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20/07/2022

Favas à francesa

Em crianças, passámos algumas tardes à volta de jogos de tabuleiro, onde a peça de cada jogador avança ou recua numa via sinuosa e colorida, repleta de bonecos que indicam ora perigos ora prémios. O percurso de cada um é ditado pelo lançamento de um dado e, portanto, estes brinquedos não exigem perícia nem talento. É necessário, isso sim, paciência e algum entusiasmo que vença o sono. Neles aprende-se que nem sempre é o mérito que garante a recompensa, ou o erro que penaliza. Aqui é o acaso que manda, mais uma entidade a ser temida na infância. Ficaram-nos na memória as inúmeras vezes em que o valor do dado, que azar, nos obrigou a recuar no percurso: um castigo duplo, porque perdemos caminho e regressamos a um local já visto. E assim nos chega, de mansinho, outra lição: é preciso sabedoria para se voltar a apreciar um lugar onde já se esteve.

Vem isto a propósito de algumas idas recentes a Mogadouro. Primeiro, em meados de Março, para procurarmos núcleos de Narcissus rupicula nos afloramentos de granito e xisto que se avistam quando nos aproximamos da cidade, alguns erguendo-se acima dos 800 m. E vimo-los, muitos e perfumados. Numa segunda visita, em Abril, fomos espreitar uma ribeira encaixada num vale de acesso fácil. Subimos uma ladeira pedregosa, a par de um rebanho de cabrinhas que fazia então vagarosamente o mesmo percurso, enquanto petiscava nos taludes salpicados de orquídeas. As cabrinhas viraram à direita, nós seguimos lestos para a esquerda, descendo finalmente até à água e a este recanto fresco de sombra e verdura.



As margens desta ribeira têm amieiros, freixos e castanheiros, ladeados por bosques mais secos de azinheiras, sobreiros e zelhas. No solo notámos logo frutos de Colchicum multiflorum aninhados nas típicas rosetas de folhas longas, muitos pés de Helleborus foetidus em flor-e-fruto, e, mais perto da água, estas plantas com folhas de margens dentadas e flores da cor do vinho-tinto.

Vicia narbonensis L.


Esta herbácea anual é frequente na região mediterrânica e grande parte da Europa (a designação específica alude a Narbonne, no sul de França), mas entre nós há poucos registos dela e, dizem, algumas ameaças. O habitat que a faveta-de-Beja (nome que a Flora Ibérica assegura ser o que cá se usa para a designar) aprecia, feito de ribeiras de água límpida aconchegadas por bosques, está a desaparecer ou a fragmentar-se. Além disso, os polinizadores mais eficientes destas fabáceas, as abelhas, também não andam com a vida tranquila. E, sobretudo, com os verões mais quentes e os invernos menos chuvosos a tornarem-se regra no nordeste do país, estes cursos de água e plantas vizinhas vivem aflitos durante quase todo o ano.

Regressámos no início de Julho à ribeira do Peso, e o cenário era outro: não havia vestígios de água, o leito estava à mostra, e a vegetação rala (ou nem tanto assim, havia muita Ballota nigra) penava, como nós, ao calor. Com sorte, voltaremos lá no fim de Setembro para ver novamente a água a correr e admirar o Colchicum em flor.

14/09/2020

Erva-azul dos gatos

Uma das afirmações mais intrigantes que a ciência nos deu no século XX é a de que não é possível medir o tempo de modo universal. Dito assim, soa complicado, porque o conceito de tempo é criação nossa e, portanto, não deveria poder fugir ao nosso controle. Na verdade, embora todos usemos fracções da hora para o medir, e os relógios sejam cada vez mais precisos, o tempo não tem carácter absoluto: a velocidade a que passa depende do nosso próprio movimento; e quanto mais depressa vamos, mais lentamente ele decorre. Depois da nossa visita ao Castro de Santiago, em Mogadouro, a que se acede vagarosamente por ladeira íngreme e pedregosa, sem sombra que alivie o calor desmedido, esta relatividade do tempo ganha outro sentido: o tempo é tão rápido a passar que só ao fim de 1 hora, e uns tantos impropérios, completamos um percurso que julgámos ser capazes de percorrer em vinte minutos.



No topo do castro, porém, ao vermos esta planta fabulosa em flor na orla do bosque, damos o esforço da subida como bem empregue, e a nossa aflição com o tempo gasto é agora apenas um problema para resolver à descida.


Nepeta caerulea Aiton


Estamos na extremidade sudoeste da serra do Variz, a cerca de 950 metros de altitude, junto a um cume quartzítico de onde se avista o planalto de Miranda. Aqui há um mato ralo mas bem conservado de carvalho-negral (Q. pyrenaica) e um coberto vegetal que, uns meses antes do Verão, deve ter mostrado uma variedade notável de herbáceas. Lamentavelmente, abriram-se por ali vários estradões que, ainda que nos poupem segundos na subida e tenham revelado aos historiadores indícios de um povoado da Idade do Ferro que ali existiu, poderão destruir um habitat raro, que se julgaria parado no tempo.

O género Nepeta bem pode orgulhar-se de só ter espécies vistosas, algumas com hastes florais que ultrapassam 1 metro, outras de porte baixo mas entre as plantas mais formosas que conhecemos. Da N. caerulea, que é um endemismo da Península Ibérica, conhecem-se poucos núcleos em Portugal e quase todos com poucos indivíduos.

20/06/2017

Na pista da Pistorinia


Pistorinia hispanica (L.) DC.


Às vezes dá ideia que a fronteira luso-espanhola foi desenhada com o único intuito de nos espoliar de plantas interessantes. O roubo de Olivença, empurrando a linha fronteiriça uns quilómetros para oeste, foi tavez planeado para que alguma planta até então também nossa deixasse de existir em território português. Infelizmente, estão por estudar as motivações botânicas nas disputas territoriais entre estados vizinhos. Numa época de fronteiras abertas, em que as maiores diferenças entre cá e lá são as matrículas dos automóves e a dificuldade em encontrar um restaurante que nos sirva sopa, não é este um tema de pesquisa que atraia muitos eruditos. Podemos sem dificuldade visitar essas plantas que nos foram negadas, mas ainda dói pensar que não são nossas. Nessa partilha tão desigual, há géneros botânicos (como Sempervivum, Androsace e Petrocoptis) bastamente representadas na Península (cada um com pelo menos meia dúzia de espécies) que estão tristemente ausentes da flora portuguesa.

É assim motivo para moderado regozijo saber que a Pistorinia hispanica é também portuguesa, embora só saibamos dela na margem direita (a nossa) do Douro internacional, e em tão escasso número (vimos umas dez plantas em flor) que a sua futura permanência por cá é incerta. A sua preferência por margens arenosas de rios explica o seu gradual desaparecimento por perda de habitat. Em Portugal não há grande ou médio rio que esteja livre de barragens, e é pouco provável que a Pistorinia ainda exista, como reportava Franco na Nova Flora de Portugal, no Tejo ou no Sabor. Neste último, com o recente enchimento da barragem, as margens e as plantas que lá viviam foram afogadas numa extensão de 40 Km.

O número de espécies de Pistorinia é incerto: estão descritas umas seis, mas alguns nomes são tidos como sinónimos. Confirmadas (e documentadas com fotos nesta página) estão três espécies distribuídas entre a Península Ibérica e Marrocos; a que nos ocupa é um endemismo ibérico. Todas elas são plantas anuais carnudas, de porte erecto e baixa estatura (a P. hispanica não excede os 20 cm de altura), com flores tubulares dispostas em cimeiras. A decoração extravagante das "pétalas" — ou, mas precisamente, dos segmentos terminais em que a corola se divide — é a marca mais distintiva da Pistorinia hispanica: sobre um fundo rosa choque, traçam-se a vermelho três riscos paralelos, rematados por uma mancha também vermelha como se a flor pintasse as unhas.

25/10/2016

O sol na cascalheira

No acesso ao Cabeço das Flores e à praia do Zimbralinho, na ponta oeste da ilha de Porto Santo, nota-se logo com alguma estranheza o solo amarelo farinhento. Feito de areia com fragmentos de conchas e algas, esfarela-se ao mais leve toque, desabando com a trepidação causada pela passagem de veículos. Não fosse a chuva miúda, afinal não tão rara nesta ilha, sairíamos dali como padeiros no fim de uma fornada. Estamos num dos mais famosos geossítios da ilha, com indícios de vulcanismo submarino e habitats movediços, onde a erosão é preocupante apesar de ali terem sido plantados muitos pinheiros-de-Alepo (uma espécie resistente ao vento e à maresia com origem na região mediterrânica e descrita a partir de exemplares sírios).


Porto Santo: plantação de pinheiros-de-Alepo (Pinus halepensis Mill.) no Zimbralinho

Prossigamos até ao topo da falésia. Com o mar azul-turquesa ao fundo, começa ali uma escadaria íngreme que nos levaria a uma pequena enseada. Porém, a impedir-nos a descida está um guarda vigilante. Diz-nos ele que, naquele dia, não é permitido descer à calheta pois há uma equipa a preparar a temporada balnear que se avizinha. Onde? Ali, no cabeço, vê? Estão a soltar as pedras mal presas, as que não tardariam a tombar dos taludes. Uma vez caídas, restará uma casca bem segura que só será um perigo daqui a uns dois anos, altura em que é realizado um novo descasque.



Restou-nos recuar e procurar plantas cobertas de pó nos recantos das rochas do caminho. E lá estava, refastelado naquele ambiente seco e arenoso, um Heliotropium encimado de flores de miosótis brancas com um centro amarelo, como é usual neste género. Mas a aparência geral da planta destoava do que conhecíamos, fosse pela inflorescência mais densa ou pelas folhas crispadas, com margens revolutas, onduladas e ligeiramente crenadas. Julgámos tratar-se do H. europaeum, espécie anual frequente em Portugal, tão incomodado como nós com aquela argila calcária fina e salgada. Mas não. Trata-se de outra espécie de Heliotropium, perene e por vezes lenhosa, nativa de África, da Península Arábica, da Ásia, e das ilhas de Porto Santo e das Canárias.


Heliotropium ramosissimum (Lehm.) Sieber ex DC. [= Heliotropium crispum Desf.]


Das cerca de duzentas espécies conhecidas neste género, uma é naturalizada e duas são consideradas espontâneas na Península Ibérica: o H. europaeum e o H. supinum.



Heliotropium supinum L.


Ao contrário da espécie de Porto Santo, o rastejante H. supinum precisa de humidade no solo e aprecia margens pedregosas de rios asseados onde se espraiar. Como as do rio Sabor que escaparam à nova barragem.

01/08/2015

Ervilhaca-miúda


confluência dos rios Sabor e Maçãs
Desde o fim da Primavera, é junto aos rios e ribeiras nas terras quentes de Trás-os-Montes que a vegetação se aguenta. E, apesar da impressão de secura e aridez que nos aflige quando circulamos pelas estradas, a região tem muitos cursos de água. De caudal magro no Verão, contrastam com o avantajado das pontes, mas ainda assim são refrescantes e têm nas suas margens, ou nos taludes a cotas mais altas, plantas que só ali se dão bem.

O problema é que estes riachos correm por vales cavados, a que só acedemos por descidas acentuadas de alguns quilómetros, sacolejando em caminhos poeirentos onde as covas alternam com pedregulhos. Sem um jipe alto e robusto, ou uma viatura de rali, temos optado por conduzir com um co-piloto-apeado: enquanto um de nós dirige devagarinho o carro pelo piso traiçoeiro, o outro vai à frente para jogar fora do caminho as pedras maiores ou mais aguçadas. Se nos cruzamos com um pastor que empurra ladeira acima uma onda esbranquiçada e peluda (eram ovelhas), fingimos um interesse absorvente pela paisagem até que o grupo desapareça de vista, e só então retomamos a descida cautelosa mas que a outros pode parecer cómica. Na volta, ao fim da tarde, ainda não surgiram pedras novas no caminho, e subimos ambos jovialmente de carro, recompensados pelas novidades botânicas que trazemos lá do fundo.

As novas barragens, porém, têm vindo a resolver eficientemente este nosso problema de percurso. Com a subida das águas, simplesmente afogam os habitats, e já não há nada para procurar nem estradas de terra que valha a pena percorrer. Por exemplo, a nossa lista de lugares formidáveis mas de acesso complicado junto ao rio Sabor era longa e andava sempre com atrasos. Pois bem, o rio engordou recentemente, afogando as margens até mais de quarenta quilómetros a montante da sua foz, e, pronto, o rol de tarefas está quase cumprido. O impacto é, naturalmente, menor a norte da albufeira, em particular no ponto onde ao Sabor se junta o rio Maçãs, em Sampaio, Mogadouro. Foi aí que vimos uma leguminosa pequenina, cuja altura não ultrapassava os 12 cm, e que, soubemos depois, já se designou Vicia minima.


Vicia lathyroides L.
Confirmemos nas fotos alguns detalhes morfológicos. As flores são solitárias, uma ou duas por planta, de estandarte azul-violeta, quilha mais clara e cerca de meio centímetro de largura; surgem entre Abril e Junho (os ingleses chamam-lhe, por isso, Spring vetch). As folhas são alternadas e compostas, de folíolos penugentos com margem inteira, nervura central bem vincada e um ápice que parece o início de uma gavinha que afinal desiste de nascer. A junção da folha ao talo é apoiada por estípulas lanceoladas minúsculas.

Lemos que, embora a flor certamente atraia insectos, a auto-polinização é o esquema reprodutivo que prevalece. A planta, que é anual, produz assim cerca de uma dúzia de sementes comparativamente grandes e com um prazo de validade longo, que guarda dentro de uma vagem glabra e verrugosa. Contudo, não parece possuir um esquema de dispersão eficiente, e é talvez por isso que, em algumas regiões europeias, está no livro vermelho de espécies em perigo. Por cá, parece ter uma distribuição restrita, só havendo registos dela em Trás-os-Montes.

É nativa da Europa, parte da Ásia e Noroeste de África, e dá-se bem em prados (desde que tenham relvado ralo), orlas de matos, solos arenosos húmidos junto à costa, e até em bermas de estrada e muros antigos. O que a ameaça? O seu ciclo, que é curto, o que comporta muitos riscos como já sabemos; as inúmeras alterações do habitat, principalmente no litoral; e, também, a redução das actividades de pastoreio que permitem manter pastos com vegetação rasteira, condição essencial para a Vicia lathyroides sobreviver. Afinal aquelas ovelhas, que balindo pareciam rir do nosso modo receoso de descer a encosta, estavam a trabalhar em benefício dos nossos passeios.

19/05/2015

Rio obeso


Chamaesyce canescens (L.) Prokh. subsp. canescens [= Euphorbia chamaesyce L.]


Deslizando pela IC5 entre Alfândega da Fé e Mougadouro, os montes parecem-nos agora mais atarracados e os vales menos profundos, efeito do rio Sabor que começou a inchar doentiamente quando no final de 2014 as comportas da barragem foram fechadas. A alteração brutal da paisagem, o afogamento do vale, o arranque de centenas de milhares de árvores e o desaparecimento de habitats mediterrânicos únicos não podem ser descritos como melhorias, nem (santa ingenuidade!) como o preço a pagar por finalmente haver água à farta numa região onde ela costumava ser escassa. A água que ali está represada serve apenas para produzir energia eléctrica: nunca chegará à torneira de ninguém nem irá regar campos ou pomares ressequidos. Passada a euforia da construção, em que algumas centenas de operários poderão ter animado a economia local, o Nordeste Transmontano não tirará qualquer benefício desta forma destrutiva de progresso. Muito pelo contrário: albufeiras obesas e eutrofizadas há muitas pelo país fora; rios como o Sabor só havia um. Aqueles que procuram lugares genuínos e bem preservados terão menos motivos para visitar Trás-os-Montes. E, como quem espeta mais um prego no caixão, a mesma tragédia com os mesmos protagonistas prossegue inexorável no também transmontano vale do Tua.

Face ao corte de zimbros e azinheiras, à obliteração das mais importantes populações portugueses de buxo silvestre, e ao desaparecimento de herbáceas raras como a Mentha cervina e a Bufonia macropetala, a perda por afogamento da planta que hoje ocupa o escaparate talvez não justifique muitas lágrimas. Pende sobre ela a suspeita antiga (reproduzida na Flora Ibérica) de não ser europeia de puro sangue, mas antes um «arqueófito» originário da Anatólia e do Irão. Como quase todas as suas congéneres, algumas delas (como a C. serpens e a C. maculata) frequentadoras de fendas de calçadas urbanas, a Chamaesyce canescens prefere solos pisoteados, no seu caso com um certo grau de humidade — lamacentos é talvez a palavra certa. O leito de cheia de um rio como o Sabor é, por comparação, um lugar de prestígio onde ela, longe de prever que um lago desabaria sobre a sua cabeça, teve a ousadia e a imprudência de se instalar.

A suspeita de que a C. canescens tenha origem exótica não foi ainda confirmada e talvez nunca venha a sê-lo, fazendo lembrar aqueles processos judiciais que se arrastam anos a fio até que prescrevam sem serem levados a julgamento. Nessa altura o arguido declara que foi reconhecida a sua inocência, mas o público em geral fica a pensar outra coisa. Contudo, se a C. canescens for mesmo nativa do nosso território, como é bem possível que seja, então a sua presença por cá tornou-se tão esporádica (quatro registos apenas no portal Flora On) que, se tal publicação existisse, a espécie teria lugar garantido no Livro Vermelho da Flora Vascular Portuguesa.

O género Chamaesyce aparenta estar bem caracterizado morfologicamente: são ervas rasteiras, anuais, de folhas assimétricas na base, com inflorescências como as das eufórbias, mas axilares em vez de terminais e sem ramificação dicotómica. Contudo, estudos genéticos recentes vieram questionar a sua independência, optando agora muitos autores por incluí-lo no género Euphorbia. Um verdadeiro regresso ao passado, pois Lineu, o pai da taxonomia moderna, baptizou esta planta em 1753 no seu Species Plantarum como Euphorbia chamaesyce.

31/01/2015

A árvore que sobra


Sorbus torminalis (L.) Crantz


Desde crianças que não gostamos de ser meros espectadores. Esforçamo-nos desde então por traçar rectas, caminhos mais curtos ou mais rápidos, numa azáfama transformadora que, se destrói, logo tenta consertar para que não se note o estrago. Chegamos agora facilmente a muitos lugares e neles não faltam florestas acabadas de plantar (mas por que será que elas nos lembram desertos?), albufeiras onde estrepitosas motos de água permitem a descontracção ansiada depois de uma semana de canseira citadina (mas onde está o rio bravo que ali se admirava?) e centros de interpretação com promessas de uma via privilegiada de comunicação com a natureza.

Lamentavelmente, a natureza não tem espinhos ou ganchos com que se defender, anda muito melindrada e nem sempre resiste a tanto empreendedorismo. Decerto há plantas que também aproveitam os estradões, abertos serra acima a pensar nas eólicas, para experimentarem outros habitats favoráveis ou apenas colonizarem o novo espaço disponível. E também conhecemos as que apreciam as clareiras dos novos matagais de eucaliptos com que esverdeamos o país. Mas, mais frequentemente, depois de serem maltratadas ou de lhes derrubarem o bosque de sombra, humidade, musgo e sossego em que viviam, as plantas não conseguem adaptar-se ao novo ambiente e definham. Talvez seja essa a razão dominante para a raridade desta árvore, uma das quatro do género Sorbus no nosso país. Dela há por cá poucas populações conhecidas, avisando a Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, que elas se restringem às serras do Gerês, Nogueira e Gardunha, onde os carvalhais também já foram mais abundantes. Os registos da Flora On, porém, indicam outros locais onde a espécie resiste, na Beira Alta e em Trás-os-Montes.

O espécime que fotografámos está em Castro Vicente; ele e um companheiro mais novo parecem ser únicos numa vasta área. Encontrámo-lo graças a uma indicação do Miguel Porto, mas chegámos tarde para ver as cimeiras de flores, e os frutos não estavam ainda formados. As pétalas são brancas e rodeiam inúmeros estames, como no pilriteiro (Crataegus monogyna), e em 1753 Lineu até lhe chamou Crataegus torminalis. As folhas ainda se mantinham frescas e pudemos verificar como são glabras (embora tenham sido meio penugentas no início da Primavera), de textura rija e contorno profundamente lobado; é esse o traço que o distingue das restantes sorveiras portuguesas.

Esta sorveira (S. torminalis) é nativa do centro e sul da Europa, norte de África e parte da região mediterrânica. A informação do portal Anthos diz-nos que ela se encontra bem disseminada na Península Ibérica, mas só do lado espanhol. Ao estudarmos as referências sobre ela, lemos que o epíteto latino torminalis se refere ao risco de problemas intestinais que a ingestão das bagas pode provocar. E aprendemos ainda que esta árvore é inerme.

09/12/2014

Mudar de cor




Quando vimos esta planta pela primeira vez, no leito seco do rio Sabor, tratámos de lhe dar uma família. Seria depois mais fácil atribuir-lhe um género. O aspecto geral ajudava pouco de tão bizarro: as folhas cinzentas e enrugadas, cobertas de pêlos estrelados; as flores minúsculas, umas femininas e esverdeadas, outras masculinas e amarelas, todas escondidas pela penugem; e, na base das folhas, duas rodelas brilhantes de néctar. Pois sim, não conhecíamos nada de semelhante.


Chrozophora tinctoria (L.) Raf.
Voltámos-nos então para os frutos na esperança de eles conterem alguma pista útil: redondos, com gomos, de pé longo, casca com umas escamas esquisitas, a lembrar... a lembrar... isso mesmo, algumas eufórbias. Daí ao género foi um instante, o Flora-On já tinha fotos desta planta.

É uma herbácea anual, comum no sul da Europa, norte de África e sul da Ásia. Ao deslindar a origem do nome, percebemos que afinal já nos tínhamos cruzado com ela. A designação Chrozophora deriva do grego e alude à tinta que esta planta produz; tinctoria diz quase o mesmo, acrescentando, porém, que a tal tinta, que é de um azul-violáceo, é um corante que é (ou foi) usado em tecidos, licores e massas. E também, aprendemos agora, nas tiras de papel de tornassol que serviram, nas experiências de Química na escola secundária, como indicadores de soluções ácidas (o papel reagia corando de rosa), das neutras (roxo) e das básicas (azul). Para ver um mero papel, liso e fininho, a animar-se, houve quem abdicasse da sua laranja ou do seu pacote de leite, que tinha reservado para o lanche. Pena que não lhe tivessem contado sobre a origem da tinta.


rio Sabor

25/11/2014

Erva dos cinco dedos


Castro Vicente — rio Sabor ao fundo
Visitar os afloramentos calcários de Castro Vicente ou das minas de Santo Adrião é como entrar numa livraria esmerada e sem lacunas: lá encontramos os clássicos, os de leitura obrigatória, os recomendados, os de elevada qualidade, os dignos de apreço, os ainda não lidos, os menos virtuosos e alguns já preparados para serem esquecidos. A impressão que nos domina é a de que nunca conseguiremos ler tudo, e de que nem todos os livros têm por destino envelhecer numa biblioteca. Resta-nos o consolo de saber que, apesar de a biblioteca de plantas conter infinitas possibilidades, que o acaso proporcione e a natureza consinta, ela será sempre finita.


Dorycnium pentaphyllum Scop.


A planta das fotos, uma herbácea airosa e robusta de flores minúsculas, é uma aquisição com alguns meses que tem estado na pilha das novidades a aguardar a sua vez. Foi boa ideia esperarmos até agora para a mostrar: nestes dias cinzentos de aguaceiros, voltar ao Verão e ao nordeste pelas imagens de plantas tem sido um exercício revigorante. O que se nota nestes pequenos arbustos perenes? A folhagem, que é de um verde acetinado; as folhas com cinco folíolos por vezes desiguais; e as inflorescências em capítulos de flores com corola de estandarte e asas brancas. O fruto é uma vagem ovóide com uns 5 mm de comprimento, a lembrar uma azeitona com costura.

Estes exemplares estavam em solo pedregoso, exposto ao sol e em sítio árido. Ainda assim, chegavam a uns 80 cm de altura e faziam uma bela sombra a muitas orquídeas e a mais algumas preciosidades. Em Portugal continental há registo de mais duas espécies deste género, o D. rectum (abundante em juncais e em margens de lagoas e charcos, cujos frutos parecem salsichas) e o D. hirsutum, planta do litoral algarvio que ainda não vimos.

21/10/2014

Sabor de hortelã


Mentha cervina L.
Há gestos que nos parecem insignificantes e que desaparecem sem darmos por isso. Ficamos mais pobres e nem notamos. Houve uma última vez em que alguém, no Alentejo, foi ao rio colher uns pés de erva-peixeira para temperar a caldeirada ou a açorda. Tão abundante era ela em rios, ribeiras e charcos, e agora só sobrava aquela mísera amostra. Para o ano nem isso haveria, porque entretanto a barragem começaria a encher. Se quisesse voltar a comer peixe com aquele fino travo de hortelã, teria de ir a Lisboa, às lojas de iguarias gourmet, para comprar a peso de ouro uma magra embalagem de folhas secas.

Mais a norte a história só não se repete porque, com as variações regionais de hábitos culinários, a erva-peixeira (ou hortelã-da-ribeira, outro nome pelo qual a Mentha cervina é conhecida) nunca teve, em Trás-os-Montes, o prestígio gastronómico de que gozou no Alentejo. Daí que na província nortenha as populações espontâneas de Mentha cervina não tenham estado sujeitas à colheita imoderada que, a par da destruição dos habitats, quase levou no Alentejo ao desaparecimento da espécie. Além disso, a degradação ambiental associada às práticas da agricultura intensiva, em especial a eutrofização dos cursos de água, é muito menos grave em Trás-os-Montes do que no sul do país. No que as duas regiões se equiparam é nos efeitos catastróficos da construção das barragens sobre a vegetação que, vivendo ao pé da água, nunca aprendeu a nadar. O enchimento da barragem de Alqueva destruiu talvez os últimos núcleos de erva-peixeira nas margens do Guadiana. E quando, até final do ano, a barragem do Sabor entrar em funcionamento, vão ser afogadas algumas das mais importantes populações da espécie em Trás-os-Montes: a que existe junto à ponte de Remondes (foto em baixo) e todas as outras que subsistiram até hoje nos últimos 60 Km do curso do rio antes de se juntar ao Douro.

Talvez pareça exagerado este lamento por uma simples erva aromática quando tantas outras coisas tidas como mais importantes, entre elas grandes maciços de Buxus sempervirens, para já não falar das árvores e dos campos agrícolas, se perderão com a subida do nível das águas. Mas é esta soma de perdas, pequenas ou grandes, que se chama "destruição da biodiversidade", e todas as parcelas contam no balanço dos prejuízos. Ainda sobram contigentes importantes de Mentha cervina noutras paragens transmontanas, e tão cedo ela não desaparecerá de Portugal, mas a circunstância de não ter qualquer prioridade em acções de conservação, assim como a vulnerabilidade dos seus habitats, indicam que o caminho de diminuição progressiva por ela iniciado não tem retrocesso possível. Em toda a sua área de distribuição, que abrange a Península Ibérica, o sul de França, Argélia e Marrocos, é a mesma má sina que a persegue, a ponto de ela ter sido incluída, como vulnerável, na lista vermelha da IUCN.

Nas inflorescências semelhantes a pompons e até no perfume intenso, a Mentha cervina lembra a sua congénere M. pulegium, popularmente conhecida como poejo, bastante comum de norte a sul do país e também nos Açores. As diferenças estão porém à vista: as folhas da M. cervina são muito mais estreitas, quase lineares, e as suas flores são em geral brancas, enquanto que as da M. pulegium são rosadas ou violáceas. As preferências ecológicas são também distintas: a M. cervina ocupa charcos temporários, margens inundáveis de rios ou leitos de cursos de água temporários; a M. pulegium, sem desdenhar tais lugares, consegue tolerar ambientes mais secos.


ponte de Remondes, rio Sabor