31.8.07

Dunas de São Jacinto

Já aqui explicámos a peculiar situação geográfica de São Jacinto, freguesia de Aveiro separada pela ria da sua sede de concelho. Não pudemos visitar a Reserva Natural aquando da nossa imprevidente primeira viagem, e por isso voltámos lá algumas semanas mais tarde, dessa vez seguindo a EN 327 desde Ovar. Pouco depois da Torreira - que é a outra localidade, essa pertencente ao concelho da Murtosa, nesta península que se alonga de Ovar a São Jacinto - a reserva começa a acompanhar a estrada pelo lado poente, enquanto do outro lado a ria nunca nos sai da vista. É por isso impossível não dar pela reserva - mas, para que a visita seja compensadora, convém iniciá-la no posto informativo (que fecha aos domingos e feriados). É que, se não seguir o trilho certo, o mais provável é que o visitante não encontre nem o caminho para as dunas nem para a pateira. A reserva é cortada por uma rede de aceiros, amplos caminhos em linha recta que correm uns paralelos e outros perpendiculares à ria. Assim, o risco de alguém se perder é diminuto: basta tomar um aceiro na direcção da ria e em vinte ou trinta minutos reencontra a EN 327.

Serve isto para dizer que não começámos a visita por onde devíamos, mas a sorte ajudou-nos e encontrámos um guia prestável que nos pôs no rumo certo. Antes disso, chegámos a subir à torre de vigia, coisa que os visitantes bem comportados estão impedidos de fazer. Tivemos também ocasião de perceber a gravidade da infestação por acácias (Acacia longifolia), que obriga a desmatações frequentes numa guerra que dificilmente poderá ser vencida. Além das acácias, o coberto arbóreo, essencial para a fixação das areias, inclui muitos pinheiros-bravos, alguns medronheiros, salgueiros, choupos e amieiros, e uma população surpreendentemente abundante de faias-das-ilhas (Myrica faya). Seria interessante saber se a M. faya foi introduzida em São Jacinto, como os pinheiros e as acácias, na época em que a mata foi semeada (entre o final do século XIX e a década de 1930), ou se surgiu lá espontaneamente.



Encontrar o passadiço de acesso às dunas, depois de uma interminável caminhada na mata por um trilho perversamente coleante, é como chegar ao primeiro degrau da escadaria que leva ao paraíso. Começam ali as maravilhas que se vão refinando à medida que subimos, até que no miradouro se cumpre a promessa do mar aberto, rodeado de silêncio e de dunas sem mácula. De início, bordejando o passadiço, há pinheiros, camarinhas (2.ª foto), acácias e uma profusão de pequenas plantas dunares; à vista do Atlântico, na crista dunar (3.ª foto), a vegetação rarefaz-se e fica reduzida ao estorno (Ammophila arenaria). O regresso - inevitável porque o paraíso é para se tomar em pequenas doses - faz-se pelo mesmo viaduto de madeira suspenso por estacas sobre as dunas (1.ª e 4.ª fotos).

9 comentários :

as-nunes disse...

Caro amigo Paulo
Para já só queria deixar aqui uma nota singela. Finalmente descobri porque é que a minha sogra, hoje com 88 anos, nascida e criada até aos 9, na Terceira, entre Angra do Heroísmo e Raminho, tanto nos fala fas faias que havia na terra dela.
No ano passado fomos à Terceira e bem procurámos por essas benditas faias. E elas ali mesmo à frente do nosso nariz.
...
Voltarei a este post.
Só um pedido de ajuda. Se tiver ocasião gostaria de saber a sua opinião sobre a dúvida que levanto no meu post http://dispersamente.blogspot.com/2007/08/igreja-sto-agostinho-quercus.html
Penso que temos em causa uma questão pertinente.
Um abraço, bom fim de semana.
António

Manuel Arcêncio disse...

Caríssima,
Leio com muita assiduidade o seu blog, e constitui sempre um momento de descanso e aprendizagem. Porém, lamento informar que tem um pequeníssmo erro nesta sua entrada: a Torreira é vila e freguesia do Concelho da Murtosa... ainda não foi anexada a Aveiro. De resto: parabéns e continue a defender o que de mais belo a natureza nos vai dando.

Paulo Araújo disse...

Caro Manuel Arcênsio:

Muito obrigado por ter apontado o erro; já fiz a devida correcção. Ficam as minhas desculpas por querer alargar o concelho de Aveiro à custa dos concelhos vizinhos. A propósito: embora não forneça assunto a um blogue especializado como o nosso, a Torreira é uma bela vila, e comemos lá, numa restaurante junto à praia, uns linguados fresquíssimos.

bettips disse...

Há sonhos, então, que se tornam realidade! Um horizonte limpo que já não visito há que tempos. Abç

p. faúlha disse...

caros amigos,

com efeito as myrica faya foram introduzidas pelos serviços florestais aquando da arborização da mata nacional das dunas de são jacinto, a par de muitas outras espécies lenhosas e herbáceas utilizadas na difícil tarefa de fixar dunas móveis (consultar, quanto a este aspecto, o volume 1 da colecção "árvores e florestas de portugal", do público). trata-se, infelizmente, de uma matéria pouco conhecida e mesmo escondida a quem visita a reserva, desde a sua constituição.
para além do salix atrocinerea e do salix arenaria, que surgiam raramente antes da arborização, foram introduzidos os pinheiros, os choupos, os eucaliptos, o amieiro, as acácias (que viriam a descontrolar-se posteriormente, em resultado da ausência de cuidados silvícolas mínimos), o zimbro e várias outras espécies insuspeitas, incluindo vidoeiros (ainda hoje existentes!).
entretanto outras espontaneamente se foram juntando, como a myrica gale, a outra espécie de samouco indígena em portugal continental, embora rara e localizada.
para além das acácias, pesa hoje outra ameaça terrível sobre a reserva: a cortaderia selloana, virtualmente inexistente até meados da década de 1990 e que não se entende como não foi de imediato erradicada.
Abraço
p. faúlha

Paulo Araújo disse...

Caro P. Faúlha:

Muito obrigado pelos seus esclarecimentos. De facto, no meio de todas aquelas Myrica faya reparei numa árvore que muito se assemelhava a ela, mas tinha as folhas maiores; se calhar era a tal Myrica gale, mas não posso confirmar pois não tirei fotos. Aproveito para reforçar a recomendação de leitura do 1.º volume da colecção Árvores e Florestas de Portugal (Público/LPN). É bom que as pessoas conheçam a grande aventura da arborização do litoral, e saibam que uma reserva natural como a de São Jacinto é obra humana (a que a natureza deu uma grande ajuda).

Anónimo disse...

A visitação à reserva está encerrada às Quintas-feiras, Domingos e feriados nacionais por serem dias de caça, como esta não é permitida no interior da Reserva, as aves fogem da Ria, onde é possível caçar, para se refugiarem nos lagos da Reserva. A fim de evitar perturbações causadas pelos visitantes, pois as aves estão com níveis de stress elevados, os responsáveis pela Reserva decidiram não permitir as visitas nesses dias, contando com a compreensão das pessoas que verdadeiramente respeitam a Natureza. Quanto à myrica gale não há registos da sua existência em São Jacinto. A variedade de folhas que observou é comum na espécie myrica faya que exibe uma diversidade de tamanho e forma das folhas.Para finalizar, antes de se visitar uma área protegida devemos recolher informação sobre, os trilhos permitidos aos visitantes, os horários e outras condições de visitação, para não correr riscos de inadvertidamente causar dano.
um abraço

Francisco Mesquita disse...

Moro em Ílhavo e há imenso tempo que não visito as Dunas. Aguçou-me o apetite.
Obrigado
Francisco Mesquita

CM disse...

já fui visitar as Dunas de S.Jacinto num passeio escolar.

é lindo

a senhora que nos guiou era exelente.

aprendi bastantes coisas com as Dunas de S.Jacinto