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30/05/2021

Jojoba em Porto Santo

O Museu da Baleia na Madeira, localizado na vila piscatória do Caniçal, regista a história da caça às baleias no mar do arquipélago da Madeira e, curiosamente, inclui algumas sementes de jojoba como peça em exibição. A respectiva legenda explica porquê. O óleo de cachalote foi usado durante longos anos na indústria cosmética, parecendo insubstituível pelas suas propriedades químicas únicas e pelos benefícios inexcedíveis na hidratação e protecção da pele. A descoberta do óleo de jojoba, que tem afinal características químicas e usos semelhantes, permitiu a salvação de muitas baleias. O óleo de jojoba é uma cera líquida extraída das sementes dos arbustos de Simmondsia chinensis, uma espécie nativa dos desertos do México e Arizona que hoje vos mostramos.

Simmondsia chinensis (Link) C. K.


O nome do género homenageia o botânico inglês Thomas William Simmonds, mas o epíteto específico é um engano. O botânico que o escolheu (Johann Link) misturou inadvertidamente amostras da Califórnia com algumas chinesas, e achou que estava a nomear uma planta colectada na China. Infelizmente, as regras da taxonomia ditam que, mesmo errado, o primeiro epíteto específico registado é o que tem prioridade.

A jojoba (nome de inspiração índia) chega a uns 2 metros de altura, exibe uma copa densa de folhas opostas, coriáceas e com uma penugem branca, dispostas num arranjo espiralado que, dizem, facilita a entrada do vento (como se ele precisasse) que assim dissemina o pólen entre os ramos, onde se aninham as flores femininas. Esta é uma espécie dióica, com flores masculinas amareladas (4ª foto) e mais vistosas do que as femininas (3ª foto), decorrendo a floração em Dezembro. O fruto é uma semente castanha quando madura, com elevada percentagem do tal óleo milagroso.



As fotos são de uma colina arenosa da Ponta da Canavieira, em Porto Santo. Nesta lomba perto do mar, o solo tem a cor da argila e desfaz-se ao toque. Na década de 90 foram ali plantados inúmeros arbustos de jojoba para fazer face à intensa erosão. É que, durante os primeiros três séculos depois de ter sido descoberta pelos portugueses, a vegetação original da ilha foi sendo dizimada, fosse para dar lugar a campos de cultivo e pastos, fosse pela grande necessidade de madeira e combustível. Aposta-se agora em substituir essa floresta desaparecida por plantas resistentes a ventos fortes num ambiente semi-árido, na esperança de que possam segurar o solo e, a longo prazo, induzir um aumento de pluviosidade na ilha, apoiando desse modo o retorno do coberto vegetal autóctone. Gastando pouca água, preferindo solos pouco profundos e bem drenados, suportando elevados níveis de salinidade, não exigindo cuidados especiais de cultivo e apreciando um clima mediterrânico seco, a jojoba parece ideal para controlar a desertificação na ilha de Porto Santo.

Apesar do risco, por se tratar de espécie exótica, à jojoba pede-se também que ajude a aumentar a biodiversidade em locais onde outrora só se plantou o pinheiro mediterrânico Pinus halepensis, num regime de monocultura que outrora se adoptou, não sem perigo como hoje sabemos, nos pinhais de Leiria.

17/04/2020

Salsichas verdes



Euphorbia aphylla Brouss. ex Willd.


No aspecto geral, a Euphorbia aphylla, endémica de Tenerife, Grã-Canária e La Gomera, é um compromisso pela negativa entre as tabaibas (como a E. balsamifera e a E. atropupurea), que não têm espinhos, e os cardónes (E. canariensis), que não têm folhas. Sem espinhos nem folhas, é formada apenas pela ramagem verde, uma frágil construção de peças cilíndricas, lembrando salsichas, pacientemente articuladas. Na ponta dos raminhos jovens, mais curtos, surgem de Março a Julho as inflorescências sésseis, de um amarelo esverdeado, que pouco sobressaem do conjunto. É um arbusto delicado e rasteiro, de não mais que 80 cm de altura, adaptado a ambientes áridos, que vive em zonas rochosas perto do mar. Em Tenerife aparece sobretudo na zona do Teno, no noroeste da ilha; e na Grã-Canária é por vezes abundante ao longo das costa norte.

A Euphorbia aphylla não surgiu de geração espontânea, e espalhadas pelo continente africano há numerosas outras espécies que se lhe assemelham. Em períodos de estiagem, quase todas elas praticam um tipo de metabolismo, primeiramente identificado na família Crassulaceae, em que a planta limita as perdas de humidade fechando os estómatos durante o dia. De entre essas espécies, a Euphorbia tirucalli, abaixo ilustrada, é a que tem a distribuição mais ampla, abrangendo toda a África oriental desde a Etiópa até à África do Sul. Introduzida a amplamente cultivada na Ásia tropical e na América do Sul, é conhecida no Brasil como avelós.

Em contraste com a Euphorbia aphylla, a E. tirucalli é uma árvore que logra alcançar os sete ou oito metros de altura. Dotada de crescimento rápido, só num estádio prematuro de desenvolvimento se pode confundir com a sua irmã canarina. Às vezes o seu crescimento é tão exuberante que o tronco acaba por soçobrar ao peso da copa, e a queda de ramos é frequente. Daí que quem a cultive seja tentado a podá-la assiduamente, operação que exige as maiores cautelas, já que o látex, perigosamente cáustico, é exsudado à mais pequena lesão.

A Euphorbia aphylla, fazendo jus ao epíteto, é totalmente incapaz de produzir folhas, mas a E. tirucalli ainda vai fazendo uns ensaios tímidos e prontamente abortados. De um desses ensaios dá testemunho a última foto aí em baixo (tirada, como as outras duas, num jardim da ilha do Porto Santo): as folhas são esses apêndices vermelhos que parecem orelhas; caem sem que ninguém as puxe, e sem que se perceba que utilidade tiveram.


Euphorbia tirucalli L.

28/03/2017

Madeira Fern Fest (6)


Polypodium macaronesicum A. E. Bobrov subsp. macaronesicum


Com a sua forma simples e simétrica, que poderia ter sido rabiscada por uma criança, os polipódios são dos fetos mais comuns e mais simpáticos. Gostam da humidade e do tempo fresco, e por isso as suas folhas secam e desaparecem lá por meados de Abril, regressando com as chuvas de Outono. O seu calendário é o oposto do das árvores de folha caduca onde costumam empoleirar-se, com o admirável resultado de fornecerem a cabeleira postiça exactamente quando as árvores precisam dela. Além de enfeitarem a nudez das árvores, também são vistos em muros e em telhados. Às vezes descem até ao chão e despontam à sombra das árvores, outras vezes instalam-se em depressões dunares, com a maresia suprindo aquele grau de humidade que lhes é indispensável.

Embora a distinção entre eles possa ser subtil, há em Portugal continental três espécies de Polypodium. Não têm todos a mesma fenologia, e de facto o desaparecimento estival é mais característico do P. cambricum, que surge a baixas altitudes de norte a sul do país, mas com particular incidência na metade oeste. O P. vulgare, característico de bosques em zonas montanhosas e restrito ao norte e centro, pode manter-se viçoso durante quase todo o ano. A diferença entre os dois é notória: o P. cambricum tem as folhas bastante largas, enquanto que o P. vulgare as tem estreitas. Mas a terceira espécie vem dificultar as coisas: o P. interjectum é, em quase tudo, a média aritmética dos outros dois, e não é surpresa saber que resultou deles por hibridação e poliploidia.

Se rumarmos aos Açores ou à Madeira, mudam as árvores e mudam os muros, mas os polipódios não mudam assim tanto. A julgar pelas fotos que ilustram este texto, as duas primeiras tiradas no Porto Santo e as restantes na Madeira, o polipódio dessas ilhas assemelha-se muito, até na dessecação estival, ao P. cambricum do continente. O mesmo sucede nos Açores, como se pode ajuizar pelas fotos nesta página. Há contudo diferenças morfológicas, algumas delas microscópicas, entre os polipódios insulares e os continentais, motivo para em 1964 os polipódios macaronésios terem sido emancipados numa espécie autónoma. Estudos moleculares posteriores confirmaram a separação, estabelecendo ainda que o o P. cambricum e o P. macaronesicum pertencem à mesma linhagem, diferenciando-se por umas tantas mutações genéticas.

O nome Macaronésia sugere uma uniformidade de clima e de vegetação que anda longe de ser real. O polipódio ocorre nos Açores, Madeira e Canárias, mas será o mesmo nos três arquipélagos? Nos Açores as suas folhas têm uma textura mais coriácea, e as tentativas de hibridação (realizadas em 1996 pelo botânico R. Neuroth) do polipódio açoriano com o P. macaronesicum da Madeira e das Canárias, e com o P. cambricum do continente, falharam todas (por contraste, os dois últimos hibridaram sem dificuldade). Isso justificou a opção de alguns autores, que consideraram o polipódio açoriano como pertencente a uma terceira espécie, endémica do arquipélago.

Um artigo de 2014 de Fred Rumsey et al., intitulado Taxonomic uncertainty and a continental conundrum: Polypodium macaronesicum reassessed, veio pôr ordem no assunto. Os autores descrevem a genealogia do polipódio insular e, depois de um estudo exaustivo, reconhecem nele duas estirpes, uma na Madeira e nas Canárias, a outra nos Açores. As diferenças genéticas e morfológicas são suficientes para distinguir duas subespécies, mas não duas espécies, e por isso o P. azoricum é despromovido a P. macaronesicum subsp. azoricum. Em todo o caso, pertencendo o P. macaronesicum à mesma linha evolutiva do P. cambricum, e existindo nas ilhas uma maior diversidade genética nessa linhagem do que no continente europeu, os autores sublinham que não é de descartar a hipótese (que só outro estudo poderá confirmar ou desmentir) de o P. cambricum descender da variante insular, em vez de se verificar a hipótese contrária (e aliás mais plausível).

25/10/2016

O sol na cascalheira

No acesso ao Cabeço das Flores e à praia do Zimbralinho, na ponta oeste da ilha de Porto Santo, nota-se logo com alguma estranheza o solo amarelo farinhento. Feito de areia com fragmentos de conchas e algas, esfarela-se ao mais leve toque, desabando com a trepidação causada pela passagem de veículos. Não fosse a chuva miúda, afinal não tão rara nesta ilha, sairíamos dali como padeiros no fim de uma fornada. Estamos num dos mais famosos geossítios da ilha, com indícios de vulcanismo submarino e habitats movediços, onde a erosão é preocupante apesar de ali terem sido plantados muitos pinheiros-de-Alepo (uma espécie resistente ao vento e à maresia com origem na região mediterrânica e descrita a partir de exemplares sírios).


Porto Santo: plantação de pinheiros-de-Alepo (Pinus halepensis Mill.) no Zimbralinho

Prossigamos até ao topo da falésia. Com o mar azul-turquesa ao fundo, começa ali uma escadaria íngreme que nos levaria a uma pequena enseada. Porém, a impedir-nos a descida está um guarda vigilante. Diz-nos ele que, naquele dia, não é permitido descer à calheta pois há uma equipa a preparar a temporada balnear que se avizinha. Onde? Ali, no cabeço, vê? Estão a soltar as pedras mal presas, as que não tardariam a tombar dos taludes. Uma vez caídas, restará uma casca bem segura que só será um perigo daqui a uns dois anos, altura em que é realizado um novo descasque.



Restou-nos recuar e procurar plantas cobertas de pó nos recantos das rochas do caminho. E lá estava, refastelado naquele ambiente seco e arenoso, um Heliotropium encimado de flores de miosótis brancas com um centro amarelo, como é usual neste género. Mas a aparência geral da planta destoava do que conhecíamos, fosse pela inflorescência mais densa ou pelas folhas crispadas, com margens revolutas, onduladas e ligeiramente crenadas. Julgámos tratar-se do H. europaeum, espécie anual frequente em Portugal, tão incomodado como nós com aquela argila calcária fina e salgada. Mas não. Trata-se de outra espécie de Heliotropium, perene e por vezes lenhosa, nativa de África, da Península Arábica, da Ásia, e das ilhas de Porto Santo e das Canárias.


Heliotropium ramosissimum (Lehm.) Sieber ex DC. [= Heliotropium crispum Desf.]


Das cerca de duzentas espécies conhecidas neste género, uma é naturalizada e duas são consideradas espontâneas na Península Ibérica: o H. europaeum e o H. supinum.



Heliotropium supinum L.


Ao contrário da espécie de Porto Santo, o rastejante H. supinum precisa de humidade no solo e aprecia margens pedregosas de rios asseados onde se espraiar. Como as do rio Sabor que escaparam à nova barragem.

06/09/2016

Mistério suculento


Tolpis succulenta (Dryand.) Lowe — fotografada no Porto Santo


Uma planta lenhosa quase rastejante, lançando uma confusão de hastes folharudas, entrelaçadas como teias de aranha, salpicadas de flores amarelas: eis o retrato à la minute da Tolpis succulenta, um endemismo da Madeira e dos Açores, por ocasião da sua terceira visita a este blogue (visitas anteriores: 1.ª, 2.ª). Tem sido nossa política não repetir convidados, para que a tarefa de mostrar toda a flora portuguesa (ou ibérica, ou macaronésia, ou do vasto mundo que ainda nos falta conhecer) possa alguma vez estar concluída. Por que razão abrimos, e pela segunda vez, uma excepção para este malmequer arbustivo? Gostamos da planta, e estamos dispostos a defender-lhe a beleza contra todos os detractores. A beleza vegetal, diga-se, não é uma qualidade absoluta e abstracta, independente de um contexto. Uma flor que irrompe da pedra, que consegue alimentar-se da secura, suscita-nos maior adesão emocional do que as abundantíssimas flores dos prados. E, entre todas as possíveis formações rochosas, as das ilhas atlânticas são as que mais nos entusiasmam, por ser duplamente improvável (pela pequenez da ilha face ao oceano e pela aridez da pedra) que a vida ali conseguisse instalar-se.

Sim, tudo isto é verdade, mas a Tolpis succulenta não é a única planta das ilhas nesses habitats, e é indisfarçável que lhe temos dado tratamento preferencial. Acontece que ela, apesar de assinalada nos dois arquipélagos, apresenta um tal grau de variação que, se as plantas da Madeira fossem apresentadas às dos Açores (ou vice-versa), dificilmente as reconheceriam como suas iguais. Para comprovar o estranhamento mútuo, juntamos aqui fotos das duas variantes: em cima a madeirense (do Porto Santo), e em baixo a açoriana (de São Miguel). Salta à vista que uma tem folhas muito mais estreitas do que a outra, e que, embora o seu recorte possa variar muito, elas são tendencialmente pinatífidas na Madeira e com margens dentadas ou inteiras nos Açores. E a disposição das folhas basais numa quase-roseta é frequente na T. succulenta madeirense (ver 1.ª foto acima) mas não se observa nas plantas açorianas. Para que não se julgue que fizemos uma escolha capciosa das fotos para confirmar uma crença a priori, veja-se como nesta página da Naturdata, com imagens das duas T. succulenta, as diferenças são ainda mais notórias. As preferências ecológicas são também distintas: ao contrário do que sucede na Madeira e no Porto Santo, onde aparece em picos rochosos a altitudes consideráveis, nos Açores (e com excepção de Santa Maria, onde está por todo o lado) a T. succulenta é uma planta exclusivamente costeira.

Face ao testemunho das imagens, a estranheza é que as duas variantes tenham sido incluídas na mesma espécie, mesmo considerando que noutras épocas, não existindo fotografia digital nem estando banalizadas as viagens aéreas, as comparações não seriam tão fáceis como hoje. As plantas são organismos vivos, não objectos padronizados saídos duma linha de montagem; por isso, as descrições verbais de uma qualquer espécie admitem sempre uma margem de variação. O problema é quando o intervalo de variação é tão generoso que abarca, nos seus extremos, coisas realmente distintas. Foi o que sucedeu à Tolpis succulenta: com um bocadinho de elasticidade, conseguiu-se que a descrição originalmente aplicada às plantas madeirenses se aplicasse também às açorianas, embora de facto se estivessem a meter alhos e bugalhos no mesmo saco.

Além das óbvias diferenças morfológicas, sabe-se hoje que as duas variantes da T. succulenta são geneticamente distintas. Na verdade, a T. succulenta açoriana está evolutivamente mais próxima da T. azorica (a outra espécie do género endémica dos Açores) do que da T. succulenta madeirense. Há 15 anos que esse (tão mal guardado) segredo é conhecido. Num artigo intitulado Chloroplast DNA evidence for the roles of island colonization and extinction in Tolpis (Asteraceae: Lactuceae), publicado em 2002 no American Journal of Botany, os autores (Michael J. Moore, Javier Francisco-Ortega, Arnoldo Santos-Guerra, Robert K. Jansen) dizem o seguinte:

«We chose to follow Jarvis (1980) in using the name T. succulenta for plants of both the Azores and Madeira Islands. However, it seems clear from observations in the field, as well as from our cpDNA restriction site data, that the plants Jarvis and others have referred to this name segregate into two species, one endemic to the Azores and the other to the Madeiran archipelago.»

A mesma observação foi reforçada em artigos recentes de outros autores (por exemplo neste de Dezembro de 2015, da autoria de Lurdes Borges Silva, Julie Sardos, Miguel Menezes de Sequeira, Luís Silva, Daniel J. Crawford e Mónica Moura), mas falta ainda dar um nome apropriado à espécie açoriana para que ela seja oficialmente reconhecida como endémica do arquipélago, e para que a genuína T. succulenta seja tratada como endemismo madeirense. O problema não é assim tão simples, pois mesmo dentro dos Açores a espécie exibe variações importantes (por exemplo, as plantas do grupo central têm capítulos bem menores do que as de São Miguel e de Santa Maria). Talvez um só nome novo não baste. Aguardamos com expectativa as surpresas dos próximos capítulos.


Tolpis succulenta (Dryand.) Lowe — fotografada em São Miguel

03/09/2016

Flores cristalizadas

Imagine-se em pleno século XV, à chegada de um barco de navegadores a uma ilha nunca habitada. Derreados de cansaço, receosos da terra estranha e impressionados com o silêncio, talvez comecem por um fogo que abra uma clareira, mostre caminhos e afaste perigos. De seguida, há que encontrar água doce, alimento e abrigo. Só muito depois surgirão outras preocupações, como a limpeza pessoal e a do lugar. Nesse tempo, fazer uma mistura de água quente e cinzas de soda para branquear a roupa era acessível a todos a partir das folhas esmagadas ou queimadas de várias plantas comuns à beira mar. A barrilha (Mesembryanthemum cristallinum) era uma das mais usadas para se produzir um substituto do sabão, reservando-se as folhas da erva-do-orvalho (Mesembryanthemum nodiflorum), comestível e fonte importante de sal, para saladas e caldos. Há registos do plantio destas espécies no ilhéu Chão; actualmente, sem uso, são ambas muito frequentes em todo o arquipélago da Madeira, sobretudo perto do mar.


Mesembryanthemum crystallinum L.





Mesembryanthemum nodiflorum L.


As duas espécies de Mesembryanthemum que vimos no Porto Santo só denunciavam o parentesco pelas flores. A M. nodiflorum é mais frágil e as folhas são cilíndricas, sésseis e avermelhadas, exibindo alguns pêlos cristalinos que guardam água e sal, enquanto a protegem de geadas, ventos e insolações. É nativa da região mediterrânica, Macaronésia e zonas costeiras da Península Ibérica. A M. cristallinum (orvalho-da-aurora ou erva-gelada) é maior e mais vistosa, com as folhas ovadas ou espatuladas em arranjo compacto e densamente cobertas por balõezinhos cristalinos. Ocorre também em arribas litorais e dunas do continente. Com origem em substratos rochosos, arenosos ou argilosos do sul de África e Europa, é considerada exótica em Portugal continental e nas ilhas. Mas é de crer que em algum momento do passado ambas as espécies de Mesembryanthemum tenham sido exóticas no arquipélago da Madeira.

Há dois pormenores curiosos da adaptação das plantas do género Mesembryanthemum ao intolerável excesso de sal. Este acumula-se nas raízes e folhagem, mas é libertado à medida que as folhas envelhecem e caem. Desse modo, em vez de ser um problema, o sal transforma-se num aliado precioso para estas plantas. É que, durante a fase de produção de sementes, grandes porções da planta secam e espalham muito sal pelo chão, assegurando assim na vizinhança um habitat salgado que nenhuma outra planta consegue colonizar, e onde as suas sementes germinam sem concorrência. Quanto à aridez e calor extremos, também aí estas plantas são engenhosas a sobreviver. As suas folhas estão formatadas para, durante o dia, reduzirem a absorção de dióxido de carbono e, desse modo, evitarem perdas de água por transpiração; trabalham depois arduamente de noite para captar e armazenar dióxido de carbono, essencial à fotossíntese no dia seguinte. Por causa deste mecanismo, diz quem provou que, de dia, as folhas são muito mais saborosas.

Segundo W.T. Stearn (Dictionary of plant names for gardeners), a designação do género começou por ser Mesembrianthemum, escolhida por Jacob Breyne em 1684. Esta palavra deriva dos termos gregos mesembria (meio-dia) e anthemum (flor), em alusão ao facto de as flores só abrirem quando o sol vai alto. Entretanto descobriram-se espécies de Mesembrianthemum em que a floração é noturna, e o nome tornou-se inapropriado. O botânico alemão Johann Dillenius (1684-1747) corrigiu a designação em 1719 com um rasgo de pragmatismo genial: substituiu o i por um y, e desse modo alterou a raiz da palavra e a informação que ela fornece. Mesembryanthemum refere-se a mesos (meio), embryon (embrião) e anthemum, aludindo correctamente à posição do ovário nas flores de todas as espécies deste género.

30/08/2016

Lotus x 2

Entre as erupções que lhes deram origem e o mar que metodicamente as vai desgastando, o destino das ilhas (medido numa escala de milhões de anos) é virem do nada para ao nada regressarem. A ilha do Porto Santo, mais velha do que a Madeira e muito mais do que todas as ilhas dos Açores, já foi bem maior do que é hoje, mas a erosão prossegue e o mar só terá descanso quando não sobrar uma pedra à superfície. Não será porém durante as nossas vidas, e o mais certo é que então a humanidade já não exista.

A velhice tem prerrogativas que ninguém pode negar, como a de ter feito tudo ou quase tudo antes dos jovens que hoje mandam no mundo. Falando de ilhas e das plantas que nelas vivem, se uma espécie é comum a duas ilhas vizinhas, então a suposição natural (nem sempre confirmada na prática) é que ela tenha tido o seu berço na mais idosa das duas. Ou seja, a ilha mais velha terá criado a planta para a deixar de herança à mais nova. A dificuldade é que as espécies vegetais das ilhas não surgem por geração espontânea, mas têm origem em estirpes vindas dos continentes. Se a distância da Madeira e do Porto Santo às massas continentais africana e europeia é praticamente a mesma (o Porto Santo está ligeiramente mais próximo), a Madeira, sendo muitas vezes maior do que o Porto Santo, teve maiores probabilidades de captar as sementes colonizadoras trazidas pelos pássaros, pelos ventos ou pelas marés. Assim, e até que a ciência tire o assunto a limpo, não há modo de decidir em qual das ilhas se originaram as espécies endémicas partilhadas entre a Madeira e o Porto Santo.

Duas dessas espécies, ambas do género Lotus, figuram hoje no cartaz. É um género em que o Porto Santo leva vantagem, uma vez que detém em exclusivo a terceira espécie endémica do arquipélago, L. loweanus. Além disso, tanto o L. macranthus como o L. argyrodes, adaptados a climas áridos e a solos rochosos, são bem mais frequentes e fáceis de encontrar no Porto Santo do que na Madeira. Não seria surpresa se se concluísse serem eles originários da menor das duas ilhas.


Lotus macranthus Lowe


Que diferenças há a assinalar entre estes dois Lotus, fotografados não muito longe um do outro na subida para o Pico Branco? O L. macranthus (em cima), apesar do epíteto que significa "flor grande", não se distingue pelo maior tamanho das flores, mas antes pela cor verde que contrasta com o tom acetinado que a penugem mais densa empresta ao L. argyrodes. Além disso, o L. macranthus tem folíolos menores e algo carnudos, e a indumentação do cálice é feita de pêlos curtos, aplicados, enquanto que os do L. macranthus são compridos e patentes (compare a quarta foto em cima com as duas últimas em baixo). A diferente coloração das flores, observável nas fotos, não é um indicador fiável, já que tanto o L. macranthus como o L. argyrodes podem dar flores claras ou escuras.



Lotus argyrodes R. P. Murray


Ambas estas espécies foram uma vez ou outra assinaladas, com alto grau de incerteza, no arquipélago dos Açores, até que em 1968 P. W. Ball entendeu que as plantas açorianas eram diferentes das madeirenses e endémicas dos Açores; chamou-lhes Lotus azoricus. O assunto parecia encerrado, mas em 2006, num artigo intitulado A taxonomic survey of Lotus section Pedrosia (Leguminosae, Loteae), um grupo de botânicos a trabalhar nas universidades de Moscovo e de Perth concluiu não haver diferenças mensuráveis entre o L. argyrodes e o L. azoricus, tratando-se portanto de uma única espécie. A ser aceite tal opinião, os Açores e a Madeira partilhariam mais um endemismo, quando nos últimos anos a regra tem sido separar, em duas ou mais espécies, taxónes que antes se supunha existirem em ambos os arquipélagos. De facto, as fotos que tirámos de ambas as espécie parecem corroborar a sinonímia, havendo porém ligeiras diferenças no indumento do cálice e na forma dos folíolos. Parece-nos também, pelo que observámos no Pico e em Santa Maria, que as plantas açorianas formam tapetes muito mais extensos do que as madeirenses. Só um estudo genético, que já tarda, permitirá tirar conclusões seguras.