18.9.18

Douradinha dourada



Ceterach aureum (Cav.) Buch [sinónimo: Asplenium aureum Cav.]



Apesar de ele ser mais prateado do que dourado, douradinha é o nome que em Portugal se dá ao Ceterach officinarum, um feto que aparece de norte a sul do país e é particularmente abundante em rochas e paredes calcárias. A Madeira tem a sua própria versão do feto em formato avantajado: leva o nome de Ceterach lolegnamense e vive na vertente sul da ilha, sobre velhos muros ladeando as íngremes estradas em redor do Funchal. Já aqui lhe dedicámos desenvolvida reportagem; demos então conta de que ele vivia separado dos seus presumíveis pais, Ceterach aureum e Ceterach octoploideum, ambos endémicos das Canárias. De uma espécie gerada por hibridação e poliploidia, espera-se que reúna os cromossomas dos dois progenitores. Sendo o C. aureum um tetraplóide e o C. octoploideum um octoplóide, deveria o Ceterach lolegnamense ser dodecaplóide, mas afinal fez a coisa por metade e ficou-se como hexaplóide. As leis da genética condenavam-no à esterilidade, mas os seus gametófitos praticam a apomixia - ou seja, dispensam a fecundação para produzir novas plantas - e desse modo a espécie logrou perpetuar-se.

Na nossa visita a Tenerife apenas se nos mostrou um dos progenitores do feto madeirense, precisamente o Ceterach aureum, que é o maior dos dois e em tamanho excede claramente o C. lolegnamense. A ecologia do feto canarino é assaz diferente da dos seus congéneres, procurando ele lugares abrigados e húmidos, muitas vezes em ambiente florestal. É um tipo de habitat que é bem menos frequente nas Canárias do que na Madeira ou nos Açores, e daí que o Ceterach aureum, ou douradinha dourada, não seja fácil de encontrar. Vimo-lo apenas no barranco de Añavingo, vicejando na frescura possível de um fim de ano cálido.

O tamanho não nos deixou dúvidas quanto à identidade do feto, mas o caso mudaria de figura se tivéssemos deparado com um feto mais débil. Estando nós mal equipados para contar cromossomas, e de um modo geral para executar tarefas microscópicas, ver-nos-íamos em maus lençóis para distinguir o C. officinarum do C. octoploideum, sendo certo que ambos ocorrem nas Canárias. De facto, e como se conta no artigo (de 2006) Asplenium ceterach and A. octoploideum on the Canary Islands (Aspleniaceae, Pteridophyta), já há muito se haviam detectado nas Canárias duas formas do Caterach, tidas as duas como variedades do C. aureum, e sendo a forma mais pequena chamada de C. aureum var. parvifolium. Essa variedade parvifolium seria octoplóide, e a variedade nominal tetraplóide. O estudo dos autores do artigo revelou porém que muitos dos exemplares atribuíveis à variedade parvifolium eram na verdade tetraplóides, e correspondiam, tanto morfológica como geneticamente, ao exacto Ceterach officinarum do continente europeu. Pior ainda: verificou-se que o holótipo da variedade parvifolium era um exemplar de Ceterach officinarum, o que automaticamente fazia com que C. aureum var. parvifolium e C. officinarum fossem sinónimos. Assim, esse estudo, além de estabelecer a existência de três formas de Ceterach nas Canárias, revelou que uma delas (a forma pequena octoplóide) não dispunha ainda de nome válido, e daí terem-na os autores baptizado como C. octoploideum.


11.9.18

Uma alface na estrada do Teno



Astydamia latifolia (L. f.) Baill.



Na mitologia grega, Astydamia é uma ninfa, filha do deus Oceanus. Nome escolhido pelo botânico suíço Augustin Pyramus de Candolle e sem dúvida apropriado à planta que hoje vos mostramos (primeiramente descrita como Crithmum latifolium por Lineu filho), pois ela aprecia precisamente lugares rochosos salpicados de mar. Conhecida como espécie endémica do noroeste de África e ilhas Canárias, foi depois encontrada também nas Selvagens, as ilhas do arquipélago da Madeira mais próximas de África. Da família Apiaceae, a mesma do aipo, funcho, coentros e cenouras, esta herbácea é robusta, de folhas suculentas e talos lenhosos, e tolera grandes concentrações de sal e maresia. As flores são pequeninas, de pétalas amarelas com pontas recurvadas e sépalas com textura de papel que caem antes de as flores desabrocharem. Estas são hermafroditas mas apresentam algum dimorfismo, dispondo-se em geral no bordo da umbela as mais vistosas e funcionalmente masculinas. O fruto é um invólucro com uma tampinha, da cor da cortiça quando maduro.

A Astydamia latifolia é frequente na região costeira de Tenerife, e fomos conhecê-la num sábado morno de Dezembro. Sem o prevermos, começámos o passeio junto a uma cancela provisória bem guardada por um agente da autoridade. Informou-nos, em tom de proprietário, que aos sábados e domingos se vedava aquele percurso ao trânsito automóvel até ao fim da tarde. Creio que nunca nos soube tão bem largar ali o carro e percorrer a pé vários quilómetros sem que o bulício de viaturas se intrometesse com a nossa caminhada. Acedia-se à ponta da ilha onde é fácil fotografar a alface-do-mar por uma longa estrada sempre a subir, seguida de um túnel que desembocava numa outra via mais estreita mas igualmente extensa, ladeada por taludes abruptos até ao mar. No túnel, só alumiado quando o trânsito circula, ouviam-se ruídos que o medo logo associou a morcegos ou vingativos adamastores. Mas eram pássaros, osguinhas e borboletas, e à saída esperava-nos um habitat onde gastámos sem pressa várias horas. Levará meses até que consigamos revelar-vos todas as plantas extraordinárias que por lá observámos.

4.9.18

Lábios pulcros


Cheilanthes pulchella Willd.



Noutras eras geológicas, há seis ou sete milhões de anos, este feto terá existido na Europa e no norte de África, mas foi expulso pela clima progressivamente mais árido e frio da última etapa do Mioceno, com o mar Mediterrâneo secando quase por completo e convertendo-se num deserto salobro. Refugiou-se nas Canárias, onde ficou a salvo das glaciações que atingiram o continente europeu, e onde hoje está presente em cinco das sete ilhas: Grã-Canária, Tenerife, El Hierro, La Palma e La Gomera. Com base num único exemplar de herbário de origem duvidosa, colhido em 1810 talvez na província galega de Orense, várias vezes se alegou a sua existência na Península Ibérica, mas esse improvável encontro (erro de atribuição ou canto do cisne?) nunca se repetiu. A sua presença na Madeira, que seria menos estranha, também está minada por dúvidas, e por isso é apropriado considerar o Cheilanthes pulchella como um endemismo canário, pese embora a sua presumível origem noutras paragens. Antes de migrar para as Canárias terá produzido descendência, desse modo perpetuando os seus genes no continente europeu: juntamente com o C. maderensis, é um dos progenitores do C. guanchica, um feto que em Portugal continental ocorre apenas na serra de Mochique.

O epíteto pulchella pode, em português refinado, traduzir-se por pulcro, e é forçoso admitir que este Cheilanthes pulchella suplanta em beleza qualquer um dos seus cinco congéneres em territónio nacional. As suas folhas têm um desenho mais elaborado, executado por uma mão mais firme, sem as rugosidades e hesitações que maculam as outras espécies. São também maiores, amiúde com porte erecto e crescendo a descoberto, tendo assim melhores oportunidades para se mostrarem do que as que se escondem em fendas de rochas.

O Cheilanthes pulchella dá-se bem com a secura, mas não tolera o frio. Nas Canárias vive sobre rochas vulcânicas, em lugares onde a chuva quase nunca cai; as brisas que pela manhã sopram do mar parecem trazer-lhe humidade que baste. Em Tenerife, nas bermas da estrada que sobe para a montanha do Teide, começa a ver-se a uns mil metros de altitude, num solo caótico formado por calhaus e fragmentos de rocha que dir-se-ia terem sido passados numa trituradora. O coberto arbóreo, que se diria impossível em tal substrato e em tais condições de secura, é composto exclusivamente por pinheiros-das-Canárias (Pinus canariensis). Ao Cheilanthes pulchella juntam-se alguns raros arbustos e outros dois fetos xerófilos, Notholaena marantaea subsp. subcordata e Cosentinia vellea, na tarefa ingrata de pincelar de verde esta paisagem em tons de castanho e cinzento.

28.8.18

Canarina

Apesar de persistir alguma controvérsia, os estudos geológicos parecem confirmar que algumas das ilhas Canárias se originaram em vulcões no Atlântico, não tendo sido nunca parte do continente africano. Mas Lanzarote e Fuerteventura, pelo menos, terão sido território do norte de África. Certo é que são todas ilhas muito antigas, onde se refugiaram espécies que foram frequentes há milhões de anos na região que hoje margina o mar Mediterrâneo ou no norte de África, e que actualmente só se encontram nos bosques de laurissilva dos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias. Nestas ilhas, ficaram a salvo dos períodos glaciares e outras mudanças climáticas drásticas a norte, e da secura e aridez que se foi instalando a sul. Segundo David e Zoe Bramwell, autores da obra Flores Silvestres de las Islas Canarias, algumas das espécies endémicas destas ilhas têm actualmente os seus parentes mais próximos no sul de Espanha e em Portugal (entre eles contam-se Laurus nobilis, Prunus lusitanica e Convolvulus fernandesii) ou, não sendo endémicas, têm populações residuais na Península Ibérica (exemplos: Myrica faia e Woodwardia radicans); e outras endémicas insulares pouco diferem de espécies que ocorrem em florestas e montanhas africanas. Talvez a planta que agora vos mostramos seja uma dessas relíquias da flora que outrora verdejaram na região hoje ocupada pelo deserto do Sáara.

Canarina canariensis (L.) Vatke



Tal como acontece com a Azorina vidalii, espécie única do género Azorina e que só ocorre nos Açores, e do género Musschia, que existe somente na Madeira e Desertas e de que há registo de três espécies, também as ilhas Canárias têm a sua quota de campanuláceas endémicas. A Canarina canariensis é uma trepadeira glabra da floresta laurissilva, relativamente comum nos bosques frescos (mas raramente frios), húmidos e quase sempre enublados das partes altas destas ilhas. As flores, raiadas de vermelho e polinizadas por pássaros, têm cerca de 7 cm de comprimento. Os parentes em África apresentam semelhanças notórias: veja, por exemplo, aqui imagens da Canarina eminii, que se distingue essencialmente pela cor das flores da também africana Canarina abyssinica.

Como se tivesse memória dessa conexão africana, a C. canariensis floresce entre Novembro e Janeiro, enquanto na África meridional é Primavera ou se inicia o Verão. Hiberna entre Maio e Setembro, sobrevivendo das reservas de nutrientes que guardou em vigorosos tubérculos nas raízes, lançando anualmente um novo talo que pode atingir os 3 metros. O fruto é uma baga carnuda, escura quando madura, que é comestível e, asseguram, doce.

14.8.18

A confusão dos dentes-de-leão



Hieracium amplexicaule L.



Antes que o nomadismo (ainda que virtual) nos arraste para outras paragens, não ficaria completo este breve regresso ao Gerês se não nos detivéssemos num dente-de-leão. Nem só de caviar vive o homem, e um aspirante a botânico não pode atentar apenas nas plantas prestigiadas por uma aura de beleza ou raridade. Numa abordagem imediata, avessa a subtilezas, diríamos que os dentes-de-leão nada têm de raro. Quanto à beleza, depende de quem vê, pois há gostos para tudo. Se eles vivem em relvados urbanos, despontam entre as rachas dos passeios, proliferam em terrenos baldios e em jardins mal amanhados, e conseguem ainda aparecer em bosques, prados e praias, não parece que tenham a sobrevivência ameaçada.

Acontece que, nessa designação imprecisa de dentes-de-leão, cabem coisas muito diversas: a saber, todas as (inúmeras) asteráceas de capítulos amarelos em que estes são compostos apenas por florículos ligulados - não havendo, como nas margaridas (outro nome demasiado abrangente), uma diferença clara entre os florículos que formam o disco central e aqueles que dão as "pétalas". Os dentes-de-leão mais frequentes em ambientes ruderais pertencem aos géneros Taraxacum, Leontodon, Hypochaeris, Sonchus e Crepis. Mesmo dentro destes géneros mal-afamados há espécies que frequentam ambientes mais selectos (como o Crepis lampsanoides, que aparece em carvalhais) e outras que, tendo-se desenvolvido em habitats peculiares, alcançaram inegável prestígio: no género Leontodon há três formosos endemismos açorianos; e, na Madeira e nas Canárias, os Sonchus cresceram e multiplicaram-se até ficarem irreconhecíveis, com muitas espécies transformando-se em árvores.

O dente-de-leão que fotografámos entre as rochas, no estradão dos Carris, pertence ao género Hieracium, famoso pela sua dificuldade. É um género em que os não-especialistas se devem abster de dar palpites sobre a identificação das espécies. Certezas? Só aquelas que a alegre inconsciência permite, e por isso apenas ao alcance dos principiantes mais absolutos.

Bem prega Frei Tomás, pois afinal as fotos vêm etiquetadas como sendo do Hieracium amplexicaule. Se o escriba não tem certezas, arroga-se pelo menos o direito de mandar palpites. Como desculpá-lo? Das cerca de seiscentas espécies de Hieracium que se admite ocorrerem na Península Ibérica, os especialistas identificaram umas 26 principais que por sucessivos cruzamentos terão dado origem a todas as outras. Cada espécie principal estaria assim rodeada por uma constelação de espécies secundárias semelhantes em cuja progenitura esteve envolvida. Entre as espécies principais, o Hieracium amplexicaule é distintivo por ser densamente glanduloso em todas as suas partes (o que o torna muito pegajoso), e por ter as folhas superiores abraçando o caule (é esse o significado de amplexicaule). A espécie vive em zonas pedregosas de montanha, descrição que encaixa sem favor no habitat ocupado pela planta geresiana, ajudando a reforçar o palpite. As dimensões também parecem correctas, atingindo o H. amplexicaule uns 40 cm de altura máxima (ou, excepcionalmente, até 55 cm).

Assim, se a planta do Gerês não for H. amplexicaule, será pelo menos filha ou neta dessa espécie -- ou talvez filha e neta, pois vergonha é coisa que as plantas desconhecem. Está em flor em meados de Junho. Também a vimos, ou ingenuamente a julgámos ver, no topo da serra do Marão, florescendo aí umas semanas mais tarde.

31.7.18

Um funcho cabeludo


Ferulago capillaris (Link ex Spreng.) Cout.




As piscinas do rio Homem, de água límpida escoando-se devagar entre grandes blocos rochosos, são um poiso favorito para quem no Verão demanda o Gerês em busca de frescura. Há que pagar (por duas vezes) um euro de portagem e fazer a pé os 700 metros desde a Portela do Homem, onde deixamos o carro, até à ponte sobre o rio, onde nos debruçamos para a foto obrigatória. O acesso às piscinas faz-se logo ali. Se o fôlego e o calçado o permitirem (andar de chinelos num caminho pedregoso e esburacado não é boa ideia), podemos subir umas centenas de metros pelo estradão dos Carris e alcançar uma piscina longe das multidões.

O vale do rio Homem é muito verde, mas os carvalhos, azevinhos, bétulas, pereiras-silvestres, medronheiros e tramazeiras vão-se fazendo esparsos à medida que subimos, até que predominam os matos de giesta, urze e carqueja. As rochas por onde o rio se espreguiça dão abrigo a uma vegetação herbácea e arbustiva rica em raridades: Amelanchier ovalis, Narthecium ossifragum, Vincetoxicum hirundinaria e, não menos importante, uma umbelífera, Ferulago capillaris, a que os mais distraídos chamarão funcho. Confusão compreensível atendendo às flores amarelas e às folhas muito recortadas, mas rapidamente desmentida pelo olfacto: o Ferulago capillaris não tem cheiro digno de nota. (Antes usar o olfacto do que o paladar: mordiscar uma planta que desconhecemos pode fazer mal à saúde.) Os olhos também podem contribuir para desfazer o equívoco: o funcho propriamente dito (Foeniculum vulgare) é uma planta esguia e desgrenhada, com umbelas muito mais ralas. O Ferulago capillaris, capaz de ultrapassar 1,5 m de altura, tem uma haste robusta e erecta, ramificada apenas na parte superior, que é encimada por várias umbelas, a principal das quais formada por 20 a 40 raios, cada um deles sustentando cerca de dezena e meia de flores.

Tão fácil de ver no vale superior do rio Homem, é uma surpresa aprendermos que este robusto pseudo-funcho talvez não ocorra em nenhum outro ponto do Gerês e que, fora do Parque Nacional, só se sabe dele em meia dúzia de lugares em Trás-os-Montes e na Beira Alta. Endémico da Península Ibérica, o Ferulago capillaris não abunda nem em Portugal nem em Espanha: no país vizinho é mais frequente na serra de Gredos, parte de cadeia montanhosa que tem o seu limite oeste na serra da Estrela. Do género Ferulago conhecem-se mais três espécies na Península Ibérica, todas elas endémicas: F. brachyloba, F. granatensis e F. ternatifolia. A crer nos mapas de distribuição no portal Anthos, são todas de distribuição muito restrita.

24.7.18

Flores de cera


Ceropegia dichotoma Haw.



Há muito que o homem entortou a Natureza.
Porque o homem pensa a Natureza como se esta
fosse uma mesa a que se pode cortar uma das pernas
para a endireitar.
Mas a paisagem não é uma coisa
que possa ser corrigida por cidadãos
bem equipados, a paisagem é que te corrige.
É a terra que te come, e não
o inverso.
Gonçalo M. Tavares
Uma viagem à Índia (Caminho 2010)

17.7.18

Estrelas do Homem


Aster sedifolius L. [sinónimo: Galatella sedifolia (L.) Greuter]



Aprendemos os caminhos do Gerês seguindo uma estrela. Ou tentando segui-la, pois nunca a víamos: as nossas excursões eram diurnas e, em qualquer caso, a estrela que procurávamos era da terra e não do céu. Entre 2010 e 2015, quando o Verão decaía para o Outono, percorremos, quase sempre sozinhos mas uma ou outra vez guiados por caminheiros experientes, o limite oriental da serra do Gerês nas cercanias de Pitões das Júnias. Cruzámos o rio Beredo e o vale da ribeira do Forno, ascendemos aos cotos da Fonte Fria, passámos por muitos dos lugares onde cabras e lobos jogam às escondidas. O encanto agreste da paisagem era temperado pelo receio de nos perdermos, pois a vida na cidade não nos prepara para estes descaminhos tantas vezes camuflados pela vegetação, sem pontos de referência reconhecíveis.

Deixámo-nos dessas aventuras, frustrados por a estrela nunca se nos mostrar, até que soubemos que ela se acolhia na vertente ocidental da serra do Gerês, de acesso bem mais simples. Em 2017, na segunda quinzena de Setembro, subimos o pedregoso vale do rio Homem, então reduzido a uma sucessão de piscinas ligadas por um fio de água, e saltámos para a outra margem no ponto assinalado. Num mato dominado pela carqueja, com pequenos carvalhos assomando aqui e ali, lá se escondia uma vintena de pés de Aster sedifolius: era essa a estrela que procurávamos há sete anos. O ano quente e seco quase nos estragava o momento, pois a floração, que deveria estar no início, mostrava-se praticamente terminada.

O Aster sedifolius é uma planta esguia, de 60 a 90 cm de altura, com caules simples ou ramificados apenas na parte superior, folhas lineares algo carnudas (é isso que sugere o epíteto sedifolius), e vistosos capítulos florais lilazes e amarelos. De acordo com os manuais com os quais desta vez estava em desacordo, a sua floração é outonal e prolonga-se até Outubro ou Novembro. Distribuída pelo sul da Europa desde a Península Ibérica até à ex-Jugoslávia, mas ausente da Grécia, aparece de norte a sul da Península mas é mais frequente ao longo da costa mediterrânica. Em Portugal só tem sido avistada, e pouco, na serra do Gerês.

Quando a encontrámos, já sabíamos que a estrela tinha deixado de o ser. O populoso género Aster tem vindo a ser metodicamente desmembrado, e as três espécies consideradas nativas de Portugal foram varridas para outros géneros: o Aster tripolium, que é frequente em sapais e estuários, chama-se agora Tripolium pannonicum; e os raríssimos Aster sedifolius e A. aragonensis (este um endemismo ibérico) integram agora o género Galatella. Apesar de essa separação ter sido ditada sobretudo por razões filogenéticas, ela também se parece justificar por razões morfológicas -- é essa a conclusão dos autores de um detalhado estudo publicado em 2015 com o título Taxonomic status of Aster, Galatella and Tripolium (Asteraceae) in view of anatomical and micro-morphological evidence.

11.7.18

Altas campainhas


Campanula patula L.



Campânula é um nome de origem latina para um sino (campa) pequeno, a que alude a designação das herbáceas do género Campanula, tendo elas flores com pétalas mais ou menos reviradas e unidas pela base em tubo, o que dá à corola a forma de uma... campânula. As flores da C. herminii, endemismo ibérico de que por cá só há registos na serra da Estrela, são talvez a versão campaniforme mais perfeita. O nome vernáculo destas plantas, de flores roxas, cor-de-rosa ou brancas, adopta para algumas espécies o diminutivo campa + inha, ou sininho, ainda que tal denominação também se use, sob risco de confusão, para outros géneros. Na obra De historia stirpium commentarii insignes (1542), o botânico alemão Leonhart Fuchs terá registado oficialmente, talvez pela primeira vez, o termo campanula para designar precisamente uma planta (que Fuchs desenha com muito rigor, algo inusitado para a época) das que Lineu, em 1753, viria a incluir no género a que chamou Campanula.

Mas por que razão a forma destas flores se designa campânula? O dicionário Houaiss não arrisca mais do que uma menção à palavra latina campaña, explicando que era usada nos anos 560-600 para designar uma balança romana; algum tempo depois este vocábulo já soava a campanula, e ainda no século VI passou a designar também um sino (com ou sem badalo). A utilização em botânica, segundo Houaiss, data do século VIII. Voltemos, porém, à Flora Ibérica, que oferece uma explicação mais detalhada: um vaso Campana seria um tipo de recipiente em forma de cone invertido e oco, feito em bronze de grande qualidade na região (italiana, supomos) de Campania.

Curiosamente, o termo sino (do latim signum), referindo-se aos instrumentos em geral feitos em bronze que davam o sinal da hora de oração, de escalas de serviço a bordo de navios, de fecho de tabernas e de recolha a casa, apropriou-se no século passado do papel atribuído à palavra campânula para designar uma certa forma. Referimo-nos à moda das calças boca-de-sino, ponto alto do vestuário dos anos 70 e ícone do estilo «hippie». Deveriam afinal ter-se chamado calças boca-de-campânula.

A campânula hoje na montra é uma versão alta da C. lusitanica, de flores tão patentes e vistosas que Lineu lhe chamou patula.

3.7.18

Ervas de Santa Maria


Tapete de Rostraria azorica na Praia Formosa, em Santa Maria

Com uma área de 97 km2, Santa Maria é a terceira menor ilha dos Açores, avantajando-se apenas ao Corvo e à Graciosa. É por isso surpreendente que, de todo o arquipélago, seja ela que detém o maior número de plantas endémicas exclusivas. São três as plantas que ocorrem em Santa Maria e em mais lado nenhum: Aichryson santamariensis, Euphorbia stygiana subsp. santamariae e Rostraria azorica. Apesar de ser oito vezes maior, São Miguel sai-se mal desta disputa, ficando-se por um único endemismo exclusivo: Leontodon rigens. De resto, os bons ofícios do vento e das aves e a proximidade entre as ilhas fizeram rarear no arquipélago o fenómeno da exclusividade: há ainda, no Pico, o duvidoso caso da Silene uniflora subsp. cratericola, e é tudo. As coisas seriam diferentes se as Flores e o Corvo, tão distantes do resto do arquipélago, contassem como uma ilha só, pois nada menos que quatro espécies exclusivas são partilhadas por essas duas ilhas.

Das três plantas endémicas de Santa Maria, a Rostraria azorica é decerto a menos conspícua: em Maio e em Junho, o Aichryson santamariensis enfeita profusamente as estradas da ilha com o amarelo radioso das suas flores; a Euphorbia, misteriosa no seu bosque, seduz-nos pela folhagem e pelos seus ramos serpenteantes; mas a R. azorica, uma gramínea anual reduzida a um caule e um penacho, com uns 10 a 15 cm de altura máxima, parece ter a modéstia como única qualidade.


Rostraria azorica S. Hend.



De um modo geral, as plantas não têm qualquer interesse em seduzir-nos, mas alguns dos engodos visuais ou olfactivos por elas usados para atrair insectos e outros polinizadores podem também apelar aos nossos sentidos. Contudo, as gramíneas, apesar de serem plantas evoluídas, confiam no vento para a polinização e dispersão das sementes -- e, por dispensarem toda a ajuda de terceiros, não entram em jogos de sedução. O que não quer dizer que um sentido estético mais refinado não seja capaz de encontrar uma beleza de tipo austero em certas gramíneas, merecedoras por isso de um protagonismo em jardinagem que ultrapasse o utilitarismo dos relvados. E, falando das gramíneas endémicas açorianas, é inegável o dramatismo cénico que o bracel-da-rocha (Festuca petraea) empresta às falésias negras das ilhas.

À escala a que o nossos olhos costumam funcionar, a R. azorica tem tudo para passar despercebida, confundindo-se com uma multidão de outras ervitas insignificantes. É nos detalhes das inflorescências que as gramíneas marcam pontos, valendo-se de uma simetria e regularidade inigualadas por plantas mais vistosas (exemplos: 1, 2). Aí a R. azorica é tão fotogénica como as melhores, e mostra suficiente personalidade para que possamos reconhecê-la entre as suas (quase) iguais. O género a que pertence, Rostraria, inclui cerca de uma dezena de espécies anuais típicas de lugares áridos, todas bastante semelhantes, distribuídas pela bacia mediterrânica e pelo Médio Oriente. Nos Açores ocorre uma segunda espécie, também presente em Portugal continental e em grande parte da Europa, que é a R. cristata (foto em baixo). A Rostraria de Santa Maria distingue-se bem desta por ser uma planta mais hirsuta, por ter a panícula mais estreita e alongada, e por as lemas (brácteas que protegem os florículos) terem aristas muito mais compridas.

O que há de mais notável na Rostraria azorica é ela ser endémica de uma ilha só. As sementes das gramíneas deixam-se transportar pelo vento a grandes distâncias, e os 80 km que separam Santa Maria de São Miguel não deveriam ser obstáculo de grande monta. Várias são as gramíneas endémicas presentes em todas as ilhas do arquipélago (Festuca petraea, Holcus rigidus, Gaudinia coarctata) ou em pelo menos oito ou sete delas (Festuca francoi, Deschampsia foliosa). Não seria inesperado se se descobrisse que a R. azorica aparece noutras ilhas -- mas antes de alguém se lançar na procura terá que saber reconhecer a planta, e lembrar-se de que ela só está visível por um período curto, entre Abril e Maio. O carácter efémero e discreto desta gramínea, afinal frequente nas zonas costeiras de Santa Maria, ajuda a explicar que só em 2003 tenha sido publicada a descrição formal da nova espécie (S. Henderson & H. Schäfer, Synopsis of the genus Rostraria (Poaceae) in the Azores, Bot. Journal of the Linnean Society, 141-1), embora já em 1969 a sua existência tivesse sido notada pelo botânico C. E. Hubbard.


Rostraria cristata (L.) Tzvelev