17.9.19

Amarelo revisitado

Acreditando que a natureza não é uma entidade caprichosa, nem age com um propósito, notamos, porém, que por vezes parece que faz rascunhos como nós, que edita linhas e corrige gralhas. Os taxonomistas afadigam-se então para entenderem as diferenças entre as várias plantas, nem sempre com sucesso, como quem examina com raios x os rabiscos preliminares de um pintor escondidos sob uma obra de arte famosa. Senão vejamos.

Nos sapais da ria Formosa e nas dunas adjacentes viceja entre marés uma planta notável, que aprecia o habitat misto de água doce e salgada, e parasita várias espécies da família Chenopodiaceae. Trata-se da Cistanche phelypaea, que floresce no fim da Primavera e se alimenta através das garras com que se crava nas raízes lenhosas das plantas vizinhas. Quando em flor, não há dúvidas de que espécie se trata. Não? E então a Cistanche lutea?



Cistanche lutea (Desf.) Hoffmanns. & Link


A controvérsia em torno da variabilidade da C. phelypaea e o seu vínculo com a C. lutea é assunto de vários artigos científicos, que ora discutem a pertinência da descrição de duas espécies face às diferenças morfológicas e de ecologia, ora se esmeram a justificar o simples desdobramento em subespécies porque a diferenciação genética não é conclusiva. Uma é rascunho da outra, digamos. Para quem as distingue, a C. phelypaea é endémica da costa atlântica da Península Ibérica, enquanto a C. lutea ocorre no sudeste da Península Ibérica e no noroeste de África. As fotos são de Lanzarote, e há também registo da C. lutea em Fuerteventura e nas Selvagens. Por falar no norte de África, em podendo, não deixe de ver este outro rascunho do género Cistanche, igualmente inspirado.

11.9.19

Histórias da Lista Vermelha: Isatis platyloba



Vistos do alto de São João das Arribas, em Miranda do Douro, os barcos de cruzeiro deslizando no rio parecem brinquedos de criança, e as grandes aves de rapina que os sobrevoam reduzem-se ao tamanho de passarinhos. Nestas escarpas onde cair parece tão fácil e apetecível (não está o rio lá em baixo para nos abraçar?) vive uma planta crucífera de flores amarelas, capaz de atingir um metro de altura, que durante mais de um século se julgou exclusiva deste lugar. Trata-se da Isatis platyloba, assim baptizada em 1821 pelo alemão Ernst Gottlieb von Steudel mas já mencionada por Brotero na sua Flora Lusitanica em 1804 sob o nome de Isatis lusitanica. Sabe-se hoje que a planta existe nas duas margens do Douro pelo menos entre São João das Arribas e a barragem de Picote, e que também ocorre nos rios Duratón e Riaza, afluentes espanhóis do Douro. Talvez a preferência por estes precipícios rochosos escavados pelas águas limite a expansão da planta, afastando-a daqueles troços fluviais onde as margens são menos vertiginosas.

Sem nome vernáculo conhecido, não será inapropriado chamar-lhe pastel-português - não pastel de comer, mas de colorir. A Isatis platyloba, de distribuição tão restrita, é à primeira vista quase indistinguível do verdadeiro pastel, Isatis tinctoria, que se distribui por vastas zonas da Ásia, Europa e norte de África, e foi, até ao primeiro quartel do século XX, um dos mais importantes fornecedores de matéria-prima para a indústria tintureira. Curiosamente, o pigmento que se extrai das folhas verdes e ainda tenras do pastel é azul. Quando o caule se desenvolve e a planta floresce já as folhas pouca cor têm para dar. A afinidade entre as duas espécies de Isatis leva a suspeitar que o pastel-português também tenha vocação tintureira, e há notícias desse antigo uso nas aldeias de Miranda do Douro. Não é contudo improvável que os aldeões usassem o genuíno pastel, pois é sabido (como aqui documentou Francisco Clamote) que as duas plantas coexistem no planalto mirandês, e que a Isatis tinctoria, ao contrário da I. platyloba, tende a ocupar sítios acessíveis como bermas de estrada e terrenos baldios.



Isatis platyloba Link ex Steud.



Além de terem ecologias distintas, as duas Isatis divergem nos seus ciclos de vida: a Isatis platyloba é anual, enquanto que a I. tinctoria é bienal, formando uma roseta de folhas no primeiro ano e florescendo no seu segundo e último ano. Morfologicamente, há pequenas diferenças nas folhas, mas são pouco fiáveis. É quando produzem frutos que a distinção entre as duas espécies se torna óbvia: os da I. platyloba são orbiculares (foto aqui), contrastando com os frutos oblongos da I. tinctoria (foto aqui).

Na Lista Vermelha da Flora de Portugal, a Isatis platyloba está classificada como vulnerável. O contingente da espécie em Portugal, que talvez fique aquém dos mil indivíduos (número sujeito às oscilações próprias de uma planta anual), tem-se mantido aparentemente estável, sem que grandes estragos ou alterações afectassem o habitat em anos recentes. Tê-los-á havido, e sérios, com a construção das grandes barragens do Douro internacional na segunda metade do século passado. Contudo, a limpeza obsessiva da vegetação espontânea tem vindo a debilitar a população da planta em São João das Arribas, que é a mais numerosa que se conhece. Se essa tendência não for refreada, ou se não tiver em conta o ciclo de vida da planta, ela corre o risco de desaparecer do local.

4.9.19

Lavanda-do-mar

Quando numa loja de flores se compra um ramo delas, é em geral ao talento de quem nos atende que confiamos a elaboração do adorno. Cabe-lhe, como artista embriagado pelo ar perfumado que rescende dos inúmeros molhos de flores à venda, escolher as flores, as cores e o arranjo que melhor se lhes adequa, enquanto o cliente lhe controla a euforia artística, não vá o ramo custar uma fortuna. No fim, acede a que o cliente escolha o papel que cobre os talos e o laço que os prende. Duas perguntas costumam, porém, anteceder este ritual: É para uma senhora? O que celebram? Deste modo, descarta a possibilidade de um evento fúnebre, o que exigiria contenção na conversa e no colorido da grinalda, e habilita-se a usar um código de etiqueta florística que atenta ao género e à idade do destinatário das flores. O que decretam tais normas? É difícil saber exactamente, mas parece que cada flor tem um significado preciso, e que os erros nesta matéria são imperdoáveis. Não se trata de evitar flores cor-de-rosa para os cavalheiros, dálias de cor púrpura para senhoras de meia idade ou violetas para crianças. A sociedade, fonte perene de embaraços, melindres e preconceitos, parece ter-nos imposto um padrão que nos permite atestar se um ramo é ou não ajustado a quem o recebe. Tudo se resolveria se se acabasse com essa venda de flores, presente perfeitamente substituível por um passeio num jardim.



Limonium puberulum (Webb) Kuntze




Neste âmbito, as flores do género Limonium não comportam riscos. São comuns em floristas porque, mesmo depois de secas, mantêm a rigidez do arco da inflorescência e a cor das sépalas; e ainda porque as flores são invulgares: parecem duas flores empilhadas, uma branca (de pétalas) e outra roxa (de sépalas) com textura de papel. Mas, na verdade, são flores acompanhantes: nos bouquets criam uma moldura, ou um ponto de apoio, para outras flores mais nobres (leia-se mais caras), sejam elas orquídeas, tulipas, íris ou narcisos. A arte, se questionada, decerto aduzirá boas razões para esta diferenciação entre as flores-operárias e as flores-fidalgas.

As lavandas-do-mar apreciam falésias e a beira-mar, e há mais de uma centena de espécies, muitas das quais são endémicas das ilhas Canárias. (A das fotos é um endemismo das ilhas de Lanzarote e Fuerteventura, fotografada na Playa de la Cantería, em Órzola.) Pouco diferem pelas flores, ou sequer nas folhas basais com formato de colher e frequentemente salpicadas de pintas brancas, restos de sal que ali se acumulam. Contudo, muitas delas são apomíticas, e o que nos parecem ser diferenças irrelevantes são de facto mudanças genéticas que estabilizaram, criando micro-espécies que só os especialistas conseguem destrinçar. A manterem-se as condições ideais que temos vindo a assegurar ao planeta para as alterações drásticas no clima, muitas desaparecerão das zonas costeiras; nas floristas não haverá substituto para elas.

21.8.19

Feto dos lapiás


Gymnocarpium robertianum (Hoffm.) Newman


Talvez os lapiás tenham inspirado a criação da calçada à portuguesa, embora o risco de queda por se meter o pé num buraco seja muito maior no segundo tipo de revestimento. É que nas cidades os olhos esvoaçam pelas fachadas ou pelos outros transeuntes enquanto os pés cumprem distraidamente a sua função locomotora; não esperamos que uma cratera se abra para nos engolir, embora não seja preciso tanto para darmos um trambolhão. Num campo de lapiás, por contraste, os buracos na pedra branca são muitos e estão bem à vista: cada passo tem que ser cuidadosamente planeado e os olhos nunca se podem descolar do chão.

Nos maciços calcários do centro-oeste, entre Condeixa e Torres Novas, são muitos e variados os campos de lapiás. Entre a vegetação fissurícola que coloniza esses espaços contam-se vários fetos: o polipódio (Polypodium cambricum) e a douradinha (Ceterach officinarum), que são abundantes; o avencão (Asplenium trichomanes) e a arruda-dos-muros (Asplenium ruta-muraria), que aparecem com regularidade; o Cheilanthes acrosticha, que é raro; e o avencão-peludo (Asplenium petrarchae), que é raríssimo (embora seja frequente nos calcários do Algarve). Não nos podemos queixar de falta de variedade, ainda que certos fetos calcícolas estejam ausentes do nosso país. Afinal, as grandes cadeias montanhosas peninsulares (cordilheira cantábrica, Pirenéus) são predominantemente calcárias, enquanto que as maiores elevações de Portugal continental são xistosas ou graníticas. Não existindo em Portugal montanhas calcárias, são muitas as espécies peninsulares sem habitat propício no nosso país.

Um dos fetos calcícolas que cá não existe é o Gymnocarpium robertianum, que tem decidida preferência por climas frescos e apresenta uma distribuição circum-boreal, estendendo-se por partes da Ásia, Europa e América do Norte. Na Península Ibérica está quase restrito ao extremo norte (cordilheira cantábrica e Pirenéus), ainda que reapareça, muito escassamente, a sul, na serra de Almijara. Trata-se de uma planta de rizoma rastejante, em que as folhas, de formato triangular e com 15 a 30 cm de altura, brotam espaçadamente em vez de formarem tufos. O nome Gymnocarpium, que se pode traduzir por "frutos despidos", refere-se ao facto de os esporângios não estarem protegidos por indúsios; e o epíteto robertianum deve-se à (pouco óbvia) semelhança das suas folhas com as da erva-de-São-Roberto (Geranium robertianum).

Uma segunda espécie do género, Gymnocarpium dryopteris, está presente na Península Ibérica, também com distribuição sobretudo cantábrica e pirenaica. Os dois fetos são semelhantes no aspecto geral, mas as preferências ecológicas divergentes raras oportunidade lhes dão de se encontrarem na natureza. O G. dryopteris vive em bosques (o epíteto específico pode aliás traduzir-se por "feto dos carvalhais"), ou mais ocasionalmente em rochas sombrias e húmidas, e quase sempre em substrato silicioso. Mesmo que o habitat não deixe dúvidas sobre qual dos dois fetos temos perante nós, há um detalhe morfológico que permite distingui-los sem dificuldade: o G. robertianum, ao contrário do seu congénere, tem o pecíolo e a ráquis das folhas densamente cobertos por pêlos glandulosos (veja-se a 2.ª foto acima).

Obrigados a conviver com a neve, os dois Gymnocarpium abdicam de ter folhas durante mais de metade do ano. Elas só começam a surgir a meio da Primavera, e é no Verão, com a maturação dos esporos, que atingem o seu pleno desenvolvimento, para logo depois secarem e desaparecerem.

14.8.19

Feto lunar


Botrychium lunaria (L.) Sw.


Atingindo uns 10 a 15 cm de altura máxima, e surgindo de modo efémero entre Junho e Agosto, a parte aérea do feto-lunar (Botrychium lunaria) é formada por duas partes: uma folha (ou fronde) dividida em segmentos com o feitio de lua crescente ou minguante; e uma haste fértil em que os esporângios, pela forma e disposição, lembram um cacho de uvas (é esse precisamente o significado de botrys, palavra grega de que deriva o nome Botrychium). A mesma arquitectura básica, mas com um desenho muito diferente, é partilhada pelas línguas-de-cobra - os fetos do género Ophioglossum, de que são três as espécies espontâneas em Portugal. À afinidade morfológica junta-se a semelhança dos estilos de vida: tanto os Ophioglossum como os Botrychium são plantas vivazes que passam a maior parte da sua vida reduzidas a rizomas subterrâneos; se as condições forem desfavoráveis, podem mesmo em certos anos não emitir folhas, sobrevivendo com a ajuda dos fungos simbióticos que se lhes agarram às raízes. Os dois géneros são os únicos representantes na Europa da família Ophioglassaceae, que representa uma etapa primitiva na evolução dos pteridófitos.

Pela sua pequenez, coloração inconspícua e carácter fugidio, o feto-lunar, tal como as línguas-de-cobra, é de difícil detecção. Está contudo muito disseminado pelas zonas frias ou temperadas dos dois hemisférios, estendendo-se por toda a Europa e Ásia, pelos extremos norte e sul das Américas, pelo norte de África (montanha do Atlas), e pela Austrália e Nova Zelândia. Portugal é o único país do continente europeu onde ele nunca foi visto; em jeito de compensação, sabe-se que ocorre no Pico (no topo da montanha) e na Madeira (Encumeada). Na Península Ibérica, a julgar pelo mapa de distribuição no portal Anthos, é frequente nos Pirenéus e esporádico ao longo da cordilheira cantábrica.

Foi para remediar essa lacuna no nosso currículo de avistamentos botânicos que em Julho de 2015 rumámos à Cantábria e ao Pico Três Mares. Embora o intento saísse frustrado, a viagem foi inesquecível por muitos motivos, tanto que a repetimos em 2017 e 2018. O feto-lunar nada quis connosco, talvez porque, a 2100 metros de altitude, só em Agosto ele se dê a ver. A terceira visita, no final de Maio de 2018, tinha tudo para correr pior do que as anteriores: uma Primavera invulgarmente fria atrasara o degelo e os cumes cobertos de neve permaneciam inacessíveis. Nesse dia, acossados por chuva persistente, a nossa exploração botânica resumiu-se a umas curtas paragens em bermas de estrada. Quando revisitávamos o local onde no ano anterior víramos duas espécies de Gentiana, eis que nos surge o feto-lunar num tapete de musgos e entre tufos de Potentilla montana (espécie abundante na Cantábria). Um encontro inteiramente inesperado, a 15 km de distância e 1000 metros abaixo do local onde anteriormente o procuráramos, e para mais em zona calcária, sabendo nós que o Pico Três Mares é formado por quartzitos.

De modo que aqui está ele exibido como troféu: um único exemplar em condições de ser fotografado entre muitos outros que apenas despontavam. Gostaríamos de o ter encontrado na Madeira ou no Pico, mas quem não tem cão caça com gato e as grandes escaladas de montanha já não são para nós.

7.8.19

Palmeiras de Famara


Phoenix canariensis Chabaud
Uma vivenda à beira-mar com relvado e palmeira, mais o BMW estacionado na garagem: era esse o sonho possível de prosperidade nos anos pobretes mas alegretes das últimas décadas do século XX. Que se mantém hoje desse sonho? O BMW e a beira-mar, com certeza, mas as vivendas (ou moradias) foram substituídas por prédios de apartamentos, as palmeiras morreram todas, e os jardins (ou espaços verdes) são agora simples rectângulos de terra ressequida ao serviço dos cães e dos seus donos. Talvez não haja muito a lamentar nessa mudança. As defuntas palmeiras eram um símbolo do estatuto conquistado, e a sua presença em relvados nus e rigorosamente aparados sublinhava um enfático desinteresse por plantas e pela jardinagem em geral. Mas a nostalgia está para além da racionalidade: Miramar e Francelos sem palmeiras representam uma amputação da memória.

Por palmeira entendemos, claro está, a palmeira-das-Canárias: embora haja centenas de espécies de palmeira, várias delas cultivadas entre nós, a preponderância da Phoenix canariensis é (ou era) avassaladora. Com a chegada, na última década, do escaravelho-da-palmeira (Rhynchophorus ferrugineus), houve uma mortandade quase total nos jardins privados, esforçando-se algumas câmaras municipais por salvar os exemplares mais emblemáticos em espaços públicos.

Daqui a uns anos, com o gradual desaparecimento das palmeiras citadinas, talvez só as possamos ver se viajarmos para fora do país. E o lugar de eleição para esse reencontro é, obviamente, o arquipélago das Canárias. Afinal a palmeira é endémica dessas ilhas - e, além de a vermos plantada por todo o lado, também a encontramos em estado silvestre, formando pequenos bosques em encostas e ravinas. O temível escaravelho também chegou às Canárias, sem ter porém causado estragos muito visíveis, talvez por o combate ter sido eficaz, ou por o clima seco das ilhas não ser favorável à propagação do bicharoco.

Uma característica simpática das palmeiras-das-Canárias é que sempre acolheram de palmas abertas as pequenas herbáceas que sobre elas se quiseram instalar: fetos, dentes-de-leão, malmequeres, gramíneas... Todo um jardim clandestino em miniatura que era muitas vezes o único rasgo de cor nos manicurados jardins suburbanos. E essa índole hospitaleira da Phoenix canariensis já lhe vem de origem: nas Canárias não há palmeira, mesmo cultivada, que não tenha inquilinos. Um exemplo entre muitos é dado pelas palmeiras que ladeiam a Ermida de Las Nieves, no maciço de Famara, em Lanzarote (foto acima). Entre as plantas nelas empoleiradas detectámos quatro endémicas das Canárias, três delas exclusivas de Lanzarote e Fuerteventura.



Reichardia famarae Bramwell & G. Kunkel ex Gallego & Talavera


Os dois dentes-de-leão que se hospedaram nas palmeiras de Famara são endémicos das duas ilhas mais orientais do arquipélago, e ambos aparecem com abundância na crista rochosa de Famara, não raro em paredes perfeitamente verticais. A verticalidade do habitat disponível no espique de uma palmeira não é pois coisa que lhes cause vertigens. Talvez a maior visiblidade das plantas nas palmeiras as obrigue ao esforço suplementar de uma floração precoce, já que quando as vimos, no final de Dezembro, eram elas as únicas entre as suas iguais que estavam em flor.

A Reichardia famarae (em cima) é uma planta rasteira, glabra, com hastes florais de não mais que 15 cm de altura, quase sempre rematadas por um único capítulo, e com folhas glaucas, algo carnudas, de margens dentadas, dispostas em rosetas basais densas.

A Crepis canariensis (em baixo) tem folhas maiores, verdes, formando uma roseta mais difusa, e as suas hastes, além de pubescentes, são mais empertigadas (até 50 cm de altura) e várias vezes ramificadas.

No canto inferior esquerdo de duas das fotos espreita uma terceira endémica destas mesmas ilhas: trata-se de uma planta suculenta, o Aichryson tortuosum, que foi avaro em mostrar-nos as flores (fora de época, é verdade) e por isso apresentamos só de raspão. Bonito como todos os seus congéneres, singulariza-se por ser uma planta perene e formar tapetes rastejantes (os Aichryson mais costumeiros são plantas anuais, com hastes erectas bem individualizadas).


Crepis canariensis (Sch. Bip.) Babc.

1.8.19

Taginaste vermelho

O género Echium, de flores geralmente arroxeadas, parece ter uma relação muito proveitosa com os polinizadores, a quem decerto recompensa generosamente. Com a sua ajuda, é garantidamente um género cosmopolita. A segunda virtude que lhe notamos é uma tendência para se tornar mais bonito nos casos em que se apostaria que a colonização do novo habitat estaria condenada ao fracasso. São exemplo disso as espécies de Echium endémicas do arquipélago da Madeira; e a que lhe mostramos hoje, endemismo da ilha de Tenerife, fácil de avistar florido nas ravinas das Cañadas do Teide durante os meses de Maio e Junho.



Echium wildpretii Pearson ex Hook. f.


Há registo de uma segunda subespécie (E. wildpretii subsp. trichosiphon) na ilha de La Palma, mas aí destaca-se outro Echium gigante, o E. pininana, que ainda não conhecemos -- ignorância que abrange mais uma dezena de endemismos canarienses só neste género.

O E. wildpretii é um arbusto mas não se ramifica. Habita lugares muito quentes no Verão, com solo árido de origem vulcânica, mas tolera as temperaturas de Inverno, às vezes negativas. A sua resistência, porém, termina aí: é uma planta bienal, produzindo uma roseta basal densa de folhas longas e penugentas no primeiro ano de vida, seguindo-se-lhe as flores no início de Maio do segundo ano, e morrendo no final desse período de floração. Em Dezembro, estas hastes com cerca de 3 metros de altura já terão disseminado as sementes e, secas, parecerão caudas de raposa gigante a ondular. O epíteto específico homenageia o botânico suíço Hermann Josef Wildpret (1834-1908).

Havia bastantes abelhas a bebericar néctar nestes exemplares das fotos, só ultrapassadas em número pelos visitantes ansiosos por se fotografarem com o telemóvel ao lado destas torres magníficas de flores cor-de-salmão e estames salientes, entremeadas por inusitadas brácteas em forma de língua.

24.7.19

O tempo rasurado

Feto-do-Gerês (Woodwardia radicans) nos jardins do Palácio de Cristal, Porto (Foto: © Daniel Ferreira)

Um antiquário adquiriu por atacado o espólio de um falecido. Entre muita poeira e bricabraque, deparou-se com várias caixas de jóias e adereços femininos. Após rápido exame, atirou ao lixo um colar de ouro que, baço de sujidade, lhe pareceu de latão, e separou com amoroso cuidado, por se lhe afigurarem valiosos, uns brincos de plástico dourado com incrustações de vidro.

Negociante dessa estirpe não mereceria certamente o nome de antiquário. Desacreditado pelos seus pares e pelos seus potenciais clientes, rapidamente se veria obrigado a abandonar uma actividade para a qual não tinha a menor competência.

Os jardins do Palácio de Cristal, no Porto, estão entregues a "jardineiros" que de plantas sabem tanto como esse antiquário sabia de jóias. Move-os uma irreprimível vocação para guardar o pechisbeque e deitar fora o ouro.

A gruta de Camões, rústica estrutura de pedra e betão ao gosto oitocentista de imitação da natureza, dotada de um pequeno lago artificial para recreio dos patos, sombreada por grandes padreiros e castanheiros-da-Índia, está situada no patamar inferior dos jardins, a sul do recinto infantil. Desde há muitos anos (provavelmente desde meados do século passado) que sobre a gruta pendiam as ornamentais folhas do feto-do-Gerês (Woodwardia radicans), que, beneficiando da proximidade da água e da frescura proporcionada pelas árvores, se aclimatou perfeitamente ao lugar, lançando todos os anos abundância de folhas novas. Era um cenário artificial que evocava, de modo notável, as cascatas do Gerês ou dos Açores onde esse feto legalmente protegido em Portugal continental tem o seu habitat.

Nem a beleza do feto, nem a sua óbvia adequação ao local, nem o seu estatuto de espécie protegida: nada pôde salvá-lo da acção ignorante, cega e destruidora dos "jardineiros" do Palácio de Cristal. Na Primavera de 2018, talvez no âmbito de uma renovação de treta cujo ponto alto foi a instalação de uns pindéricos tapetes de relva para disfarçar os estragos causados pelas barracas de feira, todos os exemplares de feto-do-Gerês existentes no Palácio foram cortados e, para garantir que não voltavam, arrancados pela raiz.

A mesma mão bruta que destruiu o ouro deixa em paz o pechisbeque. Plantas invasoras como Acanthus mollis, Tradescantia fluminensis, Ailanthus altissima e Acacia melanoxylon proliferam alegremente em canteiros desmazelados. Nada se planta, nada se cultiva. A única "jardinagem" que ali se pratica, sempre com grande estardalhaço de máquinas, é o corte periódico da vegetação desordenada para que ela não ultrapasse a altura regulamentar.

É por isso moderado o nosso entusiasmo pelas obras de recuperação do Jardim Emílio David, agora em fase de conclusão. O projecto é, com toda a certeza, tecnicamente correcto e historicamente informado, respeitador do histórico jardim e das suas memórias. Mas, sem jardineiros que conheçam e estimem as plantas, que metam as mãos na terra, não haverá jardim digno desse nome, e o Jardim Emílio David recuperado pouco mais será do que uma instalação efémera.



Rhododendron maddenii Hook. f.


A herança de Emílio David não se resume ao desenho, agora escrupulosamente recuperado, dos jardins formais à entrada do Palácio de Cristal. A ele se devem também os dois bosquetes laterais compostos por árvores e arbustos das mais variadas proveniências; e, se parte desse arvoredo é de plantio posterior a 1865 (ano em que os jardins foram inaugurados), é verdade que camélias, rododendros, metrosíderos, ciprestes-de-Lawson e ginkgos denunciam pelo porte uma idade respeitável. Quem por certo lá mora desde o início é o rododendro de flores brancas e tronco avermelhado descascando-se em tiras que se esconde no bosquete do lado nascente. Rodeado que está por árvores de maior envergadura, e florindo apenas entre Maio e Junho, não espanta que este Rhododendron maddenii seja desconhecido até pelos frequentadores mais atentos do jardim.

À data da inauguração dos jardins do Palácio de Cristal, estava no auge entre a elite portuense o entusiasmo pela jardinagem e pelo coleccionismo botânico. O afamado horticultor José Marques Loureiro, estabelecido na Quinta das Virtudes, publicou o seu primeiro catálogo precisamente em 1865. A diversidade das plantas listadas para venda era simplesmente inimaginável: entre inúmeras outras plantas (árvores, arbustos, palmeiras, herbáceas, fetos...) que não cabe aqui nomear, contavam-se mais de 700 variedades de camélias, 75 de rododendros, cerca de 110 azáleas e umas 250 roseiras.

Na pág. 11 do catálogo, e entre sete "espécies novas" de Rhododendron originárias "do Assam e do Butão", aparece o R. jenkinsii, que hoje é tido como sinónimo de R. maddenii. É pois plausível que Marques Loureiro tenha fornecido o exemplar dos jardins do Palácio. Outros rododendros que ainda hoje se mantêm no recinto poderão ter passado pelas suas mãos, entre eles o vistoso Rhododendron arboreum (chamado Rhododendron windsorii no catálogo), que produz grandes cachos de flores cor-de-rosa no início da Primavera.


Polypodium cambricum num muro da Quinta da Macieirinha
A renovação do Jardim Emílio David provocou um dano colateral que pouca gente terá notado; ou, se notou, por certo não considerou importante. É que o solo debaixo dos bosquetes e junto ao gradeamento, onde crescia uma mistura rala de relva, musgos, flores miúdas e fetos, valia como testemunho da passagem dos anos. Ou, se quisermos puxar da erudição, era uma amostra, ainda que em escala diminuta, do trabalho minucioso do tempo, esse grande escultor. Viam-se lá plantas espontâneas que seriam comuns na região quando havia mais espaço para a natureza, mas que no centro da cidade faziam figura de raridades. Eram prova de que, se lhe dermos tempo (um tempo que se mede em décadas), o que é artificial acaba por ser contaminado pelo que é natural. Eis uma lista incompleta dos emissários da natureza que por lá se haviam instalado: morangueiros (Fragaria vesca), violetas silvestres (Viola riviniana), erva-toira-das-heras (Orobanche hederae), fetos variados (Polypodium cambricum, Athyrium filix-femina, Polystichum setiferum), verónicas (Veronica serpyllifolia), e diversos juncos e ciperáceas (Luzula forsteri, Carex divulsa, etc.). Esse solo velho e ricamente infectado pela natureza foi revolvido e obliterado por novas camadas de substrato com os nutrientes na proporção certa para acolher buxos, gilbardeiras e camélias. Nada temos contra esses recém-chegados, mas o tempo foi rasurado, talvez desnecessariamente, e já não estaremos cá para o ver recuperar as décadas perdidas.

17.7.19

O que o Teide tem



A maioria de nós teria decerto dificuldade em viver alguns meses ao relento sob intenso frio e neve (algo que os esquimós conseguem fazer assobiando), aguentando logo depois, e durante o resto do ano, um calor implacável e uma secura extrema (que não atrapalham quem vive junto ao Equador, a saltitar entre riachos e cachoeiras). É a mudança repentina de um regime para outro que não parece ser uma experiência inscrita nos nossos genes, para a qual tenhamos adquirido um meio rápido de adaptação. Pelo contrário, há plantas que resolveram esse problema climático, apesar da sua inexorável imobilidade, permitindo-lhe sobreviver em paragens assim hostis. E algumas até têm um aspecto bastante frágil. Ora veja.



Descurainia bourgeauana (E. Fourn.) O. E. Schulz



Nepeta teydea Webb & Berthel.


No topo da Montanha Branca, no Parque Nacional do Teide, em Tenerife, o que nos rodeia é um mar silencioso de areia cor-de-argila cuja claridade agride os olhos e, já em Maio, é insuportavelmente quente. Mas, entre pausas e muitos goles de água, conseguimos reparar que há afinal plantas tenazes que aqui vivem, e em alguns padrões curiosos: a maioria das plantas hiberna no Inverno, e a floração é curta; a ramagem nova dos raros arbustos (giestas ou retamas) forma uns almofadões densos mas rasteiros; outras plantas têm raízes longas e ondulantes que espreitam entre os torrões secos; outras apresentam folhas pequenas, cobertas de penugem, em compactos arranjos basais; e é frequente a opção de não se desfazerem das partes secas, sejam elas ramos ou cápsulas de frutos já vazias, que se inclinam para o centro da planta e aí despejam toda a água que conseguem captar. Obviamente, estes estratagemas servem para proteger as plantas de ventos fortes (como os que sopram nos desertos e que no cume do Teide são assíduos) e da elevada radiação solar, ao mesmo tempo que lhes permitem reter a humidade do ar, reduzir a perda de água por transpiração e assegurar alguma ração de água.

Terá sido um processo gradual de colonização, com sucessos e recuos. A paisagem vegetal do Teide oferece ocasião, como as ilhas Galápagos noutro século, para uma aventurosa lição (até em férias) sobre a evolução da natureza em circunstâncias adversas.