A zimbrar na praia
Trinta quilómetros a oeste do grande rochedo, continuamos no estreito de Gibraltar. O céu encoberto promete chuva; o mar inquieto e cor de chumbo já se vai demarcando, pela ferocidade, do plácido lago mediterrânico. Para aqui chegarmos, cruzámos uma imensa duna que ameaçava a qualquer momento soterrar a estrada, mas neste lugar, na praia de Punta Paloma, estamos a salvo de avalanches. Pinheiros-mansos, sabinas, zimbros, estevas, sargaços, piornos, lentiscos e demais vegetação arbustiva dão estabilidade às areias e preparam o habitat para uma variada colecção de herbáceas. Também nos forneceriam o aconchego de uma sombra se precisássemos dela, mas hoje o sol parece incapaz de sacudir a camuflagem de nuvens.
Embora estejamos encantados com tudo o resto — pois raras vezes vimos vegetação dunar tão rica e bem conservada como esta do Parque Natural del Estrecho —, viemos aqui por causa do Juniperus macrocarpa. Trata-se de um zimbro que vive nas areias marítimas do sul de Espanha, entre Gibraltar e a fronteira portuguesa, e reaparece, muitas centenas de quilómetros a leste, em diversos pontos da bacia mediterrânica. Este arbusto ou pequena árvore, tão destemido no modo como se expõe aos salpicos das ondas, não é muito diferente do zimbro-comum (Juniperus oxycedrus) que encontramos nos socalcos do Douro; mas, além do habitat radicalmente diferente, o zimbro-das-areias distingue-se pelas folhas mais largas, pelas bagas maiores, e pela ramificação mais intricada.

Nesta praia vive também a sabina (Juniperus turbinata) que conhecemos das dunas do nosso litoral centro. Aqui, neste encontro de dois mares, zimbros e sabinas misturam-se com tal profusão que seria difícil avaliar qual deles detém a primazia. Que ambos são Juniperus é atestado pela presença das características bagas carnudas, mas dentro desse género eles representam duas linhagens bem diferenciadas: nas sabinas a folhagem é escamiforme, e nos zimbros ela é formada por agulhas. Há até botânicos defendendo que as duas estirpes deveriam ser tratadas como géneros separados, ficando o nome Juniperus reservado a zimbros e aparentados, e segregando-se as sabinas e espécies afins no género Sabina.
A primeira categoria — a dos zimbros e aparentados — é bastante diversa em território português: além do Juniperus oxycedrus, inclui uma espécie de montanha (J. communis, no Gerês e na serra da Estrela), uma espécie dunar (J. navicularis, maioritariamente no litoral a sul do Tejo), uma espécie da floresta de nuvens açoriana (J. brevifolia, o famoso cedro-do-mato), e uma espécie da laurissilva madeirense (J. maderensis), a que se soma a presença, muito residual e precária, do J. macrocarpa no Algarve. Tanto o J. navicularis como o J. macrocarpa foram em tempos considerados subespécies do Juniperus oxycedrus, mas estudos filogenéticos recentes (veja-se este artigo de 2024) afiançam-nos ser mais apropriado tratá-los como espécies autónomas. Os mesmos estudos revelam, para nossa surpresa, que o J. navicularis (fotos em baixo) é espécie-irmã do J. brevifolia, estando portanto evolutivamente mais próximo do cedro-do-mato açoriano do que do zimbro duriense.























































