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12/01/2016

Conto de Inverno


Avelaneiras (Corylus avellana L.) nas margens do rio Fílveda, Albergaria-a-Velha


A muita chuva dos últimos dias promete que, contra todos os pessimismos, a vida está para durar. O maior inconveniente, numa altura em que os rios realizam a sua vocação em plenitude, é não podermos visitá-los com as águas transbordando das margens. Regressaremos daqui a umas cinco ou seis semanas, quando eles estiverem menos impetuosos, dando tempo para que o amarelo vivo do narcisos se junte ao amarelo pálido das prímulas. Não é em todos os rios que se dá essa feliz combinação cromática, mas há rios em todas as províncias e todos os concelhos deste nosso maltratado território, e quase sempre eles nos dão muito mais do que esperamos. Consideremos, por exemplo, aquela região no centro-norte do país que faz a transição entre o Baixo-Vouga e as serras do interior: Vale de Cambra, Oliveira de Azeméis, Albergaria-a-Velha e Sever do Vouga, são esses os nomes anunciados nas placas de saída da A1 logo a norte de Aveiro. A julgar pelo que vemos ao longo da auto-estrada, todos esses concelhos estão perto de se transformarem em eucaliptais ininterruptos, num processo imparável de reconversão de antigos campos agrícolas que nem sequer poupa os olivais. Em vez de ser desmentida, essa impressão é tristemente reforçada quando nos desviamos da auto-estrada para as vias secundárias. À monotonia do eucaliptal soma-se o desordenamento da paisagem: as estradas fazem de ruas em povoações que nunca começam nem acabam, misturando vivendas, prédios, fábricas, postos de combustível, aviários, restaurantes de berma de estrada, vendas de carros usados. Não é certamente este o cenário ideal para realizar aquele cliché da "comunhão com a natureza" tão glosado em textos de promoção turística. Ainda assim, a câmara de Albergaria-a-Velha, seguindo o exemplo de muitas outras, quis atrair ao concelho praticantes de caminhadas e outros amigos da natureza, e para isso sinalizou vários percursos pedestres. Um deles (PR2) chama-se trilho dos três rios e acompanha o rio Caima e dois dos seus afluentes. Caima é também o nome da empresa de celulose pioneira em Portugal, nascida em Albergaria-a-Velha nas margens deste rio mas entretanto deslocada para outras paragens.

Porque as nossas caminhadas têm um propósito último que não é caminhar, não percorremos na nossa visita do início de Dezembro o PR2 do princípio ao fim, já que ele é extenso (14 Km) e atravessa vastas áreas de eucaliptal. Fizemos o troço do rio Caima junto ao lugar de Palhal, e em Ribeira de Fráguas seguimos durante dois ou três quilómetros o curso do rio Fílveda, partindo do chamado Parque dos Moinhos. O rio Caima pós-industrial apresenta-se despoluído, e ladeiam-no aqui e ali breves manchas de carvalhal, com o cortejo de arbustos e herbáceas habituais em terras do norte: Omphalodes nitida, Linaria triornitophora, medronheiros, folhados, gilbardeiras, fetos variados, etc. Esporádico em clareiras pedregosas, juntava-se-lhes o Anarrhinum longipedicellatum, ou samacalo-arouquense, um portugesíssimo endemismo desta região entre o Douro e o Vouga. Todos esses ingredientes foram repetidos nas margens do Fílveda ou no talude da estrada junto ao Parque dos Moinhos, mas em quantidades mais generosas e reforçados por uma galeria ripícola de altíssimas avelaneiras. Os moinhos desactivados brilhavam como a casa dos sete anões, e as duas pontes de madeira permitiram-nos acesso fácil a ambas as margens. O (impropriamente chamado) hipericão-do-Gerês (Hypericum androsaemum) estava por todo o lado, bem mais abundante do que alguma vez o víramos no Gerês. Uma prímula confundida com o calendário, ou apostada em jogada de antecipação, fazia brilhar uma única flor entre as suas irmãs ainda adormecidas pela invernia.

O rio Fílveda, como tantos outros rios da região, corre encaixado num vale como um segredo ciosamente guardado por um exército de eucaliptos. A maior surpresa de tão grata visita foi sentir que tínhamos obrigação de voltar.

31/12/2010

Passagem


Amieiros e freixos - rio Ferreira, Valongo

Atravessavam uma floresta. Sem feras, que ali não as havia, um ou outro lobo, talvez, javalis. Nenhum tigre lhes saltaria às costas. E no entanto, avançando na penumbra lançada pelas copas fechadas, entre as colunatas dos troncos, todos aqueles homens valentes sentiam-se perpassar por uma ponta de estremecimento, cada qual levando seu próprio tigre no peito.

Marina Colasanti, Um homem, frente e verso ( 23 histórias de um viajante, Global Ed., 2005)

17/12/2010

Vale do rio Beredo


Betula alba L.

No alto ermo dos montes naturais temos, quando chegamos, a sensação do privilégio. Somos mais altos, de toda a nossa estatura, do que o alto dos montes. O máximo da Natureza, pelo menos naquele lugar, fica-nos sob as solas dos pés. Somos, por posição, reis do mundo visível. Em torno de nós tudo é mais baixo: a vida é encosta que desce, planície que jaz, ante o erguimento e o píncaro que somos.

Tudo em nós é acidente e malícia, e esta altura que temos, não a temos; não somos mais altos no alto do que a nossa altura. Aquilo mesmo que calcamos, nos alça; e, se somos altos, é por aquilo mesmo de que somos mais altos.

Respira-se melhor quando se é rico; é-se mais livre quando se é célebre; o próprio ter de um título de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artifício, mas o artifício nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-nos até ele, ou nascemos na casa do monte.

Grande, porém, é o que considera que do vale ao céu, ou do monte ao céu, a distância que o diferença não faz diferença. Quando o dilúvio crescesse, estaríamos melhor nos montes. Mas quando a maldição de Deus fosse raios, como a de Júpiter, de ventos, como a de Éolo, o abrigo seria o não termos subido, e a defesa o rastejarmos.

Sábio deveras é o que tem a possibilidade da altura nos músculos e a negação de subir no conhecimento. Ele tem, por visão, todos os montes; e tem, por posição, todos os vales. O sol que doura os píncaros dourá-los-á para ele mais
[que] para quem ali o sofre; e o palácio alto entre florestas será mais belo ao que o contempla do vale que ao que o esquece nas salas que o constituem de prisão.

Com estas reflexões me consolo, pois que me não posso consolar com a vida. E o símbolo funde-se-me com a realidade quando, transeunte de corpo e alma por estas ruas baixas que vão dar ao Tejo, vejo os altos claros da cidade esplender, como a glória alheia, das luzes várias de um sol que já nem está no poente.


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

03/10/2009

Outono



Serra do Alvão: Barragem Cimeira e bosque de vidoeiros (Betula alba L.)

.....There was a man who found two leaves and came
.....indoors holding them out saying to his parents
.....that he was a tree.

.....To which they said then go into the yard and do
.....not grow in the living room as your roots may
.....ruin the carpet.

.....He said I was fooling I am not a tree and he
.....dropped his leaves.

.....But his parents said look it is fall.

.....Russell Edson

27/08/2009

Thoreau




Se eu for viver para a montanha, a montanha sai de lá, para eu ficar absolutamente sozinho?

Desculparão a pergunta absurda, mas ao cidadão que vem da cidade ruidosa, uma montanha calada e calma, quieta e calma, paciente e calma, pode, quem sabe, ser ainda de mais se o que se quer é descanso.

Sozinho juntamente com a natureza composta pelas sete mil e quinhentas árvores de um bosque? Eis o que se poderá chamar de isolamento muito frequentado.

Sózinho só no ar, sendo pássaro, ou no caixão, sendo cadáver. De resto somos sempre incomodados pelo mundo, que desde há milénios incomoda muito.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (2004)


Carpinus betulus L. - Epping Forest

24/08/2009

O charco perdido



Lost Pond, Epping Forest.
Fagus sylvatica L. (em cima); Betula pendula Roth e Cardamine pratensis L.

Os aprendizes da natureza agradecem todas as ajudas quando primeiro se aventuram num bosque, numa serra ou numa reserva natural. Surgem assim aqueles percursos recomendados onde os nossos medrosos e hesitantes passos são guiados por setas ou tracinhos coloridos. São como as rodinhas laterais de quem, criança ou já adulto, aprende a equilibrar-se numa bicicleta. E, tal como ninguém chega a ser um verdadeiro ciclista se não dispensar, a dada altura, as rodinhas extra, também não atinge um estado de verdadeira fruição da natureza quem sempre se limita aos trilhos sinalizados. Onde não há estradas nem passeios para peões também não deve haver barreiras para o inesperado. Às vezes um pequeno desvio - aquela árvore ou aquela pedra servindo-nos de referência para o caminho de regresso - proporciona uma grande descoberta: uma planta ou pássaro que nunca tínhamos visto, um lençol de água oculto pelo arvoredo.

Em Portugal muitas pessoas há que partem à descoberta da natureza sem nunca saírem dos trilhos. Ficam-se, assim, por aqueles pedaços de natureza que outros seleccionaram para elas. É verdade que os caminhos não assinalados requerem um sentido de orientação e uma familiaridade com o terreno que só gradualmente se adquirem. Mas quem se fica temerosamente pelo conhecido e repisado abdica da relação profunda com os lugares que só as escolhas ditadas pelo improviso e pelas preferências pessoais podem criar.

Nos parques, bosques ou reservas naturais de Inglaterra a regra é que os caminhos não estejam sinalizados. Quem quiser socorre-se dos seus próprios meios - mapas, bússolas, GPS, simples intuição - para definir os seus percursos. Ninguém é apaparicado: quem frequenta esses lugares tem desde logo que se emancipar. Porque a natureza (e é a natureza possível, ainda que mitigada, que buscamos) não vem equipada com setinhas ou postes, nem os outros animais da criação carecem dessas muletas.

É verdade que se vendem folhetos com percursos, mas com indicações tão escassas e por vezes tão enigmáticas que mais parecem os mapas do tesouro das histórias juvenis. E esse espírito lúdico e aventureiro é perfeitamente ajustado: podemo-nos enganar uma ou outra vez (é aliás o mais provável), mas é nesses desvios imprevistos que está grande parte da piada; e se, ultrapassados os percalços, chegarmos ao fim, sentimo-nos tão argutos como o herói numa aventura de piratas.

A Lost Pond é um dos 150 lagos ou charcos que existem espalhados pela Epping Forest e perfazem uma área total de 40 hectares. Não é visível de nenhum dos grandes caminhos que cruzam a floresta. Há um pequeno atalho, tenuemente marcado no chão, que emerge de um desses caminhos e serpenteia duas ou três centenas de metros num cerrado bosque de faias até à clareira ocupada pelo lago. Uma vez lá, dão-se dois passos na margem e o atalho parece apagar-se. Seria aquele ou o outro? Nada parece distingui-los. Felizmente, a bétula com as raízes salientes (foto em cima) ficou a assinalar o atalho correcto, e o regresso fez-se sem problemas. Houve tempo para admirar os marrecos que nadavam no seu sossego, a faia de troncos múltiplos, e uma rara planta aquática (Cardamine pratensis) que só neste esconso lago se fez achada. O isolamento e a solidão eram tão absolutos como na mais remota floresta virgem.

21/08/2009

Epping Forest



Epping Forest. Em cima: Quercus robur. Em baixo: Fagus sylvatica, Betula pendula

Londres é uma amálgama de cidades sobrepostas e contrastantes. Há os túneis da rede de metro, com as carruagens apinhadas nas horas de ponta, os tablóides gratuitos que, abandonados nos assentos, vão passando de mão em mão. Títulos de um sensacionalismo desavergonhado: professores garantem que macacos podem ser treinados para passar nos exames nacionais; máquina multibanco em supermercado fornece dinheiro grátis a clientes. Há o consumismo efervescente, tanto de turistas como de autóctones, em Oxford Street, em Picadilly, nos armazéns Harrods. Há a Madame Tussaud com as inexauríveis filas de visitantes à porta. Há os museus e galerias onde dias inteiros não chegam senão para admirar uma ínfima parte dos acervos. Há o teatro sério, de reportório, e o musical-para-toda-a-família (Os Miseráveis, O Fantasma da Ópera, Blood Brothers) que se mantém em cartaz anos a fio.

E, entremeando este labirinto urbano no limite da alucinação, há os enormes plátanos nas ruas, há os jardins e parques dos mais variados tamanhos democraticamente espalhados pelo território da metrópole. De facto, aos habitantes pouco abonados dos subúrbios cabe até um quinhão mais generoso na distribuição do verde. A Epping Forest é o maior espaço verde público da capital britânica; situada a nordeste de Londres, estende-se por 18 km no sentido norte-sul e tem uma largura máxima de 4 km. Reserva de caça real desde os alvores do segundo milénio da era cristã até meados do século dezanove, foi protegida por decreto parlamentar de 1878, onde se estipulou que a floresta permaneceria sem construções e de livre acesso para todos.

Do que a Epping Forest não se livrou foi da completa suburbanização do seu perímetro: Leyton, Wanstead, Walthamstow, Chingford e Loughton são bairros que prolongam a malha urbana londrina e completam o cerco da floresta. Locais indistinguíveis uns dos outros, feitos do mesmo tijolo vermelho ou bege, com o mesmo comércio de rua a um passo da falência, os mesmos pubs, os mesmos pindéricos shopping centres, os mesmos hipermercados (Tesco ou Sainsbury's), os mesmos bairros residenciais. Quem lá vive só é privilegiado por ter a Epping Forest à porta de casa. E, para o visitante de ocasião, é a existência desses bairros periféricos que lhe permite o conforto de chegar às franjas da floresta usando metro ou autocarro.

Apesar do seu carácter urbano, a Epping Forest não é uma floresta de brinquedo. A começar pelo tamanho: ocupa 24 km2 (2400 hectares), o que, para usar termo de comparação que se entenda, é bem mais de metade da área do concelho do Porto (que tem 42 km2). O coberto arbóreo é denso e os caminhos não estão sinalizados, o que faz com que um visitante desprevenido se perca com a maior das facilidades. Isso, porém, só seria um óbice numa floresta menos frequentada: aqui passa sempre alguém que nos põe na rota certa.

Na Epping Forest palmilhamos quilómetros e quilómetros sem ver um carro, entre carvalhos, faias, bétulas, carpas (Carpinus betulus), azevinhos e avelaneiras. Aqui e ali abrem-se clareiras, vislumbram-se lagos e charcos. Acompanha-nos o som dos pássaros, das aves aquáticas, do vento sacudindo a folhagem das árvores. Tudo isto na mesma cidade em que os peões se acotovelam nos passeios, e em que o metro e o trânsito automóvel nem por um momento descansam do seu afã nas 24 horas do dia.

03/08/2009

Por terras do Alva

Em Agosto de 2008, estando este blogue em gozo de sabática, estreava nas salas nacionais um dos melhores filmes do ano. Pensando bem, por que não ser enfático? Afinal, não temos qualquer razão para acautelar a nossa inexistente reputação cinéfila. Recomecemos então. Em Agosto de 2008, estando nós em ano sabático, estreava nas salas nacionais o melhor filme português de sempre - que se afirmou igualmente, por larga margem, como o melhor filme do ano. Realizado por Miguel Gomes, Aquele Querido Mês de Agosto - assim se chamava o filme - tinha por assunto o mês das férias de Verão no interior de Portugal: o mês dos que regressam à sua terra para reencenar uma vida que ficou suspensa durante onze meses; dos emigrantes que falam francês com os filhos mas entre si trocam palavrões; dos bailes com música foleira; dos que nunca partiram; das procissões, dos namoricos, dos incêndios.

O filme passa-se naquele que é quase o centro geográfico de Portugal, e que as populações locais conhecem por Beira Serra ou Pinhal Interior: Vila Nova de Poiares, Góis, Arganil, Côja e mais umas quantas vilas e aldeias até Oliveira do Hospital. É uma paisagem sem a imponência da Serra da Estrela, que só começa um pouco mais a leste. Os eucaliptos e os pinheiros, pasto de colossais incêndios, acabaram com a floresta autóctone; as povoações foram desfiguradas por casas e prédios desatinados. É isto que a fita também mostra, acompanhado pela banda sonora de um pimba impenitente. Como é que com ingredientes destes se pode fazer um filme tão comovente?

O verdadeiro caso amoroso do filme, além do namorico inconsequente (que termina, como manda a tradição, a 31 de Agosto), é por uma velha amante que, maltratada por muitos, desgastada pelos anos e confundida por novas modas, perdeu todos os encantos que tinha. Como se não percebesse as mudanças na amada - ou, percebendo-as, como se elas não lhe parecessem assim tão graves -, quem a ama continua a frequentá-la com o carinho de sempre. O par que os dois apaixonados formam nada tem de ridículo: é grandioso e trágico. Sem disfarces nem efeitos de retórica, é este amor mal resolvido dos portugueses pelo seu devastado território que está no âmago do filme.


Ponte sobre o rio Alva, em Côja

Não é o Alva o único rio que aparece em Aquele Querido Mês de Agosto: o Ceira, também afluente do Mondego, é cenário para uma gigantesca concentração de motards, em Góis. Mas o Alva é o rio mais importante da região, ao ponto de ela dever chamar-se terras do Alva. É o agrupamento musical Estrelas do Alva que anima os bailes na segunda parte do filme; há por lá povoações com nomes como São Pedro de Alva, Barril de Alva e Vila Cova de Alva; e a ponte sobre o Alva, em Côja (foto acima), é uma das protagonistas centrais do filme.


Amieiro junto à ribeira da Mata, em Benfeita

A ribeira da Mata nasce na Mata da Margaraça e desagua na margem esquerda do Alva, muito perto da ponte de Côja. (O local da confluência é assinalado pelos arcos que, na primeira foto, se podem distinguir por trás das escadas.) Aqui vemo-la a atravessar Benfeita, uma aldeia de 100 habitantes onde foi construída uma praia fluvial, com um açude que transformou um troço da ribeira em piscina. Mais a jusante, um vigoroso amieiro (Alnus glutinosa) regala-se nas águas que o açude vai libertando.


Relva Velha vista da Mata da Margaraça

A Mata da Margaraça é a jóia da coroa da Paisagem Protegida da Serra do Açor. É também o local onde, no final de Aquele Querido Mês de Agosto, encontramos a equipa de produção envolvida numa discussão sobre os sons espúrios que, segundo o realizador, se ouviriam no filme (na opinião do técnico, pelo contrário, esses sons seriam perfeitamente legítimos e apropriados). Enquanto a disputa se desenrola, a câmara vai deambulando pelo arvoredo e um microfone de braço comprido vai captando sons. Ouvem-se pássaros e, se as árvores não falam, pelo menos ostentam placas que lhes revelam os nomes. Dê ou não um filme, a Mata da Margaraça tem muito que contar, e a ela voltaremos de olhos e ouvidos bem abertos.

30/06/2009

A culpa é das ovelhas

O momento mais pungente - ou pelo menos aquele que mais fundo me tocou - do seminário Árvores Monumentais: Importância e Conservação, que decorreu no Sabugal na quinta e sexta passadas (25 e 26 de Junho), aconteceu exactamente no final da palestra de Ted Green. Foi quando...

(Eis que a voz da consciência me interrompe em tom alarmado: «O quê?! Não me digas que vais falar daquilo! Francamente, não esperava isso de ti!»)

(Ignoro tanto quanto possível a interrupção e prossigo o meu relato.)

... foi quando o orador perguntou se alguém da audiência podia emprestar dois casacos, um para ele e outro para Jill Butler. É que já há dias que os dois, desprovidos de agasalhos eficazes, rapavam em Portugal um frio para o qual ninguém os tinha alertado. Na manhã seguinte, durante a excursão aos castanheiros monumentais, continuavam ambos de manga curta. O dia esteve sempre prazenteiro, o sol nunca se fez rogado, e os casacos não fizeram falta nenhuma, mas será que alguém lhos chegou a emprestar? Prefiro não saber. Seria terrível que ruíssem na mesma altura duas das certezas que mais arreigadas tinha: a primeira, que os povos do norte da Europa (e em particular os britânicos) são imunes ao frio; a segunda, que ninguém excede os portugueses em hospitalidade.



Castanheiro (Castanea sativa) - Sabugal

São às centenas os anos que os velhos castanheiros do Sabugal transportam às costas. Alguns soçobram a tamanho peso e acabam por secar; outros há que suportam copas mais ou menos frondosas; e há ainda aqueles que, como quem usa peruca, disfarçam a decrepitude com cabeleiras de folhagem que afinal não lhes pertencem. É o caso do castanheiro acima: o tronco principal está morto, e dele não brota sequer uma folha; no entanto, os rebentos emitidos pelas raízes (chamados pôlas ou ladrões) conseguiram formar troncos secundários que agora prolongam a vida da árvore, fornecendo-lhe a copa verde que ela de outro modo não teria.

Por isso, como explica Ted Green, devem manter-se as ovelhas e outros animais de pastagem afastados destas árvores: as pôlas são um seguro de vida destes monumentos vegetais, e não são para cortar nem para comer. (É só por isso que as ovelhas são más. De resto, Ted Green é um ardente defensor de uma agricultura que combine, no mesmo espaço, a presença das árvores com o cultivo dos campos e o pastoreio.)

(Aqui chegado, é melhor o leitor ir espreitar à Quinta do Sargaçal para um relato mais circunstanciado do seminário e do passeio. O castanheiro-que-por-pôlas-valerosas-se-vai-da-lei-da-morte-libertando também lá aparece, mas a verdade é que, apesar de termos visto muitos castanheiros, poucos como este tinham tanto que contar e se puseram tão a jeito para a foto.)



(Para mostrar alguma coisa que o José Rui Fernandes não tenha ainda mostrado, termino com uma foto do rio que atravessa a cidade do Sabugal: o Côa, aqui marginado por amieiros e choupos.)

17/06/2009

Simão Ferreira Sousa


Confluência dos rios Simão e Ferreira, em Valongo

O triplo antropónimo não vem aqui para chamar gente, mas sim porque uma percentagem, ainda que pequena, das águas que formam a porção da bacia do Douro na área metropolitana do Porto poderia com justiça ostentar essa combinação de nomes. O rio Simão, um pequeno curso de água restrito ao concelho de Valongo, junta-se ao rio Ferreira no limite sudeste da cidade. Revitalizado com as águas alheias, o rio Ferreira, que já viajara desde Paços de Ferreira, encontra forças para um ziguezague que rasga as serras de Santa Justa e Pias no sentido norte-sul. O seu destino é o concelho de Gondomar, onde, dois ou três quilómetros antes da meta, confia ao rio Sousa a responsabilidade de transportar a massa de água conjunta até à margem direita do Douro.


Freixos (Fraxinus angustifolia) e eucaliptos (Eucalyptus globulus) nas margens do rio Ferreira

É possível que Valongo seja o concelho do país com mais empreendimentos inacabados, lugares onde nunca morou nem há-de morar gente. Seja por falta de compradores ou por falência dos empreiteiros, essas urbanizações reduzidas a esqueletos, invadidas pela mesma vegetação que fora varrida para dar lugar às novas cidades, ficarão por muitos anos como testemunhas do desperdício e do mau planeamento - até que, por vergonha ou misericórdia, alguém as mande demolir. E consta ainda que Gondomar também dá boas cartas nesse campeonato de cidades-fantasma.

A pulsão de expandir indefinidamente a malha das cidades, nem que seja multiplicando os nados-mortos urbanísticos, faz recear que a médio prazo não sobre nesses concelhos qualquer área significativa livre de construções. E, contudo, o vale do rio Ferreira, entre Valongo e Gondomar, é a peça central de uma mancha verde ininterrupta que abrange as serras de Santa Justa, Pias e Castiçal [por comodidade, ainda que incorrectamente, designo-as colectivamente por serra de Valongo], e se estende também até Paredes. São matos, riachos, encostas e arvoredo perfazendo 25 km^2, uma área igual a três quintos da cidade do Porto; em suma, uma verdadeira floresta urbana no coração da metrópole. O poder político vai ganhando noção do valor destas serras: nos últimos trinta anos, foram várias as tentativas frustradas de aqui criar um parque natural. Em 31 de Julho de 2003, o Conselho de Ministros, reunido com grande pompa no Palácio do Freixo, tomou uma resolução nesse sentido que não teve qualquer resultado prático.

A riqueza botânica e geológica da serra de Valongo está descrita em vários documentos oficiais ou para-oficiais. Afinal de contas, a serra foi integrada na Rede Natura 2000, e a própria Câmara Municipal criou lá o Parque Paleozóico de Valongo. Contudo, se as pedras, os fósseis e os sedimentos estão mais ou menos a salvo da destruição, o mesmo não se passa com as plantas. Um amador de botânica portuense, William Tait, da comunidade britânica radicada na cidade, mandou a Charles Darwin, em 1869, exemplares de uma planta carnívora (Drosophyllum lusitanicum) colhidos na serra de Santa Justa. Se o tentasse fazer hoje, o mais certo é que não a encontrasse, pois a localização das escassas populações remanescentes é segredo ciosamente guardado pela comunidade científica. E outras plantas há, algumas endémicas, cuja existência é igualmente virtual, pois quem passeie pela serra quase só vê eucaliptos.


Vale de Couce, com amieiros (Alnus glutinosa) na margem esquerda do rio Ferreira

A eucaliptização, com os incêndios e a erosão do solo a ela associados, vem causando em Valongo uma perda acelerada de biodiversidade. Mas outros factores nefastos têm pesado na balança: as acácias nas zonas ribeirinhas, a poluição fluvial, e sobretudo a prática desregrada de desportos motorizados. Não há fim-de-semana em que a serra não seja atordoada por numerosos grupos de motociclistas em duas, três ou quatro rodas. Quem por lá passeie tem que conformar-se com o ruído e o pó, e desviar-se prudentemente para dar passagem aos estrepitosos veículos. Nenhuma das plantas que bordejam os larguíssimos caminhos escapa ao atropelamento. E nem aquelas em lugares mais afastados estão a salvo, pois o fluxo de motas e motoretas vai continuamente desbravando novos percursos.

No vale do rio Ferreira, em especial junto à aldeia de Couce, persistem amostras do antigo coberto arbóreo: carvalhos, amieiros, freixos, sobreiros, pilriteiros, salgueiros e até algumas pereiras-bravas. A vegetação arbustiva e herbácea, muito ameaçada, reserva-nos algumas surpresas, como a Silene que ontem aqui mostrámos. E mais haverá para mostrar em próximos números da série.

21/05/2008

Zero graus de longitude



Greenwich: Museu Marítimo com o Royal Naval College em fundo; edifício do Observatório

De todas as linhas (imaginárias, aprendemos nós na escola) que compõem a rede quadriculada em que o globo terrestre é geralmente dividido, só a posição do equador é ditada pela ciência e não pela convenção. Nenhum fenómeno geográfico ou astronómico obriga a que o norte apareça representado em cima e o sul seja relegado para baixo; e o meridiano de longitude zero poderia muito bem atravessar Pequim em vez de Londres.

Mas, como nos governamos por convenções, esses lugares que o arbítrio, o engenho ou o poder humanos elegeram como especiais acabam por exercer atracção inegável. Mesmo que o mundo já não acerte os ponteiros pela hora média de Greenwich, é emocionante entrar no observatório que alberga o deposto rei de todos os relógios. E, celebrando a ligação de Greenwich à história naval britânica, há a portentosa arquitectura neo-clássica dos edifícios do Museu Marítimo e do antigo Royal Naval College e a memória do veleiro Cutty Sark, ausente do seu cais para reconstrução desde que em 2007 um incêndio o destruiu.



Parque de Greenwich: bétula e castanheiros (Castanea sativa)

Talvez a melhor maneira de chegar a Greenwich, que fica na margem sul do Tamisa, alguns quilómetros a leste do centro do Londres, seja por um desses barcos turísticos que vi muitas vezes deslizar rio abaixo. Por um enguiço inexplicável, sempre que tentei, ao longo dos anos, usar a Docklands Light Railway (um serviço de metro inteiramente automatizado que serve Greenwich e a zona das docas), encontrei as estações fechadas e tive que me socorrer de outro transporte. De uma vez tomei um autocarro que me deixou em frente a Greenwich, mas na margem oposta; para completar a viagem, usei o túnel pedonal cavado sob o leito do rio. Desta feita, com a DLR fechada ao fim-de-semana para trabalhos de manutenção, optei pelo comboio. O regresso foi uma hora de autocarro pelos bairros mais inóspitos da margem sul.

Dos oito Royal Parks de Londres, o Parque de Greenwich, com os seus 74 hectares, será dos menos extensos, mas as vistas sobre o rio proporcionadas pelos seus dois morros mais do que compensam essa relativa pequenez. Não há, no Hyde Park ou no Regent's Park, nada que se compare a estes relvados vertiginosos rematados pela miscelânea urbanística da beira-rio, onde a regularidade da Greenwich histórica se confronta com os exuberantes arranha-céus de Canary Wharf, os sisudos edifícios de tijolo vermelho das docas e a futurista Millenium Dome.

Além das soberbas vistas, o Parque de Greenwich tem atracções intrínsecas de sobra. O maior destaque terá que ir para a dezena de castanheiros multicentenários dispostos em alameda: orgulhosos e de troncos possantes, prometem juntar muitos anos àqueles que já carregam. (Na foto ainda os vemos despidos, pois lá como cá os castanheiros são preguiçosos e as folhas só então começavam a despontar.) Há outras árvores muito bonitas, como as faias, tílias e carpas que acompanham, encosta acima, o formigueiro de visitantes do Observatório. Uma grande área ajardinada com rosas, azáleas e cedros conduz a um lago recatado. Mais adiante, para nosso repouso e sustento, funciona uma cafetaria com esplanada - onde, apesar da melhor das boas vontades, não fiz mais que debicar a medo um alegado quiche de legumes.

07/04/2008

À pesca do sábado perdido




É sabido que não existem dias felizes, mas tão só a memória nostálgica de dias que nunca foram ou a esperança ingénua de outros que nunca serão, como diria Fernando Pessoa se tivesse escrito sobre o assunto. (Coisa que na verdade ele fez insistentemente, mas seria trabalhoso desenterrar agora uma citação à propos, e sendo para o que é a pastiche serve muito bem.) Toda a poesia lírica nasceu do carácter ilusório e fugidio da felicidade. Os poetas lamentavam o que supunham ter perdido, mas era a falta de introspecção que os iludia: na realidade, choravam o que nunca haviam tido. Todas as qualidades raras dos grandes momentos que recordavam provinham das cores mágicas com que a memória, essa sentimentalona, os tingia.

O lirismo não era só alimentado pelos males-de-amor; também nele concorriam os lembrados prazeres do bucolismo. O peixe que se pescou e de que nunca mais se viu igual era tão legítimo motivo poético como a alma gentil que se partiu. Nem a alma era assim tão gentil nem o peixe tão formidável, mas quem iria desdizer o lacrimoso poeta?

Nunca pesquei, quer à linha, quer de qualquer outro modo, mas julgo que quem arma a sua cana num sábado soalheiro persegue, mais do que o peixe, uma tarde de tranquilidade ininterrupta igualzinha àquela que nunca viveu. E a margem esquerda do Tâmega, dois ou três quilómetros abaixo de Amarante, parece o cenário ideal para essa mítica tarde, com águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego. Mas logo adiante do pescador estaciona uma família piquenicante que, insatisfeita com o pipilar dos pássaros, o cri-cri dos grilos e o cantar das águas, resolve acrescentar música à natureza e põe aos berros no auto-rádio o CD do Tony Carreira. Um pelotão de BTT's com mais de uma centena de vigorosos pedalantes levanta grossa nuvem de pó acompanhada de muita conversa e gargalhada. Passam os ciclistas, mas voltam pouco depois, que o caminho não tem saída. Duas motas ruidosas aceleram em despique. Um fotógrafo intrometido (eu) aponta a máquina quando o pescador enrola a linha: não vem nada, como é óbvio, pois desde o monstro de Loch Ness que os fenómenos sub-aquáticos se esquivam à objectiva.

Encolho os ombros e passo adiante, deixando o pescador com os destroços do seu sábado. Recolho imagens de águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego, para falsa memória futura.



Rio Tâmega: salgueiros-pretos (Salix atrocinerea) e amieiros (Alnus glutinosa)

11/02/2008

Amieiro florido


Amieiro (Alnus glutinosa) no Parque da Lavandeira (Gaia)

Embora menos chamativos do que as magnólias ou as amendoeiras, também os amieiros que encontramos junto aos cursos de água florescem no Inverno, quando estão despidos de folhas. À semelhança do que sucede com árvores como os carvalhos, castanheiros, salgueiros e bétulas, as flores do amieiro têm funções especializadas, podendo ser masculinas ou femininas: as primeiras dispõem-se em longos cachos pendentes, chamados amentilhos, que parecem candeias penduradas nos galhos nus da árvore; as segundas formam pequenos botões de um vermelho aveludado. Quando os amentilhos tiverem libertado todo o seu pólen, dão por concluída a sua missão e desprendem-se da árvore; as inflorescências femininas, por seu turno, persistem nos ramos depois de fecundadas, transformando-se nas pequenas «pinhas» lenhosas que contêm as sementes.

11/01/2008

Singularidades de uma vila

São muitas as singularidades de Ponte de Lima. A primeira é que a sede do concelho persiste, orgulhosamente, em ser vila, quando quase todas as nossas outras localidades de dimensão semelhante há muito que quiseram proclamar-se cidades. Por isso é a vila mais antiga de Portugal; uns anos mais e será, simplesmente, a vila de Portugal. A segunda singularidade é o espaço público impecavelmente cuidado, o que inclui, além da limpeza e do bom planeamento, uma arborização abundante (sem vestígios de podas camarárias) e a manutenção escrupulosa dos belos jardins.

A cinco quilómetros da vila, acessível por um caminho pedonal ao longo do rio, há uma reserva natural com cerca de 350 hectares, centrada nas lagoas de Bertiandos e de São Pedro d'Arcos e atravessada pelo rio Estorãos, que ali desagua no Lima. Declarada como zona húmida em 1990, foi inscrita em 1995 no Plano Director Municipal de Ponte de Lima como parte da Reserva Ecológica Nacional. E aqui manifesta-se uma terceira singularidade: em vez de pedir sucessivas desanexações à reserva, como costumam fazer, com a pressurosa colaboração do Governo da República, as autarquias preocupadas com o «desenvolvimento», a Câmara de Ponte de Lima ainda reforçou o seu estatuto de protecção, fazendo-a classificar em 2000 como área de paisagem protegida de âmbito regional.

Tanta singularidade tem que dar para o torto, argumentará o autarca desenvolvimentista: como é que terra que não betoniza a torto e a direito os seus valores naturais pode «criar riqueza»? O certo é que cria, pois o concelho tem um ar indiscutivelmente próspero. Sem ter inaugurado nenhuma atracção espampanante como a Bracalândia ou a «árvore» de Natal mais alta da Europa, Ponte de Lima é das terras mais visitadas do Minho (e de Portugal); e é-o pela singela razão de se manter bonita enquanto o resto do país (incluindo o Minho) se vai tornando cada vez mais feio.





Estas imagens documentam um dos possíveis passeios a pé com partida e chegada no centro de acolhimento das Lagoas: o percurso da veiga tem 6 Km de extensão, dos quais cerca de 2/5 são fora da reserva, atravessando povoações, campos de cultivo, vinhas e pomares. Os pontos mais atraentes do percurso são a lagoa de São Pedro - rodeada por esparsos eucaliptos improvavelmente fotogénicos - e, já fora da reserva, a ponte e a azenha do rio Estorãos, onde o antigo moinho (à direita na foto) foi convertido em hospedaria (as árvores em primeiro plano são amieiros). Vimos ainda velhas oliveiras, laranjeiras com muitas laranjas a apodrecer no chão, um curioso monumento com quatro mãos agarrando uma argola - dedicado à boa vizinhança entre quatro freguesias - e, para terminar, a amostra possível da fauna local à porta de sua casa.

08/01/2008

O artista da sua terra


Amieiro na margem direita do Lima

Houve um tempo em que o caderno de encargos do artista estava definido com clareza: o poeta celebrava em versos de rigorosa métrica as belezas (naturais ou humanas) da sua terra, e o pintor cumpria igual tarefa com óleos e aguarelas. O âmbito geográfico restrito dos motivos de inspiração não tolhia o surgimento de vocações universais: o artista podia ser do mundo inteiro sem deixar de ser da sua aldeia. Mas hoje, com o descrédito da rima e da arte figurativa, e sobretudo com as facilidades de locomoção, só os artistas menores se refugiam na celebridade local e no patrocínio das juntas de freguesia; e mesmo esses têm o mundo inteiro, ou a aparência fugaz dele, à distância de um voo low cost. Já ninguém põe em verso a vida rústica. Alberto Caeiro, o último poeta rural português, cantou o bucolismo abstracto de uma aldeia imaginária, numa época em que já todos os seus confrades tinham desistido da aldeia real.

Lembrei-me disto ao ver a exposição de António Cruz (1907-1983) que está no Museu Soares dos Reis até ao fim de Janeiro. Eis um pintor que, sem ser figurativo, fixou nas suas aguarelas uma cidade brumosa em cujos volumes e contornos esfumados o Porto facilmente se reconhece. António Cruz é sem dúvida um artista portuense; de facto, nunca terá havido artista mais portuense, mas essa condição bairrista só o engrandece. O poeta e diplomata António Feijó (1859-1917) é outro caso de apego às raízes. Nascido em Ponte de Lima, cônsul geral de Portugal em Estocolmo durante mais de duas décadas, acabou por morrer no exílio «polar» da capital nórdica. Só foi poeta da sua terra quando já lá não podia voltar: à «neve cobrindo tudo» e aos «anos inteiros sem primavera» da sua vivência sueca contrapunha a memória do Minho soalheiro, com «verdes colinas» e «águas claras».

Não estou certo de que António Feijó quisesse reconhecer a sua terra natal nesta foto do rio Lima em tarde de má catadura. Não era das névoas de Inverno que ele tinha saudades - dessas estava ele bem servido na Escandinávia -, mas do ar luminoso e transparente dos dias primaveris. António Cruz, por seu lado, gostava era do Inverno, com árvores nuas e vultos incertos despontando do nevoeiro. Não teria sido surpresa encontrá-lo, numa tarde como esta, de cavalete montado à beira-rio.

06/12/2007

Desavenças familiares




Carpinus betulus

Com as obras de remodelação do Jardim Botânico do Porto, um dos caminhos que seguia quase encostado à auto-estrada, exposto ao constante atroar dos motores, foi desviado e serpenteia agora entre o arvoredo. Não que o trânsito tenha deixado de se ouvir, mas já não se vê tanto; e, se algum carro se despistar, furando a rede de protecção, o risco de atropelamento de quem passeia no jardim é menor. E o visitante acaba por habituar-se à banda sonora do trânsito: o som é permanente, mas oscilante e indistinto como o das ondas do mar, só que desacompanhado da maresia e do horizonte aberto.

O novo caminho põe em destaque as copas magníficas de três ou quatro carpas-europeias: nunca como agora pudemos apreciá-las na sua inteireza, com os longuíssimos ramos, quase horizontais, atravessando-se sobre as nossas cabeças. Como antes já aqui referimos, talvez essa desmesura da copa explique a raridade desta árvore em Portugal: é que os nossos jardins e parques são acanhados; e, em todo o caso, preferimos árvores comedidas - ou que, se o não forem, possam ser reprimidas à força de podas. (Diga-se que há um cultivar fusiforme da Carpinus betulus, tão compostinho que parece feito sob encomenda portuguesa, que começa a ser comum nas nossas cidades: já o vimos em Guimarães na avenida Alberto Sampaio e, no Porto, na estação da Trindade e no Parque da Cidade.)

A que vêm as desavenças familiares do título? É que os livros aqui em casa colocam o género Carpinus em nada menos que três famílias botânicas distintas: ora ele ficaria sozinho na família Carpinaceae, ora se juntaria aos géneros Corylus (avelaneiras) e Ostrya para formar a família Corylaceae, ora, finalmente, optaria, com esses mesmos companheiros, por engrossar a família Betulaceae, onde seria recebida pelas bétulas e pelos amieiros (géneros Betula e Alnus). Não nos cabe, como simples amadores, emitir juízos sobre o assunto, mas apenas registar que o tribunal botânico a quem cabe decidir sobre adopções e parentescos parece inclinar-se de vez para a última hipótese.

19/12/2006

A loja do gato justo


Núcleo rural do Parque da Cidade: Carpinus betulus; Olea europaea; Felis catus

O núcleo rural de Aldoar é um conjunto de casas rústicas onde, antes de existir o Parque da Cidade, viveram os agricultores que cultivavam os terrenos adjacentes. Agora recuperadas e a brilhar de novas, albergam uma amostra etnográfica, uma cafetaria com esplanada, um restaurante com preços proibitivos, e duas ou três lojas muito especiais. Uma delas é a loja do comércio justo, alegadamente da Associação Reviravolta. Dizemos alegadamente porque os verdadeiros donos são esse casal da foto: ele em primeiro plano e ela junto ao quadro negro. Tirando o curto intervalo para almoço em que os surpreendemos, estão sempre à porta da loja; e, como verdadeiros patrões, nunca são vistos a trabalhar. Mas metem conversa e aliciam potenciais clientes dando-lhes marradinhas e roçando-se-lhes nas pernas. O negócio corre-lhes tão bem que ele já exibe a característica barriguinha saliente do comerciante tradicional.

Nem quando o tema é zoológico e não botânico prescindimos do nosso didactismo habitual. Assim, os animais da foto pertencem à espécie Felis catus, e são usualmente designados por gato ou gata, conforme o exemplar em causa seja masculino ou feminino. Para sabermos mais sobre este animal, socorremo-nos de uma das obras cimeiras da erudição portuguesa neste vigésimo-primeiro século dC. É uma daquelas realizações multidisciplinares que deveriam ser depositadas em bunkers anti-atómicos ou lançadas em sondas espaciais para darem testemunho da civilização humana, e da própria vida na Terra, quando o nosso mundo tiver desaparecido. Referimo-nos à Fauna & Flora na Toponímia do Distrito do Porto (ed. Governo Civil do Porto, 2004), obra de J. J. Magalhães dos Santos onde a Geografia, a Toponímia, a História, a Zoologia e a Botânica confluem como outros tantos caudalosos rios no grande mar do Conhecimento. Em que outra obra de referência o leitor fica não só a saber, por fotos e descrições, o que é uma flor, um cão ou uma galinha, como também é informado dos lugares do seu país com nome floral, canino ou galináceo? Vejamos o que sobre gato nos ensina o esclarecido autor:

«Gato (Del. lat. cattus); sust. m. y f. Mamífero de la familia de los félidos, de pequeño tamaño, que tiene la cabeza redonda, lengua muy áspera, patas cortas, y pelaje espeso, suave y de distintos colores; el gato y la gata se hacían arrumacos en el tejado a la suave luz de la luna.»

(Uma das surpresas do livro é que as explicações científicas são em castelhano, enquanto os restantes verbetes são em português: as duas línguas irmãs alternam na mesma página em ameno convívio ibérico.)

05/08/2006

A preparar o Natal

No parque de Serralves há uma escadaria à direita do portão de entrada que conduz os crentes de certa arte moderna a dois altos muros avermelhados de ferrugem. A ladear este caminho vários pés de avelaneira (Corylus avellana) estão agora a trabalhar para termos avelãs fresquinhas em Dezembro.

A família Betulaceae (a que também pertencem as bétulas, os castanheiros e os amieiros) é, numa apreciação geral, das mais especializadas, com flores adaptadas à polinização pelo vento. No género Corylus, com cerca de quinze espécies do hemisfério norte, as inflorescências masculinas são duas candeias formadas no Outono antes da folhagem nova; as flores femininas, na mesma árvore, estão escondidas em botões castanhos que apenas deixam ver os estigmas carmim quando polvilhadas de pólen. Os frutos nascem envolvidos numa camisa rendada feita de duas brácteas.



Apesar de autóctone em quase toda a Europa desde a última glaciação, o norte da Turquia é o local favorito da espécie C. avellana, que assim compete no terreno com a C. colurna, a árvore das avelãs-de-Constantinopla. Os seus ramos são tradicionalmente a varinha mágica dos adivinhadores de água.

Corylus deriva do grego kóros, capucho, lembrando o invólucro do fruto; (nux) avellana refere-se em latim à (noz de) Abella, cidade da Campania (sul de Itália) cujas avelãs foram em tempos famosas.

24/05/2006

Amieiros nas margens do Lima




Um excelente local para observar de perto bonitos amieiros no seu habitat natural, e assim completar a lição sumária que aqui demos sobre o assunto, é em Ponte de Lima, ao longo da margem direita do rio. Além desse motivo dendrófilo e de todos os outros já aqui registados para voltar repetidamente à vila mais florida do país, acresce que depois de amanhã (sexta-feira) é inaugurado, para durar até 30 de Outubro, o segundo Festival Internacional de Jardins.

22/05/2006

Árvores no Bairro da Bouça



Conforme aqui assinalámos, o renovado Bairro da Bouça ainda não tinha, doze dias antes da inauguração oficial, uma amostra de árvore que prometesse a frescura de uma sombra. Uns dias após a cerimónia, a Câmara honrou parcialmente a promessa que na ocasião fez ao arquitecto e lá plantou vinte e seis árvores: dezassete amieiros (Alnus glutinosa) num dos pátios e nove sorbeiras (Sorbus domestica) no passeio. Um outro pátio também com relvado ao centro ficou ainda despido de árvores; esperemos que o lapso seja corrigido em breve.

O amieiro, árvore endémica no nosso país, é pouco vulgar em arborização urbana, talvez porque, prefirindo zonas húmidas ou alagadiças, não possa sobreviver confinado a uma caldeira. Mas, num caso como este, em relvado com sistema automático de rega que não poupa na água, talvez o amieiro seja a escolha certa: ao contrário de outras árvores, ele nunca se irá queixar da terra permanentemente encharcada.