28/11/2021

Hibisco dos arrozais

O rio Pranto mostra, perto da foz, a placidez de um resignado. É um dos últimos afluentes do Mondego e, em Alqueidão, junto à Figueira da Foz, entrega a água com vagar, recriando um pântano gigantesco que por vezes engorda até verter. É um pasto de mosquitos multi-variantes, mas também um refúgio de garças, corvos e flamingos. Desse pachorrento caudal aproveitam os extensos arrozais do Baixo Mondego, num amanhar intensivo da terra que lamentavelmente não dispensa o uso de químicos nem o de máquinas ruidosas para guiar a água. Mas é precisamente na proximidade destes arrozais, em bermas de caminhos margosos ou nas margens de canaviais que juraríamos impróprios para quem aprecia estar vivo, que está a única população portuguesa conhecida deste fantástico arbusto.

Hibiscus-palustris L.


Quando vimos estas plantas no início de Junho, não estavam ainda em flor e a folhagem tinha um aspecto desolador. As folhas, esbranquiçadas na face inferior e com um hábito pendente, pareciam prontas a desabar. Mas um mês depois, como se salvas, exibiam lindas flores solitárias, de enormes pétalas rosadas com uma mancha branca (ou púrpura) na base e um duplo cálice a protegê-las.

Criticamente em perigo, diz o Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal. Não nos surpreende: apesar de ser uma espécie perene, o núcleo conhecido tem cerca de 150 indivíduos e está em declínio, ameaçado pela expansão do regadio, pela limpeza descuidada da vegetação e pela degradação do habitat.

Na Península Ibérica, o Hibiscus palustris tem uma distribuição restrita à Cantábria e à população portuguesa na Beira Litoral. Talvez esta se extinga se avançar o projeto de regadio no vale do Pranto. Que os decisores, frequentemente sem memória útil, não digam mais tarde que não foram avisados deste risco.

22/11/2021

O outro gerânio da Madeira

Geranium palmatum Cav.


O gerânio-da-Madeira (Geranium maderense), talvez o mais famoso embaixador da flora madeirense, conquistou lugar de honra em jardins de clima temperado por todo o mundo com a sua impressionante floração rosada em forma de cogumelo gigante. Contudo, mesmo na Madeira é muito mais fácil encontrá-lo em jardins do que em habitat natural. Se ainda existirem na Madeira populações espontâneas deste gerânio, elas estão bem escondidas, e os exemplares que ocasionalmente se vêem em levadas ou junto a casas florestais são em geral cultivados. Assim, e porque o nosso código de conduta nos impõe cingirmo-nos àquilo que a natureza de sua livre vontade nos dá a contemplar, viramo-nos para outro gerânio de porte respeitável, também ele endémico da Madeira.

Não podemos dizer, sem arriscar a credibilidade, que o Geranium palmatum é tão vistoso e atraente como o G. maderense, mas a verdade é que no mundo inteiro não há outro gerânio que não saísse desfavorecido da comparação. E o G. palmatum, além de ser digno representante do seu género, ainda nos oferece pistas sobre a linhagem de gerânios que colonizou a Madeira e as Canárias. Os gerânios endémicos dessas ilhas (três espécies na Madeira e uma nas Canárias) têm entre si óbvios laços de parentesco, parecendo descender, todos eles, do Geranium robertianum (erva-de-São-Roberto) ou do G. purpureum, duas herbáces anuais comuns na Europa (e em Portugal) que se julga serem também nativas das ilhas atlânticas. Assim, tendo aportado às ilhas por sementes vindas do continente, as plantas colonizadoras terão aí evoluído para novas espécies, mas sem deixarem de manter redutos populacionais com características morfológicas e genéticas idênticas às das plantas pioneiras. Uma hipótese que mais facilmente explica este comportamento dúplice é que tenha havido hibridação entre o G. robertianum (ou o G. purpureum) e outras espécies entretanto já desaparecidas das ilhas.

Ainda que exiba folhagem com recorte semelhante à do G. robertianum, o G. palmatum é uma planta de muito maior envergadura que chega a formar um curto caule lenhoso, e tanto as suas folhas como as suas flores são consideravelmente maiores do que as do seu congénere. A coloração das flores é também distinta: as do G. palmatum são uniformemente rosadas (ou púrpuras), enquanto que no G. robertianum a base das pétalas é esbranquiçada (foto aqui). A mesma diferença pode ser apontada entre o G. palmatum e o G. reuteri, endémico das canárias, distinguindo-se ainda este último pelos estames muito mais compridos e salientes. De resto, os dois gerânios insulares assemelham-se a tal ponto, tanto no aspecto geral como nas preferências ecológicas (ambos buscam lugares umbrosos e frescos), que fazem figura de um par de gémeos. O que, atendendo à provável progenitura de ambos, não anda longe da verdade.

16/11/2021

Uma planta modelo

As plantas anuais germinam, crescem e florescem num período curto, que pode ser mais breve do que um ano (em alguns casos não excede um mês). Quase toda a energia da planta é dirigida para a floração e a frutificação; uma vez atingido o objectivo de produzir sementes, a planta morre. Esta estratégia de sobrevivência depende demasiado da sorte mas, dada a enorme quantidade de sementes produzidas anualmente, há realmente chance de algumas gerarem novas plantas.

As plantas perenes levam uma vida mais calma, e apostam numa estratégia distinta. Nos primeiros anos, muitas delas apenas produzem folhagem e raízes, investindo todo o esforço numa estrutura robusta, lenhosa ou muito ramificada. Se conseguirem sobreviver aos primeiros invernos e estiagens, então aprenderam o essencial para arriscarem florir e frutificar. E, depois de uma juventude completamente improdutiva, podem durar nesta rotina centenas de anos.

Em 2008, descobriu-se que a activação de apenas dois genes na espécie Arabidospis thaliana pode convertê-la a um regime perene, e vice-versa. Mas que vantagens há numa vida breve? Por que razão nem sempre é melhor ser-se árvore?

Arabis alpina subsp. caucasica (Willd.) Briq.


A resposta parece estar na maior ou menor capacidade de uma espécie se adaptar a um habitat. A vida num clima mais quente e seco, num solo mais pobre, ou num ambiente tropical tempestuoso, pode beneficiar as espécies que florescem mais cedo, antes das demais espécies, reduzindo a competição por nutrientes ou luz -- ainda que, com esse estilo apressado, a sua esperança de vida se reduza drasticamente. E há sempre trunfos na manga: algumas plantas anuais mantêm activa a auto-fertilização, como um último recurso, outras escondem no solo um banco de sementes com várias idades, com que mitigam o impacto de flutuações no clima ou de mudanças aleatórias no habitat.



Vem isto a propósito da espécie perene Arabis alpina, que há uns milhões de anos colonizou as montanhas mais elevadas da Madeira. É comum vê-la nas paredes das levadas, em ravinas e nos picos mais altos. Dela descendem inúmeras outras espécies europeias de Arabis, com uma distribuição muito ampla, várias delas anuais. São espécies vencedoras, com tempos de germinação curtos, ciclos de vida muito flexíveis, respostas bem sucedidas à selecção natural e uma diversidade genética invulgar. Mas cuja existência dependeu do potencial de sobrevivência da espécie ancestral perene. Por este andar, é bastante provável que a evolução das plantas as leve a um controlo perfeito da longevidade.

08/11/2021

Cárice na sombra

Carex lowei Bech.


Descrita originalmente em 1939 sob o nome de Carex lowei, e dedicada ao reverendo Richard Thomas Lowe, que viveu de 1802 a 1874 e foi autor de A Manual Flora of Madeira, esta cárice endémica é moradora dos vales húmidos e sombrios do norte da ilha da Madeira. É uma planta rizomatosa de porte considerável, com hastes que podem atingir metro e meio de altura, e que exibe folhas longas, finas e planas, com margens ásperas. No aspecto geral, e mesmo na ecologia, faz lembrar a endémica açoriana Carex hochstetterana: são os mesmos tufos de folhagem fina e lustrosa, as mesmas hastes arqueadas enfeitadas por espigas mais ou menos pendentes. Além disso, em ambas as espécies, os frutos (ou, mais propriamente, as utrículas) são protegidos por brácteas (ou glumas) rematadas por longas aristas (veja a 4.º foto acima e também esta), o que permite distingui-las da C. pendula ou de espécies aparentadas como a recém-descrita C. leviosa.

O que singulariza a C. lowei face a quase todas as suas congéneres, e torna a sua identificação inequívoca no período em que está em flor (de Maio a Junho), é que as espigas femininas parecem muitas vezes agrupar-se aos molhos, dando à planta um aspecto desgrenhado. Avisam os sempre picuinhas botânicos que não se trata de espigas agrupadas, mas sim de uma só espiga várias vezes ramificada. Mas, indepentemente de dominarmos ou não os detalhes, ou de usarmos ou não a terminologia correcta, é sempre bom travarmos conhecimento com uma planta de um género taxonomicamente problemático que se deixa reconhecer à primeira vista.

Quem se inicia na observação de plantas tem tendência a ignorar gramíneas, ciperáceas, juncos, fetos — todas aquelas herbáceas que, não se destacando pela floração vistosa (ou, no caso dos fetos, nem sequer tendo flores), se perdem num verde anonimato. Mas são essas plantas que ainda não aprendemos a nomear que dão vida e encanto a muitos bosques.

02/11/2021

Mocano à janela

O envelhecimento das árvores também se nota, através de rugas e sinais deselegantes na casca do tronco, que se torna mais áspero com o acumular de anos. Mas, ao contrário das pessoas, as plantas mantêm a funcionar até à morte, aparentemente sem defeito, os mecanismos que geram folhas e ramos novos, flores e frutos. Decerto precisam dessa tarefa toda a vida pois, sem mudarem nunca de endereço ou de paisagem, como iriam gastar o tempo e combater o tédio? Em algumas espécies as diferenças de idade são mais notórias, e é fácil saber se estamos perante um exemplar jovem ou um idoso, ainda que ambos tenham 8 metros de altura. É o caso da árvore madeirense que vos mostramos hoje.

Visnea mocanera L. f.


A Visnea mocanera é um endemismo da ilha da Madeira e do arquipélago das Canárias (com excepção de Lanzarote) e a única espécie conhecida do género Visnea. O epíteto específico alude ao nome vernáculo, mocan, dado a estas plantas de folhagem perene pelos aborígenes das Canárias. As árvores desta espécie podem chegar aos 10 metros de altura, mas os ramos são curtos e as folhas pequeninas, por isso a copa é densa. Nela se escondem, entre Dezembro e Março, grupos de flores muito perfumadas, de cinco pétalas brancas a formar uma delicada campanula com inúmeros estames ao centro.



Na nossa visita à levada da Ribeira da Janela, na ilha da Madeira, em Maio de 2020, os mocanos que vimos estavam para lá da floração, mas ainda sem o ciclo anual terminado. Resultado: conseguimos ver frutos, carnudos e verdes, do tamanho de avelãs, mas poucos da cor púrpura que os torna apetecíveis quando amadurecem. Outrora foram usados para fazer compotas e licores, mas a espécie tem vindo a rarear. Faltam-lhe talvez locais soalheiros e quentes, de solos férteis, entre os 300 e os 600 metros de altitude. Ou então já sobra pouco espaço para ela na laurissilva do barbusano, o habitat que ela prefere. Ou isso, ou a culpa é do uso desenfreado da madeira desta árvore, firme e avermelhada.

Diz-se que, nas Canárias, é a ilha de El Hierro (que ainda não conhecemos) a que contém exemplares de V. mocanera mais desenvolvidos e em populações mais estáveis. Para estimarmos a antiguidade dos exemplares, bastará notar que o ritidoma é verde e liso quando jovem, tornando-se progressivamente cinzento, castanho e bastante rugoso. Em Tenerife, deveríamos ter estado atentos a estas plantas nas caminhadas no centro da ilha, em Güimar, ou no norte, em Anaga. Teremos de lá voltar, olha que bom, para corrigirmos esta desatenção.

24/10/2021

Arméria dos picos

Armeria maderensis Lowe


Ainda que seja considerada rara, a arméria-da-Madeira é uma das espécies endémicas mais fáceis de encontrar na ilha, bastando para tanto visitar o Pico do Areeiro entre os meses de Maio e Junho. De folhas relativamente curtas e largas, e escapos com 20 a 40 cm de altura encimados por capítulos florais de um rosa intenso, é uma arméria que se põe bem a jeito para a foto promocional, escolhendo para seu poleiro os pontos mais elevados da crista montanhosa central da Madeira. Apesar de no continente estarmos de barriga cheia com as mais de 20 espécies de arméria distribuídas de norte a sul tanto no litoral como no interior, seria um erro desdenharmos da espécie madeirense como apenas mais uma para juntar à colecção. Além de detentora de uma elegância imbatível, o cenário vertiginoso onde vive nunca poderá ser igualado pelo relevo manso das montanhas continentais.

E a essas impressões subjectivas junta-se um dado crucial: a Armeria maderensis não é apenas única na sua ilha, é-o também em toda a Macaronésia. O género Armeria está inteiramente ausente dos arquipélagos das Canárias e de Cabo Verde, e é de admitir que também não exista nos Açores. A situação no arquipélago açoriano é dúbia, pois no 2.º volume (de 1984) da Nova Flora de Portugal, e baseando-se em exemplares do herbário do Instituto Superior de Agronomia que teriam sido colhidos em 1954, Franco descreve uma Armeria maritima subsp. azorica que existiria apenas em São Miguel, São Jorge e Flores. Antes de Franco, ninguém havia reportado qualquer Armeria nos Açores; e, desde então, ninguém logrou reencontrá-la no arquipélago. Obras de referência da flora açoriana como o Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores (Palhinha, 1966) e a Lista das Plantas Vasculares (Luís Silva et al., 2010) não mencionam qualquer espécie de Armeria. É pois legítimo duvidar que exista (ou alguma vez tenha existido) alguma Armeria espontânea nos Açores.

Que haja apenas uma espécie de Armeria na Madeira também foge à regra. Muitos dos géneros botânicos originários dos continentes (África, Europa ou América) que conseguiram instalar-se nos arquipélagos atlânticos iniciaram depois um processo de irradiação e especiação, evoluindo para distintas espécies separadas geograficamente ou adaptadas a diferentes nichos ecológicos. Exemplos bem conhecidos são os géneros Limonium (da família Plumbaginaceae tal como a Armeria, e que inclui mais de 20 espécies nas Canárias), Argyranthemum, Echium, Sonchus e Aeonium. Mesmo certos géneros endémicos da Madeira (como Musschia e Sinapidendron) contam cada um com três ou mais espécies no arquipélago. Existem armérias nas rochas costeiras de Matosinhos e de Viana, nas bermas das estradas transmontanas, no topo da serra da Estrela, na serra de Monchique, nas praias e falésias do Algarve. O que terá impedido um género ecologicamente tão versátil de se diversificar na Madeira?

19/10/2021

Mostardas endémicas da Madeira

As plantas do género Coincya, a que chamamos mostardas, têm em Portugal continental representantes que diferem bastante no porte, no hábito mais ou menos rasteiro e no tipo de folhas, mas mal se distinguem pelas flores. Seja a espécie das dunas, de montanha ou de terrenos baldios, os racimos de flores são modestos, os cálices das flores são manchados de tom púrpura e as pétalas têm a cor que associamos ao tempero homónimo (o molho feito, em geral, de azeite, vinagre e sementes de espécies de Sinapis ou Brassica). De algum modo, a adaptação a novos habitats destas crucíferas fez-se em formato económico, preservando-se o que serve a vários locais e mudando-se apenas o necessário. Podemos rever essa lição de sobrevivência, no colonizar eficiente de nichos variados, através de um exemplo do arquipélago da Madeira. Ali há um género endémico de mostardas, Sinapidendron, que abriga seis espécies, todas elas com flores coloridas por este amarelo inconfundível da mostarda, mas cada uma com o seu tipo de folhagem.

Comecemos pela espécie costeira de Sinapidendron que é abundante nas escarpas rochosas do litoral norte da ilha da Madeira, especialmente entre a ribeira do Tristão e a ponta de São Jorge: o S. gymnocalyx. As plantas desta espécie são subarbustivas, perenes, folharudas e com cerca de um metro e meio de altura. As folhas são ovadas, enormes (21 cm x 15 cm), um pouco ásperas e de margem serrilhadas junto ao ápice. Chamar-lhe couve-do-mar não é uma ofensa. O exemplar das fotos é do litoral de São Vicente, a que acedemos por um túnel desactivado, escuro e chuvoso, seguindo depois por uma estrada antiga igualmente sem uso, sinuosa e pejada de pedregulhos, mas com taludes magnificamente revestidos de vegetação.

Sinapidendron gymnocalyx (Lowe) Rustan


Sigamos para a região montanhosa da ilha, mais ventosa e fria, onde estão o Pico do Areeiro, o Curral das Freiras, o Caldeirão Verde e algumas das localizações mais notáveis da laurissilva. As plantas congéneres, das espécies Sinapidendron frutescens ssp. frutescens (do centro montanhoso) e Sinapidendron rupestre (do norte), ainda que lenhosas, são agora de pequeno porte. A primeira tem hastes florais longas, folhas carnudas, glabras ou com pêlos curtos, de margens levemente crenadas. A segunda é mais pubescente, com hastes florais ramificadas e folhas híspidas de margens irregularmente dentadas. Nenhuma delas é frequente; da S. rupestre, a mais rara das duas, só lhe vimos as folhas numa haste sem flores, ao longo da levada do Caldeirão Verde.

Sinapidendron frutescens Lowe subsp. frutescens


Do Sinapidendron angustifolium, comum em vertentes ensolaradas e rochosas no litoral sul da Madeira, quase à beira das ondas, já vos contámos o essencial aqui. As folhas são lineares e fininhas, como indica o epíteto específico.

No litoral norte da ilha da Madeira há um outro Sinapidendron que se diz ser bastante mais raro. Vimos alguns exemplares em flor no Calhau de São Jorge, num talude que margina uma estrada empedrada de inclinação muito acentuada. Este percurso é regularmente aspergido com herbicida, para que os turistas admirem o zelo com que na Madeira se cuida da natureza. Os funcionários da Câmara local, talvez já afectados pelo veneno com que borrifam o chão, justificaram a limpeza drástica com o resmungo «Tem de ser, senão o caminho desaparece» (curiosamente, antes de haver herbicidas podíamos-nos perder num caminho, como ainda hoje, mas ele nunca desaparecia). Trata-se do Sinapidendron frutescens ssp. succulentum, de folhas glabras, espessas e com margens quase inteiras.

Sinapidendron frutescens subsp. succulentum (Lowe) Rustan


Finalmente, há uma espécie de Sinapidendron endémica da Deserta Grande, onde nunca estivemos, que aprecia locais expostos e soalheiros. É o raríssimo S. sempervivifolium, decerto a espécie de Sinapidendron com folhas e flores mais pequenas. Os caules são erectos e ramificados, as folhas basais suculentas e crenuladas no ápice. As fotos que vimos destas plantas mostram um nítido contraste entre a folhagem densa bem agarrada à rocha, as inflorescências globulosas cor-de-mostarda e o ambiente marciano, com solo seco, pedregoso e avermelhado, da Deserta. A propósito, será mais difícil, daqui a alguns anos, desembarcar nas Desertas para fotografar plantas do que ir a Marte colher amostras de pó.

15/10/2021

Sítios de Interesse Botânico de Portugal Continental

Tomo II
Coordenação: Sociedade Portuguesa de Botânica
Edição: Imprensa Nacional Casa da Moeda
Patrocínio: Câmara Municipal de Lisboa
Data: Setembro de 2021
Do texto de apresentação do livro: “À semelhança do primeiro tomo, visitaremos lugares sobejamente conhecidos do grande público, mas sob novas perspectivas, e lugares perfeitamente obscuros, inclusivamente para o público mais especializado. Também, à semelhança do primeiro tomo, esta é uma obra polifónica, em que estilos de escrita diversos se sucedem na apresentação dos valores botânicos em cada capítulo, reflectindo abordagens mais científicas ou pessoais. (,,,) Viajaremos junto ao litoral e junto à raia, calcorrearemos as margens de charcos e lagoas costeiras e os mais altos cumes das serras do país, de norte a sul, de nascente a poente, dentro e fora das áreas protegidas, muitas vezes na senda de rochas e solos raros.”
O livro está à venda nas lojas da INCM em Lisboa, Porto e Coimbra e também na loja online. Tal como sucedeu com o primeiro tomo, é de esperar que esgote rapidamente. Como alternativa, pode descarregar o livro em PDF (com fotos de baixa resolução) desta página, na qual são também disponibilizados, no mesmo formato (e igualmente com baixa resolução), os restantes volumes da Colecção Botânica em Português.
Eis a lista dos capítulos da obra e respectivos autores:
  1. Algoz — André Carapeto
  2. Arribas e dunas do Malhão — Carla Pinto Cruz & Paula Canha
  3. Berlengas — Miguel Brilhante
  4. Costa do cabo Carvoeiro ao Baleal — Ana Delaunay Caperta, Vasco Silva, Ana Sofia Róis, José Carlos Costa, Dalila Espírito-Santo & Pedro Arsénio
  5. Cumeadas de São Pedro do Açor e Cebola — Paulo Silveira
  6. Gabros do Torrão, Odivelas e Beringel — Miguel Porto
  7. Herdade da Coitadinha — Marco Jacinto
  8. Lagoa de Óbidos — Paulo Lemos
  9. Litoral de Lagoa — André Carapeto
  10. Maciço da Gralheira — Paulo Pereira
  11. Margens do Baixo Tejo — César Augusto Garcia, Manuela Sim-Sim, Anabela Martins & Cecília Sérgio
  12. Matos da praia de Vale Figueiras — José Luís Vitorino
  13. Mina de Aparis — Miguel Porto
  14. Nave de Haver — Miguel Porto
  15. Olivais tradicionais dos solos básicos não calcários do Baixo Alentejo — Ana Júlia Pereira
  16. Planalto Superior da serra da Estrela — Alexandre Silva
  17. Rocha da Pena — André Carapeto & Luís Brás
  18. Senhora do Monte e serra de Ervilhaio — Luísa Borges, Joana Oliveira, Joaquim Pessoa & José Monteiro
  19. Serra da Carregueira e bacia da ribeira das Jardas — Jorge Capelo
  20. Serra de Ficalho — Mauro Raposo, Raquel Ventura & Carlos Pinto-Gomes
  21. Serra de Sintra — Manuel João Pinto, Helena Cotrim & Mário Cachão
  22. Serra dos Candeeiros, para norte do Arco da Memória — António Flor
  23. Serras de Sousel — João Farminhão
  24. Ultrabásicos de Cabeço de Vide — José Carlos Costa, Carlos Neto, Carlos Aguiar, António Flor & Paulo Pereira
  25. Vale da Campeã — Paulo Alves
  26. Vale do rio Mente — Paulo Ventura Araújo
  27. Vertentes calcomargosas de Sicó — Paulo Ventura Araújo

03/10/2021

Erva-branca de São Lourenço



No dia em que tínhamos as horas contadas, e antes de nos metermos a caminho para o extremo oriental da ilha (que não alcançaríamos), empoleirámo-nos que nem cabritos numas rochas com vista para o mar e, ignorando o infinito azul, virámos toda a atenção para a erva-branca (ou selvageira) de São Lourenço. Que não é uma erva, mas um arbusto (este povo é decididamente incorrigível), e não o voltaríamos a encontrar no resto da tarde por ele estar ausente das escarpas mais acidentadas do promontório.

Sideritis candicans var. crassifolia Lowe


Que este arbusto é branco, ou pelo menos revestido de uma lanugem branca que às vezes foge para o prateado, é um facto indesmentível inscrito no seu próprio nome científico: o epíteto candicans significa esbranquiçado. Em contraste com a riqueza das Canárias, onde as espécies de Sideritis somam quase trinta, a Sideritis candicans é a única do seu género no arquipélago da Madeira. E, sendo flagrante a sua semelhança com a S. cretica e com outras suas congéneres de Tenerife, é por certo no arquipélago vizinho que a Sideritis madeirense tem os seus antepassados mais próximos.

O que na Madeira se perde em diversidade é compensado pela abundância, pois a selvageira é comum em quase toda a ilha, desde os meandros enevoados da laurissilva até às falésias húmidas da costa norte. Se ela é assim corriqueira, como justificar o alvoroço por a termos encontrado em São Lourenço? Sucede que nem todas as selvageiras têm o mesmo aspecto, e as diferenças morfológicas entre as diversas populações de Sideretis candicans motivaram a descrição de três variedades: além da variedade nominal, a mais comum das três, reconhecem-se as variedades multiflora e crassifolia. Esta última, que se distingue das demais pelo aspecto mais compacto, inflorescência mais densa e folhas mais pequenas, é exclusiva da Ponta de São Lourenço e tida como muito rara. Comuns às três variedades são as folhas com margens levemente crenadas e a corola de um amarelo sulfuroso, com o tubo completamente aninhado no cálice lanudo. É instrutivo notar, em várias Sideritis canarinas (por exemplo nesta, de flores com o mesmo tom de amarelo), como o tubo da corola extravasa claramente do cálice.

Independentemente da variedade, o auge da floração da selvageira (e de quase todas as espécies macaronésicas de Sideritis) parece ocorrer na primeira quinzena de Abril; embora as espigas se mantenham por longo tempo, as flores são efémeras e esquivas. Mas, mesmo com flores murchas, é útil, para comparação, mostrarmos os exemplares da var. candicans que fotografámos em Maio no litoral de São Vicente.

Sideritis candicans Aiton var. candicans