20/09/2020

Ervas do Fresno



Miranda do Douro tem um rio. Não, não é aquele rio das arribas vertiginosas que vem de longe e vai para longe, e que, por ser o rio de muitas terras, afinal não é de nenhuma. Falamos do Fresno, um rio maneirinho que faz todo o seu percurso de 15 km no concelho de Miranda, e que só não se chama ribeira porque rio é título honorífico e num planalto de pouca chuva todos os cursos de água merecem ser festejados. As gentes de Miranda gostam tanto do Fresno que à sua passagem pela cidade o enfeitaram com um repuxo e fizeram das suas margens um parque urbano. Refreando a vontade suicidária das (escassas) águas de se lançarem, de um desnível de 150 metros, no leito amansado do Douro, construíram-lhe represas e engordaram-no com espelhos de água. Assim disfarçarm também a secura que aflige o rio todos os verões, quando a vida se suspende à espera das chuvas de Outono.

Porque preferimos um rio menos ataviado de enfeites, não passeámos no Parque Urbano do Fresno. Em vez disso, fomos para montante, com paragens em Palancar e em Ifanes, para espreitar as ervas que boiavam na água ou se escondiam nas margens entre salgueiros e freixos. As chuvas da Primavera, que tinham sido regulares, ainda permitiam no final de Junho que o caudal se apresentasse nutrido. Seria por pouco tempo, garantiu-nos alguém que colhia couves num quintal à beira-rio. Mais duas semanas e as ervas do Fresno que se mostravam tão frescas estariam todas secas: juncos e ciperáceas, gramíneas, ervas-salgueiras, tábuas, ranúnculos, alismatáceas, miosótis e muitas plantas mais, todas na urgência de florir e frutificar antes de serem vencidas pela estiagem.


Alopecurus aequalis Sobol.


Uma das gramíneas que crescia nas águas do Fresno destacava-se, apesar da modesta altura (não mais que 20 cm), pelas espigas compactas salpicadas com o cor-de-laranja das anteras. Por não precisarem de atrair polinizadores, é raro as gramíneas ostentarem cores vistosas. Tanto assim é que o detalhe colorido nos revelou, sem sombra de dúvida, a identidade dessa gramínea do Fresno. Trata-se da Alopecurus aequalis, planta cuja ampla distribuição abrange os três continentes do hemisfério norte, mas que é escassa em Portugal, onde aparece sobretudo no quadrante nordeste.


Azolla filiculoides Lam.
Formando grandes manchas cor-de-vinho à superfície das águas, aparecia também um feto aquático originário da América tropical, Azolla filiculoides, que aqui confirmava de modo exuberante a capacidade invasora que lhe foi reconhecida pelo Decreto-Lei n.º 565/99. Esta planta só não é um problema mais sério em Portugal porque não tolera o frio e desaparece (ou remete-se à dormência vegetativa) durante o Inverno. Do ponto de vista económico, a planta tem certas virtudes que não parece terem sido aproveitadas em Portugal, e que a levaram a ser introduzida em muitas partes do mundo. A sua capacidade de fixar azoto reforça a produtividade de arrozais e de outras culturas aquáticas, e a planta pode ainda ser usada como fertilizante se recolhida das águas.

14/09/2020

Erva-azul dos gatos

Uma das afirmações mais intrigantes que a ciência nos deu no século XX é a de que não é possível medir o tempo de modo universal. Dito assim, soa complicado, porque o conceito de tempo é criação nossa e, portanto, não deveria poder fugir ao nosso controle. Na verdade, embora todos usemos fracções da hora para o medir, e os relógios sejam cada vez mais precisos, o tempo não tem carácter absoluto: a velocidade a que passa depende do nosso próprio movimento; e quanto mais depressa vamos, mais lentamente ele decorre. Depois da nossa visita ao Castro de Santiago, em Mogadouro, a que se acede vagarosamente por ladeira íngreme e pedregosa, sem sombra que alivie o calor desmedido, esta relatividade do tempo ganha outro sentido: o tempo é tão rápido a passar que só ao fim de 1 hora, e uns tantos impropérios, completamos um percurso que julgámos ser capazes de percorrer em vinte minutos.



No topo do castro, porém, ao vermos esta planta fabulosa em flor na orla do bosque, damos o esforço da subida como bem empregue, e a nossa aflição com o tempo gasto é agora apenas um problema para resolver à descida.


Nepeta caerulea Aiton


Estamos na extremidade sudoeste da serra do Variz, a cerca de 950 metros de altura, junto a um cume quartzítico de onde se avista o planalto de Miranda. Aqui há um mato ralo mas bem conservado de carvalho-negral (Q. pyrenaica) e um coberto vegetal que, uns meses antes do Verão, deve ter mostrado uma variedade notável de herbáceas. Lamentavelmente, abriram-se por ali vários estradões que, ainda que nos poupem segundos na subida e tenham revelado aos historiadores indícios de um povoado da Idade do Ferro que ali existiu, poderão destruir um habitat raro, que se julgaria parado no tempo.

O género Nepeta bem pode orgulhar-se de só ter espécies vistosas, algumas com hastes florais que ultrapassam 1 metro, outras de porte baixo mas entre as plantas mais formosas que conhecemos. Da N. caerulea, que é um endemismo da Península Ibérica, conhecem-se poucos núcleos em Portugal e quase todos com poucos indivíduos.

06/09/2020

Alface azul



Lactuca perennis L.


Num país onde, preguiçosamente, os restaurantes tradicionais desistiram de temperar a comida com outra coisa que não seja sal, azeite e vinagre, e as ervas aromáticas são conhecidas só de nome, há ainda vegetais que são amplamente cultivados e consumidos. Entre eles avulta a alface, que é omnipresente em saladas e surge com irritante assiduidade como elemento decorativo em pratos irremediavelmente desenxabidos.

Da alface o consumidor médio só conhece as folhas; e, como a planta é colhida ainda tenra, mesmo quem a cultiva não costuma ver-lhe as flores. Assim, as primas silvestres da alface domesticada (Lactuca sativa) raramente são reconhecidas como tal, apesar de serem muito abundantes e florirem maioritariamente entre Junho e Agosto, época do ano em que desperta nos citadinos um breve entusiasmo pelas coisas da natureza. Sendo geralmente comestíveis, embora por vezes amargas, o uso dessas alfaces espontâneas traria, além da poupança, uma bem-vinda variedade à culinária caseira.

Nem a alface das hortas nem as alfaces silvestres (pelo menos as que se encontram em Portugal continental) são exemplos acabados de elegância, e pouca gente as quererá ter num jardim. O caso é outro se falarmos da assombrosa alfacinha açoriana (Lactuca watsoniana), que contudo nunca parece ter sido cultivada. Ficando-nos pela Península Ibérica, encontramos no país vizinho algumas alfaces compostinhas e de floração atraente. Uma delas, a que pela cor das flores podemos chamar alface-azul, é a Lactuca perennis, que vive em rochas (preferencialmente) calcárias e floresce na Primavera. As suas flores têm semelhanças óbvias com as da chicória (Cichorium intybus), planta muito vulgar em Portugal, tanto no continente como nas ilhas.

Distribuída por grande parte do centro e sul da Europa, a Lactuca perennis é uma planta compacta, com 30 a 80 cm de altura, que apresenta inflorescências corimbosas, formadas por capítulos esparsos, cada um deles com 12 a 20 lígulas variando entre o azul e o lilás. Havendo por esse mundo fora quem coleccione plantas como outros coleccionam objectos inanimados, a alface-azul tem por certo lugar de eleição no rock garden de muitos entusiastas.

31/08/2020

Muralhas de Miranda



O que resta hoje da muralha defensiva de Miranda do Douro conta uma longa história de batalhas, invasões e ocupações do nordeste transmontano, e de restauros em tempos de paz. A ruína tem, porém, um atractivo de outra ordem, e foi isso que nos levou a Miranda: é vizinha de uma população de Silene conica, herbácea rara em Portugal, e que ali parece apreciar o solo arenoso e o agasalho do muro velho de séculos. A muralha parecia ter sido aspirada recentemente, bem limpa da pátina terrosa, talvez por ordens de conservadores empenhados; mas o recanto da Silene estava felizmente sem vestígios da acção de roçadoras ou herbicidas. Em Julho, com um ar muito quente e seco, não chegámos a tempo de lhe ver as flores; a maioria das cápsulas dos frutos, com formato engraçado de cebola branqueada pelo sol, já nem continha sementes. Viagem perdida, lamentámos, regressaremos sem fotos da desejada. Mas mesmo ao lado, em plena floração, e contente com o habitat pedregoso e a temperatura elevada, morava outra planta com cerca de um metro de altura que nos serviu de consolação.


Plumbago europaea L.


As plantas da espécie Plumbago europaea são perenes, algo lenhosas na base, com talos erectos e delgados, folhas ásperas e flores pequeninas agrupadas em espiga. Podem ver nas fotos como cada flor tem um cálice glanduloso onde se apoia uma corola violeta, com a cor mais intensa nas nervuras a meio dos lóbulos. As folhas um pouco enrugadas parecem polvilhadas de farinha, decerto mais um lenitivo para a planta sobreviver ao calor intenso e à escassez de água. Tem uma distribuição ampla em quase toda a Península Ibérica, sul da Europa e região mediterrânica, mas os registos em Portugal confinam-na aos dois extremos: Algarve e Trás-os-Montes.

A denominação vernácula erva-das-feridas ou erva-de-santo-António alude a virtudes curativas ou analgésicas das folhas e raízes, e a uma acção antimicrobiana eficiente que a farmacopeia tradicional lhe atribui, e que alguns estudos recentes têm vindo a confirmar.

23/08/2020

Melancias de bolso


Bryonia verrucosa Dryand.


Melancias, melões e meloas fazem-nos dar graças à vida por existir o Verão. Esquecemos o calor, as queimaduras, os mosquitos, os fios de suor a escorrer pela cara, e só queremos lembrar aquele momento em que o melão gelado e doce se nos enrola na língua, deslizando depois goela abaixo para nos refrescar o âmago. Tal como a abóbora, mais associada ao Inverno, esses excelsos frutos são produzidos por plantas da família Cucurbitaceae, cultivadas pelo homem há centenas ou milhares de anos. É uma família constituída por plantas rastejantes ou trepadeiras, amiúde anuais, com flores de cinco pétalas em vários tons de amarelo, caracteristicamente lanudas ou frisadas. Além de podermos vê-las crescer nos mais modestos quintais, também há cucurbitáceas na natureza, só que dão frutos de menor tamanho, por vezes tão tóxicos que nem a medicina popular lhes quer dar uso. Sofrem desse óbice as duas únicas espécies espontâneas em Portugal continental, Ecballium elaterium e Bryonia dioica.

Os frutos da Bryonia dioica parecem tomatinhos. Em contraste, a Bryonia verrucosa, endémica das Canárias, produz perfeitas melancias em miniatura (fotos aqui ou aqui), de não mais que 3 cm de diâmetro, com as faixas verde-escuras alternando com faixas claras tal como nas melancias genuínas. Claro que as aparências enganam, e nem um nem outro destes frutos miniaturais se deixam ou devem comer. Não por acaso, a Bryonia verrucosa é conhecida nas Canárias como venenillo. Além da desproporção de tamanhos, outra diferença marcante entre o venenillo e a melancia está no ciclo de vida: a Bryonia verrucosa (tal como a B. dioica) é uma planta perene, enquanto que o Citrullus lanatus (melancia) é anual.

Presente em todas as ilhas das Canárias com excepção de Fuerteventura, a Bryonia verrucosa é uma trepadeira de modesto alcance, com hastes que raramente ultrapassam os dois metros de comprimento e flores com cerca de 2 cm de largura. Vive em matos, ou ocasionalmente sobre muros velhos, em zonas de média ou baixa altitude, quase sempre abaixo dos 500 metros. A floração e frutificação decorrem de Outubro a Março, que em latitudes menos bonançosas são os meses de Outono e Inverno. O exemplar das fotos, que foram captadas em Dezembro do ano passado, vive numa berma de estrada na Grã-Canária, perto da reserva de Los Tilos de Moya.

01/08/2020

Linária sozinha


Linaria intricata Coincy
Na berma de um estradão florestal a norte de Bragança, num ponto onde o pinhal vai dando lugar às estevas em formação cerrada, uma tímida linária fazia abrir, no final de Junho, as primeiras flores da temporada. A canícula estival não tardaria a instalar-se e a temporada adivinhava-se curta. E ademais solitária, pois nenhuma outra planta da mesma espécie se descortinava nas redondezas. Exactamente um ano mais tarde, nem um exemplar foi possível encontrar nesse local. Contudo, a 1 ou 2 km de distância, em clareira de uma mata de carvalho-negral, por entre rosetas de Rhaponticum exaltatum que nunca pensaram em dar flor, novo exemplar solitário da mesma linária dedicava-se à difícil tarefa de existir.

Linaria intricata é como se chama esta diminuta e esquiva planta anual, endémica da Península Ibérica, baptizada em 1900 pelo botânico francês Auguste-Henri de Coincy (1837-1903) a partir de exemplares colhidos na província de Córdova. A descrição original, que pode ser aqui consultada, parece ajustar-se bem ao exemplar das fotos, em particular no que diz respeito à glandulosidade dos cálices e das margens das folhas. Ao contrário do que sugere o epíteto intricata, o grau de ramificação é escasso, talvez por se tratar de um exemplar ainda jovem. Onde a discrepância é notória é na cor das flores, que Coincy diz serem amarelas mas no exemplar fotografado se apresentam de um lilás pálido. Contudo, a revisão do género Linaria na Flora Iberica, surgida em 2009, admite essas variações de cor, que aliás não são invulgares no género. A linária das nossas praias nortenhas (Linaria polygalifolia subsp. polygalifolia) dá flores amarelas, mas a mesma planta (ou aquilo que os entendidos afirmam ser a mesma planta) dá flores rosadas ou arroxeadas em alguns pontos da costa galega (por exemplo, em Corrubedo - veja-se a foto em baixo).

Em Portugal a Linaria intricata já foi conhecida como Linaria coutinhoi. O autor da segunda combinação apontou subtis diferenças entre as duas espécies que os autores da Flora Iberica, ao subordinarem a segunda à primeira, optaram por desvalorizar. O exemplar em que se baseou a descrição da L. coutinhoi foi colhido por Gonçalo Sampaio nas areias do rio Douro, perto do Porto. Seja qual for o nome usado, há muitas décadas que a planta não é avistada no vale do Douro em território nacional. É mais uma das muitas vítimas das barragens que ao longo da segunda metade do século XX foram seccionando o rio, transformando-o numa sucessão de pachorrentas albufeiras. Nos últimos anos, a L. coutinhoi (ou L. intricata) tem sido avistada, esporadicamente, em certos pontos da margem portuguesa do Douro internacional, em substrato arenoso ou gravilhento, em zonas muito declivosas. E outras pessoas além de nós a têm encontrado nos arredores de Bragança, em zonas incluídas no Parque Natural de Montesinho. Em todas essas ocasiões, só muito raramente o número de exemplares detectados ultrapassa a dezena. As excepções estão ligadas à ocorrência de incêndios: em áreas recém-ardidas, a planta pode formar "autênticas pradarias", como testemunhou Anabela Amado, que a observou em 2007 nessas felizes condições. Quando a vegetação de novo se adensa, a planta tende a desaparecer gradualmente.

Dependendo presumivelmente dos incêndios para sobreviver, talvez a Linaria intricata não ache graça à ideia impossível, mas que vai fazendo escola, de um Portugal sem fogos. No âmbito da Lista Vermelha da Flora de Portugal, a espécie foi estudada e prospectada; mas o carácter fugaz e imprevisível das suas populações, a grande oscilação do número de exemplares de ano para ano e um fraco conhecimento da sua ecologia fizeram com que os dados disponíveis fossem tidos como insuficientes para a atribuição de qualquer estatuto de ameaça.


Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia - nas dunas de Corrubedo, Galiza

25/07/2020

Amarelo boreal

Na nossa última visita aos Pirenéus, em Agosto de 2019, agendámos um dia para passear no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, com intenção de conhecer, em particular, o edelweiss (Leontopodium alpinum, planta que inspirou a canção homónima do filme The Sound of Music). Permitindo um número limitado de visitantes por dia, era preciso comprar previamente um bilhete e disputar depois lugar num autocarro oficial, único veículo autorizado a circular nos meses de Verão na estrada até ao vale de Ordesa. Às 7 horas da manhã, já a fila para estes demorados preliminares era longa e desencorajadora. Desistimos para não perder o dia na espera, e seguimos para a aldeia de Chisagüés, em direcção à fonte de Petramula. De novo, as medidas de conservação deste espaço natural exigiam o pagamento de uma entrada (comprada na vila de Bielsa), mas desta vez poderíamos circular no nosso carro, desde que ele tivesse tracção às quatro rodas porque a estrada era de piso acidentado, íngreme, estreita e sem protecções laterais. Informados previamente desta exigência, seguimos por vários quilómetros num todo-o-terreno, envoltos em pó mas seguros, quase sem companhia de outros veículos.



Em pleno Verão, a floração de quase todas as plantas deste lugar, que vivem meio ano cobertas de neve, já tinha terminado. Mas acima dos 2000 metros ainda havia flores.


Saxifraga aizoides L.




Todas as saxífragas de que há registo em território nacional dão flores brancas, ainda que algumas das espécies apresentem as cinco pétalas pintalgadas de amarelo ou rosa. Mas em Espanha, e nas regiões mais frias da Europa, ocorrem espécies de Saxifraga com corolas de outras cores. A espécie que hoje vos mostramos é perene, cespitosa, de folhagem densa e marcescente (não se desprende da planta mesmo depois de seca, servindo-lhe certamente de agasalho). Em geral de baixa estatura (cerca de 15 cm), floresce em corimbos de tom amarelo, laranja ou púrpura, por vezes com as pétalas pintalgadas. Curiosamente, as outras partes da flor parecem sintonizadas com a corola: pétalas mais escuras são acompanhadas por um cálice em tom verde mais intenso, e por estames e carpelos também escurecidos. Dir-se-ía que as flores têm dez pétalas, mas só possuem cinco do mesmo tamanho das sépalas. No centro de cada flor, pode notar-se (na 5.ª foto, ali onde está a formiga) um apetitoso anel com néctar a rodear a base da coluna de carpelos. As cápsulas com numerosas sementes abrem quando a neve regressa, ligeiramente e só num dos topos, para garantir (dizem os especialistas) que a libertação de sementes só se faça quando haja algum vento e uma superfície escorregadia de neve, aumentando assim a distância a que as sementes são dispersadas.

A Saxifraga aizoides forma tapetes em taludes bem irrigados, em margens de arroios ou fissuras de rochas, e é abundante em solos calcários nas montanhas mais altas da Europa. O epíteto aizoides indica que Lineu, em 1753, encontrou parecenças entre esta planta e as do género Aizoon.

19/07/2020

Bandeiras brancas


Thalictrum tuberosum L.


No final de Maio, as bermas de estradas na Cantábria enchem-se de flores brancas em hastes longilíneas que se agitam ao menor sopro de vento. São bandeiras que nos intimam a parar e às quais obedecemos de bom grado. A morfologia das flores, lembrando a das anémonas e das clematites, situa claramente a planta na família Ranunculaceae, mas é com alguma surpresa que, inspeccionando-lhe as folhas tripinadas, concluímos que ela pertence ao género Thalictrum. Uma consulta rápida aos manuais desvenda-lhe a identidade: Thalictrum tuberosum.

Em Portugal estão assinaladas como espontâneas duas espécies de Thalictrum, mas só uma delas, T. speciosissimum, é vista com regularidade. A semelhança das suas folhas com as do T. tuberosum é flagrante, mas as flores parecem ser de outro planeta. À primeira vista, dir-se-ia que as flores do T. tuberosum têm todas as componentes tradicionais (pétalas, estames, carpelos...), enquanto que as inflorescências do T. speciosissimum são nuvens de algodão-doce que, vistas mais de perto, parecem ser compostas apenas por uma confusão de estames.

Nenhuma destas impressões está correcta. As flores brancas que vicejam aí em cima não têm pétalas, mas sim sépalas, que em flores mais convencionais costumam ser verdes e constituir o cálice. E as mesmas peças que formam estas flores reaparecem no T. speciosissimum, que contudo tem sépalas e carpelos de muito menor tamanho, ocultos pela exuberância dos estames.

Embora partindo das mesmas componentes básicas, arquitecturas florais tão distintas sugerem que a polinização não se processa do mesmo modo nas duas espécies. As sépalas petalóides do T. tuberosum cumprem a óbvia função de atrair polinizadores, mas o T. speciosissimum, que quase reduziu as sépalas à invisiblidade, não parece interessado em jogos de sedução. Será que o segundo dispensa os serviços dos insectos e confia a polinização ao vento?

A grande variabilidade das flores dentro do género Thalictrum torna esse género ideal para estudar as adaptações às diferentes formas de polinização. Um estudo comparativo, publicado em 2018, de 81 espécies americanas, europeias e asiáticas concluiu que 36 delas são predominantemente anemófilas (polinizadas pelo vento) e as restantes entomófilas (polinizadas por insectos), havendo algumas (poucas) espécies que recorrem a ambos os tipos de polinização. Sem grande surpresa, as do segundo grupo têm floração bastante mais vistosa que as do primeiro. Além do mais, as espécies anemófilas são amiúde dióicas (com flores masculinas e femininas em indivíduos separados), fenómeno esse não reportado em espécies entomófilas.

O T. speciosissimum, exclusivo da Península Ibérica, não foi incluído no estudo, mas presume-se que tenha comportamento igual ao do T. flavum, que é a sua versão no resto da Europa. Ao contrário do que fomos levados a supor, essas espécies parecem ser sobretudo polinizadas por insectos. Contudo, os autores do artigo colocam o T. flavum numa clade evolutiva onde a maioria das espécies (sete em dez) são polinizadas pelo vento, e em que o antepassado comum mais próximo terá tido essa mesma característica. Ou seja, o T. flavum recuperou a faculdade de ser polinizado por insectos que tinha sido perdida por um seu antepassado. Acreditando que a anemofilia é mais "avançada" do que a entomofilia, não é descabido falar de uma regressão evolutiva. (Quando uma característica ancestral perdida é recuperada, a expressão usada é reversão evolutiva, que em si mesma não contém qualquer juízo de valor sobre a maior ou menor "modernidade" dessa característica.)

De um modo geral, as espécies do género Thalictrum nada têm para oferecer aos insectos. Algumas espécies usam o perfume ou as sépalas vistosas para atrair esses obreiros voadores, mas as flores não produzem néctar e não há recompensa pelo trabalho feito. Se os insectos desaparecerem ou ficarem mais espertos, é ao vento que o futuro pertence.

11/07/2020

Malmequeres carecas



Toda a gente aprende desde criança a reconhecer a flor do malmequer, e dessa aprendizagem inicial deriva muita da ignorância botânica que nos acompanhará pela vida fora. São dois os erros na expressão flor do malmequer: aquilo que nos parece ser uma só flor é de facto um capítulo, ou seja, um aglomerado de minúsculas flores (ou florículos); e malmequeres há muitos e muito diversos, sendo às dezenas as espécies que em Portugal assim podem ser chamadas. Se abstrairmos do tipo de inflorescência, não há qualquer afinidade entre o acetinado e elegante Phalacrocarpum oppositifolium, que encontramos nas serras do norte e centro, e a rasteira Bellis perennis, que coloniza relvados urbanos. Como podemos achar que os conhecemos se, para nós, ambos forem apenas malmequeres?

Cada uma das "pétalas" que enfeitam os capítulos dos malmequeres é na verdade uma lígula, apêndice vistoso dos florículos que bordejam o disco floral e que desse modo se distinguem dos florículos tubulares centrais. As lígulas não servem senão para atrair insectos polinizadores; e, se outros engodos houver (olfactivos, por exemplo), a planta pode dispensá-las por completo. Um malmequer sem "pétalas" não é uma aberração, nem um sinal de que alguém, por maldoso desfastio, resolveu arrancá-las uma a uma. Aconteceu simplesmente que, no processo evolutivo que originou essa espécie, as lígulas a certa altura se perderam por não terem utilidade, tal como nós começámos a perder a cauda quando os primatas nossos antepassados desceram das árvores.

Um malmequer careca pode assim representar um estádio evolutivo mais avançado do que um malmequer convencional, embora para usos ornamentais possamos preferir o segundo. Mas na natureza nenhuma planta evoluiu com o fito de ser agradável aos nossos olhos ou de ficar bonita nos nossos jardins. Se bem que as santolinas, apesar de carecas, sejam muito favorecidas em jardinagem.


Santolina semidentata Hoffmanns. & Link


As santolinas são arbustos compactos, de um verde acinzentado e de folhas lineares mais ou menos carnudas, que na Primavera ou início do Verão fazem brotar inúmeras hastes esguias, cada uma delas encimada por um único capítulo. À sua popularidade em jardinagem não será alheia a antiga reputação medicinal e os possíveis usos em perfumaria. Em Portugal são reconhecidas três espécies espontâneas, todas de aspecto geral semelhante, distinguíveis por minudências da folhagem ou, mais preguiçosamente, pela distribuição geográfica. A que ocorre em Trás-os-Montes, nos afloramentos ultrabásicos de Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros, é a Santolina semidentata (fotos em cima), endémica do quadrante noroeste da Península Ibérica. Vimo-la, no início de um mês de Junho, a cobrir toda uma ladeira entre um pinhal e uma estrada, e daí ter-nos ficado a ideia de que a planta não é rara. De facto, o estudo de campo no âmbito do projecto da Lista Vermelha da Flora de Portugal (LVF) concluiu que a espécie não está ameaçada e atribuiu-lhe o estatuto de pouco preocupante. É daquelas plantas felizes que aprenderam a conviver com o homem e conseguem instalar-se em habitats (moderadamente) degradados.

Na situação oposta está o segundo malmequer careca que hoje apresentamos: segundo a LVF, o Anthemis canescens (fotos em baixo) está "em perigo", significando isto que em Portugal tem vindo a desaparecer e é hoje em dia muito escasso. Apesar de ocorrer em Trás-os-Montes, na Beira Interior e na Estremadura, o efectivo populacional da espécie no nosso país dificilmente atinge a casa dos milhares. No único local onde a vimos, no limite norte do concelho de Bragança, apenas detectámos três exemplares, só um deles em floração.

Embora os capítulos e as hastes compridíssimas lembrem as santolinas, a folhagem do Anthemis canescens rapidamente desfaz a confusão: não há qualquer parecença entre as folhas compostas bipinadas que vemos na 2.º foto abaixo e as folhas simples de uma santolina (exemplo).

E a confusão nem teria chegado a existir se o Anthemis canescens nos tivesse aparecido na sua versão não careca. É que os capítulos tanto se podem apresentar com lígulas como sem elas, e noutros países europeus onde a planta ocorre (ela distribui-se pela Europa mediterrânica desde a Península Ibérica até ao Cáucaso) até é mais frequente a versão ligulada. Talvez a espécie esteja em processo de descartar as lígulas e, nesse aspecto, as plantas portuguesas estejam na vanguarda. Só que as vanguardas também se podem extinguir.


Anthemis canescens Brot.

05/07/2020

Correjola imperial

Reconhecer um objecto, ou uma imagem dele, é uma virtude que aprendemos cedo a dominar. Em criança, não hesitamos entre um gato ou um cão, ainda que ambos se possam inicialmente confundir na mente infantil com um triciclo. À medida que o mundo se agiganta e o cérebro de aprimora, a lista de objectos desconhecidos vai-se reduzindo. Conseguimos identificar a maioria instantaneamente, e até os substituimos por entradas num catálogo abstracto, um vocabulário, o que facilita o armazenamento na memória de toda essa informação. Descrito assim, parece fácil criar um algoritmo computacional que permita a uma máquina bem informada repetir este procedimento, segmentando a imagem para destacar elementos do fundo e reconhecer automaticamente o que nela é essencial. Mas não. Na busca de imagens nos motores de pesquisa da internet, o que em regra se procura é uma palavra, ou várias, no texto de apoio às imagens. O que parece batota. Ainda que alguns destes mecanismos consigam seleccionar imagens parecidas com outras, comparando por exemplo a gama de cores que exibem, decerto tais tentativas podem ingenuamente reunir aviões e pássaros numa mesma classe.



Este arrazoado vem a propósito do trabalho de investigação muito interessante que se tem vindo a desenvolver em matemática sobre reconhecimento de imagens, seja para conseguir ler pautas de música antigas e quase ilegíveis, seja para aperfeiçoar a focagem automática nas máquinas fotográficas, ou ainda para se identificarem plantas numa saída de campo. Não temos notícia de que um algoritmo de reconhecimento de plantas por imagens digitais esteja já em uso, mas seria realmente muito conveniente poder fotografar num prado uma planta em flor, e surgir de imediato no écran o nome científico dela. Na falta dessa ajuda, o que fazer? Vejamos um exemplo.



Telephium imperati L.


Nestas fotos estão imagens de uma planta que vimos em rochas calcárias na Cantábria. As flores redondas em cimeiras densas e a folhagem glauca e glabra, com talos de couve e hábito rastejante, lembram, em tamanho grande, as das espécies do género Corrigiola, não? Com este palpite, vamos a alguma Flora consultar a família deste género, que é a Caryophyllaceae, verificar se há alguma espécie parecida. Esta é uma tarefa de comparação que o cérebro humano faz em geral perfeitamente, e que em poucos minutos nos fornece o bilhete de identidade da planta fotografada:

Família: Caryophyllaceae
Subfamília: Paronychioideae
Tribo: Corrigioleae
Género: Telephium L.
Espécie: T. imperati L.

E ficamos a saber, através de um motor de pesquisa da internet buscando pela palavra Telephium, que é um género monoespecífico, e que a sua única espécie ocorre na região mediterrânica, na metade este da Península Ibérica e um pouco mais a leste. Uma nota adicional dá conta de que o nome actualmente aceite, proposto por Lineu em 1753, alude ao deus Telephus da mitologia grega, de quem se diz ter sido ferido por Aquiles na trágica história de Helena de Tróia, e depois curado por uma destas plantas.