23/11/2020

Medronheiro canarino

A maioria das plantas da nossa flora inicia agora um merecido descanso, no que são acompanhadas por várias espécies da fauna. Muitas árvores ficam carecas de folhas, com o tronco envelhecido de musgos e um ar desolado, mas sabemos que adormecem para rejuvenescer. Há, porém, excepções. A floração do medronheiro (Arbutus unedo), arbusto de folhagem perene, está agora a começar: as flores branco-rosadas e perfumadas, agrupadas em cachos, dividem o espaço na copa com frutos da época anterior, corados de frio mas ajudando a atrair os poucos polinizadores que ainda por aí andam nesta época do ano. Os medronhos, com textura e cor de morangos maduros mas quase sem sabor, ficam bem em compotas, bolos, rebuçados e aguardente. E esse uso tem beneficiado a planta, por interessar a fruticultores e destilarias a expansão da sua área de distribuição, que outrora se restringiu à região mediterrânica e Europa ocidental.

Arbutus canariensis Veill. ex Duhamel


Uma vez que uma parte significativa da flora das Canárias descende da flora mediterrânica, não foi surpresa descobrir que há uma espécie de medronheiro endémica das ilhas dos grupos central e oriental deste arquipélago (Tenerife, La Gomera, Grã-Canária, El Hierro e La Palma). Tal como o parente continental, o Arbutus canariensis tem um tronco avermelhado, que pode atingir os 7 metros de altura e se descasca com a idade. As folhas são maiores e mais escuras do que as do medronheiro continental, mas têm também aspecto coriáceo e margens serradas. As flores exibem um leve tom cor-de-rosa e pedicelos com inúmeros pêlos glândulares, detalhe que ajuda a distinguir a espécie canariense do A. unedo.

O A. canariensis está ameaçado pela perda de habitat, sobretudo nas ilhas em que as reservas de água estão mais perto do fim e os fogos de Verão se têm intensificado — regimes extremos de seca e calor a que o medronheiro canariense não parece adaptar-se. Esta espécie aprecia taludes da floresta laurissilva com bastante humidade mas solo enxuto, e onde a concorrência com outros arbustos e árvores é menor. Os registos mais recentes indicam que as populações silvestres em La Palma e La Gomera estão perto da extinção. As fotos são de exemplares do barranco de Valsendero na Grã-Canaria.

15/11/2020

Bunho triangular



Em 2020, nos meses agora longínquos em que gozámos de uma breve liberdade condicional, visitámos duas vezes o rio Minho. Da primeira vez, ainda em Maio, não vimos caiaques a deslizar nas águas e só nos cruzámos com duas pessoas. Do lado de lá havia quem nos acenasse numa espécie de desespero por não poder chegar mais perto. Quando voltámos, em meados de Julho, já portugueses e galegos se misturavam na ânsia de esquecer os meses em que foram impedidos de atravessar o rio. Caminhar junto ao rio, ou testar a medo a temperatura da água com os pés descalços, dificilmente poderiam ser, dessa vez, experiências solitárias. Ainda assim, são muitos os quilómetros de rio entre Valença, Monção e Melgaço, e pouca gente se dá ao incómodo de fazer centenas de metros a pé para chegar aos pontos mais esconsos. E é nesses lugares de relativo sossego que se refugiam as raridades botânicas.

Schoenoplectus triqueter (L.) Palla


A raridade que hoje mostramos dá pelo nome de Schoenoplectus triqueter; chamamos-lhe bunho-triangular por causa do caule esquinado com três faces bem marcadas. Trata-se de uma ciperácea robusta, com hastes de mais de um metro de altura, que aprecia substratos lodosos em remansos de rios ou estuários, e que, em Portugal, tendo desaparecido do litoral centro, apenas se encontra algures no Guadiana e, em muito maior número, no troço do rio Minho entre Caminha e Monção. Só há poucos anos se soube da sua presença no extremo noroeste de Portugal; mas, tirando essa boa novidade, a perda ou degradação do habitat da planta têm sido generalizados, tanto assim que ela foi incluída na Lista Vermelha da Flora de Portugal com o estatuto de vulnerável. Da mesma lista constam três outras plantas ameaçadas que também têm no rio Minho as suas principais (ou únicas) populações nacionais: a cravina-das-pesqueiras. o golfão-pequeno e a espiga-de-água.

A vida em Portugal não está fácil para os bunhos: duas outras espécies de Schoenoplectus, S. erectus e S. litoralis, figuram em destaque na Lista Vermelha. Ambas estão em perigo crítico de extinção, e é provável que a primeira, com última morada conhecida no baixo Mondego, já não exista em território nacional. Dentro do género, o S. lacustris, que se distingue por ter caules mais altos e de secção perfeitamente circular, é o único que tem dado mostras de pujança, com muitos núcleos populacionais tanto no litoral como no interior do país.

08/11/2020

Árvore dos fusos

Quando falamos de bosques, imaginamo-los umbrosos e acolhedores no Verão, abertos e húmidos no Inverno, abrigando carvalhos, azinheiras, sobreiros, padreiros, zelhas, pilriteiros, medronheiros, cerejeiras e uma profusão de arbustos que se regalam com os solos frescos e férteis destes locais. Com sorte, há ainda regatos ou penas de água que alimentam avelaneiras, amieiros, salgueiros, freixos e herbáceas excepcionais, além de taludes de rochas raras e fetos ainda mais invulgares. São habitats fáceis de destruir, porém, e restam poucos no nosso país. No nordeste transmontano sobram alguns dos melhores carvalhais do país, e é lá que mora a única população portuguesa conhecida de Euonymus europaeus.

Parque Natural Collados del Asón, Cantábria
Euonymus europaeus L.


Esta é uma planta de ampla distribuição na Europa e na Ásia, frequente nas montanhas do norte da Península Ibérica. É resistente ao frio e ao calor intensos, mas não parece apreciar o clima mais ameno do oeste da Península. Foi na Cantábria que vimos inúmeros exemplares desta árvore de copa magnífica, a bordejar margens de rios caudalosos, em solo calcário e bem drenado. As flores têm pedicelo longo, mas são minúsculas e branco-esverdeadas; o seu fraco efeito decorativo é compensado pelos frutos muito vistosos, da cor do coral, de fazer inveja a qualquer cerejeira.

Os vários nomes por que é conhecida, aludindo precisamente aos frutos (barrete-de-padre, bonetero), indicam que já foi mais abundante. Muitos recordam que a madeira, densa, homogénea, perfumada e de cor amarelo-claro, foi outrora a das rocas e fusos (até das histórias de fadas), e dos arcos de violino. Mas em Portugal a fuseira está ameaçada, sobretudo porque os poucos indivíduos remanescentes podem ser vítimas do corte indiscriminado de carvalhais ou do desbaste da vegetação de sebes. Consta da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental com o estatuto de vulnerável, o que não é boa notícia.

01/11/2020

Caldeira da Lomba

Lagoa da Lomba, ilha das Flores, com Potamogeton polygonifolius Pourr.
Na ilha das Flores há uma correspondência quase perfeita entre caldeiras vulcânicas e lagoas: cada caldeira tem a sua lagoa, e cada lagoa está na sua caldeira. A regra só é quebrada pela teimosia da caldeira Seca, que para fazer jus ao nome decidiu prescindir da lagoa a que tinha direito. Nos outros pares caldeira/lagoa, os dois substantivos funcionam como sinónimos: caldeira Comprida e lagoa Comprida são dois nomes do mesmíssimo lugar, ainda que um picuinhas da gramática detecte aqui uma metonímia ao tomar-se o conteúdo pelo continente (ou vice-versa).

A lagoa/caldeira da Lomba é talvez a que menos entusiasma os turistas: de baixa profundidade e situada num planalto, falta-lhe em volta o dramatismo das ladeiras a pique e do recorte acidentado dos montes. A lagoa Rasa, embora igualmente... enfim... rasa, não é diminuída pelo cenário, já que a sua função é fazer contraste com a lagoa Funda, que lhe fica mesmo ao lado mas 170 metros abaixo. O arvoredo em volta da lagoa da Lomba, quase todo exótico, também não a favorece, pois até um visitante distraído percebe que uma plantação de criptomérias é muito menos bonita do que a floresta nativa que reveste as encostas das melhores caldeiras.

Dito isto, a lagoa da Lomba tem particularidades que justificam uma visita: de todas as lagoas da ilha, é a que está a maior altitude (650 m), ficando a lagoa Branca num segundo lugar muito distanciado (570 m); e as suas águas baixas e margens lodosas favorecem uma flora especializada que, com excepção da lagoa Rasa, está ausente das outras lagoas. Exemplos são a Littorella uniflora, de ampla distribuíção europeia, e a rara endémica Isoetes azorica: nas Flores, ambas ocorrem apenas na lagoa da Lomba e na lagoa Rasa. E a diminuta Elatine hexandra, abaixo retratada, só mora mesmo na lagoa da Lomba.

Elatine hexandra (Lapierre) DC.


A Elatine hexandra, como quase todas as suas congéneres, integra aquele grupo de plantas anuais que, vivendo em margens de lagos ou charcos, preferem esperar que a água baixe ou se evapore deixando a descoberto o solo lamacento, tratando depois de cumprir o seu ciclo vital antes que a lama fique ressequida. O seu calendário fenológico, embora sobretudo estival, é pois oscilante e depende das condições locais, podendo em anos propícios sucederem-se várias gerações da planta na mesma temporada. Espécie prolífera, a E. hexandra produz em média umas 40 sementes por cápsula. O farto banco de sementes que deposita no solo está pronto a germinar logo que haja condições favoráveis.

Única espécie do seu género nos Açores, a Elatine hexandra está distribuída por grande parte da Europa, presumindo-se que seja rara em Portugal continental. Contudo, a pequenez da planta (caules prostrados de 2 a 8 cm de comprimento, flores e frutos de 1 mm de diâmetro, folhas de 2 a 3 mm de comprimento), o seu surgimento efémero, e o carácter pouco aprazível dos habitats que ocupa - tudo isso pode contribuir para que ela seja pouco vista. Uma espécie afim, Elatine brochonii, só em 2011 foi detectada em território nacional, mas depois concluiu-se que não era assim tão rara (ver mapa de distribuição no Flora-On). Tanto em Portugal continental como nos Açores, é de crer que a E. hexandra seja mais frequente do que aquilo que sugerem os poucos registos existentes. Mesmo que no continente alguns habitats naturais se tenham perdido, ela não se faz rogada em ocupar habitats artificiais como margens de represas ou lagos de recreio.

25/10/2020

Uma Volutaria por outra

Nos jornais portugueses, são raras as notícias sobre a flora lusitana e a natureza é, jornalisticamente falando, uma paisagem incompreendida e mal etiquetada. Aos poucos redactores que os jornais ainda empregam não se perdoaria a desatenção face ao notável programa de conservação do lince ibérico no Vale do Guadiana. Mas, quanto a plantas, elas são mencionadas aquando dos grandes incêndios, sendo então referidas colectivamente como floresta, ou são capa dos suplementos dos jornais ao fim-de-semana como vegetais cozinhados. Decerto por insistirem nesta abordagem superficial da flora, os jornais portugueses perderam recentemente duas excelentes notícias:

1. Portugal deixou de integrar a lista de países europeus (eram 3) que não têm uma lista vermelha da sua flora nativa. Apresentada oficialmente a 13 de Outubro, a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental é o resultado de vários anos de trabalho de uma equipa diligente de botânicos que, com o apoio de amadores, conseguiu elaborar um mapa muito fiel da distribuição e do nível de ameaça a que estão sujeitas mais de 600 espécies de plantas nativas em Portugal continental. O país possui finalmente um guião detalhado para uma acção concertada de conservação de habitats e espécies da sua flora espontânea.

2. No âmbito do esforço de prospecção botânica que a elaboração desta lista vermelha exigiu, reencontrou-se uma pequena população de uma asterácea muito rara, a Volutaria crupinoides, planta de locais pedregosos e secos de origem calcária, de que, no continente europeu, só há registo em Portugal. Os poucos indivíduos (que não conhecemos) ocupam uma área muito reduzida nas arribas marítimas da serra da Arrábida.

O género Volutaria é essencialmente tropical, com um ascendente comum asiático, havendo registo de cerca de 18 espécies distribuídas pelo norte de África, região mediterrânica, Ásia, Península Ibérica e ilhas Canárias. São herbáceas anuais que se têm disseminado com sucesso após o aparecimento nessas regiões de vastas zonas abertas com vegetação rala e regimes de precipitação semi-desérticos.



Nas Canárias, onde pouco chove e já quase não há rios, contam-se duas espécies endémicas de Volutaria (V. bollei, de Lanzarote e Fuerteventura, e V. canariensis, presente em todas as ilhas), além de populações de V. tubuliflora. Os capítulos florais deste género são muito vistosos, com cálices penugentos e flores hermafroditas ao centro, notando-se outras, estéreis e grandes, no bordo (enfeites que decerto tentam os polinizadores). A floração dos exemplares de V. canariensis que vimos em Maio de 2019 em Tenerife estava quase terminada, e há que aguardar que a pandemia deixe de ser notícia para os vermos mais floridos.

Volutaria canariensis Wagenitz

18/10/2020

As brinças do rio Boco

Peucedanum officinale L.


Em Portugal, país que desconhece a sua flora, os nomes vernáculos das plantas silvestres são, em grande parte, uma fantasia incoerente. Há plantas vulgaríssimas e distintivas que nunca o povo se dispôs a baptizar - por exemplo, no norte do país, a Silene acutifolia e o Omphalodes nitida -, e outras praticamente inexistentes que têm uma profusão de (alegados) nomes comuns. O Peucedanum officinale, que só aparece com alguma regularidade nas margens quase inacessíveis do Douro internacional, e no resto do país só foi detectado em meia dúzia de lugares, recebeu nada menos que três nomes: brinça, ervatão-porcino e funcho-de-porco. O primeiro deles terá raiz latina; os outros são traduções mal amanhadas do inglês hog's fennel. São nomes que garantidamente nunca andaram nas bocas de um povo que nunca viu a planta; ou que, se a viu e lhe concedeu um minuto de atenção, certamente achou que se tratava de um funcho.

Se fosse vulgar no nosso país, a brinça (chamemos-lhe assim) bem merecia ser conhecida. Por essa Europa fora, nas épocas em que não havia farmácias nem receitas comparticipadas, funcionava como remédio barato e polivalente ao alcance de ricos e pobres. A lista das qualidades medicinais que lhe eram reconhecidas é extensa: o látex extraído do rizoma da planta seria anódino, anti-espasmódico, sudorífero, diaforético, diurético e peitoral (fonte) - quase uma farmácia completa.

A brinça é uma umbelífera alta, com mais de dois metros de altura, com folhas muito divididas bem diferentes das do funcho, dotadas de segmentos terminais compridos, hirtos e estreitos. Como grande parte das plantas da família a que pertence, floresce no Verão. As flores são amarelas como as do funcho, mas as umbelas são mais amplas, com maior número de raios.

A população que encontrámos, composta talvez por uma centena de plantas, mora em Cantanhede, num prado seco rodeado por eucaliptais em expansão. Ao fundo, uma linha de água sublinhada por salgueiros marca a fronteira entre os concelhos de Cantanhede e Vagos. Ainda que nos tenha parecido insignificante, essa linha de água alarga-se o suficiente para, uns quilómetros adiante, ser chamada de rio. É o rio Boco, que desagua em Vagos num dos braços da ria de Aveiro, um rio que vem de perto e vai para perto.

11/10/2020

Erva do Parnasso


O Sistema Central é um alinhamento de montanhas no centro da Península Ibérica que se estende de Guadalajara até à serra da Estrela. O estudo da biodiversidade notável deste vasto território mostra como a variação climática tem tido um efeito nefasto em ecossistemas onde a presença humana até é reduzida. Por exemplo, o clima mais quente e atlântico na serra da Estrela, com episódios de neve mais curtos e menos intensos do que no centro montanhoso de Espanha, tem condenado a uma distribuição restrita, ou mesmo à extinção, boa parte da flora dos pisos mais elevados da serra. Contam-se aqui como muito raros o Asplenium septentrionale, o Cryptogramma crispa, a Alchemilla transiens, o Carex furva ou o Lycopodium clavatum, que em Espanha têm populações mais viçosas. A juntar a este efeito climático, nota-se um uso desregrado dos cervunais, uma alteração significativa nos bosques mediterrânicos e a destruição de prados nas terras mais baixas. Não surpreendentemente, teme-se que a renovação do caudal de vários afluentes dos rios Douro, Mondego e Tejo esteja a tornar-se menos eficiente.

Um maior número de cumes em Gredos, e dos mais altos, talvez seja a razão para algumas espécies de montanha serem aí tão abundantes. É o caso da herbácea perene de que vos falamos hoje, de pequeno porte (10 a 30 cm) e que floresce em pleno Verão nas margens de riachos e turfeiras. As folhas são arredondadas mas com base reentrante, como corações sem bico, e têm um pé longo, evitando a humidade excessiva. A haste floral emerge da base das folhas, e no topo empoleira-se uma flor solitária e muito perfumada.

Parnassia palustris L.


A polinização destas flores merece um comentário. No centro da flor nota-se o ovário rodeado por cinco leques enfeitados com bolinhas brilhantes da cor do mel (que prometem néctar) que são outros tantos falsos estames (veja-se a 2ª foto). Para que serve tanto adorno e fingimento? Note-se que é benéfico para as espécies evitar a auto-fecundação, mas numa flor hermafrodita a proximidade das componentes masculina e feminina pode tornar a auto-polinização mais frequente do que a polinização cruzada. Pois bem: a presença dos estames falsos dá a impressão ao polinizador de que a flor já desabrochou e está a servir o néctar. Inebriados pelo aroma a mel, eles pousam na flor e roçam o corpo pelo pólen, esvoaçando pouco depois para outra flor onde julgam que, aí sim, o néctar já está na mesa. Mas enquanto os estames falsos iludem o polinizador, alguns dos estames verdadeiros mantêm-se inclinados sobre o ápice do ovário, expondo as anteras de pólen mas cobrindo o estigma (veja-se esse pormenor aqui). Só quando o último estame murcha é que o estigma está integralmente exposto.

Esta estratégia ajuda a evitar a auto-polinização mas, como se refere neste artigo, há o risco de o polinizador não transportar o pólen no local do corpo que vai contactar com o estigma da outra flor. Segundo os autores, o género Parnassia parece ter resolvido este problema: os estames verdadeiros amadurecem e movem-se coordenadamente, separando-se do ovário em sequência. Este processo faz com que, em cada dia, os estames com o pólen fresquinho estejam sobre o estigma (logo o polinizador recolhe o pólen nessa posição, que é a de um estigma receptivo, e que manterá noutras visitas), mas depois de maduros se afastem dessa posição central, permitindo que o estigma seja polinizado.

04/10/2020

Angélica galega


Angelica pachycarpa Lange


É de alguma injustiça que, no comércio hortícola internacional, esta planta seja conhecida como Portuguese Angelica. Um nome muito mais apropriado, e neutro quanto à nacionalidade, é Shiny Angelica - o brilho lustroso das suas folhas é notório nas fotos aí em cima. E por que não deve a Angelica pachycarpa ser vendida como portuguesa? Acontece que esta endémica do noroeste peninsular, típica de falésias costeiras, é muito mais frequente na Galiza do que em Portugal, onde só ocorre ao largo de Peniche, nas Berlengas. Tratando-se de uma planta bienal (as folhas brotam num ano e a planta floresce no ano seguinte, morrendo após a dispersão dos frutos), o número de exemplares na natureza pode oscilar de ano para ano, mas calcula-se que nas Berlengas elas nunca ultrapassem as duas centenas. Conhecendo a sua abundância em certos pontos da costa galega (cabo Silleiro, por exemplo), temos que admitir que as angélicas (verdadeiramente) portuguesas são uma pequeníssima minoria dentro da população global da planta. E, como nunca fomos às Berlengas e apenas a vimos na Galiza, é angélica galega que gostamos de lhe chamar.

Se a Angelica pachycarpa aparece, e com frequência, entre Baiona e A Guarda, ali mesmo junto à foz do Minho, por que não dá ela o salto para terras de Caminha ou Viana? Acontece que já deu, mas da incursão resultou apenas uma população escassa e efémera. Em 1999, Henrique Nepomuceno Alves encontrou menos de uma dezena de plantas nas dunas atlânticas de Caminha, junto à mata do Camarido, e o encontro repetiu-se em várias ocasiões até 2009, mas depois disso ninguém mais logrou avistar a Angelica pachycarpa na costa norte de Portugal. Talvez alguma intervenção destrutiva nas dunas tenha apressado o desaparecimento, mas a verdade é que a ecologia estava errada: a Angelica pachycarpa não é uma planta de dunas; não está equipada para lidar com a instabilidade do solo arenoso, e precisa da dureza da rocha para se firmar. No litoral minhoto, as altas falésias em que a Angelica pachycarpa poderia ser feliz, e que são tão frequentes na costa galega, estão quase totalmente ausentes, assinalando-se o promontório de Montedor como única excepção de monta. (Esta lembrança de que as linhas costeiras do Minho e da Galiza têm fisionomias muito contrastantes é o nosso contributo para incentivar o intercâmbio turístico entre as duas regiões.)

Embora de porte modesto para o seu género (menos de 1 m de altura), a Angelica pachycarpa tem um aspecto muito robusto, com grandes folhas semi-suculentas e caules sólidos e ramificados. O epíteto pachycarpa significa frutos grossos, referindo-se à espessura da membrana que os envolve. No aspecto geral, e mesmo em alguns detalhes morfológicos, a Angelica pachycarpa é uma versão reduzida da magnífica Angelica lignescens açoriana. Mas aqui talvez a ordem dos factores esteja trocada: não sendo improvável que a planta insular descenda directamente da planta continental (estudo que, tanto quanto sabemos, está por fazer), é mais correcto dizer que a A. lignescens é uma versão aumentada da A. pachycarpa.

Nota. Atendendo ao magro contingente da espécie em território nacional, e ao seu presumível desaparecimento da costa minhota, a Lista Vermelha da Flora de Portugal atribuiu à A. pachycarpa o estatuto de "em perigo".

27/09/2020

Charcos, colheres e cardos


As plantas do género Eryngium são umbelíferas bastante invulgares, e não apenas por terem folhagem e inflorescências espinhosas. A maioria prefere sítios secos, em clareiras com solo pedregoso ou arenoso. Umas poucas, porém, colonizam charcos temporários, dos que se enchem no Inverno mas quase esvaziam no Verão provocando grande aflição em rãs e libelinhas. São espécies raras em Portugal pois temos sido bastante descuidados com este tipo de habitat.

Em solos de natureza assim híbrida, as plantas precisam de se proteger dos efeitos menos benéficos do excesso de água durante quase todo o ano, para depois se preocuparem com a falta dela no tempo muito quente. É o caso das plantas da espécie E. corniculatum, que vimos em Miranda do Douro e de que há outros núcleos dispersos mais a sul do país. São herbáceas erectas, com cerca de 50 cm de altura, que vivem em duas fases: na época das chuvas, as folhas, que parecem colheres mergulhadas em pé num lago, são ocas e caducas; as superiores tornam-se rígidas, dentadas e espinhosas quando o charco começa a secar. No arranjo destes apêndices, sobram uma ou várias brácteas longas a encimar as inflorescências, os tais chifres a que alude o epíteto específico.



Eryngium corniculatum Lam.



Há registo desta espécie em Espanha, Sardenha e Marrocos (aqui constando da lista de espécies protegidas), quase sempre em populações pequenas e em ambientes sujeitos a vários perigos, um risco acrescido para plantas anuais ou bienais como estas. Antes de fechar esta página, atente na disposição densa das flores. Por entre as brácteas a rodear cada capítulo e as bractéolas a envolver cada flor, notam-se pétalas em tons de azul bastante recurvadas a proteger os estames, e sépalas de margens membranáceas. No sul, chamam-lhes cardos-de-bicos-azuis.