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25/07/2020

Amarelo boreal

Na nossa última visita aos Pirenéus, em Agosto de 2019, agendámos um dia para passear no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, com intenção de conhecer, em particular, o edelweiss (Leontopodium alpinum, planta que inspirou a canção homónima do filme The Sound of Music). Permitindo um número limitado de visitantes por dia, era preciso comprar previamente um bilhete e disputar depois lugar num autocarro oficial, único veículo autorizado a circular nos meses de Verão na estrada até ao vale de Ordesa. Às 7 horas da manhã, já a fila para estes demorados preliminares era longa e desencorajadora. Desistimos para não perder o dia na espera, e seguimos para a aldeia de Chisagüés, em direcção à fonte de Petramula. De novo, as medidas de conservação deste espaço natural exigiam o pagamento de uma entrada (comprada na vila de Bielsa), mas desta vez poderíamos circular no nosso carro, desde que ele tivesse tracção às quatro rodas porque a estrada era de piso acidentado, íngreme, estreita e sem protecções laterais. Informados previamente desta exigência, seguimos por vários quilómetros num todo-o-terreno, envoltos em pó mas seguros, quase sem companhia de outros veículos.



Em pleno Verão, a floração de quase todas as plantas deste lugar, que vivem meio ano cobertas de neve, já tinha terminado. Mas acima dos 2000 metros ainda havia flores.


Saxifraga aizoides L.




Todas as saxífragas de que há registo em território nacional dão flores brancas, ainda que algumas das espécies apresentem as cinco pétalas pintalgadas de amarelo ou rosa. Mas em Espanha, e nas regiões mais frias da Europa, ocorrem espécies de Saxifraga com corolas de outras cores. A espécie que hoje vos mostramos é perene, cespitosa, de folhagem densa e marcescente (não se desprende da planta mesmo depois de seca, servindo-lhe certamente de agasalho). Em geral de baixa estatura (cerca de 15 cm), floresce em corimbos de tom amarelo, laranja ou púrpura, por vezes com as pétalas pintalgadas. Curiosamente, as outras partes da flor parecem sintonizadas com a corola: pétalas mais escuras são acompanhadas por um cálice em tom verde mais intenso, e por estames e carpelos também escurecidos. Dir-se-ía que as flores têm dez pétalas, mas só possuem cinco do mesmo tamanho das sépalas. No centro de cada flor, pode notar-se (na 5.ª foto, ali onde está a formiga) um apetitoso anel com néctar a rodear a base da coluna de carpelos. As cápsulas com numerosas sementes abrem quando a neve regressa, ligeiramente e só num dos topos, para garantir (dizem os especialistas) que a libertação de sementes só se faça quando haja algum vento e uma superfície escorregadia de neve, aumentando assim a distância a que as sementes são dispersadas.

A Saxifraga aizoides forma tapetes em taludes bem irrigados, em margens de arroios ou fissuras de rochas, e é abundante em solos calcários nas montanhas mais altas da Europa. O epíteto aizoides indica que Lineu, em 1753, encontrou parecenças entre esta planta e as do género Aizoon.

29/01/2020

Folhas de cinza

Ao contrário de alguns animais, as plantas adoptam épocas precisas de procriação. As que são perenes repetem, ano após ano, no mesmo mês, o ciclo de floração e gestação de sementes; as anuais, por sua vez, parecem ter inscrito nos seus genes um mecanismo de relógio, cujo funcionamento transmitem aos descendentes e que os desperta para florir mais ou menos nas mesmas datas dos progenitores. Há, claro, excepções a esta programação: plantas cujo período de floração é tão longo que parecem estar sempre em flor; ou plantas que só florescem uma vez na vida, para logo morrerem. Mas a maioria das espécies botânicas parece ter aprendido que manter uma rotina tem algumas vantagens, uma vez que a parceria com os polinizadores exige sintonia e fidelidade mútua, e o clima adequado à floração também costuma recorrer na mesma época do ano.



Contudo, este hábito de confiar nos outros, sejam polinizadores ou o ambiente, tão favorável às plantas em habitats estáveis, pode ser-lhes muito prejudicial em locais desassossegados. Não supreende, por isso, que algumas plantas de vez em quando desrespeitem a tradição, lançando flores quando deveriam já estar a hibernar. É um desatino para os guias de campo que indicam os meses usuais de floração, mas é também a sorte grande para quem quer fotografar plantas. Foi o caso deste lindo gerânio de folhas cinzentas, com flores brancas adornadas com veios e anteras de cor púrpura, que vimos em Agosto no planalto de La Larry, nos Pirenéus aragoneses.


Geranium cinereum Cav.


A sua época de floração não costuma ultrapassar o meio do Verão, mas conseguimos vê-lo ainda em flor neste pasto rochoso de montanha, acima dos 1600 metros, onde, sob um sol inclemente, vacas, cavalos e muitos turistas aproveitavam os arroios e as cachoeiras, e marmotas engraçadas assomavam vigilantes dos seus túneis (fresquinhos, supomos), empertigadas como cachorros em pé. O Geranium cinereum é nativo dos Pirenéus, e foi descrito pelo botânico espanhol Antonio José Cavanilles (1745-1804), a quem foi dedicado um narciso.

22/01/2020

Fonte seca


Asplenium fontanum (L.) Bernh.


Os erros em nomes botânicos têm uma história ilustre que remonta pelo menos a Lineu. O pai da taxonomia botânica baptizou plantas de todo o mundo, originárias de lugares que, nesse tempo de viagens demoradas, nunca pôde visitar. Recebidas as amostras, tratava de lhes dar nome tendo em conta as indicações de quem as enviava. Uma troca de etiquetas, a tresleitura de algum apontamento menos legível, o equívoco de se tomarem por nativas plantas cultivadas - tudo isso, em diferentes ocasiões, levou por exemplo a que plantas europeias assumissem identidade sul-americana ou vice-versa. São muito conhecidos os casos da Scilla peruviana, que não é do Peru mas sim de Portugal e Espanha, e do Cupressus lusitanica, de origem mexicana mas descrito (pelo inglês Philip Miller) a partir de exemplares cultivados em Portugal na mata do Buçaco.

Menos conhecidos são os nomes que dão uma ideia errada do hábito ou ecologia da planta. Um exemplo do primeiro tipo é dado pela Genista florida, que anda longe de ser a espécie do seu género com floração mais abundante. Para ilustrar o segundo tipo de erro, convocámos um feto a que Lineu chamou Polypodium fontanum e que, como mandam as regras da nomenclatura botânica, manteve o epíteto específico ao ser transferido para o género Asplenium. Uma tradução possível do nome seria feto-das-fontes; mas, embora haja muitos fetos que gostam de fontes ou de paredes ressumantes, o Asplenium fontanum decididamente não é um deles.

Com frondes estreitas de 10 a 15 cm de comprimento, dotadas de pecíolo curto e dispostas em tufos por vezes densos, e facilmente reconhecível pelo recorte das pínulas e pelo encurtamento muito acentuado das pinas inferiores, o Asplenium fontanum vive em fendas de rochas calcárias, por regra em sítios frescos onde a luz solar não incide directamente. Distribui-se por zonas montanhosas da Europa (Alpes, Pirenéus, maciço do Jura) e do norte de África (cordilheira do Atlas em Marrocos), a altitudes moderadas, maioritariamente entre os 500 e os 1500 metros, revelando especial predilecção pelos grandes vales cársicos. Fotografámo-lo no fabuloso vale de Añisclo, nos Pirenéus aragoneses, no talude de uma estrada que seria pecado não percorrer a pé.

08/01/2020

Chicória elegante

Durante alguns anos, entre Janeiro e Junho, visitámos com alguma regularidade o centro do país. Habituados à cidade, desconhecíamos algumas das serras da Estremadura, lugares privilegiados para a flora de solos calcários. Foi ali que começámos a interessar-nos pelas plantas de um modo menos informal, e foi também por lá que vimos pela primeira vez algumas das espécies herbáceas mais bonitas da flora nacional. Mas escapou-nos sempre a asterácea que hoje vos mostramos, planta perene que gosta de clareiras de matos e encostas muito secas com solo calcário e argiloso, e cuja distribuição em Portugal se restringe a um local no Ribatejo.


Catananche caerulea L.


Por cá, ela floresce entre Maio e Junho, mas encontrámo-la em flor, e em populações abundantes, durante uma visita em Agosto aos Pirenéus. Na imagem abaixo dos montes de Plana Canal, nos Pirenéus aragoneses, adivinha-se a estrada, denunciada por uma linha mais ou menos horizontal, em cuja berma vimos pela primeria vez a C. caerulea.



As inflorescências lembram as da chicória, mas o formoso invólucro de brácteas transparentes (veja a 2ª foto acima) distingue-as sem dificuldade.

No sudeste de Portugal ocorre outra espécie de Catananche, igualmente rara, a C. lutea, que nunca vimos mas que é frequente na região mediterrânica. É anual e parece mais exigente quanto ao tipo de habitat pois apenas são conhecidos registos da sua presença em afloramentos de rocha ígnea com solo básico, ocorrendo em populações pequenas. Isso é surpreendente tendo em conta que esta espécie tem um esquema de dispersão de sementes muito habilidoso. Senão vejamos.

Cada planta produz dois tipos de frutos (aquénios): uns subterrâneos, com origem em flores que nascem nas axilas das folhas da roseta basal entre Fevereiro e Abril, e que germinam no local onde a planta mãe morre; e outros aéreos, que estão prontos para serem disseminados pelo vento entre Abril-Maio e que resultam da polinização ou auto-fertilização das inflorescências aéreas (com hastes florais elevadas). Cada tipo de aquénio parece ter uma intenção distinta relativamente ao processo de disseminação desta espécie, diferenças que naturalmente obrigam a adaptações morfológicas. Segundo E. Ruiz de Clavijo, autor de um artigo que vale a pena ler na íntegra, os aquénios subterrâneos são uma reserva da planta pronta para germinar no solo, e fazem-no rapidamente. Asseguram que a espécie persiste no terreno onde a planta mãe foi bem sucedida. Os aéreos, cuja dispersão se faz pelo vento e se espera que viajem para longe, permitindo a colonização de novos habitats, têm um prazo de validade maior e o papus (o pára-quedas da semente) é mais bem desenvolvido.

Esta estratégia reprodutiva não é apanágio da C. lutea (veja-se por exemplo a Centaurea melitensis, cujos capítulos sésseis e rentes ao chão têm flores cleistogâmicas, ou a Emex spinosa). No caso da C. lutea, porém, os capítulos na base também abrem, e o processo é mais sofisticado pois há vários tipos de aquénios aéreos e subterrâneos, com diferenças subtis que dependem da posição da flor no capítulo.

Se o leitor tiver tempo, não deixe de espreitar imagens de outras espécies de Catananche do norte de África, decerto parentes e, quem sabe, origem do carácter polimorfo dos frutos da C. lutea.

15/11/2019

No bosque dos venenos em flor

É preciso o medo acumulado de muitas gerações para que uma espécie converta o medo em ira e crie, na sua evolução, um mecanismo que não apenas dissuada os predadores e eventuais inimigos, mas de facto os mate à primeira investida. Algumas espécies muito venenosas têm o cuidado de se pintar de cores garridas para avisar inocentes distraídos, ou potenciais polinizadores, mas nem todas usam dessa cautela na decoração. A Atropa belladonna, a que alguns chamam erva-moura-furiosa, é uma dessas herbáceas que não parecem fazer mal a uma mosca. Mas o seu efeito letal funciona algumas vezes precisamente por causa desse logro: as flores têm uma corola larga a lembrar uma campânula, com uma linda pigmentação axadrezada nas pétalas, e cinco estames longos mas recurvados para dentro; as bagas maduras, com cerca de 1.5 cm de diâmetro, são pretas, lustrosas, apetitosas e, dizem, doces; mas a ingestão de um bocadinho minúsculo da folhagem ou das bagas já matou reis, imperadores e gente incómoda para quem tem (ou quer passar a ter) o poder. E a reputação da belladonna nunca mais foi a mesma.


Atropa belladona L.


O nome Atropa, sugestão de Lineu, refere-se a Atropos, uma das três parcas da mitologia grega responsáveis pelo destino de cada um de nós. O fado era personificado por um fio bem fiado e medido; a Atropos cabia cortá-lo, interrompendo a vida do modo que lhe aprouvesse. O epíteto belladonna (proposto por Tournefort) conta uma história menos sombria: parte da planta era usada na Idade Média como tónico de cosmética, para ruborizar as faces e acentuar traços das belas damas de outrora.

Da família Solanaceae (a mesma das plantas que nos dão tomates, batatas, pimentos, beringelas, fisális ou tabaco), a A. belladonna é perene e nativa de regiões com clima ameno na Europa, Ásia e norte de África. É uma espécie que aprecia bosques, preferindo locais húmidos e sombrios. E foi num bosque notável do vale de Pineta, nos Pirenéus aragoneses, que a vimos. Esse é um tipo de habitat que escasseia em Portugal, e não é certa a ocorrência espontânea da A. belladona por cá.

31/10/2019

Capuchinhos azuis (e amarelos)

Com notáveis excepções, é raro que as plantas surjam na literatura pelo nome próprio. A muitos escritores basta a menção a árvores anónimas, a florestas verdejantes ou a rosas para sentirem o cenário dos seus textos cheio de natureza. Mas algumas plantas conseguem não ser desconhecidas de todo, e por vezes até são os personagens principais do enredo. É o caso do Aconitum napellus, uma planta extremamente venenosa de origem europeia cujas flores lembram os capuchos de alguns monges. São atributos que a tornam particularmente atractiva para novelas policiais, muito útil na protecção contra vampiros e essencial à mitologia - e justificaram o seu uso em setas de caça ou para eliminar inimigos num tempo em que ainda não se conheciam os malefícios dos materiais radioactivos.


Aconitum napellus L.



Trata-se de uma herbácea perene que pode atingir os dois metros de altura, de folhas palmadas muito divididas que nascem num arranjo em espiral muito bonito, e flores de um tom azul arroxeado típico na família Ranunculaceae. As suas flores, com inúmeros estames, alimentam algumas espécies de traças com línguas compridas, que lhes permitem aceder ao néctario no topo da flor. Também há borboletas de língua curta que tentam lamber o néctar furando o capucho por cima, mas não tardam a ser dissuadidas pelo veneno da planta.

As cinco espécies do género Aconitum na Península Ibérica gostam de manter as raízes em solo rico, húmido mas bem drenado, com a folhagem exposta ao sol. Por isso, é mais fácil encontrá-las em margens de rios ou na orla de bosques com árvores de folha caduca. As fotos acima foram tiradas na serra de Gredos, no centro de Espanha, onde a planta se encontra ocasionalmente em pastagens frescas (o gado, que nasce ensinado, não a consome). Também a vimos nos Pirenéus aragoneses, onde é mais frequente e onde ocorrem quatro espécies adicionais do género: A. burnatti e A. variegatum, de flores azuis; A. vulparia e A. anthora (fotos abaixo), de flores amarelas. Em Portugal, por contraste, apenas existe o A. napellus. A única população conhecida, pequena e em risco de desaparecer, vegeta à sombra de amieiros nas margens do rio Angueira, em Trás-os-Montes.


Aconitum anthora L.