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12/12/2019

Um rio de verdade



O Verão é uma época difícil para quem gosta de rios, sobretudo quando a estiagem os reduz a uma sucessão de piscinas estagnadas. Perspectiva diferente terão aqueles que os procuram como local de diversão e de banhos mais ou menos refrescantes: dão o dia por bem passado se não lhes faltar sombra de árvores e ainda tiverem água para chapinhar. Apesar de não termos o hábito de mergulhar, preferimos rios vivos e com fartura de água; quando o caudal emagrece vamos à nossa vida e aguardamos tempos melhores.

Travámos conhecimento com o rio Mente num mês de Julho de há quatro anos, caminhando ao longo do troço que separa os concelhos de Chaves e de Vinhais. Cruzámo-lo a pé sem que a água nos subisse acima dos tornozelos, aproveitando, numa atitude de desrespeito, a fraqueza hídrica de que o rio então padecia. Do lado de Chaves a vegetação tinha sido desbastada para produzir uma praia fluvial ao gosto popular. Um avô com quem metemos conversa lamentou que do lado de Vinhais, com mato e ervas crescendo ao Deus dará, não se notasse igual brio.

Voltámos meia dúzia de vezes para conhecer o rio em épocas de maior pujança, preferindo sempre o abandono de Vinhais ao zelo flaviense. Há carreiros nas margens que são túneis entre as árvores, com acesso aqui e ali a pontos onde os ocasionais pescadores armam as suas canas de pesca. Não conhecemos em todo o país vegetação ribeirinha mais bem conservada. Ao cortejo das árvores habituais (amieiros, freixos, salgueiros, sanguinhos, cerejeiras, pilriteiros) juntam-se trepadeiras (Humulus lupulus, Clematis vitalba), fetos pequenos e grandes, e uma profusão de herbáceas raras (Agrimonia procera, Circaea lutetiana, Filipendula ulmaria, Glechoma hederacea, Potentilla sterilis, Thalictrum speciosissimum, etc.) em que a raridade maior é uma umbelífera de porte avantajado, amante da frescura e da sombra.



Pimpinella major (L.) Huds.


Distribuída por quase toda a Europa, só em 2006 a Pimpinella major fez a sua entrada oficial na flora portuguesa, com a publicação, na revista Silva Lusitana, de uma nota por Carlos Aguiar e João Domingues de Almeida dando conta da descoberta da planta no Parque Natural de Montesinho, nas margens do rio Tuela. Sem surpresa, ela acabou por ser encontrada noutros lugares, e em todo o caso já era conhecida a sua (escassa) presença no sudeste da Galiza, não longe da fronteira portuguesa. É de assinalar, porém, que o rio Mente é afluente do Rabaçal, e que este só às portas de Mirandela se junta ao Tuela para formar o Tua. É pois de supor que as populações de Pimpinella major do Mente e do Tuela tenham origens independentes, ainda que ambas se situem no Parque de Montesinho.

Se atendermos à ecologia, a planta é fácil de identificar pelas folhas pinatissectas de grande tamanho, às vezes ultrapassando os 40 cm de comprimento, cada uma delas com 5 a 9 segmentos mais ou menos rômbicos, e pelos caules fistulosos e claramente estriados. As demais umbelíferas de flores brancas e tamanho respeitável que vivem em bosques húmidos ou em margens de rios (exemplos: Angelica sylvestis, Heracleum sphondylium, Oenanthe crocata e Laserpitium eliasii) têm folhas bem diferentes, em geral (a excepção é o Heracleum sphondylium) com um número muito maior de divisões.

11/09/2018

Uma alface na estrada do Teno



Astydamia latifolia (L. f.) Baill.


Na mitologia grega, Astydamia é uma ninfa, filha do deus Oceanus. Nome escolhido pelo botânico suíço Augustin Pyramus de Candolle e sem dúvida apropriado à planta que hoje vos mostramos (primeiramente descrita como Crithmum latifolium por Lineu filho), pois ela aprecia precisamente lugares rochosos salpicados de mar. Conhecida como espécie endémica do noroeste de África e ilhas Canárias, foi depois encontrada também nas Selvagens, as ilhas do arquipélago da Madeira mais próximas de África. Da família Apiaceae, a mesma do aipo, funcho, coentros e cenouras, esta herbácea é robusta, de folhas suculentas e talos lenhosos, e tolera grandes concentrações de sal e maresia. As flores são pequeninas, de pétalas amarelas com pontas recurvadas e sépalas com textura de papel que caem antes de as flores desabrocharem. Estas são hermafroditas mas apresentam algum dimorfismo, dispondo-se em geral no bordo da umbela as mais vistosas e funcionalmente masculinas. O fruto é um invólucro com uma tampinha, da cor da cortiça quando maduro.

A Astydamia latifolia é frequente na região costeira de Tenerife, e fomos conhecê-la num sábado morno de Dezembro. Sem o prevermos, começámos o passeio junto a uma cancela provisória bem guardada por um agente da autoridade. Informou-nos, em tom de proprietário, que aos sábados e domingos se vedava aquele percurso ao trânsito automóvel até ao fim da tarde. Creio que nunca nos soube tão bem largar ali o carro e percorrer a pé vários quilómetros sem que o bulício de viaturas se intrometesse com a nossa caminhada. Acedia-se à ponta da ilha onde é fácil fotografar a alface-do-mar por uma longa estrada sempre a subir, seguida de um túnel que desembocava numa outra via mais estreita mas igualmente extensa, ladeada por taludes abruptos até ao mar. No túnel, só alumiado quando o trânsito circula, ouviam-se ruídos que o medo logo associou a morcegos ou vingativos adamastores. Mas eram pássaros, osguinhas e borboletas, e à saída esperava-nos um habitat onde gastámos sem pressa várias horas. Levará meses até que consigamos revelar-vos todas as plantas extraordinárias que por lá observámos.

31/07/2018

Um funcho cabeludo


Ferulago capillaris (Link ex Spreng.) Cout.



As piscinas do rio Homem, de água límpida escoando-se devagar entre grandes blocos rochosos, são um poiso favorito para quem no Verão demanda o Gerês em busca de frescura. Há que pagar (por duas vezes) um euro de portagem e fazer a pé os 700 metros desde a Portela do Homem, onde deixamos o carro, até à ponte sobre o rio, onde nos debruçamos para a foto obrigatória. O acesso às piscinas faz-se logo ali. Se o fôlego e o calçado o permitirem (andar de chinelos num caminho pedregoso e esburacado não é boa ideia), podemos subir umas centenas de metros pelo estradão dos Carris e alcançar uma piscina longe das multidões.

O vale do rio Homem é muito verde, mas os carvalhos, azevinhos, bétulas, pereiras-silvestres, medronheiros e tramazeiras vão-se fazendo esparsos à medida que subimos, até que predominam os matos de giesta, urze e carqueja. As rochas por onde o rio se espreguiça dão abrigo a uma vegetação herbácea e arbustiva rica em raridades: Amelanchier ovalis, Narthecium ossifragum, Vincetoxicum hirundinaria e, não menos importante, uma umbelífera, Ferulago capillaris, a que os mais distraídos chamarão funcho. Confusão compreensível atendendo às flores amarelas e às folhas muito recortadas, mas rapidamente desmentida pelo olfacto: o Ferulago capillaris não tem cheiro digno de nota. (Antes usar o olfacto do que o paladar: mordiscar uma planta que desconhecemos pode fazer mal à saúde.) Os olhos também podem contribuir para desfazer o equívoco: o funcho propriamente dito (Foeniculum vulgare) é uma planta esguia e desgrenhada, com umbelas muito mais ralas. O Ferulago capillaris, capaz de ultrapassar 1,5 m de altura, tem uma haste robusta e erecta, ramificada apenas na parte superior, que é encimada por várias umbelas, a principal das quais formada por 20 a 40 raios, cada um deles sustentando cerca de dezena e meia de flores.

Tão fácil de ver no vale superior do rio Homem, é uma surpresa aprendermos que este robusto pseudo-funcho talvez não ocorra em nenhum outro ponto do Gerês e que, fora do Parque Nacional, só se sabe dele em meia dúzia de lugares em Trás-os-Montes e na Beira Alta. Endémico da Península Ibérica, o Ferulago capillaris não abunda nem em Portugal nem em Espanha: no país vizinho é mais frequente na serra de Gredos, parte de cadeia montanhosa que tem o seu limite oeste na serra da Estrela. Do género Ferulago conhecem-se mais três espécies na Península Ibérica, todas elas endémicas: F. brachyloba, F. granatensis e F. ternatifolia. A crer nos mapas de distribuição no portal Anthos, são todas de distribuição muito restrita.

18/07/2017

Novos embudes


Oenanthe lachenalii C. C. Gmel.



Quando os ribeiros emagrecem por falta de chuva é que os embudes engordam. Embude é nome vernáculo para uma das umbelíferas mais comuns em Portugal continental, a Oenanthe crocata, omnipresente em pequenos, médios e grandes cursos de água, e aventurando-se até em lugares de onde a humidade há muito se evaporou. Talvez a sua abundância se deva não apenas à grande produção de sementes mas também à toxicidade que os herbívoros, com um instinto desconcertante, aprenderam a evitar. Contudo, outros embudes do nosso território, como esta Oenanthe lachenalii, não souberam usar o veneno como arma de expansão, pelo que a sua escassez se explicaria por uma frutificação menos prolífera ou por uma menor versatilidade ecológica. A desfavor da segunda hipótese joga o facto de a O. lachenalii nada se importar com a salinidade da água, dando-se igualmente bem em água doce ou nas águas salobras de rias e estuários. A preferência por substratos arenosos acaba por limitar as suas escolhas de habitat, mas, apesar de esparsamente distribuída pelo país, não está de modo nenhum confinada ao litoral, como se vê pelo mapa de distribuição no portal Flora-On. Um dos nomes populares que a imaginação dos botânicos lhe atribuiu, bruco-de-Salvaterra, dá conta da sua existência nas margens alagadiços do Tejo, o que o dito mapa corrobora, embora obrigue a planta a saltar o rio de Salvaterra (na margem sul) para a Azambuja (na margem norte). Deverá o povo corrigir-lhe o nome para bruco-da-Azambuja? As plantas das fotos vivem não em Portugal mas na lagoa costeira de Vixán, um dos poucos lugares da Galiza onde a espécie está assinalada. Não sendo os galegos menos conhecedores da distribuição das raridades botânicas do que os portugueses, é de supor que lhe chamem bruco-de-Vixán.

A O. lachenalii distingue-se sem dificuldade da O. crocata por ser uma planta de menor porte (é raro ultrapassar os 80 cm de altura), por ter uma umbela mais compacta, e por apresentar folhas de lóbulos mais estreitos e compridos. Há porém duas outras espécies em Portugal (e em grande parte da Europa) com idênticas preferências de habitat que com ela se podem confundir: trata-se da Oenanthe fistulosa (que tem as folhas muito menos recortadas - veja-se aqui) e da Oenanthe globulosa (com inflorescências ainda mais compactas e menor número de frutos em cada umbélula - confira-se aqui). Encontrar qualquer uma das três espécies é um feito só ao alcance de quem esteja disposto a calçar galochas e não receie chafurdar em terrenos lodosos.

10/01/2017

Pequena umbela amarela



Thapsia minor Hoffmanns. & Link
Pequenas, grandes ou assim-assim, muitas são as umbelas amarelas que enfeitam os campos na Primavera e no Verão. A mais abundante no continente e nas ilhas é o funcho (Foeniculum vulgare), que apesar de ultrapassar a estatura de um adulto exibe uma umbela de acanhadas dimensões. Mas não é pelas flores que o funcho é apreciado, e são as plantas menos utilitárias que têm de se esforçar no capítulo da beleza. A campeã em altura e em efeito ornamental é a canafrecha (Ferula communis), disseminada pelo centro, sul e interior norte do país mas ausente do noroeste. Usando igualmente a ideia das inflorescências esféricas, a tápsia (Thapsia villosa), com uma altura máxima de 2 metros, fica em vistosidade um pouco aquém da canafrecha. O que temos hoje no escaparate, ainda na temática amarela, é uma tápsia em versão de bolso, com caule mais débil (30 a 90 cm de altura), umbelas mais ralas e achatadas, ideal talvez para um jardim modesto, ou mesmo para um vaso de trazer por casa se a fraca luminosidade a não fizer definhar.

A tápsia-maior (chamemos-lhe assim para fazer contraponto à menor) é uma planta todo-o-terreno, mas em Portugal aparece sobretudo em áreas de clima mediterrânico (bacia do Douro, Algarve) e em substratos calcários. A tápsia-menor, com fobia por solos básicos, frequenta o sub-bosque de pinhais, sobreirais e carvalhais de Quercus pyrenaica, e também, ocasionalmente, clareiras de urzais como aqueles que revestem as encostas da serra da Boneca (Penafiel), onde a fotografámos. Durante algum tempo, e foi essa a opção de Franco no 1.º volume, de 1971, da Nova Flora de Portugal, as duas tápsias foram integradas na mesma espécie, considerando-se a agora chamada Thapsia minor como um extremo de variação da Thapsia villosa. O assunto foi tirado a limpo com a publicação, em 2003, do volume X da Flora Iberica, dedicado à família das umbelíferas. Prova de que a ciência não é imune a retrocessos, não se tratou de baptizar uma espécie nova, mas sim de recuperar o nome que Hoffmannsegg & Link lhe haviam dado em 1834 no volume 2 da Flore Portugaise (ver aqui). A tápsia-menor, diga-se, tem a distinção de ser um endemismo ibérico, enquanto que a tápsia-maior também vive em França e no norte de África.

O que interessa a estas umbelíferas não é serem agradáveis aos nossos olhos. Isso é apenas efeito colateral do seu indiscutível sucesso a atrair insectos que, por via da polinização, lhes garantam a produção de sementes. E eles mostram-se tão empenhados nas suas funções que nem descansam ao fim-de-semana, como comprovam as fotos (tiradas num sábado) onde, além das formigas, vemos afanosamente mergulhados nas flores dois outros bichos a que, por incurável ignorância, chamamos escaravelhos.

29/11/2016

Cerefolho bêbado



Chaerophyllum temulum L.


Para quem gosta de arriscar a vida consumindo cogumelos silvestres, as umbelíferas ofecerem mais uma apelativa variante da roleta russa. Há umbelíferas de fama e proveito reconhecidos nas artes culinárias (como a cenoura, a salsa e o funcho, só para mencionar as mais triviais), mas há outras, com o mesmo aspecto geral, que são mortalmente venenosas (como a cicuta e a rabaça). À cautela, mais vale não as levar à boca, pois mesmo quem raramente tem dúvidas se pode enganar, e um engano destes é irremediável.

O cerefolho-bravo (ou cerefólio-bravo) acima ilustrado exemplifica bem os riscos que corre um respigador de plantas silvestres. O cerefólio cultivado (Anthriscus cerefolium) não é, de facto, muito diferente, sobretudo no formato das folhas e dos frutos, mas, enquanto que o segundo é usado como erva aromática, o primeiro é tóxico. Não consta porém que seja mortal em pequenas doses, e a possível confusão entre as duas plantas não resiste ao teste do paladar. É por isso muito improvável a ingestão por humanos do cerefolho-bravo como condimento alimentar. Contudo, ele foi em tempos usado como erva medicinal, e entre os efeitos secundários reportados contam-se um andar cambaleante, apatia, cólicas e (nos casos mais graves) cegueira temporária. A dificuldade em manter a postura vertical assemelha-se à embriaguez, razão para o maroto do Lineu baptizar a planta com o epíteto temulum (ou temulentum), que significa bêbado em latim. Reforçando essa conexão, as manchas cor-de-vinho no caule (fotos aqui) lembram a tez dos alcoólicos inveterados. Iguais manchas decoram as hastes da cicuta (Conium maculatum - ver foto), que, entre outros caracteres, se diferencia do cerefolho-bravo por ser inteiramente glabra.

Abandonada a perigosa ideia de o comer, permanece o desafio de distinguir o cerefolho-bravo de outras umbelíferas aparentadas. Aquelas que lhe é mais próxima, pela folhagem e porte geral, é a salsa-das-vacas (Anthriscus sylvestris). São ambas hirsutas, os frutos são quase indistinguíveis, as hastes podem nos dois casos atingir ou ultrapassar um metro de altura, e as umbélulas são decoradas com as mesmas bractéolas pendentes (compare a 3.ª e 4.ª fotos acima com esta). O modo mais expedito de distinguir as duas é notar que o cerefolho-bravo tem pétalas fendidas (4.ª foto) e que salsa-das-vacas as tem inteiras (foto aqui).

O motivo da nossa simpatia pelo Chaerophyllum temulum, que não sobressai nem pela beleza nem pela utilidade, é que um congénere seu, o Chaerophyllum azoricum, é um raro endemismo açoriano, merecedor do nosso maior apreço. Ensina a etimologia que a palavra graga Chaerophyllum significa "folhas que agradam". Sem que Lineu (que, com esse "agrado", quis referir-se a impressões olfactivas e não tanto visuais) alguma vez o tenha conhecido, a formosura do Chaerophyllum azoricum justifica inteiramente tal descrição.

10/04/2016

Em louvor dos taludes


Ferula communis L.
Nas estradas sinuosas das serras da Peneda e do Gerês, não são apenas as curvas que aconselham o condutor a moderar a velocidade. Grupos de vacas ou ovelhas tresmalhadas vão debicando, na maior das calmas, e indiferentes aos automóveis que são obrigados a desviar-se ou a parar, as ervas nem sempre tenras que revestem os taludes. É sorte delas que a canafrecha não cresça nas serranias minhotas, caso contrário essa refeição colhida na berma da estrada bem poderia ser a última. Fossem elas transmontanas de Vimioso, e ao risco de atropelamento próprio de estradas mais rectilíneas somar-se-ia o da ingestão deste apetitoso veneno. A Ferula communis, assim chamou Lineu à canafrecha, é uma das maiores herbáceas da nossa flora, uma haste de mais de dois metros de altura encimada por vistosas bolas amarelas, mas não é pela beleza que um pastor lhe vai perdoar a perigosidade. Não é que seja irremediavelmente mortal como outras umbelíferas (de que se destacam a Oenanthe crocata e o Conium maculatum), mas o seu consumo continuado provoca hemorragias internas que podem ser fatais, em especial para o gado ovino.

Não sendo nós pastores, é com agrado que vemos a canafrecha contribuir para o embelezamento de um dos troços de estrada botanicamente mais ricos do país, como é a EN218 junto ao rio Maçãs, em Vimioso. Herbácea perene de crescimento rápido e com óbvia vocação ornamental, a sua floração em terras nortenhas é tardia, decorrendo numa altura, entre Junho e Julho, em que o fulgor da Primavera já se desvaneceu. A preferência desta umbelífera por lugares alterados e substratos rochosos fazem dela uma frequentadora habitual das bermas de estrada em Trás-os-Montes. Surge mais raramente marginando prados e campos de cultivo, onde, conforme pudemos testemunhar, a sua presença não é bem-vinda: em Campo de Víboras, num passeio em Junho sob um calor impiedosamente estival, encontrámos muitas hastes decepadas ao longo do caminho.

Quem vê a canafrecha em flor não a irá por certo confundir com o funcho (Foeniculum vulgare), que tem uma floração bastante mais discreta, é abundante em terrenos baldios por todo o país, e compensa a desgraciosidade com uma firme reputação culinária. As duas umbelíferas podem contudo confundir-se na fase vegetativa, pois as folhas de ambas são muito divididas, com segmentos de última ordem lineares: compare-se a nossa terceira foto com esta outra da folhagem do funcho. Para evitar enganos, convém estar atento às folhas basais: as da canafrecha (que ninguém no seu juízo há-de querer usar nos seus cozinhados) são bastante maiores e têm um aspecto plumoso muito característico (ver foto).

17/03/2016

Salsa-brava

O leitor vai hoje acompanhar-nos num percurso pelo rio Mente, na fronteira de Chaves com Vinhais. É Verão e o rio atravessa-se bem a pé, a água mal cobre os calcanhares. São pouco mais de seis passos largos, o riacho vai ali quase enxuto, mas as pedras limosas do leito obrigam-nos a caminhar com cautela. No lado de Chaves, a limpeza da margem foi tão metódica que quase não sobra vegetação; em contrapartida, ali se banham e petiscam animadamente muitos flavienses no seu descanso de Agosto. Regressemos, por isso, à margem de Vinhais, onde a vegetação é exuberante e nos reserva inúmeras surpresas.

No leito de cheia, que é também orla de um bosque, está esta herbácea perene:



Peucedanum gallicum Latourr.


O que acha que é? Pela inflorescência, não há dúvida de que pertence à família Umbelliferae (para alguns Apiaceae). A folhagem lembra a do Peucedanum lancifolium, embora as deste sejam em geral menos divididas. E, portanto, ousamos afirmar que também o género está encontrado: Peucedanum. E a espécie? Ainda antes de ler a chave da Flora Ibérica ou a do primeiro volume da Nova Flora de Portugal, notemos que a umbela da terceira foto é densa, airosa e simétrica, como um guarda-chuva sem defeito. Pelo contrário, a do outro Peucedanum que conhecemos de prados húmidos e sombrios, o P. lancifolioum, é mais rala e deselegante, com os raios (os pés das flores, quais varas de guarda-chuva) encavalitados e de tamanhos distintos. Há ainda dois outros pormenores que indicam que o Peucedanum que hoje aqui mostramos não é o P. lancifolium: as bractéolas (brácteas na base das umbélulas - veja na última foto) são muito longas e finas, em contraste com as do P. lancifolium; e as brácteas involucrais (na base da umbela), que aqui quase não se vêem nas fotos porque são caducas, persistem na maturação dos frutos do P. lancifolium.

São poucos indícios, é certo, e por cá há registo de cinco espécies de Peucedanum, mas a ecologia ou o tipo de solo que requerem não são idênticos. Confrontadas as tais chaves das Floras, concluímos que se trata do Peucedanum gallicum (que já foi P. parisiense), nativo do noroeste da Península Ibérica e de França.

Antes de arrumar a máquina fotográfica na mochila e de subir a encosta até à estrada, reparemos que as pétalas (em detalhe na quarta foto) lembram porta-guardanapos (aqueles utensílios de mesa em forma de anel, hoje quase esquecidos, usados para colocar guardanapos individuais de pano) cujo tom rosado resiste caprichosamente nos frutos.

09/03/2016

Pseudocenoura de Sicó


Orlaya daucoides (L.) Greuter


As umbelíferas com inflorescências como as da cenoura (Daucus carota) são difíceis de destrinçar, e esse problema não deve ser só nosso. Decerto também os polinizadores se apercebem de que as umbelas são semelhantes, e hesitam na planta a escolher. A menos que o néctar (que, quando provámos, sabia a água com açúcar) tenha variações de sabor, aroma e nutrientes que os insectos detectem, ajudando-os a seleccionar as flores que mais apreciam. Na eventual falta destes pormenores que sinalizem as flores mais apetecíveis, e de cuja existência não conhecemos qualquer prova, há ainda as espécies que, além de investirem numa inflorescência repleta de flores, a aumentam alterando as pétalas das flores externas para que fiquem mais vistosas.

É precisamente esse o estratagema da planta que está hoje na montra, fotografada num bosque de azinheiras e carvalhos em Sicó: exibe airosas pétalas bilobadas no bordo da umbela, como orelhas de cachorro, que nenhum polinizador minimamente atento deixará de avistar, mesmo de longe. Trata-se da única espécie do género Orlaya nativa em Portugal, apesar de em Espanha ocorrer outra, a O. grandiflora. O nome do género homenageia Ivan Semenovych Orlay (1771-1829), médico e botânico ucraniano.

É uma planta anual, de distribuição ampla na região mediterrânica e na Ásia, que se distingue bem de alguns parentes pela folhagem. Sugerimos ao leitor que observe os talos estriados e as umbelas terminais, recheadas de flores masculinas além de umas poucas hermafroditas. (Pode tentar localizá-las na 3ª foto -- onde também se vê emboscada uma ameaçadora aranha-caranguejo, Thomisus onustus -- ou nesta imagem.) Os frutos têm uma forma bizarra, lembrando espigas verdes com ganchos no lugar dos grãos de milho.

Sicó

22/12/2015

Azul dos picos


Eryngium bourgatii Gouan


Quando encontrámos a Astrantia, foram as suas indisfarçáveis semelhanças com as umbelíferas fora-do-baralho do género Eryngium que nos deram a primeira pista para a identificação. E em Abiada, na ladeira pedregosa que descia para o ribeiro onde vimos a Astrantia à sombra de avelaneiras, lá estava um Eryngium muito azul para nos avivar a memória, despontando entre as rochas calcárias na companhia de têucrios, orquídeas e cravos. De facto, mesmo os portugueses pouco dados a caminhadas na natureza deverão alguma vez ter visto, quando se preparavam para estender a toalha na areia, o Eryngium maritimum, ou cardo-marítimo, enfeitando profusamente as dunas. Mas este Eryngium cantábrico era robusto, diferente dos que até então observáramos, combinando o azul intenso do E. dilatatum, que conhecemos de Sicó e dos Candeeiros, com o aspecto geral do cardo-corredor (E. campestre), frequente em terrenos baldios e bermas de estrada de norte a sul do país.

Os Eryngium são umbelíferas de índole rebelde, que rejeitam as tradições da família a que pertencem para se mascararem de cardos. A somar a esse transformismo comum a todas as espécies, aquelas que tentam vestir-se de azul, como o Eryngium bourgatii, não o conseguem fazer dos pés à cabeça, e acabam por exibir uma atraente policromia de tons metálicos entre o verde, o prateado e o roxo. São plantas de tão óbvia vocação ornamental que o seu uso em jardins (não em Portugal, claro) tem a força da inevitabilidade.

O E. bourgatii é uma planta quase só ibérica (ou, se quisermos, espanhola), com pequenos contingentes em Marrocos e na vertente francesa dos Pirenéus, que gosta dos ares de montanha e floresce no Verão. Dizem que é indiferente ao pH do solo, mas na Cantábria só a vimos crescer em substratos calcários. Há alguma variabilidade dentro da espécie, pois as plantas do sul de Espanha são menos azuis e têm folhas mais estreitas e espinhentas. A própria Flora Ibérica (o volume correspondente é de 2003), embora não reconheça quaisquer subespécies ou variedades, recomenda que o assunto seja tirado a limpo com recurso a estudos moleculares. Ignoramos se alguém já seguiu a sugestão.