15/10/2026

Tomilhos aos molhos

Como podem as plantas, numa ilha habitada há centenas ou milhares de anos, sobreviver às convulsões provocadas pela ocupação humana? O progresso tecnológico acelerou (e agravou) os estragos que a nossa espécie é capaz de causar, e por isso um povoamento mais recente não é sinónimo de natureza mais preservada. Comparem-se as Baleares (sobretudo as ilhas de Maiorca e Menorca) com os Açores: o primeiro desses arquipélagos, habitado desde a antiguidade, mantém uma paisagem natural muito menos adulterada do que o segundo, que só no século XV recebeu os primeiros habitantes. Por esse exemplo também se intui não ser o turismo de massas — que as Baleares vêm sofrendo desde há cinco ou seis décadas, mas a que os Açores têm sido até hoje relativamente poupados — um factor decisivo na perda de valores naturais. O que faz a diferença é o tipo de ocupação do território, e o maior ou menor apreço que os habitantes mostram ter por aquilo que é natureza genuína. O povoamento dos Açores fez-se arrancando a vegetação para abrir cultivos e pastagens — pois as ilhas, a 1500 ou mais quilómetros do continente europeu, sem que um só barco de longo curso a elas aportasse durante meses a fio, tinham de se bastar a si próprias para serem habitáveis. Em nome da sobrevivência, impunha-se desbravar o emaranhado de urzes, faias, loureiros, azevinhos e zimbros que quase integralmente revestia as ilhas. A necessidade de combater o mato já não existe, mas a percepção da floresta nativa como coisa hostil ou de pouca valia é um atavismo de que o arquipélago não se consegue livrar. A paisagem das ilhas é hoje dominada por árvores introduzidas como a criptoméria e o incenso, e por invasoras exóticas como a hortênsia e a conteira; e é com esses arrivistas que os açorianos desperdiçam todo o amor que julgam ter pela natureza.

Por que razão na Madeira e nas Canárias não se passou coisa igual? Ou passou-se em muito menor grau? Certo é que a vegetação nativa continua a ser largamente dominante nessas ilhas, quando nos Açores está reduzida à invisibilidade. Madeirenses e canarinos, de um modo geral, sabem que certas plantas ou tipos de vegetação são só deles e têm orgulho nisso. E, tendo as populações da Madeira e das Canárias uma percepção correcta, ainda que por vezes difusa, do património natural das suas ilhas, é muito mais provável do que nos Açores que esses arquipélagos sejam governados por quem se preocupe com a preservação dos seus valores naturais.

Grã-Canária: represa no pinhal de Tamadaba
Do que não há dúvida é que as ilhas Canárias são maiores e muito mais acidentadas do que as ilhas açorianas. Não faria falta revolver ilhas tão grandes de uma ponta à outra para extrair sustento do solo, e nem essa necessidade seria tão premente pela menor distância ao continente e pelo maior trânsito de navios. E a orografia revelou-se muitas vezes um obstáculo intransponível: a Grã-Canária, em especial, está sulcada por tremendos barrancos que, em séculos recuados, seriam totalmente inacessíveis, e que hoje só são praticáveis por quem disponha de equipamento de escalada e obtenha autorização para aceder a tais lugares. Assim, foi sobretudo graças às circunstâncias geográficas que a vegetação natural das Canárias sobreviveu até aos nossos dias num invejável bom estado de conservação.

Na Grã-Canária há entre 110 e 120 espécies ou subespécies vegetais endémicas, um pouco aquém de Tenerife, que chega às 140. As dificuldades de acesso fazem com que grande parte delas não seja, para o comum dos mortais, visitável no seu habitat natural. Mas, para os menos afoitos, o que sobra para ver ainda é muito, e a vegetação envolvente (os pinhais no cume, os matos de eufórbias arbustivas descendo até à costa, tudo salpicado por herbáceas e arbustos diversos) é quase toda ela nativa ou endémica. Taludes pedregosos em estradas de montanha são quase sempre repositório de surpresas e ocasião para bons encontros botânicos. É desses lugares que trazemos três tomilhos que na verdade não o são, todos pertencentes ao género Micromeria. Dos 26 falsos-tomilhos do género Micromeria assinalados nas Canárias, nove são endémicos da Grã-Canária, incluindo os que exibimos hoje.

As flores da Micromeria são muito semelhantes às dos verdadeiros tomilhos (género Thymus), mas costumam ter estames menos salientes e cálices com dentes de tamanho uniforme (nos tomilhos os dois dentes inferiores são em regra mais compridos do que os três superiores). Além disso. os tomilhos são invariavelmente aromáticos, bastando esfregar uma folha entre os dedos para desfazer dúvidas, enquanto que as micromérias tendem a ser inodoras. Os dois géneros diferem ainda em certos detalhes morfológicos, como a venação das folhas, que um não especialista teria dificuldade em verificar. Para nós, basta estarmos cientes de que, nas Canárias, aquilo que parece ser um tomilho raramente o é. De todas as ilhas do arquipélago, só em Lanzarote existe um tomilho espontâneo, endémico para não variar, o Thymus origanoides.

Micromeria canariensis (P. Pérez) Puppo subsp. canariensis


O primeiro dos nossos falsos-tomilhos, Micromeria canariensis subsp. canariensis, foi considerado, até que uma revisão do género publicada em 2015 decidiu em contrário, como subespécie da M. varia — espécie com múltiplas subespécies que incluíam até uma madeirense. Os autores da revisão concluíram por via genética que a verdadeira M. varia é endémica de Tenerife, e atribuíram novos nomes às oito subespécies que até então lhe estavam subordinadas. Não custa reconhecer, porém, que esta microméria da Grã-Canária e a da Madeira (ver aqui) acusam vincado parentesco apesar da separação forçada.

Micromeria pineolens Svent.


A Micromeria pineolens — que, sugere o epíteto mas não confirmámos, rescende a pinho — vive justamente num pinhal, o de Tamadaba, nos cumes da Grã-Canária. É um pequeno arbusto de flores vistosas, muito maiores do que é regra nas micromérias, vencedor indiscutível de qualquer concurso de beleza no género Micromeria. O mais provável é que nem perdesse o título se o concurso fosse alargado aos tomilhos.

Micromeria tenuis subsp. linkii (Webb & Berthel.) P. Pérez


Do talude de uma estrada sem trânsito no noroeste da Grã-Canária, cheia de curvas perigosas, veio a terceira e mais discreta das micromérias de hoje: M. tenuis subsp. linkii. Com flores brancas diminutas, distingue-se pelo aspecto esbranquiçado, e pelas folhas e cálices recurvados. A subespécie tenuis, que vive em barrancos áridos no sul da ilha, tem uma tonalidade mais verde, porte erecto, e folhas e cálices rectos.

06/10/2026

Paparraz



Em dias de sol, a sombra que cada um de nós projecta por ser um corpo opaco é uma mancha bidimensional com a nossa silhueta, mais ou menos longa de acordo com a altura do sol, que reproduz os nossos gestos e não nos larga. Por denunciar a nossa presença, ter sombra poderá ter sido perigoso há milhares de anos; talvez por isso, todos manifestamos uma preferência instintiva por locais abrigados do sol. Não temos o que se possa chamar um uso diário para a nossa sombra, mas estranharíamos a sua ausência. Na ópera Die Frau ohne Schatten (A mulher sem sombra), de Richard Strauss, com libreto de Hugo von Hofmannsthal, a falta de sombra numa das personagens simboliza uma imperfeição tão sinistra num ser humano que ela tenta comprar uma sombra a qualquer preço. Mas, para além da sua dimensão artística, a sombra que cada pessoa gera não parece servir para nada.

Pelo contrário, a sombra criada pelos outros, especialmente árvores e edifícios altos, é essencial ao nosso conforto e à saúde geral do planeta. Para algumas plantas, o ar e o solo frescos mantidos na sombra são até indispensáveis à sua sobrevivência. É o caso de alguma vegetação do nordeste do país, onde no Verão as temperaturas podem manter-se por muitos dias e noites perto dos 40ºC. Nos bosques frondosos de azinheiras, carvalhos ou castanheiros, a temperatura que se sente é bastante inferior, e os arroios e prados retêm a humidade por mais tempo. Não é, por isso, surpresa que estes sejam habitats privilegiados, de uma riqueza florística invulgar.

Delphinium staphisagria L.


O Delphinium staphisagria é uma espécie anual ou bienal robusta, que pode atingir um metro de altura. Floresce no início do Verão e resiste bem ao calor e à secura se puder estar sempre à sombra, e em locais próximos de cursos de água. A inflorescência é uma espiga lassa, com flores de morfologia complicada: uma coroa colorida por fora, com pétalas falsas, e um miolo ao centro com pétalas verdadeiras um pouco escondidas. Mais precisamente, e como é usual nas espécies de Delphinium, as flores têm duas camadas: a exterior com 5 sépalas que imitam pétalas, uma delas prolongada para trás formando um cone oco inclinado para cima, o esporão, que lembra um golfinho (daí deriva o nome do género) e cuja entrada está protegida; e a camada interna, feita por 4 pétalas pequenas no centro da flor, duas das quais nectaríferas e outras duas que separam a zona onde estão os estames, com o pólen, da entrada do esporão e do acesso ao néctar e ao estigma.

As folhas desta espécie são grandes, palmatilobadas, com 3-7 lóbulos, e pubescentes. O que a destaca das outras espécies de Delphinium é o porte, bastante maior do que a maioria, e o azul intenso das flores. Os exemplares destas fotos vivem na margem direita do Douro, em Torre de Moncorvo, perto da foz do rio Sabor.

16/09/2026

Embudes & canaveiras

Aproxima-se do fim mais um Verão — que, como todos os outros, se fez com água e à volta da água, apesar de no clima que nos coube em sorte pouco ou nada chover durante estes meses. Há a água salgada ao fundo do areal, onde a medo molharíamos os pés se a preguiça não nos tolhesse os movimentos. Há a água doce das praias do interior, em rios, lagoas ou albufeiras, onde a nortada não sopra para amenizar a canícula e só uma sombra de árvore nos pode socorrer. Há a água dos parques aquáticos de diversões para quem prefira a artificialidade à natureza. E há a água portátil, sempre à mão no cantil ou na garrafa de plástico, que bebericamos a todo o instante como se corrêssemos grave e permanente risco de desidratação.

Seja para sua sobrevivência ou tão-só para entretenimento, a espécie humana está de tal modo ligada à água que parece um erro evolutivo (ou divino, para quem crê no livro do Génesis) o nosso habitat não ser aquático. É paradoxal não podermos viver sem água e, ao mesmo tempo, não podermos viver na água. Para tornar as coisas ainda mais complicadas, a água de que necessitamos é aquela que é mais escassa no planeta. Vivendo a pé enxuto em continentes ou ilhas, rodeados de água que não podemos beber, espreitamos inquietos as nuvens salvíficas que abastecem os rios e aquíferos de que dependemos.

Se a água é cada vez mais escassa para as necessidades humanas, não espanta que os animais e plantas que vivem em rios ou em outras massas de água doce atravessem tempos difíceis. Algumas das plantas mais ameaçadas da flora portuguesa, várias delas já desaparecidas, habitam (ou habitavam) em rios ou nas suas margens, ou em lagoas e zonas paludosas da faixa litoral do país. Os rios foram profundamente alterados com a construção de barragens; e, no litoral, o avanço urbano e a drenagem de zonas húmidas para fins agrícolas ou florestais obliteraram a maioria desses habitats. Uma das vítimas dessa destruição foi a orquídea Epipactis palustris, que não é encontrada no nosso país desde 1961 mas ainda abundava no Minho e Beira Litoral na primeira metade do século XX.

Oenanthe fistulosa L.


Não tendo ainda sido erradicadas do nosso território, as duas umbelíferas que hoje mostramos, ambas do género Oenanthe, e ambas próprias de lugares alagadiços a baixa altitude, já tiveram distribuições muito mais amplas. A O. fistulosa (fotos acima) aparecia em toda a faixa costeira do Douro Litoral ao Baixo Alentejo, mas agora já não é vista a norte, surgindo sobretudo no Baixo Vouga, no Baixo Mondego, e entre Óbidos e São Martinho do Porto; e a O. globulosa (fotos abaixo) — que, por preferir solos básicos, sempre foi por cá a mais escassa das duas — parece ter-se acantonado na Estremadura, entre Sintra e Mafra. Foi no Baixo Vouga que encontrámos a O. fistulosa, e aliás ela não é nada rara nesses terrenos que permanecem alagados boa parte do ano, e que formam com os milheirais um mosaico desenhado a traço grosso pelo verde dos salgueiros. Já para vermos a O. globulosa rumámos a sul e passámos a fronteira: o local do encontro foi o Parque Natural de los Alcornocales, um recanto andaluz inesperadamente fresco e húmido.

Em contraste com a O. crocata, que é vulgaríssima em margens de rios e demais lugares húmidos por todo o território continental português, as restantes espécies de Oenanthe da nossa flora não têm assegurado um futuro risonho, muito pelo contrário. Tal como aquelas de que tratamos hoje, são umbelíferas discretas, de porte reduzido e floração pouco chamativa. Tanto a O. fistulosa como a O. globulosa se ficam pelos 60 a 90 cm de altura máxima, e as inflorescências da primeira são formadas por apenas duas a quatro umbélulas compactas, cada uma com 1 a 1,5 cm de diâmetro. Em suma: são plantas que mal se dá por elas. Quando se tornarem ainda mais raras, quase ninguém lamentará a sua falta. Mas são estas subtracções feitas pela calada, uma de cada vez, que empobrecem irremediavelmente as nossas paisagens e o nosso património natural.

Oenanthe globulosa L.

08/09/2026

Bando de pássaros

Com a saudável desatenção às notícias durante o Verão, talvez o leitor não tenha reparado que foi descrita em Agosto uma nova espécie de Linaria em Portugal continental. Trata-se de um endemismo raro do Algarve que ocorre em prados e orlas de matos. Junta-se a outra descoberta recente (divulgada em Janeiro), presente em arribas costeiras com solo calcário ou arenoso, e que é um endemismo da Estremadura; e a duas novas espécies de Linaria que são endemismos do Algarve, descritos há poucos anos.

Surpreende-nos que ainda se descubram novidades botânicas em locais relativamente acessíveis em Portugal. Neste caso, porém, isso resultou de um estudo morfológico e genético mais apurado, parte de um plano abrangente de arrumação da flora portuguesa. Que surjam novidades no género Linaria, que abriga cerca de 200 espécies anuais ou perenes, também se compreende, dada a sua fácil adaptação a substratos muito diversos, incluindo dunas no litoral e locais perturbados com solo seco ou pobre em nutrientes. Além disso, é um género propício a variações na folhagem e na pigmentação das flores, embora estas pouco mudem de formato: cada flor resume-se a uma corola levemente inchada com dois lábios (um superior dentado, como duas orelhas, e um inferior que serve de pista de aterragem para os polinizadores), cuja entrada é assinalada por uma coloração mais forte, frequentemente alaranjada, terminando com um esporão mais ou menos longo, mais ou menos curvado, onde guarda o néctar. O resultado é uma flor com perfil de passarinho, embora haja quem ali veja uma boquinha-de-sapo.  

O género Linaria é nativo das regiões temperadas da Europa, Norte de África e Ásia, com um pico de diversidade na bacia do Mediterrâneo, beneficiando a Península Ibérica de uma fatia considerável de espécies endémicas. As fotos seguintes, de plantas do sul de Espanha, mostram espécies vizinhas de Linaria que, além do território, decerto também partilham polinizadores e que, curiosamente, desenvolveram uma pigmentação distinta nas flores.

Linaria aeruginea (Gouan) Cav. [ou talvez não]


Linaria amethystea subsp. albiflora (Boiss.) Casim.-Sor. Solanas & Cabezudo


Linaria pedunculata (L.) Chaz.


Linaria platycalyx Boiss.


Linaria saturejoides Boiss.


Pode dar-se o caso de estas diferenças facilitarem a detecção da flor por este ou aquele polinizador, e este sucesso ser o principal responsável pela invulgar diversidade nestas plantas. Mas, dada a reconhecida compatibilidade genética entre espécies do género Linaria, outra origem plausível de tantas manchas, riscas e pintas, em matizes variados, poderá ser a hibridação natural entre espécies. A mistura de genes é capaz de produzir gradações de cor inteiramente novas, e até versões multi-coloridas. A selecção natural faz o resto se a nova coloração atrair mais polinizadores.

Naturalmente, nada disto seria possível se o mecanismo químico que determina a coloração das flores não contivesse uma paleta de amarelos, laranjas, azuis, violetas, carmins, etc, suficientemente vasto. E é isso mesmo que os estudos moleculares mostram: o género Linaria desenvolveu um sistema complexo (alguns dirão inteligente) de gestão de pigmentos que, por exemplo, se serve de um gene para ajustar a intensidade das cores (e assim gerar um violeta-claro ou um amarelo-intenso) e de alterações genéticas durante a divisão celular para desenhar, em certas zonas da flor, salpicos em tom púrpura que contrastam com o fundo homogéneo da corola.

Os polinizadores destas flores têm de ter uma língua longa e vigorosa para aceder ao néctar. Esta dependência de polinizadores tão especializados, cuja escassez se pode agravar com as alterações no clima a que vamos assistindo, é um perigo para várias espécies de Linaria, cujas populações estão já em declínio por outras ameaças ao habitat. Se não houver programas de conservação que protejam de facto as espécies mais vulneráveis de Linaria, daqui a alguns anos a notícia que aqui lhe daremos será infelizmente outra.