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05/06/2021

Linária das neves

Linaria alpina (L.) Mill.
Os cumes das grandes cadeias montanhosas são, a seguir ao fundo dos oceanos, os lugares menos acessíveis do planeta, mantendo-se com ecossistemas mais ou menos intocados por serem pouco propícios à presença humana. Claro que o desejo pela aventura e, mais tarde, a vontade de tornar esses lugares acessíveis aos menos enérgicos acabaram por devassar alguns deles com teleféricos, pistas de esqui, estradas, hotéis e toda a parafernália do turismo de massas. Ainda assim, nos Pirenéus, Alpes, Picos de Europa, Gredos e tantas outras montanhas pela Europa fora, a grande maioria dos cumes não se alcança sem esforço e uma boa dose de coragem. Até que a certa altura compreendemos que, pela idade ou circunstâncias de vida, há lugares que para sempre nos estarão vedados, e isso é algo que não devemos lamentar.

No nosso caso, há plantas que nunca iremos ver, alcandoradas nos picos para que nunca lhes falte o aconchego gelado que tanto apreciam. Mas na verdade não são assim tantas as plantas que estão restritas às maiores altitudes. Acontece é que aquelas que se distribuem desde os mil e poucos metros até bem acima dos dois mil vão florindo ordenadamente de baixo para cima, acompanhando o degelo — e, no período estival, quem as queira ver floridas tem que subir mais alto. Na visita que há uns anos em Agosto fizemos aos Pirenéus, onde nos ficámos preguiçosamente pelos grandes vales, poucas foram as plantas que vimos em flor.

Uma das excepções foi esta Linaria alpina, que vimos tanto na serra de Gredos como nos Pirenéus, e que com relutância nos mostrou duas ou três flores em ambas as ocasiões. É uma planta anual rasteira, de floras roxas ou azuladas com distintivas manchas amarelas no labelo, que se distribui por todas as grandes cadeias montanhosas da Europa ocidental. Aparece geralmente em altitudes acima dos 1500 metros, e atinge os 3300 nos Pirenéus. A serra da Estrela, embora compreendida nesse intervalo altitudinal, fica fora da área de distribuição da espécie, culpa dos invernos menos rigorosos causados pela proximidade do Atlântico. Por isso não desfrutámos do conforto burguês de termos a planta à mão de fotografar ao apearmo-nos do automóvel. Em Gredos, onde as estradas se quedam muito abaixo dos cumes, foram 5 ou 6 km por um trilho sempre a subir para a encontrarmos a uma altidude modesta, rondando os 2200 metros.

04/04/2021

Dona Genciana revisitada




Portugal, talvez por falta de cadeias montanhosas elevadas, foi muito desfavorecido face a Espanha na partilha de espécies de Gentiana: só temos duas (G. pneumonanthe e G. lutea, esta só na serra da Estrela) e os nossos vizinhos têm 13; se lhes acrescentarmos os géneros aparentados Gentianopsis e Gentianella, o saldo final é de 16-2 a favor de Espanha. Que, com toda esta prodigalidade, ainda pôde assegurar que duas dessas espécies (G. boryi e G. sierrae) fossem exclusivas do seu território.

Os Pirenéus, que visitámos uma única vez, é um local de eleição, mesmo nos meses mais quentes, para quem queira familiarizar-se com a diversidade de gencianas e aparentadas, acolhendo algumas espécies amplamente distribuídas na Europa. Duas delas são hoje aqui apresentadas, e servem de pretexto para averiguar das diferenças entre uma Gentianella e uma genuína Gentiana.

Gentianella campestris (L.) Börner
Na Gentianella campestris (fotos em cima) as flores têm quatro pétalas, o mesmo valendo para a Gentianella amarella, a outra espécie ibérica do género. Poderá ser esta uma característica diferenciadora? Parece que não. É que, embora a maioria das espécies de Gentiana tenha cinco pétalas, há pelo menos uma excepção, a Gentiana cruciata, que apresentamos abaixo. Outra possível divergência estaria no ciclo de vida: as duas espécies ibéricas de Gentianella são bienais, enquanto quase todas as de Gentiana são perenes. Mais uma vez uma excepção vem boicotar a teoria: a Gentiana nivalis, especialista em alta montanha, é uma planta anual.

Uma diferença promissora é que, na Gentianella, os lóbulos da corola (é algo incorrecto falar em «pétalas» quando elas não estão claramente autonomizadas) têm a base fimbriada, formando uma franja na abertura do tubo floral. Essa franja está ausente de todas as espécies de Gentiana, mas surge também, e de modo ainda mais visível, na Gentianopsis ciliata, uma falsa genciana em que todo o bordo da corola está guarnecido de cílios. Assim, quando o leitor, nas suas andanças pós-pandémicas pelas montanhas europeias, deparar com uma planta que lhe pareça ser uma Gentiana mas apresente flores mais ou menos franjadas (não se esqueça da lupa, tão indispensável ao seu kit de sobrevivência como o aparelho de gps, a garrafa de água e o bastão de caminhada), já poderá declarar confiante que se trata afinal de uma Gentianella ou Gentianopsis (ou simplesmente Gentianella, pois a opinião mais recente é que os dois géneros são um só).

Gentiana cruciata L.


Para terminar, uma palavra de apreço pela Gentiana cruciata, uma planta de prados de montanha e clareiras de bosques em altitudes não demasiado elevadas (até 2000 m), com preferência por substratos calcários. As flores tubulares azuis, mais ou menos pigmentadas na garganta, são traços de família que saltam à vista. No entanto, as folhas grandes e os caules robustos, e a disposição das flores em verticilos axilares (ver 1.ª foto), diferenciam-na claramente de outras gencianas azuis de flores semelhantes (como a G. pneumonanthe e a G. angustifolia). Dir-se-ia que a G. cruciata se situa na transição entre esse grupo de espécies, formado por herbáceas tendencialmente rasteiras, e as avantajadas G. lutea e G. burseri.

15/03/2021

Erva magra

Estamos em 2009, e nos jornais britânicos lê-se uma notícia inusitada. Em Gloucestershire, alguém teria dado conta de uma planta pequenina de flores cor-de-rosa junto aos edifícios de um condomínio de luxo e, não a conseguindo identificar, entendeu por bem informar-se, não fosse dar-se o caso de ser uma espécie rara; depois de identificada e atestada a sua importância, os proprietários do local decidiram proteger a planta, garantindo desse modo que as sementes não se perderiam e formariam uma colónia sob a sua vigilância. Tudo isto parece inventado, não? Nós estamos habituados a outra realidade: à construção em áreas protegidas em prol do «interesse nacional», ao encolher de ombros face a recomendações de estudos de impacto ambiental, ao uso intensivo dos solos sem consideração pelo equilíbrio dos habitats, à sistemática falta de verbas para programas de conservação urgentes. Três anos depois, a BBC News dava conta da ocorrência de vários núcleos desta planta no sudeste de Inglaterra, admitindo-se que as suas populações estariam a recuperar com as medidas de prospecção e protecção em curso.

Galeopsis angustifolia Ehrh. ex Hoffm.


A tal planta afortunada, red hemp-nettle em inglês, pertence ao género Galeopsis: é a espécie Galeopsis angustifolia. No Reino Unido tem a companhia de mais duas espécies nativas, a G. speciosa, que cresce nas margens mais ou menos turfosas de parcelas cultivadas, e a G. tetrahit, que também ocorre em Portugal, aprecia a sombra e a frescura das orlas de bosques, e conhecemos da serra do Gerês e das terras de Barroso.

A Galeopsis-de-folhas-estreitas, que vimos em Peña Oroel e em Ordesa, nos Pirenéus, é uma herbácea frágil com folhas dentadas, talos pubescentes, e flores de tubos alongados. Ao contrário das espécies anteriores, adaptou-se a locais abertos com solo cascalhento, em zonas montanhosas ou costeiras, preferindo substratos calcários. Contudo, a floração é essencialmente outonal, e em terrenos cultivados tende a ser destruída sem formar sementes, ou a desaparecer sob o efeito de fertilizantes ou herbicidas. Este, sim, é um retrato da natureza em perigo que reconhecemos.

07/02/2021

Alface roxa

Prenanthes purpurea L.


Este é o segundo e último fascículo da série “flores pendentes”. No primeiro falámos da Chrysoprenanthes pendula, endémica da Grã-Canária que começou por chamar-se Prenanthes pendula e, de acordo com a opinião cada vez mais dominante, é na verdade um Sonchus. Deixemos porém a controvérsia taxonómica e concentremo-nos na etimologia. Prenanthes vem dos termos gregos prenes (que significa “virado para baixo”) e anthos (= flor), referindo-se portanto às “flores pendentes” que caracterizam estas plantas. No caso do género Chrysoprenanthes, criado por David Bramwell para combater a inclusão da planta canarina no género Sonchus, o prefixo chryso (= dourado) completa o retrato da planta informando-nos que ela dá flores amarelas. As combinações Prenanthes pendula ou Chrysoprenanthes pendula quase nos pareceriam redundantes, com o epíteto pendula insistindo na ideia de “pendente”, mas essa reiteração refere-se ao hábito da planta e não à disposição das flores.

Desta vez focamo-nos na lineana Prenanthes purpurea, espécie europeia que, após rearrumação taxonómica ditada por estudos filogenéticos, ficou sozinha num género que antes incluía numerosas espécies norte-americanas. É uma herbácea perene, glabra, erecta, de 30 a 150 cm de altura, com folhas todas caulinares, rematadas por aurículas arredondadas, abraçando o caule. Os capítulos, numerosos e dispostos em pirâmide, são roxos e formados por apenas 2 a 5 florículos muito proeminentes. Dada a sua semelhança com certas alfaces silvestres (género Lactuca), os ingleses chamam-lhe purple lettuce; nós seguimos o exemplo e chamamos-lhe alface-roxa. Com floração estival, vive em bosques húmidos, lugares sombrios e margens de cursos de água, sobretudo em lugares de altitude elevada, e distribui-se por quase toda a Europa desde os Pirenéus até à Turquia e ao Cáucaso. Apesar de a sua incursão em Espanha ir pouco além da cadeia montanhosa que marca a fronteira com França, a alface-roxa não é rara nos Pirenéus e nas suas franjas. Vimo-la no vale de Añisclo, um daqueles desfiladeiros calcários que parecem saídos do atelier de um artista de génio; e, num habitat muito diverso, reapareceu-nos, em grande profusão, nos bosques de abetos (Abies alba) e pinheiros-silvestres (Pinus sylvestris) que revestem as íngremes encostas da face norte de Peña Oroel. Esse monte de quase 1800 de altura ergue-se junto à cidade de Jaca, na província de Huesca, e oferece-nos em ante-estreia, com acesso facilitado, muitas das plantas características das altas montanhas pirenaicas.

Vale de Añisclo, Pirenéus aragoneses

Peña Oroel

10/01/2021

Cardos do sol



Nos Pirenéus, acima da cintura florestal mas abaixo dos picos onde a neve persiste quase todo o ano, estendem-se pantagens nuas em colinas suavemente modeladas. É o paraíso das cabras, vacas e ovelhas, as primeiras muitas vezes sem dono e sem controlo, as outras obrigadas a fornecer-nos alimento e agasalho em troca da boa vida que levam. Todas são infatigáveis a dar ao dente para manter os campos cortados à escovinha. Haverá plantas floridas que sobrevivam a perseguição tão tenaz e sejam capazes de romper a lisura uniforme das pastagens? A pergunta, canhestramente retórica, tem um óbvio sim como resposta. Há plantas em que mesmo os ruminantes mais determinados aprenderam a não tocar, por serem venenosas, ou de sabor desagradável, ou por os espinhos tornarem a mastigação penosa. Entre as peçonhentas ou amargosas mais conhecidas contam-se os acónitos, as abróteas e os lírios. O lírio-de-folhas-largas (Iris latifolia), infelizmente já sem flores quando em Agosto visitámos Plana Canal nos Pirenéus aragoneses, brotava aos milhares pelas pastagens, convivendo pacificamente com a indiferença do gado. E a variedade espinhenta da comida-a-evitar estava bem representada pelos cardos, alguns de envergadura considerável, outros rasteiros e dourados como sóis infantis colados no chão.

Carlina acanthifolia All.


O cardo-do-sol, cuja designação oficial é Carlina acanthifolia, é de tal modo evocador do astro-rei que é costume, nas várias cadeias montanhosas europeias onde ocorre, pregá-lo em portas e janelas para repelir maus-olhados. E mesmo depois de seco ele é útil nas previsões meteorológicas: se o tempo ameaça chuva, as brácteas petalóides que envolvem a inflorescência recolhem-se; se o dia promete sol, elas mostram-se distendidas. Por isso, além de ser chamado erva-das-bruxas (yerba de broxas) em Aragão, este cardo é em França conhecido, entre outras coisas, como chardon baromètre, e em inglês houve quem propusesse chamar-lhe weather thistle.

Planta bienal ou perene, desprovida de caule, a Carlina acanthifolia produz em cada ano, durante o Verão, um único capítulo com uns 15 cm de diâmetro, composto por florículos tubulares amarelos e guarnecido por brácteas douradas, que surge aninhado no centro de uma perfeita roseta de folhas espinhentas. É espontânea em grande parte da Europa, sempre em zonas montanhosas, desde a Polónia até à Península Ibérica. É frequente nos Pirenéus, mas no resto de Espanha aparece apenas, e escassamente, em algumas serras do sudeste.

Nos mesmos habitats, e com uma distribuição em larga medida sobreposta, ocorre uma versão lunar do cardo-do-sol. Trata-se da Carlina acaulis, com capítulos menores, às vezes mais do que um por planta, formados por florículos brancos tingidos de púrpura e rodeados por brácteas prateadas. O epíteto acaulis diz-nos que este cardo não desenvolve caule, o que nem sempre é verdade. Menos vistosa e de folhagem mais agressiva do que a sua congénere amarela, a C. acaulis tem os mesmos usos meterológicos e goza de alguma reputação medicinal, ainda que dúbia. Diz a (muito incerta) lenda que a raiz da planta terá sido usada por Carlos Magno para combater a peste bubónica que dizimava as suas tropas, e que o próprio nome Carlina seria uma homenagem ao imperador inspirada por esse episódio.

Carlina acaulis L.

25/07/2020

Amarelo boreal

Na nossa última visita aos Pirenéus, em Agosto de 2019, agendámos um dia para passear no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, com intenção de conhecer, em particular, o edelweiss (Leontopodium alpinum, planta que inspirou a canção homónima do filme The Sound of Music). Permitindo um número limitado de visitantes por dia, era preciso comprar previamente um bilhete e disputar depois lugar num autocarro oficial, único veículo autorizado a circular nos meses de Verão na estrada até ao vale de Ordesa. Às 7 horas da manhã, já a fila para estes demorados preliminares era longa e desencorajadora. Desistimos para não perder o dia na espera, e seguimos para a aldeia de Chisagüés, em direcção à fonte de Petramula. De novo, as medidas de conservação deste espaço natural exigiam o pagamento de uma entrada (comprada na vila de Bielsa), mas desta vez poderíamos circular no nosso carro, desde que ele tivesse tracção às quatro rodas porque a estrada era de piso acidentado, íngreme, estreita e sem protecções laterais. Informados previamente desta exigência, seguimos por vários quilómetros num todo-o-terreno, envoltos em pó mas seguros, quase sem companhia de outros veículos.



Em pleno Verão, a floração de quase todas as plantas deste lugar, que vivem meio ano cobertas de neve, já tinha terminado. Mas acima dos 2000 metros ainda havia flores.


Saxifraga aizoides L.




Todas as saxífragas de que há registo em território nacional dão flores brancas, ainda que algumas das espécies apresentem as cinco pétalas pintalgadas de amarelo ou rosa. Mas em Espanha, e nas regiões mais frias da Europa, ocorrem espécies de Saxifraga com corolas de outras cores. A espécie que hoje vos mostramos é perene, cespitosa, de folhagem densa e marcescente (não se desprende da planta mesmo depois de seca, servindo-lhe certamente de agasalho). Em geral de baixa estatura (cerca de 15 cm), floresce em corimbos de tom amarelo, laranja ou púrpura, por vezes com as pétalas pintalgadas. Curiosamente, as outras partes da flor parecem sintonizadas com a corola: pétalas mais escuras são acompanhadas por um cálice em tom verde mais intenso, e por estames e carpelos também escurecidos. Dir-se-ía que as flores têm dez pétalas, mas só possuem cinco do mesmo tamanho das sépalas. No centro de cada flor, pode notar-se (na 5.ª foto, ali onde está a formiga) um apetitoso anel com néctar a rodear a base da coluna de carpelos. As cápsulas com numerosas sementes abrem quando a neve regressa, ligeiramente e só num dos topos, para garantir (dizem os especialistas) que a libertação de sementes só se faça quando haja algum vento e uma superfície escorregadia de neve, aumentando assim a distância a que as sementes são dispersadas.

A Saxifraga aizoides forma tapetes em taludes bem irrigados, em margens de arroios ou fissuras de rochas, e é abundante em solos calcários nas montanhas mais altas da Europa. O epíteto aizoides indica que Lineu, em 1753, encontrou parecenças entre esta planta e as do género Aizoon.

29/01/2020

Folhas de cinza

Ao contrário de alguns animais, as plantas adoptam épocas precisas de procriação. As que são perenes repetem, ano após ano, no mesmo mês, o ciclo de floração e gestação de sementes; as anuais, por sua vez, parecem ter inscrito nos seus genes um mecanismo de relógio, cujo funcionamento transmitem aos descendentes e que os desperta para florir mais ou menos nas mesmas datas dos progenitores. Há, claro, excepções a esta programação: plantas cujo período de floração é tão longo que parecem estar sempre em flor; ou plantas que só florescem uma vez na vida, para logo morrerem. Mas a maioria das espécies botânicas parece ter aprendido que manter uma rotina tem algumas vantagens, uma vez que a parceria com os polinizadores exige sintonia e fidelidade mútua, e o clima adequado à floração também costuma recorrer na mesma época do ano.



Contudo, este hábito de confiar nos outros, sejam polinizadores ou o ambiente, tão favorável às plantas em habitats estáveis, pode ser-lhes muito prejudicial em locais desassossegados. Não supreende, por isso, que algumas plantas de vez em quando desrespeitem a tradição, lançando flores quando deveriam já estar a hibernar. É um desatino para os guias de campo que indicam os meses usuais de floração, mas é também a sorte grande para quem quer fotografar plantas. Foi o caso deste lindo gerânio de folhas cinzentas, com flores brancas adornadas com veios e anteras de cor púrpura, que vimos em Agosto no planalto de La Larry, nos Pirenéus aragoneses.


Geranium cinereum Cav.


A sua época de floração não costuma ultrapassar o meio do Verão, mas conseguimos vê-lo ainda em flor neste pasto rochoso de montanha, acima dos 1600 metros, onde, sob um sol inclemente, vacas, cavalos e muitos turistas aproveitavam os arroios e as cachoeiras, e marmotas engraçadas assomavam vigilantes dos seus túneis (fresquinhos, supomos), empertigadas como cachorros em pé. O Geranium cinereum é nativo dos Pirenéus, e foi descrito pelo botânico espanhol Antonio José Cavanilles (1745-1804), a quem foi dedicado um narciso.

22/01/2020

Fonte seca


Asplenium fontanum (L.) Bernh.


Os erros em nomes botânicos têm uma história ilustre que remonta pelo menos a Lineu. O pai da taxonomia botânica baptizou plantas de todo o mundo, originárias de lugares que, nesse tempo de viagens demoradas, nunca pôde visitar. Recebidas as amostras, tratava de lhes dar nome tendo em conta as indicações de quem as enviava. Uma troca de etiquetas, a tresleitura de algum apontamento menos legível, o equívoco de se tomarem por nativas plantas cultivadas — tudo isso, em diferentes ocasiões, levou por exemplo a que plantas europeias assumissem identidade sul-americana ou vice-versa. São muito conhecidos os casos da Scilla peruviana, que não é do Peru mas sim de Portugal e Espanha, e do Cupressus lusitanica, de origem mexicana mas descrito (pelo inglês Philip Miller) a partir de exemplares cultivados em Portugal na mata do Buçaco.

Menos conhecidos são os nomes que dão uma ideia errada do hábito ou ecologia da planta. Um exemplo do primeiro tipo é dado pela Genista florida, que anda longe de ser a espécie do seu género com floração mais abundante. Para ilustrar o segundo tipo de erro, convocámos um feto a que Lineu chamou Polypodium fontanum e que, como mandam as regras da nomenclatura botânica, manteve o epíteto específico ao ser transferido para o género Asplenium. Uma tradução possível do nome seria feto-das-fontes; mas, embora haja muitos fetos que gostam de fontes ou de paredes ressumantes, o Asplenium fontanum decididamente não é um deles.

Com frondes estreitas de 10 a 15 cm de comprimento, dotadas de pecíolo curto e dispostas em tufos por vezes densos, e facilmente reconhecível pelo recorte das pínulas e pelo encurtamento muito acentuado das pinas inferiores, o Asplenium fontanum vive em fendas de rochas calcárias, por regra em sítios frescos onde a luz solar não incide directamente. Distribui-se por zonas montanhosas da Europa (Alpes, Pirenéus, maciço do Jura) e do norte de África (cordilheira do Atlas em Marrocos), a altitudes moderadas, maioritariamente entre os 500 e os 1500 metros, revelando especial predilecção pelos grandes vales cársicos. Fotografámo-lo no fabuloso vale de Añisclo, nos Pirenéus aragoneses, no talude de uma estrada que seria pecado não percorrer a pé.

08/01/2020

Chicória elegante

Durante alguns anos, entre Janeiro e Junho, visitámos com alguma regularidade o centro do país. Habituados à cidade, desconhecíamos algumas das serras da Estremadura, lugares privilegiados para a flora de solos calcários. Foi ali que começámos a interessar-nos pelas plantas de um modo menos informal, e foi também por lá que vimos pela primeira vez algumas das espécies herbáceas mais bonitas da flora nacional. Mas escapou-nos sempre a asterácea que hoje vos mostramos, planta perene que gosta de clareiras de matos e encostas muito secas com solo calcário e argiloso, e cuja distribuição em Portugal se restringe a um local no Ribatejo.


Catananche caerulea L.


Por cá, ela floresce entre Maio e Junho, mas encontrámo-la em flor, e em populações abundantes, durante uma visita em Agosto aos Pirenéus. Na imagem abaixo dos montes de Plana Canal, nos Pirenéus aragoneses, adivinha-se a estrada, denunciada por uma linha mais ou menos horizontal, em cuja berma vimos pela primeria vez a C. caerulea.



As inflorescências lembram as da chicória, mas o formoso invólucro de brácteas transparentes (veja a 2ª foto acima) distingue-as sem dificuldade.

No sudeste de Portugal ocorre outra espécie de Catananche, igualmente rara, a C. lutea, que nunca vimos mas que é frequente na região mediterrânica. É anual e parece mais exigente quanto ao tipo de habitat pois apenas são conhecidos registos da sua presença em afloramentos de rocha ígnea com solo básico, ocorrendo em populações pequenas. Isso é surpreendente tendo em conta que esta espécie tem um esquema de dispersão de sementes muito habilidoso. Senão vejamos.

Cada planta produz dois tipos de frutos (aquénios): uns subterrâneos, com origem em flores que nascem nas axilas das folhas da roseta basal entre Fevereiro e Abril, e que germinam no local onde a planta mãe morre; e outros aéreos, que estão prontos para serem disseminados pelo vento entre Abril-Maio e que resultam da polinização ou auto-fertilização das inflorescências aéreas (com hastes florais elevadas). Cada tipo de aquénio parece ter uma intenção distinta relativamente ao processo de disseminação desta espécie, diferenças que naturalmente obrigam a adaptações morfológicas. Segundo E. Ruiz de Clavijo, autor de um artigo que vale a pena ler na íntegra, os aquénios subterrâneos são uma reserva da planta pronta para germinar no solo, e fazem-no rapidamente. Asseguram que a espécie persiste no terreno onde a planta mãe foi bem sucedida. Os aéreos, cuja dispersão se faz pelo vento e se espera que viajem para longe, permitindo a colonização de novos habitats, têm um prazo de validade maior e o papus (o pára-quedas da semente) é mais bem desenvolvido.

Esta estratégia reprodutiva não é apanágio da C. lutea (veja-se por exemplo a Centaurea melitensis, cujos capítulos sésseis e rentes ao chão têm flores cleistogâmicas, ou a Emex spinosa). No caso da C. lutea, porém, os capítulos na base também abrem, e o processo é mais sofisticado pois há vários tipos de aquénios aéreos e subterrâneos, com diferenças subtis que dependem da posição da flor no capítulo.

Se o leitor tiver tempo, não deixe de espreitar imagens de outras espécies de Catananche do norte de África, decerto parentes e, quem sabe, origem do carácter polimorfo dos frutos da C. lutea.

15/11/2019

No bosque dos venenos em flor

É preciso o medo acumulado de muitas gerações para que uma espécie converta o medo em ira e crie, na sua evolução, um mecanismo que não apenas dissuada os predadores e eventuais inimigos, mas de facto os mate à primeira investida. Algumas espécies muito venenosas têm o cuidado de se pintar de cores garridas para avisar inocentes distraídos, ou potenciais polinizadores, mas nem todas usam dessa cautela na decoração. A Atropa belladonna, a que alguns chamam erva-moura-furiosa, é uma dessas herbáceas que não parecem fazer mal a uma mosca. Mas o seu efeito letal funciona algumas vezes precisamente por causa desse logro: as flores têm uma corola larga a lembrar uma campânula, com uma linda pigmentação axadrezada nas pétalas, e cinco estames longos mas recurvados para dentro; as bagas maduras, com cerca de 1.5 cm de diâmetro, são pretas, lustrosas, apetitosas e, dizem, doces; mas a ingestão de um bocadinho minúsculo da folhagem ou das bagas já matou reis, imperadores e gente incómoda para quem tem (ou quer passar a ter) o poder. E a reputação da belladonna nunca mais foi a mesma.


Atropa belladona L.


O nome Atropa, sugestão de Lineu, refere-se a Atropos, uma das três parcas da mitologia grega responsáveis pelo destino de cada um de nós. O fado era personificado por um fio bem fiado e medido; a Atropos cabia cortá-lo, interrompendo a vida do modo que lhe aprouvesse. O epíteto belladonna (proposto por Tournefort) conta uma história menos sombria: parte da planta era usada na Idade Média como tónico de cosmética, para ruborizar as faces e acentuar traços das belas damas de outrora.

Da família Solanaceae (a mesma das plantas que nos dão tomates, batatas, pimentos, beringelas, fisális ou tabaco), a A. belladonna é perene e nativa de regiões com clima ameno na Europa, Ásia e norte de África. É uma espécie que aprecia bosques, preferindo locais húmidos e sombrios. E foi num bosque notável do vale de Pineta, nos Pirenéus aragoneses, que a vimos. Esse é um tipo de habitat que escasseia em Portugal, e não é certa a ocorrência espontânea da A. belladona por cá.