18/04/2021

Flor do Arlequim



Santa Maria é a ilha de duas cores: amarela a metade ocidental, sobrando para a outra metade o verde que é marca registada do arquipélago. É essa a imagem mais forte que, ainda o avião não aterrou, fica na retina dos turistas que acorrem à ilha nos meses do Verão. Quando em outros anos a visitámos em Maio ou Junho essa dupla personalidade era evidente, mas desta vez, visitando-a no final de Março após semanas de chuva copiosa, o verde era a única cor autorizada, com as vacas pastando gordas e felizes entre as ervas tenras. Contudo, se a cor não marca a diferença, já o relevo não depende da sazonalidade: em volta do aeroporto e da Vila do Porto, e até que a terra se empina anunciando o Pico Alto, desenrola-se uma área plana pontuada por habitações baixas e esparso arvoredo exótico. É aqui que se situa o bairro do aeroporto: casas amplas e brancas servidas por ruas rectilíneas, despojos dos tempos gloriosas de uma ilha que recebeu, ainda durante a 2.ª Guerra Mundial, a primeira base militar americana no Atlântico. Já sem militares, o tempo das vacas gordas prolongou-se até meados dos anos 70, quando os aviões deixaram de fazer aqui escala e o aeroporto da ilha perdeu quase toda a importância. Dessa época sobrou um cinema (obviamente chamado Cinema do Aeroporto) com capacidade para 800 lugares — o edifício, agora pintado de fresco, acaba de ser recuperado e terá nova vida como centro cultural.

Talvez os terrenos baldios rodeando as casas tenham sido jardins, mas o abandono até os fez mais interessantes. É esta a zona da ilha onde mais aparece a Serapias parviflora, orquídea que, nos Açores, apenas existe nesta ilha e talvez na Terceira. Herbáceas simpáticas como o Centaurium tenuiflorum, Centaurium maritimum, Mentha pulegium e Papaver somniferum são aqui muito frequentes. Nas valas e charcos, e tirando partido de uma capacidade de retenção de água como só existe nesta ilha (muito menos «porosa» do que as demais ilhas do arquipélago), abundam o Alisma lanceolatum e diversas ervas higrófilas. E até plantas exóticas como a Verbena rigida (que pouco se vê nas outras ilhas) parecem aqui ser mais mimosas e menos agressivas.

Sparaxis bulbifera (L.) Ker Gawl.


Sul-africana de origem, a Sparaxis bulbifera, ou flor-do-Arlequim, talvez caiba na categoria das exóticas invasoras que são apenas moderadamente nocivas. Não a havíamos notado em visitas anteriores a Santa Maria porque floresce cedo, entre Março e Abril, mas ela é abundante na metade plana da ilha, ocupando contudo habitats que já pouco têm de natural, como pastagens e terrenos baldios. Convive muito bem com o pastoreio e até é favorecida por essa actividade, já que as vacas, que não lhe apreciam o sabor, eliminam a concorrência e deixam-na tranquila. É uma planta vivaz, com hastes floríferas de 15 a 60 cm de altura renovadas anualmente a partir de bolbos subterrâneos. Além da reprodução normal por semente, e como aliás sugere o epíteto específico, é capaz de multiplicar-se vegetativamente através de bolbilhos formados nas axilas das folhas. As folhas, de 10 a 30 cm de comprimento, têm forma de espada e dispôe-se em leque, à semelhança das folhas de outras iridáceas. O nome comum Harlequin flower, usado por anglo-saxónicos, é aplicado indistintamente às diferentes espécies do género Sparaxis, todas elas endémicas da província do Cabo, na África do Sul, e talvez se ajuste melhor a plantas mais coloridas como a Sparaxis tricolor. Tanto quanto se sabe, nos Açores a S. bulbifera só está naturalizada em Santa Maria e em São Miguel; de resto, emigrou também para as antípodas e naturalizou-se com sucesso na Nova Zelândia e na Austrália.

13/04/2021

Tamujo das ilhas

O arquipélago dos Açores é feito de terra jovem de origem vulcânica. A ilha mais nova é o Pico, com cerca de 40 mil anos, sendo Santa Maria a mais antiga, não tendo, porém, mais do que 14 milhões de anos. Como medida de comparação podemos usar o arquipélago da Madeira, que terá nascido há uns 70 milhões de anos. As ilhas açorianas distam relativamente pouco dos continentes europeu e africano, e as plantas que hoje vegetam nestas ilhas resultaram da colonização de espécies continentais (possivelmente com uma passagem por outras ilhas da Macaronésia), que sobreviveram à viagem, se adaptaram ao solo poroso mas muito fértil, e cujo ciclo de vida se coordenou com o clima atlântico de temperaturas amenas e muita chuva. Passados milhões de anos, algumas das plantas açorianas têm já fraca lembrança dos progenitores, e são hoje espécies autónomas, que não existem em mais nenhum local do mundo. Por exemplo, o Cerastium azoricum, a Myosotis azorica e a Euphrasia azorica só ocorrem nas ilhas mais ocidentais, Flores e Corvo, embora os géneros correspondentes estejam representados na flora continental. Noutras espécies, porém, a herança genética foi mais resistente à erosão do tempo, ou a chegada às ilhas foi mais tardia, ou a colonização foi mais difícil — e as semelhanças morfológicas com as espécies continentais mantêm-se. Por isso, é ainda controverso que essas plantas açorianas constituam espécies distintas.

Myrsine retusa Aiton — flores femininas em cima; masculinas em baixo


É o caso da Myrsine retusa, cuja designação científica não é definitiva, havendo botânicos que preferem considerá-la uma subespécie ou variedade da Myrsine africana. A M. africana ocorre no centro, leste e sul de África e em grande parte da Ásia, preferindo aí locais pedregosos e bem drenados, em ambiente florestal. Uma ecologia, afinal, não muito diferente da açoriana. De qualquer modo, havendo actualmente meios de diferenciação genéticos bastante eficientes, é uma questão de tempo até que algum botânico se disponha a encetar tal estudo, dissipando de uma vez quaisquer dúvidas.

O tamujo tem, todavia, um perfil peculiar entre os cerca de 70 endemismos açorianos conhecidos: para além da Myrsine retusa, só duas espécies adicionais (Smilax azorica e Corema album subsp. azoricum) são dióicas. Supomos que, nesse pormenor, estas espécies tenham estado em desvantagem, pois são precisas plantas dos dois sexos para que a espécie se instale com sucesso num novo habitat.

Da família Primulaceae, o tamujo está presente em todas as ilhas açorianas, aprecia os bosques sombrios e frescos de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), e forma arbustos baixos de folhagem perene muito ramificada, com folhas ovais arredondadas, alternadas, coriáceas e dentadas no ápice. A floração inicia-se no fim de Março, pelo menos na ilha de Santa Maria, onde pudemos finalmente ver este ano as flores: as masculinas com anteras vermelhas muito vistosas; as femininas diminutas (cerca de 2 mm), esbranquiçadas, com sépalas pintalgadas. O fruto é uma baga com uma semente.

Santa Maria: Picconia azorica (à esquerda); Pico Alto (à direita); Monte Gordo (em baixo)

04/04/2021

Dona Genciana revisitada




Portugal, talvez por falta de cadeias montanhosas elevadas, foi muito desfavorecido face a Espanha na partilha de espécies de Gentiana: só temos duas (G. pneumonanthe e G. lutea, esta só na serra da Estrela) e os nossos vizinhos têm 13; se lhes acrescentarmos os géneros aparentados Gentianopsis e Gentianella, o saldo final é de 16-2 a favor de Espanha. Que, com toda esta prodigalidade, ainda pôde assegurar que duas dessas espécies (G. boryi e G. sierrae) fossem exclusivas do seu território.

Os Pirenéus, que visitámos uma única vez, é um local de eleição, mesmo nos meses mais quentes, para quem queira familiarizar-se com a diversidade de gencianas e aparentadas, acolhendo algumas espécies amplamente distribuídas na Europa. Duas delas são hoje aqui apresentadas, e servem de pretexto para averiguar das diferenças entre uma Gentianella e uma genuína Gentiana.

Gentianella campestris (L.) Börner
Na Gentianella campestris (fotos em cima) as flores têm quatro pétalas, o mesmo valendo para a Gentianella amarella, a outra espécie ibérica do género. Poderá ser esta uma característica diferenciadora? Parece que não. É que, embora a maioria das espécies de Gentiana tenha cinco pétalas, há pelo menos uma excepção, a Gentiana cruciata, que apresentamos abaixo. Outra possível divergência estaria no ciclo de vida: as duas espécies ibéricas de Gentianella são bienais, enquanto quase todas as de Gentiana são perenes. Mais uma vez uma excepção vem boicotar a teoria: a Gentiana nivalis, especialista em alta montanha, é uma planta anual.

Uma diferença promissora é que, na Gentianella, os lóbulos da corola (é algo incorrecto falar em «pétalas» quando elas não estão claramente autonomizadas) têm a base fimbriada, formando uma franja na abertura do tubo floral. Essa franja está ausente de todas as espécies de Gentiana, mas surge também, e de modo ainda mais visível, na Gentianopsis ciliata, uma falsa genciana em que todo o bordo da corola está guarnecido de cílios. Assim, quando o leitor, nas suas andanças pós-pandémicas pelas montanhas europeias, deparar com uma planta que lhe pareça ser uma Gentiana mas apresente flores mais ou menos franjadas (não se esqueça da lupa, tão indispensável ao seu kit de sobrevivência como o aparelho de gps, a garrafa de água e o bastão de caminhada), já poderá declarar confiante que se trata afinal de uma Gentianella ou Gentianopsis (ou simplesmente Gentianella, pois a opinião mais recente é que os dois géneros são um só).

Gentiana cruciata L.


Para terminar, uma palavra de apreço pela Gentiana cruciata, uma planta de prados de montanha e clareiras de bosques em altitudes não demasiado elevadas (até 2000 m), com preferência por substratos calcários. As flores tubulares azuis, mais ou menos pigmentadas na garganta, são traços de família que saltam à vista. No entanto, as folhas grandes e os caules robustos, e a disposição das flores em verticilos axilares (ver 1.ª foto), diferenciam-na claramente de outras gencianas azuis de flores semelhantes (como a G. pneumonanthe e a G. angustifolia). Dir-se-ia que a G. cruciata se situa na transição entre esse grupo de espécies, formado por herbáceas tendencialmente rasteiras, e as avantajadas G. lutea e G. burseri.

28/03/2021

Explicação da flor

Confinados na cidade, temos escrutinado os recantos dos jardins à porta de casa com um desvelo que poderá ser considerado imoderado mas tem efeito terapêutico. Por sorte, em alguns destes espaços finalmente reabertos resistem árvores antigas ainda saudáveis e de porte elegante. Depois dos meses de frio, estão quase todas com a copa ampla a reformosear-se, espreguiçando ramos longos e tortuosos, recheados de folhas viçosas e pequeninas da cor da alface. E os carvalhos estão em flor. Foi ao olharmos com vagar os amentilhos amarelados (espigas de flores masculinas) a pender das axilas das folhas de exemplares de Q. robur que nos apercebemos, não sem um certo embaraço, que afinal nunca tínhamos reparado nos detalhes das flores femininas dos carvalhos. Como desculpa, apenas o facto de elas serem minúsculas (menos de 2 milímetros de diâmetro), de nascerem ao mesmo tempo que as folhas novas, e de surgirem no ápice de uma haste fininha que se perde de vista entre a folhagem e os bugalhos.

Quercus robur L.


O Q. robur, espécie monóica e de folhagem caduca, aprecia o nosso clima atlântico e dá-se especialmente bem em locais frescos com humidade (como o Minho) e solos ricos em substratos ácidos (frequentes no noroeste de Portugal). Se por perto houver gaios, que dizem ser os melhores dispersores das bolotas, então não será surpresa que por ali nasça um bosque frondoso, com uma biodiversidade invejável. Estas são árvores de vida longa, que podem aguardar 40 ou 50 anos antes da primeira floração. Em cada flor feminina, notam-se (mais ou menos) bem os 3 estigmas e o invólucro escamoso e imbricado de cor avermelhada que, conjecturamos (e, tão logo seja possível, confirmaremos), formará o chapéu da bolota.



O autor do género Quercus é Joseph P. Tournefort, mas a nomenclatura é legalmente atribuída a Lineu uma vez que foi ele quem estabeleceu o uso de dois nomes (género e espécie) para se identificarem e distinguirem as plantas. O epíteto específico, robur, quer dizer robusto, de boa consistência, aludindo à qualidade invulgar da madeira destes carvalhos. Se o leitor quiser distinguir o Q. robur das outras espécies de Quercus (o que conseguirá sem esforço pela morfologia das folhas), encontra aqui fotos nítidas de (quase) todos os carvalhos que ocorrem por cá.

21/03/2021

Pequenos corações de areia



Isto de coleccionar ilhas para alimentar memórias em tempos de mobilidade reduzida tem o perigo de nos ufanarmos em conhecedores, prodigalizando conselhos que ninguém pediu avalizados por um saber de curta experiência feito. Já visitámos três (ou quatro, se contarmos com La Graciosa) das sete (ou oito) ilhas habitadas das Canárias; e, se as autoridades que nos pastoreiam nada fizerem para o impedir, juntaremos proximamente uma quarta (ou quinta) ilha ao nosso currículo viageiro. Poderíamos hierarquizar, apontar lugares imperdíveis, desvendar segredos mal guardados. Como se em cada ilha visitada tivéssemos visto e experimentado tudo (pelo menos tudo o que fosse digno da nossa atenção), e tudo tivéssemos aferido com infalível discernimento.

Há ilhas a que vamos voltar, a outras talvez não, mas essas escolhas dizem mais sobre nós do que sobre essas ilhas. Cada ilha tem o direito de se apresentar a cada novo visitante com todas as armas de sedução de que dispõe. Há artifícios de que nem desconfiamos, apontados para sensibilidades sintonizadas noutros comprimentos de onda, e não nos cabe desencorajar possíveis namoros felizes.

A Tenerife e a Lanzarote voltaremos sempre que possível. Com a Grã-Canária houve um desencontro qualquer, uma desafinidade talvez evitável se a visita tivesse sido em época do ano mais propícia. Não foram as marcas do turismo massificado que nos desencantaram, pois essas são igualmente visíveis nas duas ilhas a que nos afeiçoámos. A aridez da paisagem também não nos repeliu, pois ela é ainda mais marcada em Lanzarote, onde não existem os barrancos verdejantes nem os pinhais de altitude que são, na Grã-Canária, refúgios seguros de frescura. Mas para nós o mar de Lanzarote é mais acolhedor que o da Grã-Canária, e os mesmos restaurantes étnicos para engodo de turistas são menos ofensivos numa promenade de pechisbeque em Lanzarote do que em lugar semelhante na Grã-Canária. Mesmo os endemismos botânicos de Lanzarote, em muito menor número que os da Grã-Canária, se fizeram mais bonitos aos nossos olhos.

Lotus arinagensis Bramwell


Um dos poucos endemismos da Grã-Canária que floriam em Dezembro (e essa escassez ajuda a explicar o nosso desapontamento) era uma leguminosa rastejante, de flores amarelas e folhas pequenas, carnudas e acetinadas. Tratava-se do Lotus arinagensis, endemismo do sudoeste da Grã-Canária que vive nos arredores de Arinaga, povoação costeira de que tomou o nome. Corazoncillo é como chamam nas Canárias às espécies de Lotus de hábito prostrado e flores amarelas. Entre espécies endémicas e outras de distribuição mais ampla (como o Lotus creticus), as Canárias têm mais de uma dezena destes pequenos corações rasteiros. As diferenças entre as várias espécies são às vezes pequenos detalhes nem sempre bem vincados, mas a área de distribuição ajuda a tirar dúvidas. O L. arinagensis, além de ter um aspecto distintivo, aperece apenas numa zona muito restrita da Grã-Canária.

Por falta de praias amplas, a cidadezinha de Arinaga não foi tomada de assalto por empreendimentos turísticos como aqueles que abundam em Maspalomas, no extremo sul da ilha. Parece assim suficientemente a salvo o habitat do Lotus arinagensis e de outros raros endemismos que colonizam esta paisagem desértica. Se para aqui se virassem apetites imobiliários vorazes, não seria um coraçãozinho da areia a fazer-lhes frente.

15/03/2021

Erva magra

Estamos em 2009, e nos jornais britânicos lê-se uma notícia inusitada. Em Gloucestershire, alguém teria dado conta de uma planta pequenina de flores cor-de-rosa junto aos edifícios de um condomínio de luxo e, não a conseguindo identificar, entendeu por bem informar-se, não fosse dar-se o caso de ser uma espécie rara; depois de identificada e atestada a sua importância, os proprietários do local decidiram proteger a planta, garantindo desse modo que as sementes não se perderiam e formariam uma colónia sob a sua vigilância. Tudo isto parece inventado, não? Nós estamos habituados a outra realidade: à construção em áreas protegidas em prol do «interesse nacional», ao encolher de ombros face a recomendações de estudos de impacto ambiental, ao uso intensivo dos solos sem consideração pelo equilíbrio dos habitats, à sistemática falta de verbas para programas de conservação urgentes. Três anos depois, a BBC News dava conta da ocorrência de vários núcleos desta planta no sudeste de Inglaterra, admitindo-se que as suas populações estariam a recuperar com as medidas de prospecção e protecção em curso.

Galeopsis angustifolia Ehrh. ex Hoffm.


A tal planta afortunada, red hemp-nettle em inglês, pertence ao género Galeopsis: é a espécie Galeopsis angustifolia. No Reino Unido tem a companhia de mais duas espécies nativas, a G. speciosa, que cresce nas margens mais ou menos turfosas de parcelas cultivadas, e a G. tetrahit, que também ocorre em Portugal, aprecia a sombra e a frescura das orlas de bosques, e conhecemos da serra do Gerês e das terras de Barroso.

A Galeopsis-de-folhas-estreitas, que vimos em Peña Oroel e em Ordesa, nos Pirenéus, é uma herbácea frágil com folhas dentadas, talos pubescentes, e flores de tubos alongados. Ao contrário das espécies anteriores, adaptou-se a locais abertos com solo cascalhento, em zonas montanhosas ou costeiras, preferindo substratos calcários. Contudo, a floração é essencialmente outonal, e em terrenos cultivados tende a ser destruída sem formar sementes, ou a desaparecer sob o efeito de fertilizantes ou herbicidas. Este, sim, é um retrato da natureza em perigo que reconhecemos.

07/03/2021

Cominhos & descaminhos



Vivemos tempos estranhos, em que passear numa praia, numa montanha ou nas margens de um rio se tornou incomparavelmente mais subversivo do que fazê-lo nas ruas de uma cidade. O usufruto da natureza, hoje muito mais do que na época de Thoreau, é um acto de rebeldia, o início de um caminho sem retorno que conduz à desobediência civil e à anarquia. Quem não acate as ordens do pastor não pode esperar complacência do resto de rebanho.

Falta-nos estofo de heróis ou vocação para mártires; e, se passámos à clandestinidade (apenas em certos dias da semana), não vamos apregoar ao mundo o nosso paradeiro. O que por agora aqui mostramos são sobras de tempos mais felizes; a história dos dias que correm só mais tarde a contaremos.

Na foto vemos a barragem de Bemposta, no Douro internacional. Nas margens agora inacessíveis do rio prepara-se uma Primavera exuberante que estamos proibidos de admirar, já que dessa contemplação não essencial não adviria qualquer proveito económico para nós ou para o país. Em princípios de Maio, no Douro, o melhor da Primavera já ficou para trás, e os meses de Verão são um suplício, com o colorido das plantas a soçobrar à estiagem impiedosa. No entanto, há plantas que esperam pelos dias mais quentes para florir, entre elas numerosas umbelíferas. É por entre a vegetação seca, nas tardes em brasa a que as cigarras fornecem a banda sonora, que despontam as vistosas inflorescências da Margotia gummifera. Trata-se de uma planta ibero-magrebina que no nosso país ocorre de norte a sul, mas que no norte aparece apenas longe do mar, acompanhando o vale do Douro, e no centro e sul tem uma distribuição marcadamente costeira, vegetando até em dunas marítimas.

Margotia gummifera (Desf.) Lange


Destacando-se pelo tamanho (até 1,8 m de altura), pela brancura das flores e pela arquitectura das suas amplas umbelas, a Margotia gummifera também recompensa quem dela se abeire com o olfacto apurado. O seu perfume, segundo alguns, faz lembrar o dos cominhos, outros detectam-lhe um travo a resina, mas seria peculiar o nariz que se declarasse ofendido com o encontro. No entanto, há quem defenda que o nome comum da planta no nosso país seria bruco-fétido, o que — sabendo nós que a planta já se chamou Elaeoselinum gummiferum — só se explica pela confusão com o Elaeoselinum foetidum, uma umbelífera de folhagem semelhante mas de flores amarelas que terá um cheiro menos agradável.

A Margotia gummifera chega a ser abundante na faixa litoral a sul do Tejo; e, embora não se lhe conheçam usos na medicina tradicional, um estudo de 2013 assinado por um grupo de cientistas da Universidade de Coimbra aponta para potenciais usos farmacológicos dos seus óleos essencias, em especial pela sua acção anti-inflamatória.

01/03/2021

Minhonete arbórea

A família Resedaceae, com cerca de uma centena de géneros, conta na Península Ibérica com representantes de apenas dois, Reseda e Sesamoides, de morfologia muito semelhante. A diferenciação delas é tópico talvez desinteressante, e insistir no tema é decerto sintoma de confinamento excessivo. Enfim, com todo este vagar a que nos obrigam, quem sabe se não nos divertiremos com o assunto.


As espécies destes géneros (anuais, bienais ou perenes) dão flores pequeninas (cerca de 5mm de diâmetro), por vezes perfumadas, coladas ao talo mas agrupadas em espigas muito vistosas. As (4 a 6) pétalas brancas (ou amarelas ou esverdeadas), em geral franjadas, contrastam com o centro de estames alaranjados, de anteras encarnadas. No género Sesamoides, porém, os numerosos estames (a componente masculina da flor) costumam formar um anel que rodeia os carpelos (a parte feminina), como se pode ver aqui. E, portanto, se a planta estiver em flor, temos modo de reconhecer o género. A boa notícia é esta: a forma do fruto é outro pormenor que permite distinguir sem dúvidas os dois géneros. O fruto das espécies de Reseda é uma cápsula lisa, oca, com uma abertura no topo e recheada de sementes, lembrando uma campânula; o do género Sesamoides parece uma luva, cujos dedos gordinhos contêm as sementes.  

As espécies ibéricas são herbáceas, ainda que algumas superem 1 metro de altura. Pelo contrário, a Reseda scoparia, endemismo de algumas das ilhas do arquipélago das Canárias, é um arbusto. Com ar de vassoura, segue à letra o figurino que descrevemos acima para as flores e os frutos.

Reseda scoparia Brouss. ex Willd.
Os exemplares das fotos são do Barranco del Infierno, em Tenerife. Ali a entrada é paga, a temperatura muito elevada e a visita controlada por guardas de apito e binóculos (e, um ou outro, de guarda-sol). Em Maio, a cascata e o lago no interior do barranco tinham alguma água fresca, mas só era permitido permanecer no local uns escassos minutos. Com a demora inerente à obrigatória sessão fotográfica, tivemos desculpa para ficar por lá algum tempo mais.

Barranco del Infierno, Tenerife

20/02/2021

Passaporte falsificado



Argyranthemum maderense (D. Don) Humphries



Quem por estes dias chegar a Inglaterra vindo de Portugal, declarando falsamente ter estado apenas em Espanha, comete um crime punível com dez anos de prisão. Não sabemos se a pena é só para pessoas ou se também abrange plantas e animais de companhia. Vem a propósito recordar um episódio histórico de falsificação de passaporte, mas em sentido contrário, envolvendo um malmequer arbustivo de comprovado mérito ornamental que, na década de 1830, se instalou no Chelsea Physic Garden fazendo-se passar por madeirense quando na verdade era originário da ilha de Lanzarote, nas Canárias. O botânico e bibliotecário David Don, que em 1836 primeiro descreveu a espécie baseando-se nos exemplares cultivados nesse jardim botânico londrino, confiou nos documentos com que a planta certificava a sua espúria nacionalidade. Eis o que na sua boa-fé escreveu David Don no tomo VII (de 1836) de The British Flower Garden: “Só recentemente esta elegante espécie arbustiva foi adicionada à nossa colecção pelo Sr. Webb, da Madeira. Parece diferenciar-se distintamente das várias espécies arbustivas nativas das Canárias (...) que se enquadram, sem dúvida, no mesmo género.” Como todas as outras plantas apresentadas nessa obra, a descrição da então chamada Ismelia maderensis era acompanhada por uma ilustração primorosa, muito melhor do que as fotos hoje em dia usadas em livros de divulgação botânica.

O Sr. Webb a que se refere David Don era Philip Parker-Webb (1793–1854), co-autor, com o francês Sabin Berthelot, da monumental Histoire Naturelle des Îles Canaries, publicada em 9 volumes entre 1836 e 1850. Webb viveu vários anos nas Canárias — e, se não é impossível ter visitado a Madeira, é certo que não se lhe conhecem quaisquer estudos sobre a flora dessa ilha. A fama, nesses tempos, circulava devagar e demorava a estabelecer-se, e é perfeitamente desculpável que David Don ignorasse que Webb, cuja obra maior ainda estava por vir, residia nas Canárias e não na Madeira, onde afinal eram muitos os britânicos expatriados.

O nome genérico Ismelia, que lembra o Ismael bíblico e foi depois preterido por Argyranthemum, é motivo de alguma curiosidade. O autor do nome, o francês Henri Cassini (1781-1832), absteve-se de lhe explicar o significado aquando da sua publicação, datada de 1826. Talvez o tenha usado apenas porque lhe soou bem, o que é uma razão tão válida como outra qualquer. E é pena que as regras da taxonomia botânica tenham excluído esses malmequeres das ilhas do género Ismelia. Se assim não tivesse sucedido, talvez na Madeira e nas Canárias se falasse hoje de ismélias em vez de estreleiras ou margaritas. O género Ismelia não foi varrido dos anais da botânica, mas ficou reduzido à única espécie descrita por Cassini, a marroquina Ismelia versicolor.

Quanto ao equivocamente chamado Argyranthemum maderense, impõe-se reconhecer que este endemismo de Lanzarote — um arbusto de não mais que 70 cm de altura, florescendo entre Janeiro e Maio, com capítulos de um bonito amarelo sulfuroso — é talvez o mais atraente de um género formado quase todo ele por plantas de decidida vocação ornamental. Não é só a cor das flores (quase todos os outros Argyranthemum as têm brancas), mas também a sua abundância e o seu contraste com a folhagem glauca e luzidia. Porém, mais do que vê-lo em jardins, é emocionante encontrá-lo no seu habitat natural, que são os montes e crateras comparativamente frescos do norte de Lanzarote, em especial aqueles que formam o maciço de Famara.