24/07/2021

Sabugueiro das levadas

O sabugueiro (Sambucus nigra), estimado pelos seus frutos comestíveis e por ser abrigo e alimento de muitos insectos e aves, é das poucas árvores indígenas que colonizam terrenos baldios e jardins abandonados nas nossas cidades. Recorda-nos o poder regenerador da natureza, fazendo-nos sonhar com sítios melhores. Quando o vemos na orla de descampados poeirentos onde estacionam carros ao Deus dará, desejamos que já fosse fim-de-semana e que o mesmo sabugueiro sombreasse as margens frescas de um rio límpido. Ou que estivéssemos numa das levadas da Madeira (por exemplo na do Caldeirão Verde) e que tudo fosse verde e frondoso, longe do trânsito motorizado, dos compromissos e dos prazos.

Sambucus lanceolata R. Br.


Embora muito semelhante, o sabugueiro da Madeira (Sambucus lanceolata) não é igual ao sabugueiro do continente. As obras de referência apontam-lhes três diferenças: o Sambucus lanceolata é completamente glabro, enquanto que o S. nigra pode ter alguma pilosidade (muito rala, talvez só visível à lupa) nas nervuras do verso das folhas; os frutos do primeiro ficam amarelos quando amadurecem, os do segundo ficam negros; e as flores do sabugueiro madeirense, ao contrário das do continental, são quase inodoras. Em quase tudo o resto — na folhagem imparipinada, na cor e textura do tronco, no aspecto frágil da ramificação, nas inflorescências corimbosas, no porte geral e na silhueta — os dois sabugueiros são praticamente indistinguíveis, e talvez fosse taxonomicamente mais defensável considerar um como subespécie do outro. Tem sido aliás essa a tendência em casos análogos: as variantes norte-americanas do sabugueiro, antes consideradas espécies autónomas, são agora tidas como subespécies do Sambucus nigra (S. nigra subsp. canadensis e S. nigra subsp. caerulea); e o S. palmensis, endémico das Canárias, é tratado como S. nigra subsp. palmensis por diversos autores. O último exemplo é significativo porque o sabugueiro canário é densamente tomentoso nas inflorescências e nos raminhos jovens, e é por isso bem mais fácil de distinguir do sabugueiro continental do que o seu primo da Madeira.

No que o sabugueiro da Madeira claramente se diferencia é na exigência de um habitat de qualidade: terrenos ruderalizados ou bosques dominados por exóticas não lhe servem; ele mantém-se fiel à laurissilva mais bem preservada, àquela que se acolhe em ravinas inacessíveis e acompanha ribeiros tumultuosos. Se não fossem as levadas, e os longos túneis por onde temos de furar de lanterna na mão e pescoço dobrado, não haveria maneira de chegar perto deles. É um preço irrisório a pagar pelo privilégio de visitarmos lugares tão assombrosos.

19/07/2021

O chão da laurissilva

Fazer uma flor exige às plantas que hoje dominam o planeta uma memória genética prodigiosa. O fabrico delas parece-nos automático, como uma máquina que fica desligada durante meses e, de repente, em data idêntica à do ano anterior, sem se saber por ordem de quem, é reactivada em todas as plantas da mesma espécie. Isto é uma surpresa para nós, consagrados ao manuseio livre do tempo e das coisas, mas é o resultado de um longo processo evolutivo cuja eficácia e flexibilidade foram sendo apuradas por mudanças ambientais, pela competição entre espécies, pela necessidade de adaptação a novos habitats, pela vantagem em estabelecer parcerias com os animais.

Sibthorpia peregrina L.


Nas flores mais evoluídas, parte da morfologia destina-se a proteger a estrutura reprodutiva. É que os animais, que se diria serem amigos inseparáveis das plantas, sempre se alimentaram delas — mas torcem o nariz a flores com cálices espinhosos. Depois foi preciso garantir que não se desperdiçava o pólen: não é para lamber, senhores, é para levar de flor em flor — e os sacos polínicos tornaram-se mais resistentes, fáceis de agarrar a patas ou a asas, seguros até em viagens longas. Além disso, uma fatia considerável de inovação teve de ser gasta nas recompensas aos polinizadores e nas corolas (ou nas inflorescências). Estas atraem os polinizadores, cativando a sua atenção num mundo repleto de sons, aromas, cores e movimento, mas também evitam que eles acedam a outras partes mais sensíveis da planta. Finalmente, entre a floração, a produção de frutos e a disseminação das sementes não podem passar demasiados dias: um negócio com tantos riscos tem de ser feito bem e depressa.

Todos estes cuidados com o futuro gastam muita energia, por isso cada peça tem de funcionar perfeitamente e a rotina deve executar-se pela ordem certa. Só assim as flores nascem iguais ao modelo aperfeiçoado, e a floração se sincroniza com a fome dos polinizadores. Sabemos, contudo, que para atingir este mecanismo notável de sobrevivência há meios muito diversos. Entre a espantosa diversidade de formas nas flores, há as que nos parecem, talvez enganosamente, mais simples. As do género Sibthorpia, amarelas ou roxas, são minúsculas mas com um pedicelo longo que as destaca do tapete de folhas e evita que se estraguem com a humidade excessiva do solo. A flor é um tubo quase cónico e estreito, cujo bordo tem 5 ou 6 vincos; a fingirem-se de pétalas, estes lóbulos tubulares formam uma pista de aterragem perfeitamente plana, onde os insectos poisam em segurança.



As plantas do género Sibthorpia apreciam taludes sombrios e húmidos e são herbáceas perenes e rastejantes, com caules que se enraizam pelos nós. Fala-se em cinco espécies: Sibthorpia africana, das ilhas Baleares; Sibthorpia conspicua, da Bolívia e Argentina; Sibthorpia europaea (de flores roxas), dos Açores, sul da Europa e algumas montanhas africanas; Sibthorpia repens, do México, Venezuela e Argentina; e Sibthorpia peregrina, um endemismo do arquipélago da Madeira que ocore nas ilhas da Madeira e Porto Santo. É bastante comum nas zonas de laurissilva, e fácil de avistar nas levadas entre os 500 e os 1400 m de altitude. Demorámos a ver-lhe as flores, que desabotoam entre Abril e Novembro, porque as nossas férias não coincidiam com as semanas de floração desta espécie. Naturalmente, fomos nós que tivémos de trocar a data das visitas à Madeira.

09/07/2021

O cardo branco e os seus primos



A Madeira tem em curso, há bastantes anos, um ambicioso programa de criação de sítios de interesse botânico que, a seu tempo, merecerão ser promovidos a reservas naturais locais. O que é peculiar neste programa é que as colossais verbas nele envolvidas não são usadas nos locais em questão, mas sim várias centenas de metros ao lado. Como funciona o programa? Escolhe-se uma estrada antiga, de preferência ladeada por escarpas altas e instáveis, e constrói-se uma estrada inteiramente nova em sua substituição. A estrada velha fica ao abandono, tornando-se intransitável ao fim de poucos meses pela queda de rochas que nunca são removidas. Por fim, até os peões são avisados de que, se quiserem caminhar em local tão perigoso, o fazem por sua conta e risco. A criança desobediente que resiste em cada adulto toma esse aviso como um convite irrecusável, e eis que avançamos pelo caminho proibido de cabeça desprotegida e olhos bem atentos — atentos não às rochas na iminência de cair mas às plantas que se agarram a elas, e que aqui são livres de proliferar. Se a estrada for na costa norte da ilha, a vegetação que reveste os taludes ou ocupa a via é, em geral, da mais alta qualidade, constituída quase exclusivamente por plantas endémicas ou nativas. O troço da antiga ER 101 a oeste de São Vicente, cujo estado de absoluta ruína denota abandono de longa data, é especialmente compensador para quem se dedique à prospecção botânica. (E talvez seja também especialmente perigoso — não digam que não avisámos.)

Carduus squarrosus (DC.) Lowe — ilha da Madeira


Os cardos são, em geral, plantas oportunistas capazes de medrar nos lugares mais improváveis, e não é surpresa que os haja entre as plantas que irrompem do asfalto gretado. A novidade é que a ex-faixa de rodagem está agora por conta deles, sem risco de atropelamento por veículos motorizados, e estes cardos de capítulos imaculadamente brancos não se parecem com nada do que conhecemos no continente, comprovando que nem só as plantas requintadas podem ser endemismos de distribuição restrita. O cardo-branco, exclusivo da ilha da Madeira, foi descrito como Carduus squarrosus, em 1838, pela pena de Richard Thomas Lowe. Nessa publicação, o reverendo Lowe informa-nos que esse cardo "alto e conspícuo", incluído por De Candolle no género Clavena, ocorre em vales no interior da Madeira, onde é "raríssimo", e apresenta semelhanças com o Carduus clavulatus, endémico das Canárias (ver fotos em baixo). De facto, são vários os cardos endémicos desse arquipélago; e, à vista desarmada, o da Madeira parece um compromisso entre o C. clavulatus, de que herdou o porte geral e a folhagem, e o C. volutarioides, de Tenerife, cujos capítulos brancos compactamente dispostos lhe podem ter servido de inspiração.

Tendo-o encontrado em dois lugares a 16 quilómetros um do outro, ambos na costa norte da Madeira, mas sabendo também da sua presença na costa sul da ilha, presumimos que o cardo-branco não seja tão raro como Lowe o supunha. É de crer, porém, que os novos habitats criados pelo abandono de estradas tenham favorecido a sua expansão. Com a apetência que os cardos têm por lugares ruderalizados, é mais provável deparar com ele numa berma de estrada do que nos luxuriantes vales da laurissilva. Apesar do seu gosto pela low life, há que reconhecer que o cardo-branco é bonito: ultrapassando por vezes um metro de altura, tem folhas grandes (14 cm de comprimento ou mais), caules alados moderamente espinhentos, e capítulos sésseis, quase esféricos, com brácteas cor de bronze que contrastam vivamente com o branco das flores. Se aceitasse ser domesticado, o cardo-branco faria boa figura em qualquer jardim.

Carduus clavulatus Link — Tenerife

02/07/2021

Flores e freiras

De longe, o Curral das Freiras parece uma aldeia remota, assente no fundo de um caldeirão, feita de casas brancas, muito juntas e pequeninas, rodeadas de montanhas gigantes. Vive ali gente que pastoreia gado (o lugar já se chamou Curral da Serra), cuida de castanheiros ou zela por colmeias. O acesso à aldeia foi outrora difícil, mantendo-se ali um antigo convento de freiras devidamente inacessível ao mundo profano. Furaram-se entretanto túneis, e rasgaram-se a custo estradas tortuosas e íngremes, depois substituídas por vias rápidas que permitem escoar os afamados doces e pães de castanha para o Funchal. Chegados à povoação, asseada e florida, sem a ruralidade insalubre de muitas aldeias no continente, somos recebidos por lojistas que listam com bonomia os seus produtos típicos e questionam ávidos se ficamos para almoçar.



Apesar das iguarias tentadoras (benditas castanhas; louvadas sejam aquelas abelhas), almoçamos depressa para termos tempo de explorar os túneis, as levadas e as escarpas rochosas, até porque a névoa da manhã já se dissipou e a chuva promete apenas um curto intervalo. Os taludes das velhas estradas e antigas ladeiras, hoje sem uso e pejadas de pedras, tornaram-se refúgios de vegetação endémica, alguma rara. De boa vontade ficaríamos perdidos por ali vários dias, a conhecer todas as plantas e a aprender sobre os inúmeros musgos e lagartixas.

Saxifraga maderensis D. Don


Esta saxífraga é a primeira de várias espécies que tivemos a sorte de ver floridas no Curral das Freiras durante a primeira semana de Maio. É perene e habita locais rochosos, sombrios e húmidos na zona montanhosa central da Madeira, acima dos 600 metros de altitude. Os coxins de folhas lembram os da Saxifraga portosanctana, mas na espécie S. maderensis as folhas são reniformes, com as páginas superiores glandulosas. As flores branquinhas, com anteras avermelhadas, nascem em cimeiras axilares, como é aliás frequente no género Saxifraga. Para que o leitor tenha uma ideia dos tamanhos relativos, pode anotar que cada pétala mede cerca de 1cm de comprimento.

22/06/2021

Laços de família

Euphorbia mellifera Aiton


Ocorrem na ilha da Madeira, em habitats muito distintos, duas espécies arbustivas de Euphorbia: a E. piscatoria , exclusiva do arquipélago madeirense, que ocupa as falésias soalheiras da costa sul da ilha e atinge não mais de 2 metros de altura; e a E. mellifera, endémica da Madeira e das ilhas de Tenerife, La Gomera e La Palma, nas Canárias, que mora na sombria laurissilva e pode exibir porte arbóreo, alcançando por vezes os 10 metros de altura. Se as discrepâncias no porte e nas preferências ecológicas não bastarem para diferenciar estas duas figueiras-do-inferno (nome pelo qual ambas são conhecidas na Madeira), refira-se ainda que as folhas da E. mellifera são grandes (até 20 cm de comprimento), verdes e persistentes, enquanto que as da E. piscatoria são curtas (até 7 cm), glaucas e caducas no Verão.

Sem ser abundante, a Euphorbia mellifera é fácil de encontrar na laurissilva madeirense junto às muitas levadas por onde os turistas são convidados a desfilar, e também nos escarpados vales das ribeiras que desaguam na costa norte da ilha. Pior sorte teve ela nas Canárias: embora as três ilhas onde está presente sejam as únicas do arquipélago que conservam uma extensão significativa de floresta laurissilva, talvez o menor grau de humidade ou as temperaturas mais elevadas lhe proporcionem aí condições menos favoráveis do que na Madeira. Certo é que a tabaiba-de-monteverde (é esse o seu nome canarino) é tão rara nessas ilhas que está em perigo de extinção nas Canárias.

A Euphorbia mellifera é uma excelente planta ornamental que, como quase todas as que fazem parte da nossa flora espontânea, nunca foi cultivada em jardins portugueses — pelo menos nos do continente. Deu-se contudo muito bem lá fora e são muitos os hortos ingleses e americanos que a têm para venda, tanto em semente como em vaso. E foi no Jardim Botânico de Oxford que travou conhecimento com a sua prima dos Açores, Euphorbia stygiana, nascendo desse relação um híbrido, Euphorbia x pasteurii, que também já entrou no comércio hortícola.

O facto de esse híbrido ter surgido fortuitamente, apenas porque as duas eufórbias foram plantadas lado a lado, sugere uma grande afinidade genética entre duas espécies cujas semelhanças morfológicas são evidentes. O mais provável, atendendo à idade geológica das diferentes ilhas, é que a Euphorbia mellifera tenha tido origem nas Canárias e que, após colonizar a Madeira, se tenha instalado nos Açores, onde evoluiu para aquilo que é hoje a Euphorbia stygiana. E é provável que o elo de ligação entre as duas more na ilha de Santa Maria, a mais meridional dos Açores: trata-se da Euphorbia stygiana subsp. santamariae, uma planta que está em perigo crítico de extinção na natureza (mas há razões para ter esperança) e que, morfologicamente, é intermédia entre a E. mellifera e a E. stygiana subsp. stygiana (parecendo-se aliás mais com a primeira do que com a segunda).

Ainda que muito plausíveis, tudo isto são conjecturas aguardando um estudo fundamentado — que, com as modernas técnicas filogenéticas, qualquer investigador qualificado faria com facilidade. Mas mesmo os amadores desqualificados podem reunir pequenos indícios usando, por exemplo, o olfacto. Na E. mellifera, o epíteto específico refere-se ao suave cheiro a mel da inflorescência. Tanto quanto sabemos, a E. stygiana s.str. não partilha dessa qualidade, e é mesmo provável que tenha flores inodoras. Quanto à E. santamariae, da única vez que tivemos oportunidade não lhe cheirámos as flores, mas era importante que alguém o fizesse e reportasse o resultado.

17/06/2021

Violeta da Madeira

O género Viola contém cerca de 600 espécies que se adaptaram bem ao clima temperado do hemisfério norte, com raras excepções em climas mais extremos. Na nossa visita recente à Madeira, procurámos algumas das plantas dos picos mais altos, as que florescem antes que o calor se torne excessivo, e dessa lista constava uma viola. Depois de tentar, sem sucesso, avistar algum exemplar dessa viola em flor no Pico do Areeiro, encontrámos finalmente uma planta florida no Pico Ruivo. Tivemos de subir acima de uma espessa nuvem, de sentir por vezes as orelhas e a ponta do nariz demasiado aquecidas pelo sol, para de seguida nos impacientarmos com os arrepios de vento frio, de percorrer com muita cautela bordos de escarpas mal protegidas, e de suspirar com o cansaço nos olhos de tanto procurar flores pequeninas; mas na volta, com a fotografia tão desejada, esvoaçámos de contentamento. Apesar dos inúmeros turistas, não foi preciso disputar um lugar na fila para fotografar a única flor de Viola paradoxa que ali se via. Em alegres almoços de campanha, os visitantes queriam apenas fotografar-se no belo cenário de picos com nuvens, decididos a registar, para de imediato enviar ao mundo, a heróica chegada ao topo da ilha.



Endémica do Arquipélago da Madeira, esta violeta rara está protegida pelo Anexo II e IV da Diretiva Habitats e pelo Anexo I da Convenção sobre a Vida Selvagem e os Habitats Naturais na Europa. É uma herbácea perene, de folhagem densa e folhas carnudas. As flores são solitárias e axilares, com uma corola de cerca de 2,5 centímetros de diâmetro e pétalas enfeitadas com nervuras escuras (como bigodes de gato).

Viola paradoxa Lowe

Na primeira descrição desta espécie, em 1838, Lowe assinala a parecença do tamanho, formato e disposição das pétalas das flores da Viola paradoxa com as da espécie Viola calcarata (uma planta alpina, nativa das montanhas do sudeste da Europa); as folhas, porém, escreve Lowe em latim, são como as da Viola tricolor (os pequenos amores-perfeitos coloridos em vários tons que vemos floridos entre Abril e Setembro nos canteiros de alguns jardins públicos). Uma mistura tão invulgar de morfologias valeu-lhe naturalmente o epíteto paradoxa. Floresce em Junho e vive em fissuras de rochas na zona montanhosa central da Madeira, dos 1600 aos 1800 metros de altitude.

05/06/2021

Linária das neves

Linaria alpina (L.) Mill.
Os cumes das grandes cadeias montanhosas são, a seguir ao fundo dos oceanos, os lugares menos acessíveis do planeta, mantendo-se com ecossistemas mais ou menos intocados por serem pouco propícios à presença humana. Claro que o desejo pela aventura e, mais tarde, a vontade de tornar esses lugares acessíveis aos menos enérgicos acabaram por devassar alguns deles com teleféricos, pistas de esqui, estradas, hotéis e toda a parafernália do turismo de massas. Ainda assim, nos Pirenéus, Alpes, Picos de Europa, Gredos e tantas outras montanhas pela Europa fora, a grande maioria dos cumes não se alcança sem esforço e uma boa dose de coragem. Até que a certa altura compreendemos que, pela idade ou circunstâncias de vida, há lugares que para sempre nos estarão vedados, e isso é algo que não devemos lamentar.

No nosso caso, há plantas que nunca iremos ver, alcandoradas nos picos para que nunca lhes falte o aconchego gelado que tanto apreciam. Mas na verdade não são assim tantas as plantas que estão restritas às maiores altitudes. Acontece é que aquelas que se distribuem desde os mil e poucos metros até bem acima dos dois mil vão florindo ordenadamente de baixo para cima, acompanhando o degelo — e, no período estival, quem as queira ver floridas tem que subir mais alto. Na visita que há uns anos em Agosto fizemos aos Pirenéus, onde nos ficámos preguiçosamente pelos grandes vales, poucas foram as plantas que vimos em flor.

Uma das excepções foi esta Linaria alpina, que vimos tanto na serra de Gredos como nos Pirenéus, e que com relutância nos mostrou duas ou três flores em ambas as ocasiões. É uma planta anual rasteira, de floras roxas ou azuladas com distintivas manchas amarelas no labelo, que se distribui por todas as grandes cadeias montanhosas da Europa ocidental. Aparece geralmente em altitudes acima dos 1500 metros, e atinge os 3300 nos Pirenéus. A serra da Estrela, embora compreendida nesse intervalo altitudinal, fica fora da área de distribuição da espécie, culpa dos invernos menos rigorosos causados pela proximidade do Atlântico. Por isso não desfrutámos do conforto burguês de termos a planta à mão de fotografar ao apearmo-nos do automóvel. Em Gredos, onde as estradas se quedam muito abaixo dos cumes, foram 5 ou 6 km por um trilho sempre a subir para a encontrarmos a uma altidude modesta, rondando os 2200 metros.

30/05/2021

Jojoba em Porto Santo

O Museu da Baleia na Madeira, localizado na vila piscatória do Caniçal, regista a história da caça às baleias no mar do arquipélago da Madeira e, curiosamente, inclui algumas sementes de jojoba como peça em exibição. A respectiva legenda explica porquê. O óleo de cachalote foi usado durante longos anos na indústria cosmética, parecendo insubstituível pelas suas propriedades químicas únicas e pelos benefícios inexcedíveis na hidratação e protecção da pele. A descoberta do óleo de jojoba, que tem afinal características químicas e usos semelhantes, permitiu a salvação de muitas baleias. O óleo de jojoba é uma cera líquida extraída das sementes dos arbustos de Simmondsia chinensis, uma espécie nativa dos desertos do México e Arizona que hoje vos mostramos.

Simmondsia chinensis (Link) C. K.


O nome do género homenageia o botânico inglês Thomas William Simmonds, mas o epíteto específico é um engano. O botânico que o escolheu (Johann Link) misturou inadvertidamente amostras da Califórnia com algumas chinesas, e achou que estava a nomear uma planta colectada na China. Infelizmente, as regras da taxonomia ditam que, mesmo errado, o primeiro epíteto específico registado é o que tem prioridade.

A jojoba (nome de inspiração índia) chega a uns 2 metros de altura, exibe uma copa densa de folhas opostas, coriáceas e com uma penugem branca, dispostas num arranjo espiralado que, dizem, facilita a entrada do vento (como se ele precisasse) que assim dissemina o pólen entre os ramos, onde se aninham as flores femininas. Esta é uma espécie dióica, com flores masculinas amareladas (4ª foto) e mais vistosas do que as femininas (3ª foto), decorrendo a floração em Dezembro. O fruto é uma semente castanha quando madura, com elevada percentagem do tal óleo milagroso.



As fotos são de uma colina arenosa da Ponta da Canavieira, em Porto Santo. Nesta lomba perto do mar, o solo tem a cor da argila e desfaz-se ao toque. Na década de 90 foram ali plantados inúmeros arbustos de jojoba para fazer face à intensa erosão. É que, durante os primeiros três séculos depois de ter sido descoberta pelos portugueses, a vegetação original da ilha foi sendo dizimada, fosse para dar lugar a campos de cultivo e pastos, fosse pela grande necessidade de madeira e combustível. Aposta-se agora em substituir essa floresta desaparecida por plantas resistentes a ventos fortes num ambiente semi-árido, na esperança de que possam segurar o solo e, a longo prazo, induzir um aumento de pluviosidade na ilha, apoiando desse modo o retorno do coberto vegetal autóctone. Gastando pouca água, preferindo solos pouco profundos e bem drenados, suportando elevados níveis de salinidade, não exigindo cuidados especiais de cultivo e apreciando um clima mediterrânico seco, a jojoba parece ideal para controlar a desertificação na ilha de Porto Santo.

Apesar do risco, por se tratar de espécie exótica, à jojoba pede-se também que ajude a aumentar a biodiversidade em locais onde outrora só se plantou o pinheiro mediterrânico Pinus halepensis, num regime de monocultura que outrora se adoptou, não sem perigo como hoje sabemos, nos pinhais de Leiria.

22/05/2021

O dever de não ver

Ranunculus ollissiponensis Pers.
Como crianças na hora do recreio, temos finalmente autorização para passear ao ar livre e admirar as belezas naturais fora do nosso concelho de residência, sempre sob o olhar benévolo e vigilante dos nossos tutores. Acontece que as restrições à mobilidade e o dever geral de recolhimento domiciliário resultaram, no que às plantas de floração precoce diz respeito, em restrições à visibilidade e, mais concretamente, no dever geral de não as vermos. Ninguém nos vai indemnizar pelas flores de 2020 e 2021 que fomos proibidos de ver, e ninguém nos garante que em 2022 a proibição não seja renovada, pois há um consenso alargado de que só as férias de Verão na praia merecem ser salvas, tudo o resto podendo ser sacrificado a esse objectivo. É a mitologia cristã a funcionar: purgamo-nos de pecados mais ou menos imaginários com cilícios e abstinências, para depois, de alma purificada, podermos ascender ao paraíso — ou, neste caso, descer à praia.

O botão-de-ouro ilustrado nas fotos, de seu nome Ranunculus olissiponensis, floresce entre Março e Abril, e por isso nos dois últimos anos a contemplação das suas flores esteve interdita a todos os portugueses que morassem em concelhos urbanos. Nem os lisboetas o puderam ver, apesar de o epíteto olissiponensis sugerir que este ranúnculo se dá especialmente bem na capital portuguesa. Trata-se, de facto, de uma espécie frequente em afloramentos rochosos de xisto ou calcário no norte e centro do país, rareando contudo a sul do Tejo. Em anos desconfinados, os lisboetas podem facilmente encontrar o R. olissiponensis na serra de Montejunto, e pela mesma altura (segunda quinzena de Março) é ele que cobre de amarelo os taludes das estradas do vale do Douro.

Botões-de-ouro há muitos, e quem perdeu este ranúnculo poderá ainda ver outros em habitats bastante diversificados. Por exemplo, o Ranunculus repens e o R. bulbosus, que preferem lugares encharcados, têm floração mais tardia, que se prolonga até Junho. E, nos calcários do centro e sul do país, há um ranúnculo também amarelo que floresce no Outono, o R. bullatus.

Como distinguir o Ranunculus olissiponensis dos seus congéneres? É preciso atender ao formato e pilosidade das folhas, que têm uma textura quase sedosa, e notar que tanto as hastes da planta como as sépalas das flores (2.ª foto em cima) são cobertos por pêlos brancos compridos. Se a época for avançada, o formato alongado do fruto é um indício importante. E, finalmente, há que ver se a ecologia está certa, pois o R. olissiponensis vive sobretudo em locais pedregosos e, de preferência, soalheiros.