09/08/2022

Férias


regressamos a 1 de Setembro

02/08/2022

Nas montanhas, para sempre

Para alguns, a separação pelo género das crianças nas escolas primárias (e secundárias) é uma memória penosa de um tempo de preconceito, ignorância e má pedagogia. Não havia ciência, social ou psicológica, que justificasse uma tal segregação, mas muitos pais apreciavam as redomas em que então viviam as suas filhas, e não hesitavam em as resguardar em colégios internos, geridos por religiosas de rédea firme e doutoradas em castigos. Era tudo pelo bem da família, séria e virtuosa. Enquanto isso, muitas crianças noutros mundos, ditos incivilizados, viviam felizes a partilhar a escola, o ginásio, o rio, a pesca, os passeios de barco, a Coca-cola ou o sorvete ao fim da tarde, a ida ao pão de madrugada, o chapinhar na chuva grossa dos trópicos, os dias quentes e sonolentos na rede, os filmes à beira-mar. Não consta que fossem menos dotadas, ou tenham sido desafortunadas por essa infância menos vigiada.

Vem este comentário a propósito das plantas dióicas, isto é, aquelas em que as flores femininas estão em plantas distintas das masculinas. Essa separação parece desvantajosa, na capacidade reprodutiva e de disseminação, relativamente às outras plantas, sejam elas monóicas (em que cada planta gera flores femininas e masculinas, mas estas são distintas) ou com flores hermafroditas (reunindo os dois tipos, a morfologia mais frequente). Senão vejamos: (a) Não sendo possível a auto-polinização, as plantas dióicas estão menos bem preparadas para uma falha na provisão de polinizadores. (b) Só parte da população consegue produzir frutos. (c) E, sobretudo, apenas as viagens dos polinizadores das flores masculinas para as femininas permitem gerar sementes, sendo essencial que haja plantas dos dois tipos suficientemente próximas. Apesar de todos estes entraves, as espécies dióicas não desapareceram do planeta e, por vezes, até mantêm populações robustas. O que fazem para mitigar o impacto das desvantagens que listámos?

Alguns estudos revelam que as plantas dióicas têm de facto algumas cartas na manga. Por exemplo, são em geral perenes e florescem mais precocemente, isto é, demoram menos tempo a tornarem-se adultas. Desse modo, estão disponíveis para a reprodução durante mais tempo, há mais plantas a participar no processo e, talvez mais importante, produzem-se sementes antes que algum azar aconteça — estatística de oportunidades que lhes é decerto favorável. Além disso, não são caprichosas quanto ao tipo de polinizador, e estes são incentivados, e devidamente recompensados, a moverem-se das flores masculinas (em geral maiores e em arranjos mais densos) para as femininas (em indivíduos menos floridos). Os frutos, de várias sementes, são carnudos e apreciados por pássaros, que dispersam as sementes de barriguinha cheia por longas distâncias. É tanto o engenho, que até parece que as plantas, sempre tão caladas e sossegadas, passam o tempo a investigar, a experimentar e a resolver eficientemente estes problemas difíceis de sobrevivência.



A planta dióica que vos mostramos hoje é uma descoberta recente. Na semana passada, de muito calor e pouca brisa, refugiámo-nos numa montanha alta em Ourense. Peña Trevinca ultrapassa os 2100 metros de altura e, quase no cimo, o tempo estava fresco e havia ainda muitas plantas em flor. Trevinca lembra a serra da Estrela, mas parece que lá neva mais e por mais tempo, e por isso há ainda alguns habitats bem conservados.

Vimos dezenas de exemplares em flor de Gentiana luteaSilene ciliata, Eryngium duriaei e Campanula hermini, muitos tufos do feto Cryptogramma crispa, e mais umas tantas preciosidades que nos habituámos a ver na serra da Estrela. E em locais mais secos, a formar tapetes, estava a Antennaria dioica, uma asterácea minúscula (tem uns 20 cm de altura) com folhas basais acinzentadas e tomentosas. A floração já ia adiantada, e as fotos não ilustram bem as diferenças entre os dois tipos de flores, mas para o ano voltaremos a Trevinca mais cedo para registar estes pormenores: as inflorescências femininas tendem a ser rosadas, e as masculinas são mais claras, com os estames salientes (como antenas) e no topo de hastes mais curtas.

Antennaria dioica (L.) Gaertn.


Os britânicos conhecem esta espécie como mountain everlasting e também como catsfoot, porque o arranjo das flores lembra as almofadinhas que acomodam as unhas dos gatos. O género Antennaria conta com umas 50 espécies, das montanhas frias no norte da Europa, Ásia e América.

26/07/2022

Tojo mole

Genista anglica L.


Das giestas espinhosas que são espontâneas no nosso país, a Genista anglica, pela sua ramificação frágil e quebradiça, é por certo das menos agressivas. Se lhe pressionarmos os espinhos com a ponta do dedo, é mais fácil eles vergarem-se do que sermos picados. Ao contrário do que sugere certo autor, não é crível que este arbusto possa servir para aliviar a comichão do gado que nele se roce. Congéneres seus mais encorpados como a Genista falcata e a G. tricanthos, possuidores de espinhos de comprovada rigidez, estão muito mais bem equipados para tal função. Sendo a G. tricanthos conhecida como tojo-molar, parece-nos apropriado, por contraste, chamar tojo-mole à G. anglica, apesar de na nossa língua, segundo algumas fontes, ela já ser chamada de aliaga.

Noutros idiomas, também não faltam nomes comuns à G. anglica; os melhores são uñagata (em castelhano), petty whin (em inglês) e steckelheide (em alemão), ficando-se os franceses por um preguiçoso genêt anglais. Curiosamente, os ingleses, em regra tão ciosos do que é seu, prescindiram neste caso de alardear a nacionalidade inglesa que Lineu outorgou a este arbusto. O pai da taxonomia botânica travou conhecimento com esta Genista em 1736, na Holanda, no jardim do anglo-holandês George Clifford III, banqueiro rico e grande entusiasta por jardinagem. Lineu presumiu que no estado natural a planta apenas ocorresse na Grã-Bretanha, país de onde haviam sido trazidas as sementes. De facto, ela é também nativa da Europa continental, estendendo-se a sua distribuição desde a Península Ibérica até à própria Suécia, terra natal de Lineu.

O tojo-mole (ou, vá lá, a aliaga) é um arbusto de até 1 metro de altura, que se distingue pela sua ramagem fina, pelos espinhos longos e ligeiramente curvados, pelas folhas elípticas, e pelos frutos engrossados. Vive em prados ou em matos (sobretudo urzais) com alguma humidade, por vezes na faixa de transição entre urzais ou prados mais ou menos secos e zonas higro-turfosas. Por isso mesmo, no local onde o encontrámos, na região raiana de Miranda do Douro, foi possível vê-lo quase lado a lado com o tojo-gadanho (Genista falcata), que prefere substratos mais secos, e tomar boa nota das diferenças: este último, além de ser bem mais robusto, com hastes vincadamente estriadas, tem flores claramente maiores e frutos mais compridos e estreitos.

20/07/2022

Favas à francesa

Em crianças, passámos algumas tardes à volta de jogos de tabuleiro, onde a peça de cada jogador avança ou recua numa via sinuosa e colorida, repleta de bonecos que indicam ora perigos ora prémios. O percurso de cada um é ditado pelo lançamento de um dado e, portanto, estes brinquedos não exigem perícia nem talento. É necessário, isso sim, paciência e algum entusiasmo que vença o sono. Neles aprende-se que nem sempre é o mérito que garante a recompensa, ou o erro que penaliza. Aqui é o acaso que manda, mais uma entidade a ser temida na infância. Ficaram-nos na memória as inúmeras vezes em que o valor do dado, que azar, nos obrigou a recuar no percurso: um castigo duplo, porque perdemos caminho e regressamos a um local já visto. E assim nos chega, de mansinho, outra lição: é preciso sabedoria para se voltar a apreciar um lugar onde já se esteve.

Vem isto a propósito de algumas idas recentes a Mogadouro. Primeiro, em meados de Março, para procurarmos núcleos de Narcissus rupicula nos afloramentos de granito e xisto que se avistam quando nos aproximamos da cidade, alguns erguendo-se acima dos 800 m. E vimo-los, muitos e perfumados. Numa segunda visita, em Abril, fomos espreitar uma ribeira encaixada num vale de acesso fácil. Subimos uma ladeira pedregosa, a par de um rebanho de cabrinhas que fazia então vagarosamente o mesmo percurso, enquanto petiscava nos taludes salpicados de orquídeas. As cabrinhas viraram à direita, nós seguimos lestos para a esquerda, descendo finalmente até à água e a este recanto fresco de sombra e verdura.



As margens desta ribeira têm amieiros, freixos e castanheiros, ladeados por bosques mais secos de azinheiras, sobreiros e zelhas. No solo notámos logo frutos de Colchicum multiflorum aninhados nas típicas rosetas de folhas longas, muitos pés de Helleborus foetidus em flor-e-fruto, e, mais perto da água, estas plantas com folhas de margens dentadas e flores da cor do vinho-tinto.

Vicia narbonensis L.


Esta herbácea anual é frequente na região mediterrânica e grande parte da Europa (a designação específica alude a Narbonne, no sul de França), mas entre nós há poucos registos dela e, dizem, algumas ameaças. O habitat que a faveta-de-Beja (nome que a Flora Ibérica assegura ser o que cá se usa para a designar) aprecia, feito de ribeiras de água límpida aconchegadas por bosques, está a desaparecer ou a fragmentar-se. Além disso, os polinizadores mais eficientes destas fabáceas, as abelhas, também não andam com a vida tranquila. E, sobretudo, com os verões mais quentes e os invernos menos chuvosos a tornarem-se regra no nordeste do país, estes cursos de água e plantas vizinhas vivem aflitos durante quase todo o ano.

Regressámos no início de Julho à ribeira do Peso, e o cenário era outro: não havia vestígios de água, o leito estava à mostra, e a vegetação rala (ou nem tanto assim, havia muita Ballota nigra) penava, como nós, ao calor. Com sorte, voltaremos lá no fim de Setembro para ver novamente a água a correr e admirar o Colchicum em flor.

13/07/2022

Outras uvas, o mesmo mar



A penínusula de Jandía, que remata Fuerteventura pelo sul, tem um contorno que faz lembrar uma bota de cano alto, tal como o da Itália. O modelo transalpino é o mais estiloso dos dois (nem outra coisa se esperaria do país que dita a moda em calçado), mas exagera na altura do tacão e é bem menos confortável para o pé do que o modelo de sola rasa adoptado por Fuerteventura. Em contraste com a chocante agressividade da Itália, que não se cansa de pontapear a Sicília, Jandía não quer atingir nada nem ninguém, nem sequer agitar as águas mais do que o necessário para que as ondas continuem a rolar.

Tetraena gaetula (Emb. & Maire) Beier & Thulin subsp. gaetula


Pouco depois de passarmos pelo casario branco de uma aldeia piscatória, a estrada de Jandía, sempre de terra batida, termina num farol situado exactamente na biqueira de bota. Entre a esparsa vegetação que pontua a terra ressequida, e muito mais abundante do que a endémica erva-pulgueira, destaca-se um arbusto rasteiro, de folhas carnudas e avermelhadas, quase esféricas. A sua semelhança com a uva-do-mar (Tetraena fontanesii), que conhecemos de outras ilhas do arquipélago, é inegável, mas as diferenças são também claras: a planta de Jandía é de menor porte, e apresenta folhas mais pequenas e com diferente coloração. Trata-se de facto de duas espécies distintas do género Tetraena; nas ilhas Canárias, ambas são exclusivas de habitats costeiros, mas em Marrocos e na Argélia podem ocorrer em ambientes desérticos afastados do mar. Nas Canárias, a Tetraena gaetula é de longe a mais rara das duas, vivendo apenas em Fuerteventura, onde está restrita à ponta de Jandía. No aspecto geral, os exemplares canários de T. gaetula divergem de modo significativo das plantas tidas como da mesma espécie originárias do continente africano, e que são documentadas nas fotos destas páginas. Não quererá alguém averiguar se as diferenças observadas no hábito, na folhagem e na forma dos frutos se reflectem em diferenças genéticas, merecendo por isso adequado reconhecimento taxonómico?

Até 2003, ano em que foi publicado um artigo por dois botânicos suecos e um inglês propondo uma reorganização da família Zygophyllaceae, quase todas as espécies hoje incluídas no género Tetraena pertenciam ao género Zygophyllum. Tetraena era até essa data um género mono-específico: o seu único membro, T. mongolica, provinha das estepes da Ásia central. Com a nova circunscrição, passou a ser um género maioritariamente africano: das 40 espécies reconhecidas, só duas são asiáticas, e as restantes distribuem-se desde o norte de África e o médio Oriente até à África do Sul, havendo apenas uma (T. alba, presente em Espanha e na Grécia) que consegue atravessar o Mediterrâneo e pôr um pé na Europa.

06/07/2022

A melhor árvore para o seu deserto

As ilhas Canárias, tal como as do arquipélago da Madeira, são poiso de muitas margaridas, distribuídas por vários géneros, alguns endémicos. Mas a que lhe mostramos hoje é especial. Ora veja se concorda.


Kleinia neriifolia Haw.


Parece um cacto, por ter folhas suculentas (de largura variável conforme as ilhas) e ramos articulados (lembrando os dragoeiros), grossos e nodosos. É um arbusto alto (pode atingir os 3 metros), perene, embora de folhagem caduca: depois da floração, fase muito perfumada entre Agosto e Novembro, muda bastante de aspecto. As folhas são coriáceas e sésseis, formando rosetas verdes no topo dos ramos, caindo no início da estação mais seca. As inflorescências em corimbos terminais, com um pé longo, agrupam inúmeras florinhas tubulares de um tom geral amarelo pálido, com corolas brancas de cinco pétalas. Os aquénios (estruturas modificadas, semelhantes a pára-quedas para facilitar a dispersão das sementes pelo vento) são tantos e tão aveludados que, antes de se desprenderem, dir-se-ia que a planta agarrou uma nuvem com que cobre a cabeça.

Esta espécie ocorre em todas as ilhas das Canárias e é muito frequente nas zonas costeiras. Aprecia ravinas pedregosas com clima semi-árido, entre os 50 e os 1000 metros de altitude, mas pequenas variações da temperatura. Crê-se que vive só de ar, mas as raízes são longas e não desperdiçam nenhuma da água que se acumula nas fissuras das rochas.

Quererá agora o leitor voltar às fotos acima para conferir estes detalhes? Está bem, nós esperamos.

O nome do género é dedicado a Jakob Theodor Klein (1685-1759), um botânico alemão que criou uma classificação controversa para os organismos vivos (enfim, alguns animais) baseada em características morfológicas simples e fáceis de detectar (número de patas, e assim), e que, com o trabalho mais científico e metódico de Lineu, caiu no esquecimento. Para nós, matemáticos, a Kleinia bem poderia ser uma homenagem ao geómetra Felix Klein (1849-1925), autor de uma teoria unificada em Geometria, entre muitos outros contributos matemáticos, e também da famosa superfície não orientável conhecida como garrafa de Klein.

28/06/2022

Estrela sedosa

Asteriscus sericeus (L. f.) DC.


Cada ilha deveria ter a sua estrela, e só mereceria encontrá-la quem para isso não se poupasse a esforços, estudando mapas e guiando-se por bússolas nos difíceis e pedregosos caminhos que a ela conduzissem. Por culpa da poluição luminosa que afecta as nossas urbes, quem queira ver as estrelas do céu tem também que demandar lugares remotos e isolados. Só que aqui falamos das estrelas da terra — mais precisamente, das plantas arbustivas do género Asteriscus existentes nas Canárias, que têm uma repartição por ilhas muito desigual. Fuerteventura e Lanzarote contam cada uma com a sua estrela endémica (Asteriscus sericeus na primeira, Asteriscus intermedius na segunda) e partilham entre si uma terceira estrela, Asteriscus schultzii, que também ilumina os desertos de Marrocos; e só uma das restantes ilhas, Grã-Canária, teve direito a uma estrela própria, Astericus graveolens, ainda que dividida em duas subespécies.

Embora a estrela-marroquina (Asteriscus schultzii), com os seus capítulos inesperadamente brancos, suscite a simpatia geral, a opinião maioritária é que a estrela-sedosa (tradução possível para Astreriscus sericeus), hoje no escaparate, é a mais bonita de todas. As flores, produzidas com abundância ao longo da Primavera, são vistosas, duas vezes maiores do que as da concorrência, e as folhas, de um verde acetinado, são largas, formando rosetas perfeitamente simétricas nas extremidades dos galhos. A planta é robusta e encorpada, alcançando por vezes um metro de altura, mas sem nunca perder o característico porte arredondado. Graças a estas qualidades, foi ela a única, entre as suas congéneres canarinas, a entrar no comércio hortícola internacional e a conquistar lugar de relevo em jardins de muitos países. Pena é que o nome de exportação que lhe arranjaram (Canary Island Daisy) seja tão vago e desinspirado: serão mais de meia centena as espécies de asteráceas endémicas das Canárias às quais o mesmo nome não assentaria pior.

Assim, não é de facto necessário ir a Fuerteventura para admirarmos o Asteriscus sericeus e lhe passarmos a mão pelas folhagem sedosa enquanto lhe aspiramos o perfume (sim, é verdade: ele também se notabiliza pela fragrância). Mesmo nas Canárias, é possível encontrá-lo noutras ilhas (Grã-Canaria, Tenerife, El Hierro) onde foi introduzido e se naturalizou, talvez para que Fuerteventura não tivesse o exclusivo de tão forte chamariz turístico. E os que preferem jogo limpo, insistindo em visitar Fuerteventura, têm ainda assim quem teime em facilitar-lhes a vida, plantando profusamente A. sericeus em jardins e bermas de estrada. Nós recusámos asceticamente ser seduzidos por plantas domesticadas, e fomos aos cumes da ilha visitar o A. sericeus no seu habitat. Só que nada tem de heróico ascender ao Morro Velosa, em Betancuria, havendo uma estrada muito confortável que nos conduz até ao topo. E seria lá — e não no Pico da Zarza, cuja conquista não foi moleza — que a estrela-sedosa se nos apresentaria florida e fotogénica. Fora de época, é verdade, mas ficou-nos a lição de que nem sempre um esforço maior se traduz em recompensa acrescida.

21/06/2022

Amarelos de Fuerteventura



A quem procura plantas à beira-mar, de olhar curioso e máquina fotográfica pronta, exige-se uma desatenção instruída. É que os veraneantes, em geral em trajes sumários, podem presumir que o fotógrafo está à procura de imagens suas, talvez para divulgar em poucos minutos nas redes sociais — e isso seria uma desgraça. Curiosamente, muitos deles ter-se-ão fotografado mal chegaram à praia, antes e depois do primeiro banho de mar, sem receio de expor a sua privacidade a olhares alheios. Mas fizeram-no em pose, como heróis felizardos, não como gente real que sacode a areia dos pés e a quem o vento desajeita o cabelo. Em fotos muito antigas, também adultos e crianças surgem com postura afectada, em formação quase militar. Mas não se vê um sorriso, tal é o receio de que a foto, incapaz de mentir, revele algum segredo. Uns chegaram ao futuro com ar ponderado e maduro, e a foto é um recado aos descendentes; os outros só querem fazer inveja aos demais. O improviso, que se diria garantia do que é genuíno em fotografia, parece ter perdido de vez a pertinência.



Na praia de La Pared, na costa oeste de Fuerteventura, o fotógrafo pode esquecer-se destes melindres, e até das pessoas. Depois de estacionarmos o carro junto às poucas casas, bem afastadas do mar, que servem pescadores e turistas, seguimos pela praia extensa de areia fina, com dunas tão altas e barrigudas que não nos cruzamos com ninguém em quilómetros de passeio. Pudemos, assim, apreciar calmamente os detalhes desta asterácea endémica de Fuerteventura e do sudoeste de Marrocos.

Pulicaria burchardii Hutch.


As plantas do género Pulicaria têm inflorescências muito elegantes: ao contrário das margaridas mais comuns, as lígulas (falsas pétalas) são fininhas e de cor amarelo-pálido; no centro do capítulo, onde se reúnem os florículos, o tom que domina é de um amarelo mais intenso e fácil de detectar. Como aqui lhe contámos, o arquipélago das Canárias foi bafejado com um endemismo excluivo no género Pulicaria, que só ocorre em Fuerteventura e Lanzarote. Difere bastante da P. buchardii, que é quase um arbusto, com folhas lineares e lanuginosas, de um tom prateado que não é raro em plantas à beira-mar. Forma coxins compactos, cujos talos laterais se enterram firmemente na areia — para ajudar à pose.

14/06/2022

Pseudo-estrela do monte Sinai



Uma extensão de terra ressequida, sem ponta de vegetação, é muitas vezes o esconderijo onde as sementes aguardam meses ou anos pela humidade que as fará despertar. Em Fuerteventura, essa inesperada eclosão pode dar-se em qualquer época do ano e em qualquer recanto da ilha, pois as plantas anuais só cuidam da sua sobrevivência e não se guiam pelo calendário. Quem conduza pelas estradas da ilha deve por isso prestar atenção às raras manchas de cor que, nas bermas, assinalam as plantas que lograram tirar proveito da presença efémera da água. Ainda que nem todos os condutores respeitem esses sinais de trânsito, nós não hesitamos em acatar-lhes as ordens, parando de imediato o carro e procedendo ao inventário da vegetação presente no local.

Desta vez o sinal que nos obrigou a parar era violeta e estendia-se ao longo de dezenas de metros por uma vala deixada pela passagem de maquinaria pesada — talvez as mesmas escavadoras com que, uns quilómetros adiante, se faziam obras de alargamento da via. Em vez de configurar um acto de destruição, essa cicatriz na berma da estrada favoreceu a acumulação de água e deu ímpeto à vida vegetal. Mesmo em Dezembro, as plantas não se fizeram rogadas: o tapete arroxeado era obra da Matthiola bolleana — que, fosse ela planta obediente, respeitadora dos manuais botânicos e da erudição de quem os escreve, só deveria florir de Fevereiro em diante. Quando as obras rodoviárias estiverem concluídas, talvez este precário habitat tenha deixado de existir; mas, entretanto, muitas sementes foram deitadas à terra, e elas saberão espreitar a sua oportunidade, aqui ou umas centenas de metros ao lado.

Astragalus sinaicus Boiss.


A essas assembleias de pequenas herbáceas, que aparecem num ápice e desaparecem sem deixar rasto, dão os botânicos o pitoresco nome de "comunidade de terófitos", sendo "terófito" o modo erudito, derivado do grego, de designar uma planta anual. Diversos terófitos menos vistosos faziam companhia à Matthiola, entre eles uma leguminosa rasteira, muito peluda, que, a julgar pelas folhas imparipinadas e com numerosos folíolos, seria certamente um Astragalus; confirmámos depois tratar-se do A. sinaicus. O género Astragalus é predominantemente mediterrânico, contando com uma dúzia de representantes no nosso país, a maioria deles raros (como o A. glaux) ou de distribuição restrita (como o A. tragacantha). Quase todas as espécies de Astragalus nas Canárias são igualmente mediterrânicas, e o A. sinaicus não é excepção. Ainda que o seu epíteto específico aluda ao monte Sinai, no Egipto, a planta ocorre sobretudo na costa europeia do Mediterrâneo oriental, dos Balcãs à Turquia.

O Astragalus sinaicus exibe fortes semelhanças com o A. stella, que tem uma distribuição mais ocidental, estendida à Península Ibérica e a Portugal. Tanto no A. stella como no A. sinaicus (que já se chamou A. pseudostella), as folhas são densamente peludas e os frutos dispõem-se em estrela, o que é motivo para as duas espécies serem reiteradamente confundidas. Para potenciar a confusão, ambas ocorrem, nas Canárias, exactamente nas mesmas duas ilhas (Lanzarote e Fuerteventura), e frequentam os mesmos habitats áridos. Há, contudo, uma diferença evidente entre elas: as inflorescências do A. stella são sustentadas por pedúnculos muito compridos, enquanto que as do A. sinaicus são quase sésseis.

01/06/2022

Erva-negra

Bupleurum semicompositum L.


Viajar para encontrar o mesmo é a sina de todos nós na era da globalização: as mesmas vozes nos altifalantes dos aeroportos, as mesmas cadeias de restaurantes e cafetarias, os mesmos supermercados com iguais produtos nas prateleiras, o mesmo mar desenrolando as ondas em areais onde preguiçam banhistas indiferenciados, as mesmas palmeiras namorando um pôr-do-sol de postal ilustrado em idênticas esplanadas à beira-mar. E até as plantas, se não nos esforçarmos por romper a barreira da mesmice, se repetem com imperturbável desprezo pelas variações de latitude e longitude. Há plantas que são invasoras globais (como a Lantana camara), outras que se fizeram cosmopolitas pela predilecção que têm por lugares humanizados (como o rícino [Ricinus communis], a beldroega [Portulaca oleracea] e a erva-azeda [Oxalis corniculata]), e outras ainda que, tidas como bonitas e fáceis de propagar, são usadas por jardineiros indolentes em todos os cantos do mundo (como as hortênsias, os agapantos e as estrelícias). A uma quarta categoria, mais simpática, pertencem aquelas plantas que lograram alcançar ampla distribuição sem a nossa ajuda. Uma das campeãs indiscutíveis é a avenca [Adiantum capillus-veneris], nativa de climas temperados, subtropicais ou tropicais em todos os continentes habitados.

O género Bupleurum — que é atípico dentro da família das umbelíferas pelas suas folhas simples, lanceoladas — não tem grande vocação para cosmopolitismos: integra centena e meia de espécies, quase todas no hemisfério norte (com uma excepção), a maioria na Ásia ou nos países mediterrânicos (Europa e norte de África), e muitas delas endémicas de áreas restritas. Até em Portugal tivemos direito a um Bupleurum endémico: vive na serra do Cercal, e aguarda há vinte anos a validação de «estudos recentes» que o dão como exclusivo dessa faixa do sudoeste alentejano. O porte destas plantas é extremamente variado: há espécies arbustivas — como o B. fruticosum em Portugal continental, e o B. salicifolium na Madeira e nas Canárias —, há herbáceas perenes de aspecto robusto, e há ervas anuais pequenas ou minúsculas. O Bupleurum semicompositum, que fotografámos em Fuerteventura, é uma planta anual rasteira e pouco conspícua; mas, como costuma frequentar zonas de vegetação rala, não é difícil de detectar. O que a notabiliza é fazer o pleno da bacia mediterrânica, incluindo o sul de Portugal, e, além disso, ainda surgir em seis das ilhas Canárias — onde, até hoje, só não foi observada em La Palma.

Talvez a facilidade de deslocação de que o Bupleurum semicompositum deu provas se deva às dimensões microscópicas das suas sementes: cada fruto não tem mais que 1,5 mm de diâmetro, e as flores, que se reúnem em grupos de seis a nove e têm pétalas amarelas ou esverdeadas, ficam-se por igual tamanho. Ainda assim, com o seu hábito prostrado e muito ramificado, a planta pode exceder os 30 cm de comprimento, resgatando-se desse modo da invisibilidade que aflige, por exemplo, o B. tenuissimum. Folhas e caules são glabros, de cor glauca, de modo nenhum enegrecidos. Por que misteriosa razão se chamará ela hierba negrilla nas Canárias?

27/05/2022

Limónios da ilha dos Lobos

A nordeste de Fuerteventura, a cerca de 2km de distância, pode avistar-se uma ilhota arredondada que actualmente não tem habitantes permanentes. Já os teve, a maioria deles pescadores e respectivas famílias, que competiam pela apanha do peixe e moluscos com uma população muito numerosa de lobos-marinhos (de nome científico Monachus monachus). Além de comerem bastante (os adultos medem cerca de 3 metros e pesam uns 300 quilos), estas focas dóceis gostam de dormir em sossego e de relaxar ao sol em praias remotas, sem intrusos nem ruído. E precisam de grutas não perturbadas para cuidar das crias, em locais muitas vezes assolados por ventanias e ondas de mar agitado. Juntemos a este começo de vida rodeado de perigos o apreço durante séculos pela pele, carne e gordura destas focas, e não nos surpreendemos com o resultado desta disputa de terreno, bens e alimentos entre humanos e focas: na ilha dos Lobos não resta hoje nenhum lobo-marinho. A população desta espécie no Atlântico, que se distribuía pelas costas do Norte de África e arquipélagos da Madeira, Canárias e Açores, conta agora com apenas duas colónias, uma delas na Madeira, com não mais do que 120 focas no total. E a população mundial da foca-monge não augura nada de bom: só tem núcleos pequenos e muito distantes entre si, todos em declínio.



Não fomos, portanto, à ilha dos Lobos para ver os lobos-marinhos. A razão foi outra: nas lagoas do interior da ilha vive a única população conhecida deste endemismo canariense.

Limonium bollei (Wangerin) Erben


O impacto de visitantes à ilha dos Lobos é hoje controlado. O acesso faz-se de barco (alguns de fundo transparente) a partir do porto de Corralejo, em Fuerteventura, e há um limite diário de visitantes. Cada um recebe dois bilhetes numerados (de cores distintas, para se reduzirem os enganos), um dos quais deve ser entregue à chegada à ilha e outro à saída; deste modo, os vigilantes sabem quantos turistas estão em cada momento na ilha e garantem que nenhum fica a pernoitar nela sem licença. Os trilhos são extensos, mas somos recordados a cada passo da proibição de sairmos deles ou de fazermos demasiado ruído. E, claro, há locais de acesso vedado, especialmente em períodos de nidificação de aves.

As Canárias são abrigo de cerca de 20 espécies endémicas de Limonium, quase todas raras e ameaçadas pela destruição do habitat e pela colheita das flores — que, além de serem vistosas (de cálice azul-violeta e corola brancas ou rosa), se mantêm bonitas por muito tempo depois de secas. O L. bollei, que aprecia arribas, areias e sapais junto ao mar, floresce entre Março e Setembro, e a haste floral tem cerca de 40cm de altura. O formato das flores não difere muito do de outras espécies de Limonium, e é pelas folhas que melhor elas se distinguem. Atente nesse pormenor ao comparar o L. bollei com o Limonium arbustivo das fotos seguintes, muito ramificado, quase sem folhas e com inflorescências longas.

Limonium tuberculatum (Boiss.) Kuntze


Do L. tuberculatum, de cuja presença há também registo no norte de África e em Cabo Verde, só se conhece hoje nas Canárias a população da ilha dos Lobos.