Tomilhos aos molhos
Como podem as plantas, numa ilha habitada há centenas ou milhares de anos, sobreviver às convulsões provocadas pela ocupação humana? O progresso tecnológico acelerou (e agravou) os estragos que a nossa espécie é capaz de causar, e por isso um povoamento mais recente não é sinónimo de natureza mais preservada. Comparem-se as Baleares (sobretudo as ilhas de Maiorca e Menorca) com os Açores: o primeiro desses arquipélagos, habitado desde a antiguidade, mantém uma paisagem natural muito menos adulterada do que o segundo, que só no século XV recebeu os primeiros habitantes. Por esse exemplo também se intui não ser o turismo de massas — que as Baleares vêm sofrendo desde há cinco ou seis décadas, mas a que os Açores têm sido até hoje relativamente poupados — um factor decisivo na perda de valores naturais. O que faz a diferença é o tipo de ocupação do território, e o maior ou menor apreço que os habitantes mostram ter por aquilo que é natureza genuína. O povoamento dos Açores fez-se arrancando a vegetação para abrir cultivos e pastagens — pois as ilhas, a 1500 ou mais quilómetros do continente europeu, sem que um só barco de longo curso a elas aportasse durante meses a fio, tinham de se bastar a si próprias para serem habitáveis. Em nome da sobrevivência, impunha-se desbravar o emaranhado de urzes, faias, loureiros, azevinhos e zimbros que quase integralmente revestia as ilhas. A necessidade de combater o mato já não existe, mas a percepção da floresta nativa como coisa hostil ou de pouca valia é um atavismo de que o arquipélago não se consegue livrar. A paisagem das ilhas é hoje dominada por árvores introduzidas como a criptoméria e o incenso, e por invasoras exóticas como a hortênsia e a conteira; e é com esses arrivistas que os açorianos desperdiçam todo o amor que julgam ter pela natureza.
Por que razão na Madeira e nas Canárias não se passou coisa igual? Ou passou-se em muito menor grau? Certo é que a vegetação nativa continua a ser largamente dominante nessas ilhas, quando nos Açores está reduzida à invisibilidade. Madeirenses e canarinos, de um modo geral, sabem que certas plantas ou tipos de vegetação são só deles e têm orgulho nisso. E, tendo as populações da Madeira e das Canárias uma percepção correcta, ainda que por vezes difusa, do património natural das suas ilhas, é muito mais provável do que nos Açores que esses arquipélagos sejam governados por quem se preocupe com a preservação dos seus valores naturais.
Na Grã-Canária há entre 110 e 120 espécies ou subespécies vegetais endémicas, um pouco aquém de Tenerife, que chega às 140. As dificuldades de acesso fazem com que grande parte delas não seja, para o comum dos mortais, visitável no seu habitat natural. Mas, para os menos afoitos, o que sobra para ver ainda é muito, e a vegetação envolvente (os pinhais no cume, os matos de eufórbias arbustivas descendo até à costa, tudo salpicado por herbáceas e arbustos diversos) é quase toda ela nativa ou endémica. Taludes pedregosos em estradas de montanha são quase sempre repositório de surpresas e ocasião para bons encontros botânicos. É desses lugares que trazemos três tomilhos que na verdade não o são, todos pertencentes ao género Micromeria. Dos 26 falsos-tomilhos do género Micromeria assinalados nas Canárias, nove são endémicos da Grã-Canária, incluindo os que exibimos hoje.
As flores da Micromeria são muito semelhantes às dos verdadeiros tomilhos (género Thymus), mas costumam ter estames menos salientes e cálices com dentes de tamanho uniforme (nos tomilhos os dois dentes inferiores são em regra mais compridos do que os três superiores). Além disso. os tomilhos são invariavelmente aromáticos, bastando esfregar uma folha entre os dedos para desfazer dúvidas, enquanto que as micromérias tendem a ser inodoras. Os dois géneros diferem ainda em certos detalhes morfológicos, como a venação das folhas, que um não especialista teria dificuldade em verificar. Para nós, basta estarmos cientes de que, nas Canárias, aquilo que parece ser um tomilho raramente o é. De todas as ilhas do arquipélago, só em Lanzarote existe um tomilho espontâneo, endémico para não variar, o Thymus origanoides.

O primeiro dos nossos falsos-tomilhos, Micromeria canariensis subsp. canariensis, foi considerado, até que uma revisão do género publicada em 2015 decidiu em contrário, como subespécie da M. varia — espécie com múltiplas subespécies que incluíam até uma madeirense. Os autores da revisão concluíram por via genética que a verdadeira M. varia é endémica de Tenerife, e atribuíram novos nomes às oito subespécies que até então lhe estavam subordinadas. Não custa reconhecer, porém, que esta microméria da Grã-Canária e a da Madeira (ver aqui) acusam vincado parentesco apesar da separação forçada.


A Micromeria pineolens — que, sugere o epíteto mas não confirmámos, rescende a pinho — vive justamente num pinhal, o de Tamadaba, nos cumes da Grã-Canária. É um pequeno arbusto de flores vistosas, muito maiores do que é regra nas micromérias, vencedor indiscutível de qualquer concurso de beleza no género Micromeria. O mais provável é que nem perdesse o título se o concurso fosse alargado aos tomilhos.

Do talude de uma estrada sem trânsito no noroeste da Grã-Canária, cheia de curvas perigosas, veio a terceira e mais discreta das micromérias de hoje: M. tenuis subsp. linkii. Com flores brancas diminutas, distingue-se pelo aspecto esbranquiçado, e pelas folhas e cálices recurvados. A subespécie tenuis, que vive em barrancos áridos no sul da ilha, tem uma tonalidade mais verde, porte erecto, e folhas e cálices rectos.










































