28/06/2022

Estrela sedosa

Asteriscus sericeus (L. f.) DC.


Cada ilha deveria ter a sua estrela, e só mereceria encontrá-la quem para isso não se poupasse a esforços, estudando mapas e guiando-se por bússolas nos difíceis e pedregosos caminhos que a ela conduzissem. Por culpa da poluição luminosa que afecta as nossas urbes, quem queira ver as estrelas do céu tem também que demandar lugares remotos e isolados. Só que aqui falamos das estrelas da terra — mais precisamente, das plantas arbustivas do género Asteriscus existentes nas Canárias, que têm uma repartição por ilhas muito desigual. Fuerteventura e Lanzarote contam cada uma com a sua estrela endémica (Asteriscus sericeus na primeira, Asteriscus intermedius na segunda) e partilham entre si uma terceira estrela, Asteriscus schultzii, que também ilumina os desertos de Marrocos; e só uma das restantes ilhas, Grã-Canária, teve direito a uma estrela própria, Astericus graveolens, ainda que dividida em duas subespécies.

Embora a estrela-marroquina (Asteriscus schultzii), com os seus capítulos inesperadamente brancos, suscite a simpatia geral, a opinião maioritária é que a estrela-sedosa (tradução possível para Astreriscus sericeus), hoje no escaparate, é a mais bonita de todas. As flores, produzidas com abundância ao longo da Primavera, são vistosas, duas vezes maiores do que as da concorrência, e as folhas, de um verde acetinado, são largas, formando rosetas perfeitamente simétricas nas extremidades dos galhos. A planta é robusta e encorpada, alcançando por vezes um metro de altura, mas sem nunca perder o característico porte arredondado. Graças a estas qualidades, foi ela a única, entre as suas congéneres canarinas, a entrar no comércio hortícola internacional e a conquistar lugar de relevo em jardins de muitos países. Pena é que o nome de exportação que lhe arranjaram (Canary Island Daisy) seja tão vago e desinspirado: serão mais de meia centena as espécies de asteráceas endémicas das Canárias às quais o mesmo nome não assentaria pior.

Assim, não é de facto necessário ir a Fuerteventura para admirarmos o Asteriscus sericeus e lhe passarmos a mão pelas folhagem sedosa enquanto lhe aspiramos o perfume (sim, é verdade: ele também se notabiliza pela fragrância). Mesmo nas Canárias, é possível encontrá-lo noutras ilhas (Grã-Canaria, Tenerife, El Hierro) onde foi introduzido e se naturalizou, talvez para que Fuerteventura não tivesse o exclusivo de tão forte chamariz turístico. E os que preferem jogo limpo, insistindo em visitar Fuerteventura, têm ainda assim quem teime em facilitar-lhes a vida, plantando profusamente A. sericeus em jardins e bermas de estrada. Nós recusámos asceticamente ser seduzidos por plantas domesticadas, e fomos aos cumes da ilha visitar o A. sericeus no seu habitat. Só que nada tem de heróico ascender ao Morro Velosa, em Betancuria, havendo uma estrada muito confortável que nos conduz até ao topo. E seria lá — e não no Pico da Zarza, cuja conquista não foi moleza — que a estrela-sedosa se nos apresentaria florida e fotogénica. Fora de época, é verdade, mas ficou-nos a lição de que nem sempre um esforço maior se traduz em recompensa acrescida.

21/06/2022

Amarelos de Fuerteventura



A quem procura plantas à beira-mar, de olhar curioso e máquina fotográfica pronta, exige-se uma desatenção instruída. É que os veraneantes, em geral em trajes sumários, podem presumir que o fotógrafo está à procura de imagens suas, talvez para divulgar em poucos minutos nas redes sociais — e isso seria uma desgraça. Curiosamente, muitos deles ter-se-ão fotografado mal chegaram à praia, antes e depois do primeiro banho de mar, sem receio de expor a sua privacidade a olhares alheios. Mas fizeram-no em pose, como heróis felizardos, não como gente real que sacode a areia dos pés e a quem o vento desajeita o cabelo. Em fotos muito antigas, também adultos e crianças surgem com postura afectada, em formação quase militar. Mas não se vê um sorriso, tal é o receio de que a foto, incapaz de mentir, revele algum segredo. Uns chegaram ao futuro com ar ponderado e maduro, e a foto é um recado aos descendentes; os outros só querem fazer inveja aos demais. O improviso, que se diria garantia do que é genuíno em fotografia, parece ter perdido de vez a pertinência.



Na praia de La Pared, na costa oeste de Fuerteventura, o fotógrafo pode esquecer-se destes melindres, e até das pessoas. Depois de estacionarmos o carro junto às poucas casas, bem afastadas do mar, que servem pescadores e turistas, seguimos pela praia extensa de areia fina, com dunas tão altas e barrigudas que não nos cruzamos com ninguém em quilómetros de passeio. Pudemos, assim, apreciar calmamente os detalhes desta asterácea endémica de Fuerteventura e do sudoeste de Marrocos.

Pulicaria burchardii Hutch.


As plantas do género Pulicaria têm inflorescências muito elegantes: ao contrário das margaridas mais comuns, as lígulas (falsas pétalas) são fininhas e de cor amarelo-pálido; no centro do capítulo, onde se reúnem os florículos, o tom que domina é de um amarelo mais intenso e fácil de detectar. Como aqui lhe contámos, o arquipélago das Canárias foi bafejado com um endemismo excluivo no género Pulicaria, que só ocorre em Fuerteventura e Lanzarote. Difere bastante da P. buchardii, que é quase um arbusto, com folhas lineares e lanuginosas, de um tom prateado que não é raro em plantas à beira-mar. Forma coxins compactos, cujos talos laterais se enterram firmemente na areia — para ajudar à pose.

14/06/2022

Pseudo-estrela do monte Sinai



Uma extensão de terra ressequida, sem ponta de vegetação, é muitas vezes o esconderijo onde as sementes aguardam meses ou anos pela humidade que as fará despertar. Em Fuerteventura, essa inesperada eclosão pode dar-se em qualquer época do ano e em qualquer recanto da ilha, pois as plantas anuais só cuidam da sua sobrevivência e não se guiam pelo calendário. Quem conduza pelas estradas da ilha deve por isso prestar atenção às raras manchas de cor que, nas bermas, assinalam as plantas que lograram tirar proveito da presença efémera da água. Ainda que nem todos os condutores respeitem esses sinais de trânsito, nós não hesitamos em acatar-lhes as ordens, parando de imediato o carro e procedendo ao inventário da vegetação presente no local.

Desta vez o sinal que nos obrigou a parar era violeta e estendia-se ao longo de dezenas de metros por uma vala deixada pela passagem de maquinaria pesada — talvez as mesmas escavadoras com que, uns quilómetros adiante, se faziam obras de alargamento da via. Em vez de configurar um acto de destruição, essa cicatriz na berma da estrada favoreceu a acumulação de água e deu ímpeto à vida vegetal. Mesmo em Dezembro, as plantas não se fizeram rogadas: o tapete arroxeado era obra da Matthiola bolleana — que, fosse ela planta obediente, respeitadora dos manuais botânicos e da erudição de quem os escreve, só deveria florir de Fevereiro em diante. Quando as obras rodoviárias estiverem concluídas, talvez este precário habitat tenha deixado de existir; mas, entretanto, muitas sementes foram deitadas à terra, e elas saberão espreitar a sua oportunidade, aqui ou umas centenas de metros ao lado.

Astragalus sinaicus Boiss.


A essas assembleias de pequenas herbáceas, que aparecem num ápice e desaparecem sem deixar rasto, dão os botânicos o pitoresco nome de "comunidade de terófitos", sendo "terófito" o modo erudito, derivado do grego, de designar uma planta anual. Diversos terófitos menos vistosos faziam companhia à Matthiola, entre eles uma leguminosa rasteira, muito peluda, que, a julgar pelas folhas imparipinadas e com numerosos folíolos, seria certamente um Astragalus; confirmámos depois tratar-se do A. sinaicus. O género Astragalus é predominantemente mediterrânico, contando com uma dúzia de representantes no nosso país, a maioria deles raros (como o A. glaux) ou de distribuição restrita (como o A. tragacantha). Quase todas as espécies de Astragalus nas Canárias são igualmente mediterrânicas, e o A. sinaicus não é excepção. Ainda que o seu epíteto específico aluda ao monte Sinai, no Egipto, a planta ocorre sobretudo na costa europeia do Mediterrâneo oriental, dos Balcãs à Turquia.

O Astragalus sinaicus exibe fortes semelhanças com o A. stella, que tem uma distribuição mais ocidental, estendida à Península Ibérica e a Portugal. Tanto no A. stella como no A. sinaicus (que já se chamou A. pseudostella), as folhas são densamente peludas e os frutos dispõem-se em estrela, o que é motivo para as duas espécies serem reiteradamente confundidas. Para potenciar a confusão, ambas ocorrem, nas Canárias, exactamente nas mesmas duas ilhas (Lanzarote e Fuerteventura), e frequentam os mesmos habitats áridos. Há, contudo, uma diferença evidente entre elas: as inflorescências do A. stella são sustentadas por pedúnculos muito compridos, enquanto que as do A. sinaicus são quase sésseis.

01/06/2022

Erva-negra

Bupleurum semicompositum L.


Viajar para encontrar o mesmo é a sina de todos nós na era da globalização: as mesmas vozes nos altifalantes dos aeroportos, as mesmas cadeias de restaurantes e cafetarias, os mesmos supermercados com iguais produtos nas prateleiras, o mesmo mar desenrolando as ondas em areais onde preguiçam banhistas indiferenciados, as mesmas palmeiras namorando um pôr-do-sol de postal ilustrado em idênticas esplanadas à beira-mar. E até as plantas, se não nos esforçarmos por romper a barreira da mesmice, se repetem com imperturbável desprezo pelas variações de latitude e longitude. Há plantas que são invasoras globais (como a Lantana camara), outras que se fizeram cosmopolitas pela predilecção que têm por lugares humanizados (como o rícino [Ricinus communis], a beldroega [Portulaca oleracea] e a erva-azeda [Oxalis corniculata]), e outras ainda que, tidas como bonitas e fáceis de propagar, são usadas por jardineiros indolentes em todos os cantos do mundo (como as hortênsias, os agapantos e as estrelícias). A uma quarta categoria, mais simpática, pertencem aquelas plantas que lograram alcançar ampla distribuição sem a nossa ajuda. Uma das campeãs indiscutíveis é a avenca [Adiantum capillus-veneris], nativa de climas temperados, subtropicais ou tropicais em todos os continentes habitados.

O género Bupleurum — que é atípico dentro da família das umbelíferas pelas suas folhas simples, lanceoladas — não tem grande vocação para cosmopolitismos: integra centena e meia de espécies, quase todas no hemisfério norte (com uma excepção), a maioria na Ásia ou nos países mediterrânicos (Europa e norte de África), e muitas delas endémicas de áreas restritas. Até em Portugal tivemos direito a um Bupleurum endémico: vive na serra do Cercal, e aguarda há vinte anos a validação de «estudos recentes» que o dão como exclusivo dessa faixa do sudoeste alentejano. O porte destas plantas é extremamente variado: há espécies arbustivas — como o B. fruticosum em Portugal continental, e o B. salicifolium na Madeira e nas Canárias —, há herbáceas perenes de aspecto robusto, e há ervas anuais pequenas ou minúsculas. O Bupleurum semicompositum, que fotografámos em Fuerteventura, é uma planta anual rasteira e pouco conspícua; mas, como costuma frequentar zonas de vegetação rala, não é difícil de detectar. O que a notabiliza é fazer o pleno da bacia mediterrânica, incluindo o sul de Portugal, e, além disso, ainda surgir em seis das ilhas Canárias — onde, até hoje, só não foi observada em La Palma.

Talvez a facilidade de deslocação de que o Bupleurum semicompositum deu provas se deva às dimensões microscópicas das suas sementes: cada fruto não tem mais que 1,5 mm de diâmetro, e as flores, que se reúnem em grupos de seis a nove e têm pétalas amarelas ou esverdeadas, ficam-se por igual tamanho. Ainda assim, com o seu hábito prostrado e muito ramificado, a planta pode exceder os 30 cm de comprimento, resgatando-se desse modo da invisibilidade que aflige, por exemplo, o B. tenuissimum. Folhas e caules são glabros, de cor glauca, de modo nenhum enegrecidos. Por que misteriosa razão se chamará ela hierba negrilla nas Canárias?