29.8.05

As vistas deslumbrantes


Guimarães vista do miradouro da Penha

É uma daquelas parelhas clássicas: as vistas existem para ser deslumbrantes, e a beatitude do deslumbre só se atinge perante as vistas; por isso, enquanto houver português para maltratar a língua, ou agências imobiliárias para vender apartamentos no décimo andar, esse substantivo e adjectivo têm que cumprir, inseparáveis, o seu destino.

O deslumbre que a vista induz é proporcional à altitude a que está situado o observador e à largueza do panorama observado. A qualidade do que se vê - a harmonia e o ordenamento das partes que constituem a vista - não é tida em conta no cálculo do deslumbre - caso contrário, pelo menos em Portugal, o conúbio entre os dois vocábulos teria há muito terminado por incompatibilidade semântica.

Tudo a postos para calcular o coeficiente de deslumbre do miradouro da Penha? Aqui vão os dados necessários: dele se avista, a uma diferença de altitude de cerca de 400 metros, todo o núcleo urbano de Guimarães - que é uma cidade com carácter, amiga dos peões, bonita de se ver... ao perto. Ao longe - bom, mas o melhor é mudarmos de assunto, na certeza de que a sua rival Braga fica bem mais desfavorecida se retratada em idênticas condições.

Não se deduza daqui que não vale a pena subir ao monte da Penha. Para começar, a viagem no teleférico é um excelente sucedâneo, para adultos acomodados, das emoções da velha e desprestigiada roda-gigante. Ultrapassadas as primeiras tonturas, reparamos nas árvores que por vezes quase roçam na cabine: além dos eucaliptos, há, monte acima, muitos e grandes carvalhos-alvarinhos. Ficamos a pensar que, mesmo tendo já pago bilhetes de ida-e-volta, valia a pena descermos a pé.



Pseudotsuga menziesii junto ao Santuário da Penha

Lá em cima, e além do santuário, do miradouro, dos piqueniques e das caravanas de comes-e-bebes, descobrimos um arvoredo acolhedor (carvalhos na sua maioria, mas também sobreiros, medronheiros, ciprestes, cedros e tílias), caminhos cheios de meandros, musgosas rochas descomunais. E deparámos com esta Pseudotsuga menziesii, talvez a mais volumosa da sua espécie que conhecemos em Portugal. Ela que se acautele, pois se continua a crescer assim ainda lhe penduram no topo o sino do igreja, para que o vento leve mais alto e mais longe o repicar das Avé-Marias.

Fotos: pva 0508

10 comentários :

jeffysspot disse...

nice pictures

*Rita* disse...

Excelente visita!! Já agora, é de mencionar o fantástico trabalho que a Irmandade da Penha fez durante o último Inverno e Primavera no que toca à limpeza da mata. Assisti, desde de ?cá de baixo? da cidade, durante todo esse tempo, a enúmeras provas de que se fez realmente trabalho de prevenção para esta "época de incêndios" que tem deixado marcas profundas por todo o nosso país. Quem sabe esta prevenção teve os seus frutos, durante o mês de Agosto a Penha (que eu tenha visto) teve um único incêndio que felizmente foi controlado a tempo (http://www.guimaraesdigital.com/article.php?sid=8714&mode=thread&order=0 ). Ainda bem que esta magnífica encosta até agora "sobreviveu" e não teve grandes problemas e enche o olho ao turista que nos vem visitar.
Vale a pena ver também o centro da cidade, não só pelo centro histórico que é Património Mundial da Humanidade, mas também os diversos espaços verdes da cidade que a cidade de muito se orgulha. (http://www.cm-guimaraes.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=468850). Passem por lá.

mrg disse...

Só faltou mesmo dizer que a área que levou a cidade a ser classificada como Património Mundial corresponde ao um triangulozinho do lado esquerdo da "vista deslumbrante" (1/20?, 1/40?), entre o estádio de futebol e o renque de árvores da Alameda... O resto retrata, em muitos casos, verdadeiros assassinatos da paisagem que têm vindo a ser feitos ao longo dos anos... E que, com o "aval" do "Património Mundial", só se agravaram! Os montes de betão na estrada que liga a cidade a Fafe, a favela em que se está a tornar a própria Penha com "construção em altura" e, já agora, para tocar num ponto muito caro a este blog, a dita "requalificação" de muitos espaços que se traduz, na prática, no abate de árvores magníficas, como os plátanos da alameda em frente ao Liceu, que tantas gerações de estudantes acolheram com a sua sombra nos dias quentes, substituídos neste Verão por umas árvores "plásticas", "acépticas", destas de agora, supostamente porque cometeram o crime capital de "estragarem os passeios"...
Viva a discricionaridade autárquica!

mrg disse...

Peço desculpa, mas detesto gralhas! Assim, e na impossibilidade de editar o meu comentário anterior, aqui vai uma correcção ortográfica: onde se lê "acépticas" (glup!) deve ler-se "assépticas"!

Paulo Araújo disse...

De facto há coisas más a que nem Guimarães tem escapado: as construções desproporcionadas que fazem o núcleo histórico parecer o Portugal dos Pequeninos; árvores arrancadas a pretexto de "requalificações" ou de outras empreitadas (por exemplo, no pátio do Palácio Vila Flor foi abatida uma grande araucária); e até, como na rua da Liberdade, passeios revestidos a alcatrão, ideia verdadeiramente peregrina que começa a vulgarizar-se perigosamente. Apesar de tudo isto, Guimarães é das melhores e mais bonitas cidades que conheço.

Anónimo disse...

No que diz respeito ao "abate de árvores magníficas, como os plátanos da alameda em frente ao Liceu de Guimarães" falta acrescentar que essas magníficas árvores, eram choupos (Populus nigra) e não plátanos, não cometeram o crime capital de "estragarem os passeios" mas fizeram sim, estragos consideráveis em automóveis que ali se encontravam estacionados pondo também em perigo as pessoas que lá passavam no passado Inverno (e nos anteriores).
Foi uma grande perda, claro que sim, mas estavam doentes e apodrecidas por dentro, os ramos que caíam nos carros e nos passeios demonstraram isso e as análises posteriores aos abates também.
As ditas árvores "plásticas" são Cerejeiras, vindas do Horto Municipal, e foram escolhidas, por um lado para proporcionar alguma cor a um cenário verde constituído pelas árvores que se encontram na mesma zona e dos jardins do Liceu de Guimarães (maioritariamente folhosas com floração muito discreta). Por outro lado, a câmara não optou por pôr de novo choupos, espécie de rápido crescimento, uma vez que esta espécie na sua época de floração traz algum desconforto às pessoas mais sensíveis a alergias evitando também o mesmo problema que as antigas tinham.

Anónimo disse...

Peço desculpa não ter assinado o último comentário.
*Rita*

mrg disse...

Agradeço o esclarecimento prestado pela anterior comentadora que, aliás, corresponde à explicação adiantada pela Câmara Municipal de Guimarães, divulgada profusamente na imprensa local.
Quanto à troca de uns magníficos choupos com umas boas dezenas de anos por umas cerejeiritas (ainda que gaiteiras), só posso lamentar...

Alexandre Leite disse...

Também fiquei triste ao ver deitarem abaixo as árvores em frente ao liceu! Mas se realmente estavam doentes e a doença era daquelas incuráveis, e os automobilistas preferem o carro quentinho no verão... Em relação às alergias já aqui se explicou que essa é uma falsa questão e que aquele "algodão" não é pólen nem é a causa das ditas alergias!

Apesar de tudo acho que há em Guimarães espaços verdes óptimos! Entre os que mais gosto estão os jardins e a mata da Pousada que fica na encosta da Penha e também a Alameda de S.Dâmaso (na fotografia está um pouco abaixo do estádio).
É uma óptima cidade para viver! (É o que vou fazer a partir de Janeiro:)

cerveira pinto disse...

Artigo muito interessante, parabéns! penso que falta apenas uma referência à notável obra do arq. portuense Marques da Silva.
Manuel