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01/07/2014

A vida dos salgueiros em flor


Salix salviifolia Brot. subsp. salviifolia


Os salgueiros, a quem cabe a missão de sublinhar a verde o curso azul dos rios, têm pressa de deitar folha nova para mais cabalmente cumprirem a sua tarefa. Por uma questão de eficiência e de optimização de recursos (onde é que já ouvimos tais palavras?), aproveitam a mesma ocasião para florir. Como a Primavera é ainda notícia longínqua, há pouca gente a notar-lhes as flores, que indivualmente não são muito vistosas mas dão à árvore o aspecto de ter sido salpicada com pó amarelo. Quando chega a época de dispersar as sementes, elas vêm envoltas numa penugem branca para mais facilmente serem transportadas pelo vento. Os choupos, que são aparentados com os salgueiros, cumprem igual calendário. Muita gente, ao ver esse "algodão" esvoaçante, ou essa falsa neve que nunca se desfaz em água, julga tratar-se de pólen; e, incomodada, atribui a choupos e salgueiros a culpa de tosses e alergias causadas pelo verdadeiro mas invisível pólen que outras plantas libertam na mesma altura.

Tanto salgueiros como choupos são dióicos: é esse o termo botânico para descrever o facto de haver indivíduos dos dois sexos, fenómeno que é a regra entre os animais mas anda longe de o ser entre as plantas. Nas imagens em cima podem ver-se as inflorescências masculinas (fotos 1 e 5) e femininas (fotos 3 e 4), umas e outras com as flores reduzidas ao essencial: as masculinas só têm estames, as femininas só carpelos. São as plantas com flores femininas, e só elas, que produzem o tal algodão de (injustificada) má fama.

A espécie de salgueiro que hoje nos ocupa, de seu nome Salix salviifolia, é endémica da metade oeste da Península Ibérica. Embora menos abundante do que a borrazeira-preta (Salix atrocinerea), a borrazeira-branca — como é conhecida entre nós — encontra-se distribuída de norte a sul do país. Com o seu pequeno porte, que raramente atinge seis metros, é mais propriamente um arbusto de que uma árvore. Apresenta folhas acinzentadas, penugentas e rugosas, de não mais que 10 cm de comprimento, e amentilhos que não excedem os 7 cm. Prefere instalar-se junto a rios ou ribeiros com grande variação sazonal do volume da água, ou até junto a cursos de água temporários. Se comparada com a borrazeira-preta, a sua menor versatilidade ecológica significa que a borrazeira-branca, apesar de não ser propriamente rara, tem vindo a perder grande parte do habitat com a construção de barragens. A imagem abaixo, que mostra uma galeria de borrazeiras-brancas no ponto onde o rio Tinhela se junta ao rio Tua, dá um exemplo das perdas irremediáveis que serão causadas pela construção da barragem de Foz Tua. Parece, contudo, que nada disso é importante, pois mesmo com uma paisagem destruída o Douro continuará a ser "património mundial".


confluência do rio Tinhela com o rio Tua

07/07/2011

Estranho pólen


Salix arenaria L.
[em baixo à esquerda, flores femininas; à direita, flores masculinas]


Os choupos (género Populus) e salgueiros (género Salix), por pertencerem à mesma família botânica, têm algumas características em comum. Uma delas é que, tal como os animais, as populações destas árvores estão organizadas por sexos. Há árvores masculinas e árvores femininas: só as primeiras é que produzem pólen e só as segundas é que produzem sementes. As flores masculinas dispõem-se em amentilhos flexíveis, largando o pólen quando o vento as agita; excepcionalmente, o transporte do pólen para as árvores femininas pode também ser feito por insectos devidamente recompensados com néctar. Depois de polinizadas, as flores femininas convertem-se em frutos que, abrindo-se, deixam ver os tufos de «algodão» que rodeiam as sementes. Esse «algodão» é o modo de as sementes criarem asas e serem dispersadas pelo vento a grandes distâncias. Entre fins de Abril e princípios de Maio, quando as sementes são libertadas, andam flocos brancos pelo ar como se caísse uma neve seca. Em muitas cidades de Portugal, onde o choupo híbrido (Populus x canadensis) foi plantado em larga escala, é essa a altura de as pessoas se queixarem das suas alergias, atribuindo as culpas àquilo a que chamam pólen dos choupos.

Há aqui, evidentemente, vários equívocos. Chamar pólen às sementes do choupo é tão disparatado como chamar pólen às pevides de uma laranja. E esse algodão que envolve as sementes, podendo ser motivo de algum incómodo, não é o responsável pelas alergias. São os pólenes invisíveis de que o ar está carregado — produzidos por gramíneas, por árvores de fruto, e até por ervas espontâneas como a Parietaria judaica — que provocam as reacções alérgicas. Mas como o que se vê é o «pólen dos choupos», toca de amaldiçoar a árvore e exigir o seu abate. Decorre no país, de norte a sul, uma caça ao choupo que parece uma caça às bruxas. É sempre mais fácil gratificar a ignorância (como se faz nesta vergonhosa notícia do JN, em que até uma «especialista» patenteia a sua incompetência) do que tentar corrigi-la.

São fotos do salgueiro-anão que encabeçam esta prosa; está pois na altura de falarmos dele. Trata-se de um arbusto em geral rasteiro, mas que por vezes atinge 1,5 m de altura. Em Portugal parece estar restrito ao litoral entre o Mindelo (Vila do Conde) e Peniche. A Mata Nacional das Dunas de Quiaios, local onde as fotos foram captadas, reúne das maiores e mais bem conservadas populações da espécie que conhecemos.

Há algumas dúvidas taxonómicas quanto a este salgueiro: há quem considere que Salix arenaria e Salix repens são sinónimos, outros opinam que o primeiro é subespécie do segundo, outros ainda que se trata de duas espécies autónomas. Em todo o caso, parece haver duas formas suficientemente distintas do salgueiro-anão: a que vive nas dunas do litoral (S. arenaria) e outra, em geral menos corpulenta, que se encontra nalgumas (poucas) turfeiras da serra do Gerês (S. repens).

17/06/2011

Salgueiro-negro

Lee Valley Park
La lune blanche / luit dans les bois. / De chaque branche / part une voix / sous la ramée... / Ô bien aimée.

L'étang reflète, / profond miroir, / la silhouette / du saule noir / où le vent pleure... / Rêvons, c'est l'heure.

Un vaste et tendre / apaisement / semble descendre / du firmament / que l'astre irise... / C'est l'heure exquise.

Paul Marie Verlaine, La bonne chanson (1870)
Reynaldo Hahn, Chansons grises (1887-1890)

07/05/2011

Notícias da cervina


Choupos (Populus nigra L.) nas margens do rio Gonde em Avanca /
Asplenium scolopendrium L.
Ao contrário do que as aparências sugerem, o Primeiro Grande Concurso Dias com Árvores tem registado um êxito retumbante. Apesar de ele decorrer até final do ano e de o primeiro semestre ainda estar longe de terminar, é com gosto que anunciamos desde já o primeiro vencedor. Rui Soares, professor, morador em Avanca (Estarreja), apaixonado por fetos e um grande conhecedor do património natural da sua região, indicou-nos não uma nem duas, mas sim quatro grandes populações de língua-cervina distribuídas por Avanca e Válega, nos concelhos de Estarreja e Ovar. O feito de Rui Soares foi já devidamente recompensado com a entrega de dois livros (a que juntámos um terceiro de bónus).

É verdade que o regulamento do concurso exclui esses concelhos, mas Ovar fica aqui mesmo ao lado, e até hoje não se anunciou ninguém que tenha descoberto a cervina em Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, Gondomar ou Valongo. Não desista o leitor de procurar, pois ainda há lugar para mais nove premiados.

A língua-cervina vive em lugares húmidos e com sombra quase permanente: como ilustra a imagem abaixo, as paredes de poços e outros lugares artificializados são o seu refúgio de eleição.

12/03/2010

O vento e os salgueiros

Salix atrocinerea Brot.
[em cima os amentilhos femininos, em baixo os masculinos]
As árvores europeias mais comuns não se destacam pela floração vistosa. Muitas delas confiam ao vento o trabalho de polinizar; e, como ele não é caprichoso e faz o serviço de graça, não há razão para tentar seduzi-lo. As flores masculinas surgem em cachos pendentes e flexíveis — os amentilhos — que foram feitos para dançar ao vento, largando o pólen enquanto se saracoteiam. As flores femininas, por seu turno, quase não se vêem: basta que estejam lá, abertas para receber esse pó fecundo que tantas alergias nos provoca. Carvalhos, bétulas, avelaneiras e amieiros, todos eles optaram por esse modo de reprodução que dispensa a ajuda das abelhas e de outros insectos diligentes.

À primeira vista, os salgueiros (género Salix) fariam igualmente parte do clube das árvores auto-suficientes. Afinal, as suas flores também vêm dispostas em amentilhos, e não são particularmente chamativas nem pela cor nem pelo cheiro. Existem, porém, duas diferenças cruciais: os amentilhos não são flexíveis, e há-os de dois tipos, masculinos ou femininos. É que os salgueiros são dióicos, querendo isto dizer que há árvores dos dois sexos, cada qual com o seu tipo de flor. Os amentilhos masculinos não se balançam ao vento, e os femininos não se esforçam por passar despercebidos. A revelação de que os salgueiros são polinizados por abelhas e mariposas não surge assim como surpresa. E há recompensas para garantir que os bichos cumprem a tarefa de bom grado, pois tanto as flores femininas como as masculinas estão equipadas com nectários. Tirando isso, umas e outras adoptaram um formato minimalista: as masculinas são quase só estames, e as femininas reduzem-se aos ovários.

A dispersão das sementes é a fase do ciclo de vida dos salgueiros em que eles pedem ajuda ao vento. Para melhor esvoaçarem, as diminutas sementes vêm envolvidas por pêlos sedosos. É o contrário do que sucede com os carvalhos: embora eles sejam polinizados pelo vento, as bolotas que produzem nada têm de aerodinâmico. E há ainda outras árvores, como os choupos e os plátanos, que usam os bons ofícios do vento em todas as fases da sua propagação.

Com a sua copa baixa e arredondada, o salgueiro-preto (Salix atrocinerea) é um dos salgueiros mais abundantes no nosso país, formando bonitas galerias ao longo de rios e de outros cursos de água. É também, por florir precocemente, uma importante planta melífera numa altura do ano em que são escassas as flores. Já o tínhamos mostrado em Santo Tirso acompanhando as curvas do rio Ave. Corria então o mês de Fevereiro e a floração estava no auge, mas agora que Março vai embalado já não sobram muitos dias para ver o espectáculo. Uma observação atenta de uma fiada destes salgueiros permite, mesmo ao longe, diferenciar o amarelo das copas masculinas do verde das femininas.

As fotos de hoje foram tiradas na freguesia do Campo, em Valongo, ao fundo de uma elevação onde se instalou uma grande pedreira para extracção de xisto. Curiosamente, os salgueiros não colonizaram as margens do rio Ferreira, mas apenas as de um magro ribeiro — pouco mais que um fio de água, inteiramente escondido pelas árvores — que nele ali desagua.

20/11/2009

EN 222


Populus nigra L. (choupo) - EN 222 entre a Régua e o Pinhão

Antes da invenção das auto-estradas, as estradas moldavam-se ao território em vez de o devassarem. Enrolavam-se amorosamente nas serras, abraçando-as a cada curva. As árvores, dispostas em galeria ao longo das bermas, ofereciam mistério e aconchego; e algumas delas, como os castanheiros no Outono, davam de prenda os frutos a quem passasse. Descendo para os vales, punham-se as estradas a acompanhar os meandros dos rios. Se por capricho os quisessem cruzar, faziam-no quase rasando as águas.

Hoje há túneis, viadutos e pontes altíssimas. Perfura-se aqui, nivela-se acolá, assentam-se nos vales grossos pilares como patas de uma centopeia apocalíptica. O território deixou de ser a paisagem em que nos reconhecemos para se transformar em obstáculo a ultrapassar e, se necessário, a remover. Passamos e não vemos nada. E ainda bem que não vemos, pois o tapete de asfalto (seis faixas, separador central, áreas de serviço, portagens, nós de acesso) não deixou nada de reconhecível. Claro que agora é mais fácil de chegar, mas aonde? Os lugares por onde rompem as moderníssimas estradas já não são o que eram.

A EN 222, que parte da avenida da República, em Gaia, e, duzentos quilómetros adiante, termina o seu percurso, tortuoso como o do rio que quis emular, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, é uma dessas estradas antigas que se acrescentam à paisagem em vez de a destruírem. É verdade que o seu troço gaiense foi adulterado por sucessivos alargamentos e está visualmente poluído pela proliferação dos subúrbios e dos edifícios fabris; mas, deixando para trás Avintes, Sandim e Castelo de Paiva, vai-se revelando a vocação desta estrada a sul do Douro: o que ela quer é ver-se reflectida no rio. Ultrapassados Cinfães e o maravilhoso vale do Bestança, já o Douro se começa a ver ao fundo de encostas cobertas com vinhas ou, depois de Resende, com pomares de cerejeiras. Contudo, é só nos 23 quilómetros entre a Régua e o Pinhão, onde rio e estrada parecem gémeos, que ela cumpre a sua sina: foram 130 km para aqui chegar, e são mais 50, já longe do Douro, até ao Côa, mas é ao Douro que a estrada pertence, como se os dois nunca deixassem de correr lado a lado.

Este choupo outonal, tendo por companhia freixos, lódãos e uma ou outra oliveira assilvestrada, mora perto da foz do rio Távora. O Tedo e o Torto, outros dois pequenos rios com letra inicial T, também por aqui desaguam na margem esquerda do Douro. Do outro lado do rio, com a linha férrea fazendo contraponto à estrada, sucedem-se montes onde os socalcos das vinhas desenham as curvas de nível com rigor cartográfico. São poucos e invariavelmente brancos, de um branco encardido pelo tempo, os edifícios que se avistam: apeadeiros, armazéns, solares debruçados no rio. É uma paisagem líquida de silêncio, fechada pelos montes e pela bruma, como não há outra em Portugal.

[Texto dedicado ao inspector Jaime Ramos, que conhece bem esta estrada.]

05/10/2009

Encenação de um rio



Choupos e salgueiros nas margens do rio Cértima, no concelho de Águeda

Ao mostrar estas bateiras no seu embarcadouro, no rio Cértima, o fotógrafo torna-se cúmplice de uma encenação. Encenação de uma vida passada, ao jeito dos museus etnográficos, mas com maior capacidade ilusória: como as bateiras permanecem no local onde estariam se ainda fossem usadas, fazem crer que a forma de vida a elas associada ainda persiste. Mas não: já ninguém faz uso delas, e só não se afundam porque o rio leva pouca água. Noutros tempos, e tal como os seus primos moliceiros da ria de Aveiro, elas serviam para recolher moliço, nome genérico dado às plantas aquáticas empregues como fertilizante na agricultura. Vieram os agroquímicos, veio o abandono das terras, e o moliço deixou de ter préstimo. A Pateira de Fermentelos, lagoa natural de 4 a 5 km^2 alimentada pelo rio Cértima e por vários outros cursos de água, chegou a estar em risco de se finar, sufocada pela vegetação espontânea que entretanto fora reforçada por um temível arrivista, o jacinto-de-água (Eichhornia crassipes). A Câmara de Águeda interveio e salvou a pateira, mas não debelou a ameaça. A faina dos moliceiros, que era parte da economia local e limpava a pateira sem gasto público, extinguiu-se de vez. Para as entidades públicas ficou a dispendiosa obrigação de não dar tréguas às plantas invasoras.

16/09/2009

Caçador de rios 2: East Dart

Exorta-nos o Guia do Visitante a Dartmoor (jornal em formato A3, com 22 páginas a cores, distribuído gratuitamente nos postos turísticos) a largar o carro, pois, diz-nos ele, o parque nacional está bem servido de transportes públicos e a sua beleza desfruta-se melhor a pé. Quem não conduz, como eu, não tem outro remédio senão acatar tal conselho; mas deve preparar-se para longas caminhadas (a parte boa) e ainda mais longas esperas (a parte má).

Os autocarros no sudoeste de Inglaterra, em Devon e na Cornualha, são uma delícia e um susto. Delícia pelas paisagens que desvendam: rios, charnecas, bosques de carvalhos e áceres roçando-se nas vidraças, casas com telhados de colmo saidinhas de alguma velha ilustração infantil, o vislumbre inesperado do mar ao desfazer-se uma curva. Susto porque as estradas são estreitas e cheias de ziguezagues, e muitas vezes não têm largura para se cruzarem dois veículos. Um dos motoristas que me transportou, muito jovial na sua condução trepidante, ria-se de cada vez que algum carro guinava para a valeta à sua aproximação: têm um medo de mim que se pelam, comentava para os passageiros entre gargalhadas.


Moretonhampstead

Dartmoor fica no condado de Devon, e tem o formato aproximado de um quadrado com 31 quilómetros de lado, com as urbes de Exeter e Plymouth nas proximidades dos seus vértices nordeste e sudoeste. É em Exeter, cidade nas margens do rio Exe com uma antiquíssima catedral e uma atraente vida ribeirinha (lojas, jardins, esplanadas, casas), que confluem os transportes públicos que servem tanto o interior rural do condado como o cordão de povoações costeiras que formam a «Riviera inglesa». Uma combinação de dois autocarros, de Exeter à pequena vila de Moretonhampstead, e desta à ainda mais pequena Postbridge, deixa-nos bem no centro de Dartmoor. O óbice é que o segundo destes autocarros só presta serviço duas vezes por dia em cada sentido, e apenas de segunda a sexta: é preciso madrugar e, depois, aguardar pelo fim da tarde para o regresso.

É verdade que um dia só não dá para quase nada, mas as dez horas que intermedeiam entre um transporte e outro são uma dose excessiva de natureza para quem, sedentário incorrígivel, não veio preparado para acampar. A solução foi chamar um táxi da lojinha que combina mercearia com posto de correios: mesmo que atenuada, a civilização nunca está longe.


Dartmoor: pastagem com tojo; Bellever Tor

São as ondulantes charnecas de tojo (Ulex) e urze (Erica e Calluna), numa sucessão de outeiros a perder de vista, que fazem a paisagem de Dartmoor. Moor ou moorland são aliás as designações para os lugares onde predomina este tipo de vegetação rasteira - que encontramos também, com certas diferenças, nas serras de Portugal. Coroando muitos dos cerros vêem-se formações graníticas estratificadas, a que é costume chamar tors. Entre as singularidades de Dartmoor avultam ainda as turfeiras, terrenos baixos com um solo quase sempre encharcado, por vezes perigosamente pantanoso, constituído por matéria vegetal fossilizada. E, claro, há o tempo: imprevisível é como o descrevem, querendo com isso dizer que, mesmo no pico do Verão, em Agosto, é avisado contarmos com dias encobertos e chuvosos. Quando visitei Dartmoor não chovia, mas a água tombara copiosamente nos dias anteriores; o único calçado realmente adequado ao terreno teriam sido galochas, nunca os sapatos leves que comigo trazia. Foi com estranheza que vacas e ovelhas me viram saltitar desgraciosamente sobre poças e charcos, buscando - e muitas vezes falhando - as ilhotas de terra firme no meio do lamaçal.


Dartmoor - East Dart River

A inépcia na decifração do mapa do percurso foi o que me levou até ao rio. Tê-lo-ia visto em qualquer caso, pois ele cruza a estrada junto a Postbridge, mas foi preciso perder-me a sério, treslendo todas as indicações, para chegar ao fundo deste vale onde o East Dart vai preguiçando rodeado por salgueiros e pinheiros-silvestres. O estado lastimoso dos sapatos foi um preço de pechincha por esta paisagem mágica, a que a névoa acrescentava um toque de sonho. Nada de postiço maculava o horizonte: nem casas, nem estradas, nem postes eléctricos, nem ventoinhas; só rio e arvoredo aninhados entre colinas.

É por aqui perto que nasce o rio Dart, de que Dartmoor tomou o nome. São dois cursos de água - o East Dart e o West Dart - que, depois de uma dezena de quilómetros a deslizar cada um no seu leito, juntam os trapinhos em Dartmeet (óbvio, não é?) para formarem um rio só. Daí até ao Atlântico o rio unificado tem ainda uma trintena de quilómetros a percorrer. E onde fica a foz do rio Dart? Em Dartmouth, pois então. A lógica destes ingleses é irrepreensível.

30/06/2009

A culpa é das ovelhas

O momento mais pungente - ou pelo menos aquele que mais fundo me tocou - do seminário Árvores Monumentais: Importância e Conservação, que decorreu no Sabugal na quinta e sexta passadas (25 e 26 de Junho), aconteceu exactamente no final da palestra de Ted Green. Foi quando...

(Eis que a voz da consciência me interrompe em tom alarmado: «O quê?! Não me digas que vais falar daquilo! Francamente, não esperava isso de ti!»)

(Ignoro tanto quanto possível a interrupção e prossigo o meu relato.)

... foi quando o orador perguntou se alguém da audiência podia emprestar dois casacos, um para ele e outro para Jill Butler. É que já há dias que os dois, desprovidos de agasalhos eficazes, rapavam em Portugal um frio para o qual ninguém os tinha alertado. Na manhã seguinte, durante a excursão aos castanheiros monumentais, continuavam ambos de manga curta. O dia esteve sempre prazenteiro, o sol nunca se fez rogado, e os casacos não fizeram falta nenhuma, mas será que alguém lhos chegou a emprestar? Prefiro não saber. Seria terrível que ruíssem na mesma altura duas das certezas que mais arreigadas tinha: a primeira, que os povos do norte da Europa (e em particular os britânicos) são imunes ao frio; a segunda, que ninguém excede os portugueses em hospitalidade.



Castanheiro (Castanea sativa) - Sabugal

São às centenas os anos que os velhos castanheiros do Sabugal transportam às costas. Alguns soçobram a tamanho peso e acabam por secar; outros há que suportam copas mais ou menos frondosas; e há ainda aqueles que, como quem usa peruca, disfarçam a decrepitude com cabeleiras de folhagem que afinal não lhes pertencem. É o caso do castanheiro acima: o tronco principal está morto, e dele não brota sequer uma folha; no entanto, os rebentos emitidos pelas raízes (chamados pôlas ou ladrões) conseguiram formar troncos secundários que agora prolongam a vida da árvore, fornecendo-lhe a copa verde que ela de outro modo não teria.

Por isso, como explica Ted Green, devem manter-se as ovelhas e outros animais de pastagem afastados destas árvores: as pôlas são um seguro de vida destes monumentos vegetais, e não são para cortar nem para comer. (É só por isso que as ovelhas são más. De resto, Ted Green é um ardente defensor de uma agricultura que combine, no mesmo espaço, a presença das árvores com o cultivo dos campos e o pastoreio.)

(Aqui chegado, é melhor o leitor ir espreitar à Quinta do Sargaçal para um relato mais circunstanciado do seminário e do passeio. O castanheiro-que-por-pôlas-valerosas-se-vai-da-lei-da-morte-libertando também lá aparece, mas a verdade é que, apesar de termos visto muitos castanheiros, poucos como este tinham tanto que contar e se puseram tão a jeito para a foto.)



(Para mostrar alguma coisa que o José Rui Fernandes não tenha ainda mostrado, termino com uma foto do rio que atravessa a cidade do Sabugal: o Côa, aqui marginado por amieiros e choupos.)

21/04/2008

As árvores não sabem nadar


Choupos - Abreiro, rio Tua

aqui falámos da barragem com que o governo e a EDP querem destruir irreversivelmente o vale e a linha do Tua. Os estragos do empreendimento, contudo, não se ficarão por aí. A grande bolha de água estagnada alastrará ainda a afluentes do Tua como o rio Tinhela; na margem esquerda do Tinhela, perto da junção dos dois rios, situam-se as Caldas de Carlão, que foram modernizadas há poucos anos e serão, também elas, inundadas pelas águas da barragem. Do rio Tinhela, e da galeria de freixos que o acompanha [ver abaixo], ficarão apenas a memória e algumas fotos: as árvores, apesar de não serem inertes como são os desenhos gravados na pedra, morrerão por não saberem nadar.

«As gravuras não sabem nadar» foi o slogan criado em Vila Nova de Foz Côa, nos idos de 1995, pelos opositores à construção da barragem que iria submergir o valioso núcleo de arte rupestre então recém-descoberto no vale do Côa. A palavra de ordem propagou-se pelo país como incêndio em mato ressequido: marcou uma fronteira clara entre dois campos, e foi bandeira de António Guterres na campanha eleitoral de 95. Empossado como primeiro-ministro em Outubro, anunciou de imediato que a barragem não se faria. As gravuras estavam salvas do afogamento.

Agora que o slogan entrou na adolescência, o pequeno mundo português está menos permeável ao idealismo. Embora se anunciem para os próximos anos afogamentos ainda mais graves, pela magnitude dos prejuízos patrimoniais e ambientais, do que o das gravuras do Côa, de pouco adianta reciclar a frase e tentar insuflar-lhe nova vida mediática. O beco sem saída a que chegámos pode traduzir-se numa pergunta: em quem devemos votar para termos um governo que não construa as barragens do Tua e do Sabor? Ou, numa formulação mais geral: dos dois partidos que nos têm governado, qual deles defende que já temos quanto basta de betão e de asfalto, e que é urgente pormos termo à depredação do território?

A adopção de chavões ambientalistas pelo discurso político é um verniz que estala logo ao primeiro embate, deixando a descoberto as velhas ideias desenvolvimentistas da nossa perdição. Mas, mesmo que as escolhas políticas actuais pareçam ser entre uma coisa e a sua igual, o alheamento não é uma atitude sensata, e da desistência não podemos esperar qualquer mudança. Pode ser que o clamor daqueles que não se sentem representados no nosso mainstream político obrigue algum dia os partidos a renovarem-se e a diferenciarem-se.

É por isso - e também por acreditarmos que uma barragem na foz do Tua é um erro monstruoso - que apoiamos a petição lançada pelo Movimento Cívico pela Linha do Tua. Não falta muito para as assinaturas atingirem as 4000, garantindo-se assim que a petição é discutida no plenário da Assembleia da República.



Freixos - rio Tinhela

07/04/2008

À pesca do sábado perdido




É sabido que não existem dias felizes, mas tão só a memória nostálgica de dias que nunca foram ou a esperança ingénua de outros que nunca serão, como diria Fernando Pessoa se tivesse escrito sobre o assunto. (Coisa que na verdade ele fez insistentemente, mas seria trabalhoso desenterrar agora uma citação à propos, e sendo para o que é a pastiche serve muito bem.) Toda a poesia lírica nasceu do carácter ilusório e fugidio da felicidade. Os poetas lamentavam o que supunham ter perdido, mas era a falta de introspecção que os iludia: na realidade, choravam o que nunca haviam tido. Todas as qualidades raras dos grandes momentos que recordavam provinham das cores mágicas com que a memória, essa sentimentalona, os tingia.

O lirismo não era só alimentado pelos males-de-amor; também nele concorriam os lembrados prazeres do bucolismo. O peixe que se pescou e de que nunca mais se viu igual era tão legítimo motivo poético como a alma gentil que se partiu. Nem a alma era assim tão gentil nem o peixe tão formidável, mas quem iria desdizer o lacrimoso poeta?

Nunca pesquei, quer à linha, quer de qualquer outro modo, mas julgo que quem arma a sua cana num sábado soalheiro persegue, mais do que o peixe, uma tarde de tranquilidade ininterrupta igualzinha àquela que nunca viveu. E a margem esquerda do Tâmega, dois ou três quilómetros abaixo de Amarante, parece o cenário ideal para essa mítica tarde, com águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego. Mas logo adiante do pescador estaciona uma família piquenicante que, insatisfeita com o pipilar dos pássaros, o cri-cri dos grilos e o cantar das águas, resolve acrescentar música à natureza e põe aos berros no auto-rádio o CD do Tony Carreira. Um pelotão de BTT's com mais de uma centena de vigorosos pedalantes levanta grossa nuvem de pó acompanhada de muita conversa e gargalhada. Passam os ciclistas, mas voltam pouco depois, que o caminho não tem saída. Duas motas ruidosas aceleram em despique. Um fotógrafo intrometido (eu) aponta a máquina quando o pescador enrola a linha: não vem nada, como é óbvio, pois desde o monstro de Loch Ness que os fenómenos sub-aquáticos se esquivam à objectiva.

Encolho os ombros e passo adiante, deixando o pescador com os destroços do seu sábado. Recolho imagens de águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego, para falsa memória futura.



Rio Tâmega: salgueiros-pretos (Salix atrocinerea) e amieiros (Alnus glutinosa)

22/03/2008

Duplo refúgio


Araucaria heterophylla

Encravadas numa língua de areia entre a ria e o mar, Torreira e São Jacinto - as duas localidades que confinam com a reserva natural do mesmo nome - têm isto mais em comum: gostam pouco de árvores. Plantam choupos e plátanos nas ruas como quem cumpre a contragosto uma obrigação de que não alcança o sentido; e todos os anos, com um zelo que não esmorece, os mandam mutilar e os deixam reduzidos a pouco mais que os troncos. As árvores assim tratadas têm em geral vida curta; e, na verdade, nunca chegam a ser árvores, pois nunca têm copa que nos abrigue do sol. Afinal, por que diabo haveria alguém de querer fugir da luz do sol em terra que vive do veraneio?

De modo que a reserva de São Jacinto não é só um refúgio para aves, escapadas aos caçadores que exercitam a pontaria pela banda da ria: é também um refúgio para árvores, que ali estão a salvo da motosserra do podador. É claro que uma reserva onde se tentam preservar os valores naturais de uma região não é o lugar indicado para o plantio em série de árvores ornamentais exóticas - além de que a pobreza do solo arenoso dificultaria o seu desenvolvimento. Mas esta Araucaria heterophylla junto à sede da reserva, que pouco mais terá que 20 metros de altura, deu-se bem com os ares da ria, avantajando-se já aos pinheiros-bravos - que são, eles sim, os legítimos ocupantes deste território. Outras árvores refugiadas se vêem na foto: à esquerda do caminho um par de elegantes laranjeiras e, à direita, a larga copa de uma amoreira com a folhagem nova acabada de estrear.


Salix atrocinerea (salgueiro-preto)

Se há coisa que o visitante a estas paragens nota é a falta de relevo: por isso, dentro da reserva, qualquer árvore, por pequena que seja (e elas em geral são pequenas), nos corta a perspectiva. Considerada como paisagem, a reserva é monótona e pouco tem para oferecer ao visitante: vale é como experiência botânica para quem se der à minúcia de esquadrinhar a vida vegetal, pequena ou grande. E também, como é óbvio, recompensa largamente o observador de aves aquáticas, se ele tiver a fortuna de encontrar o caminho para a pateira - a qual, apesar de se estender por vários hectares, está praticamente oculta do visitante. O único posto de observação é uma cabana de madeira com uma estreita ranhura à altura do peito aberta numa das paredes. Em vez das acácias e pinheiros que dominam o resto da reserva, a vegetação circundante do lago é sobretudo de salgueiros-pretos; e o recorte sinuoso mas aberto das suas margens forma um bem-vindo contraste com os caminhos em linha recta que cruzámos até ali.

24/01/2008

Os irmãos Azara



Azara serrata

Arbusto chileno de folha perene, a Azara serrata tem folhas de margens dentadas e de dois tamanhos: as grandes alternadas, as pequeninas em pares e fixadas nos pecíolos das maiores. As flores amarelas agrupam-se em corimbos, são perfumadas, não têm pétalas, e as 4-5 sépalas rodeiam um tufo de numerosos estames que justificam a designação comum aromo (acácia) que atribuem a esta planta na região andina. A da foto mora no Holland Park, um jardim agasalhado por um bosque e recheado de plantas, flores e bancos confortáveis; enfim, velharias do espaço urbano que certa arquitectura actual jovialmente desdenha.

O nome do género refere-se ao espanhol José Nicolás de Azara (1730-1804), diplomata, coleccionador de antiguidades e mecenas da arte: estranha associação esta, quando não houve, aparentemente, qualquer vínculo deste político à botânica. Na verdade, J. N. de Azara foi o irmão mais velho de Félix de Azara (1742-1821), engenheiro militar e cartógrafo, destacado na América do Sul para vigiar o cumprimento do Tratado de Madrid, actualização de 1750 do de Tordesilhas. Acção difícil, face à ousadia dos portugueses bandeirantes, mas que lhe deu oportunidade, e tempo livre, para estar atento à natureza. O rigor científico nestes estudos e as consequentes obras sobre a fauna do Paraguai e do Rio da Prata granjearam-lhe fama como naturalista; na América do Sul, a posteridade «eternizou-o» como nome de rua, de vila e de pássaro; e, em 1976, foi-lhe dedicada uma montanha na Lua, a Dorsum Azara, que se estende por cerca de 105 quilómetros entre as crateras Lineu e Bessel (homenagem ao matemático alemão Friedrich Wilhelm Bessel), no Mar da Serenidade.

12/05/2006

"Algodão das árvores"

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Populus spp
De novo no tempo do "algodão das árvores"!
À falta de neve no Inverno, temos esta "folheca" na Primavera.
adenda - E atenção, estas sementinhas voadoras dos choupos não são responsáveis pelas "alergias" dos pólens! Como se pode ler no boletim da Rede Portuguesa de Aerobiologia, são outras as plantas que neste período se encontram em época de polinização:
«Região Norte- Durante a semana de 6 a 12 de Maio serão de esperar elevadas concentrações de pólen atmosférico salvo nos dias em que ocorra precipitação prolongada a qual provocará uma redução temporária das concentrações de pólen atmosférico. Os tipos polínicos presentes na atmosfera pertencerão particularmente aos tipos Quercus spp. (carvalhos), Pinaceae (pinheiros e cedros), Urtica (urtigas) e Poaceae (gramíneas). Para os restantes tipos polínicos serão de esperar baixas concentrações. (...)
Por todo o país continuar-se-á a registar um aumento das concentrações de pólen de Olea europaea (oliveira), Poaceae (gramíneas), Plantago spp. (tanchagens) e Chenopodiaceae-Amaranthaceae (quenopódios e bredos). (...)»
Fonte SPAIC (via Blog dos Bichos)

26/02/2006

Salix babylonica - Vizela

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Salgueiro chorão no Parque das termas em Caldas de Vizela no Outono de 2004.
O porte gracioso, os longos ramos pendentes e as características folhas lanceoladas fizeram com que se tornasse a espécie do género Salix mais apreciada nos jardins públicos e privados.
No entanto, negando-lhes a sua vocação ornamental e afrontando todos os que têm um mínimo de sensibilidade e sentido estético, ano após ano, estas árvores continuam a ser drasticamente podadas ficando por vezes durante longas semanas com as pernadas reduzidas a uns tocos atrozes! Esperemos que isso nunca aconteça à árvore da fotografia, um dos mais bonitos exemplares que conheço.

22/02/2006

Com um pezinho na água



Poucos são os géneros de folhosas que como o Salix (salgueiros) tantos usos permitem: por exemplo, além de geralmente muito ornamentais (destacando-se entre nós a chinesa S. babylonica, o chorão de galhos graciosos e pendentes tidos como o melhor dos vimes), a espécie S. alba produz a madeira macia e leve com que se fazem os tamancos ou os bastões de críquete, a boa cestaria muito deve à S. viminalis, e a S. cinerea é fonte de matéria prima para o carvão dos lápis. Em todas as espécies o ritidoma contém salicina, um alcalóide usado para fabricar ácido acetilsalicílico, o princípio activo da aspirina.

Reunindo mais de 300 espécies dióicas (cada planta tem exclusivamente flores femininas ou masculinas) nativas do hemisfério norte, este género destaca-se também pela diversidade de ecossistemas a que se adaptou, embora a maioria prefira solos húmidos de bosques ou zonas ribeirinhas - facto talvez relacionado com a vida curta das suas sementes que perdem cedo a sua capacidade de germinação. Assépalas e apétalas, as flores dispõem-se em amentilhos, sendo as masculinas as mais vistosas.

Disse Eugénio de Andrade (Palavras em Serrúbia, 2003): «Eis o que tenho a pedir-vos nos meus oitenta anos: plantem nesse lugar um plátano, onde o vento enroladinho no sono possa dormir sem sobressaltos; ou uma oliveira, ou um chorão, e à sua roda ponham uma sebe da flor doce e musical de espinheiro branco. Embora tenha pouca ou nenhuma fé seja no que for, a terra ficará mais habitável. Um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo.»

Fotos: pva 0502 - salgueiros-pretos (Salix atrocinerea) em flor nas margens do rio Ave em Santo Tirso

18/10/2005

Um pedaço de noite

À noite, o salgueiro é negro...
Com o vento meneando,
Parecem filas de frades,
Todos em coro rezando.

Antero de Quental, Cantigas (1864)


Foto: pva 0411 - salgueiro-chorão (Salix babylonica) na Baixa de Santo António, Aveiro

01/09/2005

Jardim de dálias


Parque da Lavandeira: lago e salgueiros (Salix atrocinerea)

Na brochura sobre o Parque da Lavandeira, da autoria da equipa do Parque Biológico de Gaia que dirigiu a intervenção recente nesta antiga quinta, pode ler-se a promessa de que lá se irão instalar alguns jardins temáticos: o Jardim Aquático, o das Gramíneas, o Interior, o do Labririnto, o Natural, o Oriental, o das Suculentas, o da Fantasia, o dos Fetos, o Francês e o das Palmeiras. Muitas lições em projecto, motivo para múltiplas visitas.

A propósito, no Jardim Portuense, jornal publicado em 1843 e 1844, percursor no conteúdo, forma e estilo do Jornal de Horticultura Prática, há uma referência elogiosa a esta quinta numa crónica sobre Novas dahlias portuenses: «Não terminaremos este artigo sem rendermos também os devidos encómios aos beneméritos floristas e apaixonados, que se esmeram em mandar vir de fóra do paíz as mais primorosas Dahlias, que com tanto mimo cultivam nos seus jardins. Não mencionaremos os nomes de todos estes jardins e de seus proprietários, para não sermos demasiado extensos; porém é de justiça que não deixemos de especificar a quinta da Lavandeira pertencente ao Snr. Conselheiro Lima, e o jardim do Snr. D. R. de Faria, como os famosos recintos onde se encontram as Dahlias estrangeiras mais bellas, mais variadas e mais novas.»

Aqui fica a sugestão: que se continue este capítulo da história desta quinta criando-se no Parque da Lavandeira também um Jardim de Dálias.



Dálias no Jardim Botânico do Porto
Fotos: pva 0508