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20/10/2022

Tomateiro arbóreo

Solanum betaceum Cav. [= Cyphomandra betacea (Cav.) Sendtn.]


Era uma vez uma ilha onde se perdia o tempo. Os habitantes começavam todos por chegar de alguma parte. Instalavam-se, casa, horta, pomar. Mas aos poucos iam perdendo os dias da semana, uma quarta-feira, uma sexta-feira, algumas tardes, muitas noites frias. A horta crescia e decrescia mas de parte nenhuma para parte nenhuma e a certa extraordinária altura quando alguém comia por exemplo uma salada de tomate perguntava já o que é isto.

Ana Hatherly, 463 tisanas, Quimera Editores, 2006

16/05/2020

Tomateiro nocturno


Solanum vespertilio subsp. doramae Marrero Rodr. & Gonzalez-Martin



Os frutos deste arbusto espinhento, que terá cerca de dois metros de altura, são pequenos tomates lustrosos, com uns dois centímetros de diâmetro, que, quando maduros, ganharão uma cor entre o vermelho e o laranja. Embora tais frutos não sejam verdadeiros tomates, e até é provável que sejam tóxicos e impróprios para consumo humano, a semelhança é indesmentível. Além do mais, o tomateiro genuíno pertence ao mesmo género botânico, Solanum, em que este endemismo das ilhas Canárias se inclui. Para lembrar que também no reino vegetal há famílias e relações de parentesco, não fica mal chamar tomateiro a todas as plantas do género Solanum, desde que não interpretemos tal liberdade como um convite para levar tudo à boca. À família Solanaceae, convém recordá-lo, pertencem algumas das plantas mais venenosas do planeta, como a Atropa belladona. E mesmo a erva-moira ou tomateiro-negro (Solanum nigrum), herbácea ruderal muito comum no nosso país, é capaz de provocar fortes dores de barriga a quem lhe comer os frutos.

O carácter nocturno do Solanum vespertilio é atestado pelo epíteto, que significa morcego em latim. Se nos valermos do cliché poético que associa a noite à morte, este tomateiro é também nocturno no sentido de ter estado no limiar da extinção. Ocorrendo apenas em Tenerife e na Grã-Canária, e extremamente raro em ambas, pequenas diferenças morfológicas levaram a que se distinguissem duas subespécies, cada qual em sua ilha. A subespécie doramae, da Grã-Canária (nas fotos), estava reduzida, em 2009, a uma única população natural, composta por apenas três exemplares adultos e sem sinais de estabelecimento de plantas jovens. Confinada a um pequeno nicho no barranco de Azuaje, no norte da ilha, a quase extinção da planta ter-se-á devido à herbivoria, hoje controlada, e à expansão da vegetação exótica. Embora este tomateiro floresça e frutifique normalmente, produzindo sementes viáveis, o habitat em que se havia refugiado apresentava-se degradado e era-lhe pouco favorável.

Em 2009, o Governo das Canárias deu início a um programa de recuperação da espécie que envolveu restauração do habitat, que agora é área de protecção total com acesso condicionado, e reprodução por sementes, em viveiro, para posterior reintrodução na natureza. Este socorro in extremis terá dado bons resultados, pois uma das novas populações então criadas, na reserva natural de Los Tilos de Moya, está hoje firmemente estabelecida. A reserva, de acesso livro para visitantes, alberga uma das últimas amostras de laurissilva da ilha, e num curto percurso circular pode apreciar-se, à sombra dos "tilos" (= Ocotea foetens; em português til, plural tiles), uma boa amostra da flora das Canárias, incluindo as orquídeas Gennaria diphylla e Habenaria tridactylites. O Solanum vespertillo aparece na encosta mais soalheira, quando as lauráceas dão lugar a um mato xerófilo de urzes e tabaibas, entremeadas com muitas serralhas gigantes (Sonchus sp.), romaninhos (Lavandula sp.) e suculentas arbustivas do género Aeonium. Proliferam também, infelizmente, invasoras como Oxalis pes-caprae e Ageratina adenophora.

Ainda que a sua silhueta não seja um modelo de elegância, o Solanum vespertilio dá flores de fazer inveja às mais finas plantas de jardim. São flores grandes, de um bonito contraste entre o amarelo dos estames e o lilás das pétalas, sendo estas bordejadas por um friso ondulado que se diria cerzido por mão de costureira, coisa que não se vê em nenhuma outra espécie do género.

15/11/2019

No bosque dos venenos em flor

É preciso o medo acumulado de muitas gerações para que uma espécie converta o medo em ira e crie, na sua evolução, um mecanismo que não apenas dissuada os predadores e eventuais inimigos, mas de facto os mate à primeira investida. Algumas espécies muito venenosas têm o cuidado de se pintar de cores garridas para avisar inocentes distraídos, ou potenciais polinizadores, mas nem todas usam dessa cautela na decoração. A Atropa belladonna, a que alguns chamam erva-moura-furiosa, é uma dessas herbáceas que não parecem fazer mal a uma mosca. Mas o seu efeito letal funciona algumas vezes precisamente por causa desse logro: as flores têm uma corola larga a lembrar uma campânula, com uma linda pigmentação axadrezada nas pétalas, e cinco estames longos mas recurvados para dentro; as bagas maduras, com cerca de 1.5 cm de diâmetro, são pretas, lustrosas, apetitosas e, dizem, doces; mas a ingestão de um bocadinho minúsculo da folhagem ou das bagas já matou reis, imperadores e gente incómoda para quem tem (ou quer passar a ter) o poder. E a reputação da belladonna nunca mais foi a mesma.


Atropa belladona L.


O nome Atropa, sugestão de Lineu, refere-se a Atropos, uma das três parcas da mitologia grega responsáveis pelo destino de cada um de nós. O fado era personificado por um fio bem fiado e medido; a Atropos cabia cortá-lo, interrompendo a vida do modo que lhe aprouvesse. O epíteto belladonna (proposto por Tournefort) conta uma história menos sombria: parte da planta era usada na Idade Média como tónico de cosmética, para ruborizar as faces e acentuar traços das belas damas de outrora.

Da família Solanaceae (a mesma das plantas que nos dão tomates, batatas, pimentos, beringelas, fisális ou tabaco), a A. belladonna é perene e nativa de regiões com clima ameno na Europa, Ásia e norte de África. É uma espécie que aprecia bosques, preferindo locais húmidos e sombrios. E foi num bosque notável do vale de Pineta, nos Pirenéus aragoneses, que a vimos. Esse é um tipo de habitat que escasseia em Portugal, e não é certa a ocorrência espontânea da A. belladona por cá.

19/01/2016

Sem fruto


Lycium intricatum Boiss.


Temos tido um Inverno atípico, mais quente e com muita e por vezes furiosa chuva, ainda assim brando a julgar por aquilo de que o El Niño é capaz. Mas as plantas perenes de folha caduca, que apreciam igualmente o calor e o frio se estes as atingirem na época certa, andam confusas. Elas parecem ler os sinais da natureza, importantes para os seus ciclos de vida, nas variações da temperatura ambiente, no número de horas com exposição à luz solar, na quantidade de precipitação, etc. São dados que todas as plantas recebem em simultâneo, e por isso se comportam como se guiadas por um maestro, perfeitamente ajustadas às nossas estações do ano. Contudo, este ano não temos tido um verdadeiro inverno e, portanto, as plantas ou prolongaram o Outono (a ginkgo do Jardim das Virtudes só agora se despiu da folhagem, negando-nos em Novembro o espectáculo de a vermos coberta de folhas amarelas) ou julgam estar já na Primavera. E é ver os carvalhos ainda com folhagem, eles que daqui a um mês terão de começar a produção de folhas novas; ou reparar nas dedaleiras apressadas no florir, apesar de não haver ainda polinizadores que aproveitem tal benefício. Receia-se que tais mudanças climáticas e a inevitável falta do período de descanso acabem por debilitar as plantas e imponham depois um ano de fome às abelhas.

A cambroeira, planta arbustiva da família Solanaceae e espontânea em Portugal, não parece ter escapado às consequências da tão estranha mudança de calendário. Em geral, e apesar de ser resistente ao frio, à maresia e ao ar salgado, por esta altura deveria estar ainda a fingir-se de morta, reduzida ao feixe de ramos secos e ásperos, espinhosos nas extremidades, com que costuma iludir os rigores do Verão (como teria de fazer num habitat realmente semi-desértico em África, onde também ocorre e de onde talvez tenha vindo para a Península Ibérica). Nesse estado, cumpria-lhe aguardar as chuvas de Fevereiro-Abril para sair da hibernação. O exemplar (isolado mas de porte considerável e talvez idoso), que vimos no fim de Dezembro numa arriba da costa vicentina, estava com a folhagem carnuda e fresca, e exibia várias flores, mas nenhum fruto. Naturalmente, nesta altura não se viam abelhas ou outros insectos a polinizar as flores. Um desperdício, que, porém, muito apreciámos.


Bordeira, Carrapateira (Algarve)
Lemos que algumas experiências de campo indicam que o sucesso da germinação das sementes de Lycium é mais elevado se a dispersão for indirecta, talvez por assim se dar mais tempo à preparação das sementes. O ideal mesmo é que a baga seja comida por uma lagartixa e esta por um picanço que, sendo pássaro de patas curtas, não as pode usar para levar a comida ao bico e, por isso, espeta as presas em espinhos de arbustos para as consumir.

O outro Lycium que ocorre espontaneamente em Portugal, L. europaeum, anda desaparecido, embora a Flora Ibérica lhe atribua uma distribuição mais vasta que a do L. intrincatum. Mostrámos aqui há uns anos uma outra espécie, essa não considerada nativa de Portugal, o L. chinense, que conhecemos das dunas de Gaia entre a Aguda e Espinho.

28/04/2015

Tomateiro do diabo


Solanum linnaeanum Hepper & P.-M.L. Jaeger


A planta das fotos trouxe-nos à lembrança um curto filme de animação que vimos há uns anos. O enredo é uma alegoria sobre a criação: duas nuvens têm a tarefa de gerar, moldando com mãos de nuvem pedaços da própria nuvem, as crias dos animais da Terra. Um par de cegonhas encarrega-se depois de fazer a entrega, sem engano, dos filhotes às respectivas mães. Uma das nuvens, habilidosa e maternal, faz amorosos bebés de gato, tigre, leão, urso e de outros tantos bichinhos fofos, aformoseando orelhas e patinhas com óbvio talento de design. A outra, rabugenta e um pouco estouvada mas artesã igualmente ágil, fabrica com afinco crias de cobra, jacaré, salamandra, aranha, escorpião, animais que nos amedrontam ou em que não vemos encanto especial nas formas e modos dos recém-nascidos. Naturalmente, a cegonha que colabora com a segunda nuvem não está satisfeita com a sua sorte e tenta mudar de emprego. A nuvem chove de raiva mas lá consegue chegar a um acordo: promete tentar fabricar bichinhos mais adoráveis; e o compromisso cumpre-se com um pequenino ouriço-cacheiro, lindo apesar de espinhoso.

Curiosamente, com as plantas, a nossa afeição tende mais para as já amadurecidas, de preferência a florir, ou para as árvores frondosas. Os rebentos parecem-nos ter, em geral, pouca graça, e há até quem os regue em demasia para ver se crescem mais depressa. Mas, se existissem nuvens-oleiros a gerar as plantas, esta de hoje seria criada por uma das ranzinzas. O aspecto geral é o do género Solanum. Vejam-se as flores: as cinco pétalas roxas unidas quase até ao meio que, quando ainda fechadas, formam um balão, abrem-se como flores-estrela tendo ao centro uma coluna amarela de estames a rodear um estilete. Mas a fisionomia crispada da folhagem e a profusão de espinhos causam uma impressão desagradável que nem os frutos jovens, semelhantes a fabulosas bolas de cristal, ajudam a aliviar.

Trata-se de uma espécie exótica, nativa da África do Sul, Moçambique e Zimbabwe, de que, por cá, só se conhecem registos no litoral sul e sudoeste, e sempre em locais ruderalizados. Talvez seja a espécie a que Lineu chamou Solanum sodomeum, e é conhecida em algumas referências inglesas como apple of Sodom. Na dúvida, foi rebaptizada, homenageando-se Lineu, o seu provável primeiro descritor.

06/01/2011

Meimendro branco ou negro

Hyoscyamus albus L.


Traduzido do grego, o nome científico Hyoscyamus significa fava dos porcos. Além de enganadora, essa designação revela desdém tanto pelos porcos como pela planta. De facto, o meimendro — como é conhecido no vernáculo — não é uma leguminosa, e portanto não produz nada que se pareça com favas; e, sendo venenoso, não é dieta que se recomende a ninguém, nem a um porco. A família Solanaceae, a que pertence, inclui plantas comestíveis tão importantes como a batata, o tomate e a beringela; mas inclui outras perigosamente tóxicas como a beladona (Atropa belladonna) e a figueira-do-inferno (Datura stramonium). É neste clube de má fama que se filia o meimendro, mas até um renegado pode ter virtudes redentoras. A hiosciamina, um dos compostos que se extrai do meimendro, tem efeitos psicotrópicos e sedativos, e provoca a dilatação da pupila ocular; por isso, a planta é útil em farmacopeia e terá sido outrora usada em cerimónias de bruxaria para induzir transes e alucinações.

As cerca de 23 espécies do género Hyoscyamus distribuem-se pela Macaronésia, Europa, Ásia e norte de África; na Península Ibérica (e em Portugal) apenas ocorrem duas, H. niger (meimendro-negro) e H. albus (meimendro-branco), e dessas só a segunda é espontânea nos Açores. O meimendro-negro e o meimendro-branco, embora parecidos, distinguem-se bem pelas flores (as do meimendro-negro são raiadas por veias púrpuras) e pelas folhas (que no meimendro-branco, como se vê na 1.ª foto, são pecioladas, e no meimendro-negro são sésseis). São plantas perenes, por vezes apenas bienais, que atingem uns 80 cm de altura, têm um aspecto algo hirsuto, e, por serem pegajosas e fétidas, são desagradáveis ao tacto e ao olfacto. As hastes florais, decoradas com brácteas semelhantes a folhas, lembram serpentes desenroladas, e as flores tubulares, com uma mancha arroxeada ao centro, têm cerca de 3 cm de diâmetro.

Nos Açores o Hyoscyamus albus está restrito a habitats rochosos ao longo da costa. As plantas que aqui exibimos foram fotografadas em Porto Martins, onde faziam companhia às vidálias.

04/03/2010

Beringela na horta e na panela

Solanum melongena L.

A primeira ilustração de uma beringela em obra europeia é do alemão Leonhart Fuchs (1501-1566) no seu único livro publicado sobre plantas, De historia stirpium (Basileia, 1542). Chamou-lhe então malla insana (algo como maçã louca) por não a conseguir encaixar em nenhuma descrição botânica clássica, fosse ela grega, romana ou árabe (tivesse ele procurado em textos chineses e teria encontrado). Na legenda que acompanha a ilustração, Fuchs informa que a beringela era então consumida cozinhada em azeite, sal e pimenta, ou conservada em salmoura; em sua opinião, tratava-se de comida para gastrónomos, ou para gente disposta a provar qualquer iguaria.

A beringela é uma das poucas espécies do género Solanum (erva-moura em latim) que têm uso alimentar e não vieram da América do Sul. É nativa da Índia (onde se chama brinjal), Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka. Deverá ter entrado no Ocidente pela região mediterrânica, trazida em cesto árabe, a julgar pelas inúmeras designações árabes e africanas com que lhe enriqueceram o BI. Hoje a China é o maior produtor, com a Índia em segundo lugar.

É uma herbácea perene de caule espinhoso e folhas longas (até 20 cm) com margens lobadas de forma irregular. Produz flores brancas ou violáceas, procuradas por abelhas; o fruto é uma baga roxa, pequenina (3 cm de diâmetro) nas variedades silvestres, muito maior nas cultivadas (conhecida no Brasil como peito-de-moça), e rica em iodo. Alguns cultivares produzem frutos de casca amarela ou branca (o que lhe trouxe mais um nome comum, eggplant), ou ainda roxa listrada de branco. As sementes, de textura mole, são azedas pois contêm alcalóides da família da nicotina (por isso, a polpa da beringela escurece em breves minutos quando entra em contacto com o ar).

Beringela deriva do espanhol berenjena (sec. XIV-XV) e este do árabe badindjana, que por sua vez tem raiz no persa badndjan.

Para fazer jus ao título, jantámos beringela. Desconfio, porém, que isto de comer posts ainda vai dar mau resultado.

02/03/2010

Fruto, hortaliça e tempero

Solanum lycopersicum L.
Com mais de 1400 espécies, Solanum é o maior género na família Solanaceae e um dos mais abrangentes entre os que agrupam plantas que dão flor. Em 1753, Lineu juntou-lhe o tomateiro sob a etiqueta Solanum lycopersicum. Anos depois, por causa da estrutura das folhas, do amarelo das flores, do formato das anteras e da ausência de alcalóides frequentes nas outras plantas do género Solanum, Philip Miller mudou-o para Lycopersicon esculentum, e a maioria das referências bibliográficas prefere esta designação. Contudo, a informação genética a que hoje temos acesso dá razão a Lineu: o genoma, sequenciado em 2009, confirmou que o tomateiro é do género Solanum.

O tomateiro é uma herbácea perene mas tenrinha de que se consomem apenas os frutos, difíceis de conservar frescos. Tudo o resto é tóxico. As folhas são imparipinadas, com 5 a 9 folíolos penugentos, de margens serradas. As flores nascem em cimeiras e têm um pistilo alongado; o pólen está no interior das anteras em vez de estar à superfície, como é mais comum, para dificultar a auto-polinização. Mas, na viagem que a trouxe da América do Sul até à Europa, em 1523 segundo José Mendes Ferrão (A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, IICT, 2005), a planta não veio acompanhada pela sua abelha polinizadora, e por isso os cultivares hortícolas foram seleccionados pela capacidade de se auto-fertilizarem (ainda que com ajuda humana).

O tomate é um fruto mas, como não é doce e é usualmente consumido em salada ou como tempero, é tratado, em culinária e nos mercados, como uma hortaliça (igual ofensa se comete relativamente ao pepino [Cucumis sativus L.], à beringela [Solanum melongena L.], à courgette [Cucurbita pepo L.] ou à abóbora [Cucurbita spp.] ). Mas a reabilitação do tomate não tardará, como comprova a popularidade crescente das compotas e dos sumos que com ele são confeccionados.

Lycopersicon deriva do grego lykos, lobo, e persicon, pêssego — ou seja, fruto perigoso. Tomate tem origem indígena, na palavra asteca tomatl para nomear «uma coisa rechonchuda com um umbigo». Os primeiros tomateiros a chegar à Europa, importados do México pelos espanhóis, dariam frutos amarelos. É isso que faz crer o nome comum italiano, pomo d'oro, ou maçã de ouro, que terá sido cunhado por volta de 1550 pelo naturalista Pier Andrea Mattioli.

10/12/2009

Orelhas-de-cordeiro



Salpichroa origanifolia (Lam.) Baill.

Mavioso, o povo inglês chama-lhe pampas lily-of-the-valley. Os franceses, também atentos na Primavera às flores brancas em sino com cinco pétalas recurvadas, tratam-na por muguet-des-pampas e, no Outono, vendo as bagas ovóides de cor creme, atiram-lhe em brincadeira a designação œuf-de-coq. E, como alguém reparou nas folhas - redondinhas como as do orégão, arrebitadas e aveludadas, com pecíolo longo e em geral duas por cada nó -, por cá deram em tratá-la por orelhas-de-cordeiro. Tantas alcunhas levam-nos a desconfiar que a planta é abundante e se faz notada. E de facto consta da lista de invasoras indesejáveis em toda a região mediterrânica, estando no top 25 das piores pragas nas ilhas dos Açores e Madeira.

É uma herbácea perene do sudeste da América do Sul. Chegou cá por mão de quem mima abelhas - para elas, com tanto néctar, é um genuíno porte-bonheur -, gostou do clima temperado, do solo pobre ou arenoso, da vista para o mar a lembrar-lhe o Pacífico da infância, e já não saiu. Embora de folha caduca, é competidora agressiva por espaço e recursos. Além de alterar a prevalência natural de outras espécies, veda às outras plantas o acesso a nutrientes e ao sol ao formar tapetes cerrados com cerca de 1,5 m de altura, adulterando assim os padrões de regeneração da vegetação nativa. E, se em casa lhe basta a ponderada disseminação por sementes, entre nós adoptou ainda a multiplicação vegetativa. A juntar a tudo isto, é um caméfito: as suas gemas de renovo surgem a não mais de 25 cm acima do solo; assim, se for preciso, ficam protegidas do frio intenso dentro de um iglu de gelo sustentado pela folhagem. Rendamo-nos a tanta astúcia.

O termo salpichroa vem do grego: salpinx significa trombeta, e khróa, tez, em alusão ao formato e cor das flores. O género tem uma trintena de espécies vivazes originárias de zonas temperadas da América do Sul e uma (S. wrightii A. Gray) do Arizona e Novo México.

13/11/2009

Veneno na sopa


Solanum nigrum L.

São contraditórios os relatos sobre a toxicidade da erva-moira (Solanum nigrum), herbácea anual de origem euro-asiática que se espalhou por todos os continentes. Jorge Paiva, num informativo artigo sobre solanáceas incluído no n.º 29 (Setembro de 2009) da revista Parques e Vida Selvagem, acusa-a de matar ovelhas e de pôr vacas em estado comatoso. Sabemos que a figueira-do-inferno é bem capaz dessas e de piores proezas se ingerida inadvertidamente pelo gado; mas não nos parece que a erva-moira se lhe compare em malignidade. É certo que a planta é algo venenosa, sendo os seus frutos imaturos de especial perigosidade, mas seria preciso ingeri-la em fartas doses para correr risco de vida.

E quererá alguém, como tira-teimas, incluir a planta na sua dieta regular? A verdade é que já há quem o faça sem ser motivado por pulsões suicidas. Tanto na Índia como na Etiópia as folhas e os frutos maduros são comidos depois de cozinhados, e as crianças chegam mesmo a comer o fruto directamente da planta. As folhas são cozidas em água salgada, tal como se faz com os legumes para a sopa; e consta que, no sabor e textura, elas se assemelham a espinafres.

Para falar com franqueza, não tencionamos provar tal sopa - e desde já declinamos qualquer responsabilidade se, sugestionado pelo que escrevemos, alguém decidir experimentar a erva-moira como ingrediente culinário, com resultados desastrosos. Regressamos à objectividade botânica para enunciar algumas características da planta: alturas até 60 ou 80 cm, flores brancas de 7 a 10 mm, estreladas, pendentes, em grupos de 5 a 10; frutos lembrando tomatinhos (até 8 mm de diâmetro) que começam por ser verdes, ficando pretos quando amadurecem. É aliás a cor das bagas que mais facilmente distingue o Solanum nigrum de um seu congénere também espontâneo em Portugal: o S. villosum Mill., mais peludo e de flores igualmente brancas, mas com frutos amarelos ou cor-de-laranja depois de maduros.

17/09/2009

Doce veneno amargo


Solanum dulcamara L.

A batata (Solanum tuberosum, de fruto tóxico) é um tubérculo humilde das montanhas andinas onde o solo é fino, as temperaturas baixas, os dias curtos e o ar rarefeito, e onde ainda hoje se consomem variedades silvestres, incluindo a linda batata azul. Desconhecida na Europa antes da Renascença, veio a ser mais do que uma fonte de nutrientes: permitiu uma explosão populacional sem precedentes e, depois de uma praga que devastou as plantações, forçou os europeus a uma emigração histórica para o Novo Mundo, o que lhe criou condições para conseguir a independência. Os conquistadores espanhóis desafiaram a civilização inca atraídos pelo ouro e pela prata, mas o notável legado dos incas veio guarnecido de milho e batata.

A batateira pode propagar-se por sementes, difíceis de obter nas variedades hortícolas recentes, mas é mais usual a multiplicação pelos «olhos» dos tubérculos. Segundo Henry Hobhouse no livro Seeds of Change (Folio Society, 2007), até 1770 três plantas confundiam-se na designação «batata»: a branca, de que falámos antes, a batata-doce (Ipomea batatas) e a mandioca (Manihot esculenta). Variantes da palavra persistiram nas línguas europeias até surgir pomme de terre.

Quase todas as cerca de 1400 espécies do género Solanum, subtropical e maioritariamente da América Central e do Sul, têm folhas de aroma acre, flores encantadoras e frutos perigosos ou mesmo mortíferos (com bravas excepções, como o pepino, S. muricatum, a beringela, S. melongena ou o tomate, S. lycopersicum). A espécie das fotos, com vasto uso medicinal, é europeia, semi-lenhosa e, por hábito, gosta de vaguear escalando por outras plantas. Os frutos são bagas verdes, depois cor-de-laranja, que os pássaros consomem só depois de terem amadurecido para rubras.

31/08/2009

Maçã com espinhos



Datura stramonium L.

Quando a reputação é ruim, nenhuma pátria gosta de se assumir como tal. Os grandes patifes da história deveriam todos surgir de lugar incerto e por geração espontânea, para nenhuma família arcar com nome que é marca de opróbio, nem terra nenhuma ser berço de tal filho. Se as qualidades morais não são atributos das plantas mas dos usos que delas fazemos, existe ainda assim, no reino vegetal, a figura do apátrida renegado por todos. Um exemplo é a erva-do-diabo (Datura stramonium, em inglês thorn-apple): europeus e asiáticos atribuem-lhe origem americana (o que é plausível, pois quase todas as restantes espécies do género Datura são desse continente), mas os americanos rejeitam-na como nativa, chutando-a para os confins da Ásia.

E que mal fez ela ao mundo para merecer tal ostracismo? Para começar, não formando grandes populações nem podendo com justiça ser considerada invasora, aparece sem ser convidada em campos de cultivo, terrenos baldios, jardins e dunas marítimas. Um tal voluntarismo, num mundo que queremos ordenado e previsível, só é tolerado (quando o é) em plantas nativas, categoria a que a nossa Datura não pode, em lugar algum, aspirar pertencer. Acusam-na também de cheirar mal; mas isso, claro está, é medido pela bitola do nosso olfacto, a que nem toda a natureza se tem de subordinar. Acrescentam, a contragosto, que a flor até é agradavelmente perfumada, mas de imediato ressalvam que só abre à noite ou ao fim da tarde, murchando logo de seguida; por isso se justifica tê-la em fraca conta. Alertam-nos para a perigosidade da planta, toda ela venenosa: alucinogénia se ingerida em quantidades mínimas (e usada com esse fim pelos Astecas), a viagem às estrelas por ela induzida pode não ter regresso se a dose for mal calculada. É verdade, admitem, que tem usos medicinais, mas como componente de fármacos (para o tratamento da asma, por exemplo) e não tomada directamente.

Veredicto final? Deixem-na viver: a sua existência é curta (é uma planta anual) e imprevisível (as sementes podem ficar adormecidas no solo durante anos); e, embora não seja de uma beleza fulgurante, é uma planta de utilidade indiscutível (as borboletas e outros insectos gostam dela).

30/08/2009

Maçãzitas

Para além de uma glicínia e de uma buganvília, no minúsculo jardim onde passo agora muitas horas dos meus dias, cresciam duas árvores: uma japoneira ainda jovem e um enorme ligustro que se erguia paredes meias com a vizinha, até aos telhados das casas. Ao fim de quase um ano de convívio e cumprindo o que desde o início lhe tinha destinado, o ligustro foi retirado, e precisamente no dia 25 de Novembro passado (data escolhida por brincadeira por causa do provérbio "À la Sainte-Catherine, tout bois prend racine"), plantámos uma pequena macieira ornamental, Malus Evereste de seu nome abreviado, carregadinha de maçãzitas vermelhas. Linda!



Os frutinhos duraram apenas até aos últimos dias de Dezembro: os melros e pardais deliciaram-se até ao fim e não deixaram que eles abrilhantassem o jardim em Janeiro e Fevereiro, como prometido. Na Primavera, a árvore encheu-se de cachos de flores, primeiro róseas e depois brancas, fazendo jus aos seus antepassados (na génese complicada deste híbrido denominado Malus PERPETU ® Evereste, encontra-se uma Malus floribunda).
Entretanto chegados que estamos ao final de Agosto, os frutos ficam de dia para dia mais coloridos, dando-se bem com as flores do solano (Solanum rantonnetii) que teima em espreitar por cima do muro.


fotos manueladlramos 0908
Em Maio passado, num artigo do jornal I lemos que este tipo de maçãzitas -tristemente designadas por moribundas "pelo povo" de acordo com o referido texto- começa a encontrar o seu lugar nas criações dos novos chefes portugueses (ver aqui também). Em língua inglesa as macieiras que produzem frutos deste calibre, incluem-se no grupo das «crab trees, crabs, wild apples, and schoolboy apples, crabapples» (fonte > ), entrando estas maçãs desde há séculos no rol da "stapple food" das populações da Europa do Norte. Este ano vou disputá-las aos melros e até já arranjei mais algumas receitas.

10/07/2009

Petúnia-da-Patagónia


Petunia patagonica (Speg.) Millán

.....Et j'ai perdu tous mes paris
.....Il n'y a plus que la Patagonie, la Patagonie qui convienne à mon immense tristesse

.....Blaise Cendrars (Prose du Transsibérien et de la petite Jehanne de France, 1913)

03/06/2008

Tabaco-jasmineiro



Nicotiana alata

Portugal no século XIX vivia, como descreveu Eça de Queiroz, «curvado sobre a carteira da escola, bem aplicado, com a ponta da língua de fora, fazendo a sua civilização, como um laborioso tema, que ele vai vertendo dum largo traslado aberto de fronte – que é a França. Quem dependurou ali o traslado para que Portugal copiasse, com finos e grossos? Talvez os homens de 1820; talvez os românticos da Regeneração.» Três séculos antes, contudo, era Paris que recebia daqui o figurino, a euforia e os caminhos do prazer. Jean Nicot (1530-1600) foi a meio do século XVI embaixador de França em Lisboa e, em 1560, enviou tabaco (Nicotiana tabacum) do Brasil para Paris, com informação sobre o seu vasto uso medicinal. Daí até ao vício foi o tempo dum suspiro.

A Nicotiana alata é uma planta anual sul-americana, de floração efémera, usada em jardim por ter flores muito perfumadas. E, tal como o tabaco, o tomate, a batata, o pepino ou o pimento, contém nicotina, sobretudo nas folhas que, nalguns países do Médio Oriente, chegam a ser misturadas com as da N. tabacum. Intriga-nos que, deparando-nos com esta planta e ainda sem lhe saber o nome, não tivéssemos desejado enrolar, secar e fumar voluptuosamente um par de folhas. Entendemos que, havendo lume, um cenário de ócio pode ter estimulado a descoberta do cigarro. Mas qual deles terá levado alguém a fumar? Faltava-lhe uma peça de um puzzle a meio de uma tarde chuvosa de domingo? Procurava coragem para um encontro, ou serenava pouco antes de uma batalha? Tinha acabado de saborear um prato de caracoletas em receita não tradicional?

Não sabemos. Certo é que nesse dia a planta não estava em flor, ou hoje fumaríamos pétalas e seríamos apenas viciados em beringelas.