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14/12/2012

Ranúnculo de espadas


Ranunculus flammula L.


Nomes vulgares: centella, lesser spearwort; dizem que a designação vernácula em português é ranúnculo-flámula, mas tal afirmação não é verosímil
Ecologia: planta ripícola, de pauis, turfeiras, pastos húmidos e margens de cursos de água
Distribuição global: nativa de quase toda a Europa, noroeste de África, Macaronésia e oeste asiático
Distribuição em Portugal: há registos desta planta em quase todas as províncias portuguesas, e também nos Açores e Madeira
Época de floração: Março a Dezembro na Península Ibérica; no norte da Europa, entre Junho e Outubro; nas ilhas açorianas, de Maio a Novembro
Data e local das fotos: Fevereiro de 2012, lagoas de Bertiandos, Ponte de Lima (foto 1); Junho de 2012, Torreira (fotos 2, 3 e 4) e Alfena, Valongo (fotos 5 e 6)
Informações adicionais: herbácea vivaz e rizomatosa, tem hábito erecto (com cerca de 50 cm de altura, por vezes mais) ou rastejante, e caule estriado e glabro que se enraíza pelos nós; as folhas basais, de pecíolo longo, são lineares e de margens inteiras na variedade tenuifolius Wallr., lanceoladas e de margens serradas na variedade serratus DC.; as folhas caulinares superiores são mais estreitas e quase sésseis; as flores (pequenas chamas, como indica o epíteto flammula que Lineu escolheu) têm pé alto e são em geral solitárias, com uma corola que mede cerca de 1,5 cm de diâmetro e um cálice de cinco sépalas que parecem pétalas menores; pode ver-se um fruto na quarta foto

02/02/2011

Verónica-de-folhas-longas

Veronica longifolia L.
Nomes vulgares: long-leaved speedwell, langblättriger ehrenpreis
Distribuição global: Europa, desde a Alemanha até à Rússia, em margens de rios e em prados alagadiços
Distribuição em Portugal: cultivada em alguns (raros) jardins
Época de floração (no seu habitat natural): Junho a Agosto
Data e local das fotos: Parque do Arnado, Ponte de Lima, Novembro de 2007

30/09/2010

O chão da lagoa

Lindernia dubia (L.) Pennell


A Lagoa do Mimoso, que integra a Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e, com São Pedro de Arcos, o Sítio ‘Rio Lima’ de Interesse Comunitário, transforma-se no Verão num pedaço de lua. A gestão deste sistema lacustre tem de manter «a harmonia entre o homem e a natureza» e por isso, dizem, é preciso escoar as lagoas para que, no Inverno, os terrenos agrícolas vizinhos não se encharquem em demasia. Seja, suspiramos.

Para cobrir a nudez, enquanto não chove, vale-se de plantas solidárias, algumas alóctones. A Lindernia dubia é uma herbácea anual com cerca de 30 cm de altura, natural da costa oeste americana, do Canadá ao Chile, e introduzida na Península Ibérica. Aprecia margens de ribeiros e terrenos temporariamente alagados com escassa vegetação permanente. Lineu chamou-lhe Gratiola dubia (do latim gratia, agradável), pela semelhança (duvidosa) com as plantas do género Gratiola, mas o naturalista italiano Carlo Allioni (1728-1804) emancipou-a num género que homenageia o botânico alemão Franz Balthasar von Lindern (1682-1755). Manteve o epíteto dubia, como quem pede desculpa pela ousadia, que só foi aceite em 1935. Hoje há já quem proponha uma família nova, Linderniaceae, para alojar as mais de sessenta espécies do género Lindernia.

As flores deste morrião têm um cálice de cinco sépalas e uma corola tubular de cerca de 1 cm de comprimento, branca com cambiantes azuis. O fruto é uma cápsula com sementes amarelas, como denuncia a designação vernácula yellowseed false pimpernel.

02/09/2010

Saudades para a Dona Genciana

Gentiana pneumonanthe L.


Espero pelo verão como quem espera por uma outra vida, diz Ruy Belo. Pelo contrário, para as lagoas de Ponte de Lima, os dias quentes do nosso repouso e novas errâncias são um ensaio da morte. Desde que em 1995 drenaram os canais de escoamento de água — para responder às queixas de quem lavra ou pasta nos campos próximos, que se encharcavam no Inverno — as lagoas quase desaparecem no período estival. Como se deveria ter previsto, a vegetação que era usual encontrar com os pés na água, alguma de natureza excepcional, vive (se é que ainda vive) dias aflitos. Por exemplo, os folhetos de informação relatam que já se registou a presença na lagoa do Mimoso de exemplares do género Utricularia; mas com a lagoa seca, tal como a vimos, a planta dificilmente sobrevive.

Como sempre, há quem ganhe com a desventura dos outros. A bela Gentiana pneumonanthe gosta precisamente destes relvados moderadamente húmidos com solo ácido; e, apesar de as fotos serem de exemplares da serra do Gerês, vimos há poucos dias muitos mais nos terrenos incultos adjacentes às lagoas. Esta herbácea vivaz rizomatosa tem folhas lineares opostas, de cerca de 3 cm de comprimento, que abraçam um caule de altura variável: as plantas do Gerês são baixinhas, as de Ponte de Lima ultrapassam frequentemente os 60 cm. As pétalas, de uns 5 cm, pintalgadas de dourado e plicadas, formam um tubo azul com cinco faixas verdes no exterior; rodeiam cinco estames e um estilete curto com néctar na base. Está na lista de plantas vulneráveis em vários habitats, alguns da Península Ibérica. Num projecto alemão que selecciona uma flor por ano para incentivar o apreço pelas plantas silvestres, o cálice-da-aurora foi a primeira a ser escolhida.

A maioria das cerca de quatrocentas espécies do género Gentiana distribuem-se pelas regiões temperadas da Europa, América e Ásia, preferindo prados de montanha se lhes calha viver em zona mais quente. Em Portugal, além da nortenha G. pneumonanthe, ocorre a G. lutea L., natural do centro e sul da Europa. Se esta genciana esguia de flores amarelas já existiu em todo o território aqui referenciado (o que parece improvável), agora só a podemos admirar na serra da Estrela; e tem já destaque garantido no livro vermelho das plantas ameaçadas, quando ele for publicado. Parte da culpa cabe ao rei Gentius da Ilíria, região dos Balcãs actualmente dividida por vários países (Albânia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro e Sérvia), a quem se atribui a descoberta de virtudes medicinais nas raízes da G. lutea, ainda hoje utilizadas para aromatizar e tonificar bebidas.

01/09/2010

Patinhar em seco

Lythrum portula (L.) D. A. Webb


O que há de mais notável nesta planta glabra e rasteira — habitante de terrenos lamacentos ou de águas baixas e estagnadas — é o contraste entre ela e as suas irmãs. Quem iria adivinhar que a patinha (Lythrum portula), a salgueirinha (L. salicaria) e a erva-sapa (L. junceum) pertencem todas ao mesmo género botânico? Como pode uma ervita prostrada ter algum parentesco com uma planta altaneira e erecta que frequentemente atinge metro e meio de altura? E há ainda a questão das flores: as da L. salicaria são vistosas, de pétalas rosadas; as da L. portula, resguardadas nas axilas das folhas, são minúsculas e, na maioria dos casos, nem pétalas têm (quando as têm, elas são igualmente cor-de-rosa). Algumas medidas ajudam à comparação: as folhas da L. portula têm cerca de 1 cm de comprimento, e as flores, tal como os frutos (visíveis nas fotos), não ultrapassam os 2 mm. A planta é anual, e os seus caules, que costumam enraizar-se nos nós, são muito ramificados, formando um entrelaçado confuso.

O Lythrum portula tem uma ampla distribuição europeia, e só está ausente da Islândia. Em Portugal, e apesar do optimismo de alguns, não é assim tão fácil encontrá-la. Na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, contudo, é uma presença comum em terrenos turfosos nos arredores de Pitões das Júnias; e também é possível vê-la na Área Protegida das Lagoas, em Ponte de Lima.

20/02/2010

Tílias limianas

Tilia tomentosa Moench
Some little time ago I stood among immemorial English trees that seemed to take hold upon the stars like a brood of Ygdrasils. As I walked among these living pillars I became gradually aware that the rustics who lived and died in their shadow adopted a very curious conversational tone. They seemed to be constantly apologizing for the trees, as if they were a very poor show. After elaborate investigation, I discovered that their gloomy and penitent tone was traceable to the fact that it was winter and all the trees were bare. I assured them that I did not resent the fact that it was winter, that I knew the thing had happened before, and that no forethought on their part could have averted this blow of destiny. But I could not in any way reconcile them to the fact that it was winter. There was evidently a general feeling that I had caught the trees in a kind of disgraceful deshabille, and that they ought not to be seen until, like the first human sinners, they had covered themselves with leaves. So it is quite clear that, while very few people appear to know anything of how trees look in winter, the actual foresters know less than anyone.

G.K. Chesterton, The Defendant (1901)

06/07/2009

Elogio da espera



Toda espera é um pequeno exílio do desejo. A espera supõe paciência, e eis aí um ato exclusivamente humano.
Luiz Antonio de Assis Brasil, Ensaios íntimos e imperfeitos (2008)


É um prado esquinado e florido, rasgado por um carril de caminho de ferro, projecto de Eva Barcala Pérez e José Manuel Mouriño Lorenzo para o Festival de Jardins de Ponte de Lima. As cores fortes mas em plantas minúsculas (como as linárias), e a ausência de movimento, desenham de modo rigoroso uma pausa: um momento consciente de vagar que estranhamos, nós que ocupamos com afã todos os minutos da nossa vida.

Este jardim dá corpo ao conceito de terceira paisagem de Gilles Clément: um espaço indeciso, desprovido de função, ao qual se torna difícil atribuir um nome. Encontra-se em orlas de bosques, ao longo de estradas e rios, nos recantos mais esquecidos da cultura, lá onde as máquinas não conseguem chegar. Tirando partido da falta de decisão humana, as herbáceas nestes domínios crescem desempoeiradas, de malas prontas para o despejo.

Sem querer, esta designação empurra, com alguma aleivosia, este tipo de jardim para o «terceiro mundo». Alusão certeira: para os paisagistas defensores do valor dos jardins que lhes vem dos «equipamentos» e das «instalações», da área construída e não da biodiversidade e sustentabilidade, este é um espaço subdesenvolvido, não capitalista (o 1º mundo) nem socialista industrializado (o 2º). E talvez só desta terceira paisagem se possa genuinamente esperar o não-alinhamento e uma união que transforme o modo de (vi)ver a Terra.

27/06/2009

Escola do olhar

A arte, que preparou o chão para o idoso e curvou a abóbada celeste para o cristão, é agora desperdiçada em latas e pulseiras. Estes tempos são piores do que se pensa.
Johann W. Goethe



As fotos mostram outro jardim do Festival de Ponte de Lima, que as autoras (Carla Correia e Vera Elvas) intitularam Pintando (n)o jardim. Combinam-se nele, com certa irreverência mas sentido fascínio, a ideia e a forma de um bocado de mundo dividido por cores. A rota sugerida leva-nos até canteiros com molhos de Achillea filipendulina, Osteospermum sp., Salvia splendens, Tagetes patula, Verbena "Temari Blue".

O material não convencional nesta fusão é o lençol que, estendido como roupa limpa mas maculado de tinta, assinala os torrões onde as plantas parecem ter sido obrigadas a respeitar certa paleta de tons. Estas telas perfiladas estão em posição que lhes permite, com suave brisa, receber o visitante com uma discreta vénia, e, levantadas por vento impetuoso, formar um tecto que duplica o chão. São manuais que nos ensinam a ver, que encurtam a distância entre o mapa e o lugar.

Pintura e a paisagem têm neste jardim a mesma idade, mas reparamos na insignificância do traço da primeira pelo contraste com a autenticidade da segunda. Os salpicos nos panos evocam vagueações entre montanhas, em atmosfera rarefeita, ali onde o horizonte é vasto mas a lonjura torna a natureza indistinta. Ao contrário da paisagem, o quadro cabe em casa mas dele ouvem-se sons, não acordes.

20/06/2009

Amor em linha



.....Love alters not with his brief hours and weeks,
.....But bears it out even to the edge of doom.
.....If this be error and upon me proved,
.....I never writ, nor no man ever loved.
.....William Shakespeare


O 5º Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima termina a 31 de Outubro. O tema deste ano é As artes no jardim, mantendo-se a intenção de relançar o culto pela jardinagem e de permitir aos visitantes conhecer perspectivas distintas sobre a concepção de um jardim como componente obrigatória de encantamento na paisagem.

Um júri seleccionou onze projectos, e estas imagens mostram o Jardim dos Sentimentos. Os autores (António La Greca e Cláudia Sá Lima) escolheram como inspiração os bordados dos «lenços dos namorados», objectos tradicionais minhotos associados ao ritual amoroso. Com pedras, madeira e flores criaram um lenço tridimensional onde sobressaem roseiras de cores e fragâncias distintas que desse modo sublinham as diferentes gradações de sentimento e compromisso. Transcrições de textos mais ou menos ingénuos e coraçõezinhos, usuais nestes bordados, foram pintadas em numerosos pilares de madeira, que, da pureza inicial da terra, nos restituem à natureza artificial da arte.

23/06/2008

A natureza no jardim


Festival de Jardins - Ponte de Lima

Sou avesso àquela arte que, em prolixos textos de apoio, «questiona», «faz reflectir» ou «põe em causa»: não só porque tais lucubrações teóricas, em geral infestadas de chavões e redigidas em mau português (ou seja em que língua for), parecem servir para disfarçar insuficiências artísticas, como também porque, no estado de irrisão que a arte atingiu, já não restam ortodoxias para combater. Se não há paradigmas artísticos, como pode alguém, na sua arte, «questionar» ou «pôr em causa» o que quer que seja? Mas, por outro lado, a arte pode abrir-se ao mundo, e dirigir o seu questionamento já não a si própria mas à sociedade em geral; torna-se então arte comprometida, e tem por missão «fazer-nos reflectir». É sabido, porém, como o peso da mensagem a transmitir pode obliterar a componente artística, e como o activismo político ou social tantas vezes tem servido para suprir défices de talento.

Vem isto a propósito do Festival de Jardins em Ponte de Lima: a 4.ª edição abriu em 30 de Maio e vai até final de Setembro. Tal como na 3.ª edição, os concorrentes tiveram de respeitar um tema, que desta vez foi «Energias no Jardim». Em quase metade dos casos, a «mensagem» é de tal modo ostensiva e panfletária que esmaga qualquer ideia de jardim. A arte dos jardins, como todas as outras, não se faz só de boas intenções, e não basta encenar em ponto grande simples cartazes ou slogans. Os piores exemplos do género são os jardins Orange Power (que consiste em milhares de laranjas de plástico dentro de uma cerca de madeira) e 3,9 x 10^24 Joule (onde apenas se vê esse número escrito em algarismos gigantes). Mas há excepções: jardins que valem por si próprios, e que podem ser apreciados independentemente da mensagem que lhes quiseram incorporar. Os que mais me agradaram foram os dois das fotos: em cima Bathe in Energy Flow, de Tokiko Furuuchi, e em baixo The Orange Fuel Grove, de Flavia Goldsworthy. No segundo há um túnel intermitente e contorcionista, formado por cordas esticadas sobre uma armação de ferro, rodeando um pomar de laranjeiras com o solo revestido pelas plantas silvestres da região. Essas mesmas plantas bordejam, em jeito de prado, o tanque recortado por passadiços de madeira que constitui o centro do primeiro jardim. Talvez por coincidência, ambas as criações nos dizem que há tanta beleza no que é espontâneo como no mais rebuscado dos jardins - verdade essa que, em Ponte de Lima, podemos comprovar facilmente passeando pelas margens do rio.

Conclusões? Não tenho dúvidas em recomendar a visita ao festival, embora não gostasse de tudo quanto lá vi. Mas julgo que a subordinação dos projectos a um tema único se tem revelado mais um espartilho e uma armadilha do que uma fonte de inspiração.


Festival de Jardins - Ponte de Lima

17/05/2008

Bandeira amarela


Iris pseudacorus - Ponte de Lima

O esbelto lírio-amarelo, habitante de zonas alagadiças por toda a Europa, emigrante de sucesso na América do Norte, é uma das plantas que na Primavera avivam a paleta de cores da reserva das Lagoas, em Ponte de Lima. Muito popular também como ornamental, este lírio foi usado medicinalmente pelas suas propriedades eméticas, graças talvez ao mesmo princípio que o torna venenoso para o gado. Mas redimem-no a beleza e outras valiosas qualidades: é importantíssimo na manutenção de habitats húmidos na Europa; e, capaz como é de absorver metais pesados através das raízes, dá uma preciosa ajuda à despoluição das águas.

Há cerca de 250 espécies de Iris espalhadas pelo hemisfério norte; dessas, só seis ou sete são espontâneas em Portugal, e uma delas, a Iris boissieri, é um raro endemismo da Serra do Gerês. (Veja nesta página uma foto do lírio-do-Gerês.)

11/01/2008

Singularidades de uma vila

São muitas as singularidades de Ponte de Lima. A primeira é que a sede do concelho persiste, orgulhosamente, em ser vila, quando quase todas as nossas outras localidades de dimensão semelhante há muito que quiseram proclamar-se cidades. Por isso é a vila mais antiga de Portugal; uns anos mais e será, simplesmente, a vila de Portugal. A segunda singularidade é o espaço público impecavelmente cuidado, o que inclui, além da limpeza e do bom planeamento, uma arborização abundante (sem vestígios de podas camarárias) e a manutenção escrupulosa dos belos jardins.

A cinco quilómetros da vila, acessível por um caminho pedonal ao longo do rio, há uma reserva natural com cerca de 350 hectares, centrada nas lagoas de Bertiandos e de São Pedro d'Arcos e atravessada pelo rio Estorãos, que ali desagua no Lima. Declarada como zona húmida em 1990, foi inscrita em 1995 no Plano Director Municipal de Ponte de Lima como parte da Reserva Ecológica Nacional. E aqui manifesta-se uma terceira singularidade: em vez de pedir sucessivas desanexações à reserva, como costumam fazer, com a pressurosa colaboração do Governo da República, as autarquias preocupadas com o «desenvolvimento», a Câmara de Ponte de Lima ainda reforçou o seu estatuto de protecção, fazendo-a classificar em 2000 como área de paisagem protegida de âmbito regional.

Tanta singularidade tem que dar para o torto, argumentará o autarca desenvolvimentista: como é que terra que não betoniza a torto e a direito os seus valores naturais pode «criar riqueza»? O certo é que cria, pois o concelho tem um ar indiscutivelmente próspero. Sem ter inaugurado nenhuma atracção espampanante como a Bracalândia ou a «árvore» de Natal mais alta da Europa, Ponte de Lima é das terras mais visitadas do Minho (e de Portugal); e é-o pela singela razão de se manter bonita enquanto o resto do país (incluindo o Minho) se vai tornando cada vez mais feio.





Estas imagens documentam um dos possíveis passeios a pé com partida e chegada no centro de acolhimento das Lagoas: o percurso da veiga tem 6 Km de extensão, dos quais cerca de 2/5 são fora da reserva, atravessando povoações, campos de cultivo, vinhas e pomares. Os pontos mais atraentes do percurso são a lagoa de São Pedro - rodeada por esparsos eucaliptos improvavelmente fotogénicos - e, já fora da reserva, a ponte e a azenha do rio Estorãos, onde o antigo moinho (à direita na foto) foi convertido em hospedaria (as árvores em primeiro plano são amieiros). Vimos ainda velhas oliveiras, laranjeiras com muitas laranjas a apodrecer no chão, um curioso monumento com quatro mãos agarrando uma argola - dedicado à boa vizinhança entre quatro freguesias - e, para terminar, a amostra possível da fauna local à porta de sua casa.

08/01/2008

O artista da sua terra


Amieiro na margem direita do Lima

Houve um tempo em que o caderno de encargos do artista estava definido com clareza: o poeta celebrava em versos de rigorosa métrica as belezas (naturais ou humanas) da sua terra, e o pintor cumpria igual tarefa com óleos e aguarelas. O âmbito geográfico restrito dos motivos de inspiração não tolhia o surgimento de vocações universais: o artista podia ser do mundo inteiro sem deixar de ser da sua aldeia. Mas hoje, com o descrédito da rima e da arte figurativa, e sobretudo com as facilidades de locomoção, só os artistas menores se refugiam na celebridade local e no patrocínio das juntas de freguesia; e mesmo esses têm o mundo inteiro, ou a aparência fugaz dele, à distância de um voo low cost. Já ninguém põe em verso a vida rústica. Alberto Caeiro, o último poeta rural português, cantou o bucolismo abstracto de uma aldeia imaginária, numa época em que já todos os seus confrades tinham desistido da aldeia real.

Lembrei-me disto ao ver a exposição de António Cruz (1907-1983) que está no Museu Soares dos Reis até ao fim de Janeiro. Eis um pintor que, sem ser figurativo, fixou nas suas aguarelas uma cidade brumosa em cujos volumes e contornos esfumados o Porto facilmente se reconhece. António Cruz é sem dúvida um artista portuense; de facto, nunca terá havido artista mais portuense, mas essa condição bairrista só o engrandece. O poeta e diplomata António Feijó (1859-1917) é outro caso de apego às raízes. Nascido em Ponte de Lima, cônsul geral de Portugal em Estocolmo durante mais de duas décadas, acabou por morrer no exílio «polar» da capital nórdica. Só foi poeta da sua terra quando já lá não podia voltar: à «neve cobrindo tudo» e aos «anos inteiros sem primavera» da sua vivência sueca contrapunha a memória do Minho soalheiro, com «verdes colinas» e «águas claras».

Não estou certo de que António Feijó quisesse reconhecer a sua terra natal nesta foto do rio Lima em tarde de má catadura. Não era das névoas de Inverno que ele tinha saudades - dessas estava ele bem servido na Escandinávia -, mas do ar luminoso e transparente dos dias primaveris. António Cruz, por seu lado, gostava era do Inverno, com árvores nuas e vultos incertos despontando do nevoeiro. Não teria sido surpresa encontrá-lo, numa tarde como esta, de cavalete montado à beira-rio.

10/11/2007

Outono por um fio


Alameda de plátanos de Ponte de Lima vista da outra margem, com amieiro em primeiro plano

06/11/2007

Grama-preta



Ophiopogon planiscapus "Nigrescens"

Ao contrário do que faz supor a designação vernácula e o formato da folhagem, esta planta do este da Ásia não é uma gramínea, nem sequer suporta o pisoteio como as nossas (demasiado bem conhecidas e gulosas por água) relva-de-estádio (Poa pratensis) ou relva-de-campo-de-golfe (Zoysia tenuifolia): é uma ex-liliácea que agora pertence à família dos dragoeiros. As folhas lineares, finas, invulgarmente pretas e as flores diminutas em espigas curtas mas de um branco-lilás pouco usual dão-lhe lugar de destaque nas bordaduras de jardins - utilização que consta de pinturas chinesas do século XVIII.

Mas há mais vantagens nesta herbácea anã. Propaga-se por divisão de touceira em qualquer época do ano. É de crescimento lento e não requer corte e aparo, poupando-nos àquelas máquinas ruidosas com que os vizinhos decidem, em boa consciência cidadã, gastar os feriados desde madrugada para que o seu relvado bem penteadinho seja um carinho antecipado aos seus convidados da noite. As raízes tuberosas são comestíveis e constam da famosa Famine Foods List de Jiuhuang Bencao; cristalizadas em açucar constituem tonificante tradicional.

O canteiro da foto está no jardim romano do Parque do Arnado, em Ponte de Lima.

03/11/2007

Carvalhos de Outono



Quercus coccinea / Quercus rubra - Ponte de Lima

31/05/2007

Festival de Jardins em Ponte de Lima

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Festival Internacional de Jardins
em Ponte de Lima -até 30 de Outubro, nos campos de S. Gonçalo, entre as pontes romana e a de Nossa Senhora da Guia, na margem direita do rio Lima (ver fotos do rio - no Centro de Recursos de Ponte de Lima > ) .
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Ponte de Lima no Dias com árvores:
Jardins do Lima -11.8.06
Amieiros nas margens do Lima -24.5.06
As palavras correctas parecem às avessas -14.10.05
"Ah ribeira do Lyma celebrada..." -9.10.05
Ponte de Lima -8.10.05
Festival Internacional de Jardins - Ponte de Lima -3.6.05

19/08/2006

Sempre-em-flor



O arbusto-borboleta é um excelente corta-vento, de crescimento rápido, folhagem de um lindo verde-azulado, e floração contínua ao longo do ano embora mais abundante no Verão. Pertence ao género Polygala, fácil de identificar pelas flores. Elas agrupam-se nos extremos dos ramos e lembram barquinhos com um penacho no topo da quilha. Cada flor tem três a cinco sépalas e três pétalas; duas das sépalas são maiores, parecem pétalas desenhadas com veios escuros e estão dispostas como duas asas; uma das pétalas tem forma de canoa e suporta um tufo fimbriado.

Cosmopolita, a família Polygalaceae - geneticamente muito próxima da Leguminosae - abriga cerca de vinte géneros e umas mil espécies maioritariamente africanas. A Polygala myrtifolia, de flores roxas, de que vimos muitos exemplares nos jardins de Ponte de Lima, ocorre naturalmente na África do Sul onde são tradicionalmente exploradas as suas propriedades antibacterianas.

O nome Polygala deriva do grego polys, muito, e gala, leite, por se acreditar que a presença desta erva nos pastos promove uma maior produção de leite - o que justifica a designação erva-leiteira que lhe é atribuída em algumas regiões portuguesas.

11/08/2006

Jardins do Lima

Em época de viagens e deslumbres de férias, há um recanto em Ponte de Lima digno de um passeio demorado: os jardins eruditos do Parque Temático do Arnado, da autoria de Francisco Caldeira Cabral e Elsa Matos Severino e inaugurados em 2001. São páginas recriadas da história da arte dos jardins, aqui impregnadas de ruralidade minhota. Mostram versões de:



1. Um jardim romano inspirado na Casa dos Repuxos de Conímbriga onde não faltam medronheiros, ciprestes, romãzeiras, limoeiros, vários pés de glicínia e herbáceas aromáticas. Sobre ele se comenta, na brochura editada em 2005 pelo Município, que «o pavimento em mosaico de calçada à portuguesa procura reflectir a influência que ainda, na prática actual, a cultura romana tem nas nossas tradições culturais.»



2. Um jardim barroco, onde predominam as roseiras, recheado de arbustos com floração abundante como as duas lagerstroemias da foto.

3. Um jardim labirinto, com o buxo metaforicamente disposto em socalcos, enigmático na evocação de várias lendas gregas sobre os caminhos para a sabedoria. No topo ergue-se um mirante perfumado por jasmins propício à reflexão e ao repouso.

4. Um jardim renascentista, com um guião para a organização do espaço de influência italiana. Pressente-se algum rigor na disposição e escolha das plantas, com realce para os belíssimos rododendros, amenizado por cascatas e jogos de água.

5. Um pequenino jardim botânico, com estufa de plantas raras, um horto de gramíneas e nenúfares no refrescante lago exterior.

Louve-se a manutenção cuidada e carinhosa deste jardim.

27/07/2006

A leste nada de novo

Os arbustos do género Clerodendrum, da família Lamiaceae, têm origem tropical mas adaptam-se bem ao pouco frio do nosso Inverno e chegam a exigir cuidados para não se tornarem invasores. Como lhes agrada especialmente o sol da manhã, ampliando mais a copa na direcção de leste, aconselha-se o seu plantio na face oeste de cercas ou pórticos. Das mais de 400 espécies, só conhecemos as destas fotos (da Quinta da Aveleda, em Penafiel, e do Parque do Arnado, em Ponte de Lima).



As folhas da espécie C. bungei (hortênsia-chinesa) são grandes, dentadas, verde-escuras e exalam um aroma almiscarado quando esmagadas; as inflorescências são erectas como espigas de milho, com flores tubulares de cor rósea agrupadas em corimbos densos. Aprecia o frio e multiplica-se facilmente por inúmeras mudas em torno da planta-mãe.



A trepadeira C. thomsoniae (lágrima-de-Cristo) é africana e não tolera geadas. Tem folhas brilhantes com nervuras vincadas e cada flor é um cálice branco insuflado com uma corola escarlate adornada de estames longos. Não é invasora: multiplica-se por alporques ou estacas cortadas após a floração e enraizadas em estufa.

Clerodendrum deriva do grego klêros, sorte, e déndron, árvore.