17.11.18

Nocturno com tabaibas



Euphorbia balsamifera Aiton

Embora haja esperança de que uma directiva europeia venha alterar a situação já em 2019, a verdade é que os dias de Inverno permancem curtos. Mas, graças à diferença de latitude, são um bocadinho menos curtos nas Canárias, onde no final de Dezembro anoitece apenas às seis da tarde, uma hora depois de o sol se pôr pelas nossas bandas. Quando visitámos o Malpaís de Güimar, na costa leste de Tenerife, os relógios marcavam quatro da tarde. Não estando nós munidos de lanternas, tínhamos uma hora para avançar pelo trilho acidentado, rompendo pela pedra negra como carvão, e uma hora para regressar pelo mesmo caminho sem que a escuridão tornasse os nossos passos ainda mais inseguros. O sortilégio da paisagem fez-nos demorar além do previsto e o regresso fez-se já ao lusco-fusco - que não era assim tão tenebroso e combinava muito bem com o negrume das pedras envolventes, sublinhando a tons de doirado os troncos rastejantes das tabaibas.

"Malpaís" pode traduzir-se por "terra má", e (ensina a Wikipédia) é o nome que se dá nas Canárias, México e sul dos Estados Unidos a uma extensão de terreno inóspita e árida formada por rochas vulcânicas que sofreram pouca erosão. Não é que o episódio vulcânico que lhe deu origem tenha sido recente, mas a chuva e os ventos que, noutras paragens, contribuiriam para uma erosão mais acentuada estão aqui quase ausentes. Chamam-lhe terra má por ser imprestável para cultivo e nem para pastagem servir. Mas não significa que seja estéril: que o digam as tabaibas, os alecrins-do-mar e até certas alfaces.

Esta eufórbia arbustiva, conhecida no arquipélago como tabaiba-doce e eleita oficialmente como um dos símbolos naturais da ilha de Lanzarote, distribui-se por todas as ilhas Canárias e por muitas zonas semi-desérticas da metade norte do continente africano. Os povos nómadas consumiam as suas folhas em tempos de escassez alimentar, o que talvez explique o adjectivo doce. Certo é que o látex desta espécie, apesar de tóxico, não é tão abrasivo como o de outras eufórbias, e terá mesmo sido usado medicinalmente como anestésico.

Nem sempre a tabaiba-doce é tão prostrada como mostram as fotos: em condições mais favoráveis pode ultrapassar os dois metros de altura. O que a singulariza face a outras tabaibas é que cada inflorescência está reduzida ao mínimo, sendo composta por um único cíato (compare as fotos abaixo com as desta página).


10.11.18

Palha-d'aço florido


Launaea arborescens (Batt.) Murb.

Na presença deste emaranhado de ramos denso e ziguezagueante, de aparência espinhosa, diria o leitor tratar-se de uma margarida? Talvez apostasse mais depressa que é um tojo ou um cacto, perdendo a aposta mal lhe visse as flores.




As flores amarelas não deixam dúvidas sobre a filiação deste arbusto nas asteráceas, embora reconheçamos tratar-se de uma espécie invulgar. Nota-se que a ramagem, suculenta e com picos (na verdade, são o que resta dos pés das flores), está adaptada a regiões costeiras áridas, preservando na floração as características da família a que pertence. Os indivíduos podem chegar ao metro e meio de altura, embora formem mais frequentemente novelos baixos, com base lenhosa e raízes robustas. Há registo da L. arborescens no sul da Península Ibérica (na vizinhança de Málaga), no noroeste de África, nos arquipélagos das Canárias e de Cabo Verde, e na ilha da Madeira (só na Ponta de São Lourenço). As fotos, que não mostram as folhas (lineares) porque estas duram pouco, foram obidas nas dunas de El Médano, no sul de Tenerife.



O género Launaea abriga meia centena de espécies que ocorrem no Mediterrâneo, no sul da Ásia e em África. É comum, e exibe grande diversidade genética, no norte de África. Tem aí usos medicinais, culinários e na alimentação do gado, embora, segundo consta, tenha sabor azedo e precise de ser cozinhado para se tornar degustável. Na Europa, apenas o sudeste de Espanha e a Sicília parecem ser suficientemente quentes e secos para serem colonizados com sucesso pelas espécies deste género.

O nome genérico foi escolhido pelo botânico Henri Cassini (1781-1832), especialista em malmequeres e trineto do astrónomo Giovanni Cassini, para homenagear o naturalista francês Jean-Claude de Launay (1750-1816).

3.11.18

Tabaiba cor de vinho



Euphorbia atropurpurea Brouss. ex Willd.



Tabaiba é o nome que se dá nas Canárias às eufórbias arbustivas desprovidas de espinhos e com folhas bem formadas; as demais eufórbias endémicas do arquipélago têm a aparência de grandes cactos (embora não sejam cactos) e são conhecidas como cardóns. As tabaibas são parentes próximas dos troviscos-machos açorianos (Euphorbia stygiana subsp. stygiana e E. stygiana subsp. santamariae) e das duas figueiras-do-inferno madeirenses (E. piscatoria e E. mellifera). Só em Tenerife são quatro as espécies de tabaibas, e cada uma das restantes ilhas Canárias apresenta uma diferente selecção destes arbustos, que assumem formas muito diversas, tanto na ecologia e no modo de crescimento como no aspecto da inflorescência. Há as espécies costeiras que se agacham e crescem rastejantes para se protegerem do vento, há as que vivem mais abrigadas em encostas secas e são capazes de atingir os dois metros de altura, e há finalmente as que fazem da laurissilva a sua casa e, competindo pela luz, têm de erguer mais alto os seus ramos. A única espécie neste último grupo é a E. mellifera, a mesma que existe na Madeira e que é muito mais comum nessa ilha do que nas Canárias. O segundo grupo de espécies (que não escapa a alguma sobreposição com o primeiro) é o mais numeroso, e inclui a Euphorbia atropurpurea, endémica de Tenerife, aqui fotografada na zona de Masca, onde é particularmente frequente.

Num concurso de beleza para tabaibas, esta tenerifenha, com o seu porte arrumadinho de árvore em miniatura, as suas inflorescências cor-de-vinho contrastando com as grandes folhas glaucas, convenceria qualquer júri a elegê-la Miss Tabaiba. Se fossem admitidas concorrentes de toda a Macaronésia, como parece justo, seria a E. piscatoria, na versão porto-santense, a escolhida como primeira Dama de Honor.

As inflorescências das eufórbias são complicadas: na 5.ª foto acima, o fruto já desenvolvido, cor de cereja madura, emerge de uma estrutura onde há quatro nectários amarelos e quatro flores masculinas, cada uma delas reduzida a um estame; essa estrutura (chamadas cíato) é envolvida por duas brácteas vermelhas, em forma de rim, fundidas uma com a outra; finalmente, os cíatos, sustentados por pedúnculos do mesmo vermelho tinto, dispõem-se em umbelas compostas por numerosos raios (entre 5 a 15 - ver 4.ª foto). É um conjunto que se singulariza não apenas pelo colorido mas também pela sua forma ampla e aberta. A floração decorre durante praticamente todo o ano (as fotos são do final de Dezembro), mas é mais intensa em Março e Abril.

28.10.18

Amarelo de Inverno



A costa noroeste de Tenerife é uma paisagem vulcânica e árida, exposta ao sol e a longos períodos de secura. Mas não é um deserto: em recantos mais abrigados, cobre-a um mato rasteiro, moldado pelos reveses num lugar tão inóspito. Sem chuva que as livre das elevadas concentrações de sal, as plantas deste ecossistema têm mecanismos eficientes de recolha de água pura do solo salgado e arenoso mas humedecido. Aí dominam as eufórbias, acompanhadas por um número em geral restrito de outras espécies.



Neochamaelea pulverulenta (Vent.) Erdtman [sinónimo: Cneorum pulverulentum Vent.]

A lenha-santa (tradução para o espanhol do nome dado pelos nativos das ilhas, que a terão usado em rituais fúnebres ou pelo seu valor medicinal) é um arbusto de ramagem densa, com folhas acinzentadas e protegidas da insolação por uma camada aveludada de pêlos, que também inibe a evaporação da água. As flores nascem durante o Inverno aninhadas entre as folhas jovens, na ponta dos ramos. Os frutos vistosos, de cor rubra, parecem os das eufórbias e são apreciados por lagartos que, comendo-os, os disseminam.



Também chamada oliveira-tabaiba (tradução livre do nome inglês, spurge olive), a N. pulverulenta é um endemismo das ilhas Canárias, frequente na Grã Canaria e em Tenerife mas ausente de Fuerteventura, Lanzarote e La Palma. É a única espécie do género Neochamaelea, designação proposta em 1952 por O. G. Erdtman. Alguns botânicos, porém, entendem que a criação de um género para abrigar esta espécie é desnecessária: estudos recentes indicam que ela se inclui no género Cneorum, dando assim razão a E. P. Ventenat - que, em 1802, a descreveu como Cneorum pulverulentum. Sob qualquer destes sinónimos, é uma espécie protegida por lei devido à sua distribuição restrita num habitat em risco, alvo da concorrência de espécies não autóctones mais resistentes.

20.10.18

Orquídea dos três dedos


Habenaria tridactylites Lindl.



À medida que nos aproximamos dos trópicos, esbatem-se as diferenças entre as estações do ano. É verdade que, com as alterações climáticas, também nos climas temperados se assiste à descaracterização das estações intermédias - um exemplo eloquente é este Outono de 2018 que tarda em descolar do Verão. No entanto, as plantas que durante muitos milhares de anos evoluíram num certo clima continuam para já a comportar-se como se nada tivesse mudado. Mesmo com o tempo meteorológico às avessas, elas obedecem ao calendário para que foram programadas: há muitas mais flores na Primavera do que no Outono, e é na Primavera que as árvores ganham folhas novas, deixando-as cair no Outono. É assim na Europa continental, mas não nos arquipélagos da Macaronésia - onde, só para começo de conversa, não há árvores nativas caducifólias. Na Madeira são várias as plantas endémicas que florescem no Inverno, e nas Canárias ainda é maior o desrespeito pela convenção eurocêntrica que proíbe um Inverno florido. Em rigor, Inverno e Outono são, nessas ilhas, conceitos postiços.

Esta orquídea é uma das plantas que, nas Canárias, florescem nos meses que para nós são de Inverno; a semana entre o Natal e o Ano Novo é uma boa altura para a observar. Com duas únicas folhas basais, largas e achatadas, e uma haste esguia de 10 a 40 cm de altura sustentando umas tantas pequenas flores esverdeadas, não é das orquídeas mais vistosas, nem de cor mais apelativa. Pelas suas flores discretas e pelo aspecto geral, esta Habenaria tridactylites canarina faz aliás lembrar as orquídeas açorianas do género Platanthera. Tanto assim é que estas últimas foram inicialmente incluídas (em 1844, por Maurice Seubert, na sua Flora Azorica) no género Habenaria, erro que só seria corrigido em 1920 por Schlechter. Se atendermos aos detalhes, contudo, a orquídea das Canárias é bem diferente das açorianas: não possui folhas caulinares, e as flores, que estão dispostas de forma menos densa, têm o labelo dividido em três segmentos lineares que se assemelham a dedos longos e finos (daí o epíteto tridactylites), além de apresentarem um esporão muito mais comprido.

Contando com sete orquídeas nativas, das quais apenas três são endémicas, as Canárias não são um destino prioritário para os orquidófilos: tanto em quantidade como em diversidade, qualquer ilha do Mediterrâneo, por pequena que seja, é incomparavelmente mais rica em orquídeas do que Tenerife - que é a maior das ilhas Canárias, nela ocorrendo todas as espécies de orquídeas presentes no arquipélago. Mas em Dezembro ou Janeiro não há, no Mediterrâneo ou na Europa continental, orquídeas silvestres para admirar, e um saltinho às Canárias para ver a Habenaria tridactylites é um modo de amenizar a espera. Acresce que o género Habenaria não está representado na flora europeia, o que significa que a orquídea-dos-três-dedos é totalmente diferente de qualquer orquídea que possamos encontrar na Europa. (Nisto a Europa faz figura triste, pois calcula-se que haja umas 840 espécies de Habenaria distribuídas por zonas tropicais e subtropicais de todo o mundo, 240 delas só em África.)

Foi à vista dos ilhéus de Anaga, na ponta nordeste de Tenerife, que encontrámos pela primeira vez esta orquídea. Mas vimo-la depois, às vezes em grupos de largas dezenas, em muitos outros lugares da ilha, sobretudo em clareiras de matos em zonas de média ou baixa altitude.

14.10.18

Alecrim do mar

Apesar do turismo intenso na ilha durante todo o ano, a flora do litoral de Tenerife superou as nossas expectativas. Claro que ajuda à conservação da biodiversidade que as falésias à beira mar sejam íngremes, com ladeiras pedregosas e escorregadias, onde a aridez e o vento desaconselham as visitas e evitam o pisoteio. E que seja precisamente esse habitat, que nos parece tão inóspito, o que algumas das espécies mais bonitas preferem.


Campylanthus salsoloides (L.f.) Roth



O alecrim-do-mar (em espanhol, romero marino) é um endemismo das ilhas Canárias, presente em quase todas elas mas quase sempre em núcleos escassos. Há registo de duas variedades, uma de flores violeta-carmim (a mais frequente) e outra bastante rara de flores brancas, ambas com a base das pétalas claras e o interior do tubo amarelo. É um arbusto perene e lenhoso (diz-se que dos seus troncos secos se faziam outrora cachimbos), ramificado desde a base, com folhas cilíndricas e carnudas a lembrar as de algumas espécies do género Salsola. As suas flores agrupam-se em arranjos terminais, e o seu formato sugeriu a A. W. Roth (em 1821) o nome do género: Campylanthus provém dos termos gregos kampylos (encurvado) e anthos (flor), aludindo à curvatura do tubo floral (que se nota na 3ª foto) e às pétalas ligeiramente recurvadas para trás. Cerca de quarenta anos antes, o filho de Lineu designara esta espécie como Eranthemum salsoloides, de que se preservou o epíteto específico aquando da mudança de género.

Vimos estes exemplares em Dezembro de 2017, há muito passada a época oficial de floração desse ano (que, segundo as Floras, se prolonga de Janeiro a Julho). Mais um mês, e as inflorescências do ano seguinte mostrar-se-iam assim mais vistosas.

6.10.18

Violeta de Anaga



Viola anagae Gilli



Anaga, no extremo oriental de Tenerife, feita de relevos abruptos e acidentados, cortada por (poucas) estradas todas em curvas e contra-curvas, suspensas em encostas vertiginosas, esconde uma floresta laurissilva que, embora menos húmida e luxuriante do que a da Madeira, não lhe fica nada atrás em riqueza botânica. É um mundo à parte que parece ter-se juntado por acidente à mesma ilha onde pontifca a paisagem lunar da montanha do Teide. Seguimos de carro pela crista arborizada, a 900 metros de altitude, com a floresta derramando-se pelas encostas, e acessível por caminhos partindo dos vários lugares onde era possível estacionar. Nesta latitude subtropical, mesmo em Dezembro havia flores na berma de estrada que nos obrigaram a sucessivas paragens: uma misteriosa Pericallis, um gerânio gigante, os sinos alaranjados da Canarina. Chegámos por fim ao ponto onde tinha início o trilho quase secreto (só o encontrámos à segunda tentativa) que, entre loureiros e urzes, e pontuado pelo nosso bem conhecido feto-do-botão e por algumas orquídeas temporãs, nos conduziria ao almejado pico Chinobre.

O nosso objectivo era encontrar a Viola anagae, uma violeta endémica de Tenerife que só existe nos bosques desta ponta da ilha. Ao longo do trilho, assim como no exacto lugar onde deixámos o carro, avistámos tapetes de folhas que pertenciam indubitavelmente a alguma violeta - mas, sendo eles tão extensos e numerosos, supusemos tratar-se de coisa banal como a Viola riviniana, comum em toda a Europa e igualmente presente nas Canárias. Mas as folhas anormalmente grandes e coriáceas, com as margens peculiarmente serradas, acabaram por despertar suspeitas que, alcançado o pico Chinobre, se converteram em certezas: aquilo era mesmo a Viola anagae, e ali no pico (mas não antes) havia meia dúzia de flores a comprová-lo. Aprendemos a lição: um endemismo muito restrito (a área total de distribuição da Viola anagae é talvez inferior a 3 km2) pode afinal ser abundante nos poucos nichos onde se acolhe.

A Viola anagae é uma planta rizomatosa, de longos caules rastejantes e folhagem perene, com flores pequenas (1,5 a 2 cm de diâmetro) mas de coloração distintiva. Não é a mais vistosa do seu género nas Canárias, mas dificilmente se confunde com qualquer outra Viola nativa do arquipélago. Sendo tão fácil de encontrar na laurissilva de Anaga, e sendo a flora canarina tão intensamente estudada pelo menos desde o século XIX, é um mistério que a espécie só em 1979 tenha sido reconhecida. Quem dela publicou a primeira descrição foi o botânico austríaco Alexander Gilli (1904-2007).

29.9.18

Marcetella, menino ou menina?

Subíamos nós a pé por uma estrada íngreme que liga Los Silos a Tierra del Trigo, em Tenerife, quando avistámos na berma um arbusto elegante e ramoso, de folhas glaucas e pinadas, dispostas em rosetas muito vistosas. Parecia enfeitado com espigas pendentes de flores diminutas e sésseis, cabeludas mas sem pétalas, protegidas por sépalas em tom verde escuro com matizes rubros. Viam-se também cachos de frutos que nos lembraram sâmaras de ulmeiro ou de Sanguisorba. A embelezar o conjunto notava-se uma curiosa penugem avermelhada nos talos superiores.



Marcetella moquiniana (Webb & Berthel.) Svent.

Depois de amplamente registado em foto, reiniciámos a caminhada, mas estacámos de imediato: ali estava outro arbusto semelhante, mas não igual: a folhagem não era tão azulada, as sépalas eram bastante mais reviradas e a cor dominante era o verde-amarelado; além disso, parecia dar frutos diferentes. Mas os frutos não eram frutos (eram flores ainda em botão) e tratava-se afinal da versão masculina do arbusto anterior - que, confirmámos depois, é de facto de uma espécie dióica.



O nome do género é uma homenagem do botânico sueco Eric S. Sventenius ao Padre Adeodat Francesc Marcet i Poal (1875-1964), estudioso da montanha de Montserrat, na Catalunha, que em 1903 iniciou um herbário exaustivo da flora desta região. A colaboração frutuosa entre Marcet e os botânicos Joan Cadevall, Carles Pau, Pius Font i Quer e Sventenius, entre outros, trouxe à lembrança o contributo notável que resultou da cooperação científica entre o Padre Miranda Lopes, de Vimioso, e os botânicos Gonçalo Sampaio, Júlio Henriques e A. X. Pereira Coutinho. O epíteto moquiniana refere-se ao naturalista francês Christian Horace Benedict Alfred Moquin-Tandon (1804–1863), que foi director do Jardim Botânico de Toulouse e, posteriormente, do Jardin des Plantes, e também co-autor de uma História Natural das Ilhas Canárias (1835–1844).

Marcetella, da família Rosaceae, é um género exclusivo da Macaronésia, com duas espécies conhecidas: a M. moquiniana das ilhas Gran Canaria, Tenerife e La Gomera; e uma espécie endémica na Madeira, M. maderensis (Bornm.) Svent., designação ainda provisória pois alguns estudos sugerem ser ela mais próxima do género Sanguisorba. Na nossa visita à Madeira não vimos nenhum exemplar dessa segunda Marcetella, que se afigura ser ainda mais rara do que a sua irmã das Canárias. Habita escarpas rochosas expostas do litoral e interior da Madeira, desde a Câmara de Lobos até ao Pico do Cedro, sem subir além dos 700 metros de altitude. Locais a explorar numa próxima visita ao arquipélago.

18.9.18

Douradinha dourada



Ceterach aureum (Cav.) Buch [sinónimo: Asplenium aureum Cav.]



Apesar de ele ser mais prateado do que dourado, douradinha é o nome que em Portugal se dá ao Ceterach officinarum, um feto que aparece de norte a sul do país e é particularmente abundante em rochas e paredes calcárias. A Madeira tem a sua própria versão do feto em formato avantajado: leva o nome de Ceterach lolegnamense e vive na vertente sul da ilha, sobre velhos muros ladeando as íngremes estradas em redor do Funchal. Já aqui lhe dedicámos desenvolvida reportagem; demos então conta de que ele vivia separado dos seus presumíveis pais, Ceterach aureum e Ceterach octoploideum, ambos endémicos das Canárias. De uma espécie gerada por hibridação e poliploidia, espera-se que reúna os cromossomas dos dois progenitores. Sendo o C. aureum um tetraplóide e o C. octoploideum um octoplóide, deveria o Ceterach lolegnamense ser dodecaplóide, mas afinal fez a coisa por metade e ficou-se como hexaplóide. As leis da genética condenavam-no à esterilidade, mas os seus gametófitos praticam a apomixia - ou seja, dispensam a fecundação para produzir novas plantas - e desse modo a espécie logrou perpetuar-se.

Na nossa visita a Tenerife apenas se nos mostrou um dos progenitores do feto madeirense, precisamente o Ceterach aureum, que é o maior dos dois e em tamanho excede claramente o C. lolegnamense. A ecologia do feto canarino é assaz diferente da dos seus congéneres, procurando ele lugares abrigados e húmidos, muitas vezes em ambiente florestal. É um tipo de habitat que é bem menos frequente nas Canárias do que na Madeira ou nos Açores, e daí que o Ceterach aureum, ou douradinha dourada, não seja fácil de encontrar. Vimo-lo apenas no barranco de Añavingo, vicejando na frescura possível de um fim de ano cálido.

O tamanho não nos deixou dúvidas quanto à identidade do feto, mas o caso mudaria de figura se tivéssemos deparado com um feto mais débil. Estando nós mal equipados para contar cromossomas, e de um modo geral para executar tarefas microscópicas, ver-nos-íamos em maus lençóis para distinguir o C. officinarum do C. octoploideum, sendo certo que ambos ocorrem nas Canárias. De facto, e como se conta no artigo (de 2006) Asplenium ceterach and A. octoploideum on the Canary Islands (Aspleniaceae, Pteridophyta), já há muito se haviam detectado nas Canárias duas formas do Caterach, tidas as duas como variedades do C. aureum, e sendo a forma mais pequena chamada de C. aureum var. parvifolium. Essa variedade parvifolium seria octoplóide, e a variedade nominal tetraplóide. O estudo dos autores do artigo revelou porém que muitos dos exemplares atribuíveis à variedade parvifolium eram na verdade tetraplóides, e correspondiam, tanto morfológica como geneticamente, ao exacto Ceterach officinarum do continente europeu. Pior ainda: verificou-se que o holótipo da variedade parvifolium era um exemplar de Ceterach officinarum, o que automaticamente fazia com que C. aureum var. parvifolium e C. officinarum fossem sinónimos. Assim, esse estudo, além de estabelecer a existência de três formas de Ceterach nas Canárias, revelou que uma delas (a forma pequena octoplóide) não dispunha ainda de nome válido, e daí terem-na os autores baptizado como C. octoploideum.


11.9.18

Uma alface na estrada do Teno



Astydamia latifolia (L. f.) Baill.



Na mitologia grega, Astydamia é uma ninfa, filha do deus Oceanus. Nome escolhido pelo botânico suíço Augustin Pyramus de Candolle e sem dúvida apropriado à planta que hoje vos mostramos (primeiramente descrita como Crithmum latifolium por Lineu filho), pois ela aprecia precisamente lugares rochosos salpicados de mar. Conhecida como espécie endémica do noroeste de África e ilhas Canárias, foi depois encontrada também nas Selvagens, as ilhas do arquipélago da Madeira mais próximas de África. Da família Apiaceae, a mesma do aipo, funcho, coentros e cenouras, esta herbácea é robusta, de folhas suculentas e talos lenhosos, e tolera grandes concentrações de sal e maresia. As flores são pequeninas, de pétalas amarelas com pontas recurvadas e sépalas com textura de papel que caem antes de as flores desabrocharem. Estas são hermafroditas mas apresentam algum dimorfismo, dispondo-se em geral no bordo da umbela as mais vistosas e funcionalmente masculinas. O fruto é um invólucro com uma tampinha, da cor da cortiça quando maduro.

A Astydamia latifolia é frequente na região costeira de Tenerife, e fomos conhecê-la num sábado morno de Dezembro. Sem o prevermos, começámos o passeio junto a uma cancela provisória bem guardada por um agente da autoridade. Informou-nos, em tom de proprietário, que aos sábados e domingos se vedava aquele percurso ao trânsito automóvel até ao fim da tarde. Creio que nunca nos soube tão bem largar ali o carro e percorrer a pé vários quilómetros sem que o bulício de viaturas se intrometesse com a nossa caminhada. Acedia-se à ponta da ilha onde é fácil fotografar a alface-do-mar por uma longa estrada sempre a subir, seguida de um túnel que desembocava numa outra via mais estreita mas igualmente extensa, ladeada por taludes abruptos até ao mar. No túnel, só alumiado quando o trânsito circula, ouviam-se ruídos que o medo logo associou a morcegos ou vingativos adamastores. Mas eram pássaros, osguinhas e borboletas, e à saída esperava-nos um habitat onde gastámos sem pressa várias horas. Levará meses até que consigamos revelar-vos todas as plantas extraordinárias que por lá observámos.