Abetos da Serra Vermelha
As encostas nevadas de onde nos chegam as transmissões televisivas dos campeonatos de esqui (ou onde têm lugar frenéticas perseguições em certos filmes de James Bond) aparecem amiúde revestidas por densas formações de coníferas. São abetos, pinheiros, espruces, lariços, todos de formato cónico e com os ramos pendentes para que a neve não se acumule nas copas. Supomos que alguma vez o branco seja substituído pelo verde, mas essa parte nunca nos é mostrada, e aquelas árvores ficam-nos para sempre associadas a um frio impenitente e perpétuo. Em todo o caso, devemos reconhecer que no nosso país não há neve tão espessa, nem tão persistente, nem cobrindo extensões tão desmedidas, o que parece razão bastante para que as coníferas vinculadas a esses climas e altitudes não existam em território português. Temos pinheiros, é verdade, mas foram quase todos plantados, e são daqueles pouco adaptados à neve. E em Manteigas ensaiou-se uma plantação de lariços que ficou jeitosa
, mas a neve é escassa para que o cenário seja credível. A situação indesmentível é esta: abetos, espruces e lariços não fazem parte da flora espontânea portuguesa.
Será que Espanha se saiu melhor do que nós? Basta lembrarmo-nos dos Pirenéus para reconhecermos que sim: grandes procissões de pinheiros-negros (Pinus mugo) e de pinheiros-silvestres (Pinus sylvestris), às vezes acompanhados por abetos (Abies alba), trepam pelas encostas da cordilheira até aos 2000 metros de altitude. Acontece que os abetos peninsulares preferem, de um modo geral, altitudes mais baixas, e a espécie a que dedicamos o texto de hoje, Abies pinsapo, vive muito bem sem neve, ou só com neve muito ocasional. O abeto-espanhol (como é costume chamar-lhe) escolheu morar na Andaluzia; mas, se o manto branco não é para ele requisito importante, bem poderia ter atravessado a fronteira e fazer-se também português.
O Abies pinsapo é uma conífera de porte médio, não excedendo os 30 metros de altura, que vive em bosques puros ou mistos em algumas serras de Málaga e de Cádiz, entre os 900 e 1700 metros de altitude. Distingue-se de outros abetos pelas agulhas curtas e rígidas, dispostas radialmente — ou seja, guarnecendo os galhos a toda a volta, enquanto que nas outras espécies de Abies as folhas se organizam em duas fiadas opostas. Cada árvore produz na Primavera cones masculinos e femininos: os primeiros são vermelhos e aninham-se nas axilas das folhas na parte inferior da copa; os segundos, de cor acastanhada, brotam nas extremidades dos ramos superiores, dando origem no Verão a pinhas grandes e erectas.
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Um dos mais importantes bosques de abetos-espanhóis, e o único que visitámos, ocupa uns 40 hectares nos cumes da Sierra Bermeja, a apenas dez quilómetros da costa mediterrânica. Não é a população mais numerosa da espécie: na Sierra de Grazalema, 35 quilómetros a norte, o bosque de abetos estende-se por uma área dez vezes superior. Contudo, foi na Sierra Bermeja que Pierre Edmond Boissier, o eminente botânico suiço que descreveu este abeto em 1838, primeiramente o avistou, aquando de uma expedição à província de Málaga. E a esse dado histórico acresce uma singularidade ecológica: a Sierra Bermeja justifica plenamente o nome que tem pela intensa cor vermelha das rochas que lhe dão forma. De facto, essa serra, que atinge os 1470 metros de altitude máxima, constitui o maior afloramento ultrabásico da Península Ibérica, e um dos maiores a nível mundial, ultrapassando os 300 km2 de extensão. Essas rochas ricas em magnésio são parte normal das camadas inferiores da crosta terrestre, e nos raros lugares onde assomam à superfície são sempre refúgio de uma vegetação peculiar. A Sierra Bermeja ostenta um número apreciável de endemismos botânicos, infelizmente ainda não em flor por altura da nossa visita, mas o que acolhe de mais improvável é este bosque de abetos, crescendo num substrato reconhecidamente adverso a um coberto arbóreo bem desenvolvido.
















































