Que importa a cor da pedra?
Tanto em plantas como em animais, o isolamento reprodutivo conduz quase sempre ao surgimento de novas espécies, num processo que pode durar centenas de milhares de anos; e, ao contrário do que se possa supor, não é só nas ilhas oceânicas que tem lugar esse tipo de especiação. As montanhas que se destacam da envolvente, tanto pela orografia como pelo carácter geológico, podem funcionar como verdadeiras ilhas biológicas, dando abrigo a espécies que só têm condições de sobrevivência em nichos que cumpram certos requisitos. Caso de particular interesse é o do género Saxifraga: das 58 espécies assinaladas na Península Ibérica, muitas são aquelas confinadas a uma só montanha ou cadeia montanhosa, não sendo apenas a altitude, mas também o substrato em que vivem, a restringir a sua disseminação. Ainda que a palavra Saxifraga sugira que essas plantas são capazes de partir pedra, talvez a escolha do nome se deva mais a supostas virtudes medicinais (elas ajudariam a desfazer pedras nos rins) do que àquilo a que hoje chamaríamos capacidade fracturante. É indiscutível que a maioria das saxífragas cresce em fendas de rochas, mas presume-se que aproveite fendas já existentes em vez de desbastar a pedra com picareta e martelo. Contudo, não é qualquer pedra que serve, e a cor é importante. Cada uma das três saxífragas que hoje apresentamos tem preferência exclusiva por rochas de determinada coloração; vermelho, castanho e branco são as cores eleitas.


Situada na província de Málaga, na Andaluzia, a Sierra Bermeja tem um nome justo: a vegetação esparsa que a reveste apenas realça, pelo contraste, o vermelho omnipresente das rochas. São rochas ultrabásicas ricas em ferro que, tendo assomado à superfície em remotas eras geológicas, ganharam a tonalidade vermelha em resultado da oxidação. Com cerca de 300 km2 de área, esta serra é o maior afloramento desse tipo de rocha em toda a superfície terrestre. As plantas que aqui evoluíram foram obrigadas a desenvolver adaptações únicas, potenciando o surgimento de um expressivo número de endemismos botânicos. Entre eles conta-se a Saxifraga gemmulosa, descrita pelo suíço Pierre Edmond Boissier na mesma publicação de 1838 em que deu a conhecer ao mundo o abeto-espanhol (Abies pinsapo). É uma planta glandulosa que forma coxins ralos de 2 a 8 cm de diâmetro, com folhas tripartidas longamente pecioladas e hastes florais de 12 a 20 cm de altura. Nos cumes da serra, entre os 1000 e 1500 metros de altitude, floresce sobretudo entre Maio e Junho, mas a altitudes inferiores (vimo-la a uns 750 metros de altitude, nos alvores de Abril) a floração é mais temporã.

Mantendo-nos no sul de Espanha, passamos do vermelho ao castanho, e do ultrabásico ao xisto. A mistura geológica que compõe a serra Nevada é formada sobretudo por calcários e xistos, e nas partes mais altas é o xisto que domina. Os substratos xistosos não costumam acolher tão grande diversidade de plantas como os calcários, mas os xistos da serra Nevada são um caso à parte, pois é neles que se refugia grande parte dos endemismos que fazem dessa cumeada uma Meca para os aficionados da botânica. A Saxifraga nevadensis, descrita também por Boissier mas apenas em 1856, vive desde os 2100 metros de altitude até às zonas cimeiras da serra. Nós próprios a vimos, ainda em flor num mês de Julho, a uns 3200 de altitude. É uma planta hirsuta, formando rosetas basais que se dispõem em aglomerados compactos, com folhas tripartidas, de pecíolos curtos quase tão largos como a lâmina foliar. Embora não seja difícil de encontrar, a sua reduzida área de distribuição e as suas populações geralmente pequenas outorgaram-lhe o estatuto de Quase Ameaçada à luz dos critérios da IUCN.


É tempo de irmos ao branco, e para isso rumamos setecentos quilómetros a norte ao encontro dos calcários dos Picos da Europa, na Cantábria, onde vive a Saxifraga canaliculata. Em Julho a floração estava praticamente concluída, razão por que não vimos a planta no seu melhor momento. Ainda assim, pudemos confirmar as diferenças relativamente à sua quase sósia S. trifurcata, também ela endémica da Cordilheira Cantábrica. As folhas e os pormenores das flores pouco ajudam a distinguir as duas espécies, mas as inflorescências da S. canaliculata são mais densas, com maior número de flores, e — detalhe crucial — são terminais (i.e., brotam do centro das rosetas, como se vê nas fotos acima), enquanto que as da S. trifurcata são axilares (i.e., brotam lateralmente das rosetas). Quem quiser, sem grandes canseiras, ver a Saxifraga canaliculata em flor deve visitar os Picos da Europa no início de Junho e tomar o teleférico de Fuente Dé. Trinta euros de ida e volta por adulto não é barato, mas a observação das flores da nossa saxígrafa (e das muitas outras plantas que por lá aparecem) está incluída no preço do bilhete, mesmo para quem não se disponha a caminhar mais do que cem ou duzentos metros.







































