorrem no Parque das Termas e no Hotel Palace de Vidago, recebemos do Eng. Jorge Moreira da Costa [contacto: jmfcosta(at)fe.up.pt] um artigo que merece a mais ampla divulgação:

........Era uma vez uma empresa chamada Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas. Embora fossem todas estâncias termais, Melgaço estava ali, no meio, provavelmente por soar melhor. Vidago e Pedras – como era coloquialmente conhecida – eram, sem dúvida, as jóias da coroa. Pedras, pelas suas águas que já faziam parte da fraseologia popular, Vidago também pelas águas mas, muito mais, pelo seu parque, pelo Palace Hotel, pelo ambiente de serenidade que criava. Eram jóias mas Vidago, sem dúvida, era o diamante.
........A Vidago existiu numa época em que as empresas tinham caras, tinham donos, eram mais que simples cotações de bolsa. A Vidago era de algumas pessoas, entre as quais o Conde de Caria Bernardo Mendes de Almeida, António Carneiro Pacheco e, particularmente, de Raul de Oliveira, conhecido empresário do Porto e do Dr. João Serôdio, de família igualmente ilustre e com raízes transmontanas, por sinal próximas de Pedras Salgadas.
........Raul de Oliveira e João Serôdio olhavam para Vidago e Pedras com olhos diferentes da maior parte dos seus sócios. Eram donos, mas sentiam que as vicissitudes da vida que lhes levara estas termas às mãos traziam algo mais que uma mera forma de gerar dinheiro; traziam também a responsabilidade de cuidar da cultura, da memória e da história daqueles lugares que mais de meio século de vida fazia circular entre aquelas árvores de copas gigantescas, deixando marcas em todos os que tinham a felicidade de ali entrar e estar.
........Pelos acasos que acontecem, aqui e ali, no final da década de 1950 conheceram um arquitecto jovem, na casa dos 30, que contrataram para realizar alguns projectos de remodelação das unidades de engarrafamento. Mas depressa repararam que o feitiço que os agarrava a Vidago e Pedras, levando-os a discutir energicamente com os outros sócios sobre as verbas a destinar à manutenção das instalações termais e dos hotéis, também se apoderara desse Arquitecto Jorge Moreira da Costa. E dos trabalhos mais rotineiros passou-se a outras obras de maior fôlego: remodelar os Hotéis Avelames e do Parque em Pedras, do Hotel do Golfe já em Vidago e tratar da manutenção do Palace.
........No Palace, que fechava durante o Outono e Inverno, o trabalho era quase de relojoaria: recuperar frisos e gessos de tectos, apainelados, soalhos e caixilharias de carvalho, a imponente escadaria do átrio de entrada. Também tinha algo de arqueologia, quando aqueles donos mais especiais, o Arquitecto e um funcionário dedicado chamado Senhor Canelas, que até vivia numa casa dentro do parque, se aventuravam nas enormes caves do hotel descobrindo pianos Bechstein empilhados a um canto, ânforas de alabastro, candeeiros do início do século e garrafas da reserva do hotel, sem rótulo e só com data longínqua, que iam acompanhar o jantar a quatro no enorme salão, sozinhos mas satisfeitos, antes da viagem de regresso ao Porto.
........O Palace era um hotel para aquistas mas também para famílias. Muitas vezes avós que procuravam as águas das buvettes, em copos graduados de forma oval, nada parecidos com o copo do Rei D. Carlos (ou D. Luís, já não me lembro) que estava numa vitrine na exótica Fonte Vidago I. Avós que traziam os seus netos e que precisavam de divertimento para eles. E surgiu a piscina do Palace.
........Atrás e à direita do hotel havia um espaço onde o monte parecia descansar. Mais plano, com menos árvores, o local ideal para construir uma piscina de formas arredondadas, suaves, ajustando-se ao terreno e contornando o arvoredo, própria para crianças e adultos, discreta e respeitosa perante a majestosidade do Palace, ali a 20 metros. Há locais onde apenas se entra convidado e, nesses, é de bom tom não fazer barulho.
........Durante mais de duas décadas, Vidago, o Palace e a sua piscina foram dos maiores símbolos do termalismo português. O parque, santuário de flora exuberante com algumas espécies únicas; o campo de golfe de montanha, também ímpar e estimado pelos jogadores que ali se deslocavam de propósito para defrontarem um original desafio às suas capacidades; o hotel sempre primoroso e remodelado para ampliar o número de quartos no último andar, permitindo acessibilidade a bolsas menos recheadas mas que precisavam, também, das águas, dos banhos, da paz, do descanso. O Palace não seria para todos mas também não deveria ser só para uns poucos privilegiados.
........Mas, como sempre acontece, o tempo correu e as coisas foram mudando. Os donos especiais foram partindo, os interesses dos restantes, que sempre tinham olhado para Vidago e Pedras com fito no lucro e pouco mais, voltaram-se para outros negócios, como a Fruto Real, que queria concorrer com a Sumol, a Cergal que queria ser a nova Sagres. As estâncias passaram a servir praticamente só para recolher e engarrafar água, o maná. Os hotéis, os parques, as piscinas, foram decaindo e deixadas ao abandono. O Arquitecto continuou a procurar convencer os donos da importância de manter Vidago e Pedras, mas já estava sozinho.
........Nessa altura, a VMPS foi vendida ao empresário Sousa Cintra. O Arquitecto Moreira da Costa, que ainda esteve em algumas reuniões onde se falava de grandes investimentos, de fazer isto e mais aquilo, cedo percebeu que eram palavras ocas. Vidago e Pedras continuavam quase desertas, os hotéis arriscavam-se até a perder as suas estrelas. Era demais. Nunca mais lá voltou.
........Mais recentemente, pela viragem do milénio, leu que a VMPS tinha sido comprada pela Unicer. Empresa de rosto novo, dinâmico, com ideias para revitalizar as jóias tão esquecidas por tanto tempo. Já não seria ele a tratar disso mas eram notícias interessantes. E viu escrito que um Colega de renome, Álvaro Siza Vieira, tinha sido contratado para liderar o projecto.
........Nunca soube nada sobre o que se passava. Nenhum telefonema, nenhuma pergunta, nenhuma interrogação, nenhuma curiosidade em ouvir o seu saber, um pedido para mergulhar nos arquivos de milhares de desenhos que contavam as suas histórias, a história de Vidago e das Pedras. Até que partiu também, em 2006, um ano antes de surgir numa revista uma maquete onde, no lugar onde a piscina que o seu traço tinha desenhado, com as linhas empurradas pela aragem que a floresta deixava passar, surgia um novo edifício, um SPA, mais de acordo com as modas de pendor elitista de hoje. Um edifício com a traça do mediático profissional, onde as linhas curvas e fluidas eram substituídas por outras rectas, angulosas. Ao contrário da piscina do Arquitecto Jorge Moreira da Costa, que quase pedia desculpa à montanha por se intrometer, este é um edifício que parece querer afirmar, alto e bom som, que aquele lugar é o seu, o resto que se afaste.



........Quem ainda cá está e partilhou muitas viagens, muitas tardes a conhecer os recantos da montanha, a explorar os caminhos escondidos, viu a fotografia e procurou perceber o porquê de destruir, o porquê de cortar com a memória, o porquê de fazer tábua rasa da bandeira agora tão frequentemente agitada, e ainda bem: reabilitação. Conseguiu uma entrevista com o projectista. E, nessa conversa… Porque não havia mais espaço, para não deitar árvores abaixo… A piscina estava em mau estado embora pudesse ser recuperada… Mas aquele era o único lugar. Foram as justificações. Apesar de saber que o local mais livre era, exactamente, do lado oposto, à esquerda do Palace, não discutiu. Agradeceu o tempo disponibilizado e veio embora.
........No dia seguinte, do secretariado dos novos proprietários disseram-lhe que a piscina já tinha sido demolida. Incrédulo, correu para Vidago. Mesmo com o parque vedado recordou-se dos carreiros que percorrera e que o levavam a todo o lado e foi ver, de cima do monte, o local da piscina. E era verdade. A piscina desaparecera. Várias das árvores com ela. Da estalagem, construída para manter a estância aberta na época baixa e onde existia uma sala de jantar com paredes de xisto e também um fio de água que escorria pela montanha, apenas a recordação.
........Como muitas outras histórias, esta teve um fim triste. Nem as regras da deontologia profissional nem a obrigação moral de uma empresa que não é, propriamente, a mercearia da esquina, serviram para, pelo menos, procurar encontrar o autor de uma peça de época, bela, excepcionalmente integrada, e ter um acto de cortesia, de nobreza. Dar-lhe a conhecer, em primeira mão, o que se planeava e porquê daquele modo. Ao contrário dos antigos donos que telefonavam ao Arquitecto de madrugada e diziam “Vamos para Vidago!”, nenhum dos novos senhores ainda percebeu o privilégio e a responsabilidade que têm nas suas mãos. E basta sentarem-se na escadas do Palace, voltarem-se para o lago, fechar os olhos, respirar fundo, ouvir e sentir…
........Resta a certeza que no futuro, talvez não tão longínquo como isso, a montanha vai voltar a recuperar o espaço que abriu para a Piscina do Palace. As árvores que a aconchegaram e adoptaram e, mais tarde, a acompanharam no seu abandono e final, vão acabar por ser mais fortes que o bloco urbano que ali se vai intrometer, forçando a entrada, querendo elevar-se e destacar-se, sem concorrência. Que presunção… Ninguém nem nada é mais forte que a Natureza.

........PS: O Arquitecto Jorge Moreira da Costa, mesmo com a discrição que caracterizou toda a sua vida profissional, tem direito a quatro referências no Inquérito à Arquitectura Portuguesa do Século XX, realizado pela Ordem dos Arquitectos no ano passado, infelizmente apenas uma correctamente atribuída - as Piscinas Municipais de Santa Maria da Feira. São também seus os projectos da Biblioteca Municipal da mesma cidade e de duas outras obras, cuja correcção de autoria já foi pedida por várias vezes à OA e que, parece, finalmente vai ser efectuada.
........As outras duas obras são de Vidago e Pedras. Em Vidago, o Posto de Turismo do centro da Vila, que ainda se encontra em utilização, embora a precisar de alguns cuidados. E, em Pedras, a segunda piscina que projectou para as termas. A Piscina do Palace não está mencionada, por mais estranho que pareça.
........A Piscina de Pedras é, também, uma obra de época. Aproveitou parte de um lago, tinha mais condicionantes, afastada dos hotéis, havia menos com que trabalhar. Não tem o carisma da de Vidago mas ainda lá está. Sozinha, a precisar de restauro, mas igualmente com memórias guardadas nas suas paredes e plataformas, vizinha de um minigolfe em terra batida e percursos originais, cujas formas ainda se conseguem vislumbrar, por quem o conheceu, sob as camadas de anos de folhas e vegetação caída. Se foi a insensibilidade que levou à destruição da pérola de Vidago, pelo menos que algum rebate de consciência possa levar a salvar esta.»

23/08/2007

Uma flor ao fundo do túnel



Túnel da Trindade / Papaver sp.

Não se sabe em que data ou em que circunstâncias se começou a manifestar a doença da cromofobia. Certo é que, quando a patologia foi reconhecida como tal, já ela tomara proporções epidémicas, não apenas no Porto, onde se situa o principal foco infeccioso, mas um pouco por todo o país. Esse reconhecimento é, infelizmente, ainda parcial: a corrente ortodoxa do pensamento médico recusa-se a admitir que tal doença exista; ou, aceitando embora a presença da sintomatologia num número crescente de indivíduos, não considera que ela configure um estado patológico. A esse diagnóstico conservador não será alheio o facto de grande número de portadores da doença (que nunca se assumem como tal) serem pessoas de grande influência e prestígio.

O que distingue a cromofobia de outras anomalias do foro ocular é o seu carácter voluntário: um cromófobo escolheu sê-lo e, em teoria, pode deixar de o ser a qualquer momento. Os arquitectos são a classe mais atingida pela cromofobia, a ponto de haver quem queira declará-la doença profissional. Ela manifesta-se pela recusa horrorizada de qualquer cor que não seja o branco, o verde e o sizento. A natureza, na perspectiva mórbida de tais doentes, devia deixar-se de flores e limitar-se ao verde; por isso os jardins tocados pela cromofobia por interposto arquitecto são resignadamente verdes e apenas verdes.

Não existe tratamento conhecido para a cromofobia. Ou talvez exista, mas nunca pôde ser ensaiado. É que, dado o carácter heterodoxo da escola médica que primeiro descreveu a doença, nenhum doente aceitou ainda ser submetido a testes ou terapias experimentais. Contudo, talvez alguma forma de acção directa possa mitigar os efeitos nefastos da cromofobia. A estação da Trindade, a mais importante da rede do metro do Porto, desenhada por um dos primeiros e mais célebres cromófobos, é uma das obras emblemáticas dessa corrente patológica. A estação é toda ela composta por grandes superfícies lisas e monocromáticas; a tapá-la está uma placa com um imenso relvado; e é também um relvado que cobre o declive até à boca do túnel. Mas alguém, preocupado com tão extrema manifestação de cromofobia, semeou nessa rampa algumas dezenas de flores: papoilas, dentes-de-leão, consolidas, malvas e outras que não pude identificar. Ficou o pano verde todo rasgado por cores clandestinas, mas não se sabe que efeito teve nos doentes este tratamento de choque. Poucas semanas depois, uma brigada de cromófobos disfarçada de equipa de jardinagem trouxe o corta-relva e extirpou as cores rebeldes. É possível que a epidemia cromofóbica se continue a agravar. Mas - quem sabe? - talvez ela comece a regredir e este breve episódio seja uma primeira flor ao fundo do túnel.

11/04/2007

A vinca que não vinga

Visitando uma exposição de arquitectura, pode apreciar-se, reunido em ponto pequeno num único salão, aquilo que à escala real obrigaria a uma visita demorada a lugares diversos em pontos afastados da cidade. Há uma leitura unificadora que permite construir uma imagem simplificada de um certa realidade urbana, o que em si mesmo nada tem de errado: o mundo, afinal, só se deixa perceber em pequenas parcelas, e são essas incompletíssimas abstracções que formam os mapas mentais com que nos vamos governando. Mas a visão da maquete - ou do cenário digitalizado, ou das fotos cuidadosamente enquadradas - nunca pode substituir a experiência sensorial dos lugares. As pessoas não são feitas do mesmo material inerte que compõe os bonecos da maquete, nem são uma combinação evanescente de pixeis coloridos. Se não houver bancos para descansar, ou se os houver mas sem encostos e com assentos de pedra fria; se os abrigos não protegerem da chuva nem do vento; se a sinalética for tão discreta que se torne ilegível; se um jardim, em vez de plantas e flores, tiver a terra nua semeada de lixo e excrementos - então, experimentando estes desconfortos, as pessoas de carne e osso vão concluir que aqueles espaços não foram pensados para elas.



O arquitecto Eduardo Souto Moura cometeu cada um destes pecados contra os utentes do metro do Porto ou contra os frequentadores de espaços urbanos onde a empresa também interveio. Alguns dos «lapsos» foram já corrigidos, mas outros, em atenção aos direitos de autor do arquitecto (mais respeitáveis do que o bem-estar daqueles que diariamente sofrem com a sua obra), talvez nunca venham a sê-lo. O que não impede a obra de ser premiada internacionalmente como modelo de «inserção urbana», nem de sobre ela se inaugurar, na alfândega do Porto, uma exposição celebratória com muitas vénias e elogios. A mesquinha realidade quotidiana é triunfalmente obliterada pela maquete, pelo design, pela foto na revista de arquitectura, pelo discurso laudatório reproduzido acriticamente na imprensa.

Por isso, nada melhor do que tentar corrigir com alguns toques de realismo esse retrato idealizado, seja passeando pela pétrea avenida dos Aliados, dando um relance ao desgostoso Campo 24 de Agosto, ou parando num Jardim do Marquês deslavado, imune às cores da Primavera. Aliás, neste último caso, o arquitecto e a sua equipa parecem empenhados em demonstrar exuberantemente, quiçá com intuitos pedagógicos, que a sua aptidão para planear jardins é comparável à de um comum sapateiro para desenhar edifícios. Ou talvez o sapateiro, tendo a noção mínima de que uma casa precisa de paredes, saiba mais de arquitectura do que sabe de jardins e das suas funções um arquitecto que não vê necessidade de neles existirem plantas diversificadas. Esse terrume acastanhado que se vê na foto em cima, e que ocupa, assim despido e sujo, uma grande parte do Jardim do Marquês, deveria, segundo o projecto, estar forrado com uma única espécie vegetal, a vinca (Vinca sp.): trata-se de uma planta espontânea da nossa flora e, embora sozinha tenha pouca graça, é uma boa escolha para jardins. Acontece que nem sozinha ela quis ficar: desde Junho de 2006, data em que o jardim foi reaberto ao público, que a vinca se recusa a vingar. Primeiro protegeram-na com uma manta branca, fazendo do jardim cadáver amortalhado; retirada a manta, estenderam no chão uma rede presa com estacas. Mas da vinca, que viceja alegremente em muitos parques e jardins do Porto e arredores, só sobraram no Marquês uns fiozitos secos. Ou a vinca ou nada, resmunga o arquitecto. Será nada, suspiramos nós.

Fotos: Jardim do Marquês em Abril de 2007; Vinca major no Palácio de Cristal

04/07/2006

O Marquês não volta mais



O Jardim do Marquês, recém-recuperado pela Metro do Porto, a mesma empresa que quase o destruiu, não foi pretexto para qualquer cerimónia de cortar-a-fita: simplesmente tirou-se a vedação, permitindo-se assim o regresso dos frequentadores. Pode atribuir-se esta discrição à modéstia, mas também observar-se que, quatro semanas após a abertura, os trabalhos de jardinagem ainda não parecem concluídos, persistindo, em algumas das zonas verdes, o castanho do solo despido. Avanço ainda assim com uma opinião, pois se esperasse até tudo estar pronto o assunto perderia oportunidade. Oxalá parte das críticas falhem o alvo: seria sinal de que aquilo que falta fazer é melhor do que deixa adivinhar quanto já foi feito.

Mantendo-se embora o coreto, os bancos (antes vermelhos, agora verdes), as palmeiras e quase todos os plátanos (alguns, porém, muito maltratados), o carácter do jardim foi irreversivelmente transformado: as saudades do Marquês afinal não têm cura. A fonte circular transferida da Praça D. João I, dividindo-se em dois patamares, é mais alta, limpa e moderna do que a sua antecessora; a água, em vez de esguichar debilmente, jorra agora do patamar superior em vistosa abóboda; em redor da fonte, o desaparecimento de vários plátanos e a supressão da bordadura florida criaram uma clareira ensolarada, muito diversa do aconchego romântico de outrora.

Além do respiradouro gradeado, abriram-se no jardim dois acessos à estação do metro. O efeito não é intrusivo, pois arredaram-se as saídas para a periferia (uma a nordeste, outra a sudoeste), e camuflaram-se os muretes de protecção com duas longas sebes de camélias. Sem se prejudicar a circulação dos utentes, e respeitando-se a simetria do desenho original, aumentou-se visivelmente o espaço reservado à vegetação. Dois plátanos enfraquecidos, mas preciosos pela sombra que asseguram, foram escorados com cabos para evitar o seu abate. Camélias às dúzias, plátanos amparados na velhice: são setas que me apontam ao coração, deixando-me quase incapaz de dizer mal.

Mas algum mal é preciso dizer, pois o efeito geral do jardim não é agradável. Faltam ainda muitas plantas nos canteiros; mas, se não se diversificar a sua escolha, ou se os espaços agora vazios se destinarem a relvados, o resultado final não é promissor: demasiado buxo, algumas piracantas, umas ervitas rastejantes; tudo de um verde monótono, impenitente, sem alegria, que o colorido das flores sazonais - aqui proscritas tal como sucedeu nos Aliados, Rotunda da Boavista, Cordoaria, Avenida Montevideu, Praça do Infante, etc. - nunca irá aliviar.

É trágico que o espaço público do Porto esteja refém de arquitectos guiados por uma ideia desvairada e obsessiva: a de que os canteiros floridos são incompatíveis com a modernidade. Enquistados na sua bisonha auto-suficiência, deles não podemos esperar que algum dia abram os sentidos ao fascínio das flores; mas que a cidade seja por eles condenada à mesma cegueira é de um despotismo insuportável.

28/04/2006

Nos jornais- Siza em Madrid projecta dias sem árvores


Na berlinda "o plano dos arquitectos Álvaro Siza e Juan Hernandez de Léon para o reordenamento do percurso entre os museus do Prado, Thyssen e Reina Sofia" (DN) que implicará a "mexida" (ou não) em 738 árvores centenárias. Cara baronesa estamos consigo!
Foto (LUIS MAGÁN) in EL PAIS

24 de Abril: Carmen Thyssen planta cara a Gallardón por la reforma del paseo del Prado : «"Quieren ponernos una autopista delante, y encima lo harán cortando una arboleda única", afirma Carmen Thyssen al referirse a la vía de cinco carriles de coches que caerá en el lado del museo y que obligará a mover los árboles centenarios que hoy respiran frente a ella. "La gente que venga a nuestro museo será la que se trague el monóxido de carbono(...)".
Pero es al hablar de los enormes árboles plantados en la época de Carlos III que está previsto trasplantar, cuando la baronesa se pone en pie de guerra: "Buscaré a otros amantes de la naturaleza como yo y nos ataremos a cada árbol para impedir que acaben con ellos, son divinos, una belleza. Me llevaré la tartera con comida y bebida, y ya veremos quién me mueve de ahí. Todo el mundo sabe que es imposible trasplantar árboles de ese tamaño y que la mayoría morirán. Me parece estupendo que se remodele la zona, pero que se haga preservando lo que ya está, sin destruir. No quiero pensar, además, en el calor que hará en verano, sin una sombra en todo el paseo"... Según se indica en la Memoria del Plan Especial, está previsto talar (o "extraer") cerca de 700 árboles en toda la obra. De ellos, existen 95 catalogados que deben ser cuidados al máximo durante las obras, siguiendo las determinaciones establecidas por la Dirección de Patrimonio verde. (...)»
28 de Abril: Gallardón arrancará 738 árboles del Paseo del Prado para modificar su trazado :«El Ayuntamiento de Madrid no modificará el trazado previsto en su proyecto de reforma del eje Prado-Recoletos aunque admite que en una operación de esa envergadura, que afecta a unas 160 hectáreas desde la plaza de Colón al norte hasta Atocha al sur, a lo largo de 5 kilómetros, puede haber alguna modificación. Entre estas modificaciones se encuentran "someter" a 738 árboles a un "tratamiento específico". 461 serán "trasladados" y 272 "extraídos". El coordinador general de Urbanismo, Francisco Panadero, dijo a Libertad Digital que sólo se van a "tratar" 29 árboles. La baronesa Thyssen ha advertido al Ayuntamiento que se llevará el museo a Suiza si se destroza el Paseo del Prado y se encadenará a los árboles(...)»

Ver arq.txt: Eje del prado. Documentación del proyecto de Siza en Madrid buscando arquitectura

Adenda
29 de Abril: Gallardón rehúsa cambiar el proyecto del eje Recoletos pese a las presiones del Thyssen ; Ayuntamiento dice que las obras en el Paseo del Prado afectarán a 29 arboles y que Thyssen no alegó ; Madrid: Contra la tala de árboles en el paseo del Prado (in-Ecologistas en Acción de la Comunidad de Madrid)

Afinal valeu a pena protestar:
19 de Maio: El Ayuntamiento someterá de novo a información pública durante 6 meses el proyecto del eje Prado-Recoletos
.

25/11/2005

"ACABOU. Já não há jardins!"

.



A destruição inqualificável do que restava da Avenida dos Aliados
24 de Novembro de 2005 -uma data "sizenta" que ficará nos anais da história da cidade

Fotos e mensagem recebidas nos ALIADOS a meio da noite:
«São 3 da manhã e não consigo ir dormir sem desabafar.
Como sou obrigado a passar a todo o tempo por a amada avenida, ao ver esventrá-la senti que de facto era a mim que o estavam a fazer; de máquina fotográfica em punho lá fui registando o prevísivel assassinato, tentando não me emocionar.
ACABOU. Já não há jardins.
Os portuenses do séc.XXI são masoquistas e sentem-se felizes a dizer mal. Estou mesmo a ver os partidos e figuras emblemáticas a criticar quando a obra estiver pronta, sem contudo nada terem feito antes.
Só o cromo do jornalista que escreveu uma crónica no JN em que dizia que daqui a 100 anos ninguém estará cá para criticar é que me fez rir. F.F.»

Podem ver mais fotos do crime aqui

11/11/2005

A ler - Um monumento à autocracia

Palavras - Manuel António Pina (No JN)

«Siza Vieira e Souto Moura estão a fazer nos Aliados um monumento à autocracia. A autocracia já merecia um monumento no Porto!

Ora, um monumento à autocracia tem que ser cinzento (e, se possível, "sizento"), que é a cor do posso, quero e mando. E tem que obedecer à regra da autocracia, a uniformidade. Por isso, Siza e Souto Moura conceberam os novos passeios, a nova placa central e as novas faixas de rodagem da Avenida, onde até aqui reinava uma perigosíssima diversidade (até flores havia na placa central!), do modo mais uniforme que puderam granito cinzento, granito cinzento e granito cinzento. Coexistiam por ali, diversamente, uma Praça do General Humberto Delgado, uma Avenida dos Aliados e uma Praça da Liberdade; Siza e Souto Moura tornaram tudo numa coisa só: assim a modos que um Rolex "made in Taiwan". Dessa maneira, os portuenses sempre poderão ir a Paris sem sair de casa. E como a calçada à portuguesa é também excessivamente diversa e excessivamente portuguesa, decidiram fazer-lhe o mesmo que às árvores e às flores, arrancá-la e uniformizá-la. O Porto terá uma Avenida de uniforme "signé Siza". Para tudo ficar uniformemente perfeito, só falta obrigar os portuenses a pôr fato cinzento quando vierem os fotógrafos das revistas de arquitectura.»

04/10/2005

Alerta laranja...

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In pág. 10 do programa de recandidatura de RR à presidência da C. Municipal Porto, finalmente publicado.
Aqui fica o alerta lançado por Teófilo M. via A Baixa do Porto.

Como não diz o povo mas devia dizer "mais vale prevenir que requalificar..."
Recordo que já em Março, Teresa Andresen tinha aventado a possibilidade de uma onda sizenta vir a atingir outros jardins históricos, isto a propósito das "requalificações" minimalistas da Porto 2001 e da que entretanto se abatera sobre uma das zonas mais emblemáticas da cidade: «(...) Mas veja-se a Cordoaria, Poveiros, Montevideu, Batalha, Leões, Infante, etc. A Avenida e a Praça estão agora em marcha. A opção é criar o vazio, como noticia o Público, citando Souto Moura. "O vazio que pode ficar ocupado". E o que estará para vir? A Arca de Água resistirá ao vazio? E São Lázaro? E o Passeio Alegre? Também seremos admoestados a calar?! (...)» (ler artigo completo)

Tenho plena consciência de estar "a pôr os carros à frente dos bois", mas, como não diz o povo e também deveria passar a dizer, "cidadão prevenido vale por dois".

Foto manueladlramos - 0404 Jardim do Passeio Alegre (Porto)

15/08/2005

Às 6 da tarde no largo requalificado

.(Dias sem árvores...)


Espaço requalificado em frente à antiga Cadeia da Relação (edíficio onde funciona o actual Centro Português de Fotografia)

Na sexta-feira passada, cerca das 6 da tarde apeei-me do autocarro no Campo Mártires da Pátria. Contrariamente ao habitual, em vez de me atrasar nos meus recados cumprimentando as minhas amigas do Jardim da Cordoaria, resolvi ir explorar este espaço requalificado, quase completamente deserto, revestido a granito.
Apesar da torreira do sol já ter passado, a esta hora em Agosto o calor ainda se faz sentir e o que irradiava da pedra que reveste o pavimento ainda menos apetecível tornava o largo.
Não pude deixar de me lembrar do que aqui já escreveu o Paulo com a sua habitual verve, em especial da passagem seguinte: «Espaços como estes, por serem hostis à permanência de pessoas, matam o convívio na cidade. Um castigo merecido, ainda assim suave, para quem os planeia, seria obrigá-los a ficar de pé nesses lugares, sem a protecção de uma sombra, durante uma tarde de calor.»

Os autores destes projectos decididamente não calcorreiam a cidade, e muito o menos o fazem de dia! Imaginam estes espaços e as suas intervenções a que chamam "requalificações", de um modo completamente abstracto. De preferência a preto e branco em revistas da especialidade, e de certas escolas. Presumo eu. Se assim não fosse como explicar estas opcções?
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06/06/2005

Dos Jornais - requalificação da avenida dos Aliados na Assembleia, amanhã

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«A sessão extraordinária da Assembleia Municipal (AM) do Porto, destinada à discussão do projecto de requalificação da avenida dos Aliados, foi adiada para amanhã (...) A nova avenida, em granito, terá passeios mais largos e a placa central mais estreita. O desenho prevê ainda o desaparecimento dos canteiros de flores e da calçada à portuguesa, o que constitui, até ao momento, o principal motivo da contestação ao projecto. A presença de Siza Vieira na Assembleia Municipal poderá, amanhã, contribuir para esclarecer as muitas dúvidas que têm sido colocadas em relação ao futuro da avenida dos Aliados.» Ler notícia completa no Comércio do Porto

Há dúvidas que não são dúvidas, são pura e simplesmente perguntas. Quem é que explica como é que as obras avançaram do modo como avançaram sabendo que existe na Avenida um conjunto de imóveis considerados de valor concelhio e classificados de interesse público, beneficiando por isso do perímetro de protecção de 50 metros previsto pelo artigo 43º da Lei n.º 107/2001? (Não sabia? então leia aqui o rol desses edifícios). Isto para não falar no que parece evidente: o valor patrimonial da Avenida dos Aliados e Praça da Liberdade (que pelos vistos se encontra "em vias de classificação" desde 1993). Se para estes senhores, esta zona da cidade não tem valor patrimonial, então nada tem esse valor (provavelmente apenas as suas próprias obras!)

Como comentou aqui ABG: «Para quê mexer no que está bem? Este, como a Boavista, é outro caso em que só se faz porque o dinheiro é barato e dos outros (fundos atribuídos ao Metro pelo OGE, CE, BEI), como se não houvesse um custo de oportunidade, como se não houvesse custos. Mas estragar o que lá está só para mostrar serviço, está para lá da minha compreensão. (...)»
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02/06/2005

O último Verão?

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Alarmada com a ideia de que poderia ter começado a "destruição inqualificável", foi com enorme alívio que verifiquei que, à Praça, apenas chegou o Verão!


Na Praça da Liberdade tudo está ainda no mesmo sítio: a estátua, a calçada branca, as esplanadas, as árvores, os canteiros (agora com petúnias). Em breve será a vez dos ligustros florirem.


O ardina continua ao pé das magnólias e, ao contrário dos engraxadores, não espera clientela.
Na florista já se vende manjerico e hortelã.
Na baixa vive-se o encanto das primeiras manhãs de Junho!




Entretanto, no alto da Avenida a "requalificação" continua bem ao estilo do "quero, posso, faço!".
Relembre aqui como era antes. Realmente não se entende que se queira destruir tudo isto!
Não acreditamos e não nos conformamos: este não pode ser o último Verão!.

Ver estado actual das obras
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10/05/2005

Destaque - Campo Aberto

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As obras na Avenida dos Aliados já começaram!
Claro que não é de ficarmos calados!
Junte a sua à nossa voz e comente no blog da Campo Aberto.

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A Avenida dos Aliados e o novo projecto no Dias com Árvores
Dos Jornais - Assembleia quer discutir projecto dos Aliados (20-04-05)
Descubra as diferenças (13-04-05)
"Será de ficarmos calados?" (23-03-05)
Sizentismo (16-03-05)

20/04/2005

Dos Jornais - Assembleia quer discutir projecto dos Aliados

Uma luz no alto da Avenida?

«Assembleia quer discutir projecto dos Aliados: O projecto de requalificação da Avenida dos Aliados, no Porto, pode vir a sofrer alguns atrasos. Isto porque a Assembleia Municipal decidiu, anteontem à noite, definir um período de discussão pública "abrangente" que envolva não só a autarquia, mas também as associações da cidade e os munícipes. (...) » Ler notícia completa no JN

Ao sr. Gonçalo Gonçalves, da coligação no poder, que discorda desta decisão e afirma que "O projecto já foi apresentado publicamente há muito tempo e tem suscitado grandes elogios .", dizemos que se esquece da outra face da moeda: o projecto reune tudo menos consenso.

aqui reproduzimos a opinião da arquitecta paisagistaTeresa Andresen que escreveu:
«(...) Calada tenho estado e sei que muitos outros [tambem o estão]. Mas não posso calar mais. A mágoa é grande, assim como a estupefacção pelo continuado desconhecimento ou menosprezo do "ser" das coisas públicas e isto impele-me a me a não ficar calada.Estamos a falar de espaço público. Espaço publico é do público, da colectividade, dos munícipes que pagam os seus impostos e que mais frequentemente o utilizam e dele legitimamente se apropriam e o abrem aos visitantes diários ou de passagem. Eles adquiriram naturalmente um direito e um sentimento de posse sobre este espaço, assim como contribuem para a construção do imaginário que se vai tecendo sobre essa apropriação colectiva e que lhes confere o direito de ter uma palavra a dizer sobre os seus desígnios. Ou seja, estamos a falar de cidadania, de cidadãos que não ficam calados e que não gostam de ser admoestados a não falar.» (ler texto completo )

E há justamente uma semana, publicámos um texto do Paulo Ventura Aráujo, intitulado "Um presente envenado" , em que muito claramente são explicitadas as razões pelas quais o projecto deveria ser reconsiderado. "Requalificado" diríamos nós se o termo não tivesse adquirido conotações tão negativas.

Por isso é uma boa notícia esta da discussão alargada do projecto na Assembleia municipal.
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13/04/2005

Descubra as diferenças

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As fotografias que tirei ontem, numa ida obrigatória ao Carmo, servem perfeitamente para mostrar a diferença entre um espaço que se preservou, acolhedor (apesar de as árvores ainda estarem pouco crescidas) e um outro, inóspito, cinzento, que nos amarga o coração.
No primeiro as pessoas passam, sentam-se nos bancos com encosto, alegram os olhos com as crianças, os pombos, as flores, a calçada. No outro...
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Praça de Carlos Alberto- calçada luminosa e canteiros com flores : "A gente gosta!"


fotos: mdlramos abril 2005 - Praças de Parada Leitão e dos Leões petrificadas em cinzento (abominamos!)
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Servem também as fotografias (nem de propósito) para acompanhar o texto de Paulo V. Araújo, publicado hoje em versão abreviada no Jornal de Notícias, sobre o sizento projecto da Avenida dos Aliados, que aqui transcrevemos integralmente:

«Apresentado publicamente pelos seus autores em 14 de Março passado, o projecto de remodelação da Avenida dos Aliados deverá, segundo anúncio da Câmara da Porto, estar concretizado até ao próximo mês de Agosto. Essa remodelação, financiada e executada pela empresa Metro do Porto, é consequência da construção de uma estação de Metro que, situada como está a meio caminho entre duas outras muito próximas (S. Bento e Trindade), nunca foi cabalmente justificada.

Pelas declarações que foram vindo a público, e pelas intervenções anteriores dos mesmos arquitectos no espaço público da cidade (Rotunda da Boavista, por exemplo), não se pode dizer que o projecto para a Avenida seja uma surpresa. De facto, uma das tendências que avulta nas transformações a que a cidade vem sendo submetida é a recusa do colorido, do canteiro com flores, e a opção pelos grandes espaços monocromáticos cobertos por granito ou arrelvados. Toda a
zona da Cordoaria, Parada Leitão e Leões foi intensamente petrificada pela Porto 2001; e as flores e canteiros desapareceram dos jardins da Rotunda da Boavista, da Cordoaria e da Avenida de Montevideu. Esta predilecção pelo cinzentismo, que ignora ou desdenha o que é característico das nossas cidades em favor de uniformizantes modelos de importação, é inteiramente perfilhada pelos arquitectos a quem foi adjudicada a requalificação dos Aliados.

Uma primeira perplexidade é que, tendo as obras da Porto 2001 provocado um desagrado tão manifesto em vastos sectores da cidade, se insista na mesma estética minimalista. Quem frequenta a cidade reconhece como o espaço público petrificado se tornou inóspito, mais frágil e, tirando ocasiões especiais, mais rarefeito da presença humana; e como essas transformações radicais, ao obliterarem a memória dos lugares, criaram, na feliz expressão de Rui Moreira, um efeito de orfandade nos cidadãos. Dir-­se-­ia, pois, que o fracasso da Porto 2001 não trouxe ensinamentos a quem planeia o espaço público ou sobre ele decide, e que estamos perante uma flagrante incapacidade de aprender com a (má) experiência.

As intervenções em zonas públicas consolidadas com alto valor patrimonial ou simbólico devem respeitar o carácter dos locais - e, em qualquer caso, não podem ser decididas de forma autocrática, ignorando a opinião dos cidadãos e os seus laços afectivos com a cidade. Ora, nada disso se passou neste caso e noutros semelhantes: os arquitectos decidem com toda a liberdade sobre o futuro de lugares que a todos pertencem; e à cidade, aturdida pelo prestígio dos arquitectos, só é consentido que exprima uma admiração sem reservas ou se cale.

Há aqui graves vícios de procedimento: primeiro, que o trabalho seja confiado aos arquitectos por ajuste directo e não por concurso público; segundo, que não haja um caderno de encargos que corporize, a bem da salvaguarda do património e da identidade urbana, os parâmetros a que o projecto deve obedecer; terceiro, que não se tenha promovido uma ampla e fecunda discussão pública em todas as fases do processo. E o procedimento autista da Câmara é ainda mais inaceitável por estar em causa um espaço emblemático, autêntica sala de visitas da cidade.

Ressalvando que este processo, por estar ferido de autoritarismo e torpedear os direitos dos cidadãos, deveria ser refeito desde o início, entendemos ainda assim manifestar a nossa opinião, na esperança de que pelo menos se repensem algumas das opções mais gravosas do actual projecto, como sejam:

1) o uso exagerado do granito, agravado pela ausência de arborização na placa central da Praça da Liberdade, que irá conferir um ar soturno a todo o conjunto e potenciar situações de desconforto térmico em dias de calor (já notório noutros locais da cidade sujeitos a tratamento semelhante);

2) a supressão, como já aconteceu na Praça da Batalha, da calçada portuguesa - que, além de embelezar o pavimento e ser uma marca da nossa fisionomia urbana que importa preservar, é no presente caso especialmente valiosa, exibindo um conjunto de raros e expressivos desenhos alusivos à produção do vinho do Porto;

3) a abolição dos canteiros floridos, numa atitude de menosprezo pela grande tradição floral portuense, que hoje sobrevive nos jardins públicos graças ao inestimável Viveiro Municipal e aos meritórios esforços dos jardineiros camarários;

4) a promessa de renovar a arborização da Avenida com árvores iguais às que ainda lá existem (Acer platanoides) e se revelaram inadaptadas ao local, o que só se pode explicar por ignorância;


5) o sacrifício de duas esplêndidas magnólias, junto à Igreja dos Congregados, que são uma referência na zona e florescem vistosamente nos primeiros meses de cada ano;

6) as facilidades concedidas ao automóvel, com a manutenção de três faixas de rodagem em cada sentido e dos atravessamentos na placa central, o que é uma atitude incompreensível face ao pesado investimento na rede do Metro e torna o centro da Avenida, que se quer um passeio público animado de vida, numa ilha rodeada de trânsito intenso;

7) o bizarro capricho de rodar 180 graus a estátua equestre de D. Pedro, obrigando-o a dar as costas, 170 anos depois, ao inimigo que tão garbosamente enfrentou durante o histórico cerco do Porto.

Fazer cidade não pode ser, como tem sido nos últimos anos, vestir o espaço público com um novo figurino que o torne irreconhecível. O dinheiro que se tem esbanjado nessas mal avisadas requalificações seria muito mais bem empregado na manutenção ou recuperação historicamente consciente de jardins e praças, ou na construção de novos jardins ou espaços públicos de qualidade em lugares onde eles não existam. Esta nova Avenida dos Aliados que a empresa Metro do Porto oferece à cidade tem um ar de requentado déjà vu; a cidade, para seu bem, deve ter a frontalidade e a lucidez de recusar a oferta.»

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31/03/2005

Peça em um acto

A conversa decorre no gabinete do Vereador, situado no quinto andar da Câmara Municipal. A decoração da sala é asséptica e impessoal: estantes lisas onde se alinham pastas de arquivo e volumes encadernados, cadeiras metálicas com forro preto, duas serigrafias com motivos abstractos encaixilhadas a negro sobre o fundo branco da parede. Das amplas janelas avistam-se os altos prédios circundantes. Sentado à secretária, o Vereador folheia o catálogo da firma Soluções Verdes; à sua frente, o Empresário vasculha uma pasta de cabedal.

Vereador: «Muito interessante, a gama de produtos da sua empresa. Vem mesmo a calhar. A cidade há muito que pôs em marcha um ambicioso programa de requalificação urbana para se modernizar e reforçar a sua auto-estima. Não podíamos continuar agarrados a um conceito atávico de espaço público, indigno de uma cidade verdadeiramente europeia. Queremos espaços arejados, limpos e amplos, traçados com esquadria rigorosa... Mas porquê o nome Soluções Verdes?»

Empresário: «De facto, os nossos produtos têm vindo a diversificar-se, e o nome da empresa, Soluções Verdes SA, já não será o mais ajustado. Preocupamo-nos sempre em alargar o nosso leque de soluções, adaptando-o às exigências do mercado, e ainda bem que esse esforço é reconhecido. Não abandonámos o verde, que continua a vender bem, sobretudo com as árvores-de-Natal (que comercializamos em três tamanhos, com ou sem enfeites) e as alcatifas para cobrir terraços de prédios (que são importantes para assegurar as manchas verdes em imagens aéreas da cidade). Mas a verdade é que agora há outras cores com muito mais saída, como o sizento e o preto. O que de todo deixou de ter procura, como o senhor Vereador muito bem sabe, foram as cores vivas: vermelho, amarelo, azul, rosa, etc. Até acabámos com o fabrico de flores artificiais, e isso entristeceu-nos porque esse foi o nosso primeiro negócio. Que ninguém quisesse flores de verdade, entendia-se, por causa daqueles senhores arquitectos a troçar dos canteiros e canteirinhos, mas não foi correcto desprezarem também as nossas flores, muito mais bonitas e resistentes. No fim já só se vendiam para cemitérios.»

Vereador: «Águas passadas, amigo, águas passadas. A guerra das flores já lá vai, e agora a cidade, felizmente, já não tem que se envergonhar desses efeitos decorativos fáceis que repugnavam às sensibilidades mais apuradas. Em boa hora optámos pelo sizentismo nos nossos espaços públicos. A sua empresa soube adaptar-se à mudança dos tempos, e é para a frente que se deve olhar. Esta sua árvore de granito, por exemplo, é uma excelente base de trabalho para o novo perfil da Avenida, e só é pena que seja redonda. Não fabricam outros modelos? Preferia um mais geométrico e anguloso, com as arestas bem vincadas.»

Empresário: «Gostou, foi? É coisa de um nosso recém-colaborador, rapaz cheio de talento. É como inventar a roda: agora parece muito natural, mas foi preciso alguém ter a ideia. Esta árvore de pedra tem todas as qualidades da árvore viva e nenhum dos seus defeitos. É resistente ao vandalismo e facílima de transplantar. E nem calcula o que a sua Câmara vai poupar só em podas e limpezas. Este modelo (Araucaria petrea) ainda é inspirado numa árvore de verdade, porque alguns municípios do interior, nossos clientes, mantêm o saudosismo das velhas formas. Mas veja aí no catálogo como temos modelos de linhas mais modernas, ideais para uma cidade progressista como esta.»

Vereador: «Estou a ver... Sim senhor, muito bem. Gosto especialmente desta árvore com os quatros ramos em ângulo recto. E diga-me: a iluminação está incluída no preço?»