28/06/2026

Abetos da Serra Vermelha

Abies pinsapo Boiss. — Sierra Bermeja, Málaga
As encostas nevadas de onde nos chegam as transmissões televisivas dos campeonatos de esqui (ou onde têm lugar frenéticas perseguições em certos filmes de James Bond) aparecem amiúde revestidas por densas formações de coníferas. São abetos, pinheiros, espruces, lariços, todos de formato cónico e com os ramos pendentes para que a neve não se acumule nas copas. Supomos que alguma vez o branco seja substituído pelo verde, mas essa parte nunca nos é mostrada, e aquelas árvores ficam-nos para sempre associadas a um frio impenitente e perpétuo. Em todo o caso, devemos reconhecer que no nosso país não há neve tão espessa, nem tão persistente, nem cobrindo extensões tão desmedidas, o que parece razão bastante para que as coníferas vinculadas a esses climas e altitudes não existam em território português. Temos pinheiros, é verdade, mas foram quase todos plantados, e são daqueles pouco adaptados à neve. E em Manteigas ensaiou-se uma plantação de lariços que ficou jeitosa, mas a neve é escassa para que o cenário seja credível. A situação indes­mentível é esta: abetos, espruces e lariços não fazem parte da flora espontâ­nea portuguesa.

Será que Espanha se saiu melhor do que nós? Basta lembrarmo-nos dos Pirenéus para reconhecermos que sim: grandes procissões de pinhei­ros-negros (Pinus mugo) e de pinheiros-silvestres (Pinus syl­vestris), às vezes acompanhados por abetos (Abies alba), trepam pelas encostas da cordilheira até aos 2000 metros de altitude. Acontece que os abetos peninsulares preferem, de um modo geral, altitudes mais baixas, e a espécie a que dedicamos o texto de hoje, Abies pinsapo, vive muito bem sem neve, ou só com neve muito ocasional. O abeto-espanhol (como é costume chamar-lhe) escolheu morar na Andaluzia; mas, se o manto branco não é para ele requisito importante, bem poderia ter atravessado a fronteira e fazer-se também português.

O Abies pinsapo é uma conífera de porte médio, não excedendo os 30 metros de altura, que vive em bosques puros ou mistos em algumas serras de Málaga e de Cádiz, entre os 900 e 1700 metros de altitude. Distingue-se de outros abetos pelas agulhas curtas e rígidas, dispostas radialmente — ou seja, guarnecendo os galhos a toda a volta, enquanto que nas outras espécies de Abies as folhas se organizam em duas fiadas opostas. Cada árvore produz na Primavera cones masculinos e femininos: os primeiros são vermelhos e aninham-se nas axilas das folhas na parte inferior da copa; os segundos, de cor acastanhada, brotam nas extremidades dos ramos superiores, dando origem no Verão a pinhas grandes e erectas.

Abies pinsapo Boiss.


Um dos mais importantes bosques de abetos-espanhóis, e o único que visitámos, ocupa uns 40 hectares nos cumes da Sierra Bermeja, a apenas dez quilómetros da costa mediterrânica. Não é a população mais numerosa da espécie: na Sierra de Grazalema, 35 quilómetros a norte, o bosque de abetos estende-se por uma área dez vezes superior. Contudo, foi na Sierra Bermeja que Pierre Edmond Boissier, o eminente botânico suiço que descreveu este abeto em 1838, primeiramente o avistou, aquando de uma expedição à província de Málaga. E a esse dado histórico acresce uma singularidade ecológica: a Sierra Bermeja justifica plenamente o nome que tem pela intensa cor vermelha das rochas que lhe dão forma. De facto, essa serra, que atinge os 1470 metros de altitude máxima, constitui o maior afloramento ultrabásico da Península Ibérica, e um dos maiores a nível mundial, ultrapassando os 300 km2 de extensão. Essas rochas ricas em magnésio são parte normal das camadas inferiores da crosta terrestre, e nos raros lugares onde assomam à superfície são sempre refúgio de uma vegetação peculiar. A Sierra Bermeja ostenta um número apreciável de endemismos botânicos, infelizmente ainda não em flor por altura da nossa visita, mas o que acolhe de mais improvável é este bosque de abetos, crescendo num substrato reconhecidamente adverso a um coberto arbóreo bem desenvolvido.

20/06/2026

Daquela falésia voltada para o mar

Notícia recente dava conta de que há algures o desejo e a intenção de privatizar algumas praias no país. Sendo pequeno mas bem estacionado, Portugal tem uma costa formidável e, naturalmente, há quem queira ser mais rico em areal e água salgada. Note-se que não se trata apenas de comprar um quintal de areia em frente a uma casa construída quase em cima das ondas, ignorando o risco e talvez a lei. Pretende-se que o vulgo seja impedido de aceder à zona de rebentação das ondas, às dunas e ao mar adjacentes, de nadar nesse pedaço de oceano, ou de passear por muitos quilómetros nessa beira do mar. Até um saudável passeio a pé por habitats de vegetação costeira excepcional ficaria proibido nesses selectos pátios. Não se confunda, porém, essa privatização das praias com medidas de protecção da natureza. O que se ambiciona não é evitar a condução de veículos na areia que destruam a vegetação dunar, a presença de animais que pisoteiem e sujem o areal, a recolha excessiva de conchas e pedras moldadas pelas marés, ou a perturbação de locais de nidificação em rochedos costeiros.



Em Menorca não há praias privadas. Segundo a lei espanhola, toda a costa é pública, e uma faixa de seis metros em terra a partir do mar é de uso inteiramente livre. O problema é que os caminhos de acesso a parte relevante da costa cruzam terreno privado, e esbarram com frequência enervante em portões fechados com avisos como «Prohibido el paso», «Coto privado de caza» ou, com ironia, «Este camino no lleva a la playa». Ignorá-los é devassar propriedade privada, com multas de valores alarmantes, mesmo que a intenção seja ver de perto uma herbácea rara. Também é por isso que o longo percurso, inteiramente legal, junto aos rochedos da praia de Llucari, a sul da ilha, nos traz tão boas memórias.

Limonium minutum (L.) Chaz.


Este é um endemismo das ilhas Baleares que se agarra às rochas costeiras, que no sul de Menorca são essencialmente argilosas ou calcárias, formando almofadinhas de rosetas de folhas carnudas com face áspera. As flores, que surgem de Maio a Setembro, são pequenas mas cumprem o figurino dos limónios.

Polycarpon colomense Porta [= Polycarpon polycarpoides subsp. colomense (Porta) Pedrol]


Nestes rochedos da costa ocorre este outro endemismo balear, de hábito prostrado, folhas que parecem corações verdes e flores brancas encaixadas em cálices um pouco maiores do que as corolas. O género Polycarpon tem representantes nos solos arenosos do litoral português, como este que ocorre de norte a sul do continente.

Silene sedoides Poir.


Este assobio minúsculo (de 4 a 10 cm de altura) mora em quase todo o litoral mediterrânico, apreciando covinhas frescas em rochas calcárias costeiras. É uma planta anual revestida de glândulas que decerto a protegem do excesso de sal à beira mar.

Lomelosia cretica (L.) Greuter & Burdet


Foi no mesmo local, mas nas rochas calcárias mais altas e expostas, que avistámos este arbusto lenhoso em flor. Natural das ilhas Baleares, Sicília e sul de Itália, também agrupa as folhas em coxins para melhor se acomodar a este habitat ventoso. As inflorescências, de cor rosa-violeta, têm um perfil assimétrico, com as flores periféricas maiores. Pode conferir aqui como é o formato característico dos frutos do género Lomelosia.

03/06/2026

Das soagens aos massarocos

Serra de Grazalema, Málaga
Em Portugal, é a soagem que tem a alegre incumbência de pintar os campos de roxo no início da Primavera. Começando pelo sul, onde as temperaturas amenas chegam mais cedo, progride como um incêndio benigno do Algarve até ao Minho, fazendo abrir afanosamente as flores e atraindo o zumbido alvoroçado das abelhas. A espécie mais comum de soagem, Echium plantagineum, embora largamente dominante nessa tarefa, é aqui e ali coadjuvada por congéneres como E. rosulatum (na metade norte do país), E. tuberculatum (nos calcários do centro-oeste) e E. creticum (na planície alentejana). Com dez espécies em carteira em Portugal continental, e dezanove se alargarmos o âmbito da amostra a toda a Península Ibérica e às ilhas Baleares, o género Echium é bastante diverso, tanto em número de espécies como nas formas que assume. De facto, as espécies ibéricas, ainda que quase todas herbáceas, variam consideravelmente tanto no aspecto geral como no tamanho: há as que têm um só caule (como o E. vulgare) e outras com caules múltiplos (como o E. lusitanicum); umas ficam-se pelo meio metro de altura e outras excedem os dois metros (como o Echium boissieri); umas apresentam caule simples e outras são bastamente ramificadas.

Nada disto deixa adivinhar o modo como o género Echium se viria a diversificar na Macaronésia: são 33 as espécies endémicas, muitas delas arbustos lenhosos, distribuídas pela Madeira, Canárias e Cabo Verde, levando o segundo destes arquipélagos, com 27 espécies, grande vantagem sobre os outros dois, cada um deles só com três espécies. Mas as espécies continentais de Echium, ainda que menos celebradas do que as insulares, também podem ser surpreendentes. É essa afirmação que tentamos hoje ilustrar com três espécies fotografadas em Espanha.

Echium creticum L.


O Echium creticum, que encontrámos em Almeria mas também ocorre no sul de Portugal, é uma soagem de aspecto convencional, que um olhar desatento poderia confundir com o Echium plantagineum. Observamos, contudo, que tem folhas (em particular as basais) mais verrucosas e estreitas, ramificação mais lassa, e flores com estames menos salientes. Às diferenças morfológicas soma-se a circunstância de o Echium plantagineum estar ausente do sudeste de Espanha. Nessa região, a tarefa de colorir a Primavera de roxo cabe ao E. creticum e ao também abundante E. sabulicola — que, como o nome indica, tem distribuição sobretudo costeira.

Echium italicum L.


Encontrámos o Echium italicum em Menorca, e de facto ele não existe na Península Ibérica; mas, ocorrendo em todos os países da Europa mediterrânica desde a França até à Turquia, não é abusivo tratá-lo como espécie continental. Embora tenha porte modesto, não ultrapassando a altura de um metro, recorda irresistivelmente, pelo formato cónico, os famosos tajinastes de Tenerife e de La Palma. Até nas flores pequenas e com estames proeminentes a semelhança é indesmentível. É como se a natureza fizesse, com o E. italicum, um primeiro esquisso mediterrânico das obras-primas que viria a criar no arquipélago atlântico.

Echium albicans Lag. & Rodr.
O Echium albicans, endemismo andaluz, chega-nos das serras calcárias da província de Málaga. É uma planta pequena, de não mais que 70 cm de altura, em regra de caule simples, não ramificado, e de flores comparativamente grandes. De formato mais cilíndrico do que cónico, destaca-se pelo aspecto lanudo e esbranquiçado, e pelas folhas estreitas e compridas, quase lineares, formando uma roseta basal bem definida.

26/05/2026

Sanfeno sem freio



Em anos bons, o solo dos nossos prados no início da Primavera está bastante encharcado, e a cor dominante é o verde das inúmeras herbáceas que começam a lançar novas folhas, ou cuja polinização está a cargo do vento. Pouco depois, ainda o chão está macio de chuva, notam-se extensos tapetes de cor branca, entremeados de manchas amarelas com uns apontamentos de roxo. Sem demora, porém, o calor instala-se, e a mistura de cores nos prados diversifica-se. A tendência é agora menos óbvia, mas apercebemo-nos das primeiras flores cor-de-rosa, azuis de vários tons e vermelhas. Com o Verão a meio, o que notamos é um alvoroço de púrpura, roxo, violeta, amarelo, laranja, castanho, branco, azul, carmim,.... Esta ordem na coloração não é alheia à maior visibilidade da flor pelos polinizadores, até porque, frequentemente, as pétalas exibem matizes que contrastam com o amarelo e o branco, as cores mais usuais, mas não únicas, do pólen. Essa pigmentação amarelada deriva da presença de químicos que protegem a planta contra os efeitos nocivos da exposição ao sol, e tornam o pólen mais resistente à seca e ao calor. Não seria surpresa se se descobrisse que essas foram as primeiras tonalidades distintas do verde a surgir em flores. Do que desconfiamos, porém, é que, mal apareceu uma flor vermelha, ou com pólen vermelho (cor que atrai pássaros e borboletas), muitas flores terão pensado em mudar de cor.

Hedysarum coronarium L.


Esta herbácea perene tem uma distribuição vasta na região mediterrânica ocidental, estando naturalizada noutros locais, onde tem fama de invasora. Por cá, há registo da sua presença perto do litoral, entre a Nazaré e Oeiras, em pastagens e bermas de caminhos com solo argiloso ou margoso. Floresce entre Março e Junho, altura em que as folhas têm as margens bordadas com um indumento denso esbranquiçado e a inflorescência, em espiga terminal com mais de 30 flores vermelhas raiadas de branco, se avista de longe. A vagem é a parte mais bizarra desta planta: é um lomento, formato comum às espécies do género Hedysarum. Dividida em peças, a vagem parece um colar de contas, cada uma das quais lembra uma bolacha redonda e espalmada. Cada uma destas bolachas contém uma semente, e a vagem abre-se precisamente nos nós de junção entre cada par de bolachas para largar uma semente de cada vez. Por contraste, uma vagem de feijão (e grande parte das vagens das leguminosas) abre-se longitudinalmente, expondo todas as sementes em simultâneo.

Por falar em comida, há quem assegure que as plantas e sementes de H. coronarium são muito apreciadas pelo gado, e que as flores têm um sabor doce que é um toque requintado em saladas e receitas com ovos. Mais um pitéu, a juntar às cerejas, morangos, amoras e framboesas, a ser valorizado pela moda vegetariana dos alimentos vermelhos.

06/05/2026

Launaea dos desertos

Almeria: antiga estrada, habitat de Launaea lanifera
É impossível visitar as ilhas Canárias orientais e não notar como uma planta arbustiva espinhosa que parece palha-de-aço, a Launaea arborescens, cobre grandes extensões de solo pedregoso, de resto quase despido de vegetação. A mesma planta surge com assiduidade nas demais ilhas do arquipélago, mas é em Lanzarote e Fuerteventura que a sua omnipresença, amiúde como represen­tante única do reino vegetal, se torna frustante para quem busque alguma diversidade.

Como em tudo, o problema está no excesso. Quando reencontramos o mesmo arbusto em quantidades moderadas no deserto de Tabernas, no sul de Espanha, conseguimos por fim perceber como ele é bonito. E, tendo visitado as Baleares e travado conhecimento com a Launaea cervicornis, uma das célebres almafodilhas (ou coxins) do litoral de Menorca, percebemos que o género Launaea, especializado em ambientes agrestes (desertos, dunas, rochas costeiras), é dos mais interessantes da flora espanhola. Por estar presente tanto no território continental como nos dois mais importantes arquipélagos do país vizinho, pode mesmo funcionar como símbolo de união entre as diversas comunidades autónomas.

Com as duas espécies de Launaea que hoje mostramos, ficam a faltar-nos apenas três pequenas herbáceas (L. pumila, L. fragilis e L. mucronata) para completarmos a colecção das espécies espanholas do género. Que, diga-se, não são apenas espanholas: à excepção da L. cervicornis, endémica das Baleares, todas elas ocorrem também nos países do norte de África.

Launaea lanifera Pau


A Launaea lanifera (em cima) e a Launaea nudicaulis (em baixo) podem assumir, em exemplares bem desenvolvidos, a aparência de pequenos arbustos (raramente excedendo os 50 cm de altura), mas na verdade ambas apresentam hastes de textura herbácea, a que a ramificação profusa dá um ar agressivo. A forma das folhas, quase todas basais, permite sem dificuldade distinguir as duas espécies: mais estreitas e alongadas as da L. lanifera; com lobos maiores e margens claramente serrilhadas as da L. nudicaulis. Quem quiser munir-se de lupa e de paciência, poderá verificar que, na primeira delas, as axilas das folhas e a base das hastes estão revestidas por um indumento lanuginoso, o que explica o epíteto lanifera aplicado a uma planta que, à primeira vista, se diria glabra. Das duas espécies, a L. lanifera é, em regra, a que forma moitas mais nutridas e apresenta ramificação mais densa.

A L. nudicaulis, que fotografámos em Fuerteventura, é uma planta muito viajada: a sua presença na Península Ibérica é tangencial (fica-se pelo sudeste de Espanha), mas de resto ocorre em todas as ilhas Canárias, em toda a faixa sul do Mediterrâneo, e desde a Península Arábica até à Índia. Por comparação, a L. lanifera, que vimos em Almeria e ocorre apenas no sul de Espanha, Marrocos e Argélia, tem uma distribuição algo restrita.

Launaea nudicaulis (L.) Hook. fil.