16.10.06

Faia-das-ilhas


Myrica faya (Monte Brasil, Angra do Heroísmo)

A Myrica faya, conhecida como faia-das-ilhas ou samouco, é uma das espécies características da floresta laurissilva das ilhas atlânticas. Isoladas no meio do oceano, essas manchas de floresta perenifólia, por terem escapado à glaciação que atingiu as grandes massas continentais, são uma relíquia viva e única da era terciária. Mas, em contraste com o que sucede na Madeira, já quase nada sobra dessa floresta nos Açores. Uma das poucas espécies nativas que resistem nessas ilhas é precisamente a Myrica faya: vêmo-la, por exemplo, no Monte Brasil, sustentando acesa disputa territorial com as exóticas Pittosporum undulatum (falso-incenso), Populus alba (álamo) e Cryptomeria japonica. Emigrada por mão portuguesa para o Hawaii no final do século XIX, a Myrica faya confirmou a sua vocação guerreira, tendo-se aí tornado uma das piores espécies invasoras.

A faia-das-ilhas também se naturalizou em certas matas do centro e sul de Portugal - de tal modo que há dúvidas (como regista o livro Árvores de Portugal e da Europa, ed. Fapas) sobre se ela é ou não igualmente nativa do continente. O mais provável é que não seja, pois os nossos navegadores desconheciam esta pequena árvore (altura até 8 metros) quando com ela depararam nas ilhas. Chamaram-lhe faia, nada lhes importando que ela pouco se parecesse com a magnífica árvore que já tinha esse nome; e por isso uma das ilhas a que aportaram ficou sendo o Faial. (Numa inversão cómica, um dos fiáveis sítios da Internet que fala da árvore explica que o epíteto faya se deve à sua presença na ilha do Faial: é como dizer que o pinheiro foi assim baptizado por ter sido primeiramente avistado num pinhal; mas quem escreveu tal disparate tem a desculpa de não saber português.)

O género Myrica tem uma distribuição geográfica curiosamente dispersa: além da insular M. faya, conta com 7 espécies norte-americanas (uma delas, M. gale, presente também na Europa e na Ásia), outras 7 na África do Sul, e ainda duas espécies na Nova Caledónia e no Japão. A maioria dessas espécies, ao contrário da M. faya, prefere habitats húmidos e mesmo pantanosos (como a M. gale, chamada bog myrtle nos EUA).

6 comentários :

Manuel Anastácio disse...

Em que sítio da internet é que se diz que Faya provém de faial?

Paulo Araújo disse...

Aqui

Manuel Anastácio disse...

LOL...

manuela disse...

Olá. "Eu não sei como te chamas ó Maria Faia..." ;-)
Estou para aqui a cantarolar mas o que queria mandar é um palpite sobre a utilização do termo "faia" para designar espécies que não têm nada a ver com a "verdadeira" faia , do género Fagus.
Temos por exemplo e pelo menos os casos dos nomes vulgares de alguns choupos (o que se encontra também na toponímia) e também o do nome científico destas faias-das-ilhas.
Talvez isso se deva ao facto da palavra derivar de "fagea" que em latim antigo (de acordo com Jose Pedro Machado) tinha o significado abrangente de árvore e restrito de faia do género Fagus.
Como faias verdadeiras cá não havia nesses remotos tempos, presumo que em Portugal, esse termo terá transitado do latim antigo para a língua corrente apenas com o significado abrangente referido anteriormente. Assim quando as pessoas viam muitas árvores de que nao sabiam os nomes chamavam-lhes faias.

Enfim, é apenas uma hipótese pois não me debrucei a serio sobre o assunto, ou melhor dizendo não averiguei exaustivamente se alguém (nomeadamente José Leite de Vasconcelos, Carolina Michaelis e seguidores) já tentou explicar e a razão de ser dos diversos significados do termo faia.
Talvez o Ciberdúvidas nos possa esclarecer.
abraço

Maria disse...

Andava eu á procura de informação desta espécie que nada tem a ver com a Fagus sylvatica e parei aqui no seu blogue, que muita informação me tem dado. contudo gostaria de saber se alguém me consegue esclarecer quanto ao significado do nome Myrica faya? Obrigada desde já.

Paulo Araújo disse...

O nome científico desta árvore, como o de qualquer outra planta ou animal, é composto por duas partes. Myrica indica o género em que a planta está incluída, e em que estão também todas as plantas suficientemente próximas dela. Plantas ou animais dentro do mesmo género podem frequentemente formar híbridos (por exemplo, de burro com égua: pertencem os dois ao género Equus).

O nome genérico Myrica, que vem do grego, foi primeiramente usado por Lineu para a Myrica gale, uma espécie arbustiva do hemisfério norte. Assim, a faia-das-ilhas chama-se Myrica simplesmente por estar aparentada com essa outra planta.

A segunda parte do nome, ou epíteto específico, neste caso faya, já pode reflectir alguma peculiaridade da planta. Neste caso provém dos nomes comuns faia ou faia-das-ilhas que lhe foram atribuídos pelos portugueses.