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20/06/2020

Ensaiões


Aeonium aureum (Hornem.) T. H. M. Mes [= Greenovia aurea (Hornem.) Webb & Berthel.]


It is a law of nature we overlook, that intellectual versatility is the compensation for change, danger and trouble. An animal perfectly in harmony with its environment is a perfect mechanism. Nature never appeals to intelligence until habit and instinct are useless. There is no intelligence where there is no change and no need of change.

H. G. Wells, The Time Machine, 1895


Aeonium spathulatum (Hornem.) Praeger

14/06/2020

Trevo do inferno



Lotus eriophthalmus Webb [= Dorycnium eriophthalmum (Webb) Webb & Berthel.]


Esbarrar na parede é muitas vezes a sina de quem procura explicação para os nomes das plantas. Vejamos o Dorycnium: ensina a Flora Iberica que o nome vem, por via latina, do grego Dorýknion, e terá sido dado na antiguidade a um pequeno arbusto de folhas prateadas a que hoje chamamos Convolvulus cneorum, e também, sem qualquer semelhança ou relação com este, à peçonhenta figueira-do-inferno (Datura stramonium). Estes dois exemplos bastam para comprovar que o termo em si é desprovido de significado, podendo ajustar-se, como um pronto-a-vestir versátil, a qualquer planta que careça de nome. O francês Tournefort (1656–1708), antecessor de Lineu, chamou Dorycnium a um género de plantas leguminosas, e o inglês Philip Miller (1691-1771), outro dos pioneiros da moderna taxonomia, acolheu a sugestão, umas décadas mais tarde, no seu The Gardeners Dictionary. Curiosamente, o nome foi também usado por Lineu, mas como epíteto específico: Lotus dorycnium foi como ele chamou ao Dorycnium pentaphyllum. De facto, muitas das espécies posteriormente conhecidas como Dorycnium (incluindo as três que são espontâneas em Portugal) foram por Lineu incluídas no género Lotus.

Os Lotus costumam ser herbáceas mais ou menos rasteiras, enquanto que os Dorycnium atingem porte arbustivo e têm geralmente caules lenhosos. Mas a flora da Madeira e das Canárias ensina-nos que bastam uns poucos milénios de evolução para que se dê o salto entre o pequeno e o grande, e entre o herbáceo e o lenhoso. Se ignorarmos o tamanho e atendermos à morfologia das folhas e das flores, a diferença entre Dorycnium e Lotus não é muito convincente. Pior ainda: a variação dentro do género Dorycnium é de tal ordem que certas espécies assemelham-se mais a alguns Lotus do que às suas supostas congéneres.

Chegados ao século XXI, os estudos moleculares vieram dar razão a Lineu, com vários artigos a sustentar que o género Dorycnium deveria ser absorvido pelo género Lotus. A maioria das espécies transferidas foi integrar uma mesma secção do género Lotus, apropriadamente chamada Dorycnium, mas entre as que ficaram noutras secções estão as três que são endémicas das ilhas Canárias. Isso significa que essas espécies (incluindo a das fotos) estão evolutivamente mais próximas de alguns Lotus convencionais (como o L. creticus e o L. azoricus) do que das suas ex-congéneres europeias (como o D. pentaphyllum). Assim, mesmo que houvesse razões para manter Dorycnium como género indpendente, as espécies das Canárias teriam que ser arrumadas noutra gaveta.

Os três “Dorycnium” canários são arbustos que podem alcançar os dois metros de altura, todos muito semelhantes, distinguindo-se pela coloração das flores e pela pilosidade (ou ausência dela) nos cálices. O “Dorycniumeriophthalmum, que ocorre em cinco ilhas (El Hierro, La Palma, Grã-Canária, Tenerife e La Gomera), é, ainda que escasso, o mais comum dos três; fotografámo-lo no Barranco do Inferno, em Tenerife. Os outros são Dorycniumspectabile, de flores rosadas, endémico de Tenerife, e Dorycniumbroussonetii, com flores de cor creme como as do D. eriophthalmum mas de cálice hirsuto, que é endémico de Tenerife e da Grã-Canária; ambos estão em perigo de extinção.

01/05/2020

Goivo das alturas



Erysimum scoparium (Brouss. ex Willd.) Wettst.


O pico do Teide, visto à distância, aparenta ser um deserto pedregoso; mas, como já aqui explicámos a propósito da violeta, do taginaste vermelho e de outras coisas mais, essa impressão é desmentida por plantas de vocação alpina que vão pintalgando as encostas de cores variadas. À lista acrescentamos hoje uma crucífera a que podemos chamar goivo-do-Teide, já que goivo é o nome habitualmente dado às espécies do género Erysimum.

A Macaronésia está moderamente bem servida no que a goivos diz respeito, com três dos quatro arquipélagos (só os Açores ficam de fora) detendo cada um deles a sua quota-parte de espécies endémicas de Erysimum. Há duas no arquipélago da Madeira (E. arbuscula no Porto Santo e E. maderense na ilha da Madeira), duas nas Canárias (E. scoparium, presente em Tenerife e La Palma, e E. albescens, na Grã-Canária), uma que ocorre nesses dois arquipélagos (E. bicolor, abaixo retratado), e finalmente uma em Cabo Verde (E. caboverdeanum, na ilha do Fogo).

Com a autoridade de quem já apreciou a maioria destes goivos no seu habitat, achamo-nos capazes de sobre eles emitir juízos de valor mais ou menos taxativos. A medalha de ouro de mérito ornamental continua bem entregue ao porto-santense E. arbuscula, mas a medalha de prata vai, com inteira justiça, para o tenerifenho E. scoparium, que combina uma folhagem glauca e sedosa com hastes erectas floridas de branco e lilás. O terceiro lugar do pódio mantém-se em disputa, não sendo de excluir atribuí-lo ao E. bicolor, que no auge da floração faz melhor figura do que aquela que deixam supor as imagens aí em baixo (obtidas em Dezembro na Grã-Canária).

Tanto no goivo-do-Teide como no goivo-da-serra (nome dado na Madeira ao E. bicolor) as flores nascem brancas e vão gradualmente mudando para lilás. Desabrocham à medida que a haste se desenvolve, fazendo com que em cima estejam sempre as flores brancas. O goivo-da-serra tem contudo um aspecto mais difuso, mais ramificado, com hastes menos erectas e inflorescência mais lassa. A folhagem é verde (não glauca), pouco ou nada tomentosa, e as folhas, além de mais largas e compridas, têm as margens esparsamente dentadas.

O porte elegante do goivo-do-Teide é ainda reforçado por ter como cenário de fundo o pico mais alto do Atlântico. Porque é ao longe que a montanha melhor se vê, não lhe faz falta subir ao cume, 3700 metros acima do nível do mar. Florir a 2700 metros de altitude, como nós o vimos no topo da Montanha Branca, já é um feito invejável.


Erysimum bicolor (Hornem.) DC.

25/04/2020

Rainha do monte verde

Em algumas obras de literatura é possível reconhecer as pessoas reais que inspiraram as personagens, ainda que os grandes romancistas fabriquem criaturas de complexidade, e relevância para a nossa memória, que em geral superam as figuras que lhes servem de modelo. Foi assim em Alice's adventures in wonderland, de Lewis Carroll, em que a Alice da narrativa parece muito mais graciosa, criativa, bem-falante e bafejada pela sorte do que a pálida Alice real. E é também o caso das histórias que são autobiografias ficcionadas, em que o escritor é a verdadeira fonte do relato, como em A escola do paraíso, de José Rodrigues Miguéis, Ernestina, de J. Rentes de Carvalho, ou Nó cego, de Carlos Vale Ferraz. E, a propósito, decerto o leitor sabe a quem aludia a frase "E diz o inteligente que acabaram as canções", de um poema de Ary dos Santos musicado antes do 25 de Abril. A planta que vos mostramos hoje pareceu-nos, quando a encontrámos na laurissilva de Anaga, em Tenerife, uma versão ficcionada das herbáceas do género Blackstonia.


Ixanthus viscosus (Sm.) Griseb.


Altaneira, de flores exageradamente grandes (como as da B. grandiflora) agrupadas em inflorescências terminais que parecem enxertadas no caule de outra planta, exibia brácteas soldadas duas a duas a abraçar o caule como é característico das Blackstonias. Seria uma caricatura perfeita destas não fossem as folhas de genciana, que sugeriam ser outro o género em causa, embora da mesma família botânica.

O género Ixanthus é endémico do arquipélago das Canárias e mono-específico: a única espécie conhecida é I. viscosus, que ocorre também na Grã-Canária, La Gomera, El Hierro e La Palma. Trata-se de uma herbácea perene, de base algo lenhosa, com cerca de 1 metro de altura e folhas muito pegajosas; e que, dizem, é conhecida como reina del monte. O monte a que aqui se alude é em geral denso, húmido e sombrio, por isso com menor competição entre herbáceas, mas ideal para plantas exclusivas destas ilhas como a Canarina canariensis, o Geranium reuteri, o Isoplexis canariensis e este Ixanthus de fantasia.

17/04/2020

Salsichas verdes



Euphorbia aphylla Brouss. ex Willd.


No aspecto geral, a Euphorbia aphylla, endémica de Tenerife, Grã-Canária e La Gomera, é um compromisso pela negativa entre as tabaibas (como a E. balsamifera e a E. atropupurea), que não têm espinhos, e os cardónes (E. canariensis), que não têm folhas. Sem espinhos nem folhas, é formada apenas pela ramagem verde, uma frágil construção de peças cilíndricas, lembrando salsichas, pacientemente articuladas. Na ponta dos raminhos jovens, mais curtos, surgem de Março a Julho as inflorescências sésseis, de um amarelo esverdeado, que pouco sobressaem do conjunto. É um arbusto delicado e rasteiro, de não mais que 80 cm de altura, adaptado a ambientes áridos, que vive em zonas rochosas perto do mar. Em Tenerife aparece sobretudo na zona do Teno, no noroeste da ilha; e na Grã-Canária é por vezes abundante ao longo das costa norte.

A Euphorbia aphylla não surgiu de geração espontânea, e espalhadas pelo continente africano há numerosas outras espécies que se lhe assemelham. Em períodos de estiagem, quase todas elas praticam um tipo de metabolismo, primeiramente identificado na família Crassulaceae, em que a planta limita as perdas de humidade fechando os estómatos durante o dia. De entre essas espécies, a Euphorbia tirucalli, abaixo ilustrada, é a que tem a distribuição mais ampla, abrangendo toda a África oriental desde a Etiópa até à África do Sul. Introduzida a amplamente cultivada na Ásia tropical e na América do Sul, é conhecida no Brasil como avelós.

Em contraste com a Euphorbia aphylla, a E. tirucalli é uma árvore que logra alcançar os sete ou oito metros de altura. Dotada de crescimento rápido, só num estádio prematuro de desenvolvimento se pode confundir com a sua irmã canarina. Às vezes o seu crescimento é tão exuberante que o tronco acaba por soçobrar ao peso da copa, e a queda de ramos é frequente. Daí que quem a cultive seja tentado a podá-la assiduamente, operação que exige as maiores cautelas, já que o látex, perigosamente cáustico, é exsudado à mais pequena lesão.

A Euphorbia aphylla, fazendo jus ao epíteto, é totalmente incapaz de produzir folhas, mas a E. tirucalli ainda vai fazendo uns ensaios tímidos e prontamente abortados. De um desses ensaios dá testemunho a última foto aí em baixo (tirada, como as outras duas, num jardim da ilha do Porto Santo): as folhas são esses apêndices vermelhos que parecem orelhas; caem sem que ninguém as puxe, e sem que se perceba que utilidade tiveram.


Euphorbia tirucalli L.

03/04/2020

De Adeje a Chamorga, ou Tenerife de lés a lés

Sideritis infernalis Bolle
Totalizam 24 as espécies endémicas de Sideritis nas ilhas Canárias. A maioria delas está restrita a uma ilha só, e nessa ilha ocupa amiúde uma área limitada. Há espécies de montanha, outras de falésias costeiras, umas que se expõem à inclemência do sol, outras que preferem lugares resguardados, umas que vivem na laurissilva, outras em pinhais, outras ainda misturando-se com a vegetação xerófila de tabaibas e cardónes. Só em Tenerife, a ilha onde o género é mais diverso, são 13 as espécies de Sideritis assinaladas. Esta prodigalidade da natureza ensina-nos que há ilhas dentro da ilha. As distâncias em Tenerife são consideráveis, medindo a ilha 85 km de uma ponta à outra, mas o relevo, além de criar distintos nichos ecológicos, potenciou os efeitos da distância, acentuando o isolamento que permitiu a evolução de muitas linhagens distintas a partir, possivelmente, de um mesmo antepassado ancestral.

Essa profusão de espécies traduz-se, por vezes, numa clara diferenciação morfológica, como podemos ajuizar pelas duas endémicas tenerifenhas que aqui trazemos. Mostra-nos o mapa que elas não podiam estar mais afastadas uma da outra: a Sideritis infernalis, acima ilustrada, vive no sudoeste da ilha, no árido barranco sobranceiro à vila de Adeje a que chamam do Inferno; a Sideritis macrostachys, em baixo, refugia-se na laurissilva de Anaga, e é possível encontrá-la ainda para lá de Chamorga, que é a povoação mais nordestina de Tenerife. A separação geográfica e a diferenciação ecológica foram usadas com bom proveito: as duas plantas têm um aspecto de tal modo contrastante que não há confusão possível entre elas.

A Sideritis infernalis, planta que não costuma ultrapassar os 70 cm de altura, tem as flores dispostas em verticilos amplamente espaçados ao longo da haste. Cada verticilo é composto por meia dúzia de flores que se sobrepõem a duas brácteas lanceoladas, opostas uma à outra. A corola, branca e com bordo castanho, apresenta lábios pouco desenvolvidos. Pela arquitectura geral, a planta faz lembrar as suas congéneres em Portugal continental -- as quais, contudo, dão flores bastante diferentes.

A Sideritis macrostachys, embora de dimensões semelhantes, tem um aspecto muito mais lanudo e fofo. A inflorescência é agora densa e compacta, a ponto de, quando as corolas caem, a geometria do conjunto fazer lembrar um favo de mel. Um favo da cor errada, é certo, branco e verde em vez de amarelo, enfeitado por estranhas línguas verdes que na verdade são brácteas. As flores, ainda que um pouco menores do que as da S. infernalis, têm os lábios mais salientes e mais bem formados, pintados do mesmo tom de castanho.

Com vantagem óbvia para a Sideritis macrostachys, ambas as espécies têm indiscutível valor ornamental. Quem sabe se pela dificuldade em se adaptarem a outros climas, não parece, contudo, que sejam muito usadas em jardinagem. Agora que as fronteiras se vão de novo fechando, e palavras como longínquo e inacessível ganham outra ressonância, talvez os jardins recuperem a vocação de nos dar a ver o mundo inteiro através das plantas.


Sideritis macrostachys Poir.

27/03/2020

Margarida do rio seco

Andar num vale seco e silencioso onde antes fluiu um rio causa alguma estranheza. O chão, de rocha bem polida, é ondulado, e o percurso ao longo do barranco encaixado é sinuoso, alimentando a cada dúzia de passadas a euforia, ou o receio, da surpresa ao virar da esquina. A impressão inicial é a de estarmos num lugar hostil que, por constantemente nos recordar o caudal de outrora, tem um carácter indeciso, como se a qualquer momento a água pudesse voltar a jorrar, submergindo-nos. Mas basta olhar para as paredes do barranco para se ter a certeza de que esse não é risco que corramos: são inúmeras as plantas que exigem solo enxuto que, uma vez desaparecido o rio, ousaram colonizar esses taludes, e nos vão tranquilizando com a sua presença.

Visitámos o Barranco del Agua, em Anaga, numa tarde quente com céu encoberto. No início da caminhada uns magros pingos de chuva salpicaram-nos, prometendo uma frescura que afinal não se concretizou. Mas na vertente sombreada do barranco notava-se o efeito dessa rara humidade, pois empoleirados em patamares onde o sol não incide e a temperatura é mais amena notavam-se uns poucos exemplares de Ranunculus cortusifolius em flor, o mesmo que encontramos abundantemente nas ilhas chuvosas dos Açores. Algures a meio do passeio vimos esta margarida de folhas carnudas e um verde inesperado num local tão árido, com grandes capítulos dispostos em corimbo.


Gonospermum revolutum (C. Sm.) Sch. Bip.



O género Gonospermum é endémico das Canárias e é quase verdade que a cada ilha coube a sua espécie, diferindo sobretudo no tamanho das inflorescências e na maior ou menor segmentação das folhas. O Gonospermum canariense é endémico das ilhas ocidentais do arquipélago (El Hierro e La Palma) e é um arbusto que pode ultrapassar 2 metros de altura; do G. ferulaceum, famoso pelos corimbos densos de flores, há registo apenas na Gran Canaria; o G. fruticosum, conhecido como corona de la reina, é a espécie mais frequente (dispersão talvez ajudada pela jardinagem), e pode ver-se em Tenerife, La Gomera, El Hierro e La Palma. Temos ainda o G. gomerae, endemismo de La Gomera, e o G. revolutum, com inflorescências menos densas, que só existe no norte de Tenerife, desde Roque Bermejo até Punta del Hidalgo.

O G. revolutum já se chamou Lugoa revoluta mas, depois de alguma controvérsia e estudos de genética molecular, o género Gonospermum passou a abrigar, desde 2001, algumas espécies antes incluídas em Lugoa e Tanacetum. Trata-se de uma herbácea perene, de base lenhosa, com cerca de meio metro de altura e cujas folhas, dispostas em vistosa roseta basal e ao longo da haste floral, exibem margens curvadas para a face inferior. É uma espécie legalmente protegida, classificada como vulnerável na lista vermelha da flora vascular espanhola.

13/03/2020

Uma espécie de justiça

Na obra Species Plantarum (1753), de Lineu, pode ler-se na página 15 a primeira descrição da Justicia hyssopifolia, endemismo das ilhas de Tenerife e La Gomera. O texto, em latim como era obrigatório e é ainda hoje recomendado (embora se permita o inglês), informa que se trata de uma espécie com folhas linear-lanceoladas e flores bilabiadas axilares, solitárias e de cor esbranquiçada -- contrastando com a maioria das espécies de Justicia, que se prezam pelas flores garridas em arranjos muito vistosos. Quanto ao habitat, fica precisamente in insulis Fortunatis, designação feliz e realmente apropriada para as ilhas Canárias.


Justicia hyssopifolia L.


Ironicamente, foi no Barranco do Inferno, em Tenerife, que vimos estes exemplares de Justicia hyssopifolia. A visita a este barranco, com muitas rochas em tons claros a encandear os passeantes incautos sem óculos escuros, e um micro-clima escaldante e quase desértico, é paga. Cada visitante recebe então um mapa com a duração máxima permitida em cada troço do percurso e um capacete devidamente desinfectado que deverá usar para se proteger de possíveis derrocadas de pedras. A duração da visita é controlada por olheiros que, ao longo do barranco, evitam que os visitantes saiam dos trilhos, colham plantas e flores ou façam demasiado ruído, se concentrem, estragando, em locais de maior biodiversidade, ou nadem nas piscinas na base da cachoeira que é servida como troféu no fim do passeio -- magrinha mas muito apreciada dada a sua raridade nesta ilha sem rios. Com a demora para observar as inúmeras plantas em detalhe, e o respeito devido pela fotografia perfeita, ultrapassámos em muito o tempo recomendado de permanência no barranco. Valeu-nos um grupo grande de alemães idosos cujo avanço no caminho foi frequentemente nulo ou mesmo negativo, e que devolveram os capacetes muito depois de nós.

Justicia é dos géneros mais populosos da família Acanthaceae, com cerca de 900 espécies conhecidas. Crê-se que tenha origem nas regiões de clima quente temperado, alimentando na América, África e Índia várias espécies de borboletas (como a Anartia fatima). Apesar de tão disseminada, e de o arquipélago da Madeira estar próximo, não há registo de endemismos conhecidos da família Acanthaceae nessas ilhas.

15/02/2020

Flores de madeira


Ceropegia fusca Bolle


Há pouco mais de dois anos, uma revisão do género Ceropegia, nomeado por Lineu em 1753 e que abrigava cerca de 220 espécies, reuniu sob essa designação mais de 700 espécies, nativas da África, Ásia, Austrália e Canárias. Uma arrumação na mesma gaveta em tão grande escala soa-nos inusitada numa época em que os estudos genéticos apontam mais frequentemente para a independência, e decerto muitos descritores de taxónes não apreciaram o almagamento. Para os que se apegam aos detalhes, como coleccionadores ávidos, algumas destas espécies não parecem sequer próximas, quanto mais primas. Ora veja o leitor estas imagens para formar a sua opinião: F1, F2, F3, F4, F5, F6, F7, F8, F9, F10. Vasta informação sobre a morfologia destas plantas é aduzida pelos autores da proposta de unificação num só género, embora dividido em várias secções, e pode ser lida aqui.

Que lhe parece? Notou concerteza semelhanças: as flores tubulares ciliadas de pé curto, com um topo formando um chapéu de bispo, um guarda-chuva, uma lanterna ou uma gaiola; os talos suculentos, enroscados em jeito de trepadeira; e as folhas grandes e verdinhas, nascendo em pares opostos. Mas há também muitos pormenores diferentes nas flores, sejam cores ou penachos que, dizem os estudiosos, são consequência de ajustes com os polinizadores -- em geral uma grande diversidade de moscas que, atraídas por aromas e tons, ficam momentaneamente enjauladas nas flores e as polinizam enquanto buscam uma saída (como descrito aqui).

Contudo, as espécies de Ceropegia endémicas das Canárias (a Ceropegia dichotoma em Tenerife, La Palma, El Hierro e La Gomera; e a Ceropegia fusca, acima ilustrada, em Tenerife e Grã-Canária) não encaixam bem neste formato. Não são trepadeiras e investiram mais nos talos cilíndricos, engrossando-os em rolos erectos e fazendo-os nascer directamente do solo até cerca de 1 metro de altura; e reduziram as folhas a apêndices sésseis, finos, caducos, de 2-5 cm de comprimento e margens revolutas, que surgem no inverno. Supõe-se que sejam o resultado da adaptação ao habitat que colonizaram nessas ilhas: seco, rochoso, de solo ralo, e com exposição prolongada ao sol e ao calor.