20.1.19

Malva das falésias

A par das longas expedições científicas, só possíveis com o financiamento de reis ou mecenas, os botânicos dos séculos XVIII e XIX tinham um outro meio de, sem viajar, conhecer plantas de regiões longínquas: recebiam, de amadores ou naturalistas, plantas para herbários ou sementes que tentavam germinar. Exemplos profícuos deste tipo de cooperação científica à distância, que já aqui referimos, são o do Padre Miranda Lopes e os botânicos Gonçalo Sampaio, Júlio Henriques e A. X. Pereira Coutinho, e o do Padre Adeodat Francesc Marcet i Poal e os botânicos Joan Cadevall, Carles Pau, Pius Font i Quer e Sventenius.



Lavatera acerifolia Cav.



A história da chegada de sementes desta Lavatera endémica das Canárias ao Jardim Botânico de Madrid (JBM) resulta de mais uma instância desse intercâmbio, num tempo em que viajar era caro, demorado e quase sempre perigoso. O essencial é contado por Antonio J. Cavanilles em Observaciones botánicas y descripcion de algunas plantas neuvas, nas páginas dedicadas ao reyno vegetal dos Anales de Ciencias Naturales de 1803. E a primeira descrição desta espécie, que Cavanilles designou Lavatera acerifolia mas foi transferida para o género Malva em 1862 (embora nem todos os botânicos aceitem esta alteração), é precisamente a desse exemplar migrante, nascido a partir de sementes de Tenerife enviadas ao JBM por um tal Sr. Broussonet. O arbusto que assim se criou no Jardim tinha uns cinco pés de altura, ritidoma cinzento e folhas parecidas com as do Acer campestre. Cavanilles informa ainda que a floração decorreu entre Junho e Setembro, e que as flores são axilares, solitárias, de pétalas cordiformes de tom rosa-claro com a base mais escura, do centro das quais sobressai uma coluna púrpura de estames e anteras.

Os exemplares que vimos na estrada do Teno eram mais altos do que a planta descrita por Cavanilles e, em Dezembro, exibiam racimos terminais de flores de cor malva, por vezes brancas, com pedúnculo longo. De provável ascendência mediterrânica, a L. acerifolia cresce em lugares secos e soalheiros, especialmente em bosques termófilos e zonas rochosas entre os 200 e os 400 m com vista para o mar.

12.1.19

Nomes emprestados


Ceballosia fruticosa (L. f.) G. Kunkel




Que fazer quando a diversidade de seres vivos excede a quantidade de nomes disponíveis para a designar? Os nomes científicos combinam mal com o falar corrente, e há quem congemine "nomes comuns" para que os leigos nunca desconfiem da insuficiência das palavras. Lidamos bem com categorias amplas, amalgamando na mesma designação vaga (como "mosca", "árvore" ou "musgo") coisas muito heterogéneas, mas quando tomamos consciência dessa heteregeneidade fazem falta nomes mais específicos. Para isso é legítmo reciclar nomes que, noutros lugares, são atribuídos a outras entidades. Por exemplo, o folhado nos Açores (Viburnum treleasei) é um arbusto completamente diferente daquele que tem o mesmo nome na Madeira (Clethra arborea). O mesmo sucedeu com a Ceballosia fruticosa, pequeno arbusto endémico das ilhas Canárias: no arquipélago é conhecido como duraznillo, mas (de acordo com o portal Anthos) esse mesmo nome é dado, na Espanha continental, ao Viburnum tinus e a duas humildes herbáceas, Polygonum salicifolium e Polygonum persicaria. Além de pertencerem ao reino vegetal, e de serem todas elas plantas terrestres, custa discernir grandes afinidades entre estas quatro espécies.

Falando nós um castelhano trôpego, preferimos o nome científico Ceballosia ao vernáculo duraznillo, afinal causador de confusão. Ceballosia, além de fácil de pronunciar, é um nome perfeitamente inequívoco, pois este arbusto canarino é a única espécie do seu género. É um nome relativamente recente, criado em 1980 pelo naturalista alemão Günther Kunkel (1928-2007), substituindo o arrevesado nome Messerschmidia fruticosa com que Lineu filho baptizou a planta em 1782. Outros autores incluíram-na em diferentes géneros, chamando-lhe entre outras coisas Tournefortia fruticosa e Heliotropium messerschmidioides. A lição que daqui podemos extrair é que, se o nomes vernáculos sofrem de imprecisão, já os nomes científicos de certas plantas problemáticas são instáveis e controversos.

Não é fácil apontar parentes próximos deste arbusto, mesmo numa família tão diversa e tão amplamente representada na flora europeia como a das boragináceas. O seu historial taxonómico pode contudo dar-nos algumas pistas. Com alguma boa vontade, reconhece-se que as minúsculas flores brancas têm certa semelhança com as do Heliotropium, género que na Europa inclui apenas plantas herbáceas, mas pode atingir porte arbóreo no sudeste asiático e nas ilhas do Índico e do Pacífico. E os arbustos do género Tournefortia, quase todos eles originários da América tropical, têm parecenças muito vincadas com a Ceballosia, a julgar por esta foto da mexicana Tournefortia acutiflora. Essa parecença, contudo, desfaz-se na frutificação, pois os frutos da Ceballosia (3.ª foto acima) são verrucosos e verdes (pretos quando maduros), e os da Tournefortia são bagas brancas.

Presente em todas as ilhas Canárias, em geral em zonas de baixa altitude próximas do mar, a Ceballosia fruticosa é um arbusto de ramos esguios que apresenta um aspecto frágil e desgrenhado. Atinge 1 a 2 metros de altura, e floresce durante quase todo o ano. Em Tenerife vimo-lo na estrada do Teno, e em Lanzarote é frequente no norte da ilha (em particular no Malpaís de La Corona) como acompanhante da tabaiba-doce.

6.1.19

Crista de galo

Sendo o mundo vasto e a natureza pródiga, há muitas plantas que só conhecemos através de fotos. Uma alternativa a este conhecimento em dimensão 2 é a possibilidade de ver as plantas em jardins botânicos, onde as exibem com fins ornamentais ou pedagógicos. Por exemplo, os Kew Gardens têm uma colecção gigantesca de herbáceas, arbustos e árvores, talvez mais do que se pode ambicionar conhecer em pormenor numa vida. Tais jardins funcionam como os parques zoológicos, que enjaulam a selva em nome da conservação das espécies, e são muitas vezes o instrumento mais eficaz na preservação da biodiversidade. Em casos excepcionais, conseguimos passar deste conhecimento teórico, digamos, para o que realmente entusiasma os botânicos: ver a planta no seu habitat natural. Foi o que aconteceu com esta Isoplexis: vimo-la exuberante de flores, num mês de Agosto há uns anos, nos Kew Gardens; e revimo-la, em Dezembro de 2017, num bosque sombrio de laurissilva na serra de Anaga, em Tenerife.


Isoplexis canariensis (L.) J. W. Loudon



Dezembro? Mas a floração não decorre de Abril a Agosto? Pois sim, mas talvez não tenha sido apenas por sorte que uma planta ainda floria em Dezembro. Trata-se provavelmente de uma adaptação a novos polinizadores. Segundo algumas referências, o polinizador oficial da I. canariensis ter-se-á extinto nas Canárias (e a isso se atribuía a raridade desta planta), mas sabe-se agora que a I. canariensis tem outros visitantes, a quem agrada o tipo de néctar que ela oferece e se adequa um período mais longo de floração.

Vários autores consideram Isoplexis como uma secção do género Digitalis, onde Lineu colocou duas espécies de Isoplexis por notar a semelhança no formato das flores (apesar de as da Isoplexis terem um lóbulo grande superior e as da Digitalis terem-no inferior). Após algumas oscilações de opinião, foi finalmente decidido no início deste século, com base em estudos genéticos, manter Isoplexis como género autónomo.

Como já aqui referimos, há registo de apenas quatro espécies de Isoplexis: uma é endémica da Madeira (I. sceptrum); as outras são endemismos de algumas das ilhas Canárias (I. canariensis, I. chalcantha e I. isabelliana). Estão ainda na lista de retratos a visualizar em 3D.

29.12.18

Cebolinha albarrã


Scilla haemorrhoidalis Webb & Berthel. [sinónimo: Autonoe haemorrhoidalis (Webb & Berthel.) Speta]



Cebola-albarrã é o nome que se dá em Portugal à Urginea maritima. É uma planta bolbosa que no Outono faz brotar uma vistosa espiga de flores brancas, muitas vezes com mais de um metro de altura, desacompanhada de folhas. Estas só surgem depois, discretamente, quando a haste floral já secou, mantendo-se visíveis no Inverno e na Primavera. Em Espanha e nas Canárias, nomes equivalentes (cebolla albarrana ou cebolla almorrana) designam tanto a Urginea maritima como plantas de porte mais modesto, como esta de flores lilás que as fotos ilustram, e que é endémica das Canárias. Se abstrairmos da cor e do tamanho, e do facto de, na planta canarina, flores e folhas surgirem em simultâneo, conseguimos detectar evidentes traços de família entre as duas plantas: têm o mesmo tipo de inflorescência, as flores têm igual estrutura (estreladas, com seis tépalas, seis estames, um único estigma, ovário súpero), e ambas apresentam só folhas basais. Lineu, com o seu critério de classificação baseado nos orgãos sexuais das plantas, não teria dúvidas em incluí-las no mesmo género: o nome original da nossa cebola-albarrã, publicado em 1753 no Species Plantarum, é justamente Scilla maritima.

Mas até as flores podem enganar, e tem-se vindo a descobrir que o género Scilla, tal como circunscrito por Lineu, é um saco demasiado amplo onde cabem coisas muitos díspares. Houve o que se chama convergência evolutiva, que é o que acontece quando ramos evolutivos separados desenvolvem características comuns de forma independente. Neste caso, as "flores tipo Scilla" terão aparecido em várias plantas que não partilhavam antepassados próximos. Por exemplo, a (agora chamada) Urginea maritima está evolutivamente mais distante das "verdadeiras cilas" do que as plantas do género Muscari, que têm flores de aparência muito diferente.

A reorganização filogenética da taxonomia botânica obrigou a grandes mudanças que ainda estão em curso. O princípio básico é que cada grupo taxonómico deve conter todos os descendentes de uma certa entidade, e apenas esses. Como o género Scilla era polifilético (continha espécies com ascendências diferentes), houve necessidade de o desmembrar. Entre os géneros criados por essa verdadeira pulverização contam-se Prospero (para onde transitou a Scilla autumnalis), Tractema (que recebeu a Scilla ramburei, a S. verna e a S. odorata), Oncostema (nome actual da vistosa Scilla peruviana) e Nectaroscilla (que acolheu a Scilla hyacinthoides). Das sete espécie de Scilla assinaladas em Portugal continental, apenas a S. monophyllos não foi obrigada a mudar de género.

E quantos às cilas das Canárias? Houve uma tentativa para as incluir num género próprio, Autonoe, onde também caberia a muito semelhante (e muito rara) cila-da-Madeira (Scilla madeirensis), mas a aceitação da proposta não é unânime.

Seja qual for o nome do género, esta cebolinha-albarrã é uma das duas "cilas" presentes nas Canárias, por sinal a menos vistosa. As hastes florais, de cor avermelhada, têm 10 a 20 cm de altura; as folhas, em número de 2 ou 3, são estreitas (de 1 a 2 cm de largura) e têm 10 a 20 cm de comprimento. A planta vive em habitats rochosos, amiúde perto da costa, e floresce principalmente de Janeiro a Abril, com mais intensidade em anos pluviosos. Ainda era cedo em Dezembro, data da nossa viagem, e o ano tinha decorrido muito seco, de modo que o prémio para os nossos esforços de prospecção foram apenas duas plantas em flor (no sítio de Interián, em Los Silos) e umas tantas rosetas de folhas sem sinal de floração, estas nuns rochedos da costa noroeste a que chegámos após cruzar uma interminável plantação de bananeiras.

22.12.18

Uvas do mar



Apesar de inóspitas para banhistas, as costas rochosas do sudoeste de Tenerife são a casa ideal para uma grande variedade de plantas, às quais não desagrada a maresia e a exposição ao sol. A que lhe mostramos hoje, fotografada no Malpaís de Güímar, é das mais estranhas que por lá vimos. Ao longe, parecia uma videira atarracada e recheada de cachos ascendentes de uvas verdes (para vinho branco, claro).


Tetraena fontanesii (Webb & Berthel.) Beier & Thulin

Mas as tais uvas eram afinal folhas suculentas, que nascem aos pares no topo de pedúnculos curtos e carnudos. Os frutos são minúsculos, com textura de cortiça e esbranquiçados. A floração decorre entre Janeiro e Junho, por isso não vimos flores; são pequenas, axilares, com cinco pétalas de um tom branco-rosado (foto em baixo). Como é usual noutras suculentas sujeitas aos ventos de beira-mar, a base deste arbusto é lenhosa e, no período de dormência, a folhagem adquire uma coloração púrpura.



De distribuição restrita a algumas ilhas da Macaronésia (Canárias, Cabo Verde e Selvagens) e ao norte de África (Argélia e Marrocos), esta espécie deveria pertencer, de acordo com as regras da nomenclatura botânica, ao género Petrusia. De facto, esta designação foi proposta por Henri Baillon em 1881, oito anos antes do nome Tetraena ser adoptado por Carl Johann Maximowicz para várias espécies da família Zygophyllaceae frequentes em desertos, zonas áridas ou com salinidade elevada. Segundo a Flora Ibérica, os botânicos continuam a usar o nome Tetraena pois a mudança para Petrusia exigiria demasiadas alterações na taxonomia. Alimentando a confusão, algumas Floras preferem o sinónimo Zygophyllum fontanesii. Comum aos três nomes, o epíteto específico homenageia o botânico René Desfontaines (1750-1833), autor da Flora Atlantica que anunciou, em plena Revolução Francesa, a descoberta de cerca de 300 novos géneros de plantas da região mediterrânica e do norte de África.

15.12.18

Macho desdentado


Dryopteris oligodonta (Desv.) Pic.-Serm.



A própria etimologia da palavra sugere que os fetos do género Dryopteris (que designamos por fetos-machos) só aparecem, ou aparecem preferencialmente, onde existem aquelas formações vegetais a que chamamos bosques. Um bosque é dominado por árvores de tamanho respeitável, enquanto que os matos são formados pos arbustos de crescimento rápido e igualmente rápida combustão. Contudo, mesmo tendo apenas em conta as espécies europeias, a ecologia destes fetos é de facto mais diversificada: nem sempre o bosque faz falta, e o mais importante parece ser um elevado grau de humidade ambiental - um requisito que, a latitudes mais meridionais, só os verdadeiros bosques costumam satisfazer. Nas Canárias e na Madeira, os bosques típicos mais bem formados são os da laurissilva, que (como o nome indica) é composta sobretudo por lauráceas, mas alberga também outras folhosas perenifólias. O carácter da floresta laurissilva nos dois arquipélagos é diferente: a da Madeira é muito mais húmida, com árvores de maior porte; nas Canárias, algumas urzes arbóreas integram-se no coberto vegetal quase em pé de igualdade com as lauráceas.

É por isso que os fetos-machos são na Madeira muito mais abundantes do que nas Canárias. Na primeira ocorrem quatro espécies (Dryopteris aemula, D. affinis, D. maderensis e D. aitoniana), todas elas fáceis de obsevar na laurissilva e às vezes também em plantações florestais. Nas Canárias estão igualmente assinaladas D. aemula e D. affinis (a primeira só em La Gomera, a segunda em La Gomera e Tenerife), a que se juntam duas espécies adicionais: D. guanchica (La Gomera, El Hierro e Tenerife) e D. oligodonta. Com excepção da última, todas estas espécies são muito raras no arquipélago. A D. oligodonta, por seu turno, é uma componente usual da laurissilva de Anaga, em Tenerife; e, a julgar pelos mapas de distribuição no portal Anthos, o mesmo deverá suceder na laurissilva das outras ilhas. Só não aparece nas duas ilhas mais áridas, Lanzarote e Fuerteventura, onde a própria laurissilva não teve condições para se instalar.

O feto-macho ilustrado nas fotos, Dryopteris oligodonta, é pois o único do seu género que o comum dos visitantes ao arquipélago encontrará. É um feto grande, com frondes três vezes divididas, dispostas em tufos, capazes de ultrapassar um metro de comprimento. D. affinis, por contraste, tem as frondes só duas vezes divididas (compare-se a última foto acima com esta); e D. guanchica e D. aemula, além de serem bem menores, têm as pínulas mais recortadas, com dentes muito mais pronunciados (veja-se aqui e aqui). O epíteto oligodonta anuncia precisamente que este feto-macho tem poucos dentes, o que é injusto face a congéneres seus mais desdentados.

Várias fontes garantem que Dryopteris oligodonta é um endemismo das Canárias, contrapondo outras que o mesmo feto existe nas ilhas cabo-verdianas de Santo Antão e do Fogo. Um estudo exaustivo recente [Jacobus P. Roux (2012), A revision of the fern genus Dryopteris (Dryopteridaceae) in sub-Saharan Africa, Phytotaxa 70] confirma a existência da planta em Cabo Verde, embora ela pareça estar agora confinada a Santo Antão, não tendo sido observada na ilha do Fogo desde 1934, ano em que lá foi colhida pela única vez.

9.12.18

Salepeira-não-tão-grande

Por esta altura do ano já se podem observar, na região calcária do centro do país, rosetas de folhas e até um tímido início da haste floral da Barlia robertiana. Entre Janeiro e Fevereiro, a floração desta orquídea robusta e muito vistosa estará no auge. Quase simultaneamente, uma espécie de orquídea muito parecida com a B. robertiana interrompe o seu período de hibernação nas ilhas Canárias. O que nos leva a desconfiar que esse momento para iniciar a floração é uma informação genética herdada de um progenitor comum.


Himantoglossum metlesicsianum (W. P. Teschner) P. Delforge [sinónimo: Barlia metlesicsiana W. P. Teschner]



A Barlia metlesicsiana é endémica de Tenerife e vive em zonas pedregosas onde os escombros de lava foram suficientemente erodidos para daí resultar um solo macio, firme embora seco, que consegue sustentar alguma vegetação. Apesar de ter um substrato ácido, é talvez o habitat mais parecido com os matos rasteiros, mas soalheiros e abrigados de intempéries, que estas orquídeas preferem na região mediterrânea. Os poucos exemplares que vimos desta orquídea muito rara estavam perto de Santiago del Teide, numa zona protegida onde vários avisos requerem dos visitantes o respeito escrupuloso pelas normas de conservação.



Da evolução isolada na ilha de Tenerife, resultaram algumas pequenas diferenças entre a B. robertiana e a B. metlesicsiana, sendo a espécie tenerifenha em geral mais baixa e de aspecto mais frágil, com uma roseta basal de folhas menos robusta, uma haste floral com duas a quatro folhas caulinares que parecem brácteas, e uma inflorescência menos densa. O epíteto específico metlesicsiana é uma homenagem de Walter Paul Teschner, que descreveu esta espécie em 1982, ao botânico austríaco Hans Metlesics (1900-1985).

A designação mais antiga para o género a que estas orquídeas pertencem é Himantoglossum. Por causa disso, e apesar de o basiónimo ser Barlia metlesicsiana, Pierre Delforge propôs em 1999 que esta espécie se designasse Himantoglossum metlesicsianum, e que a sua irmã continental passasse a ser Himantoglossum robertianum. A mudança foi aceite pelo portal Euro+Med PlantBase mas não (ainda?) pela Flora Ibérica ou pela Flora-On.

1.12.18

Reino dos cabeçudos


Cheirolophus burchardii Susanna



As plantas do género Cheirolophus, desprovidas de espinhos mas com grandes capítulos floridos que fazem lembrar os dos cardos, são nas Canárias conhecidas como cabezones, o que em português se traduz por cabeçudos. São muitos os cabeçudos nessas ilhas, que repartem entre si umas 20 espécies endémicas de Cheirolophus. O número varia conforme as fontes consultadas, já que a delimitação das espécies é controversa. Indiscutível é que o arquipélago alberga cerca de dois terços do total das espécies de um género que tem uma distrbuição global restrita, confinado que está às Canárias, à Madeira e a alguns países mediterrânicos (Portugal, Espanha, França, Itália, Argélia e Marrocos). Só em Tenerife são quatro (ou três, ou cinco) as espécies de Cheirolophus.

Como é próprio da sua índole, nem sempre um cabeçudo acata de boa vontade as instruções que lhe são dadas. Se se conformasse à doutrina dos manuais, o Cheirolophus burchardii que mostramos nas fotos só deveria florir entre Abril e Julho, mas quando o vimos, no final de Dezembro, apresentava numerosos capítulos frutificados, sinal de que a floração se tinha prolongado muito para lá da data prevista. Mesmo na berma da estrada, exibia, com vegetal inconsciência e um atraso de muitos meses, as últimas flores da temporada.

Para complementar as fotos, diga-se que o Cheirolophus burchardii é um arbusto capaz de alcançar 1,5 m de altura (embora o das fotos tivesse dimensões mais incipientes) e que os capítulos têm de 2,5 a 3 cm de diâmetro. Distingue-se de outros cabeçudos tenerifenhos pelas folhas inteiras e pelo formato das brácteas involucrais. Observá-lo não requer olho treinado nem grandes proezas atléticas: basta escolher uma altura em que a estrada do Teno, no extremo noroeste da ilha, esteja vedada ao trânsito automóvel (e ao fim-de-semana só não o está ao fim da tarde), e percorrê-la a pé com o vagar que ela merece. Precauções? Quem tiver medo do escuro deve munir-se de lanterna, já que os túneis que a estrada atravessa não são iluminados.

25.11.18

Abraços verdes


Periploca laevigata Aiton

Já aqui vos mostrámos uma trepadeira do género Periploca que em tempos se enroscava no portão de uma das estufas do Jardim Botânico do Porto, entretanto reformada (que é como quem diz «sem a vegetação de outrora»). A espécie que encontrámos em Tenerife também tem flores estreladas que se agrupam em cimeiras axilares, com pétalas que combinam igualmente os tons de púrpura, amarelo e verde. Contudo, a espécie canariense tem porte de arbusto, pode mesmo chegar aos 3 metros de altura, e a folhagem é glabra, coriácea e perene.



O fruto (que se vê na 4.ª foto) é como o dos loendros (Nerium oleander) ou do vincetóxico, no que constitui um traço de parentesco pois as três espécies pertencem à família Apocynaceae: dois fusos longos (cerca de 10 cm) e bicudos, opostos como duas metades de um bigode oitocentista, que se abrem longitudinalmente para libertar as sementes envoltas num penacho de algodão. Podem ver aqui imagens destas cápsulas já abertas, a que o povo espanhol alude quando designa esta planta por cornicabra.

A Periploca laevigata é nativa das ilhas Canárias, Cabo Verde, norte de África, sudeste de Espanha e parte da região mediterrânica, e aprecia ladeiras pedregosas ou areais perto do mar. A Flora Ibérica menciona uma antiga aplicação medicinal de talos, folhas e sementes, por certo em desuso pois as plantas da família Apocynaceae costumam ser perigosamente tóxicas (são, porém, ornamentais, ainda que, com a pressa, mal notemos a sua presença nos separadores das nossas auto-estradas).

17.11.18

Nocturno com tabaibas



Euphorbia balsamifera Aiton

Embora haja esperança de que uma directiva europeia venha alterar a situação já em 2019, a verdade é que os dias de Inverno permanecem curtos. Mas, graças à diferença de latitude, são um bocadinho menos curtos nas Canárias, onde no final de Dezembro anoitece apenas às seis da tarde, uma hora depois de o sol se pôr pelas nossas bandas. Quando visitámos o Malpaís de Güimar, na costa leste de Tenerife, os relógios marcavam quatro da tarde. Não estando nós munidos de lanternas, tínhamos uma hora para avançar pelo trilho acidentado, rompendo pela pedra negra como carvão, e uma hora para regressar pelo mesmo caminho sem que a escuridão tornasse os nossos passos ainda mais inseguros. O sortilégio da paisagem fez-nos demorar além do previsto e o regresso fez-se já ao lusco-fusco - que não era assim tão tenebroso e combinava muito bem com o negrume das pedras envolventes, sublinhando a tons de doirado os troncos rastejantes das tabaibas.

"Malpaís" pode traduzir-se por "terra má", e (ensina a Wikipédia) é o nome que se dá nas Canárias, México e sul dos Estados Unidos a uma extensão de terreno inóspita e árida formada por rochas vulcânicas que sofreram pouca erosão. Não é que o episódio vulcânico que lhe deu origem tenha sido recente, mas a chuva e os ventos que, noutras paragens, contribuiriam para uma erosão mais acentuada estão aqui quase ausentes. Chamam-lhe terra má por ser imprestável para cultivo e nem para pastagem servir. Mas não significa que seja estéril: que o digam as tabaibas, os alecrins-do-mar e até certas alfaces.

Esta eufórbia arbustiva, conhecida no arquipélago como tabaiba-doce e eleita oficialmente como um dos símbolos naturais da ilha de Lanzarote, distribui-se por todas as ilhas Canárias e por muitas zonas semi-desérticas da metade norte do continente africano. Os povos nómadas consumiam as suas folhas em tempos de escassez alimentar, o que talvez explique o adjectivo doce. Certo é que o látex desta espécie, apesar de tóxico, não é tão abrasivo como o de outras eufórbias, e terá mesmo sido usado medicinalmente como anestésico.

Nem sempre a tabaiba-doce é tão prostrada como mostram as fotos: em condições mais favoráveis pode ultrapassar os dois metros de altura. O que a singulariza face a outras tabaibas é que cada inflorescência está reduzida ao mínimo, sendo composta por um único cíato (compare as fotos abaixo com as desta página).


10.11.18

Palha-d'aço florido


Launaea arborescens (Batt.) Murb.

Na presença deste emaranhado de ramos denso e ziguezagueante, de aparência espinhosa, diria o leitor tratar-se de uma margarida? Talvez apostasse mais depressa que é um tojo ou um cacto, perdendo a aposta mal lhe visse as flores.




As flores amarelas não deixam dúvidas sobre a filiação deste arbusto nas asteráceas, embora reconheçamos tratar-se de uma espécie invulgar. Nota-se que a ramagem, suculenta e com picos (na verdade, são o que resta dos pés das flores), está adaptada a regiões costeiras áridas, preservando na floração as características da família a que pertence. Os indivíduos podem chegar ao metro e meio de altura, embora formem mais frequentemente novelos baixos, com base lenhosa e raízes robustas. Há registo da L. arborescens no sul da Península Ibérica (na vizinhança de Málaga), no noroeste de África, nos arquipélagos das Canárias e de Cabo Verde, e na ilha da Madeira (só na Ponta de São Lourenço). As fotos, que não mostram as folhas (lineares) porque estas duram pouco, foram obidas nas dunas de El Médano, no sul de Tenerife.



O género Launaea abriga meia centena de espécies que ocorrem no Mediterrâneo, no sul da Ásia e em África. É comum, e exibe grande diversidade genética, no norte de África. Tem aí usos medicinais, culinários e na alimentação do gado, embora, segundo consta, tenha sabor azedo e precise de ser cozinhado para se tornar degustável. Na Europa, apenas o sudeste de Espanha e a Sicília parecem ser suficientemente quentes e secos para serem colonizados com sucesso pelas espécies deste género.

O nome genérico foi escolhido pelo botânico Henri Cassini (1781-1832), especialista em malmequeres e trineto do astrónomo Giovanni Cassini, para homenagear o naturalista francês Jean-Claude de Launay (1750-1816).

3.11.18

Tabaiba cor de vinho



Euphorbia atropurpurea Brouss. ex Willd.



Tabaiba é o nome que se dá nas Canárias às eufórbias arbustivas desprovidas de espinhos e com folhas bem formadas; as demais eufórbias endémicas do arquipélago têm a aparência de grandes cactos (embora não sejam cactos) e são conhecidas como cardóns. As tabaibas são parentes próximas dos troviscos-machos açorianos (Euphorbia stygiana subsp. stygiana e E. stygiana subsp. santamariae) e das duas figueiras-do-inferno madeirenses (E. piscatoria e E. mellifera). Só em Tenerife são quatro as espécies de tabaibas, e cada uma das restantes ilhas Canárias apresenta uma diferente selecção destes arbustos, que assumem formas muito diversas, tanto na ecologia e no modo de crescimento como no aspecto da inflorescência. Há as espécies costeiras que se agacham e crescem rastejantes para se protegerem do vento, há as que vivem mais abrigadas em encostas secas e são capazes de atingir os dois metros de altura, e há finalmente as que fazem da laurissilva a sua casa e, competindo pela luz, têm de erguer mais alto os seus ramos. A única espécie neste último grupo é a E. mellifera, a mesma que existe na Madeira e que é muito mais comum nessa ilha do que nas Canárias. O segundo grupo de espécies (que não escapa a alguma sobreposição com o primeiro) é o mais numeroso, e inclui a Euphorbia atropurpurea, endémica de Tenerife, aqui fotografada na zona de Masca, onde é particularmente frequente.

Num concurso de beleza para tabaibas, esta tenerifenha, com o seu porte arrumadinho de árvore em miniatura, as suas inflorescências cor-de-vinho contrastando com as grandes folhas glaucas, convenceria qualquer júri a elegê-la Miss Tabaiba. Se fossem admitidas concorrentes de toda a Macaronésia, como parece justo, seria a E. piscatoria, na versão porto-santense, a escolhida como primeira Dama de Honor.

As inflorescências das eufórbias são complicadas: na 5.ª foto acima, o fruto já desenvolvido, cor de cereja madura, emerge de uma estrutura onde há quatro nectários amarelos e quatro flores masculinas, cada uma delas reduzida a um estame; essa estrutura (chamadas cíato) é envolvida por duas brácteas vermelhas, em forma de rim, fundidas uma com a outra; finalmente, os cíatos, sustentados por pedúnculos do mesmo vermelho tinto, dispõem-se em umbelas compostas por numerosos raios (entre 5 a 15 - ver 4.ª foto). É um conjunto que se singulariza não apenas pelo colorido mas também pela sua forma ampla e aberta. A floração decorre durante praticamente todo o ano (as fotos são do final de Dezembro), mas é mais intensa em Março e Abril.