Daquela falésia voltada para o mar
Notícia recente dava conta de que há algures o desejo e intenção de privatizar algumas praias no país. Sendo pequeno mas bem estacionado, Portugal tem uma costa formidável e, naturalmente, há quem queira ser mais rico em areal e água salgada. Note-se que não se trata apenas de comprar um quintal de areia em frente a uma casa construída quase em cima das ondas, ignorando o risco e talvez os regulamentos. Pretende-se que o vulgo seja impedido de aceder à zona de rebentação das ondas, às dunas e ao mar adjacentes, de nadar nesse pedaço de oceano, ou de passear por muitos quilómetros nessa beira do mar. Até um saudável passeio a pé por habitats de vegetação costeira excepcional ficaria proibido nesses selectos pátios. Não se confunda, porém, essa privatização das praias com medidas de protecção da natureza. O que se ambiciona não é evitar a condução de veículos na areia que destruam a vegetação dunar, a presença de animais que pisoteiem e sujem o areal, a recolha excessiva de conchas e pedras moldadas pelas marés, ou a perturbação de locais de nidificação em rochedos costeiros.
Em Menorca não há praias privadas. Segundo a lei espanhola, toda a costa é pública, e uma faixa de seis metros em terra a partir do mar é de uso inteiramente livre. O problema é que os caminhos de acesso a parte relevante da costa cruzam terreno privado, e esbarram com frequência enervante em portões fechados com avisos como «Prohibido el paso», «Coto privado de caza» ou, com ironia, «Este camino no lleva a la playa.» Ignorá-los é devassar propriedade privada, com multas de valores alarmantes, mesmo que a intenção seja ver de perto uma herbácea rara. Também é por isso que o longo percurso, inteiramente legal, junto aos rochedos da praia de Llucari, a sul da ilha, nos traz tão boas memórias.

Este é um endemismo das ilhas Baleares que se agarra às rochas costeiras, que no sul de Menorca são essencialmente argilosas ou calcárias, formando almofadinhas de rosetas de folhas carnudas com face áspera. As flores, que surgem de Maio a Setembro, são pequenas mas cumprem o figurino dos limónios.

Nestes rochedos da costa ocorre este outro endemismo balear, de hábito prostrado, folhas que parecem corações verdes e flores brancas encaixadas em cálices um pouco maiores do que as corolas. O género Polycarpon tem representantes nos solos arenosos do litoral português, como este que ocorre de norte a sul do continente.

Este assobio minúsculo (de 4 a 10 cm de altura) mora em quase todo o litoral mediterrânico, apreciando covinhas frescas em rochas calcárias costeiras. É uma planta anual revestida de glândulas que decerto a protegem do excesso de sal à beira mar.


Foi no mesmo local, mas nas rochas calcárias mais altas e expostas, que avistámos este arbusto lenhoso em flor. Natural das ilhas Baleares, Sicília e sul de Itália, também agrupa as folhas em coxins para melhor se acomodar a este habitat ventoso. As inflorescências, de cor rosa-violeta, têm um perfil assimétrico, com as flores periféricas maiores. Pode conferir aqui como é o formato característico dos frutos do género Lomelosia.





































