20.3.19

Não são cactos

La Graciosa, a norte das Canárias, a menor ilha habitada do arquipélago, é um pequeno deserto com muito vento, assolada por frequentes tempestades de areia e sem fontes de água potável. O acesso a partir de Orzola, em Lanzarote, faz-se em barcos que mal fintam as vagas agitadas do oceano que separa as duas ilhas. São vinte minutos de travessia até à povoação Caleta del Sebo, na costa sudeste da ilha, com casinhas brancas embelezadas com motivos azuis, e cerca de setecentos habitantes que têm acesso a água do mar dessalinizada e sabiamente dispensam as estradas pavimentadas.



Esperavam-nos uma frota de veículos todo-o-terreno e muitas bicicletas, que a maioria dos turistas aluga para percorrer os cerca de 5 km até à bela Playa de las Conchas. Recusámos, para seguir a pé pelo estradão de terra batida, feita de cinzas vulcânicas e areia, ladeado por vegetação de duna secundária à beira-mar. O ambiente era árido mas a temperatura sentia-se cálida, como é usual em Dezembro por estas paragens. Dirigimo-nos à Montanha Bermeja, um dos cinco grandes vulcões da ilha La Graciosa, que a erosão tem vindo a reduzir a um monte de altura modesta (cerca de 150 m). Procurávamos uma planta suculenta, endemismo raro de Lanzarote e Fuerteventura.



A cerca de meia altura da montanha de cor vermelha, exposto ao sol e à maresia, notámos um tapete de talos suculentos, erectos, com cerca de 20 cm, de secção quadrangular e cor esverdeada a tender para o cinzento. A floração estava em curso, e por sorte alguns exemplares já exibiam frutos. São ambos, flores e frutos, de aspecto magnífico a que vale a pena prestar atenção. A corola de tubo curto tem cinco lóbulos castanhos, quase púrpura, a lembrar os do Vincetoxicum nigrum e salpicados de penugem branca; abrigam uma estrutura amarela que parece uma flor dentro da flor maior. Os frutos, formando dois corninhos como é usual na família Apocynacea, confirmam que a Caralluma não é um cacto, apesar de a morfologia desta planta bizarra resultar, com toda a probabilidade, de uma adaptação à secura e ao calor, como acontece às suas congéneres no norte de África e aos cactos nos desertos das Américas.


Caralluma burchardii N. E. Br. var. burchardii



O epíteto específico é dedicado a Oscar Burchard (1863-1949), botânico alemão que viveu em Tenerife e a quem se deve a descrição de inúmeras espécies da flora das Canárias.

9.3.19

Mostarda das mil folhas


Descurainia millefolia (Jacq.) Webb & Berthel.



Não consta que a planta acima exposta tenha vocação culinária, mas o nome com que a apresentamos desculpa-se porque ela, além de pertencer à mesma família botânica, dá flores amarelas como as verdadeiras mostardas (Sinapis alba ou Brassica nigra). As mil folhas mencionadas em título aparecem também no nome científico, e tanto podem dever-se ao óbvio carácter folharudo da planta como à semelhança dessas mesmas folhas com as da Achillea millefolium, conhecida em Portugal como milefólio ou milfolhada.

O polissilábico nome genérico Descurainia homenageia o francês François Descourain (1658-1740), médico, boticário e naturalista numa época em que essas ocupações se confundiam. Com essa informação percebemos que a pronúncia correcta de Descurainia até para os franceses há-de ser um mistério. Mais importante é saber que na flora europeia o género é representado por uma única espécie, Descurainia sophia, herbácea anual de porte elevado (até 1 m de altura) e distribuição cosmopolita que também ocorreria no nosso país mas não é aqui vista há décadas, e que na América do Norte há pelo menos treze espécies nativas. As Canárias contam com sete espécies de Descurainia, todas endémicas, já não herbáceas anuais mas sim plantas arbustivas de base lenhosa, três delas presentes em Tenerife.

A Descurainia millefolia é frequente em Tenerife em ladeiras secas a altitudes pouco elevadas, entre os 200 e os 1000 metros. Atinge não mais que um metro de altura e as suas folhas são tripinadas, surgindo em tufos nas extremidades dos ramos. As flores amarelas apresentam as quatro pétalas em cruz que são de lei na família das crucíferas. A foto acima mostra umas flores bastante estranhas, pois o normal é que fossem como o leitor pode ver nesta página. Talvez a floração fora de época (em Dezembro quando deveria ser de Março a Maio) tenha levado a planta a inovar no design das pétalas, mas o mais provável é tratar-se de uma anomalia sem cura possível. Nada de inédito: grande parte do comércio hortícola passa por domesticar e reproduzir as aberrações que, uma vez por outra, são produzidas espontaneamente em estirpes de plantas até então normais. Talvez tenhamos desperdiçado um grande negócio ao não colhermos sementes deste anómalo exemplar de Descurainia millefolia.

4.3.19

Narcisos das Canárias

Os objectos - os belos - são flor sem raiz: caem facilmente. A obra de arte da barbárie tem no terramoto a sua ideologia pura: as tempestades são absolutamente ilegais, grita um juiz, e um vento estranhamente manso no meio da gritaria vira página a página o livro de leis, como se o consultasse.
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, Caminho, 2010



Pancratium canariense Ker-Gawl.



Da família dos narcisos, esta planta de flores brancas e perfumadas, a que alguns chamam açucenas, tem um parente próximo nas nossas areias à beira-mar. Porém, ao contrário do continental Pancratium maritimum, a espécie endémica das ilhas Canárias não gosta de sol forte, nem de terreno arenoso ou pouco fértil e, em vez de dunas, prefere empoleirar-se em taludes com algum resguardo mas sem humidade excessiva. Assim caprichoso e bem alimentado, não surpreende que apresente umbelas mais vistosas e seja em geral mais alto, chegando aos 80 cm de altura, o que é quase o dobro da altura do narciso-das-areias, que tende a rastejar nas dunas para evitar a agressão dos ventos marítimos. As hastes florais do P. canariense são erectas e num tom verde saudável (ou menos glauco), optando sensatamente por florir no Outono (Outubro-Novembro no hemisfério norte) e por hibernar nos meses mais quentes. Se só tivermos em conta a época de floração, então é plausível que a espécie canariense descenda de plantas do norte de África, pois aí as especies do género Pancratium têm frequentemente um curto período de crescimento e a floração decorre durante a época mais fresca do ano. Os frutos do P. canariense (e também do P. maritimum) são pequenos, ovóides e leves, de casca impermeável e polpa fibrosa; as sementes têm uma testa esponjosa, como cortiça, que as ajuda a flutuar no mar até encontrarem terra firme e promissora.

23.2.19

Cinerárias & pés de cavalo


Pericallis tussilaginis (L`Her.) D. Don



No tempo em que nesses locais eram permitidas flores, os jardins públicos do Porto costumavam ser enfeitados, em certas épocas do ano, por uns malmequeres muito garridos e floribundos, com cores quentes variando entre o rosa, o branco, o roxo e o vermelho, aqui e ali com apontamentos azuis. Tratava-se da cinerária-dos-floristas -- que, como muitas outras plantas efémeras, era produzida nos viveiros municipais e, transplantada para os canteiros, vivia umas breves semanas de glória até ser substituída quando perdesse o viço.

Existe um género botânico com o nome Cineraria, exclusivo da metade sul do continente africano, mas a cinerária-dos-floristas, com origem nas ilhas Canárias, integra-se no género Pericallis, antes incluído no género Senecio. Trata-se de um híbrido hortícola, criado em Inglaterra no último quartel do século XVIII, entre duas espécies tenerifenhas: Pericallis cruenta e Pericallis lanata. O seu nome científico correcto é Pericallis X hybrida e não, como muitas vezes aparece, Senecio cruentus, nome que só é legítimo aplicar a uma das suas progenitoras.

Existem Pericallis em três arquipélagos da Macaronésia: uma espécie nos Açores, uma na ilha da Madeira e outra no Porto Santo, catorze nas Canárias. Há certamente fortes razões de queixa por partilha tão desigual. No entanto, a açoriana Pericallis malvifolia é das mais vistosas do género e, sem ter beneficiado de apuramento hortícola, suplanta em variedade de cores qualquer uma das espécies canarinas. Já em envergadura a vantagem não é tão clara, pois nas Canárias há Pericallis de todos os tamanhos. A que mostramos nas fotos, Pericallis tussilaginis, é pequena, com 50 cm de altura máxima, e, em vez das amplas umbelas da Pericallis malvifolia, apresenta inflorescências reduzidas a quatro ou cinco capítulos, cada um com 3 a 5 cm de diâmetro. As brácteas involucrais glabras e os florículos centrais de cor creme permitem diferenciá-la da P. cruenta, que é uma planta algo maior e apresenta em regra floração mais abundante.

O arrevesado epíteto específico explica-se pela semelhança das folhas da Pericallis tussilaginis com as do Tussilago farfara, uma estranha asterácea, comum nas montanhas do norte da Europa, em que as flores surgem desacompanhadas por folhas logo após o degelo, e que os ingleses conhecem como coltsfoot.

18.2.19

Jasmim das ilhas




Jasminum odoratissimum L.
 
Se o leitor nos visita de vez em quando, ou consulta assiduamente o portal Flora-On, decerto reconhece um jasmim nas fotos anteriores. Bastam-lhe, para isso, as flores, mas anote também as folhas trifoliadas, um pouco coriáceas e de um verde escuro. São detalhes comuns ao Jasminum fruticans, a única espécie (em cerca de duzentas) do género Jasminum que é nativa da Península Ibérica, e por cá amplamente distribuída. Contudo, o parente das Canárias é um arbusto em geral mais alto (pode chegar aos 4 metros de altura) e de copa mais volumosa. Sendo plausível que haja algum parentesco com as espécies continentais, como e com que vantagens ganhou essa estatura ao colonizar as ilhas Canárias?

Pergunta idêntica se fez já relativamente aos dinossauros que, dizem os registos fósseis, terão começado pequenos e só milhões de anos mais tarde atingiram o porte gigante. Os animais terrestres têm de se manter aquecidos (o que, curiosamente, parece ser mais fácil para corpos volumosos), bem alimentados (complicado de assegurar sendo os recursos vegetais ainda escassos, mas mais acessível a bichos grandes de pescoço longo), com um peso que as pernas suportem (obrigando a ossos porosos e a cabeças leves) e confiantes num metabolismo que gaste mais energia a fazer crescer o corpo do que a mantê-lo oxigenado. Quanto às plantas, as limitações são aparentemente menores, mas elas dependem igualmente de um habitat protegido de ventos e tempestades, com solo estável e recheado de nutrientes, e de uma atmosfera propícia. E se, em vez de um substrato pedregoso, seco e pobre, numa região fria, dispõem nas ilhas de clima ameno, de uma orla de zambujal ou de um talude soalheiro à beira-mar com solo nutrido, húmido e bem drenado, por certo não hesitam em aproveitar a sorte e, sem querer, crescem, acedem a mais luz, ampliam a folhagem e, verdejantes e perfumadas, atraem mais polinizadores. Assim nasce uma nova espécie, obrigando a mais uma entrada nas Floras.

Florindo entre Dezembro e Abril, o Jasminum odoratissimum foi descrito por Lineu em 1753 e é uma espécie endémica da ilha da Madeira e das Canárias. As flores, colhidas de manhã cedo, são usadas para aromatizar tisanas; das pétalas retira-se um óleo (não se surpreenda, afinal a planta é da família Oleaceae) muito apreciado em perfumaria.

9.2.19

Bicos & patas


Geranium reuteri Aedo & Muñoz Garm. [sinónimo: Geranium canariense Reut.]



Muitas espécies de Geranium e Erodium, dois géneros aparentados, têm, em várias línguas, nomes comuns que evocam bicos de aves, sejam elas cegonhas, grous ou pombas. A inspiração para tais nomes vem dos frutos estreitos e muito compridos (o bico da pomba, porém, é grosso e curto, o que torna inexplicável a escolha dessa ave neste contexto), cujas paredes laterais se enrolam explosivamente, arremessando as sementes para longe como catapultas (foto aqui).

O bico não é a única parte da anatomia das aves associada aos gerânios. A forma das folhas justifica que, nas Canárias, se chame pata-de-galo ao endémico Geranium reuteri (ex-Geranium canariense), comparação que, pelo testemunho das fotos, é um tudo-nada forçada. E não há nenhum rei de capoeira com patas de 25 cm de largura, pois são essas as medidas das folhas do avantajado gerânio canarino, uma planta que, quando em flor, pode atingir um metro de altura, envergadura inalcançável por galináceos normais.

Este gerânio perene, tão característico das zonas mais umbrosas e húmidas das ilhas Canárias, está apenas ausente das duas ilhas mais áridas (Lanzarote e Fuerteventura). Em Tenerife aparece na metade norte e é muito frequente na laurissilva de Anaga, bordejando a estrada com mantos de flores roxas durante doze meses por ano.

Os nossos gerânios continentais (veja aqui uma galeria de retratos) fazem figura humilde face a este gigante, mas as semelhanças são muito vincadas (particularmente com o Geranium robertianum) e sugerem que estas plantas têm antepassados próximos comuns. São muitos os exemplos de plantas que na Europa eram ervitas humildes e nos arquipélagos atlânticos cumpriram uma insuspeitada vocação de grandeza. No que toca a gerânios, foi na Madeira, e não nas Canárias, que essa vocação mais plenamente se realizou: o gerânio-da-Madeira (Geranium maderense), que ao florir parece uma descomunal lanterna-chinesa presa ao chão em vez de pendurada no tecto, leva a palma a todos os seus congéneres em tamanho e beleza, e seduziu jardineiros em todo o mundo (excepto talvez em Portugal). É uma planta monocárpica: floresce uma única vez durante longos meses, quando já tem três ou quatro anos de vida, e logo depois morre; a sua descendência fica assegurada pelos milhares de sementes que liberta.

É também na Madeira que vive o Geranium palmatum, muito mais comum nos bosques da laurissilva do que o G. maderense. É muito semelhante ao gerânio das Canárias tanto no hábito como na folhagem, e as duas espécies são amiúde confundidas no comércio hortícola. Contudo, o G. palmatum tem flores bastante maiores (até 4,5 cm de diâmetro, contra 3 cm do G. reuteri), com o centro escuro (as do G. reuteri têm centro claro) e pétalas mais largas e arredondadas. Há também diferenças, embora não tão pronunciadas, na forma das folhas.

4.2.19

Grafonola altaneira


Convolvulus floridus L. f.




As cores muito olhadas e admiradas são mais altas - como uma torre - e as cores irrelevantes são mais baixas. E sobre todos os fenómenos do mundo, e da tua casa, poderás colocar essa grelha de perceber, que são as dimensões: grande e pequeno.

Tudo tem dentro de si espaço para ser pequeno ou grande. E até as coisas inchadas têm dentro de si oportunidade para serem minúsculas.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, Caminho 2010

26.1.19

Lavanda de Tenerife


Lavandula minutolii Bolle




As lavandas, ou alfazemas, são muito acarinhadas em jardins pelo seu perfume e elegância. Também a macieza das folhas convida ao toque, e se as apertarmos entre os dedos ficam eles impregnados de uma breve fragrância. Contudo, nem todas as lavandas reúnem este conjunto de predicados, e algumas das mais bonitas são penalizadas por um défice de perfume. É o que sucede às espécies endémicas das ilhas Canárias, que apresentam atraentes folhas pinadas, geralmente felpudas, de um tom verde acinzentado, mas são quase sempre plantas inodoras. Vivem em substratos rochosos e estão habituadas à secura, aproveitando a amenidade do clima para florir de Janeiro a Dezembro. Em Portugal continental, temos nas falésias da Arrábida uma representante miniatural da mesma estirpe de lavandas, a Lavandula multifida, e à ilha da Madeira coube a L. pinnata, que também aparece em Lanzarote.

São três as lavandas nativas de Tenerife: a Lavandula buchii é endémica dessa ilha; a L. canariensis aparece em todo o arquipélago; e a L. minutolii (representada nas fotos) é partilhada apenas com a vizinha Grã Canaria. A L. minutolii, cuja distribuição em Tenerife se concentra no maciço de Masca, a oeste de Santiago del Teide, é uma planta pubescente (a L. canariensis é quase glabra) cujas folhas não são carnudas, contrastando com as folhas prateadas da L. buchii. A Lavandula minutolii de Tenerife pertence à variedade tenuipinna, diferente da que ocorre na Grã Canária por ter flores menores e folhas mais largas e divididas.

A estrada que vai de Buenavista del Norte a Santiago del Teide, passando por Masca, serpenteia entre taludes escarpados onde a natureza fez dispor autênticos jardins verticais. A flora endémica da ilha (suculentas pequenas e grandes, eufórbias arbustivas, lavandas) convida-nos a paragens que a estreiteza da via e o trânsito intenso tornam impossíveis. Aqui e ali, em algum miradouro apinhado de carros, lá conseguimos estacionar, virando costas à paisagem intensamente fotografada para respondermos ao apelo das plantas. Não são muitas as flores em Dezembro, mas as lavandas nunca faltam à chamada.

20.1.19

Malva das falésias

A par das longas expedições científicas, só possíveis com o financiamento de reis ou mecenas, os botânicos dos séculos XVIII e XIX tinham um outro meio de, sem viajar, conhecer plantas de regiões longínquas: recebiam, de amadores ou naturalistas, plantas para herbários ou sementes que tentavam germinar. Exemplos profícuos deste tipo de cooperação científica à distância, que já aqui referimos, são o do Padre Miranda Lopes e os botânicos Gonçalo Sampaio, Júlio Henriques e A. X. Pereira Coutinho, e o do Padre Adeodat Francesc Marcet i Poal e os botânicos Joan Cadevall, Carles Pau, Pius Font i Quer e Sventenius.



Lavatera acerifolia Cav.



A história da chegada de sementes desta Lavatera endémica das Canárias ao Jardim Botânico de Madrid (JBM) resulta de mais uma instância desse intercâmbio, num tempo em que viajar era caro, demorado e quase sempre perigoso. O essencial é contado por Antonio J. Cavanilles em Observaciones botánicas y descripcion de algunas plantas neuvas, nas páginas dedicadas ao reyno vegetal dos Anales de Ciencias Naturales de 1803. E a primeira descrição desta espécie, que Cavanilles designou Lavatera acerifolia mas foi transferida para o género Malva em 1862 (embora nem todos os botânicos aceitem esta alteração), é precisamente a desse exemplar migrante, nascido a partir de sementes de Tenerife enviadas ao JBM por um tal Sr. Broussonet. O arbusto que assim se criou no Jardim tinha uns cinco pés de altura, ritidoma cinzento e folhas parecidas com as do Acer campestre. Cavanilles informa ainda que a floração decorreu entre Junho e Setembro, e que as flores são axilares, solitárias, de pétalas cordiformes de tom rosa-claro com a base mais escura, do centro das quais sobressai uma coluna púrpura de estames e anteras.

Os exemplares que vimos na estrada do Teno eram mais altos do que a planta descrita por Cavanilles e, em Dezembro, exibiam racimos terminais de flores de cor malva, por vezes brancas, com pedúnculo longo. De provável ascendência mediterrânica, a L. acerifolia cresce em lugares secos e soalheiros, especialmente em bosques termófilos e zonas rochosas entre os 200 e os 400 m com vista para o mar.

12.1.19

Nomes emprestados


Ceballosia fruticosa (L. f.) G. Kunkel




Que fazer quando a diversidade de seres vivos excede a quantidade de nomes disponíveis para a designar? Os nomes científicos combinam mal com o falar corrente, e há quem congemine "nomes comuns" para que os leigos nunca desconfiem da insuficiência das palavras. Lidamos bem com categorias amplas, amalgamando na mesma designação vaga (como "mosca", "árvore" ou "musgo") coisas muito heterogéneas, mas quando tomamos consciência dessa heteregeneidade fazem falta nomes mais específicos. Para isso é legítmo reciclar nomes que, noutros lugares, são atribuídos a outras entidades. Por exemplo, o folhado nos Açores (Viburnum treleasei) é um arbusto completamente diferente daquele que tem o mesmo nome na Madeira (Clethra arborea). O mesmo sucedeu com a Ceballosia fruticosa, pequeno arbusto endémico das ilhas Canárias: no arquipélago é conhecido como duraznillo, mas (de acordo com o portal Anthos) esse mesmo nome é dado, na Espanha continental, ao Viburnum tinus e a duas humildes herbáceas, Polygonum salicifolium e Polygonum persicaria. Além de pertencerem ao reino vegetal, e de serem todas elas plantas terrestres, custa discernir grandes afinidades entre estas quatro espécies.

Falando nós um castelhano trôpego, preferimos o nome científico Ceballosia ao vernáculo duraznillo, afinal causador de confusão. Ceballosia, além de fácil de pronunciar, é um nome perfeitamente inequívoco, pois este arbusto canarino é a única espécie do seu género. É um nome relativamente recente, criado em 1980 pelo naturalista alemão Günther Kunkel (1928-2007), substituindo o arrevesado nome Messerschmidia fruticosa com que Lineu filho baptizou a planta em 1782. Outros autores incluíram-na em diferentes géneros, chamando-lhe entre outras coisas Tournefortia fruticosa e Heliotropium messerschmidioides. A lição que daqui podemos extrair é que, se o nomes vernáculos sofrem de imprecisão, já os nomes científicos de certas plantas problemáticas são instáveis e controversos.

Não é fácil apontar parentes próximos deste arbusto, mesmo numa família tão diversa e tão amplamente representada na flora europeia como a das boragináceas. O seu historial taxonómico pode contudo dar-nos algumas pistas. Com alguma boa vontade, reconhece-se que as minúsculas flores brancas têm certa semelhança com as do Heliotropium, género que na Europa inclui apenas plantas herbáceas, mas pode atingir porte arbóreo no sudeste asiático e nas ilhas do Índico e do Pacífico. E os arbustos do género Tournefortia, quase todos eles originários da América tropical, têm parecenças muito vincadas com a Ceballosia, a julgar por esta foto da mexicana Tournefortia acutiflora. Essa parecença, contudo, desfaz-se na frutificação, pois os frutos da Ceballosia (3.ª foto acima) são verrucosos e verdes (pretos quando maduros), e os da Tournefortia são bagas brancas.

Presente em todas as ilhas Canárias, em geral em zonas de baixa altitude próximas do mar, a Ceballosia fruticosa é um arbusto de ramos esguios que apresenta um aspecto frágil e desgrenhado. Atinge 1 a 2 metros de altura, e floresce durante quase todo o ano. Em Tenerife vimo-lo na estrada do Teno, e em Lanzarote é frequente no norte da ilha (em particular no Malpaís de La Corona) como acompanhante da tabaiba-doce.

6.1.19

Crista de galo

Sendo o mundo vasto e a natureza pródiga, há muitas plantas que só conhecemos através de fotos. Uma alternativa a este conhecimento em dimensão 2 é a possibilidade de ver as plantas em jardins botânicos, onde as exibem com fins ornamentais ou pedagógicos. Por exemplo, os Kew Gardens têm uma colecção gigantesca de herbáceas, arbustos e árvores, talvez mais do que se pode ambicionar conhecer em pormenor numa vida. Tais jardins funcionam como os parques zoológicos, que enjaulam a selva em nome da conservação das espécies, e são muitas vezes o instrumento mais eficaz na preservação da biodiversidade. Em casos excepcionais, conseguimos passar deste conhecimento teórico, digamos, para o que realmente entusiasma os botânicos: ver a planta no seu habitat natural. Foi o que aconteceu com esta Isoplexis: vimo-la exuberante de flores, num mês de Agosto há uns anos, nos Kew Gardens; e revimo-la, em Dezembro de 2017, num bosque sombrio de laurissilva na serra de Anaga, em Tenerife.


Isoplexis canariensis (L.) J. W. Loudon



Dezembro? Mas a floração não decorre de Abril a Agosto? Pois sim, mas talvez não tenha sido apenas por sorte que uma planta ainda floria em Dezembro. Trata-se provavelmente de uma adaptação a novos polinizadores. Segundo algumas referências, o polinizador oficial da I. canariensis ter-se-á extinto nas Canárias (e a isso se atribuía a raridade desta planta), mas sabe-se agora que a I. canariensis tem outros visitantes, a quem agrada o tipo de néctar que ela oferece e se adequa um período mais longo de floração.

Vários autores consideram Isoplexis como uma secção do género Digitalis, onde Lineu colocou duas espécies de Isoplexis por notar a semelhança no formato das flores (apesar de as da Isoplexis terem um lóbulo grande superior e as da Digitalis terem-no inferior). Após algumas oscilações de opinião, foi finalmente decidido no início deste século, com base em estudos genéticos, manter Isoplexis como género autónomo.

Como já aqui referimos, há registo de apenas quatro espécies de Isoplexis: uma é endémica da Madeira (I. sceptrum); as outras são endemismos de algumas das ilhas Canárias (I. canariensis, I. chalcantha e I. isabelliana). Estão ainda na lista de retratos a visualizar em 3D.

29.12.18

Cebolinha albarrã


Scilla haemorrhoidalis Webb & Berthel. [sinónimo: Autonoe haemorrhoidalis (Webb & Berthel.) Speta]



Cebola-albarrã é o nome que se dá em Portugal à Urginea maritima. É uma planta bolbosa que no Outono faz brotar uma vistosa espiga de flores brancas, muitas vezes com mais de um metro de altura, desacompanhada de folhas. Estas só surgem depois, discretamente, quando a haste floral já secou, mantendo-se visíveis no Inverno e na Primavera. Em Espanha e nas Canárias, nomes equivalentes (cebolla albarrana ou cebolla almorrana) designam tanto a Urginea maritima como plantas de porte mais modesto, como esta de flores lilás que as fotos ilustram, e que é endémica das Canárias. Se abstrairmos da cor e do tamanho, e do facto de, na planta canarina, flores e folhas surgirem em simultâneo, conseguimos detectar evidentes traços de família entre as duas plantas: têm o mesmo tipo de inflorescência, as flores têm igual estrutura (estreladas, com seis tépalas, seis estames, um único estigma, ovário súpero), e ambas apresentam só folhas basais. Lineu, com o seu critério de classificação baseado nos orgãos sexuais das plantas, não teria dúvidas em incluí-las no mesmo género: o nome original da nossa cebola-albarrã, publicado em 1753 no Species Plantarum, é justamente Scilla maritima.

Mas até as flores podem enganar, e tem-se vindo a descobrir que o género Scilla, tal como circunscrito por Lineu, é um saco demasiado amplo onde cabem coisas muitos díspares. Houve o que se chama convergência evolutiva, que é o que acontece quando ramos evolutivos separados desenvolvem características comuns de forma independente. Neste caso, as "flores tipo Scilla" terão aparecido em várias plantas que não partilhavam antepassados próximos. Por exemplo, a (agora chamada) Urginea maritima está evolutivamente mais distante das "verdadeiras cilas" do que as plantas do género Muscari, que têm flores de aparência muito diferente.

A reorganização filogenética da taxonomia botânica obrigou a grandes mudanças que ainda estão em curso. O princípio básico é que cada grupo taxonómico deve conter todos os descendentes de uma certa entidade, e apenas esses. Como o género Scilla era polifilético (continha espécies com ascendências diferentes), houve necessidade de o desmembrar. Entre os géneros criados por essa verdadeira pulverização contam-se Prospero (para onde transitou a Scilla autumnalis), Tractema (que recebeu a Scilla ramburei, a S. verna e a S. odorata), Oncostema (nome actual da vistosa Scilla peruviana) e Nectaroscilla (que acolheu a Scilla hyacinthoides). Das sete espécie de Scilla assinaladas em Portugal continental, apenas a S. monophyllos não foi obrigada a mudar de género.

E quantos às cilas das Canárias? Houve uma tentativa para as incluir num género próprio, Autonoe, onde também caberia a muito semelhante (e muito rara) cila-da-Madeira (Scilla madeirensis), mas a aceitação da proposta não é unânime.

Seja qual for o nome do género, esta cebolinha-albarrã é uma das duas "cilas" presentes nas Canárias, por sinal a menos vistosa. As hastes florais, de cor avermelhada, têm 10 a 20 cm de altura; as folhas, em número de 2 ou 3, são estreitas (de 1 a 2 cm de largura) e têm 10 a 20 cm de comprimento. A planta vive em habitats rochosos, amiúde perto da costa, e floresce principalmente de Janeiro a Abril, com mais intensidade em anos pluviosos. Ainda era cedo em Dezembro, data da nossa viagem, e o ano tinha decorrido muito seco, de modo que o prémio para os nossos esforços de prospecção foram apenas duas plantas em flor (no sítio de Interián, em Los Silos) e umas tantas rosetas de folhas sem sinal de floração, estas nuns rochedos da costa noroeste a que chegámos após cruzar uma interminável plantação de bananeiras.