22/06/2021

Laços de família

Euphorbia mellifera Aiton


Ocorrem na ilha da Madeira, em habitats muito distintos, duas espécies arbustivas de Euphorbia: a E. piscatoria , exclusiva do arquipélago madeirense, que ocupa as falésias soalheiras da costa sul da ilha e atinge não mais de 2 metros de altura; e a E. mellifera, endémica da Madeira e das ilhas de Tenerife, La Gomera e La Palma, nas Canárias, que mora na sombria laurissilva e pode exibir porte arbóreo, alcançando por vezes os 10 metros de altura. Se as discrepâncias no porte e nas preferências ecológicas não bastarem para diferenciar estas duas figueiras-do-inferno (nome pelo qual ambas são conhecidas na Madeira), refira-se ainda que as folhas da E. mellifera são grandes (até 20 cm de comprimento), verdes e persistentes, enquanto que as da E. piscatoria são curtas (até 7 cm), glaucas e caducas no Verão.

Sem ser abundante, a Euphorbia mellifera é fácil de encontrar na laurissilva madeirense junto às muitas levadas por onde os turistas são convidados a desfilar, e também nos escarpados vales das ribeiras que desaguam na costa norte da ilha. Pior sorte teve ela nas Canárias: embora as três ilhas onde está presente sejam as únicas do arquipélago que conservam uma extensão significativa de floresta laurissilva, talvez o menor grau de humidade ou as temperaturas mais elevadas lhe proporcionem aí condições menos favoráveis do que na Madeira. Certo é que a tabaiba-de-monteverde (é esse o seu nome canarino) é tão rara nessas ilhas que está em perigo de extinção nas Canárias.

A Euphorbia mellifera é uma excelente planta ornamental que, como quase todas as que fazem parte da nossa flora espontânea, nunca foi cultivada em jardins portugueses — pelo menos nos do continente. Deu-se contudo muito bem lá fora e são muitos os hortos ingleses e americanos que a têm para venda, tanto em semente como em vaso. E foi no Jardim Botânico de Oxford que travou conhecimento com a sua prima dos Açores, Euphorbia stygiana, nascendo desse relação um híbrido, Euphorbia x pasteurii, que também já entrou no comércio hortícola.

O facto de esse híbrido ter surgido fortuitamente, apenas porque as duas eufórbias foram plantadas lado a lado, sugere uma grande afinidade genética entre duas espécies cujas semelhanças morfológicas são evidentes. O mais provável, atendendo à idade geológica das diferentes ilhas, é que a Euphorbia mellifera tenha tido origem nas Canárias e que, após colonizar a Madeira, se tenha instalado nos Açores, onde evoluiu para aquilo que é hoje a Euphorbia stygiana. E é provável que o elo de ligação entre as duas more na ilha de Santa Maria, a mais meridional dos Açores: trata-se da Euphorbia stygiana subsp. santamariae, uma planta que está em perigo crítico de extinção na natureza (mas há razões para ter esperança) e que, morfologicamente, é intermédia entre a E. mellifera e a E. stygiana subsp. stygiana (parecendo-se aliás mais com a primeira do que com a segunda).

Ainda que muito plausíveis, tudo isto são conjecturas aguardando um estudo fundamentado — que, com as modernas técnicas filogenéticas, qualquer investigador qualificado faria com facilidade. Mas mesmo os amadores desqualificados podem reunir pequenos indícios usando, por exemplo, o olfacto. Na E. mellifera, o epíteto específico refere-se ao suave cheiro a mel da inflorescência. Tanto quanto sabemos, a E. stygiana s.str. não partilha dessa qualidade, e é mesmo provável que tenha flores inodoras. Quanto à E. santamariae, da única vez que tivemos oportunidade não lhe cheirámos as flores, mas era importante que alguém o fizesse e reportasse o resultado.

17/06/2021

Violeta da Madeira

O género Viola contém cerca de 600 espécies que se adaptaram bem ao clima temperado do hemisfério norte, com raras excepções em climas mais extremos. Na nossa visita recente à Madeira, procurámos algumas das plantas dos picos mais altos, as que florescem antes que o calor se torne excessivo, e dessa lista constava uma viola. Depois de tentar, sem sucesso, avistar algum exemplar dessa viola em flor no Pico do Areeiro, encontrámos finalmente uma planta florida no Pico Ruivo. Tivemos de subir acima de uma espessa nuvem, de sentir por vezes as orelhas e a ponta do nariz demasiado aquecidas pelo sol, para de seguida nos impacientarmos com os arrepios de vento frio, de percorrer com muita cautela bordos de escarpas mal protegidas, e de suspirar com o cansaço nos olhos de tanto procurar flores pequeninas; mas na volta, com a fotografia tão desejada, esvoaçámos de contentamento. Apesar dos inúmeros turistas, não foi preciso disputar um lugar na fila para fotografar a única flor de Viola paradoxa que ali se via. Em alegres almoços de campanha, os visitantes queriam apenas fotografar-se no belo cenário de picos com nuvens, decididos a registar, para de imediato enviar ao mundo, a heróica chegada ao topo da ilha.



Endémica do Arquipélago da Madeira, esta violeta rara está protegida pelo Anexo II e IV da Diretiva Habitats e pelo Anexo I da Convenção sobre a Vida Selvagem e os Habitats Naturais na Europa. É uma herbácea perene, de folhagem densa e folhas carnudas. As flores são solitárias e axilares, com uma corola de cerca de 2,5 centímetros de diâmetro e pétalas enfeitadas com nervuras escuras (como bigodes de gato).

Viola paradoxa Lowe

Na primeira descrição desta espécie, em 1838, Lowe assinala a parecença do tamanho, formato e disposição das pétalas das flores da Viola paradoxa com as da espécie Viola calcarata (uma planta alpina, nativa das montanhas do sudeste da Europa); as folhas, porém, escreve Lowe em latim, são como as da Viola tricolor (os pequenos amores-perfeitos coloridos em vários tons que vemos floridos entre Abril e Setembro nos canteiros de alguns jardins públicos). Uma mistura tão invulgar de morfologias valeu-lhe naturalmente o epíteto paradoxa. Floresce em Junho e vive em fissuras de rochas na zona montanhosa central da Madeira, dos 1600 aos 1800 metros de altitude.

05/06/2021

Linária das neves

Linaria alpina (L.) Mill.
Os cumes das grandes cadeias montanhosas são, a seguir ao fundo dos oceanos, os lugares menos acessíveis do planeta, mantendo-se com ecossistemas mais ou menos intocados por serem pouco propícios à presença humana. Claro que o desejo pela aventura e, mais tarde, a vontade de tornar esses lugares acessíveis aos menos enérgicos acabaram por devassar alguns deles com teleféricos, pistas de esqui, estradas, hotéis e toda a parafernália do turismo de massas. Ainda assim, nos Pirenéus, Alpes, Picos de Europa, Gredos e tantas outras montanhas pela Europa fora, a grande maioria dos cumes não se alcança sem esforço e uma boa dose de coragem. Até que a certa altura compreendemos que, pela idade ou circunstâncias de vida, há lugares que para sempre nos estarão vedados, e isso é algo que não devemos lamentar.

No nosso caso, há plantas que nunca iremos ver, alcandoradas nos picos para que nunca lhes falte o aconchego gelado que tanto apreciam. Mas na verdade não são assim tantas as plantas que estão restritas às maiores altitudes. Acontece é que aquelas que se distribuem desde os mil e poucos metros até bem acima dos dois mil vão florindo ordenadamente de baixo para cima, acompanhando o degelo — e, no período estival, quem as queira ver floridas tem que subir mais alto. Na visita que há uns anos em Agosto fizemos aos Pirenéus, onde nos ficámos preguiçosamente pelos grandes vales, poucas foram as plantas que vimos em flor.

Uma das excepções foi esta Linaria alpina, que vimos tanto na serra de Gredos como nos Pirenéus, e que com relutância nos mostrou duas ou três flores em ambas as ocasiões. É uma planta anual rasteira, de floras roxas ou azuladas com distintivas manchas amarelas no labelo, que se distribui por todas as grandes cadeias montanhosas da Europa ocidental. Aparece geralmente em altitudes acima dos 1500 metros, e atinge os 3300 nos Pirenéus. A serra da Estrela, embora compreendida nesse intervalo altitudinal, fica fora da área de distribuição da espécie, culpa dos invernos menos rigorosos causados pela proximidade do Atlântico. Por isso não desfrutámos do conforto burguês de termos a planta à mão de fotografar ao apearmo-nos do automóvel. Em Gredos, onde as estradas se quedam muito abaixo dos cumes, foram 5 ou 6 km por um trilho sempre a subir para a encontrarmos a uma altidude modesta, rondando os 2200 metros.

30/05/2021

Jojoba em Porto Santo

O Museu da Baleia na Madeira, localizado na vila piscatória do Caniçal, regista a história da caça às baleias no mar do arquipélago da Madeira e, curiosamente, inclui algumas sementes de jojoba como peça em exibição. A respectiva legenda explica porquê. O óleo de cachalote foi usado durante longos anos na indústria cosmética, parecendo insubstituível pelas suas propriedades químicas únicas e pelos benefícios inexcedíveis na hidratação e protecção da pele. A descoberta do óleo de jojoba, que tem afinal características químicas e usos semelhantes, permitiu a salvação de muitas baleias. O óleo de jojoba é uma cera líquida extraída das sementes dos arbustos de Simmondsia chinensis, uma espécie nativa dos desertos do México e Arizona que hoje vos mostramos.

Simmondsia chinensis (Link) C. K.


O nome do género homenageia o botânico inglês Thomas William Simmonds, mas o epíteto específico é um engano. O botânico que o escolheu (Johann Link) misturou inadvertidamente amostras da Califórnia com algumas chinesas, e achou que estava a nomear uma planta colectada na China. Infelizmente, as regras da taxonomia ditam que, mesmo errado, o primeiro epíteto específico registado é o que tem prioridade.

A jojoba (nome de inspiração índia) chega a uns 2 metros de altura, exibe uma copa densa de folhas opostas, coriáceas e com uma penugem branca, dispostas num arranjo espiralado que, dizem, facilita a entrada do vento (como se ele precisasse) que assim dissemina o pólen entre os ramos, onde se aninham as flores femininas. Esta é uma espécie dióica, com flores masculinas amareladas (4ª foto) e mais vistosas do que as femininas (3ª foto), decorrendo a floração em Dezembro. O fruto é uma semente castanha quando madura, com elevada percentagem do tal óleo milagroso.



As fotos são de uma colina arenosa da Ponta da Canavieira, em Porto Santo. Nesta lomba perto do mar, o solo tem a cor da argila e desfaz-se ao toque. Na década de 90 foram ali plantados inúmeros arbustos de jojoba para fazer face à intensa erosão. É que, durante os primeiros três séculos depois de ter sido descoberta pelos portugueses, a vegetação original da ilha foi sendo dizimada, fosse para dar lugar a campos de cultivo e pastos, fosse pela grande necessidade de madeira e combustível. Aposta-se agora em substituir essa floresta desaparecida por plantas resistentes a ventos fortes num ambiente semi-árido, na esperança de que possam segurar o solo e, a longo prazo, induzir um aumento de pluviosidade na ilha, apoiando desse modo o retorno do coberto vegetal autóctone. Gastando pouca água, preferindo solos pouco profundos e bem drenados, suportando elevados níveis de salinidade, não exigindo cuidados especiais de cultivo e apreciando um clima mediterrânico seco, a jojoba parece ideal para controlar a desertificação na ilha de Porto Santo.

Apesar do risco, por se tratar de espécie exótica, à jojoba pede-se também que ajude a aumentar a biodiversidade em locais onde outrora só se plantou o pinheiro mediterrânico Pinus halepensis, num regime de monocultura que outrora se adoptou, não sem perigo como hoje sabemos, nos pinhais de Leiria.

22/05/2021

O dever de não ver

Ranunculus ollissiponensis Pers.
Como crianças na hora do recreio, temos finalmente autorização para passear ao ar livre e admirar as belezas naturais fora do nosso concelho de residência, sempre sob o olhar benévolo e vigilante dos nossos tutores. Acontece que as restrições à mobilidade e o dever geral de recolhimento domiciliário resultaram, no que às plantas de floração precoce diz respeito, em restrições à visibilidade e, mais concretamente, no dever geral de não as vermos. Ninguém nos vai indemnizar pelas flores de 2020 e 2021 que fomos proibidos de ver, e ninguém nos garante que em 2022 a proibição não seja renovada, pois há um consenso alargado de que só as férias de Verão na praia merecem ser salvas, tudo o resto podendo ser sacrificado a esse objectivo. É a mitologia cristã a funcionar: purgamo-nos de pecados mais ou menos imaginários com cilícios e abstinências, para depois, de alma purificada, podermos ascender ao paraíso — ou, neste caso, descer à praia.

O botão-de-ouro ilustrado nas fotos, de seu nome Ranunculus olissiponensis, floresce entre Março e Abril, e por isso nos dois últimos anos a contemplação das suas flores esteve interdita a todos os portugueses que morassem em concelhos urbanos. Nem os lisboetas o puderam ver, apesar de o epíteto olissiponensis sugerir que este ranúnculo se dá especialmente bem na capital portuguesa. Trata-se, de facto, de uma espécie frequente em afloramentos rochosos de xisto ou calcário no norte e centro do país, rareando contudo a sul do Tejo. Em anos desconfinados, os lisboetas podem facilmente encontrar o R. olissiponensis na serra de Montejunto, e pela mesma altura (segunda quinzena de Março) é ele que cobre de amarelo os taludes das estradas do vale do Douro.

Botões-de-ouro há muitos, e quem perdeu este ranúnculo poderá ainda ver outros em habitats bastante diversificados. Por exemplo, o Ranunculus repens e o R. bulbosus, que preferem lugares encharcados, têm floração mais tardia, que se prolonga até Junho. E, nos calcários do centro e sul do país, há um ranúnculo também amarelo que floresce no Outono, o R. bullatus.

Como distinguir o Ranunculus olissiponensis dos seus congéneres? É preciso atender ao formato e pilosidade das folhas, que têm uma textura quase sedosa, e notar que tanto as hastes da planta como as sépalas das flores (2.ª foto em cima) são cobertos por pêlos brancos compridos. Se a época for avançada, o formato alongado do fruto é um indício importante. E, finalmente, há que ver se a ecologia está certa, pois o R. olissiponensis vive sobretudo em locais pedregosos e, de preferência, soalheiros.

08/05/2021

Jardim da Boneca



É em Abril e Maio que as urzes, sargaços e malmequeres pintam de roxo, branco e amarelo as encostas da serra da Boneca, contrastando essa policromia com o negrume do xisto estratificado em lâminas aguçadas. Aproveitemos agora que os nossos pastores não proíbem a visita para admirarmos este panorama apenas com um leve sentimento de culpa — pois afinal somos imperfeitos, incapazes de nos conformamos com o recolhimento domiciliário ad aeternum em nome do bem comum. Já aqui falámos das flores da Boneca, e todas elas continuam por lá a chamar-nos. Mas hoje damos destaque a uma planta anual discreta que poucas vezes é avistada no norte do país, apesar de a Flora Iberica garantir a sua existência em todas as províncias de Portugal continental. Não esperaríamos encontrá-la tão perto do Porto, e na Boneca só a vimos ladeando um antigo trilho numa encosta íngreme e pouco frequentada.

Chaetonychia cymosa (L.) Sweet


De porte erecto e grácil mas de curta estatura — quase sempre menos que 10 cm —, a Chaetonychia cymosa, que se distribui pelo oeste da bacia mediterrânica (Portugal, Espanha, França, Marrocos, Tunísia, Córsega e Sicília), é uma planta de prados anuais em substratos siliciosos mais ou menos secos, admitindo, contudo, algum encharcamento no Inverno. É fácil de reconhececer pelo caule avermelhado e pelas folhas carnudas e lineares, dispostas em grupos bem espaçados. As flores reúnem-se em umbelas no extremidade das hastes, o que à vista desarmada faria supor tratar-se de uma umbelífera. Mas se puxarmos da lupa logo vemos que as flores desmentem a pertença a essa família. São flores difíceis de interpetrar: parecem constituídas por três peças brancas, engrossadas, rematadas por um ápice afiado. Fazem contudo lembrar as do Illecebrum verticillatum (planta comum em lugares húmidos) e as de certas espécies de Paronychia, não sendo pois de estranhar a inclusão da planta na família Caryophyllaceae. Aliás, a Chaetonychia cymosa começou por chamar-se Illecebrum cymosum, nome atribuído por Lineu, e hoje em dia há quem proponha mudá-la para o género Paronychia.

Se sabemos já em que linhagem a Chaetonychia cymosa encaixa, falta-nos ainda perceber-lhe a flor. Flor essa que, de facto, não tem pétalas, e em que são as sépalas (as tais peças brancas engrossadas) que cumprem a função decorativa e atraem os polinizadores. Cada flor tem cinco sépalas desse tipo, três delas maiores, rodeando e ocultando as outras duas. A parte reprodutiva da flor (ovário e estames) fica escondida no ninho formado pelas sépalas. Com tão estreito canal de acesso, adivinha-se que os insectos capazes de oficiar as núpcias, colhendo e transportando o polén de flor em flor, tenham de ser minúsculos. Até pode acontecer não estarem disponíveis, recorrendo então a flor à autofecundação. De facto, a autogamia é prática comum na tribo Paronychieae (que inclui Paronychia, Illecebrum e Chaetonychia e uma dezena mais de géneros), optando às vezes as flores pela clistogamia — significando isto que não chegam a abrir e mesmo assim conseguem fecundar-se.

29/04/2021

Aprumo militar


Orchis militaris L.


Ninguém mata de tão longe como um homem,
e poderás dizer que esse facto prova
apenas a sua melhor pontaria ou tecnologia,
mas prova também a estratégia de uma espécie.
Não se ama de tão longe, por exemplo.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia (Editorial Caminho, 2010)

18/04/2021

Flor do Arlequim



Santa Maria é a ilha de duas cores: amarela a metade ocidental, sobrando para a outra metade o verde que é marca registada do arquipélago. É essa a imagem mais forte que, ainda o avião não aterrou, fica na retina dos turistas que acorrem à ilha nos meses do Verão. Quando em outros anos a visitámos em Maio ou Junho essa dupla personalidade era evidente, mas desta vez, visitando-a no final de Março após semanas de chuva copiosa, o verde era a única cor autorizada, com as vacas pastando felizes entre as ervas tenras. Contudo, se a cor não marca a diferença, já o relevo não depende da sazonalidade: em volta do aeroporto e da Vila do Porto, e até que a terra se empina anunciando o Pico Alto, desenrola-se uma área plana pontuada por habitações baixas e esparso arvoredo exótico. É aqui que se situa o bairro do aeroporto: casas amplas e brancas servidas por ruas rectilíneas, despojos dos tempos gloriosas de uma ilha que recebeu, ainda durante a 2.ª Guerra Mundial, a primeira base militar americana no Atlântico. Já sem militares, o tempo das vacas gordas prolongou-se até meados dos anos 70, quando os aviões deixaram de fazer aqui escala e o aeroporto da ilha perdeu quase toda a importância. Dessa época sobrou um cinema (obviamente chamado Cinema do Aeroporto) com capacidade para 800 lugares — o edifício, agora pintado de fresco, acaba de ser recuperado e terá nova vida como centro cultural.

Talvez os terrenos baldios rodeando as casas tenham sido jardins, mas o abandono até os fez mais interessantes. É esta a zona da ilha onde mais aparece a Serapias parviflora, orquídea que, nos Açores, apenas existe nesta ilha e talvez na Terceira. Herbáceas simpáticas como o Centaurium tenuiflorum, Centaurium maritimum, Mentha pulegium e Papaver somniferum são aqui muito frequentes. Nas valas e charcos, e tirando partido de uma capacidade de retenção de água como só existe nesta ilha (muito menos «porosa» do que as demais ilhas do arquipélago), abundam o Alisma lanceolatum e diversas ervas higrófilas. E até plantas exóticas como a Verbena rigida (que pouco se vê nas outras ilhas) parecem aqui ser mais mimosas e menos agressivas.

Sparaxis bulbifera (L.) Ker Gawl.


Sul-africana de origem, a Sparaxis bulbifera, ou flor-do-Arlequim, talvez caiba na categoria das exóticas invasoras que são apenas moderadamente nocivas. Não a havíamos notado em visitas anteriores a Santa Maria porque floresce cedo, entre Março e Abril, mas ela é abundante na metade plana da ilha, ocupando contudo habitats que já pouco têm de natural, como pastagens e terrenos baldios. Convive muito bem com o pastoreio e até é favorecida por essa actividade, já que as vacas, que não lhe apreciam o sabor, eliminam a concorrência e deixam-na tranquila. É uma planta vivaz, com hastes floríferas de 15 a 60 cm de altura renovadas anualmente a partir de bolbos subterrâneos. Além da reprodução normal por semente, e como aliás sugere o epíteto específico, é capaz de multiplicar-se vegetativamente através de bolbilhos formados nas axilas das folhas. As folhas, de 10 a 30 cm de comprimento, têm forma de espada e dispôe-se em leque, à semelhança das folhas de outras iridáceas. O nome comum Harlequin flower, usado por anglo-saxónicos, é aplicado indistintamente às diferentes espécies do género Sparaxis, todas elas endémicas da província do Cabo, na África do Sul, e talvez se ajuste melhor a plantas mais coloridas como a Sparaxis tricolor. Tanto quanto se sabe, nos Açores a S. bulbifera só está naturalizada em Santa Maria e em São Miguel; de resto, emigrou também para as antípodas e naturalizou-se com sucesso na Nova Zelândia e na Austrália.

13/04/2021

Tamujo das ilhas

O arquipélago dos Açores é feito de terra jovem de origem vulcânica. A ilha mais nova é o Pico, com cerca de 40 mil anos, sendo Santa Maria a mais antiga, não tendo, porém, mais do que 14 milhões de anos. Como medida de comparação podemos usar o arquipélago da Madeira, que terá nascido há uns 70 milhões de anos. As ilhas açorianas distam relativamente pouco dos continentes europeu e africano, e as plantas que hoje vegetam nestas ilhas resultaram da colonização de espécies continentais (possivelmente com uma passagem por outras ilhas da Macaronésia), que sobreviveram à viagem, se adaptaram ao solo poroso mas muito fértil, e cujo ciclo de vida se coordenou com o clima atlântico de temperaturas amenas e muita chuva. Passados milhões de anos, algumas das plantas açorianas têm já fraca lembrança dos progenitores, e são hoje espécies autónomas, que não existem em mais nenhum local do mundo. Por exemplo, o Cerastium azoricum, a Myosotis azorica e a Euphrasia azorica só ocorrem nas ilhas mais ocidentais, Flores e Corvo, embora os géneros correspondentes estejam representados na flora continental. Noutras espécies, porém, a herança genética foi mais resistente à erosão do tempo, ou a chegada às ilhas foi mais tardia, ou a colonização foi mais difícil — e as semelhanças morfológicas com as espécies continentais mantêm-se. Por isso, é ainda controverso que essas plantas açorianas constituam espécies distintas.

Myrsine retusa Aiton — flores femininas em cima; masculinas em baixo


É o caso da Myrsine retusa, cuja designação científica não é definitiva, havendo botânicos que preferem considerá-la uma subespécie ou variedade da Myrsine africana. A M. africana ocorre no centro, leste e sul de África e em grande parte da Ásia, preferindo aí locais pedregosos e bem drenados, em ambiente florestal. Uma ecologia, afinal, não muito diferente da açoriana. De qualquer modo, havendo actualmente meios de diferenciação genéticos bastante eficientes, é uma questão de tempo até que algum botânico se disponha a encetar tal estudo, dissipando de uma vez quaisquer dúvidas.

O tamujo tem, todavia, um perfil peculiar entre os cerca de 70 endemismos açorianos conhecidos: para além da Myrsine retusa, só duas espécies adicionais (Smilax azorica e Corema album subsp. azoricum) são dióicas. Supomos que, nesse pormenor, estas espécies tenham estado em desvantagem, pois são precisas plantas dos dois sexos para que a espécie se instale com sucesso num novo habitat.

Da família Primulaceae, o tamujo está presente em todas as ilhas açorianas, aprecia os bosques sombrios e frescos de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), e forma arbustos baixos de folhagem perene muito ramificada, com folhas ovais arredondadas, alternadas, coriáceas e dentadas no ápice. A floração inicia-se no fim de Março, pelo menos na ilha de Santa Maria, onde pudemos finalmente ver este ano as flores: as masculinas com anteras vermelhas muito vistosas; as femininas diminutas (cerca de 2 mm), esbranquiçadas, com sépalas pintalgadas. O fruto é uma baga com uma semente.

Santa Maria: Picconia azorica (à esquerda); Pico Alto (à direita); Monte Gordo (em baixo)

04/04/2021

Dona Genciana revisitada




Portugal, talvez por falta de cadeias montanhosas elevadas, foi muito desfavorecido face a Espanha na partilha de espécies de Gentiana: só temos duas (G. pneumonanthe e G. lutea, esta só na serra da Estrela) e os nossos vizinhos têm 13; se lhes acrescentarmos os géneros aparentados Gentianopsis e Gentianella, o saldo final é de 16-2 a favor de Espanha. Que, com toda esta prodigalidade, ainda pôde assegurar que duas dessas espécies (G. boryi e G. sierrae) fossem exclusivas do seu território.

Os Pirenéus, que visitámos uma única vez, é um local de eleição, mesmo nos meses mais quentes, para quem queira familiarizar-se com a diversidade de gencianas e aparentadas, acolhendo algumas espécies amplamente distribuídas na Europa. Duas delas são hoje aqui apresentadas, e servem de pretexto para averiguar das diferenças entre uma Gentianella e uma genuína Gentiana.

Gentianella campestris (L.) Börner
Na Gentianella campestris (fotos em cima) as flores têm quatro pétalas, o mesmo valendo para a Gentianella amarella, a outra espécie ibérica do género. Poderá ser esta uma característica diferenciadora? Parece que não. É que, embora a maioria das espécies de Gentiana tenha cinco pétalas, há pelo menos uma excepção, a Gentiana cruciata, que apresentamos abaixo. Outra possível divergência estaria no ciclo de vida: as duas espécies ibéricas de Gentianella são bienais, enquanto quase todas as de Gentiana são perenes. Mais uma vez uma excepção vem boicotar a teoria: a Gentiana nivalis, especialista em alta montanha, é uma planta anual.

Uma diferença promissora é que, na Gentianella, os lóbulos da corola (é algo incorrecto falar em «pétalas» quando elas não estão claramente autonomizadas) têm a base fimbriada, formando uma franja na abertura do tubo floral. Essa franja está ausente de todas as espécies de Gentiana, mas surge também, e de modo ainda mais visível, na Gentianopsis ciliata, uma falsa genciana em que todo o bordo da corola está guarnecido de cílios. Assim, quando o leitor, nas suas andanças pós-pandémicas pelas montanhas europeias, deparar com uma planta que lhe pareça ser uma Gentiana mas apresente flores mais ou menos franjadas (não se esqueça da lupa, tão indispensável ao seu kit de sobrevivência como o aparelho de gps, a garrafa de água e o bastão de caminhada), já poderá declarar confiante que se trata afinal de uma Gentianella ou Gentianopsis (ou simplesmente Gentianella, pois a opinião mais recente é que os dois géneros são um só).

Gentiana cruciata L.


Para terminar, uma palavra de apreço pela Gentiana cruciata, uma planta de prados de montanha e clareiras de bosques em altitudes não demasiado elevadas (até 2000 m), com preferência por substratos calcários. As flores tubulares azuis, mais ou menos pigmentadas na garganta, são traços de família que saltam à vista. No entanto, as folhas grandes e os caules robustos, e a disposição das flores em verticilos axilares (ver 1.ª foto), diferenciam-na claramente de outras gencianas azuis de flores semelhantes (como a G. pneumonanthe e a G. angustifolia). Dir-se-ia que a G. cruciata se situa na transição entre esse grupo de espécies, formado por herbáceas tendencialmente rasteiras, e as avantajadas G. lutea e G. burseri.