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07/06/2020

Abertura de fronteiras

Resguardado pelo confinamento, atento apenas às notícias sobre a evolução da pandemia e porventura zangado com a natureza, o leitor talvez não se tenha apercebido de que, no final de Abril, foi descoberta mais uma espécie para a flora portuguesa. A proeza é de António Flor, vigilante da natureza ao serviço do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que a encontrou durante a prospecção de uma zona menos explorada do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (notícia aqui).



Arenaria grandiflora L.


A novidade é do género Arenaria, e esta nova espécie portuguesa é fácil de avistar em fendas de rochas calcárias no norte de Espanha, mas talvez o nosso clima mais cálido não lhe agrade tanto. Estando o país em estado de emergência durante o mês de Abril, obrigado ao teletrabalho e a restrições de circulação de vária ordem, saúda-se que os membros do ICNF não tenham adiado esta iniciativa, decerto sorrindo dos alertas pela presença da notável colónia de morcegos que mora no PNSAC. É que, se essa saída de campo tivesse sido feita apenas agora, com a Primavera a terminar, talvez já não houvesse flores nas plantas avistadas e seria mais problemático identificá-las.

As flores desta espécie, com sépalas glandulosas e pétalas recurvadas, são, como o epíteto indica, especialmente grandes para o género, e as cimeiras de flores podem chegar aos 20 cm de altura. A planta é perene, cespitosa e ocorre nas montanhas do norte de África e do Centro e Sul da Europa. As fotos são da Cantábria e dos muros de Vilaescusa de las Torres, já em Palência; as flores amarelas que surgem de permeio são do Alyssum montanum, outra espécie com preferências calcárias, de que (ainda) não há registo no maciço calcário estremenho. Aqui vai um retrato mais de perto para o caso de alguma vez ser vista deste lado da fronteira.


Alyssum montanum L.

10/05/2020

Dama fina & companhia

Crê-se que o povoamento vegetal das ilhas Canárias seja quase tão antigo quanto a sua formação geológica. As plantas mais exigentes tardaram a instalar-se por não haver, de início, solo estável e propício. No decurso de centenas de milhares de anos, porém, grande parte da flora continental passou a ter representantes insulares. As espécies recém-chegadas encontraram nas ilhas um habitat sem competição, embora inóspito, e um clima ameno e sem grandes variações que lhes permitiu crescer ao longo de todo o ano e ter períodos de floração alongados. Talvez por isso, são várias as espécies herbáceas do continente que têm versões arbustivas nas Canárias. Além disso, a diversidade ecológica, sobretudo nas ilhas com estratos de maior altitude, permitiu que muitas plantas, de espécies entretanto extintas noutras regiões do norte de África, da região mediterrânica e do centro da Europa, ali se mantivessem, em zonas áridas, em matos ou em bosques de laurissilva.



Algumas das espécies pouco variaram desde a sua chegada às Canárias. Colonizaram locais vastos, isolados e livres de concorrência, e actualmente os géneros correspondentes contam com um número reduzido de espécies -- como aconteceu com o género Ceropegia. Outros, porém, evoluiram para se adaptarem aos nichos disponíveis, e a selecção natural induziu a criação de variantes cada vez mais diferenciadas e eficazes a sobreviver. É o caso das dezenas de espécies endémicas nas Canárias dos géneros Aeonium, Echium e Sideritis.

O leitor atento decerto associará estes meios de disseminação de plantas a outros seres vivos do planeta, incluindo vírus. Estes, enquanto conseguem propagar-se sem esforço, mantêm o essencial das suas características genéticas pois não há razão para mudar o que é bem sucedido. Mas quando os hospedeiros rareiam, a forte pressão selectiva dá vantagem a estirpes mais agressivas, ou então o vírus desaparece. É neste cenário de incerteza que assenta a estratégia de confinamento que nos tem sido imposta.


Parolinia filifolia G. Kunkel


As plantas que hoje vos mostramos, ambas de um género endémico das Canárias de que apenas se conhecem sete espécies, têm uma morfologia invulgar na família Brassicaceae, a que pertencem couves, nabos e goivos, mas que em Portugal só contém herbáceas. As duas espécies de Parolinia, uma (em cima) que vimos no Barranco de Siberio, na metade oeste da Grã-Canaria, e outra (em baixo) no Barranco de Guaydeque, a leste, são arbustos ramificados, lenhosos, de talos acinzentados por causa do revestimento com pêlos estrelados, folhas carnudas mas estreitas, e flores de pétalas com margens onduladas. Distinguem-se bem pelos frutos, que em Dezembro ainda não se viam -- umas vagens longas com meia dúzia de sementes e enfeitadas por dois apêndices terminais. Na Grã-Canaria há mais duas espécies endémicas do género Parolinia, a P. ornata no sudoeste da ilha, e a P. glabriuscula, que é glabra e de que só há registo no noroeste da ilha. Este género abriga ainda a P. intermedia, endemismo do sudoeste de Tenerife; a P. schizogynoides, endemismo de La Gomera; e a raríssima P. aridanae, de matos xerófilos de suculentas em La Palma, que planeávamos conhecer este ano em Maio.


Parolinia platypetala G. Kunkel

01/05/2020

Goivo das alturas



Erysimum scoparium (Brouss. ex Willd.) Wettst.


O pico do Teide, visto à distância, aparenta ser um deserto pedregoso; mas, como já aqui explicámos a propósito da violeta, do taginaste vermelho e de outras coisas mais, essa impressão é desmentida por plantas de vocação alpina que vão pintalgando as encostas de cores variadas. À lista acrescentamos hoje uma crucífera a que podemos chamar goivo-do-Teide, já que goivo é o nome habitualmente dado às espécies do género Erysimum.

A Macaronésia está moderamente bem servida no que a goivos diz respeito, com três dos quatro arquipélagos (só os Açores ficam de fora) detendo cada um deles a sua quota-parte de espécies endémicas de Erysimum. Há duas no arquipélago da Madeira (E. arbuscula no Porto Santo e E. maderense na ilha da Madeira), duas nas Canárias (E. scoparium, presente em Tenerife e La Palma, e E. albescens, na Grã-Canária), uma que ocorre nesses dois arquipélagos (E. bicolor, abaixo retratado), e finalmente uma em Cabo Verde (E. caboverdeanum, na ilha do Fogo).

Com a autoridade de quem já apreciou a maioria destes goivos no seu habitat, achamo-nos capazes de sobre eles emitir juízos de valor mais ou menos taxativos. A medalha de ouro de mérito ornamental continua bem entregue ao porto-santense E. arbuscula, mas a medalha de prata vai, com inteira justiça, para o tenerifenho E. scoparium, que combina uma folhagem glauca e sedosa com hastes erectas floridas de branco e lilás. O terceiro lugar do pódio mantém-se em disputa, não sendo de excluir atribuí-lo ao E. bicolor, que no auge da floração faz melhor figura do que aquela que deixam supor as imagens aí em baixo (obtidas em Dezembro na Grã-Canária).

Tanto no goivo-do-Teide como no goivo-da-serra (nome dado na Madeira ao E. bicolor) as flores nascem brancas e vão gradualmente mudando para lilás. Desabrocham à medida que a haste se desenvolve, fazendo com que em cima estejam sempre as flores brancas. O goivo-da-serra tem contudo um aspecto mais difuso, mais ramificado, com hastes menos erectas e inflorescência mais lassa. A folhagem é verde (não glauca), pouco ou nada tomentosa, e as folhas, além de mais largas e compridas, têm as margens esparsamente dentadas.

O porte elegante do goivo-do-Teide é ainda reforçado por ter como cenário de fundo o pico mais alto do Atlântico. Porque é ao longe que a montanha melhor se vê, não lhe faz falta subir ao cume, 3700 metros acima do nível do mar. Florir a 2700 metros de altitude, como nós o vimos no topo da Montanha Branca, já é um feito invejável.


Erysimum bicolor (Hornem.) DC.

05/02/2020

Giroflando por Lanzarote


Matthiola bolleana Webb ex Christ


Entre as lengalengas ou cantigas infantis que todos os portugueses de tenra idade foram ensinados a trautear avulta o Jardim da Celeste. Que nos conste, é só aí que aparecem giroflé e a sua variante giroflá, palavras que não têm qualquer uso ou significado em português corrente, embora alguns dicionários apontem girofle (sem acento) como sinónimo de cravo-da-Índia. Não seria inadequado que numa cantiga sobre um jardim as palavras desconhecidas designassem plantas, mas é só num idioma que agora as crianças não aprendem, o francês, que se revela toda a verdade sobre o giroflé. Envolve prévia operação de mudança de género, o que daria ao assunto sobeja relevância em contexto educativo. Transmudado para giroflée, palavra feminina que deve pronunciar-se carregando bem no erre, é nome de umas tantas plantas crucíferas de flores cor-de-rosa, amarelas, brancas ou vermelhas, plantas essas que por cá conhecemos como goivos. O verbo giroflar, neologismo que faz aqui a sua estreia pública, descreve pois o acto de observar goivos, por nós praticado com regularidade durante uma visita a Lanzarote.

A Matthiola bolleana, ou goivo-das-Canárias, é frequente em Lanzarote (também em La Graciosa) e, mais ainda, no sul de Fuerteventura, em dunas ou zonas pedregosas a baixa altitude. É rara nas restantes ilhas do arquipélago, e está ausente de El Hierro e de La Gomera. Trata-se de uma pequena planta perene, de 10 a 30 cm de altura, ramificada desde a base, com folhas geralmente inteiras, lineares e obtusas. As flores perfumadas, dispostas em hastes que pouco excedem o comprimento das folhas, são quase sésseis, com pétalas de uns 15 mm de comprimento, onduladas, de cor rosa-violeta mas brancas na base. Tem evidentes semelhanças com a espécie mediterrânica Matthiola fruticulosa, mas as diferenças (na forma das folhas, na coloração das pétalas, no porte geral) não são menos óbvias, e por isso é algo exagerado despromover a M. bolleana, como fazem certos autores, a simples variedade da M. fruticulosa.

À Matthiola bolleana estão associados importantes pioneiros novecentistas no estudo da flora canarina. Quem a baptizou foi o inglês Philip Barker-Webb (1793-1854), autor, com o francês Sabino Berthelot (1794-1880), de uma monumental L'Histoire Naturelle des Îles Canaries, publicada em nove volumes entre 1836 e 1844. Em nenhum desses volumes, porém, se menciona a M. bolleana, cuja primeira descrição só veria o prelo em 1887 por mão do suíço Konrad H. Christ (1833–1933), que realizou um estudo dos escritos não publicados de Webb. O epíteto refere-se ao naturalista alemão Carl August Bolle (1821-1909), que colheu a planta na península de Jandía, em Fuerteventura, aquando da sua primeira visita às Canárias, em 1852. Ao mesmo Carl Bolle se devem dezenas de descrições de novas espécies da flora do arquipélago, em especial das ilhas menos estudadas até então: Lanzarote, Fuerteventura, El Hierro e La Gomera.

11/09/2019

Histórias da Lista Vermelha: Isatis platyloba



Vistos do alto de São João das Arribas, em Miranda do Douro, os barcos de cruzeiro deslizando no rio parecem brinquedos de criança, e as grandes aves de rapina que os sobrevoam reduzem-se ao tamanho de passarinhos. Nestas escarpas onde cair parece tão fácil e apetecível (não está o rio lá em baixo para nos abraçar?) vive uma planta crucífera de flores amarelas, capaz de atingir um metro de altura, que durante mais de um século se julgou exclusiva deste lugar. Trata-se da Isatis platyloba, assim baptizada em 1821 pelo alemão Ernst Gottlieb von Steudel mas já mencionada por Brotero na sua Flora Lusitanica em 1804 sob o nome de Isatis lusitanica. Sabe-se hoje que a planta existe nas duas margens do Douro pelo menos entre São João das Arribas e a barragem de Picote, e que também ocorre nos rios Duratón e Riaza, afluentes espanhóis do Douro. Talvez a preferência por estes precipícios rochosos escavados pelas águas limite a expansão da planta, afastando-a daqueles troços fluviais onde as margens são menos vertiginosas.

Sem nome vernáculo conhecido, não será inapropriado chamar-lhe pastel-português - não pastel de comer, mas de colorir. A Isatis platyloba, de distribuição tão restrita, é à primeira vista quase indistinguível do verdadeiro pastel, Isatis tinctoria, que se distribui por vastas zonas da Ásia, Europa e norte de África, e foi, até ao primeiro quartel do século XX, um dos mais importantes fornecedores de matéria-prima para a indústria tintureira. Curiosamente, o pigmento que se extrai das folhas verdes e ainda tenras do pastel é azul. Quando o caule se desenvolve e a planta floresce já as folhas pouca cor têm para dar. A afinidade entre as duas espécies de Isatis leva a suspeitar que o pastel-português também tenha vocação tintureira, e há notícias desse antigo uso nas aldeias de Miranda do Douro. Não é contudo improvável que os aldeões usassem o genuíno pastel, pois é sabido (como aqui documentou Francisco Clamote) que as duas plantas coexistem no planalto mirandês, e que a Isatis tinctoria, ao contrário da I. platyloba, tende a ocupar sítios acessíveis como bermas de estrada e terrenos baldios.



Isatis platyloba Link ex Steud.



Além de terem ecologias distintas, as duas Isatis divergem nos seus ciclos de vida: a Isatis platyloba é anual, enquanto que a I. tinctoria é bienal, formando uma roseta de folhas no primeiro ano e florescendo no seu segundo e último ano. Morfologicamente, há pequenas diferenças nas folhas, mas são pouco fiáveis. É quando produzem frutos que a distinção entre as duas espécies se torna óbvia: os da I. platyloba são orbiculares (foto aqui), contrastando com os frutos oblongos da I. tinctoria (foto aqui).

Na Lista Vermelha da Flora de Portugal, a Isatis platyloba está classificada como vulnerável. O contingente da espécie em Portugal, que talvez fique aquém dos mil indivíduos (número sujeito às oscilações próprias de uma planta anual), tem-se mantido aparentemente estável, sem que grandes estragos ou alterações afectassem o habitat em anos recentes. Tê-los-á havido, e sérios, com a construção das grandes barragens do Douro internacional na segunda metade do século passado. Contudo, a limpeza obsessiva da vegetação espontânea tem vindo a debilitar a população da planta em São João das Arribas, que é a mais numerosa que se conhece. Se essa tendência não for refreada, ou se não tiver em conta o ciclo de vida da planta, ela corre o risco de desaparecer do local.

17/07/2019

O que o Teide tem



A maioria de nós teria decerto dificuldade em viver alguns meses ao relento sob intenso frio e neve (algo que os esquimós conseguem fazer assobiando), aguentando logo depois, e durante o resto do ano, um calor implacável e uma secura extrema (que não atrapalham quem vive junto ao Equador, a saltitar entre riachos e cachoeiras). É a mudança repentina de um regime para outro que não parece ser uma experiência inscrita nos nossos genes, para a qual tenhamos adquirido um meio rápido de adaptação. Pelo contrário, há plantas que resolveram esse problema climático, apesar da sua inexorável imobilidade, permitindo-lhe sobreviver em paragens assim hostis. E algumas até têm um aspecto bastante frágil. Ora veja.



Descurainia bourgeauana (E. Fourn.) O. E. Schulz



Nepeta teydea Webb & Berthel.


No topo da Montanha Branca, no Parque Nacional do Teide, em Tenerife, o que nos rodeia é um mar silencioso de areia cor-de-argila cuja claridade agride os olhos e, já em Maio, é insuportavelmente quente. Mas, entre pausas e muitos goles de água, conseguimos reparar que há afinal plantas tenazes que aqui vivem, e em alguns padrões curiosos: a maioria das plantas hiberna no Inverno, e a floração é curta; a ramagem nova dos raros arbustos (giestas ou retamas) forma uns almofadões densos mas rasteiros; outras plantas têm raízes longas e ondulantes que espreitam entre os torrões secos; outras apresentam folhas pequenas, cobertas de penugem, em compactos arranjos basais; e é frequente a opção de não se desfazerem das partes secas, sejam elas ramos ou cápsulas de frutos já vazias, que se inclinam para o centro da planta e aí despejam toda a água que conseguem captar. Obviamente, estes estratagemas servem para proteger as plantas de ventos fortes (como os que sopram nos desertos e que no cume do Teide são assíduos) e da elevada radiação solar, ao mesmo tempo que lhes permitem reter a humidade do ar, reduzir a perda de água por transpiração e assegurar alguma ração de água.

Terá sido um processo gradual de colonização, com sucessos e recuos. A paisagem vegetal do Teide oferece ocasião, como as ilhas Galápagos noutro século, para uma aventurosa lição (até em férias) sobre a evolução da natureza em circunstâncias adversas.

09/03/2019

Mostarda das mil folhas


Descurainia millefolia (Jacq.) Webb & Berthel.


Não consta que a planta acima exposta tenha vocação culinária, mas o nome com que a apresentamos desculpa-se porque ela, além de pertencer à mesma família botânica, dá flores amarelas como as verdadeiras mostardas (Sinapis alba ou Brassica nigra). As mil folhas mencionadas em título aparecem também no nome científico, e tanto podem dever-se ao óbvio carácter folharudo da planta como à semelhança dessas mesmas folhas com as da Achillea millefolium, conhecida em Portugal como milefólio ou milfolhada.

O polissilábico nome genérico Descurainia homenageia o francês François Descourain (1658-1740), médico, boticário e naturalista numa época em que essas ocupações se confundiam. Com essa informação percebemos que a pronúncia correcta de Descurainia até para os franceses há-de ser um mistério. Mais importante é saber que na flora europeia o género é representado por uma única espécie, Descurainia sophia, herbácea anual de porte elevado (até 1 m de altura) e distribuição cosmopolita que também ocorreria no nosso país mas não é aqui vista há décadas, e que na América do Norte há pelo menos treze espécies nativas. As Canárias contam com sete espécies de Descurainia, todas endémicas, já não herbáceas anuais mas sim plantas arbustivas de base lenhosa, três delas presentes em Tenerife.

A Descurainia millefolia é frequente em Tenerife em ladeiras secas a altitudes pouco elevadas, entre os 200 e os 1000 metros. Atinge não mais que um metro de altura e as suas folhas são tripinadas, surgindo em tufos nas extremidades dos ramos. As flores amarelas apresentam as quatro pétalas em cruz que são de lei na família das crucíferas. A foto acima mostra umas flores bastante estranhas, pois o normal é que fossem como o leitor pode ver nesta página. Talvez a floração fora de época (em Dezembro quando deveria ser de Março a Maio) tenha levado a planta a inovar no design das pétalas, mas o mais provável é tratar-se de uma anomalia sem cura possível. Nada de inédito: grande parte do comércio hortícola passa por domesticar e reproduzir as aberrações que, uma vez por outra, são produzidas espontaneamente em estirpes de plantas até então normais. Talvez tenhamos desperdiçado um grande negócio ao não colhermos sementes deste anómalo exemplar de Descurainia millefolia.

22/05/2018

Antes que a chuva caia


Draba dedeana Boiss. & Reut.


Um artigo na revista inglesa The Alpine Journal, em que o sr. John Ormsby descreve a cadeia de montanhas dos Picos da Europa entre Santander e Oviedo, chamou a atenção do sr. Edmond Boissier, de Genebra. No decurso do mês de Junho de 1878, concebeu ele o projecto de visitar essa parte de Espanha e de lá passar para Portugal, país que nunca visitara, regressando pela serra de Gredos, uma alta cadeia montanhosa entre Portugal e Madrid. Propôs a viagem a dois dos seus amigos botânicos. Um favor desses nunca se recusa. (...)
Passando outra vez na mesma linha, mas de dia, chama-nos a atenção a estação de Pancorbo. As falésias verticais de rocha calcária que ali existem junto à via férrea merecem ser cuidadosamente exploradas. É lá que está assinalada a Draba mawii Hook f., ilustrada no Curtis's Botanical Magazine, vol. XXXI (1875), estampa 6186, descoberta em 1875 pelo inglês sr. Maw. A figura mostra as folhas lanceoladas e densamente ciliadas da planta, assim como as flores brancas com cálices nitidamente bordejados de vermelho. (...) Em nossa opinião, essa Draba mawii é a mesma espécie que a Draba dedeana, descrita mais de trinta anos antes nas Additions au voyage dans le midi de l'Éspagne, pág. 718. A Draba dedeana foi conservada no herbário de Faucher (adquirido por Boissier), tendo sido colhida por um senhor Dédé, botânico, a quem foi dedicada. Posteriormente, a mesma espécie foi colhida por Boissier e Reuter acima de Reinosa no Pico Cordel, em 1858, por Leresche, em 30 de Julho de 1862, nas montanhas mais a oeste no limite da parte superior da bacia do Ebro, e por fim, abundantemente, por Boissier, Leresche e Levier, em Julho de 1878 e 1879, nos Picos da Europa. A indicação petalis flavis dada por Boissier (loc. cit.) é um erro, pois a planta decididamente dá flores de uma linda brancura. O exemplar de Dédé estava velho, o que poderá explicar o erro sobre a cor das flores.

A rocha calcária, pela sua menor dureza, presta-se a ser moldada pelas forças da natureza em formas muito mais caprichosas e acidentadas do que o granito. Mas esse trabalho de escultor decorre numa escala temporal que não é a nossa. Tudo o que é rocha nos parece eterno, e as abruptas paisagens cantábricas exploradas no último quartel do século XIX pelo botânico Edmond Boissier e pelos seus companheiros não são muito diferentes daquelas que podemos ver na segunda década do século XXI. É certo que há estradas e estâncias de esqui que nos permitem sem esforço chegar a muitos cumes, mas o recorte dessas montanhas não foi desfigurado por uma invasão de ventoinhas. E, nos interstícios das mesmas imperturbáveis rochas, parecem morar, indiferentes ao passar dos anos, as mesmas plantas que os nosso antecessores viram e catalogaram. Como esta Draba dedeana que Boissier, por a ter descrito a partir de material em más condições colhido por outrem, julgou ter flores amarelas como a Draba aizoides.

Talvez os aficionados de rock gardens prefiram a versão amarela à versão branca, mas os completistas hão-de querer tê-las das duas cores. Ambas têm uma folhagem muito característica, formando almofadinhas compactas eriçadas de pêlos. Nos cumes tempestuosos onde é costume acoitarem-se, é raro as flores poderem exibir a sua simetria perfeita sem que uma chuva desatada venha despenteá-las. As fotos que ilustram o texto foram tiradas no Picon del Fraile, quando as nuvens negríssimas ultimavam os preparativos para o granizo que iria desabar minutos depois. Vida bem diferente, rodeada de confortos burgueses, levam as plantas que migraram para jardins situados às vezes noutros continentes.

Sem os bons ofícios do comércio hortícola, a Draba dedeana, uma pequena planta vivaz com hastes até 8 cm de altura, nunca poderia ser vista fora da Península Ibérica, onde cresce nas montanhas do norte e do leste, sempre em rochas calcárias, e floresce de Março a Maio.