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05/09/2025

Barranco Michelin



Usufruir de espaços naturais obriga-nos amiúde a usar caminhos que atravessam propriedades privadas. Isso não é problema de maior no norte e centro de Portugal ou nas ilhas, desde que evitemos causar estragos e fechemos todos os portões que tivermos de abrir, não vá algum gado escapar-se para onde não deve. Mas no sul do país, e em especial no Alentejo, a situação é bem diferente, parecendo às vezes que a única natureza que aí sobra para fruição pública é a faixa de poucos metros de largura encaixada entre o asfalto das estradas e as omnipresentes cercas de arame farpado; portões fechados à chave ou a cadeado são reforçados por avisos ameaçadores contra o acesso de intrusos. No sul de Espanha e nas Baleares o cenário é semelhante, com a novidade de a maioria dos espaços que poderíamos querer visitar estarem convertidos em cotos privados de caza: se pagássemos uma quota anual acederíamos a eles sem problemas, devidamente equipados com espingarda ao ombro para nos defendermos dos ataques de coelhos, perdizes e outros bichos ferozes.

No Parque Natural do Cabo de Gata-Níjar, em Almeria, e como é regra em qualquer espaço natural protegido europeu, existem vários percursos pedestres marcados, assim como lugares de acesso condicionado por razões de conservação da natureza. Inédito é que, com o aparente beneplácito das autoridades, uma empresa privada (a Michelin) se arrogue o direito de cortar, desde 2022, com vedação de arame e portão, o caminho público de acesso a uma das zonas mais cénicas do parque: a do Valle Perdido e do Barranco del Sabinar. A Michelin detém um centro de ensaios de pneus com vários quilómetros quadrados que confina com o limite norte do parque e é delimitado por altíssima cerca. O caminho agora vedado situa-se no exterior dessa cerca, em terrenos que integram o parque. É como se o Barranco del Sabinar tivesse sido instituído como zona de protecção total de acesso interdito, tendo as autoridades do parque, em vez de assumirem uma decisão que talvez se justificasse, delegado na dita empresa, ao abrigo de um espúrio respeito pela propriedade privada, a execução dessa impopular medida.

Lavatera maritima Gouan


Como o Barranco del Sabinar, tanto quanto sabemos, não foi rebaptizado Barranco Michelin e ainda faz parte do Parque Natural do Cabo de Gata-Níjar, considerámos que a Michelin não tinha o direito de nos barrar o caminho e desrespeitámos a proibição de passagem. É possível rodear a vedação se nos desviarmos umas centenas de metros, mas gente esguia como nós consegue rastejar debaixo do portão. Entre a vegetação que vimos no caminho destacavam-se extensos matos de palmeira-anã (Chamaerops humilis), a surpreendente presença de uma escorcioneira (Scorzonera angustifolia) que costumamos encontrar em Trás-os-Montes, muita canafrecha (Ferula communis) erguendo ao alto, como fogo-preso, as suas bolas de flores amarelas, e uma encosta forrada de alto a baixo com Lavatera maritima (fotos acima), planta vulgar na metade oeste da bacia mediterrânica mas que em Portugal, por só existir na serra da Arrábida, integra a Lista Vermelha da Flora. Havia ainda grandes contingentes de duas espécie de limónio que se misturavam no maior dos impudores, e que ilustramos nas fotos em baixo: o de flores roxas (Limonium sinuatum) é o mais cultivado do seu género para fins ornamentais; o de flores brancas (Limonium lobulatum), menos afamado mas não menos elegante, tem folhagem e porte parecidos, mas distingue-se pelas hastes mais largamente aladas.

Limonium sinuatum (L.) Mill.



Limonium lobatum (L. f.) Chaz.


A maior recompensa botânica do passeio aguardava-nos justamente no barranco do Sabinar: um minúsculo malmequer de flores brancas, de não mais que 5 cm de altura, folhas lobadas semi-carnudas, e hastes simples rematadas por capítulos solitários, cobria uns poucos metros quadrados de terreno. Não tivemos dúvidas de que era esse o nosso primeiro encontro, e quem sabe o último, com tão delicada formosura. Tratava-se, soubemos depois, do Mauranthemum decipiens, planta anual que só existe no norte de África (Marrocos e Argélia) e no sudeste de Espanha — e que, a julgar pelo escasso número de avistamentos (não consta de dois portais bastante completos sobre a flora europeia e mediterrânica, Photoflora e Flora silvestre del Mediterráneo), é franca­mente rara. O género Mauranthemum, aparentado com Leucanthemum mas em escala miniatural, reúne quatro espécies distribuídas pela Península Ibérica e pelo norte de África, apenas duas delas (M. decipiens e M. paludosus) ocorrendo em Espanha. Segundo a chave do género na Flora Iberica, as folhas bipinatissectas que se observam numa das fotos em baixo provam inequivocamente que o que vimos foi mesmo Mauranthemum decipiens.

Mauranthemum decipiens (Pomel) Vogt & Oberpr.

11/05/2022

Morgada dos canaviais

Com o fim da maioria das restrições à circulação, as nossas cidades reanimaram-se com turistas e com o comércio de produtos mais ou menos genuinamente portugueses. Curiosamente, parecem agora dominar as lojas de um só produto: a que só vende pastéis de nata, mornos e em embalagens de formato patenteado; a das latas de azeite e sardinha, com design arrojado, dispostas em carrosséis dourados; a do pão de farinha ancestral moída em mó de pedra; a dos peluches de baleias e vaquinhas açorianas, de igual tamanho; a dos ovos moles de Aveiro; a das carteiras em cortiça; a dos queijos com designação de origem protegida; ou a que só serve bombocas, o doce feito de uma cobertura fina de chocolate, recheio de marshmallow e uma bolachinha na base. Dir-se-ia que, com a falta de crianças no país, esta última seria uma aposta comercial sem sucesso. Mas não: a loja, pequena e forrada a caixas coloridas, está sempre com fila à porta — e todos sentimos uma pontada de inveja daquela revoada de famílias estrangeiras com muitas crianças, afadigadas a coleccionar coisas boas mais ou menos portuguesas.

Vem este arrazoado a propósito da herbácea de cujas raízes se fazia antigamente o tal marshmallow, como lhe contámos aqui quando ainda não tinhamos visto a planta. Aqui está ela:

Althaea officinalis L.


Actualmente o marshmallow já não se faz com o suco retirado das raízes da Althaea officinalis (é gelatina + açúcar + corante) mas se, apesar disso, ainda quiser conhecer esta planta, pode fazê-lo a partir do meio de Junho nos canaviais e orlas de arrozais que acompanham o rio Pranto, pouco antes de ele se juntar ao Mondego, na Figueira da Foz. Atinge cerca de 2 metros de altura e mostrará então as flores, que são como as dos hibiscos, grandes e brancas com um centro púrpura. As folhas são aveludadas nas duas faces, mas duras, talvez para se defenderem do apetite voraz dos gafanhotos, que têm fama bíblica por comezainas sem pudor deste tipo de plantas em habitats húmidos da Ásia e norte de África. Tome nota: apesar de ser perene, no Outono esta herbácea murcha e já não estará em exibição.

28/11/2021

Hibisco dos arrozais

O rio Pranto mostra, perto da foz, a placidez de um resignado. É um dos últimos afluentes do Mondego e, em Alqueidão, junto à Figueira da Foz, entrega a água com vagar, recriando um pântano gigantesco que por vezes engorda até verter. É um pasto de mosquitos multi-variantes, mas também um refúgio de garças, corvos e flamingos. Desse pachorrento caudal aproveitam os extensos arrozais do Baixo Mondego, num amanhar intensivo da terra que lamentavelmente não dispensa o uso de químicos nem o de máquinas ruidosas para guiar a água. Mas é precisamente na proximidade destes arrozais, em bermas de caminhos margosos ou nas margens de canaviais que juraríamos impróprios para quem aprecia estar vivo, que está a única população portuguesa conhecida deste fantástico arbusto.

Hibiscus-palustris L.


Quando vimos estas plantas no início de Junho, não estavam ainda em flor e a folhagem tinha um aspecto desolador. As folhas, esbranquiçadas na face inferior e com um hábito pendente, pareciam prontas a desabar. Mas um mês depois, como se salvas, exibiam lindas flores solitárias, de enormes pétalas rosadas com uma mancha branca (ou púrpura) na base e um duplo cálice a protegê-las.

Criticamente em perigo, diz o Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal. Não nos surpreende: apesar de ser uma espécie perene, o núcleo conhecido tem cerca de 150 indivíduos e está em declínio, ameaçado pela expansão do regadio, pela limpeza descuidada da vegetação e pela degradação do habitat.

Na Península Ibérica, o Hibiscus palustris tem uma distribuição restrita à Cantábria e à população portuguesa na Beira Litoral. Talvez esta se extinga se avançar o projeto de regadio no vale do Pranto. Que os decisores, frequentemente sem memória útil, não digam mais tarde que não foram avisados deste risco.

20/01/2019

Malva das falésias

A par das longas expedições científicas, só possíveis com o financiamento de reis ou mecenas, os botânicos dos séculos XVIII e XIX tinham um outro meio de, sem viajar, conhecer plantas de regiões longínquas: recebiam, de amadores ou naturalistas, plantas para herbários ou sementes que tentavam germinar. Exemplos profícuos deste tipo de cooperação científica à distância, que já aqui referimos, são o do Padre Miranda Lopes e os botânicos Gonçalo Sampaio, Júlio Henriques e A. X. Pereira Coutinho, e o do Padre Adeodat Francesc Marcet i Poal e os botânicos Joan Cadevall, Carles Pau, Pius Font i Quer e Sventenius.



Lavatera acerifolia Cav.


A história da chegada de sementes desta Lavatera endémica das Canárias ao Jardim Botânico de Madrid (JBM) resulta de mais uma instância desse intercâmbio, num tempo em que viajar era caro, demorado e quase sempre perigoso. O essencial é contado por Antonio J. Cavanilles em Observaciones botánicas y descripcion de algunas plantas neuvas, nas páginas dedicadas ao reyno vegetal dos Anales de Ciencias Naturales de 1803. E a primeira descrição desta espécie, que Cavanilles designou Lavatera acerifolia mas foi transferida para o género Malva em 1862 (embora nem todos os botânicos aceitem esta alteração), é precisamente a desse exemplar migrante, nascido a partir de sementes de Tenerife enviadas ao JBM por um tal Sr. Broussonet. O arbusto que assim se criou no Jardim tinha uns cinco pés de altura, ritidoma cinzento e folhas parecidas com as do Acer campestre. Cavanilles informa ainda que a floração decorreu entre Junho e Setembro, e que as flores são axilares, solitárias, de pétalas cordiformes de tom rosa-claro com a base mais escura, do centro das quais sobressai uma coluna púrpura de estames e anteras.

Os exemplares que vimos na estrada do Teno eram mais altos do que a planta descrita por Cavanilles e, em Dezembro, exibiam racimos terminais de flores de cor malva, por vezes brancas, com pedúnculo longo. De provável ascendência mediterrânica, a L. acerifolia cresce em lugares secos e soalheiros, especialmente em bosques termófilos e zonas rochosas entre os 200 e os 400 m com vista para o mar.

10/10/2017

Malva das ilhas douradas


Lavatera olbia L.


As ilhas douradas são as de Hyères, na Riviera francesa, destino de veraneio para gente abastada, um eterno pôr-do-Sol numa esplanada com palmeiras, brisa tépida, mar rumorejante embalando iates adormecidos. Foi lá, dois séculos antes de o turismo ser inventado, que esta Lavatera olbia ganhou o nome que hoje ostenta. Olbia era o nome grego da cidade de Hyères, e nestas coisas da taxonomia botânica já Lineu dava o exemplo ao preferir um nome obsoleto, numa língua morta, à designação vernácula. O que neste caso pode dar confusão, pois existe na Sardenha uma cidade que ainda hoje se chama Olbia, mantendo esse nome desde os primórdios da civilização helénica.

O postal turístico do Mediterrâneo exclui a chuva. Talvez a água que corre das torneiras e enche piscinas não venha do céu, mas de mananciais subterrâneos inesgotáveis, que não têm necessidade do mau tempo (como chamam os jornalistas aos dias de chuva) para serem recarregados. É com surpresa que aprendemos que esta Lavatera olbia, mediterrânica de baptismo, gosta de sítios com alguma humidade ou mesmo encharcados, como sejam as margens de pequenos rios ou ribeiras. Haverá tal coisa nas ilhas de Hyères, a maior delas com 7 Km de comprimento? Talvez a proximidade da água doce não seja, para esta malva, um requisito essencial. Lembramo-nos de a ver, há meia dúzia de anos, junto à ribeira da Fórnea, na serra dos Candeeiros. Nessa altura, como quase sempre, nenhuma água corria no leito pedregoso, mas a memória do efémero caudal de Inverno era suficiente para atrair umas tantas plantas higrófilas. O segundo encontro, em Alcobaça, aconteceu num mês de Maio chuvoso, com ribeiras extravasando dos leitos e inundando caminhos, e já não pudemos duvidar da predilecção deste arbusto pela água.

Arbusto muito ramificado, capaz de atingir dois metros e meio de altura, com flores de 5 a 7 cm de diâmetro, a Lavatera olbia, que se dá melhor em substratos calcários ou argilosos, ocorre na metade oeste da bacia mediterrânica, tanto no norte de África (Árgélia, Marrocos, Tunísia, Líbia) como na Europa (Itália, França, Espanha e Portugal). No nosso país está assinalada na Beira Litoral, Estremadura, Alentejo e Algarve. Pode confundir-se com a L. arborea, que no entanto é de menor porte, menos ramificada, apresenta flores com uma coloração diferente (as pétalas têm uma mancha escura, quase negra, na base), e prefere (embora não exclusivamente) areias litorais.

01/10/2016

Malva doce


Althaea hirsuta L.


Há uns anos, chegou ao país a receita de uns cilindros doces, brancos ou cor-de-rosa, de textura macia, por vezes servidos com chocolate. Sem nome em português, adoptámos a designação estrangeira, marshmallow. E marsh-mallow é precisamente o nome comum em inglês da planta que está na origem da receita, a Althaea officinalis, uma espécie europeia comum na metade leste da Península Ibérica mas escassa em Portugal, que aprecia canaviais e solos húmidos. Em português, conhece-se como malvavisco. Das suas raízes extraía-se outrora um suco viscoso com virtudes medicinais, muito eficiente a combater problemas respiratórios, e que era a essência da guloseima, juntando avisadamente o útil ao agradável. A tradição infelizmente perdeu-se, e hoje o único ingrediente vegetal das esponjinhas melosas vem da cana-de-açúcar.

A malva-rosa que vimos junto às minas de Santo Adrião é uma planta de substratos pedregosos, secos e básicos, em locais abertos. Por isso não é surpresa que seja tão hirsuta. De menor tamanho que o malvavisco, estava, nesse dia quente de Junho, com flores solitárias muito formosas, de pétalas rosa-azulado que (soubemos depois) se tornariam violáceas ao envelhecer. Os frutos são invólucros formados pelas sépalas, com as sementes dispostas em círculo, popularmente conhecidos como queijos.

O género Althaea (do grego althaia, cura) abriga cerca de doze espécies europeias e asiáticas, quatro delas consideradas nativas de Portugal. A Althaea hirsuta, que é anual, ocorre em quase toda a Europa, noroeste de África e sul da Ásia. Fiando-nos nos registos do portal Anthos, concluimos que é frequente na Península. A Flora Ibérica indica que, quanto a Portugal continental, a sua distribuição conhecida se restringe ao Algarve, Alto e Baixo Alentejo e Minho. Para já, só temos notícia dela em Trás-os-Montes.

12/09/2012

Trevo-encarnado

Modiola caroliniana (L.) G. Don
Crê-se que esta planta rasteira, cujo aspecto lembra o dos hibiscos, tem origem na América de clima temperado ou tropical, e não apenas nos estados da Carolina do Norte e do Sul, mas há muito se terá disseminado para regiões de ambiente idêntico noutros continentes. Tolera o ar salgado e não parece exigente com a qualidade do habitat: basta-lhe um prado bem irrigado, solo arenoso mas húmido ou um terreno inculto na margem de uma lagoa. Como não há nariz que aguente morar por longo tempo junto a águas poluídas, esta herbácea, em geral perene, consegue optar por um regime anual.

Vimos estas flores da cor do mercúrio junto à ponte de Requeixo, no concelho de Aveiro. Perto está a Pateira de Fermentelos, uma das maiores lagoas naturais da Península Ibérica (no Inverno chega aos 5 quilómetros quadrados), que integra a Zona de Protecção Especial da Ria de Aveiro e, portanto, a Rede Natura 2000. Lemos numa página mantida pela Câmara de Águeda que a Pateira já foi parte de um braço de mar, antes de se formar a ria de Aveiro. Há uns séculos, os aluviões dos rios Cértima e Águeda engordaram o caudal do que é hoje o rio Vouga e formaram uma vasta zona apaulada na sua envolvente, mas o assoreamento isolou uma lagoa, transformando-a num condomínio de patos com uma biodiversidade notável. Patos ainda há muitos, mas a lagoa está inquinada com jacintos-de-água, e são pouco críveis as descrições da flora do lugar que ali situam uma população de Marsilea quadrifolia.

Os caules da erva-do-amor (nome açoriano, tal como o do título), a quem Lineu chamou Malva caroliniana em 1753, enraizam-se pelos nós e podem chegar aos 25 cm de comprimento. As flores, de Primavera-Verão, são solitárias, axilares e minúsculas (cerca de oito milímetros de diâmetro), com cinco pétalas e outras tantas sépalas triangulares verdes que se unem num cálice um pouco mais curto que a corola. Por sorte, o mesmo pé de Modiola tinha já frutos, umas cápsulas que lembram o carrossel dos antigos projectores de diapositivos, com umas duas dezenas de sementes duplas alinhadas em círculo e separadas por raios que se encaixam como numa roda.

A designação Modiola, do latim modiolus, alude ao formato do fruto e foi proposta pelo botânico alemão Conrad Moench em 1794. Este género é hoje mono-específico depois de as outras espécies se terem mudado para o Modiolastrum; talvez a Modiola não tarde a juntar-se-lhes.

Ponte de Requeixo, Aveiro

24/11/2011

Chica flor

Malva parviflora L.


Já choveu o bastante para que em Bragança, nos próximos meses, a água não falte. No resto do país, mesmo antes das chuvas de Novembro, o nível das barragens não chegou a ser motivo de preocupação. O ano que vem promete colheitas fartas. Mas, como somos uma sociedade evoluída, a nossa prosperidade nada tem a ver com a produção de alimentos, ou mesmo com qualquer outro tipo de produção. Quem dera que houvesse bananeiras, como há nas ilhas afortunadas, para nos deixarmos ficar à sua sombra num descanso apaziguado, sabendo que nada depende de nós.

Há ainda porém algum atavismo que nos alegra quando a chuva cai. Dissolve-se a ansiedade miudinha que nos roía depois de tantas semanas sem pinga de água. Semanas em que a visão de uma planta florescendo na estiagem nos alimentava uma esperança fútil. Como esta malva a romper de uma terra porosa que, mesmo com chuva persistente, nunca retém água por muito tempo.

O epíteto parviflora não é um comentário à inteligência das flores; antes nos informa, com muito acerto, de como elas são pequenas. Com um diâmetro de 5 a 10 mm, as flores da Malva parviflora são, por larga margem, as mais diminutas de entre todas as espécies de Malva espontâneas na Península Ibérica. A única outra espécie com morfologia semelhante, a Malva neglecta, tem flores igualmente axilares, mas consideravelmente maiores (até 2,5 cm) e dotadas de pedúnculos alongados (as da Malva parviflora são quase sésseis). Ressalve-se ainda que a Malva parviflora, podendo embora apresentar-se prostrada como a planta da foto, tem hastes geralmente erectas ou ascendentes, ao contrário da Malva neglecta. Ambas as plantas são algo ruderais e preferem solos nitrificados; mas, para minimizar confusões, têm em Portugal uma distribuição quase disjunta: a M. neglecta é exclusivamente nortenha (Beira Alta, Minho e Trás-os-Montes) e a M. parviflora, embora surja também em Trás-os-Montes (ou, mais precisamente, no Alto Douro), é mais comum no centro e sul do território (Alentejo, Algarve, Estremadura, Ribatejo e Beira Baixa).

03/11/2011

Vamos às malvas

Malva tournefortiana L.
Ensina o dicionário da Porto Editora que "mandar às malvas" é o mesmo que "mandar bugiar", numa curiosa opção de esclarecer o significado de uma expressão popular recorrendo a outra expressão popular. Talvez na norma culta da língua não haja qualquer expressão equivalente. Dito de outro modo: quem use no seu falar de um vocabulário e sintaxe impecáveis, servidos por uma voz modulada nas harmonias da pronúncia padrão, nunca poderá mandar ninguém às malvas. Ou bugiar. Faltam-lhe palavras para isso. O mundo da gente educada, em Portugal, deve ser um fastio sem remissão.

As malvas têm outra conotação mais sinistra: "ir às malvas" é também "ir para o cemitério" ou "morrer". Expressão apropriada à nossa sorte pós-troika, mas que reflecte com igual acerto o destino do vale onde, em Junho de 2010, as imagens foram captadas. As margens do rio Tua, onde viviam as malvas e muitas mais plantas e árvores, vão desaparecer afogadas pela barragem. O ria Tua vai às malvas, e com ele toda a biodiversidade que se acolhia nas suas margens. Era uma vez.

Sobra um parágrafo para as minudências botânicas. Das seis espécies de Malva que são espontâneas em Portugal, a M. tournefortiana, que floresce no Verão e no final da Primavera, é talvez a mais elegante e a que tem flores mais vistosas. A afirmação só não é taxativa porque há uma outra espécie, a M. hispanica, que muito se lhe assemelha: ambas atingem 60 a 90 cm de altura e têm flores de um rosa pálido com 3 ou mais centímetros de diâmetro. Distinguem-se sobretudo pelas folhas (profundamente recortadas as da M. tournefortiana, arredondadas as da M. hispanica) e pelo cálice das flores (muito mais curtos na M. tournefortiana). Quanto à distribuição, a M. tournefortiana faz o pleno das províncias nortenhas, rareando no sul; a M. hispanica tem o comportamento inverso, e no centro do país não é incomum encontrá-las juntas.

20/02/2010

Tílias limianas

Tilia tomentosa Moench
Some little time ago I stood among immemorial English trees that seemed to take hold upon the stars like a brood of Ygdrasils. As I walked among these living pillars I became gradually aware that the rustics who lived and died in their shadow adopted a very curious conversational tone. They seemed to be constantly apologizing for the trees, as if they were a very poor show. After elaborate investigation, I discovered that their gloomy and penitent tone was traceable to the fact that it was winter and all the trees were bare. I assured them that I did not resent the fact that it was winter, that I knew the thing had happened before, and that no forethought on their part could have averted this blow of destiny. But I could not in any way reconcile them to the fact that it was winter. There was evidently a general feeling that I had caught the trees in a kind of disgraceful deshabille, and that they ought not to be seen until, like the first human sinners, they had covered themselves with leaves. So it is quite clear that, while very few people appear to know anything of how trees look in winter, the actual foresters know less than anyone.

G.K. Chesterton, The Defendant (1901)

17/02/2010

Cabeleira postiça

Polypodium interjectum Shivas


Sabemos que o Inverno é para cumprir quando as árvores largam a cabeleira verde. Tivéssemos nós, como elas, a paciência de esperar sem perder a compostura, e o mundo seria um lugar mais calmo. Há porém um fenómeno que nos faz duvidar do bom senso de algumas árvores, sobretudo das que já levam muitas décadas de existência. Não é que elas, como se se envergonhassem da nudez, se recobrem esparsamente com uma verdura postiça?

Nem é preciso ir ao Jardim Botânico de Coimbra para ver tal coisa, embora as tílias da famosa avenida sejam particularmente susceptíveis a esta caquéctica forma de vaidade. Se o leitor está numa sala que dá para uma rua com árvores, chegue-se aí num instante à janela. Ou então, quando mais logo for passear o cão, esteja atento à árvore onde ele escolhe aliviar-se. Porque são muitas as árvores em cujas ramadas uma folhagem rala, mas indubitavelmente verde, faz companhia ao musgo.

Essa folhagem que a árvore toma de empréstimo pertence a um feto do género Polypodium. Três espécies de difícil distinção entre si são comuns em Portugal. Não juramos que o Polypodium interjectum, acima ilustrado, que por vezes apresenta as extremidades das pinas arredondadas em vez de pontiagudas, e tem soros de forma elíptica ou oval, seja o mesmo que resolveu empoleirar-se na tília aí em baixo. Mas esta distinção é de pouca importância: todos os nossos polipódios têm morfologia semelhante e partilham o mesmo gosto de cavalgar nas árvores. Não são plantas parasitas, mas apenas epífitas, tal como as orquídeas dos trópicos. Acontece-lhes também viverem agarradas a rochas, muros, telhados ou beirais.

O Polypodium interjectum leva em português os nomes de feto-doce ou fentelho. As suas frondes, de que em cima vemos a frente lisa e o verso salpicado de esporângios, atingem os 40 cm de comprimento. É um feto que se encontra espalhado por boa parte da Europa.

Tilia x europaea L. — Jardim Botânico de Coimbra