18.4.18

Assembleias de montanha


Iberis carnosa Willd.



O nome Iberis refere-se à Península Ibérica, que nos séculos XVIII e XIX serviu de «Amazónia» para muitos exploradores europeus de botânica. E, ainda que haja Iberis noutras regiões, cerca de dois terços das espécies conhecidas ocorrem na Península Ibérica. A lista das espécies deste género de que há registo em Portugal é mais modesta, apenas quatro, mas dela consta uma subespécie endémica, cujas populações se situam no litoral e quasi-litoral (locais perto da costa, por vezes elevados, mas não à beira-mar) do centro do país.

A designação comum em português, assembleias, alude com precisão aos corimbos de flores reunidas a formar uma superfície quase plana. Em inglês chamam-lhes candytuft, algo a soar como ramalhete-de-Candia, sendo Candia um nome antigo para uma região na ilha de Creta. As Iberis são da família Brassicacea, a da couve (Brassica oleracea), cujos membros têm em comum dois pormenores que ajudam a identificá-los: as quatro pétalas em cruz (por isso Brassicacea = Cruciferae) e as sementes em silíquas longas ou achatadas, que no género Iberis são redondas como bolachas.

As assembleias que conhecemos melhor são costeiras, apreciando o solo arenoso e a ausência de sombra. Protegem-se do vento, do excesso de sal e da areia abrasiva com folhas carnudas e porte rasteiro. Na montanha são outros os receios, mas as plantas não descartam estas características vantajosas, acrescentando alguma penugem como agasalho aos talos e à folhagem. A espécie que hoje vos mostramos, e que vimos em fissuras de rocha no Picon del Fraile (Cantábria), é de montanha, entre os 800 e os 1500m de altitude. Sendo perene, passa o Inverno debaixo de neve, mantendo-se baixinha (não mais de 10cm de altura) enquanto floresce no Verão, pois (como experimentámos) nestes picos o frio e a ventania raramente arredam pé. É espontânea na bacia mediterrânica e em Espanha.

10.4.18

O que há de mais manso



Carduncellus mitissimus (L.) DC.



A esta planta de flores rentes ao chão, incapaz de esticar o pescoço, falta-lhe tamanho para ser um cardo a sério. Será esta a explicação para um nome genérico (Carduncellus) que, segundo alguns, significa "pequeno cardo"? Acontece que tal nome não foi inventado para ela: Lineu, que foi quem primeiro a baptizou, chamou-lhe Carthamus mitissimus, nome ainda hoje preferido por vários autores; e o género Carduncellus inclui plantas de tamanho respeitável, como o bonito cardo-azul que encontramos no centro e sul de Portugal. Terá sido pois por feliz coincidência que este cardo sem dúvida pequeno veio a chamar-se Carduncellus. De facto esse nome foi originalmente dado, tanto por Lineu como por um seu antecessor quinhentista, a uma planta igualmente atarracada, parente próxima da que hoje aqui mostramos, de seu nome Carduncellus monspeliensium (ou Carthamus carduncellus).

A outra metade do nome científico, o epíteto mitissimus, é um aumentativo de mitis, que significa "suave" ou "manso". Lineu, cansado de picar os dedos ao manusear as amostras botânicas que recebia, quis mostrar-se grato pela mansidão deste cardo sem espinhos.

O cardinho-mansíssimo vive em prados calcários nas zonas montanhosas do extremo norte da Península Ibérica e do sudoeste de França - ou, mais resumidamente, na cordilheira cantábrica e nos Pirenéus - e floresce entre Maio e Junho. Faz lembrar, no aspecto geral, a Jurinea humilis que temos nas serras do Açor e da Estrela, mas distingue-se claramente dela pelas brácteas involucrais. Mais semelhante nos detalhes, até porque integra o mesmo género botânico, é o espinhento e nem sempre anão Carduncellus cuatrecasasii, encontrado pela primeira vez em Portugal no ano de 2011.

4.4.18

Narciso amarelo-limão


Narcissus bulbocodium subsp. citrinus (Baker) Voss [sinónimo: Narcissus gigas (Haw.) Steud.]

Referindo-se, uma vez, ao conceito directo das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão:

A primrose by the river's brim
A yellow primrose was to him
And it was nothing more.

E traduzi (omitindo a tradução exacta de primrose, pois não sei nomes de flores nem de plantas): «Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada.» O meu mestre Caeiro riu. «Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela.» Mas, de repente, pensou. «Há uma diferença», acrescentou. «Depende se se considera a flor amarela como uma das várias flores amarelas, ou como aquela flor amarela só.» E depois disse: «O que esse seu poeta inglês queria dizer é que para o tal homem essa flor amarela era uma experiência vulgar, ou coisa conhecida. Ora isso é que não está bem. Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes.»

Álvaro de Campos
Obras de Fernando Pessoa, Lello & Irmão - Editores, Porto, 1986

27.3.18

Super-chícharo das altas montanhas



Lathyrus laevigatus subsp. occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Breistr.
[sinónimo: Lathyrus occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Fritsch nom. illeg.]



As altas montanhas onde vive o super-chícharo são os Alpes, os Pirenéus e a cordilheira cantábrica. Não é nos cumes gelados que ele encontra o seu lugar, mas no aconchego reconfortante dos bosques das encostas e do sopé dos montes: segundo a Flora Iberica, a sua zona de conforto altitudinal situa-se entre os 400 e os 2100 metros. E foi a uns 1000 metros de altitude, numa estrada sinuosa ensombrada por faias (Fagus sylvatica), que o aviso laranja dos seus cachos de flores nos obrigou a uma paragem de emergência.

O nome super-chícharo que atribuímos a este Lathyrus justifica-se pelo espanto de boca aberta que ele nos provocou. Só uma demorada consulta dos manuais nos permitiu enquadrá-lo num género ao qual nunca suporíamos que pertencesse. As espécies de Lathyrus em Portugal (confira aqui), ainda que muito variadas, não têm flores desta cor, nem dispostas em espigas como velas acesas. As folhas compostas pinadas, desprovidas de gavinhas, são tão grandes que fazem lembrar as das glicínias (Wisteria sinensis). E os caules erectos e robustos não são guarnecidos pelas membranas laterais que caracterizam muitos dos nossos chícharos (exemplos: 1, 2).

Tratando-se de planta tão vistosa, quem viva em climas temperados mas frescos pode até encomendar sementes para com ela ajardinar o bosque nas traseiras de casa. A fama e do proveito não a livram contudo da controvérsia taxonómica, havendo quem a subordine, como subespécie, a Lathyrus laevigatus, e outros que a promovem a espécie autónoma, sob o nome de Lathyrus occidentalis. A primeira opção parece mais razoável, porque as diferenças entre a subsp. occidentalis (de que aqui tratamos) e a subsp. laevigatus (que ocorre na Europa do Leste e na Rússia ocidental) são de pouca monta, resumindo-se à indumentação (a primeira é algo pubescente, a segunda quase glabra), à largura dos folíolos (os da segunda são um pouco mais largos) e ao comprimento dos dentes do cálice. A Flora Iberica alinhou pelos autonomistas, mas o nome que escolheu padece de ilegalidade: Karl Fritsch, ao chamar em 1895 Lathyrus occidentalis a esta planta, repetiu um nome que tinha sido usado em 1838 por Thomas Nuttall para designar uma espécie completamente diferente (tida hoje como sinónimo de Lathyrus palustris L.). Quando um mesmo nome é usado para coisas diferentes, o Código Internacional de Nomenclatura Botânica (ICBN) impõe que só é aceite o uso validado pela publicação mais antiga. Resumindo: para poder apresentar-se como espécie independente, falta a este super-chícharo um nome válido à luz do ICBN.

21.3.18

O capuchinho púrpura


Orchis purpurea Huds.



Lady orchid é a designação inglesa para a orquídea acima ilustrada. O nome alude ao formato de cada flor, a lembrar uma figura humana em miniatura, com um capuz de cor púrpura que contrasta com o tom esbranquiçado pintalgado de rosa do labelo; este divide-se em vários lóbulos para formar os braços e a saia da lady, com um subtil rebordo violeta. Desta espécie não há registo em Portugal, mas estes detalhes morfológicos são comuns a outras espécies que por cá existem, com destaque para a Man orchid (Aceras anthropophorum; em português chamamos-lhe rapazinhos), a Naked man orchid (a flor-dos-macaquinhos, de nome científico Orchis italica) e a Burnt orchid (Orchis ustulata), as duas primeiras frequentes no nosso país e a terceira (fotos em baixo) muito rara.


Orchis ustulata L. [sinónimo: Neotinea ustulata R. M. Bateman, Pridgeon & M. W. Chase]

A Lady é escultural e alta (pode atingir 1 metro de altura), com uma inflorescência fácil de detectar por causa do tom vermelho-arroxeado dos botões por abrir no topo, das dezenas de flores na haste e do aroma a baunilha ou amêndoa. Trata-se de uma planta de bosque que pede solo calcário bem drenado. É usual encontrá-la refastelada nos tapetes de folhas de árvores caducas, até empoleirada em raízes mais grossas destas árvores. Não recusa margens soalheiras de floresta se protegidas do vento, mas, não surpreendentemente, as flores de plantas em zonas mais sujeitas a sol intenso ou a intempéries tendem a ser mais pequenas, mais escuras e com os labelos pintalgados de castanho.

A distribuição da O. purpurea causa-nos alguma inveja. Ocorre em boa parte da Europa, com algumas populações no norte de África e Ásia, e em Espanha é comum no nordeste, sendo rara no centro e sul. Entre a germinação e a primeira floração de cada uma destas plantas podem passar  8 a 10 anos, vivendo ela depois mais uns 10, tendo florido apenas uma meia dúzia de vezes neste período. O declínio desta espécie em alguns habitats é preocupante, seja pela destruição dos bosques, pela má gestão da floresta, ou pelo repasto de coelhos, cervos e javalis que, entre Janeiro e Fevereiro não resistem às folhas muito verdes e longas desta orquídea, entre Abril e Junho se banqueteiam com as flores e, porque o Inverno está a chegar, ainda reservam barriga para os suculentos tubérculos.

13.3.18

Goivo cantábrico


Matthiola perennis Conti



As línguas vernáculas, por serem incapazes de abarcar a riqueza do mundo natural, chamam pelo mesmo nome coisas que são marcadamente diferentes. Essa simplificação é também um empobrecimento: sob a imprecisa designação de "mosca" ou "malmequer" escondem-se diversíssimos insectos e flores que se calhar mereciam o benefício da nossa curiosidade. Em menor escala, passa-se o mesmo com "goivo", nome que pode ser dado a umas tantas crucíferas de flores vistosas dos géneros Erysimum, Matthiola ou Malcolmia. O goivo mais famoso, Erysimum cheiri, é de origem hortícola e teve grande voga (mesmo em Portugal) no tempo em que havia flores nos jardins. Em quase todo o nosso litoral aparece o goivo-das-areias ou goiveiro-da-praia (Malcolmia littorea), que floresce alegremente de Janeiro a Dezembro. Os goivos mais felpudos, como aquele que está hoje no escaparate, pertencem ao género Matthiola, que inclui plantas bem nossas conhecidas: a Matthiola sinuata, a que com justiça chamaríamos também goivo-da-praia; a Matthiola maderensis ou goivo-da-rocha, vistoso endemismo do arquipélago da Madeira; e a Matthiola incana, um goivo de jardim com cultivares de muitas cores que está naturalizado em várias ilhas açorianas.

A Matthiola perennis, planta cespitosa com hastes até 30 cm de altura, é um endemismo da cordilheira cantábrica que vive em rochas calcárias e floresce entre Maio e Agosto. As pétalas cor-de-rosa, compridas e retorcidas fazem lembrar as da Matthiola fruticulosa que conhecemos do Douro internacional e de outros raros lugares em Trás-os-Montes. Mas há diferenças entre as duas que se detectam a olho nu: a Matthiola perennis tem hastes simples e desprovidas de folhas; a Matthiola fruticulosa tem-nas ramificadas e com folhas, dando à planta o aspecto de um mini-arbusto (é esse o significado do epíteto fruticulosa). Há ainda diferenças menos óbvias nas folhas, nos frutos e até no tamanho das sementes, com as da Matthiola perennis a terem o dobro do comprimento e da largura.

7.3.18

Menina para sempre


Erinus alpinus L.



Siempreniña é o nome comum por que é conhecida em espanhol esta planta, cuja floração enfeita em Maio rochedos calcários por toda a Cantábria. Hesitámos na tradução. Talvez a designação vernácula pretenda aludir ao porte diminuto da planta (como referência, anote que os cálices destas flores têm 3 a 7 mm de altura e as corolas 6 a 12 mm de diâmetro), como se ela vivesse eternamente na infância. Mas ficámos a saber pela Flora Iberica que a planta parece aumentar de volume no período de frutificação, como se de uma gravidez se tratasse: a inflorescência, que é densa enquanto as flores estão aptas para a polinização, fica mais larga e lassa quando as flores amadurecem, talvez para acomodar melhor os frutos que aí vêm.

O género Erinus tem uma distribuição vasta pelas montanhas do sul da Europa e do norte de África, abrigando umas trinta espécies. Não há registo em Portugal da única espécie que ocorre na Península Ibérica, apesar dos inúmeros afloramentos calcários do país à disposição para ela colonizar. A falta de frio intenso nas nossas montanhas pode ser o entrave mais relevante à sua vinda para cá; na serra da Estrela ainda neva, mas não há lá o substrato básico que esta espécie prefere.

Guardemos destas fotos, ou destas outras um pormenor que ajuda a identificar este género: as corolas tubulares terminam em geral em cinco lóbulos, dois deles mais estreitos, juntos e erectos como duas orelhas de coelho. Dirá de imediato o leitor que, por exemplo, as flores das lobélias também têm estas características. Pois sim, mas as correspondentes «orelhas» são de esquilo, não acha?

27.2.18

Valente Valéria


Valeriana pyrenaica L.



Como tudo aquilo que foge à sua escala, seja por defeito ou por excesso, a Valeriana pyrenaica suscita a nossa ingénua admiração. Neste caso impõe-se pela sua grandeza e robustez. Ultrapassando folgadamente um metro de altura, duplica a marca da mimosa e frágil Valeriana tuberosa; e, embora não seja muito mais alta do que a V. dioica, vê-las lado a lado seria como confrontar uma bailarina com um lutador de sumo. As folhas da Valeriana pyrenaica têm o formato cordiforme das folhas das tílias que enfeitam os nossos jardins, mas são muito maiores, com 20 cm de comprimento por outros tantos de largura. Os caules grossos, simples e erectos escondem um segredo que é também uma fragilidade: são ocos e não resistem a um encontrão. Só as inflorescências compactas destoam do excesso geral, parecendo ter sido compradas na mesma loja onde se abasteceram as outras espécies, e onde não havia em stock as inflorescências XL mais à medida desta cliente.

A maior Valeriana ibérica vive, como o seu nome indica, nos Pirenéus, mas também ao longo de toda a cordilheira cantábrica e nas montanhas da Galiza. Só não é exclusivamente peninsular porque passou os Pirenéus a salto para se instalar no sudoeste de França. Vive nas margens (ou por vezes no leito) de cursos de água mais ou menos torrenciais, em bosques de folhosas (faias ou carvalhos) ou de coníferas (abetos ou pinheiros), e floresce entre Maio e Julho. Acima vêmo-la num dos muitos ribeiros que, nascidos do degelo do Pico Tres Mares e dos cumes adjacentes, se lançam através do extenso faial do Parque Saja-Besaya, na Cantábria.

Dizem as obras de referência que a Valeriana foi assim chamada por valer aos doentes numa aflição. Mas quem merecia a estima de boticários e herbalistas pelas suas inúmeras virtudes era a Valeriana officinalis, e a maioria das espécies do género não comunga dessa vocação medicinal. Fica o leitor avisado de que, se deparar com a Valeriana pyrenaica numa visita aos Pirenéus ou à Cantábria, não vale a pena colher folhas ou qualquer outra parte da planta para uma infusão. Só conseguiria estragar a planta e talvez ganhar uma dor de barriga.

21.2.18

Agrião gigante



Cardamine raphanifolia Pourr.



Uma consulta rápida à internet permite conhecer vários locais de venda on-line que comercializam saquetas de sementes desta herbácea de flores rosadas da família do saramago. Além do preço e das condições de envio do produto, informam o possível comprador de que as folhas se comem como as do agrião (os berros das ensaladas espanholas) e de que a planta é também útil para decorar as margens de rios. Mmm... Mas quem é que tem um rio em casa? E que rio é esse que precisa de atavios? E para quê gastar tempo e dinheiro para enfeitar a natureza?

Igual zelo decorativo terá presidido à decisão de bordejar as caldeiras dos vulcões açorianos com as exóticas hortênsias (Hydrangea macrophylla) e as terríveis conteiras (Hedychium gardneranum), de cuja presença e invasão a flora endémica dos Açores jamais recuperará. Idênticas boas intenções estarão na origem do flagelo que é hoje o contingente de erva-das-pampas (Cortaderia selloana) que assola a reserva de São Jacinto, e está a colocar em risco muitas outras áreas protegidas do continente.

Por isso, caro leitor, permita-nos este alerta: se se encantou como nós por esta crucífera alta e vivaz, nativa do sul da Europa e da Ásia mas ausente da flora portuguesa, e se possui uma pena-de-água no jardim a pedir aformoseamento, um prado junto à casa de campo ou um bosque com uma clareira bem irrigada na quinta dos avós, pense três vezes antes de por ali espalhar sementes deste agrião gigante, ou de outra planta bonita mas exótica cujo potencial invasor desconhece.

13.2.18

Cardo manso dos calcários


Klasea nudicaulis (L.) Fourr.



A família das asteráceas, que inclui malmequeres, cardos e algumas ervitas que diríamos insignificantes, totaliza mais de 30000 espécies e é a mais numerosa e variada à face da Terra. Há quem defenda que esse galardão cabe à família das orquídeas, ou que ele deve ser partilhado ex aequo pelas duas famílias, mas a discrepância de opiniões sobre os limites de cada espécie leva a que seja impossível tirar uma conclusão aceite por todos. Como entre os aficionados de orquídeas qualquer pequena variação leva ao reconhecimento de uma nova espécie, e essa prática não costuma ser seguida pelos adeptos de cardos e malmequeres, é de crer que o número de espécies de orquídeas esteja muito mais inflacionado que o de asteráceas. Justifica-se assim o nosso voto na primazia das segundas.

Dentro da grande família das asteráceas, cardos e malmequeres correspondem a duas das tribos mais bem representadas na flora europeia. Em ambos os casos, as flores são diminutas (é mais apropriado chamar-lhes florículos) e estão reunidas em capítulos. Nos malmequeres, os florículos são de dois tipos: os tubulares, que formam o disco central; e os ligulados, que dão as (impropriamente chamadas) pétalas (ver foto). Na tribo Cynareae (é esse o nome pomposo da tribo dos cardos e afins), os florículos são todos semelhantes; e, como se pode comprovar nas fotos acima, têm um aspecto bem diferente daqueles que compõem os capítulos dos malmequeres.

Na tribo dos cardos, que acolhe géneros tão agressivos e não-me-toques como Carduus e Onopordum, nem todas as espécies são espinhentas, e como exemplo de cardo-manso serve bem esta Klasea nudicaulis que encontrámos num prado em terreno calcário pedregoso algures na Cantábria. Trata-se de uma herbácea vivaz, quase glabra mas por vezes com folhas de margens ciliadas, com caules erectos e simples de não mais que 60 cm de altura, rematados por um único capítulo. As folhas basais são numerosas, largas e com o nervo central bem marcado; as caulinares, que existem apesar do epíteto nudicaulis, são poucas e quase lineares.

A Klasea nudicaulis está muito disseminada pelo norte e oeste de Espanha, e a sua distribuição global abrange ainda os dois lados do Mediterrâneo ocidental: França e Itália a norte, Marrocos a sul. A sua ausência em Portugal é compensada pela presença, nos calcários do centro e sul do país, da endémica Klasea baetica subsp. lusitanica.

Embora tenha sido criado em 1825, só no século XXI é que o género Klasea ganhou aceitação generalizada, acolhendo uma série de espécies antes arrumadas no género Serratula mas divergindo genética e morfologicamente da S. tinctoria, única espécie ibérica que sobrou da debandada. A diferença que mais salta à vista é que as hastes da S. tinctoria são ramificadas, encimadas por numerosos capítulos.

7.2.18

Erva de quebrar castelos



Petrocoptis pyrenaica subsp. glaucifolia (Lag.) P. Monts. & Fern. Casas



Arrumaríamos esta planta na prateleira do género Silene, como fez Mariano Lagasca que, em 1805, a designou Silene glaucifolia, se tivéssemos acesso apenas a fotos, sem poder notar como a planta é bastante mais pequena do que as silenes que conhecemos (não vai além dos 30 cm de altura) e como são igualmente diminutas as folhas glaucas e as flores, ainda que estas se reúnam em cimeiras muito vistosas. Se atendêssemos ao significado do nome do género onde ela se acolheu em 1988, por proposta de Pedro Montserrat e Fernández Casas, a estranheza não seria menor. É que Petrocoptis significa, em grego, o mesmo que Saxifraga em latim, resultando da junção de pedra (petro, saxi) e fissura (coptis, fraga). Mas a taxonomia não dá licença para estas traduções, e é certo que a planta das fotos, ainda que muito distinta das saxífragas, aprecia como estas as fendas de rochas, que preenche dando a impressão de ter sido capaz de abrir caminho na pedra. Apesar do aspecto frágil, é perene, com as plantas mais antigas formando uma base lenhosa. Gosta de penumbra e de substrato calcário seco, e a floração resiste até meio do Verão.

A espécie P. pyrenaica admite três variantes que foram promovidas a subespécies, distinguindo-se a P. pyrenaica subsp. glaucifolia, que é endémica da cordilheira cantábrica, das outras duas por não ter uma roseta basal de folhas. A distribuição em altitude é outro pormenor curioso desta subespécie. Há registos da presença dela entre 0 e 2000 metros de altitude, afirmando a Flora Ibérica que, em geral, as pétalas nos exemplares que ocorrem em regiões mais altas são esbranquiçadas, sendo cor-de-rosa ou mesmo púrpura nas mais baixas. O nosso passeio nas Astúrias para observar estas plantas fez-se entre os 600 metros (pela estrada muito arborizada que circunda a barragem de La Malva) e os 900 metros da Senda del Oso. Uns 80 km a sul, já na província de Léon, um desvio no percurso de regresso levou-nos ao castelo de Cornatel, em cujas muralhas vive uma outra versão da planta, a P. pyrenaica subsp. viscosa.


Castelo de Cornatel & Petrocoptis pyrenaica subsp. viscosa (Rothm.) P. Monts. & Fern. Casas

30.1.18

Madressilva dos ossos



Lonicera xylosteum L.



Ensina o Stearn's Dictionary of Plant Names for Gardeners que xylosteum deriva das palavras gregas xylos, que significa madeira, e osteon, que significa osso. Quereria Lineu dizer que esta madressilva tinha ossos de madeira? Estaríamos então perante nova amostra do pioneirismo do pai da taxonomia, pois o boneco Pinóquio só foi criado por Gepeto cem anos mais tarde. Confessamos, no entanto, que a expressão "ossos de madeira" nos parece uma redundância quando aplicada a árvores ou arbustos. Afinal, se admitirmos, num rasgo de fantasia, que tais criaturas vegetais são providas de ossos, de que outro material poderiam eles ser feitos? Talvez invertendo a ordem das palavras, traduzindo xylosteum por "madeira de osso" em vez de "ossos de madeira", a coisa fique mais inteligível. Terá este arbusto uma madeira especialmente resistente, rija como os ossos? É que, ao contrário das madressilvas espontâneas em Portugal, a Lonicera xylosteum, que fotografámos na Cantábria, não é uma trepadeira, mantendo-se de espinha erguida sem o apoio de muletas. Não é esta porém, nem na Europa nem na Península Ibérica, a única madressilva de porte erecto, como Lineu, que deu nome a três outras espécies arbustivas do género (Lonicera alpigena, L. pyrenaica e L. nigra), não poderia deixar de saber. Põe-se então a hipótese de a Lonicera xylosteum ser, das quatro madressilvas arbustivas baptizadas por Lineu, aquela cuja madeira é a mais dura de roer. O que infelizmente não é verdade, pois os seus caules são ocos e os da L. nigra, por exemplo, são maciços. Ainda que se possa alegar que os ossos, apesar de rijos, também costumam ser ocos, isso é já muito rebuscado e leva-nos, por ora, a desisitir de entender Lineu.

As madressilvas dão flores muito perfumadas, atraem multidões de insectos e, por altura da frutificação, são avidamente visitadas pelos pássaros. Jardineiro que lhes dê espaço no seu jardim transforma-se de imediato num amigo da natureza. Apesar de o tamanho modesto das suas flores poder desencorajar o cultivo, a Lonicera xylosteum partilha de todas as boas qualidades das suas congéneres, com a vantagem de o seu hábito de crescimento se prestar à formação de sebes. É um arbusto que atinge 1 a 1,5 metros de altura, e cuja floração e frutificação decorrem entre Maio e Agosto. Nativo de grande parte da Europa, vive em clareiras de bosques caducifólios húmidos, sobre substratos básicos, em zonas de montanha.

24.1.18

Flor sem maquilhagem

É raro que, vendo uma flor bonita ou tocando numa folha macia, não tentemos cheirá-las para guardar esse dado na memória. Curiosamente, não é fácil descrever um aroma (ora tente dizer como é o da laranja), embora seja trivial reconhecê-lo quando está presente. Acontece o mesmo com muitos dos ingredientes deste mundo, sejam eles cores, texturas ou sons, para os quais há nomes em muitas línguas mas que não conseguimos definir com exactidão. Não são abstracções, como os números ou os electrões, mas também não nos parecem tão reais como o dia ou a chuva. Por isso, muitas vezes falamos do amarelo-limão, do verde-alface ou do preto-andorinha, e com uma palavra extra a cor ganha forma ou sabor, e uma outra existência.


Saxifraga paniculata Rydb.



As flores cor-de-pérola que hoje vos mostramos, na ponta de hastes florais de uns 30 cm, são de uma das espécies mais charmosas do género Saxifraga. Nem é tanto pelas panículas de flores, bem menos maquilhadas que as da S. spathularis; é que as folhas de margens debruadas a branco-de-sal parecem ter dentinhos, num arranjo sorridente em roseta que parece feito por florista inspirada. Esta espécie é perene, e ocorre na América do Norte, Gronelândia e montanhas do centro e sul da Europa, em geral acima dos 1000 m. Os exemplares da foto são do Parque Natural Saja-Besaya, na Cantábria.

Custa revelar esta contabilidade que nos desfavorece, mas há que reconhecê-lo: em Espanha há mais de sessenta espécies de Saxifraga, género que parece apreciar o frio em fissuras e rochedos de montanha. Em Portugal continental, só nove espécies se adaptaram ao nosso clima mais ameno, algumas delas em populações escassas. Temos, porém, o galardão de possuir uma espécie endémica, a S. cintrana.

Talvez este ano voltemos ao norte de Espanha para ver a magnífica S. longifolia e rever a única que conhecemos com flores cor-de-rosa.