20/02/2021

Passaporte falsificado



Argyranthemum maderense (D. Don) Humphries



Quem por estes dias chegar a Inglaterra vindo de Portugal, declarando falsamente ter estado apenas em Espanha, comete um crime punível com dez anos de prisão. Não sabemos se a pena é só para pessoas ou se também abrange plantas e animais de companhia. Vem a propósito recordar um episódio histórico de falsificação de passaporte, mas em sentido contrário, envolvendo um malmequer arbustivo de comprovado mérito ornamental que, na década de 1830, se instalou no Chelsea Physic Garden fazendo-se passar por madeirense quando na verdade era originário da ilha de Lanzarote, nas Canárias. O botânico e bibliotecário David Don, que em 1836 primeiro descreveu a espécie baseando-se nos exemplares cultivados nesse jardim botânico londrino, confiou nos documentos com que a planta certificava a sua espúria nacionalidade. Eis o que na sua boa-fé escreveu David Don no tomo VII (de 1836) de The British Flower Garden: “Só recentemente esta elegante espécie arbustiva foi adicionada à nossa colecção pelo Sr. Webb, da Madeira. Parece diferenciar-se distintamente das várias espécies arbustivas nativas das Canárias (...) que se enquadram, sem dúvida, no mesmo género.” Como todas as outras plantas apresentadas nessa obra, a descrição da então chamada Ismelia maderensis era acompanhada por uma ilustração primorosa, muito melhor do que as fotos hoje em dia usadas em livros de divulgação botânica.

O Sr. Webb a que se refere David Don era Philip Parker-Webb (1793–1854), co-autor, com o francês Sabin Berthelot, da monumental Histoire Naturelle des Îles Canaries, publicada em 9 volumes entre 1836 e 1850. Webb viveu vários anos nas Canárias — e, se não é impossível ter visitado a Madeira, é certo que não se lhe conhecem quaisquer estudos sobre a flora dessa ilha. A fama, nesses tempos, circulava devagar e demorava a estabelecer-se, e é perfeitamente desculpável que David Don ignorasse que Webb, cuja obra maior ainda estava por vir, residia nas Canárias e não na Madeira, onde afinal eram muitos os britânicos expatriados.

O nome genérico Ismelia, que lembra o Ismael bíblico e foi depois preterido por Argyranthemum, é motivo de alguma curiosidade. O autor do nome, o francês Henri Cassini (1781-1832), absteve-se de lhe explicar o significado aquando da sua publicação, datada de 1826. Talvez o tenha usado apenas porque lhe soou bem, o que é uma razão tão válida como outra qualquer. E é pena que as regras da taxonomia botânica tenham excluído esses malmequeres das ilhas do género Ismelia. Se assim não tivesse sucedido, talvez na Madeira e nas Canárias se falasse hoje de ismélias em vez de estreleiras ou margaritas. O género Ismelia não foi varrido dos anais da botânica, mas ficou reduzido à única espécie descrita por Cassini, a marroquina Ismelia versicolor.

Quanto ao equivocamente chamado Argyranthemum maderense, impõe-se reconhecer que este endemismo de Lanzarote — um arbusto de não mais que 70 cm de altura, florescendo entre Janeiro e Maio, com capítulos de um bonito amarelo sulfuroso — é talvez o mais atraente de um género formado quase todo ele por plantas de decidida vocação ornamental. Não é só a cor das flores (quase todos os outros Argyranthemum as têm brancas), mas também a sua abundância e o seu contraste com a folhagem glauca e luzidia. Porém, mais do que vê-lo em jardins, é emocionante encontrá-lo no seu habitat natural, que são os montes e crateras comparativamente frescos do norte de Lanzarote, em especial aqueles que formam o maciço de Famara.

14/02/2021

Clematite de Inverno

Apercebemo-nos, quando mudamos de casa ou fazemos arrumações, que acumulamos muitos objectos sem préstimo, daqueles que ocupam muito espaço em casa e nas recordações. São essencialmente informação, e isso é algo que aprendemos a conservar antes de os computadores e os motores de pesquisa aumentarem a nossa capacidade de memória. Ao lado de desenhos da infância, búzios, bilhetes de uma peça de teatro, o primeiro passaporte, agendas com números de telefone e anotações em letra ilegível e inúmeras fotos inseparáveis dos negativos, reencontramos com surpresa recortes de jornais, pétalas secas espalmadas em cadernos escolares, um frasquinho de areia de um deserto africano ou uma edição imperfeita de um livro de Camilo que um gato mordiscou. As plantas, pelo contrário, não usam bagagem e descartam anualmente, sem hesitação, o que foi útil mas gastaria muita energia preservar. Há, porém, excepções.

Clematis cirrhosa L.


O cipó-do-reino é uma trepadeira vigorosa da região mediterrânica cuja distribuição em Portugal se restringe ao Algarve e Baixo Alentejo. Aprecia orlas de bosques e matagais, e também a proximidade do mar. Os talos são lenhosos mas flexíveis, e os pecíolos de anos anteriores são aproveitados para fazer gavinhas (daí o epíteto cirrhosa). Desse modo, o emaranhado da ramagem permite-lhe estender-se ao sol enquanto se protege de ventos e maresias. As flores, axilares, pendentes e em geral solitárias, com 4 a 6 pétalas revestidas de penugem e com pedúnculos longos (cerca de 4 cm), nascem no Inverno, o que pode justificar a preferência desta planta pelas temperaturas amenas do sul. A 3.ª e 4.ª fotos mostram ainda o invólucro da flor, feito de duas brácteas soldadas, que, curiosamente, se destaca da flor quando ela desabotoa.



As fotos são do núcleo que vimos a caminho da praia do Barranco, em Sagres. De Portugal continental são nativas três outras espécies de Clematis, com floração na Primavera e Verão, incluindo a C. flamula, cujos núcleos conhecidos em Portugal são também todos do Algarve e Baixo Alentejo e de que, não indo nós ao Algarve no Verão, ainda só conhecemos as folhas.

07/02/2021

Alface roxa

Prenanthes purpurea L.


Este é o segundo e último fascículo da série “flores pendentes”. No primeiro falámos da Chrysoprenanthes pendula, endémica da Grã-Canária que começou por chamar-se Prenanthes pendula e, de acordo com a opinião cada vez mais dominante, é na verdade um Sonchus. Deixemos porém a controvérsia taxonómica e concentremo-nos na etimologia. Prenanthes vem dos termos gregos prenes (que significa “virado para baixo”) e anthos (= flor), referindo-se portanto às “flores pendentes” que caracterizam estas plantas. No caso do género Chrysoprenanthes, criado por David Bramwell para combater a inclusão da planta canarina no género Sonchus, o prefixo chryso (= dourado) completa o retrato da planta informando-nos que ela dá flores amarelas. As combinações Prenanthes pendula ou Chrysoprenanthes pendula quase nos pareceriam redundantes, com o epíteto pendula insistindo na ideia de “pendente”, mas essa reiteração refere-se ao hábito da planta e não à disposição das flores.

Desta vez focamo-nos na lineana Prenanthes purpurea, espécie europeia que, após rearrumação taxonómica ditada por estudos filogenéticos, ficou sozinha num género que antes incluía numerosas espécies norte-americanas. É uma herbácea perene, glabra, erecta, de 30 a 150 cm de altura, com folhas todas caulinares, rematadas por aurículas arredondadas, abraçando o caule. Os capítulos, numerosos e dispostos em pirâmide, são roxos e formados por apenas 2 a 5 florículos muito proeminentes. Dada a sua semelhança com certas alfaces silvestres (género Lactuca), os ingleses chamam-lhe purple lettuce; nós seguimos o exemplo e chamamos-lhe alface-roxa. Com floração estival, vive em bosques húmidos, lugares sombrios e margens de cursos de água, sobretudo em lugares de altitude elevada, e distribui-se por quase toda a Europa desde os Pirenéus até à Turquia e ao Cáucaso. Apesar de a sua incursão em Espanha ir pouco além da cadeia montanhosa que marca a fronteira com França, a alface-roxa não é rara nos Pirenéus e nas suas franjas. Vimo-la no vale de Añisclo, um daqueles desfiladeiros calcários que parecem saídos do atelier de um artista de génio; e, num habitat muito diverso, reapareceu-nos, em grande profusão, nos bosques de abetos (Abies alba) e pinheiros-silvestres (Pinus sylvestris) que revestem as íngremes encostas da face norte de Peña Oroel. Esse monte de quase 1800 de altura ergue-se junto à cidade de Jaca, na província de Huesca, e oferece-nos em ante-estreia, com acesso facilitado, muitas das plantas características das altas montanhas pirenaicas.

Vale de Añisclo, Pirenéus aragoneses

Peña Oroel