17.7.19

O que o Teide tem



A maioria de nós teria decerto dificuldade em viver alguns meses ao relento sob intenso frio e neve (algo que os esquimós conseguem fazer assobiando), aguentando logo depois, e durante o resto do ano, um calor implacável e uma secura extrema (que não atrapalham quem vive junto ao Equador, a saltitar entre riachos e cachoeiras). É a mudança repentina de um regime para outro que não parece ser uma experiência inscrita nos nossos genes, para a qual tenhamos adquirido um meio rápido de adaptação. Pelo contrário, há plantas que resolveram esse problema climático, apesar da sua inexorável imobilidade, permitindo-lhe sobreviver em paragens assim hostis. E algumas até têm um aspecto bastante frágil. Ora veja.



Descurainia bourgeauana (E. Fourn.) O. E. Schulz



Nepeta teydea Webb & Berthel.


No topo da Montanha Branca, no Parque Nacional do Teide, em Tenerife, o que nos rodeia é um mar silencioso de areia cor-de-argila cuja claridade agride os olhos e, já em Maio, é insuportavelmente quente. Mas, entre pausas e muitos goles de água, conseguimos reparar que há afinal plantas tenazes que aqui vivem, e em alguns padrões curiosos: a maioria das plantas hiberna no Inverno, e a floração é curta; a ramagem nova dos raros arbustos (giestas ou retamas) forma uns almofadões densos mas rasteiros; outras plantas têm raízes longas e ondulantes que espreitam entre os torrões secos; outras apresentam folhas pequenas, cobertas de penugem, em compactos arranjos basais; e é frequente a opção de não se desfazerem das partes secas, sejam elas ramos ou cápsulas de frutos já vazias, que se inclinam para o centro da planta e aí despejam toda a água que conseguem captar. Obviamente, estes estratagemas servem para proteger as plantas de ventos fortes (como os que sopram nos desertos e que no cume do Teide são assíduos) e da elevada radiação solar, ao mesmo tempo que lhes permitem reter a humidade do ar, reduzir a perda de água por transpiração e assegurar alguma ração de água.

Terá sido um processo gradual de colonização, com sucessos e recuos. A paisagem vegetal do Teide oferece ocasião, como as ilhas Galápagos noutro século, para uma aventurosa lição (até em férias) sobre a evolução da natureza em circunstâncias adversas.

11.7.19

Histórias da Lista Vermelha: Rhaponticum exaltatum


Rhaponticum exaltatum (Cutanda ex Willk.) Greuter (= Leuzea rhaponticoides Graells)


Pinhas na extremidade de hastes longuíssimas, que não são pinhas mas sim invólucros para flores que esperam pelo Verão para se mostrarem durante uma breve semana, confiando que os polinizadores não faltem à chamada: eis uma possível descrição desta misteriosa asterácea com folhas que lembram vagamente as do rabanete, moradora de plantações florestais e de bosques de carvalho-negral a norte de Bragança. As brácteas involucrais douradas, imbricadas como as telhas de uma casa, denunciam o parentesco com duas outras compostas de floração também efémera: a Leuzea conifera (= Rhaponticum coniferum), habitante de substratos calcários secos, presente no Algarve, no Centro-Oeste e em três ou quatro lugares de Trás-os-Montes; e a Leuzea longifolia (= Rhaponticum longifolium), endémica do litoral português que surge (muito raramente) em solos húmidos siliciosos ou arenosos.

Apesar de ser mais bonito e mais fácil de pronunciar, o nome genérico Leuzea foi, por força dos estudos filogenéticos, substituído por Rhaponticum. Esses estudos ditaram a fusão dos dois géneros; e, por prevalecer o critério da antiguidade, foi conservado o nome Rhaponticum e descartado o de Leuzea. Talvez a culpa de toda esta instabilidade nomenclatural se deva a Shakespeare e à famosa citação A rose by any other name would smell as sweet. Por muito arrevesados que sejam os nomes que lhes dêem, as plantas nunca deixarão de ser o que são.

O Rhaponticum exaltatum, com os 140 cm de altura que por vezes atinge, é o mais avantajado entre os seus congéneres portugueses, como aliás parece proclamar o seu orgulho epíteto específico. É também o mais raro. Em 1889, Joaquim de Mariz, botânico da Universidade de Coimbra, reportou a sua existência nas cercanias de Vimioso, em Trás-os-Montes, nos seguintes termos: «Nos terrenos incultos dos outeiros e por entre as azinheiras e outros arbustos crescem plantas muito apreciáveis, tais como o Lilium martagon, o Orobus niger, o Lathyrus latifolius, uma variedade da Armeria allioides, o Geranium sanguineum, a Inula salicina e a Leuzea rhaponticoides, espécie insigne e nova para a flora portuguesa.» (Uma excursão botânica em Trás-os-Montes, Boletim da Sociedade Broteriana, vol. VII, 1889, pp 3-34). A planta voltou a ser colhida na mesma localidade pelo Padre Miranda Lopes (1872-1942), mas desde essa época nunca mais lá foi vista. Nos anos 90 do século passado, Carlos Aguiar reencontrou-a perto de Rio de Onor, e hoje em dia, no nosso país, ela parece estar confinada ao limite nordeste do Parque Natural de Montesinho. No resto da Península Ibérica (e da Europa), a espécie é apenas conhecida na serra de Gredos, onde aliás é bem mais numerosa. Sabe-se ainda que ocorre em Marrocos.

Além das plausíveis ameaças que afectam uma população escassa, como a herbivoria ou, no outro prato da balança, o adensamento da vegetação arbustiva, o Rhaponticum exaltatum sofre, no nosso país, de óbvias dificuldades de reprodução. Vimos, em vários pontos separados por um ou dois quilómetros, largas dezenas de plantas só com folhas basais. Plantas com haste floral só avistámos cinco, muito distanciadas umas das outras. Mesmo que a planta pratique a autogamia, tão débil estratégia reprodutiva mais parece um suicídio a prazo. Oxalá este tenha sido um mau ano, e em anos mais favoráveis a percentagem de indivíduos em flor seja mais razoável. Em qualquer caso, é inteiramente apropriado que, na Lista Vermelha da Flora de Portugal, o Rhaponticum exaltatum tenha sido considerado Em Perigo Crítico.

30.6.19

Viagem a África

Aizoon canariense L.
Em Lanzarote não há pirâmides, mas não faltam camelos. Há estátuas de camelos em rotundas, e nas estradas grandes cartazes a anunciar passeios de camelo. São verdadeiros camelos africanos de uma bossa só, estabelecidos na ilha há muitas gerações como animais de carga e hoje em dia apenas usados para entreter turistas. Lanzarote é uma África de bolso, árida, com casas baixas e brancas para se defenderem do sol, mas com temperaturas moderadas e sem os perigos e inconvenientes que afastam da África continental os viajantes mais temerosos. E também na vegetação a africanidade da ilha é evidente: as mesmas plantas rasteiras que aqui pisamos poderíamos pisá-las no Egipto, Sudão ou Marrocos. Um exemplo é este Aizoon canariense, muito comum nas zonas costeiras de Lanzarote. Apesar do epíteto canariense dado por Lineu, a planta anda longe de ser exclusiva das Canárias: aparece também na Madeira (Ponta de São Lourenço) e em Cabo Verde, estende-se por todo o norte de África, alcança a Arábia, Irão, Afeganistão e Paquistão, e dá ainda um pulo à África do Sul, Namíbia, Moçambique e Angola. Uma viagem confortável e segura de uma ponta a outra do continente africano e mais além, esta que a imaginação faz no rasto de uma planta que apenas avistámos em Lanzarote.

O Aizoon canariense, que nas Canárias é chamado pata perro (= pata-de-cão), é uma planta anual (às vezes perene de vida curta), suculenta e sedosa, de hábito prostrado, com grossas hastes muito ramificadas. As folhas são peludas em ambas as faces e têm tamanho muito variável, com 1 a 7 cm de comprimento por 0,5 a 4 cm de largura. As flores são pequenas, amarelas ou esverdeadas, com 12 a 15 estames reunidos em 4 ou 5 feixes, e estão aninhadas nas axilas das folhas. Os frutos, de cor vermelha e textura esponjosa, têm 5 a 9 mm de diâmetro, e apresentam uma nítida concavidade central. A floração, pelo menos na Madeira e nas Canárias, decorre durante todo o ano. Não sendo normalmente consumida, a planta é comestível: em épocas de fome, as folhas eram usadas como alimento por povos indígenas sul-africanos.

O género Aizoon e a família Aizoaceae a que dá nome são predominantemente africanos, com alguns representantes na Austrália. Entre nós, o mais conhecido membro da família é o sul-africano Carpobrotus edulis, o temível chorão-de-praia que invade dunas e falésias do Minho ao Algarve. Outra aizoácea naturalizada em Portugal continental e nas ilhas é a Tetragonia tetragonoides, os espinafres-da-Nova-Zelândia que substituíram em sopas e saladas os genuínos e esquecidos espinafres (Spinacia oleracea).

23.6.19

Souto com orquídeas

Em Junho de 2016, o país recebeu uma excelente notícia: tinha sido descoberto num souto do nordeste transmontano, por Américo e Conceição Pereira, um núcleo com bastantes indivíduos de uma das orquídeas mais bonitas e raras entre nós. Infelizmente, os nossos jornais não se interessam por tais assuntos a menos que eles sejam reportados por agências de notícias estrangeiras, e o leitor não terá dado por nada no Facebook. Estamos aqui hoje para remediar essa omissão.


Cephalanthera rubra (L.) Rich.


Desta planta, a Associação de Orquídeas Silvestres - Portugal tinha registo até então de meia dúzia de exemplares perto de Vinhais, receando pela sua sobrevivência. É que estes soutos antigos, com castanheiros de copas monumentais que no Outono servem generosas quantidades das melhores castanhas portuguesas e em cuja sombra algumas orquídeas se regalam, são privados. E, frequentemente, os proprietários desses bosques não gostam que nas suas terras se descubram plantas que sejam alvo de planos de conservação ou de directivas europeias de protecção. Está-se mesmo a ver o prejuízo: torrão onde se encontre uma planta exclusiva não mais (julgam eles) poderá ser lavrado como o dono bem entender. Daí que, sem apelo nem demora, o solo seja revolvido até não restar memória das herbáceas preciosas que ali se nutriam e da biodiversidade que enriquecia aquele habitat. Por isso, os autores da ficha da espécie na Lista Vermelha da Flora de Portugal entenderam que, apesar de se conhecerem agora mais núcleos desta orquídea, ela continua em perigo.

Do género Cephalanthera ocorre em Portugal outra espécie, a C. longifolia, que tem uma distribuição muito mais ampla (surge de Trás-os-Montes ao Algarve) e é, portanto, bem mais fácil de avistar. É parecida com a C. rubra, mas de flores brancas. Falta encontrar a espécie C. damasonium, frequente na metade oriental de Espanha, que prefere solos calcários em bosques com muita sombra e humidade. Conhecem-se núcleos desta espécie não muito longe do extremo nordeste do país; com sorte, daqui a alguns anos ela seguirá o exemplo do urso pardo e virá fazer-nos uma visita.

19.6.19

Louro de bico dourado



A costa norte de Tenerife, marcada por falésias abruptas, tem poucas praias para uso balnear. Aqui não chegaram (ainda?) os aldeamentos turísticos massificados que tomaram de assalto a costa sul da ilha, e a afluência de forasteiros é moderada. No entanto, as povoações sucedem-se continuamente, e não há pedaço de costa acessível ao visitante que não esteja marcado pela intervenção humana. Mas isso não significa que o coberto vegetal seja desinteressante: como sucede em quase toda a ilha (e na generalidade do arquipélago canário), a maioria das plantas que encontramos são nativas ou mesmo endémicas que se adaptaram ao destrutivo convívio humano. O Puertito del Sauzal é uma zona de fácil acesso, muito visitada, com caminhos pavimentados que podemos percorrer nas calmas, sempre à vista das rochas negras batidas pelo mar. O estacionamento é amplo, e o único inconveniente é a estrada íngreme até lá não permitir em muitos pontos o cruzamento de dois carros. O constante rodopio de visitantes não parece ter provocado, porém, mudanças muito notórias no elenco das plantas que enfeitam as falésias. Todas as plantas que aparecem na foto acima são cidadãs de pleno direito da ilha e daquele local: não há vislumbre de plantas exóticas ou infestantes. A intervenção humana é, neste caso, paradoxalmente revelada pelo aspecto natural e "intocado" da paisagem. Este lugar, apesar da intensa visitação, insere-se numa área de paisagem protegida, e é muito provável que a ausência de plantas indesejáveis se deva a um controlo activo.


Lotus maculatus Breitf.
A coroa de glória da Paisaje Protegido de la Costa de Acentejo, de que o Puertito del Sauzal faz parte, é uma planta leguminosa rasteira de flores douradas, pontiagudas, com laivos avermelhados, de seu nome Lotus maculatus, conhecida popularmente como pico de paloma. O mesmo nome popular é atribuído ao também tenerifenho Lotus berthelotii, com flores vermelhas, que apresenta um aspecto geral semelhante e vive (ou vivia) nas zonas montanhosas da ilha. A boa fortuna que os dois bicos-de-pomba (convertidos em bicos-de-papagaio para efeitos de exportação) alcançaram no mundo da jardinagem contrasta com o triste destino das suas populações naturais: no Atlas y Libro Rojo de la Flora Vascular Amenazada de España (datado de 2004), os dois Lotus foram considerados em "Perigo Crítico", e de facto ambos estão em grave risco de extinção na natureza. Os números referidos no Libro Rojo eram alarmantes: do Lotus maculatus sobrariam uns 10 exemplares, todos no Puertito del Sauzal, já que a planta desparecera do seu outro local conhecido de ocorrência (um dos ilhéus de Anaga); e o Lotus berthelotii, permanecendo embora em dois locais com uma vintena de exemplares em cada um deles, na prática já se teria extinguido se não tivessem sido realizadas acções de reforço populacional (todas as plantas existentes à data, excepto uma, provinham dessas acções).


Lotus maculatus Breitf.


A grande raridade destes Lotus na natureza não se deve apenas (nem talvez principalmente) às acções humanas directas ou indirectas. É sabido, por exemplo, que o Lotus berthelotii é auto-incompatível (o pólen de uma planta é incapaz de fecundar as flores da mesma planta) e que a produção de sementes viáveis é um evento raríssimo. Já o Lotus maculatus parece ser auto-compatível, mas a sua taxa de reprodução em ambiente natural é muito baixa. A estes problemas intrínsecos juntar-se-iam factores externos, que no caso do L. maculatus parecem ter sido mitigados: já não há rebanhos de cabras ou ovelhas a pastar na zona, e o acesso ao local onde se acolhe a planta foi condicionado. Na nossa ingenuidade, imaginávamos chegar lá sem problemas, bastando descer por um escadote de ferro preso à rocha para atingir o extremo do promontório. Mas um aviso (não podemos fingir que não entendemos castelhano) dizia que o acesso era só para pessoas autorizadas, e um helicóptero sobrevoando insistentemente as nossas cabeças parecia estar à espreita de um acto de desobediência da nossa parte para de imediato entrar em acção. Forçados a retroceder, acabámos por encontrar, a umas centenas de metros, uns exemplares do desejado Lotus maculatus protegidos por redes: pelo menos uma dúzia, e vigorosos, um deles tendo já saltado a vedação e crescendo sob o resguardo de um muro. Esse visível sucesso na reintrodução da planta em pequenos nichos favoráveis permite olhar o seu futuro com algum optimismo.

7.6.19

Histórias da Lista Vermelha: Allium schmitzii

Allium schmitzii Cout.


Um mês antes do São João já os alhos-porros silvestres (Allium ampeloprasum) começam a despontar nos campos. Foi talvez a sua aparição que nos incentivou a renovar as buscas por um outro alho que há seis ou sete anos faz parte da nossa lista de desejos. Em 2012, quando nos encontrámos em Lisboa para o lançamento do portal Flora-On, o Carlos Aguiar dera-nos a dica: a jusante da barragem de Bagaúste, na Régua, o Allium schmitzii é tão abundante que o seu cheiro se sente à distância. Fomos lá em Junho de 2013, já a canícula anunciava o inferno em que a Régua se transforma no Verão, mas desses alhos não detectámos qualquer rasto visual ou olfactivo, talvez porque a busca tivesse sido mal planeada, ou a época fosse tardia, ou esse ano a floração fosse escassa. Em 2017, o biólogo Paulo Pereira, ao serviço da Lista Vermelha da Flora de Portugal (LVF), visitou a área e confirmou a existência e relativa pujança do Allium schmitzii na Régua, tendo contado uns duzentos exemplares. Dois anos depois, chegou a vez de a nossa insistência ser recompensada, ainda que in extremis. O início de Maio deverá ser a melhor altura para observar a planta. Chegámos com três semanas de atraso, vimos-lhe os frutos (muitos) e quase nos escapavam as flores.

Endémico da Península Ibérica, o Allium schmitzii vive em leitos de cheias de rios. Em Portugal foi assinalado nas bacias do Douro, Tejo, Guadiana e Sado; em Espanha aparece sobretudo na província de Salamanca, com ocorrências isoladas na serra Madrona e nas montanhas do Sistema Ibérico. O seu habitat tem vindo a a diminuir gradualmente desde meados do século XX, quando em Portugal se iniciou o período de construção de grandes barragens. A planta já não existe nas margens do Tejo em Vila Velha de Rodão, local onde foram colhidos os exemplares usados por António Xavier Pereira Coutinho, em 1897, para descrever a espécie no n.º XIII do Boletim da Sociedade Broteriana. O enchimento da barragem de Alqueva, em 2002, quase a fez desaparecer da bacia do Guadiana. E na bacia do Douro ela parece ter sobrevivido em apenas três lugares: Régua e Bemposta, no rio Douro; e Almofala (Figueira de Castelo Rodrigo), na margem portuguesa do rio Águeda. No decorrer dos trabalhos da LVF, a existência da planta só pôde ser confirmada no Douro (Régua e Bemposta) e no Tejo (Tramagal): a somar aos duzentos exemplares na Régua, avistaram-se oito em Bemposta e uns cinquenta no Tramagal. Dir-se-ia que a sobrevivência do Allium schmitzii no nosso país está por um fio. Contudo, a prospecção foi tida como insuficiente para se obterem estimativas populacionais fiáveis, e por isso na LFV foi-lhe apenas atribuído o estatuto de "Vulnerável".

No mesmo artigo em que apresenta o Allium schmitzii, Coutinho descreve outro alho semelhante, esse colhido nas margens rochosas do rio Minho entre Monção e Melgaço, a que chama Allium schmitzii var. duriminium. O primeiro distingue-se do segundo, na opinião do autor, por ter flores menores com pedúnculos mais compridos, pelos estames salientes, pela umbela mais ampla - e, de um modo geral, pelo porte mais avantajado. Ambos estes alhos têm semelhanças marcantes, mais acentuadas na var. duriminium, com o Allium schoenoprasum, que é o cebolinho cultivado nas nossas hortas. Assinale-se porém que as flores do cebolinho, além de terem pedúnculos muito curtos que dão à umbela um aspecto compacto, são quase tubulares, com as tépalas muito mais compridas do que os estames. Na sua Flora de Portugal (1.ª edição em 1913), Coutinho muda de opinião sobre a var. duriminium, acabando por subordiná-la ao Allium schoenoprasum.

Seja ele uma variedade do A. schmitzii ou do A. schoenoprasum, esse alho duriminium parece existir apenas no rio Minho, o que faz dele um endemismo de distribuição muito mais restrita do que o A. schmitzii propriamente dito. Porém, como o troço fronteiriço do rio Minho não foi até hoje adulterado por barragens, o habitat tem-se mantido intacto, e a população de "Allium duriminium" atinge certamente as dezenas de milhares de plantas, ultrapassando largamente a do A. schmitzii. Quem visitar as pesqueiras do rio Minho por estes dias (a floração decorre principalmente em Junho) não poderá deixar de o ver.

As fotos abaixo, obtidas em Melgaço há já uns anos, permitirão ao leitor ajuizar das diferenças e semelhanças entre os dois alhos. A ecologia dos dois não é exactamente a mesma: o "A. duriminium" aparece exclusivamente em fendas de rochas, enquanto que, pelo menos na Régua, o A. schmitzii parece ausente dos afloramentos rochosos, vivendo em solos que estão encharcados ou mesmo submersos durante boa parte do ano.


Allium schoenoprasum var. duriminium (Cout.) Cout.

1.6.19

Violeta do Teide




O Pico do Teide é um cone vulcânico quase perfeito com cerca de 3720 metros de altura e de formação recente (tem uns 200 mil anos, mas o sistema de vulcões a que ele pertence está ainda activo). No Inverno, e apesar da proximidade das ilhas Canárias ao norte de África, cobre-se de neve; no resto do ano surge em muitas manhãs envolto em nuvens espessas. A paisagem lembra imagens recentes de Marte, com o chão alaranjado, azulado ou esbranquiçado, entremeado por lava escura e cinzas.



Este é um lugar árido e poeirento, com extensas zonas de rocha basáltica sem solo nem água, e diferenças nas temperaturas diurna e nocturna que podem atingir os 20ºC. Por isso, são poucas as plantas que se atrevem a colonizá-lo. Algumas das que o conseguiram, nos declives mais suaves das caldeiras ou em nichos de pedra-pomes, sorvem o orvalho e a neblina fria da noite e são hoje endemismos das ilhas Canárias que ocorrem apenas no Parque Nacional do Teide. A maioria tem folhas lanceoladas e erectas, cobertas de penugem fina onde o orvalho se condensa, com secção em V para que a água que ali caia não se desperdice, sendo canalizada para o centro da planta. A folhagem dispõe-se em roseta, ou num arranjo compacto e prostrado, decerto com o objectivo de minimizar as perdas de água pela excessiva exposição ao sol. Curiosamente, são frequentes as hastes florais altas e ondulantes, que se avistam à distância.

Sob condições tão adversas, as plantas preferem hibernar durante quase todo o ano, florindo brevemente entre Maio e o início de Julho. Nessa altura, a flora do Parque Nacional del Teide é um prodígio de cor e diversidade. Na nossa visita em Maio à Montaña Blanca não havia ainda muitas flores (o que obriga a nova viagem num Junho futuro), mas esta preciosa violeta tricolor estava à nossa espera.



Viola cheiranthifolia Humb. & Bonpl.



A primeira descrição da violeta-com-folhas-de goivo, que vive acima dos 2100 m e só ocorre no Parque Nacional do Teide, é de Alexander von Humboldt (1769-1859), naturalista e explorador alemão, e do botânico francês Aimé Bonpland (1773-1858). Durante a viagem, financiada por Espanha, que ambos fizeram à América Latina entre 1799 e 1804, registaram mais de 6000 espécies de plantas que eram então desconhecidas na Europa. O navio Pizarro em que seguiam para a América do Sul fez uma escala em Tenerife, a 18 de Junho de 1799, para que Humboldt e Bonplant pudessem subir ao Pico do Teide. A descrição minuciosa da subida, feita no capítulo II do 1º volume da obra Personal narrative of travels to the Equinoctial regions of America, pode ser apreciada com vagar neste endereço. Aí ficamos a saber como os guias tenerifenhos (que, viriam Humboldt e Bonplant a descobrir, nunca tinham antes ascendido ao cume do vulcão) iam sub-repticiamente esvaziando a bagagem onde se recolhiam amostras de rochas e plantas para a subida lhes ser mais leve; e podemos ler uma descrição comentada do que os dois cientistas foram observando, seja sobre a geografia, a meteorologia ou a botânica, seja sobre os vestígios arqueológicos do povo guanche.

22.5.19

Histórias da Lista Vermelha: Phleum arenarium



Phleum arenarium L.


Para a grande maioria dos portugueses, "férias" e "praia" são perfeitos sinónimos: de Maio a Outubro, enquanto a chuva e o frio se mantiverem educadamente ausentes, ir à praia é, para o grosso da população, o único modo de ocupar os períodos de lazer. Que o país inteiro se estenda na praia ao sol não é bom para as plantas dunares, mas a instalação de passadiços de acesso às praias um pouco por todo o litoral contribuiu para minimizar os estragos e, em certas casos, até potenciou uma notável recuperação da vegetação das dunas. Contudo, os tempos já foram melhores, e as ameaças sobre as plantas dunares voltam a avolumar-se. A erosão costeira tem feito recuar o cordão dunar, às vezes de forma dramática, em muitos pontos do litoral norte. E algumas câmaras municipais deixaram de se preocupar com a gestão desses habitats, seja para poupar no orçamento, seja porque a conservação da natureza é moda que já passou e poucos votos rende. Entre as prevaricadoras avulta a Câmara Municipal de Gaia (CMG), que, sob a égide do actual presidente Eduardo Vítor Rodrigues (primeiramente eleito em 2013), deixou de controlar o chorão (Carpobrotus edulis) e outras plantas infestantes nos 15 km de dunas do concelho, mantendo embora de pé os cartazes garantindo que esse controlo é feito. Depois de dez ou mais anos em que nos habituámos a ver essas dunas recuperar gradualmente a sua biodiversidade, eis que regressámos à idade das trevas em que tais preocupações são um luxo desnecessário.

A sorte da gramínea dunar que hoje apresentamos, de seu nome Phleum arenarium, não depende, felizmente para ela, do empenho do presidente da CMG, ainda que não se possa dizer o mesmo de outras plantas constantes da Lista Vermelha da Flora de Portugal (um exemplo é o Centaurium chloodes, classificado como "Em Perigo", desaparecido há poucos anos do litoral gaiense). Já em tempos recuados a presença do Phleum arenarium no nosso país parecia restringir-se à faixa litoral a norte do Douro. Na Flora Portuguesa de Gonçalo Sampaio, publicada postumamente em 1946, diz-se que a área de distribuição da planta se estendia até ao Alentejo, mas nenhum registo de herbário corrobora tal informação. Actualmente só se sabe dela em três ou quatro pontos nos concelhos de Vila do Conde, Esposende e Viana do Castelo. As dunas entre a Amorosa e o Cabedelo, a sul do Lima, marcam o limite norte da distibuição portuguesa da planta e albergam o seu maior contingente populacional, atingindo a ordem dos milhares. Mas a planta é pequena, uma simples espiga com 10 a 15 cm de altura; e, tratando-se de uma planta anual de surgimento efémero (floresce entre Maio e Junho, depois seca e desaparece), os seus números podem oscilar muito de ano para ano.

O Phleum arenarium (que, segundo a Lista Vermelha, está "Em Perigo" no nosso país) vive na transição entre a duna primária e a duna cinzenta, em zonas ainda não completamente estabilizadas. Não tolera a instabilidade da frente dunar, mas é pouco competitivo e tem dificuldade em colonizar dunas consolidadas com bom coberto vegetal. O refúgio que encontrou entre a Amorosa e a foz do Lima responde de forma exacta aos seus requisitos, e os passadiços que o põem a salvo do pisoteio também lhe proporcionam um importante habitat secundário. Noutros pontos do litoral norte, o habitat da planta terá sido obliterado pelo estreitamento do cordão dunar, pela caótica rede de carreiros de acesso às praias, e pela expansão de plantas invasoras como o chorão e a acácia-de-espigas.

O Phleum arenarium está amplamente distribuído pela costa atlântica europeia, mas desce também ao Mediterrâneo e, atravessando-o, espeta uma modesta lança em África, não se aventurando para lá de Marrocos. Não é o único penacho-das-areias em miniatura que temos na nossa flora, mas é talvez o mais raro. Se o leitor lograr encontrá-lo, parabéns. Mas, antes de festejar, tire algumas fotos e certifique-se de que aquilo que está a ver não é, por exemplo, o Lagurus ovatus, que tem um aspecto bastante mais fofo e sedoso e é comum em dunas de norte a sul do país.