17.7.18

Estrelas do Homem


Aster sedifolius L. [sinónimo: Galatella sedifolia (L.) Greuter]



Aprendemos os caminhos do Gerês seguindo uma estrela. Ou tentando segui-la, pois nunca a víamos: as nossas excursões eram diurnas e, em qualquer caso, a estrela que procurávamos era da terra e não do céu. Entre 2010 e 2015, quando o Verão decaía para o Outono, percorremos, quase sempre sozinhos mas uma ou outra vez guiados por caminheiros experientes, o limite oriental da serra do Gerês nas cercanias de Pitões das Júnias. Cruzámos o rio Beredo e o vale da ribeira do Forno, ascendemos aos cotos da Fonte Fria, passámos por muitos dos lugares onde cabras e lobos jogam às escondidas. O encanto agreste da paisagem era temperado pelo receio de nos perdermos, pois a vida na cidade não nos prepara para estes descaminhos tantas vezes camuflados pela vegetação, sem pontos de referência reconhecíveis.

Deixámo-nos dessas aventuras, frustrados por a estrela nunca se nos mostrar, até que soubemos que ela se acolhia na vertente ocidental da serra do Gerês, de acesso bem mais simples. Em 2017, na segunda quinzena de Setembro, subimos o pedregoso vale do rio Homem, então reduzido a uma sucessão de piscinas ligadas por um fio de água, e saltámos para a outra margem no ponto assinalado. Num mato dominado pela carqueja, com pequenos carvalhos assomando aqui e ali, lá se escondia uma vintena de pés de Aster sedifolius: era essa a estrela que procurávamos há sete anos. O ano quente e seco quase nos estragava o momento, pois a floração, que deveria estar no início, mostrava-se praticamente terminada.

O Aster sedifolius é uma planta esguia, de 60 a 90 cm de altura, com caules simples ou ramificados apenas na parte superior, folhas lineares algo carnudas (é isso que sugere o epíteto sedifolius), e vistosos capítulos florais lilazes e amarelos. De acordo com os manuais com os quais desta vez estava em desacordo, a sua floração é outonal e prolonga-se até Outubro ou Novembro. Distribuída pelo sul da Europa desde a Península Ibérica até à ex-Jugoslávia, mas ausente da Grécia, aparece de norte a sul da Península mas é mais frequente ao longo da costa mediterrânica. Em Portugal só tem sido avistada, e pouco, na serra do Gerês.

Quando a encontrámos, já sabíamos que a estrela tinha deixado de o ser. O populoso género Aster tem vindo a ser metodicamente desmembrado, e as três espécies consideradas nativas de Portugal foram varridas para outros géneros: o Aster tripolium, que é frequente em sapais e estuários, chama-se agora Tripolium pannonicum; e os raríssimos Aster sedifolius e A. aragonensis (este um endemismo ibérico) integram agora o género Galatella. Apesar de essa separação ter sido ditada sobretudo por razões filogenéticas, ela também se parece justificar por razões morfológicas -- é essa a conclusão dos autores de um detalhado estudo publicado em 2015 com o título Taxonomic status of Aster, Galatella and Tripolium (Asteraceae) in view of anatomical and micro-morphological evidence.

11.7.18

Altas campainhas


Campanula patula L.



Campânula é um nome de origem latina para um sino (campa) pequeno, a que alude a designação das herbáceas do género Campanula, tendo elas flores com pétalas mais ou menos reviradas e unidas pela base em tubo, o que dá à corola a forma de uma... campânula. As flores da C. herminii, endemismo ibérico de que por cá só há registos na serra da Estrela, são talvez a versão campaniforme mais perfeita. O nome vernáculo destas plantas, de flores roxas, cor-de-rosa ou brancas, adopta para algumas espécies o diminutivo campa + inha, ou sininho, ainda que tal denominação também se use, sob risco de confusão, para outros géneros. Na obra De historia stirpium commentarii insignes (1542), o botânico alemão Leonhart Fuchs terá registado oficialmente, talvez pela primeira vez, o termo campanula para designar precisamente uma planta (que Fuchs desenha com muito rigor, algo inusitado para a época) das que Lineu, em 1753, viria a incluir no género a que chamou Campanula.

Mas por que razão a forma destas flores se designa campânula? O dicionário Houaiss não arrisca mais do que uma menção à palavra latina campaña, explicando que era usada nos anos 560-600 para designar uma balança romana; algum tempo depois este vocábulo já soava a campanula, e ainda no século VI passou a designar também um sino (com ou sem badalo). A utilização em botânica, segundo Houaiss, data do século VIII. Voltemos, porém, à Flora Ibérica, que oferece uma explicação mais detalhada: um vaso Campana seria um tipo de recipiente em forma de cone invertido e oco, feito em bronze de grande qualidade na região (italiana, supomos) de Campania.

Curiosamente, o termo sino (do latim signum), referindo-se aos instrumentos em geral feitos em bronze que davam o sinal da hora de oração, de escalas de serviço a bordo de navios, de fecho de tabernas e de recolha a casa, apropriou-se no século passado do papel atribuído à palavra campânula para designar uma certa forma. Referimo-nos à moda das calças boca-de-sino, ponto alto do vestuário dos anos 70 e ícone do estilo «hippie». Deveriam afinal ter-se chamado calças boca-de-campânula.

A campânula hoje na montra é uma versão alta da C. lusitanica, de flores tão patentes e vistosas que Lineu lhe chamou patula.

3.7.18

Ervas de Santa Maria


Tapete de Rostraria azorica na Praia Formosa, em Santa Maria

Com uma área de 97 km2, Santa Maria é a terceira menor ilha dos Açores, avantajando-se apenas ao Corvo e à Graciosa. É por isso surpreendente que, de todo o arquipélago, seja ela que detém o maior número de plantas endémicas exclusivas. São três as plantas que ocorrem em Santa Maria e em mais lado nenhum: Aichryson santamariensis, Euphorbia stygiana subsp. santamariae e Rostraria azorica. Apesar de ser oito vezes maior, São Miguel sai-se mal desta disputa, ficando-se por um único endemismo exclusivo: Leontodon rigens. De resto, os bons ofícios do vento e das aves e a proximidade entre as ilhas fizeram rarear no arquipélago o fenómeno da exclusividade: há ainda, no Pico, o duvidoso caso da Silene uniflora subsp. cratericola, e é tudo. As coisas seriam diferentes se as Flores e o Corvo, tão distantes do resto do arquipélago, contassem como uma ilha só, pois nada menos que quatro espécies exclusivas são partilhadas por essas duas ilhas.

Das três plantas endémicas de Santa Maria, a Rostraria azorica é decerto a menos conspícua: em Maio e em Junho, o Aichryson santamariensis enfeita profusamente as estradas da ilha com o amarelo radioso das suas flores; a Euphorbia, misteriosa no seu bosque, seduz-nos pela folhagem e pelos seus ramos serpenteantes; mas a R. azorica, uma gramínea anual reduzida a um caule e um penacho, com uns 10 a 15 cm de altura máxima, parece ter a modéstia como única qualidade.


Rostraria azorica S. Hend.



De um modo geral, as plantas não têm qualquer interesse em seduzir-nos, mas alguns dos engodos visuais ou olfactivos por elas usados para atrair insectos e outros polinizadores podem também apelar aos nossos sentidos. Contudo, as gramíneas, apesar de serem plantas evoluídas, confiam no vento para a polinização e dispersão das sementes -- e, por dispensarem toda a ajuda de terceiros, não entram em jogos de sedução. O que não quer dizer que um sentido estético mais refinado não seja capaz de encontrar uma beleza de tipo austero em certas gramíneas, merecedoras por isso de um protagonismo em jardinagem que ultrapasse o utilitarismo dos relvados. E, falando das gramíneas endémicas açorianas, é inegável o dramatismo cénico que o bracel-da-rocha (Festuca petraea) empresta às falésias negras das ilhas.

À escala a que o nossos olhos costumam funcionar, a R. azorica tem tudo para passar despercebida, confundindo-se com uma multidão de outras ervitas insignificantes. É nos detalhes das inflorescências que as gramíneas marcam pontos, valendo-se de uma simetria e regularidade inigualadas por plantas mais vistosas (exemplos: 1, 2). Aí a R. azorica é tão fotogénica como as melhores, e mostra suficiente personalidade para que possamos reconhecê-la entre as suas (quase) iguais. O género a que pertence, Rostraria, inclui cerca de uma dezena de espécies anuais típicas de lugares áridos, todas bastante semelhantes, distribuídas pela bacia mediterrânica e pelo Médio Oriente. Nos Açores ocorre uma segunda espécie, também presente em Portugal continental e em grande parte da Europa, que é a R. cristata (foto em baixo). A Rostraria de Santa Maria distingue-se bem desta por ser uma planta mais hirsuta, por ter a panícula mais estreita e alongada, e por as lemas (brácteas que protegem os florículos) terem aristas muito mais compridas.

O que há de mais notável na Rostraria azorica é ela ser endémica de uma ilha só. As sementes das gramíneas deixam-se transportar pelo vento a grandes distâncias, e os 80 km que separam Santa Maria de São Miguel não deveriam ser obstáculo de grande monta. Várias são as gramíneas endémicas presentes em todas as ilhas do arquipélago (Festuca petraea, Holcus rigidus, Gaudinia coarctata) ou em pelo menos oito ou sete delas (Festuca francoi, Deschampsia foliosa). Não seria inesperado se se descobrisse que a R. azorica aparece noutras ilhas -- mas antes de alguém se lançar na procura terá que saber reconhecer a planta, e lembrar-se de que ela só está visível por um período curto, entre Abril e Maio. O carácter efémero e discreto desta gramínea, afinal frequente nas zonas costeiras de Santa Maria, ajuda a explicar que só em 2003 tenha sido publicada a descrição formal da nova espécie (S. Henderson & H. Schäfer, Synopsis of the genus Rostraria (Poaceae) in the Azores, Bot. Journal of the Linnean Society, 141-1), embora já em 1969 a sua existência tivesse sido notada pelo botânico C. E. Hubbard.


Rostraria cristata (L.) Tzvelev

27.6.18

Tabuleiro de xadrez


Fritillaria pyrenaica L.



Se há herbáceas fáceis de identificar quando em flor são as do género Fritillaria. É que as flores, com o perianto campanulado formado por seis tépalas de cor púrpura com uma banda amarela na face externa e um padrão axadrezado na face interna, são inconfundíveis. Então por que há cinco espécies ibéricas? O que afinal as distingue? A chave da Flora Ibérica indica que se reconhecem sobretudo pelas folhas (mais ou menos lanceoladas, fininhas ou nem tanto, mas as diferenças contam-se em escassos milímetros) e pela forma dos nectários (informação a que jamais acederemos para não destruir as flores). Ajuda também estar atento à ecologia, pois algumas espécies preferem clareiras de matos na montanha, outras têm predilecção por fendas de rochas calcárias, e há as que se dão bem em dunas costeiras. Talvez aqui o anseio por endemismos torne este estudo mais complicado do que seria desejável, e explique por que razão a descrição na Flora Ibérica não está de acordo com a taxonomia adoptada pela Nova Flora de Portugal de Franco e Rocha Afonso, nem com os registos de observação destas espécies em Portugal. Por exemplo, a espécie Fritillaria nervosa Willd. (descrita em 1809 por Carl Ludwig Willdenow), que conhecemos das serras do Gerês, Açor e Estrela, surge na lista de plantas elaborada pelos Royal Botanic Kew Gardens e Missouri Botanical Garden como sinónimo de Fritillaria pyrenaica. É, porém, designada na Flora Ibérica como Fritillaria caballeroi, a partir de uma publicação de F. M. Vásquez em 2009. Para a lista dos Kew Gardens, contudo, a F. caballeroi é sinónimo de F. lusitanica... Havendo tempo, os botânicos ibéricos arrumarão melhor este género.

Para terminarmos, falta só chamar a sua atenção para um pormenor curioso nestas herbáceas vivazes. As flores são em geral solitárias e pendentes, mas na frutificação a haste floral torna-se erecta e a cápsula com as sementes nasce no topo dela. Deve ser um esforço considerável para a planta ter de levantar a corola da flor murcha para que o fruto se coloque nessa posição cimeira. Mas decerto é vantajoso para atrair polinizadores e proteger a flor que ela se incline para baixo, e mais eficiente para a disseminação das sementes que o fruto se localize inteiramente exposto ao vento. Ao abrir, solta inúmeras sementes minúsculas com asinhas alaranjadas.

19.6.18

O trovisco-macho mais raro da Europa



Euphorbia stygiana subsp. santamariae H. Schaef.



A ilha açoriana de Santa Maria tem duas caras para mostrar aos visitantes. Na metade oeste, onde ficam o aeroporto, o porto de mar e, junto a ele, a principal povoação da ilha (apropriadamente chamada Vila do Porto), domina o amarelo das pastagens secas. Na metade leste, empinam-se os montes que captam o nevoeiro e a chuva, e a cor dominante passa a ser o mesmo verde a que nos habituámos nas outras ilhas do arquipélago. Somos levados a pensar que meia ilha de verdura não chega para compensar a aridez da outra metade, e que os cursos de água, se os houver, deverão ser raros e efémeros. Só que nada disso é verdade. Por um capricho da geologia, Santa Maria tem, na sua metade leste, muitas ribeiras permanentes; e algumas das que desaguam na metade oeste, nascidas na cadeia montanhosa do centro da ilha, também levam água todo o ano. Ilhas muito mais húmidas e verdes como o Pico e o Faial são também muito mais porosas, dispondo apenas de ribeiras temporárias, de regime torrencial.

Em Santa Maria, no vale encaixado de uma dessas ribeiras milagrosas, esconde-se, quase sufocada pela proliferação do incenso e da conteira, uma eufórbia arbórea (ou, na designação popular, um trovisco-macho) que é única no mundo. A população de poucas dezenas, todas no mesmo local, tem vindo a diminuir de forma alarmante, com os deslizamentos de terras provocando a perda de exemplares adultos e o cerco das invasoras impedindo que vinguem os exemplares jovens. O momento, porém, é de esperança, pois, em colaboração com os serviços do Parque Natural de Santa Maria, o Jardim do Botânico do Faial, que já salvou o não-me-esqueças e o teixo açoriano do limiar da extinção, comprometeu-se a intervir rapidamente.

Descoberta por Hanno Schaefer em 2001, e por ele descrita em 2002 na sua tese de doutoramento (intitulada Chorology and Diversity of the Azorean Flora), esta eufórbia foi então baptizada como Euphorbia stygiana subsp. santamariae. Segundo Schaefer, a diferença mais marcante é que os exemplares de Santa Maria são árvores capazes de atingir os dez metros de altura, enquanto que a E. stygiana das outras ilhas (ver fotos aqui) é um arbusto não excedendo os cinco metros. Esta dicotomia não é muito convincente, pois a subsp. stygiana às vezes também é uma árvore e no Pico há exemplares gigantescos. Mas todo o cepticismo foi varrido pelo espanto quando nos vimos perante o trovisco-macho de Santa Maria. O tipo de crescimento é muito diferente, as folhas são mais baças e com o veio central menos marcado, e as inflorescências cobertas de penugem, com os nectários alaranjados, não poderiam contrastar mais com as do trovisco-macho das outras ilhas (ver fotos aqui). E estas discrepâncias morfológicas tão óbvias são, segundo soubemos, corroboradas por diferenças genéticas. Assim, é provável que o trovisco-macho de Santa Maria represente uma espécie autónoma, não se justificando a sua subordinação, como subespécie, à E. stygiana do resto do arquipélago. De resto, a julgar pela aparência, a Euphorbia santamariae (como algum dia se há-de chamar) está mais próxima da madeirense E. mellifera do que da E. stygiana propriamente dita -- e pode, de facto, ser o elo de ligação entre as duas espécies, funcionando Santa Maria (a ilha açoriana mais antiga, e a mais próxima da Madeira) como primeira etapa na rota migratória da Madeira para os Açores.

Se a singularidade deste trovisco-macho tivesse tido o devido reconhecimento taxonómico, talvez a operação de salvamento que agora se prepara in extremis pudesse ter sido levada a cabo, com maior probabilidade de sucesso, há uma dúzia de anos. Haveria por certo o risco de o frenesim mediático (com títulos como "A eufórbia mais rara da Europa é dos Açores") poder atrair coleccionadores sem escrúpulos, depauperando ainda mais uma população escassíssima. Mas é muito mais sério o risco de uma morte silenciosa.

12.6.18

Presas na neve


Androsace cantabrica (Losa & P. Monts.) Kress



Na nossa terceira visita ao pico onde nascem rios que desaguam em três mares, optámos por uma data intermédia às das visitas anteriores, que tinham sido em Maio e Julho. Desse modo esperávamos conhecer todas as plantas que, à vista da estância de esqui do Alto Campoo, florescem desde a Primavera até ao início do Verão. Só que a metereologia trocou as voltas ao calendário: chegando três semanas mais tarde do que em 2017, a muita neve que faltava derreter, impedindo o trânsito de veículos e de caminhantes, sugeria, em vez disso, que chegáramos um mês mais cedo. A estância encerrara já a temporada, mas alguns esquiadores ainda ensaiavam umas descidas trôpegas. O cenário bonito da neve cobrindo os picos, com uns caóticos rasgões negros quebrando aqui e ali a uniformidade do branco, significava que os nossos planos tinham saído furados e não havia onde apresentar reclamação. Todas as plantas com que tínhamos combinado encontro estavam prisioneiras da neve, e nenhuma pôde comparecer. Como na lenga-lenga infantil, apetecia-nos implorar ao "sol que és tão forte" para derreter a neve e libertar as plantinhas. Mas a força do sol estava atenuada pelas nuvens carregadas de chuva que se interpunham entre ele e nós; e, mesmo que toda a neve se fosse, as plantas têm os seus vagares e nós não poderíamos ficar à espera.

Estas fotos de Maio de 2017 documentam dois dos reencontros que não tivemos em 2018. São duas espécies perenes de Androsace, uma com a floração bem adiantada e a outra acabando de abrir a primeira flor. A de flores cor-de-rosa, A. cantabrica, desautorizava a Flora Iberica (F.I.) de forma escandalosa, uma vez que essa douta publicação só lhe permitia florir a partir de Julho. A A. vitaliana, de flores amarelas, desobedecia no sentido oposto, pois a F.I. dava-lhe licença para florir já a partir de Abril.

Da família das prímulas, com numerosas flores pequeninas (3 a 4 mm de diâmetro) formando almofadinhas de um colorido atraente, as Androsace vivem em ambientes rupestres nas altas montanhas da Europa e da Ásia. Os Himalaias albergam o maior número de espécies, mas a Península Ibérica, com 15 espécies, várias delas endémicas, não tem razão de queixa. Uma das endémicas é a Androsace cantabrica, que está confinada às montanhas entre as províncias de Cantábria e Palência (Pico Três Mares e uns poucos cumes adjacentes). Verdade que, sem uma contagem de cromossomas ou a verificação (nem sempre conclusiva) de alguns miúdos detalhes, a A. cantabrica distingue-se mal de espécies próximas como a A. halleri. De modo que o leitor talvez não precise das quinze espécies ibéricas para inaugurar o seu rock garden: poderá conseguir o mesmo efeito com apenas umas sete ou oito.


Androsace vitaliana (L.) Lapeyr.

4.6.18

Ouro branco

Ainda que, depois do Verão muito seco e dramático no ano passado, muitos tenham passado a apreciar mais a chuva, não deixa de ser um mistério que haja plantas terrestres que espontaneamente colonizem meios aquáticos. É que a sobrevivência em habitats palustres exige cuidados que podem ser ignorados em terra: é essencial que as folhas se mantenham a flutuar, para o que faz falta uma estrutura celular esburacada como a da cortiça, ou algum tipo de bóia; é imprescindível que as hastes florais sobressaiam na água para atrair os polinizadores sem os colocar em risco de se afogarem; os frutos têm de se dispersar na água sem apodrecer com a humidade excessiva; a planta tem de aprender a retirar nutrientes da água, uma sopa demasiado diluída; e há que saber aproveitar as interacções que o ambiente novo proporciona. Uma lista idêntica, a que se deve juntar a capacidade de hibernar debaixo de neve por largos meses, aplica-se às plantas vivazes que se adaptam a locais com invernos inclementes. Certo é que, depois de milhões de anos aflitos em ensaios e ajustes, com os pés molhados ou sob frio intenso, o planeta ganha novas espécies, e nós podemos hoje maravilhar-nos com as soluções engenhosas descobertas por elas neste processo.

A família Ranunculaceae, de que o género Ranunculus é o mais numeroso, é exemplar nesta adaptação a novos habitats, merecendo o prémio de uma distribuição invejável. Em Portugal, ocorrem espécies de berma de estrada, de turfeiras, de solos arenosos, de rochas expostas ao sol, de prados húmidos na montanha, de lagoas e charcos. Mas não há registo da espécie que está hoje na montra.


Ranunculus amplexicaulis L.



Com as informações genéticas a que os botânicos têm actualmente acesso, é possível identificar as alterações nos genes que acompanharam a transição do meio terrrestre para o aquático, ou do litoral para regiões acima dos mil metros. Curiosamente, no caso dos ranúnculos, essas mudanças não correspondem a alterações radicais nas flores. Estas são sempre do mesmo formato achatado, com pétalas ovadas amarelas brilhantes, ou brancas com um centro amarelo vistoso, por vezes raiadas por uns tons rosados. Mas a morfologia das folhas é bastante variada, o que até nem supreende: enquanto que a uma planta aquática interessam folhas fininhas, leves e muito recortadas, a uma espécie perene de montanha servem melhor folhas robustas, inteiras, penugentas e coriáceas.

O Ranunculus amplexicaulis, um quase endemismo ibérico de zonas montanhosas acima dos 1300 metros, tem folhas generosas que abraçam o caule e a haste floral para os agasalhar entre Maio e o início do Verão. A flor é por vezes solitária mas vistosa, com o centro amarelo protegido por alguma penugem. Vimos estes exemplares no Pico Tres Mares, na Cantábria, durante a primeira semana de Maio do ano passado. Neste início de Junho, o Pico tem ainda estradas cortadas pela neve, a maioria das plantas ainda não floriu, e poucos polinizadores estão ao serviço. Quem sabe, é apenas um atraso ocasional, como quando nos deixamos ficar mais meia hora no quentinho dos lençóis por sabermos do frio lá fora.

22.5.18

Antes que a chuva caia


Draba dedeana Boiss. & Reut.



Um artigo na revista inglesa The Alpine Journal, em que o sr. John Ormsby descreve a cadeia de montanhas dos Picos da Europa entre Santander e Oviedo, chamou a atenção do sr. Edmond Boissier, de Genebra. No decurso do mês de Junho de 1878, concebeu ele o projecto de visitar essa parte de Espanha e de lá passar para Portugal, país que nunca visitara, regressando pela serra de Gredos, uma alta cadeia montanhosa entre Portugal e Madrid. Propôs a viagem a dois dos seus amigos botânicos. Um favor desses nunca se recusa. (...)
Passando outra vez na mesma linha, mas de dia, chama-nos a atenção a estação de Pancorbo. As falésias verticais de rocha calcária que ali existem junto à via férrea merecem ser cuidadosamente exploradas. É lá que está assinalada a Draba mawii Hook f., ilustrada no Curtis's Botanical Magazine, vol. XXXI (1875), estampa 6186, descoberta em 1875 pelo inglês sr. Maw. A figura mostra as folhas lanceoladas e densamente ciliadas da planta, assim como as flores brancas com cálices nitidamente bordejados de vermelho. (...) Em nossa opinião, essa Draba mawii é a mesma espécie que a Draba dedeana, descrita mais de trinta anos antes nas Additions au voyage dans le midi de l'Éspagne, pág. 718. A Draba dedeana foi conservada no herbário de Faucher (adquirido por Boissier), tendo sido colhida por um senhor Dédé, botânico, a quem foi dedicada. Posteriormente, a mesma espécie foi colhida por Boissier e Reuter acima de Reinosa no Pico Cordel, em 1858, por Leresche, em 30 de Julho de 1862, nas montanhas mais a oeste no limite da parte superior da bacia do Ebro, e por fim, abundantemente, por Boissier, Leresche e Levier, em Julho de 1878 e 1879, nos Picos da Europa. A indicação petalis flavis dada por Boissier (loc. cit.) é um erro, pois a planta decididamente dá flores de uma linda brancura. O exemplar de Dédé estava velho, o que poderá explicar o erro sobre a cor das flores.

A rocha calcária, pela sua menor dureza, presta-se a ser moldada pelas forças da natureza em formas muito mais caprichosas e acidentadas do que o granito. Mas esse trabalho de escultor decorre numa escala temporal que não é a nossa. Tudo o que é rocha nos parece eterno, e as abruptas paisagens cantábricas exploradas no último quartel do século XIX pelo botânico Edmond Boissier e pelos seus companheiros não são muito diferentes daquelas que podemos ver na segunda década do século XXI. É certo que há estradas e estâncias de esqui que nos permitem sem esforço chegar a muitos cumes, mas o recorte dessas montanhas não foi desfigurado por uma invasão de ventoinhas. E, nos interstícios das mesmas imperturbáveis rochas, parecem morar, indiferentes ao passar dos anos, as mesmas plantas que os nosso antecessores viram e catalogaram. Como esta Draba dedeana que Boissier, por a ter descrito a partir de material em más condições colhido por outrem, julgou ter flores amarelas como a Draba aizoides.

Talvez os aficionados de rock gardens prefiram a versão amarela à versão branca, mas os completistas hão-de querer tê-las das duas cores. Ambas têm uma folhagem muito característica, formando almofadinhas compactas eriçadas de pêlos. Nos cumes tempestuosos onde é costume acoitarem-se, é raro as flores poderem exibir a sua simetria perfeita sem que uma chuva desatada venha despenteá-las. As fotos que ilustram o texto foram tiradas no Picon del Fraile, quando as nuvens negríssimas ultimavam os preparativos para o granizo que iria desabar minutos depois. Vida bem diferente, rodeada de confortos burgueses, levam as plantas que migraram para jardins situados às vezes noutros continentes.

Sem os bons ofícios do comércio hortícola, a Draba dedeana, uma pequena planta vivaz com hastes até 8 cm de altura, nunca poderia ser vista fora da Península Ibérica, onde cresce nas montanhas do norte e do leste, sempre em rochas calcárias, e floresce de Março a Maio.

15.5.18

Ervilhas quadradas

Tantas plantas, tão sábias e tão silenciosas! Desde o início, parecem sobreviver sem apelar a sons, embora não saibamos se o nosso ruído as beneficia, as desgosta, ou se nem reparam nele. Experimentamos esse mundo surdo e mudo em que a flora vegeta quando passeamos em locais onde não se ouvem passarinhos ou rãs, nem o quebrar de folhas sob os pés, nem o embate da chuva no chão. Um sossego, retemperador para os desgastados pela agitação da cidade, dirão; mas a proximidade do vazio é pouco agradável, e o nada no escuro causa mesmo algum receio. Todavia, se alguma vez as plantas adquirirem voz que oiçamos, com as árvores animadas em longas conversas nas noites de Verão, as herbáceas a cavaquearem diariamente e as flores a sussurrarem entre si sem descanso, teremos de abandonar o planeta para local mais sereno.


Tetragonolobus maritimus (L.) Roth



Até lá, conversemos sobre ervilhas quadradas. O termo ervilha tanto designa a semente polposa de algumas fabáceas (tal qual as que se usam no arroz-de-ervilhas), como se refere à vagem que as contém. Este invólucro das sementes é espalmado no feijão-verde mas não no caso da planta das fotos. O fruto dela tem secção transversal que parece um anel com quatro apêndices exteriores. O arranjo resulta da presença de quatro asas salientes nas duas faces da vagem, que, como é usual nestes frutos, se abre ao longo de duas costuras para libertar as sementes. Essas asas formam os quatro ângulos a que alude o nome tetragonolobus; a configuração final sugeriu uma curiosa designação vernácula para este género de plantas, dente-de-dragão. Não havia ainda frutos do T. maritimus para fotografar, mas pode verificar este pormenor morfológico nas imagens do Tetragonolobus conjugatus ou do Tetragonolobus purpureus, duas espécies que ocorrem em Portugal continental. Ou, em alternativa, analisar os diagramas elucidativos da Flora Ibérica.

O T. maritimus é espécie perene, de folhas glaucas e exuberantes flores amarelas com o dorso do estandarte pintalgado de vermelho. Nativa da Europa, norte de Africa e Ásia, floresce no Verão e, diz a Flora Ibérica, aprecia prados húmidos em pleno sol. Os exemplares que vimos em Soncillo, na província de Burgos (Cantábria), cobriam luxuriantes o (de resto deselegante) talude do caminho que acompanha uma das margens do ribeiro Saúl.

8.5.18

Sanguinho das escarpas

Rhamnus alpina L.

Chamamos sanguinho, indiferenciadamente, aos arbustos e árvores dos géneros Rhamnus e Frangula: os primeiros são arbustivos, os segundos esforçam-se por ser árvores e têm no sanguinho açoriano (Frangula azorica) o seu mais formoso representante. Estes dois géneros da família Rhamnaceae têm flores pouco vistosas, esverdeadas, de quatro ou cinco lóbulos (quatro no Rhamnus, cinco na Frangula), mas os cachos de frutos (que são pequenas drupas vermelhas ou negras) são bonitos de se ver. Apesar destas fortes semelhanças, não é apenas o tamanho que distingue a Rhamnus da Frangula: a diferença mais importante é sexual, pois uma é dióica e outra hermafrodita. Trocando por miúdos, em cada espécie de Rhamnus há indivíduos masculinos e femininos, cabendo aos insectos polinizadores a tarefa de transportar o pólen fecundante de uns para outros; já na Frangula as flores são todas do mesmo tipo, com orgãos funcionais masculinos e femininos (foto), e cada indivíduo é capaz de produzir sozinho sementes viáveis. O indivíduo de Rhamnus alpina acima retratado é masculino: cada flor tem quatro estames salientes, mas não dispõe de estigma nem de ovário.

O sanguinho-dos-Alpes (como passaremos a chamar à Rhamnus alpina) é um arbusto que, para se resguardar do frio, se fez mais rasteiro do que os congéneres que lhe conhecemos em Portugal (lista aqui). Diz a Flora Iberica que pode atingir um máximo de 5 metros de altura, mas os exemplares que vimos pouco ultrapassavam os 50 cm; e, com os seus ramos tortuosos, pareciam moldar-se à escarpa em busca de protecção. As folhas, bem maiores do que é habitual no género, são arredondadas, lustrosas e de margens crenadas, e têm a venação bem marcada.

Vegetando a altitudes que variam dos 250 aos 2600 m, de preferência em substratos calcários, o sanguinho-dos-Alpes distribui-se pelo sul da Europa desde a Península Ibérica até à Itália, e no norte de África tem presença pontual nas montanhas do Atlas (Argélia e Marrocos).

3.5.18

Cruzes de Maio


Pritzelago alpina subsp. auerswaldii (Willk.) Greuter & Burdet



Em Maio, a 1100 metros de altitude, num vale cantábrico aninhado entre picos vertiginosos, já as plantas nos prados se podem dedicar à tarefa de florir agora que a neve derreteu. As apressadinhas, como a Hepatica nobilis, fazem-no tão prontamente que por esta altura são já poucas as flores que não se converteram em frutos. Outras mais avantajadas precisam de tempo para espigar antes de se enfeitarem: é o caso da Gentiana lutea – que, vendo-se por aqui aos milhares, só há-de mostrar o amarelo das flores a quem tenha a paciência de voltar no mês seguinte.

Na orla do prado, entre pequenos blocos de pedra calcária, brilham de brancura umas flores modestas que valem pelo conjunto. Pertencem elas a uma crucífera de caules sinuosos, de 10 a 25 cm de altura, com folhas basais pinatissectas que lembram muito as de uma outra crucífera dos calcários, a efémera e diminuta Hornungia petraea. De facto, embora a planta cantábrica seja tradicionalmente incluída no género mono-específico Pritzelago, alguns autores entenderam recentemente mudá-la para Hornungia, ficando ela a chamar-se Hornungia alpina subsp. auerswaldii. Do ponto de vista morfológico, essa opção parece justificar-se, pois também os frutos de uma e de outra são bastante semelhantes (confirme aqui e aqui). Há apenas o óbice de a (ex-)Pritzelago ser uma planta perene, quando todas as restantes espécies de Hornungia são anuais.

De entre as diversas versões de Pritzelago alpina (ou Hornungia alpina), a subespécie auerswaldii é distintiva por ser mais alta do que as outras (20 a 25 cm contra um máximo de 15 cm) e por possuir três ou mais folhas caulinares em cada haste (as restantes subespécies só costumam ter folhas basais). Algumas fontes indicam que a subsp. auerswaldii existe em França, mas é provável, segundo outras fontes, que essa informação esteja errada (em França, confirmadamente, ocorrem a subsp. alpina e a subsp. brevicaulis), o que faria da planta um endemismo ibérico. Está confinada ao norte da Península, e é particularmente frequente na cordilheira cantábrica, rareando nos Pirenéus, onde é substituída pela subsp. alpina. Aprendemos, com alguma surpresa, que ela faz parte da flora portuguesa: colhida pela primeira vez em 1971, em Vinhais, tem sido vista ocasionalmente por lá desde essa data; e, segundo Carlos Aguiar, "é um dos melhores exemplos de relíquias würmianas em Portugal". (E aqui damos licença ao leitor para ir espreitar à Wikipédia.)