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17/07/2025

Rio de areia



Quem sai de Almeria em direcção a El Ejido, que fica uns doze quilómetros a oeste, atravessa uma costa nua e escarpada, sem préstimo agrícola e sem sinal de habitações, e que também não parece vocacionada para aproveitamento turístico. As praias são estreitas faixas pedregosas, acessíveis por caminhos íngremes; as duas estradas paralelas (uma delas é auto-estrada) sobrevoam barrancos de terra avermelhada empoleiradas em altos viadutos. São barrancos que hoje em dia só levam areia, memória de rios que noutras eras geológicas desciam das alturas da serra de Gadór. Com 2247 m de altitude máxima, a serra de Gadór é, a seguir à serra Nevada, a mais alta da província de Almeria, e são os seus contrafortes que formam esta paisagem acidentada, a que muitos chamariam desolada, aqui bem junto ao Mediterrâneo.

Um pouco ao acaso, escolhemos visitar o barranco de la Garrofa, que até dispõe de estacionamento conveniente logo à entrada. É um local muito frequentado por praticantes de escalada; sê-lo-á menos por aficionados de botânica, o que poderá dever-se ao desconhecimento ou ao preconceito. As primeiras impressões não são agradáveis: à aridez da terra ressequida e à nudez das escarpas soma-se o desmazelo do lixo. Mas o coberto vegetal ralo e desordenado não é formado por plantas vulgares, e em poucos minutos sabemos que viemos ao lugar certo. Não exigiria grande forma física caminhar muitas centenas de metros pelo barranco adentro, mas na verdade não vamos longe, obrigados pelas muitas novidades botânicas a paragens constantes e demoradas. Esta é uma pequena amostra do que vimos nesse memorável passeio.

Maytenus senegalensis subsp. europaea (Boiss.) Güemes & M. B. Crespo


A dois ou três metros do ponto onde estacionamos está em flor este arbusto que, a um olhar mais míope, se diria pertencer ao género Rhamnus. Contudo, a morfologia das flores logo desmente essa filiação: têm pétalas brancas bem visíveis, ao passo que no género Rhamnus as pétalas são inconspícuas ou inexistentes. De facto, seja qual for o nome que se lhe dê (Maytenus senegalensis ou Gymnosporia senegalensis), este arbusto, que na Europa só ocorre no sudeste de Espanha, é o solitário representante europeu de uma estirpe numerosa (mais de 100 espécies) distribuída por três continentes: África, Ásia e Oceânia. Nas ilhas da Macaronésia existem duas espécies endémicas dessa linhagem: Maytenus umbellata (= Gymnosporia dryandri) na Madeira, e Maytenus canariensis (= Gymnosporia cassinoides) nas Canárias; ambas têm as folhas bem maiores do que a planta almeriense (que não é exclusivamente europeia, pois também existe no norte de África).

Helianthemum abelardoi Alcaraz


As plantas do género Helianthemum, a que normalmente chamamos sargacinhos, e que podem ser herbáceas ou pequenos arbustos, são notoriamente difíceis de destrinçar, ocasionando por vezes entre especialistas insanáveis divergências de opinião quanto à melhor arrumação taxonómica. Na província de Almeria são frequentes os sargacinhos arbustivos de flores brancas, estando identificadas na região pelo menos três espécies distintas, duas das quais endémicas. O H. abelardoi, que vive em zonas costeiras áridas entre Almeria e Múrcia, foi descrito apenas em 2015 em artigo na revista Flora Montiberica (PDF), e distingue-se pelas folhas densamente revestidas por pêlos estrelados ásperos (claramente visíveis na foto acima).

Lafuentea rotundifolia Lag.


Endémica do sudeste peninsular, onde aparece com alguma assiduidade em escarpas e muros, a Lafuentea rotundifolia faz lembrar a figura mítica do centauro: as hastes floríferas, que parecem bastões (não muito contundentes), dir-se-iam enxertadas a trouxe-mouxe numa base de marroio, pois as folhas redondas, de margens crenadas, são quase iguais às da Ballota hirsuta. Contudo, esta orejilla de roca, como é popularmente chamada, nem sequer pertence à família das labiadas. Tem a distinção de ser uma das duas únicas espécies do seu género: a outra, Lafuentea jeanpertiana, vive no Anti-Atlas marroquino.

Sarcocapnos enneaphylla (L.) DC.


Da família das papoilas, e apresentando fortes semelhanças com as muito comuns herbáceas do género Fumaria, o Sarcocapnos enneaphylla (ou zapatitos de la Virgen) ganharia facilmente em beleza às plantas suas vizinhas. Mas isto não é um concurso para a eleição da Miss Planta, e por isso a beleza é apenas um detalhe em que é impossível não reparar — embora, por uma questão de educação, não convenha olhá-la de modo insistente. Todas as partes da planta são pequenas, bem proporcionadas, de um design impecável: as flores brancas, tubulares, manchadas de vermelho e amarelo; as folhas glaucas, miudamente recortadas, com segmentos carnudos e arredondados. Não é planta rara, e de facto está distribuída por toda a metade oriental da Península Ibérica, mas é sempre gratificante encontrá-la.

13/12/2021

Belas adormecidas

As plantas que sincronizam o seu ciclo de vida com o do pastoreio ou o da agricultura tendem a depender tanto dessa ajuda como de um clima sem grandes imprevistos. Essas tarefas, quando não intensivas nem regadas a herbicida, arejam o solo, erradicam saudavelmente plantas competidoras e impõem pousios que aliviam o desgaste natural da terra. Mas com a lavoura mecanizada, que revolve os torrões com a agilidade de uma colher na sopa, e com as mudanças no clima, as plantas precisam de maior cautela. A umbelífera que vos mostramos hoje, anual e pequena (não vai além dos 40 cm de altura), tem um truque adicional para lidar com as más notícias do seu habitat. As sementes formam-se antes das colheitas mas, se o tempo não está de feição, se há indícios de que o campo está sob ameaça ou se a competição entre as novas plantas e as já adultas se torna melindrosa para a espécie, então as sementes adormecem. Isso mesmo: enquanto a humanidade se afadiga em atrasar a morte e em promover a natalidade, estas plantas dominam um relógio formidável que adia o começo da germinação, tendo até em conta o benefício que isso possa trazer às plantas-mães.

Turgenia latifolia (L.) Hoffm.


Durante o sono, as sementes mantêm-se viáveis, até que (passados por vezes muitos anos) haja sinais, anunciados sabe-se lá por que meios, de que a probabilidade de um embrião sobreviver aumentou. Enquanto dormem, podem dispersar-se, colonizando depois novos locais, o que talvez justifique a maior incidência de novas espécies entre géneros que dominam este estratagema. Curiosamente, há quem afirme que esta é uma solução para as longas viagens interplanetárias, de mudança dos habitantes da Terra para outros mundos.

As espécies que afinam o seu ciclo com a evolução do ambiente não servem para jardins, por não se vergarem à impaciência dos que anseiam pela floração exuberante em vasos e canteiros. Mas é esta habilidade que favorece, por exemplo, a produção de cereais em grande escala. O banco de sementes que assim se cria assegura que os frutos não germinam todos num mesmo outono de temporais catastróficos, evento que condenaria futuras gerações de plantas.



Há outros indícios de que a Turgenia latifolia, que aprecia olivais em solo calcário, é medrosa mas sabe proteger-se. As flores de pétalas rosadas não têm sépalas mas as umbelas nascem num ninho de ganchos macios, que mais tarde endurecem e ajudam a disseminar os frutos. Percebe-se mal que, sendo assim talentosa e de distribuição vasta pelo centro e sul da Europa, Ásia e norte de África, seja afinal tão rara em Portugal, onde só há registo de uma população, e com escasso número de exemplares.

06/01/2015

Papoila dos picos


Papaver argemone L.


Há uns anos, numas férias de Verão na quinta dos avós no Douro, andávamos nós, ainda crianças, a apanhar cristais de quartzo que a abertura de uma estrada tinha posto a descoberto quando reparámos num terreno em pousio pintalgado por centenas de flores com quatro pétalas alaranjadas que pareciam feitas de papel enrugado. Colhemos umas tantas, tão sedosas e frágeis que receámos que chegassem a casa desfeitas. Exibindo o nosso troféu, ouvimos um estranho sermão sobre a natureza fingidamente pura e a sedução das plantas perversas. As lindas papoilas eram afinal fonte de vício, fantasia e torpor, incompatíveis com uma existência saudável. Pedimos detalhes, que foram prontamente negados; era demasiado arriscado revelarem-nos, inocentes mas prontos para a aventura, os efeitos de tais tentações do mal.

O castigo por sermos nessa altura tão ignorantes foi uma sentida desilusão com o campo e um receio paralisante de tudo o que o compunha. Hoje sabemos que há várias espécies de papoilas, que as sementes de algumas delas até são usadas em culinária e que só a Papaver somniferum, não se sabe muito bem se exótica ou nativa no nosso país, é origem da morfina, da heroína e do ópio. É da espécie P. rhoeas que derivam quase todos os cultivares ornamentais, com fantásticas corolas matizadas de rosa, cinza, azul e carmim. Em Portugal são seguramente nativas cinco espécies, das quais a P. rhoeas parece ser a mais abundante e a P. argemone a que menos vezes é avistada, e quase sempre na região nordeste do país. São polinizadas por insectos que, dizem os entendidos, gostam de comer o pólen. As várias espécies distinguem-se bem através dos frutos, uns mais longos outros mais arredondados, uns glabros outros com espinhos, embora todos encimados por uma tampinha estriada com o que restou do estigma da flor.

O epíteto argemone deriva da palavra grega que designa «uma mancha branca ao centro», que alguns lêem como aludindo às cataratas que esta planta supostamente cura. Por causa dessa fama e da existência do género Argemone, terá havido confusão, no uso em farmacopeia popular, entre a Papaver argemone e a Argemone mexicana, esta realmente tóxica. Dessa vez, a culpada do desastre não foi a papoila.

09/09/2013

Cotovia de poupa rosada

Ceratocapnos claviculata subsp. picta (Samp.) Lidén


Não sendo muito frequente, a cotovia-de-poupa-rosada (nome com que acabámos de baptizar a planta acima ilustrada) não é por certo a raridade que as circunstâncias que a têm rodeado podem fazer crer. Como planta anual que é, o surgimento desta delicada trepadeira é efémero. As flores e frutos que a singularizam são miniaturais, potenciando a confusão com a muito mais comum cotovia-de-poupa-branca (Ceratocapnos claviculata subsp. claviculata). Foi Gonçalo Sampaio, que lhe chamou Corydalis claviculata var. picta, quem primeiro registou a sua existência, publicando em 1935 no Boletim da Sociedade Broteriana (ser. 2, vol. 10, pág. 222) a seguinte descrição:
«Encontrei esta interessantíssima variedade em Junho de 1931, nos arredores de Vila Nova de Paiva, onde abundava entre a povoação e o rio, e onde não consegui ver um único pé da forma típica da espécie, que é aquela que aparece no Minho, no Douro inferior e noutras terras da Beira Alta. Distingue-se imediatamente esta variedade por ter as pétalas exteriores laivadas de róseo-subvioláceo e as interiores fuscas na ponta, assim como por ter os frutos pilósulos. É planta verde, não glauca.»

A justeza das observações de Sampaio foi reconhecida quando, em 1953, Franco e Pinto da Silva promoveram a nossa cotovia à categoria de subespécie (Corydalis claviculata subsp. picta), galardão confirmado em 1984 pelo botânico Magnus Lindén quando a transferiu para o género Ceratocapnos. O mesmo Lindén, escrevendo na Flora Ibérica, anotou porém que «não se conservam materiais da colheita original e, ao que parece, não voltou a ser colhida senão numa única ocasião». Ficou pois a ideia de que a planta seria muito rara ou poderia mesmo estar extinta. De facto, para quem conhece as vicissitudes da botânica portuguesa, o episódio não é tanto um sintoma da raridade da planta, mas sim da escassez dos trabalhos de prospecção botânica em território nacional. Quando finalmente, na transição para este século, os botânicos regressaram ao campo, algumas ideias distorcidas e retratos incompletos foram corrigidos. Sabe-se hoje, pelo trabalho de João Domingues de Almeida (Flora e Vegetação das Serras Beira-Durienses, Coimbra, 2009), que o C. claviculata subsp. picta está de boa saúde na Beira Alta, e não apenas em Vila Nova de Paiva; e João Honrado (Flora e Vegetação do Parque Nacional da Peneda-Gerês, Porto, 2003) assinala que a planta é «frequente em matagais de orlas de bosques, na parte oriental do Parque».

O local onde a fotografámos, em Montalegre, já se situa fora do perímetro do PNPG, embora lhe seja contíguo. Mas ainda não nos satisfaz saber pelo testemunho dos sentidos que ela existe. As diferenças já assinaladas por Sampaio em relação à forma típica são tão marcantes que se nos afigura algo arbitrário mantê-la como subespécie; é urgente tirar o assunto a limpo com um estudo moderno, baseado em material colhido de fresco. Além disso, é inacreditável que a planta seja tida como endemismo lusitano, quando em Montalegre a vimos a menos de 7 Km da fronteira galega, sem nenhum obstáculo natural assinalável de permeio. Os espanhóis, em geral tão diligentes no estudo da sua flora, parecem ter descurado este território fronteiriço.

01/06/2013

Erva de obedecer

Hypecoum imberbe Sm.


Quando a vimos, num terreno cultivado junto à barragem da Bemposta, pareceu-nos uma flor mal formada, com duas pétalas de tamanho anormal. A cor e a textura dela lembraram-nos da papoila-das-praias; uma consulta da informação sobre a família Papaveraceae no portal Flora-On permitiu-nos identificá-la e aprender depois que é uma herbácea anual da Europa mediterrânica, cuja distribuição em Portugal se restringe ao Alto Alentejo, centro-este, e nordeste.

Sendo parente das papoilas e de berço agrícola, não surpreende que tenha também propriedades narcóticas e que lhe chamem, em espanhol, dormideira-das-malvas (a par de outras designações espirituosas, como pamplina, pico de pajarito, zapatilla de la reina). Erva-de-obedecer é a tradução à letra do nome do género.

A fotografia de uma planta pequenina (não mais de 40 cm de altura) que gosta de companhia e da lavoura não é tarefa fácil, mais ainda se quase só tem folhas basilares e finamente subdivididas. Por sorte, as flores, com cerca de 1,5 cm de diâmetro e simetria bilateral, de quatro pétalas amarelas douradas, dois pares de estames de formatos distintos e pólen alaranjado, são vistosas e agrupam-se em inflorescências erectas a que nenhum fotógrafo resiste. As pétalas interiores exibem umas manchinhas negras (veja a última foto) de um pigmento que é solúvel em água; parecendo uma nódoa, trata-se de facto de um enfeite cuja utilidade desconhecemos. O fruto é um vagem estreita, articulada e arqueada como um C, contendo, para dar sequência ao alfabeto, sementes pardas em forma de D (pode ver imagens de ambas as coisas aqui).

No continente ocorrem mais duas espécies do género Hypecoum, o H. littorale e o H. procumbens, de que só há registos em zonas costeiras e de solo arenoso do Algarve.

14/06/2012

Palomita e os dois rios

Lagoa, Macedo de Cavaleiros: rio Azibo a desaguar no rio Sabor
No livro O senhor Kraus, de Gonçalo M. Tavares, um Chefe recebe dos seus auxiliares um mapa do país. Não para saber onde estão os montes, mas para que nenhum metro quadrado escape às suas ordens. Pequeno e colorido, como a realidade, ali o Chefe apenas localiza com destreza o litoral e o interior. E é neste, por achar que é mais seco, que o Chefe tem o cuidado de escrever «chuva», esperando ser obedecido, ou manchar de vinho. A apreciação que com frequência fazemos deste território progressivamente esvaziado de gentes não se afasta muito desta caricatura. Esquecemo-nos até das plantas, como se elas não conseguissem sobreviver por lá sozinhas, e imaginamos uma secura sem remissão. No nordeste transmontano há prados com uma biodiversidade invejável; e, mesmo em caso de abandono, o solo pode manter-se rico em nutrientes, e ser o ideal para as herbáceas que tinham sido expulsas pelos cultivos.

Platycapnos spicata (L.) Bernh.
Encontrámos esta planta anual a caminho do rio Sabor, na orla de uma terra saudável e recheada de malmequeres, ao serviço das inúmeras abelhas de um apicultor que nos pediu sossego para não as perturbarmos. É um regalo para os fotógrafos. As folhas são penatissectas e glaucas, quase azuis, e acompanham o talo erecto até cerca de 30 cm de altura. A inflorescência em espiga tem mais de 40 flores com cerca de 6 cm de comprimento, esbranquiçadas ou rosadas, cada uma com uma unha amarela no topo e a ponta enegrecida. Das quatro pétalas, a superior é maior e tem um esporão, as outras estão unidas até à base, protegendo dois estames que vigiam um nectário. O fruto é rugoso e achatado (formato a que alude o nome do género), com uma semente.

Quando a vimos, julgámos que fosse uma Fumaria (e, de facto, Lineu designou-a por Fumaria spicata), género que temos evitado porque, com raras excepções, é muito difícil de destrinçar. A inflorescência muito compacta desmente contudo essa filiação. A Platycapnos spicata ocorre no sudoeste da Europa, norte de África e Macaronésia, e é a única espécie do seu género de que há registo em Portugal.

26/06/2009

Sono branco


Papaver somniferum subesp. setigerum

Continuamos com a revisão em branco da matéria dada. Sim, porque já antes explicámos as papoilas com algum detalhe; e, com o vigor que nos pareceu ajustado às circunstâncias, até denunciámos os efeitos da papoila-do-ópio na perturbação da ordem pública. Regressa agora a papoila-do-ópio, mas vestida de um branco que só não é inocente porque as manchas arroxeadas na base das pétalas nos fazem desconfiar de intenções menos puras.

A subespécie setigerum da Papaver somniferum está referenciada como espontânea em Portugal; um dos seus nomes comuns (segundo o Portugal Botânico de A a Z) é justamente papoila-branca. No entanto, as populações com flores brancas parecem ser mais abundantes nos Açores do que no Continente; por cá predominam as de flor cor-de-rosa. As papoilas das fotos foram avistadas há duas semanas na Serra dos Candeeiros, em local que a consciência cívica nos proíbe de revelar. (Bem sabemos como os nossos leitores têm sempre um comportamento responsável, e não é a pensar neles que adoptamos tal secretismo; mas com isto da internet nunca se sabe quem vem cá espreitar.)

13/05/2008

Cotovias-de-poupa

Acreditamos que a existência de flores no mundo vegetal não se deve apenas ao talento artístico de algumas plantas. O modo vistoso, tão caro a outros seres vivos, de cortejar os polinizadores pode sair a preço de fábrica, mas em nenhuma espécie é ao preço da chuva. Infelizmente, mesmo louras, estas beldades podem passar despercebidas aos zangões. A esta indiferença, trágica para a continuação da espécie, as plantas reagem com o remédio óbvio: optam pela auto-polinização, mantendo contudo o floreado, just in case.


Corydalis claviculata - margem do rio Tâmega

É o que acontece no género Corydalis, que tem cerca de 400 espécies no hemisfério norte (de que conhecemos duas; como se descobrirá daqui a umas poucas linhas, nem estas duas...). Cada flor leva horas a fazer, e a fornada é de uma dezena ou mais. Para cada uma são precisas quatro pétalas - uma superior em forma de capuchinho com uma graciosa crista à-Tintin, uma inferior com formato de bote e duas laterais mais estreitas que protegem os estames e o estilete - e tinta de cor que pode variar de azul a carmim, incluindo vários tons de amarelo. Estando quase pronta, acrescenta-se uma ousada esporinha a cada base.


Corydalis lutea - Hampstead Heath

A Corydalis claviculata é anual e trepadeira; a Corydalis lutea é perene e sem gavinhas. Enfim, feitios. Em ambas, as folhas são bipinadas e de um verde-alface que as permite destacar no mato de outras herbáceas. Não, caro leitor, não aponte nem decore estas designações científicas. Amanhã teremos de mudar as etiquetas: enquanto ainda nos habituávamos a chamar-lhes coridálias, os botânicos decidiram trocá-las de género. São agora Ceratocapnos claviculata e Pseudofumaria lutea, veja lá.

17/03/2008

Papoila-das-praias



Glaucium flavum

A papoila-das-praias, amplamente distribuída nos países mediterrânicos e também no centro e oeste da Europa, não parece estar em risco de extinção, mas em Portugal, onde prefere habitats costeiros, é cada vez mais difícil de encontrar. No lado gaiense da foz do Douro, na baía de S. Paio, existia uma população desta planta que obras e movimentações de terras imprevidentes fizeram desaparecer. Mais a sul, já perto da Aguda, nas dunas que delimitam o campo de golfe de Miramar, encontrámos em Junho passado o exemplar da foto. Era o único da sua espécie num local infestado de chorões (Carpobrotus edulis), onde a custo sobrevivia alguma vegetação dunar autóctone (em cima vêem-se, além desta papoila, cordeirinhos-das-praias, cardos-marítimos e morganheiras). A área foi desde então alvo de uma limpeza nada selectiva, quiçá para facilitar a busca de bolas perdidas lançadas por golfistas menos atinados: arrancaram chorões e acácias, é verdade, mas também tudo o resto. Aquelas plantas que estão presentes nas dunas vizinhas irão ressurgir sem dificuldade, mas para o Glaucium flavum a limpeza representou uma erradicação. Talvez não seja notícia, mas é um empobrecimento: a papoila-das-praias está extinta pelo menos na faixa litoral que vai da foz do Douro até Espinho.

01/01/2008

Fumaria muralis



.... Agora já conheces
.... os fósforos que tens,
.... abriga-os da chuva de dezembro.
.... Quem sabe que cigarros
.... estarão à tua espera.

.. José Miguel Silva, O sino de areia (1999)


Os gestores da Lei nº. 37/2007, que aprova normas para resguardar os cidadãos da exposição involuntária ao fumo do tabaco e, ao mesmo tempo, adopta duras medidas que cortam rente as aspirações dos que apreciam expor-se voluntariamente ao prazer imerecido de um cigarro alheio, fizeram já circular a ordem de que todos os espaços públicos fechados têm de estar etiquetados com algum de dois dísticos obrigatórios: um, azul-celeste, com um cigarro aceso, ou outro, vermelho-óbvio, com um cigarro também aceso mas censurado. Quanto aos espaços abertos, não nos chegou ainda qualquer indicação sobre aqueles onde será proibido fumar, e que cartaz deverão ostentar, mas já não deve demorar. Para adiantar serviço, informamos que aqui, neste 1/3 de blogue, vamos continuar a comunicar civilizadamente por sinais de fumo, às vezes em nuvens espessas de entrelinhas. Não só o cigarro não será banido, como poderá surgir celebrado em poesia que, como se sabe, não faz mal apenas aos pulmões. A nossa sinalização privada exibe uma planta com ares de algum excesso tabagista, escolhida porque a arte dos rótulos exige clareza e mensagens reforçadas.

A partir de hoje as instituições zelosas obrigarão o fumo a retirar-se para o exterior. Por isso, construíram belos jardins com banquinhos confortáveis de madeira, recantos rochosos de meditação e pagodes de abrigo para que os seus colaboradores que fumam possam, como exige a lei, apreciar um cigarro em bom ambiente. Depois de algum treino a acender os cigarros com vento, eles terão tempo para, nessas saídas rápidas de mitigação do vício, estimar a companhia desta erva que desponta em cada nicho de terra livre. Assim seja, neste ano. Que nos seguintes possamos voltar «ao tempo em que era bonito sofrer e fumar».

30/12/2007

Mundo em balanço

«What is right with the world is the world. In fact, nearly everything else is wrong with it. This is that great truth in the tremendous tale of Creation, a truth that our people must remember or perish. It is at the beginning that things are good, and not (as the more pallid progressives say) only at the end. The primordial things - existence, energy, fruition - are good so far as they go. You cannot have evil life, though you can have notorious evil livers. Manhood and womanhood are good things, though men and women are often perfectly pestilent. You can use poppies to drug people, or birch trees to beat them, or stones to make an idol, or corn to make a corner; but it remains true that, in the abstract, before you have done anything, each of these four things is in strict truth a glory, a beneficent speciality and variety. We do praise the Lord that there are birch trees growing amongst the rocks and poppies amongst the corn; we do praise the Lord, even if we do not believe in Him. We do admire and applaud the project of a world, just as if we had been called to council in the primal darkness and seen the first starry plan of the skies. We are, as a matter of fact, far more certain that this life of ours is a magnificent and amazing enterprise than we are that it will succeed.»
G. K. Chesterton (1910)

23/12/2007

Dicentra formosa



......Cai um sino do pinheiro de natal.
......Por muito menos se foge de casa
......de seus pais. Agachados sob o leque
......das hortênsias, descobrimos que as lágrimas
......são fáceis de engolir. Sem saber,
......já chegámos ao escuro.
......Só nos falta pôr o til na palavra solidão.


José Miguel Silva, Vista para um pátio (2003)

23/08/2007

Uma flor ao fundo do túnel



Túnel da Trindade / Papaver sp.

Não se sabe em que data ou em que circunstâncias se começou a manifestar a doença da cromofobia. Certo é que, quando a patologia foi reconhecida como tal, já ela tomara proporções epidémicas, não apenas no Porto, onde se situa o principal foco infeccioso, mas um pouco por todo o país. Esse reconhecimento é, infelizmente, ainda parcial: a corrente ortodoxa do pensamento médico recusa-se a admitir que tal doença exista; ou, aceitando embora a presença da sintomatologia num número crescente de indivíduos, não considera que ela configure um estado patológico. A esse diagnóstico conservador não será alheio o facto de grande número de portadores da doença (que nunca se assumem como tal) serem pessoas de grande influência e prestígio.

O que distingue a cromofobia de outras anomalias do foro ocular é o seu carácter voluntário: um cromófobo escolheu sê-lo e, em teoria, pode deixar de o ser a qualquer momento. Os arquitectos são a classe mais atingida pela cromofobia, a ponto de haver quem queira declará-la doença profissional. Ela manifesta-se pela recusa horrorizada de qualquer cor que não seja o branco, o verde e o sizento. A natureza, na perspectiva mórbida de tais doentes, devia deixar-se de flores e limitar-se ao verde; por isso os jardins tocados pela cromofobia por interposto arquitecto são resignadamente verdes e apenas verdes.

Não existe tratamento conhecido para a cromofobia. Ou talvez exista, mas nunca pôde ser ensaiado. É que, dado o carácter heterodoxo da escola médica que primeiro descreveu a doença, nenhum doente aceitou ainda ser submetido a testes ou terapias experimentais. Contudo, talvez alguma forma de acção directa possa mitigar os efeitos nefastos da cromofobia. A estação da Trindade, a mais importante da rede do metro do Porto, desenhada por um dos primeiros e mais célebres cromófobos, é uma das obras emblemáticas dessa corrente patológica. A estação é toda ela composta por grandes superfícies lisas e monocromáticas; a tapá-la está uma placa com um imenso relvado; e é também um relvado que cobre o declive até à boca do túnel. Mas alguém, preocupado com tão extrema manifestação de cromofobia, semeou nessa rampa algumas dezenas de flores: papoilas, dentes-de-leão, consolidas, malvas e outras que não pude identificar. Ficou o pano verde todo rasgado por cores clandestinas, mas não se sabe que efeito teve nos doentes este tratamento de choque. Poucas semanas depois, uma brigada de cromófobos disfarçada de equipa de jardinagem trouxe o corta-relva e extirpou as cores rebeldes. É possível que a epidemia cromofóbica se continue a agravar. Mas - quem sabe? - talvez ela comece a regredir e este breve episódio seja uma primeira flor ao fundo do túnel.