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21/12/2007

Sobreiros e acácias na Penha



Sobreiros (Quercus suber) no monte da Penha (Guimarães)

Há vários modos de subir à Penha, em Guimarães. O mais cómodo, não isento de sustos para quem sofre de vertigens, é pular a bordo de uma das planantes cabines de teleférico que sobem e descem a encosta num vaivém ininterrupto. É essa a maneira barata de nos sentirmos como pássaros voando sobre as árvores, mas sem a liberdade de pousarmos nalguma que nos pareça mais convidativa. Vão rareando os eucaliptos à medida que subimos, até que por baixo de nós se estende uma mata contínua de grandes carvalhos-alvarinhos. Pena não subirmos a pé, a corta-mato, para tocarmos nessas árvores e nos sentirmos pequenos debaixo delas; só que, como o teleférico sobrevoa várias propriedades muradas, um tal feito afigura-se improvável.

Há ainda a opção de subir de carro: a estrada que vem do centro de Guimarães é estreita, cheia de curvas e com as bermas desniveladas, e obriga-nos a conduzir com cautela; mas, com todas as suas voltas, dá a quem a percorre uma ideia mais justa da riqueza e amplitude da manta de arvoredo que reveste o monte. Nunca antes tínhamos notado, por exemplo, o extenso sobreiral que se desenrola na encosta a sudoeste do santuário. Foi para lá que nos dirigimos, monte abaixo, depois de aparcarmos, por ser esse um mais promissor lugar para encontrarmos isto do que os caminhos calcetados a granito que rodeiam o cume. Palpite acertado: encontrámos os Crocus e várias outras flores silvestres junto a um estreito riacho, seco por falta de chuva, mas ainda ressumando uma acolhedora humidade. E constatámos também, infelizmente, como as medidas para controlar as acácias (A. melanoxylon e A. dealbata) foram de uma eficácia quase nula: nalguns pontos os novos rebentos formam já um mato impenetrável. Com uma praga destas não pode haver meias medidas: só com o abate de todas as árvores adultas se impede a reinfestação. A Irmandade da Penha deveria mandar cortar sem demora as acácias que ainda existem em volta do santuário.

17/10/2007

"Árvores a mais, árvores a menos"

Sem grande tempo para blogar (ultimamente), aqui deixo o destaque da PNED (Porto e Noroeste em Debate, lista mantida pela Campo Aberto), hoje selecionado pelo José Carlos Marques
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«Destaque: Árvores a mais, árvores a menos.
Não é no Noroeste, é em Cascais, mas é sempre animador ver que há cidadãos que decidem não aceitar passivamente a destruição de árvores centenárias: Cascais: moradores do Monte Estoril contra destruição de área verde. Também em Guimarães - Retirada de árvores gera discussão - há inconformismo perante mais uma retirada de árvores de uma praça a pretexto de "grandiosidade" e de "história".
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Que a praça nunca teve árvores até há 100 anos! Argumento despropositado pois que a árvore em meio urbano ganhou importância fulcral com o avanço da industrialização e a maior distância com ela criada entre meio urbano e meio rural mais próximo da natureza.
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Estamos perante uma "escola" que vê na árvore uma sombra ao edificado incómoda e inútil. As autarquias, perante o prestígio da "escola", multiplicam as encomendas. Mas as resistências de muitos cidadãos multiplicam-se e a "escola" começa a deixar de ter a aura que a nimbava... Está na hora de compreender que os tempos mudaram e que fazer riscos no ateliê é uma coisa, a realidade viva do meio urbano outra coisa por vezes muito diferente da prancheta vazia onde se expande livremente o "génio"...
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Já com isto só podemos estar de acordo: conferir prioridade ao peão e às bicicletas e reduzir a presença automóvel. Prova de que nem tudo é branco e preto... JCM »

29/09/2007

Para breve (mais) sizentismo em Guimarães?

Alerta via A Baixa do Porto


Condenados? Jardim da Alameda S. Dâmaso (11. 2006) e Largo do Toural (09.2006).

«Notícia JN: Revolução no Largo do Toural com a assinatura de Siza
Meus caros,
Será que não se aprende nada nessa nossa abençoada terra?

O que mais me estranha é como a coisa é feita.
1. Escolhe-se o arquitecto - assim, alguém o faz;
2. Encomenda-se o projecto - assim, como ele quer (?);
3. Põe-se o dito a debate público - assim, como um facto consumado.

Ora não sería melhor ter o debate à cabeça? Talvez se chegasse à conclusão que o que está, está bem. Ou que necessitava só de conservação. Ou de uns sanitários públicos por baixo do coreto e a revitalização do antigo café-esplanada. Mas assim não. Vai tudo abaixo, começando com as árvores que pouca falta fazem e os canteiros que só atrapalham e dão trabalho, em nome de uma modernidade importada e descaracterizante.

Que parolos: É que o rei vai nu!
Como já aqui disse, no Porto, olhai para os Jardins da Montevideu e Cordoaria, e as praças do Infante, Poveiros, Leões e D. João I, a Avenida dos Aliados, a Rotunda do Castelo do Queijo, o espaço em frente à Cadeia da Relação e do Piolho....

Alexandre Borges Gomes, Bruxelas » in A Baixa do Porto

  • Sobre a obra anterior de Siza Vieira nesta cidade, o Parque da Mumadona, ler a opinião de Francisco Teixeira transcrita aqui.

11/09/2007

Parquinho da Cidade


Parque da Cidade de Guimarães

....."Peacehaven," said Mr Cornelius, "has park-like grounds extending to upwards of an eighth of an acre."
.....
"What happens if you get lost?" asked the Biscuit, interested. "I suppose they send St Bernard dogs in after you."

.................................................................................................P. G. Wodehouse, Big Money (1931)

O maior defeito do Parque da Cidade de Guimarães é o nome grandioso que lhe deram. Guimarães - cidade onde as árvores não são mutiladas e podem dar sombra, cidade com o riquíssimo carvalhal do monte da Penha logo à porta, com o precioso arvoredo em redor do Castelo e do Paço dos Duques, com um dos mais frondosos jardins urbanos do país ao longo da sua principal avenida - é uma cidade que não precisa de tais fingimentos pelintras. A área verde deste chamado «Parque da Cidade» dificilmente chegará aos 5 hectares, o que é menos de um vigésimo da área do seu homónimo portuense. O Parque da Lavandeira, em Gaia, esteve quase a ser instituído como Parque da Cidade - mas alguém terá ponderado, muito avisadamente, que um título desses era pompa a mais para os seus 11 hectares. É óbvio que, mesmo pequeno, um parque verde pode ser excelente, mas o tamanho é importante: uma autarquia que inaugure o seu parque da cidade proclama, com esse gesto, que já fez o máximo ao seu alcance pela «qualidade de vida» dos munícipes; contudo, se o parque for pequeno - como tendem a ser os novos parques da cidade por esse país fora -, então o gesto da autarquia, ao inaugurá-lo, é igualmente pequeno e de fraco alcance.

O parque de Guimarães situa-se no extremo nordeste da malha urbana da cidade, num desvio da estrada para a Penha. Começa por ter uma forma alongada, com um duplo alinhamento de choupos acompanhando o curso naturalizado de uma ribeira, mas abre-se depois num anfiteatro arrelvado, onde cinco grandes peixes de cerâmica tentam, sem temer a asfixia, pular fora de um lago circular. É um parque de desenho algo simplório, sem meandros nem surpresas, com poucas árvores e pouca diversidade. Mas os choupos cresceram depressa; e, numa tarde de muito calor, foi à sua sombra, nas margens da ribeira, que os visitantes se puderam acolher.

P.S. (13/IX/2007) A apreciação aqui feita do Parque da Cidade de Guimarães parece ter sido algo injusta e precipitada. Recomendo por isso a leitura dos comentários que alguns visitantes aqui deixaram. Fica a obrigação de lá voltarmos num dia de menos calor.

05/02/2007

A oliveira da discórdia

A milagrosa e bem amada Oliveira da Praça tornou-se num pomo de discórdia entre o Presidente da Câmara Municipal, que quis arrumá-la para um canto, junto à Rua de S. Maria («tornando-se indispensável ao acabamento do calcetamento a remoção desta árvore e sua cercadura»), e o Prior da Colegiada, que insistia que o «Cabido não pode, nem deve consentir na intentada remoção». Para impor a sua vontade, a Câmara teve que recorrer ao último recurso: a expropriação pública, que deu entrada na Secretaria do Reino em Junho de 1871.

Na sua representação, a Câmara argumentava que a Oliveira só tinha estado lá 45 anos, sendo ela estaca da grande e levantada oliveira que vinha documentada desde 1662, mas cujas origens remontavam a tempos mais remotos.
«Diz que a oliveira é um obstáculo ao trânsito mas falta-se aqui à verdade porque de um e de outro lado dela há um espaço suficiente para o trânsito tanto a pé como em carros, e com efeito, existindo sempre ali a oliveira desde a mais remota antiguidade, nunca ninguém se queixou.» O Cabido apelou ao Rei, advertindo «que o público muito há-de sentir se vir arrancar a Oliveira que a Câmara quer expropriar. É tal a veneração por ela que as pessoas da cidade e seus subúrbios, quando vão para o Brasil, cortam um ramo da Oliveira e levam-no consigo; e, no dia 15 de Agosto, dia em que se festeja Nossa Senhora, os mesários e irmãos assistem à festa tendo cortado um ramo da sobredita oliveira.» O inquérito denegou a expropriação por não ter provado «concludentemente a utilidade de expropriação ou dificuldade de trânsito, que se tomou como fundamento dela, e são desmentidos pelos documentos juntos aos autos».

O que não se conseguia fazer por meios legais tentou-se fazer por traiçoeiro golpe de machado. «No dia 09-02-1870, às duas horas da madrugada, foi derrubado o polígono que circundava a oliveira»; tentativa frustrada pelo ajudante de sacristia, que, «ao ouvir o bater das alavancas, disse "lá vai a oliveira c'os diabos" e foi tocar o sino a moribundo. Os pedreiros, logo à primeira badalada, cuidando que iam tocar a rebate, fugiram e alguns deles adoeceram com o susto». O autor moral do crime, o Presidente da Câmara, teve de se recolher na casa do escrivão, sendo vaiado pelo mulherio. A segunda tentativa de arboricídio resultou. «A célebre oliveira da Praça que andava nas asas da fama em razão do conflito que se havia levantado entre o Cabido e a Câmara de Guimarães, apareceu na madrugada de quarta-feira separada do tronco» [O Vimaranense, 13-11-1872]. Mais tarde, com licença camarária, tentou-se reimplantar outra oliveira, no lugar indicado.
«A nova árvore já não encontrava no humo da terra aquela seiva espiritual que fez, durante séculos, venerável e sagrada a Oliveira da Praça. Razão porque a nova oliveira não pegara.»

Anthony Kinnon, Guimarães século XIX - de Vila a Cidade (ed. do autor, 2006)
[extracto enviado por Alexandre Leite]

Outra oliveira em Guimarães

15/01/2007

Árvores da Penha (Guimarães)


Monte da Penha - Agosto de 2005

Uma vez por outra lá aparece uma boa notícia. Esta, vinda da cidade-berço pela mão de Alexandre Leite, é da autoria de Teresa Ferreira, foi publicada em 5 de Janeiro no Notícias de Guimarães, e garante-nos, agora que começou a terrível época das podas, que há pelo menos um lugar no norte do país que podemos visitar sem sermos confrontados com árvores mutiladas. A notícia refere-se ao monte da Penha, mas é de toda a justiça sublinhar como no próprio núcleo urbano de Guimarães o trato com as árvores é, se não exemplar, pelo menos incomparavelmente mais lúcido e competente do que em Braga.

A notícia informa que, a expensas da Irmandade da Penha, está em curso uma operação, prevista para durar dois meses e conduzida por técnicos habilitados, de diagnóstico e poda cirúrgica das árvores do monte da Penha. O responsável máximo pela intervenção, Viriato Oliveira, explica que o objectivo é remover «os ramos e folhagens secas que apenas provocam excesso de peso», mas realçando o «porte, perfil e personalidade própria» de cada árvore; bem a propósito, avisa que «uma poda mal feita pode mutilar irremediavelmente uma árvore, descaracterizando-a e ferindo-a de morte». Haverá também abates, perfeitamente justificados e até urgentes, de árvores invasoras como as austrálias (Acacia melanoxylon). Um projecto paralelo, igualmente iniciativa da Irmandade, chama-se árvores falantes e poderá já estar concluído no próximo Verão; consiste, pelo que depreendemos da notícia, na colocação de placas e textos informativos junto a árvores seleccionadas.

15/08/2006

Uma senhora oliveira em Guimarães



O Museu de Alberto Sampaio, no centro histórico de Guimarães, ocupa a antiga Casa do Cabido da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, e estende-se ainda pelo claustro e por todas as salas anexas; a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, porém, permanece reservada ao culto religioso e dispõe de entrada independente pelo Largo da Oliveira. O claustro, que na sua forma actual poderá datar do século XVI, rodeia parcialmente a igreja, de que a divide um pátio ajardinado de formato irregular onde vegetam algumas árvores. De entre elas, muito apropriadamente, a mais notável é uma oliveira - que de tão alta se avista até do exterior, espreitando por trás da fachada do museu. Os séculos não lhe pesam como às velhinhas oliveiras de Serpa, e a vida resguardada que sempre levou dotou-a de um porte e um vigor admiráveis.

27/04/2006

Curva na estrada



Todos conhecemos os estudos estatísticos que traduzem no presumível rigor dos números tudo quanto é do domínio do senso comum. Por exemplo, julgamos nós que certos painéis publicitários (vulgo outdoors) de conteúdo apelativo, colocados junto a uma curva apertada, podem provocar acidentes por distraírem os condutores. Mas a estatística desaconselha-nos a precipitação: há que comparar e quantificar; antes de proibir o painel sugestivo, é preciso experimentar, nesse mesmo local e noutros, painéis de conteúdos diversos. Ficaremos todos mais esclarecidos se no final a estatística nos fornecer a lista dos possíveis assuntos para outdoors por ordem crescente de risco, dos mais inócuos (equipamento para bricolage, propaganda política) aos mais perturbadores (mmmhhh), passando por aqueles de perigosidade média (como sejam os anúncios com gatos).

Seria imperioso saber, em prol da segurança das pessoas e bens que circulam na estrada de Guimarães a Tabuadelo, se esta olaia, toda de liláses e requebros, deveria estar onde está, mostrando-se sem vergonha aos condutores. Mas a estatística abstém-se de investigar o caso e, sem estudos em que se apoie, a fiscalização nada pode fazer. Também as denúncias chegam tarde: na hora em que publicamos esta, já a olaia, essa dissimulada, se cobriu toda de um verde inocente. «Que ando a acenar aos condutores? Eu?! Ora essa!» - diz ela em tom de fingida indignação cortado por risinhos abafados.

21/01/2006

Dia de reflexão



Fotos pva - Guimarães: Quercus robur na mata da Pousada de Santa Marinha; jardim do Palácio Vila Flor

18/09/2005

Inauguração do Centro Cultural Vila Flor



Fotos: pva 0508 - camélias em Vila Flor, Guimarães, sete semanas antes da inauguração do Centro

Foi este fim-de-semana inaugurado em Guimarães o Centro Cultural Vila Flor, que ocupa o antigo Palácio do mesmo nome, inteiramente recuperado pela Câmara vimaranense para as suas novas funções. Há ainda a registar uma outra boa notícia: o histórico jardim do Palácio, até há pouco usado como horto municipal, foi também objecto de reabilitação e passa a estar aberto ao público. O jardim desenvolve-se em sucessivos terraços, ligados por formosa escadaria e rodeados por uma balaustrada de granito pontuada por colunetas com motivos escultóricos. Para nós o que ele contém de mais valioso é a colecção de grandes japoneiras simetricamente dispostas nos canteiros desenhados a buxo: pela harmonia, homogeneidade e grandeza do conjunto, esta colecção tem poucas rivais no nosso país. Por isso nos surpreende que, nas vários referências aos jardins do Palácio Vila Flor (em livros, guias turísticos, páginas electrónicas, etc.), nunca se assinalem estas notáveis árvores.

29/08/2005

As vistas deslumbrantes


Guimarães vista do miradouro da Penha

É uma daquelas parelhas clássicas: as vistas existem para ser deslumbrantes, e a beatitude do deslumbre só se atinge perante as vistas; por isso, enquanto houver português para maltratar a língua, ou agências imobiliárias para vender apartamentos no décimo andar, esse substantivo e adjectivo têm que cumprir, inseparáveis, o seu destino.

O deslumbre que a vista induz é proporcional à altitude a que está situado o observador e à largueza do panorama observado. A qualidade do que se vê - a harmonia e o ordenamento das partes que constituem a vista - não é tida em conta no cálculo do deslumbre - caso contrário, pelo menos em Portugal, o conúbio entre os dois vocábulos teria há muito terminado por incompatibilidade semântica.

Tudo a postos para calcular o coeficiente de deslumbre do miradouro da Penha? Aqui vão os dados necessários: dele se avista, a uma diferença de altitude de cerca de 400 metros, todo o núcleo urbano de Guimarães - que é uma cidade com carácter, amiga dos peões, bonita de se ver... ao perto. Ao longe - bom, mas o melhor é mudarmos de assunto, na certeza de que a sua rival Braga fica bem mais desfavorecida se retratada em idênticas condições.

Não se deduza daqui que não vale a pena subir ao monte da Penha. Para começar, a viagem no teleférico é um excelente sucedâneo, para adultos acomodados, das emoções da velha e desprestigiada roda-gigante. Ultrapassadas as primeiras tonturas, reparamos nas árvores que por vezes quase roçam na cabine: além dos eucaliptos, há, monte acima, muitos e grandes carvalhos-alvarinhos. Ficamos a pensar que, mesmo tendo já pago bilhetes de ida-e-volta, valia a pena descermos a pé.



Pseudotsuga menziesii junto ao Santuário da Penha

Lá em cima, e além do santuário, do miradouro, dos piqueniques e das caravanas de comes-e-bebes, descobrimos um arvoredo acolhedor (carvalhos na sua maioria, mas também sobreiros, medronheiros, ciprestes, cedros e tílias), caminhos cheios de meandros, musgosas rochas descomunais. E deparámos com esta Pseudotsuga menziesii, talvez a mais volumosa da sua espécie que conhecemos em Portugal. Ela que se acautele, pois se continua a crescer assim ainda lhe penduram no topo o sino do igreja, para que o vento leve mais alto e mais longe o repicar das Avé-Marias.

Fotos: pva 0508

18/01/2005

Camélias do Palácio Vila Flor - Guimarães


Foto 0412 - camélias no jardim do Palácio Vila Flor - Guimarães

Localizado numa zona alta da cidade de Guimarães, o setecentista Palácio Vila Flor, actualmente propriedade camarária, encima um histórico jardim que se distribui em terraços sucessivos, ligados por lanços de escadaria e delimitados por balaustradas de granito decoradas com motivos escultóricos. Este jardim é descrito em pormenor no livro Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal de Helder Carita e Homem Cardoso, e a comparação entre a seu plano original e o que dele se pode hoje observar confirma que chegou praticamente intacto aos nossos dias. É caso para dizer: bem hajam os que tiveram a sabedoria de preservar este tesouro.

O que certamente mudou no jardim foi a vegetação, já que as camélias, que lhe dão a marca mais distintiva, só no século XIX se vulgarizariam no nosso país. Mas, pelo seu avantajado porte, é de supor que estes soberbos espécimes sejam quase bi-centenários. Noutros jardins de Guimarães, privados ou públicos, e em especial no jardim ao longo da avenida central, também vicejam numerosas e variadas camélias, embora em geral muito mais jovens do que estas do Palácio Vila Flor.

Recentemente, o palácio entrou em obras para ser transformado num centro cultural. O projecto, segundo o Guimarães Digital, não é nada modesto: «O projecto do Centro Cultural de Vila Flor prevê quatro salas de reuniões com 55 lugares cada, uma área expositiva com mil metros quadrados, dois auditórios de teatro com capacidade para mil pessoas, um restaurante, um café-concerto e um parque de estacionamento [subterrâneo] com 250 lugares.» Em lugar da vista desafogada sobre o centro da cidade, alguns moradores locais terão doravante um enorme muro a tapar-lhes as casas. Felizmente, a obra, aproveitando o terreiro nas traseiras do palácio, não parece tocar no jardim; e, descontando a volumetria exagerada dos novos anexos, o destino que é dado ao histórico edifício é inteiramente digno e apropriado.

Só se lamenta, no terreiro onde as obras agora decorrem a todo o vapor, o sacrifício de uma gigantesca araucária que, com um pouco de imaginação e sensibilidade, muito valorizaria o projecto final. Afinal as árvores, como os edifícios, também fazem a memória das cidades.