Mostrar mensagens com a etiqueta Canárias - Grã-Canária. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Canárias - Grã-Canária. Mostrar todas as mensagens

24/04/2023

Estrelas no asfalto



No noroeste da Grã-Canária, a velha e estreita estrada entre a Aldea de San Nicolás e Agaéte serpenteia pelas escarpas junto à costa, proporcionando em vários dos seus trechos — em especial na passagem pelo monte de Andén Verde — uma vista desafogada do Atlântico, que estende o seu infinito azul 500 metros abaixo. É prudente que o condutor não se distraia com as vistas, não vá o carro guinar para o precipício. Além disso, os instáveis taludes rochosos, aqui e ali protegidos por redes de aço, são uma permanente ameaça de derrocadas. Pensando bem, talvez seja avisado vedar a estrada ao trânsito automóvel e, em sua substiuição, construir outra, mais moderna, larga e rectilínea, furando por túneis e amputada de vistas. Foi isso mesmo que se fez — e, hoje em dia, até os caminhantes estão proibidos de percorrer a antiga estrada, que está cortada por blocos de betão e se vai rapidamente convertendo em cenário pós-apocalíptico: asfalto gretado, salpicado de calhaus e pedregulhos, e taludes revestidos por vegetação, a mesma vegetação que, pouco a pouco, vai ocupando e rompendo a faixa de rodagem. Como é usual nestes filmes, reina um silêncio ominoso (nem um motor se ouve) e não se avista ninguém; os heróis perguntam-se se além deles haverá outros sobreviventes.

O guionista intervém para lembrar que o filme é outro. Não houve qualquer fim do mundo e simplesmente desobedecemos às autoridades, andando algumas centenas de metros numa estrada de acesso proibido. Uma estrada escalavrada e perigosa, é verdade, mas nada que se compare (por enquanto) com as estradas abandonadas da costa norte da Madeira. Confiados na nossa sorte e experiência, achamos que a proibição não nos diz respeito. Sabemos que a exploração botânica comporta perigos, e aceitamo-los com sangue-frio.

Asteriscus graveolens subsp. stenophyllus (Link) Greuter


De entre as plantas que avistamos destaca-se um arbusto muito compacto e arredondado, crescendo bem no meio da estrada e afirmando-se como pioneiro na vegetalização do asfalto. Trata-se claramente de um Asteriscus, género bem representado nas ilhas orientais das Canárias, as mais secas do arquipélago: em Fuerteventura e Lanzarote ocorrem três espécies, incluindo uma endémica de cada uma dessas ilhas (A. sericeus em Fuerteventura, A. intermedius em Lanzarote). Esta estrela da Grã-Canária, de seu nome Asteriscus graveolens, é menos vistosa do que essas outras, por ser de menor porte, ter folhas mais estreitas e capítulos mais pequenos. Talvez compense o défice de beleza pelo cheiro intenso, ainda que pouco agradável, a que se refere o epíteto específico. Contudo, ao contrário dos Asteriscus endémicos de Fuerteventura e Lanzarote, este Asteriscus graveolens da Grã-Canária não parece ter conquistado o apreço dos jardineiros.

O Asteriscus graveolens apresenta um grau de variabilidade assinável, e estão descritas na Grã-Canária duas subespécies. A subsp. stenophyllus (em cima, fotografada em Andén Verde), tida como endémica dessa ilha, é mais ramificada, e apresenta folhas acetinadas, concentradas nas pontas dos ramos. A subsp. odorus (em baixo, fotografada no Barranco del Sibério), que ocorre também em Marrocos, apresenta um aspecto algo desgrenhado e tem as folhas mais pubescentes, dispostas de forma espaçada. Ambas as subespécies receberam ordens de especialistas reputados para florir sobretudo na Primavera, nunca antes de Março e nunca depois de Junho. Está-se a ver que não ligaram nenhuma, pois as fotos são de Dezembro de 2019.

Asteriscus graveolens subps. odorus (Schousb.) Greuter

27/01/2023

Mostarda dos taludes

Descurainia preauxiana (Webb) O. E. Schulz


As ilhas são fábricas prodigiosas de diversidade. Vinda do continente mais próximo na forma de semente, instala-se uma planta numa ilha; e, na mesma altura ou uns tempos mais tarde, a mesma planta chega a outras ilhas do mesmo arquipélago. Deixemos as plantas em sossego umas centenas de milhares de anos, sem contacto entre si nem com os antepassados continentais, e no fim observemos os resultados. Não só as plantas se fizeram radicalmente diferentes daquilo que eram à época da migração, como, dependendo da ilha, essa divergência tomou aspectos bem diferenciados. Consideremos, por exemplo, o género Descurainia, integrado na família das couves e das mostardas. Apesar de o género se espalhar pela América do Norte e do Sul, pela Europa e pela Ásia, o seu único representante na Europa (e, de raspão, no norte de África) é a Descurainia sophia, ou erva-de-santa-Sofia, nativa de quase todas as regiões temperadas do hemisfério norte. É portanto de admitir que as espécies de Descurainia existentes nas Canárias — que totalizam sete, tantas quantas as principais ilhas do arquipálago — sejam descendentes dessa única espécie europeia. O arquipélago das Canárias, com uma superfície total que é 1400 vezes menor do que a da Europa, produziu sete vezes mais espécies do género Descurainia — que optaram, todas elas, por ser arbustos perenes, em contraste com a D. sophia e demais espécies do género, que por regra são herbáceas anuais. É de presumir que a amenidade do clima insular, sem grandes variações ao longo do ano, tenha induzido essa maior longevidade: não havendo estações do ano tão adversas que a vida se torne impossível, não se justifica que os organismos abdiquem de viver em certos períodos do ano.

A repartição das espécies de Descurainia entre as ilhas das Canárias é desigual: Tenerife conta com três espécies endémicas (entre elas a D. bourgeana, que vive nos picos do Teide), Grã-Canária com duas, La Palma com outra, e há uma última espécie (primeira em abundância), que é a D. millefolia, partilhada por Tenerife, La Palma e La Gomera. A planta que hoje ilustra o texto é a Descurainia preauxiana, da Grã-Canária, bastante comum na zona central montanhosa da ilha, e com declarada preferência por taludes de estrada convenientemente pedregosos. As folhas pinadas, com lóbulos lineares e dispostas em rosetas nas extremidades dos ramos, permitem uma identificação inequívoca, pelo menos na época de floração da planta — a qual, apesar de certas fontes asseverarem decorrer de Março a Maio, é de facto mais prolongada, como comprovam estas fotos tiradas no final de Dezembro de 2019.

23/01/2022

Where are you from?

Ononis angustissima Lam.


Viajamos para travar conhecimento com coisas novas, mas também nos agrada reencontrar o velho em contextos novos. Quando percorremos as estradas da Grã-Canária, em momento nenhum podemos imaginar que estas montanhas esventradas por barrancos se localizam na Europa. Não é só o negrume do basalto a dar testemunho de outra geografia, mas também a vegetação dominada por plantas suculentas e adaptadas à secura a vincar a diferença. Contudo, há por vezes apontamentos de cor que nos fazem momentaneamente regressar a casa. Esta leguminosa arbustiva de flores amarelas, que enfeitava uma curva de estrada de onde se via o mar enquadrado por duas encostas pedregosas, era já nossa conhecida do vale do Douro internacional, a jusante da barragem de Bemposta. Tanto nas folhas trifoliadas e estreitas como nas sépalas compridas e no indumento glanduloso, a planta canarina parecia uma perfeita sósia da Ononis natrix, que se distribui por grande parte da Europa mediterrânica e do norte de África.

Consultadas as obras de referência, ficamos a saber que ao migrar para as Canárias a nossa velha conhecida conseguiu munir-se de documentação com indiscutível validade legal que lhe outorga nova identidade. Esquecido o passado, é tempo de a planta criar novas raízes e de se fazer à vida como legítimo endemismo canário. Quem somos nós para a denunciar? Julgámos reconhecê-la, mas enganámo-nos, desculpe a confusão. E na verdade ela é capaz de já viver nas ilhas há bastante tempo. Quantos milénios são necessários para se pertencer a um território? Porque se formos muito picuinhas, quase todos nós, humanos, somos exóticos na terra onde nascemos.

É pois com o maior gosto que exibimos no escaparate a Ononis angustissima, endémica das ilhas Canárias que se distribui por quatro ilhas: Tenerife, Grã-Canária, Lanzarote e Fuerteventura. Só temos a louvar o esmero com que, no seu agora arquipélago natal, ela se dedica à ornamentação das rodovias — isso representa, certamente, uma mais-valia para as ilhas que a acolheram. (Só uma dúvida nos inquieta: que utilidade teria ela antes de haver estradas e automóveis?) E a sua condição insular já é suficientemente antiga para lhe ter permitido alguma diversificação, sendo-lhe reconhecidas duas subespécies: a subsp. longifolia (aquela que fotografámos, presente nas quatro ilhas referidas) e a subsp. angustissima (de folíolos mais estreitos, só na Grã-Canária e em Tenerife). Claro que os maldosos (todos eles, estranhamente, exteriores ao arquipélago) ignoram toda essa evolução e não se cansam de lhe atirar o (alegado) passado à cara, continuando a chamar-lhe Ononis natrix — ou, quando muito, Ononis natrix subsp. angustissima.

21/03/2021

Pequenos corações de areia



Isto de coleccionar ilhas para alimentar memórias em tempos de mobilidade reduzida tem o perigo de nos ufanarmos em conhecedores, prodigalizando conselhos que ninguém pediu avalizados por um saber de curta experiência feito. Já visitámos três (ou quatro, se contarmos com La Graciosa) das sete (ou oito) ilhas habitadas das Canárias; e, se as autoridades que nos pastoreiam nada fizerem para o impedir, juntaremos proximamente uma quarta (ou quinta) ilha ao nosso currículo viageiro. Poderíamos hierarquizar, apontar lugares imperdíveis, desvendar segredos mal guardados. Como se em cada ilha visitada tivéssemos visto e experimentado tudo (pelo menos tudo o que fosse digno da nossa atenção), e tudo tivéssemos aferido com infalível discernimento.

Há ilhas a que vamos voltar, a outras talvez não, mas essas escolhas dizem mais sobre nós do que sobre essas ilhas. Cada ilha tem o direito de se apresentar a cada novo visitante com todas as armas de sedução de que dispõe. Há artifícios de que nem desconfiamos, apontados para sensibilidades sintonizadas noutros comprimentos de onda, e não nos cabe desencorajar possíveis namoros felizes.

A Tenerife e a Lanzarote voltaremos sempre que possível. Com a Grã-Canária houve um desencontro qualquer, uma desafinidade talvez evitável se a visita tivesse sido em época do ano mais propícia. Não foram as marcas do turismo massificado que nos desencantaram, pois essas são igualmente visíveis nas duas ilhas a que nos afeiçoámos. A aridez da paisagem também não nos repeliu, pois ela é ainda mais marcada em Lanzarote, onde não existem os barrancos verdejantes nem os pinhais de altitude que são, na Grã-Canária, refúgios seguros de frescura. Mas para nós o mar de Lanzarote é mais acolhedor que o da Grã-Canária, e os mesmos restaurantes étnicos para engodo de turistas são menos ofensivos numa promenade de pechisbeque em Lanzarote do que em lugar semelhante na Grã-Canária. Mesmo os endemismos botânicos de Lanzarote, em muito menor número que os da Grã-Canária, se fizeram mais bonitos aos nossos olhos.

Lotus arinagensis Bramwell


Um dos poucos endemismos da Grã-Canária que floriam em Dezembro (e essa escassez ajuda a explicar o nosso desapontamento) era uma leguminosa rastejante, de flores amarelas e folhas pequenas, carnudas e acetinadas. Tratava-se do Lotus arinagensis, endemismo do sudoeste da Grã-Canária que vive nos arredores de Arinaga, povoação costeira de que tomou o nome. Corazoncillo é como chamam nas Canárias às espécies de Lotus de hábito prostrado e flores amarelas. Entre espécies endémicas e outras de distribuição mais ampla (como o Lotus creticus), as Canárias têm mais de uma dezena destes pequenos corações rasteiros. As diferenças entre as várias espécies são às vezes pequenos detalhes nem sempre bem vincados, mas a área de distribuição ajuda a tirar dúvidas. O L. arinagensis, além de ter um aspecto distintivo, aperece apenas numa zona muito restrita da Grã-Canária.

Por falta de praias amplas, a cidadezinha de Arinaga não foi tomada de assalto por empreendimentos turísticos como aqueles que abundam em Maspalomas, no extremo sul da ilha. Parece assim suficientemente a salvo o habitat do Lotus arinagensis e de outros raros endemismos que colonizam esta paisagem desértica. Se para aqui se virassem apetites imobiliários vorazes, não seria um coraçãozinho da areia a fazer-lhes frente.

25/01/2021

Pendulina de flores douradas



Com uma altitude máxima de 1956 metros, a Grã-Canária é a terceira mais alta das ilhas Canárias, suplantada por Tenerife (3718 m) e La Palma (2426 m). Ser a terceira de sete não é grande título de glória, mas desde que haja precipícios de respeito, com miradouros estrategicamente colocados para potenciar a vertigem e o assombro, não é por ter mil metros a menos que uma ilha fica diminuída. Com um contorno aproximadamente circular e o ponto mais elevado quase coincidindo com o centro, a Grã-Canária, ainda que de formato achatado, teria tudo para ser um cone perfeito. Acontece que a natureza, essa caprichosa escultora, não se conformou ao ideal geométrico, e em vez das vertentes lisas descaindo placidamente para a costa temos vales escarpados, picos fora do seu lugar, desníveis repentinos e estradas que são um susto. Uma estrada a não perder pelos aficionados de emoções fortes é a GC-606, que liga o Roque Nublo, a uns 1400 m de altitude, à barragem de Parralillo, situada 1100 m abaixo: são 12 Km de via estreitíssima, com curvas apertadas e sem visiblidade, sempre à beira do abismo.

Uma estrada assim, onde qualquer desatenção pode ser a última, não é a mais indicada para botanizar enquanto se conduz. Também não é fácil encontrar onde encostar o carro sem atrapalhar o trânsito — ainda que este seja apenas hipotético, já que ninguém no seu inteiro juízo passa duas vezes por uma estrada destas. A solução sensata é mesmo largar o carro e percorrer a estrada a pé. Os taludes das estradas de montanha, aqui como em todas as ilhas Canárias, são ricos em endemismos botânicos, e proporcionam uma cómoda introdução à flora do arquipélago.

Chrysoprenanthes pendula (Sch. Bip.) Bramwell [= Sonchus pendulus (Sch. Bip.) Sennikov]


Já quase chegados à barragem de Parralillo, e devidamente surpreendidos por vermos acumulada tanta água numa ilha onde nunca chove, foi-nos enfim possível estacionar o carro e atentar nas plantas dos taludes, que aqui são altos, quase nus, formados por grandes e variegados blocos rochosos. Uma das poucas plantas frequentes neste habitat era uma asterácea de base lenhosa e hábito pendente, de pequenos capítulos amarelos e grandes folhas com pedúnculo longo e lobos agudos, triangulares. Aparentada com os dentes-de-leão, a Chrysoprenanthes pendula é endémica da Grã-Canária — e, pese embora a sua semelhança com as espécies arbustivas do género Sonchus tão frequentes nas Canárias (eis um exemplo de Lanzarote), é planta que não se confunde com nenhuma outra. Tanto assim é que a sua posição taxonómica tem sido instável e ainda hoje não é consensual. Primeiramente descrita em 1849 como Prenanthes pendula pelo alemão Karl Bipontinus Schultz (1805-1867), em 2003 o britânico David Bramwell transferiu-a para um novo género mono-específico, Chrysoprenanthes. Mas antes disso, em 1999, já os russos Alexander Sennikov e Irene Illarionova a haviam arrumado no género Sonchus, sublinhando a sua proximidade com as espécies desse género incluídas na secção Atalanthus (que vários autores consideram como género independente). Os estudos moleculares do sul-coreano Seung-Chul Kim e da sua equipa (ver artigo) vieram desempatar a contenda, ao revelarem que o género Sonchus, para ser monofilético (i.e., para ser formado por todos os descendentes de um único antepassado comum), deve absorver uns tantos géneros até aqui autónomos (como Aetheorhiza) — e, nesse quadro, Chrysoprenanthes e outros géneros canarinos como Sventenia e Lactucosonchus têm de abdicar da sua autonomia.

Tão interessante como a questão taxonómica é a diversidade de origens dos botânicos que, ao longo destes dois séculos, a têm investigado: há (entre outras nacionalidades) alemães, suecos, britânicos, russos e sul-coreanos — todos eles unidos pela ciência botânica (mesmo exprimindo sobre ela opiniões divergentes) e pela pulsão de fugir ao frio das suas diversas pátrias visitando (em trabalho de campo, claro) estas ilhas abençoadas por uma eterna Primavera.

27/12/2020

Variações da cinerária

Pericallis webbii (Sch. Bip.) Bolle


Lá para Maio ou Junho, chegará a vez de as cinerárias-das-floristas efeitarem garridamente os poucos canteiros sazonais que sobram na cidade do Porto. Ainda há espaço para elas no jardim do Carregal, mas não será por muito mais tempo. Dezasseis anos depois de ter sido amputado para a construção de um túnel rodoviário, um novo túnel, desta vez para uma linha de metro, há-de ser pretexto para lhe cortar mais uma fatia. Entretanto, confiando que em 2021 ainda haverá flores, aprendamos algo mais sobre as impropriamente chamadas cinerárias.

O nome científico correcto desse popular malmequer ornamental, criado no século XVIII, em Inglaterra, por cruzamento de duas espécies originárias das Canárias, é Pericallis × hybrida. Antes de serem arrumadas num género próprio, endémico da Macaronésia (Canárias, Madeira e Açores), estas plantas insulares integravam o género Cineraria, hoje em dia restrito à África do Sul. Essa mudança não é recente. O nome Cineraria, que significa acinzentada e decerto se refere à cor da folhagem de algumas espécies, foi cunhado por Lineu em 1766 num dos tomos do seu Species Plantarum. Nenhuma das endémicas das ilhas foi baptizada por Lineu, mas logo em 1788 o francês Charles Louis l'Héritier (1746-1800) deu nome a várias delas — incluindo a Cineraria lanata e a Cineraria cruenta, progenitoras da cinerária-das-floristas — num opúsculo intitulado Sertum Anglicum, dedicado a novas plantas cultivadas no Horto Real de Kew, em Londres. O nome genérico Pericallis, que em grego significa muito bonita (e assenta melhor a estas plantas do que o cinzento evocado pelo nome Cineraria), foi publicado em 1836 pelo escocês David Don (1799–1841), bibliotecário da Linnean Society e professor de botânica no King's College em Londres. O nome teve aceitação geral, e ainda durante o século XIX quase todas as espécies insulares então conhecidas deste grupo de asteráceas foram transferidas para o novo género. Mas dois séculos não bastam para mudar hábitos arreigados, e a cinerária-das-floristas continuará a ser assim chamada ad eternum.

Desde há muito que preferimos plantas silvestres aos híbridos domesticados de comércio hortícola, mas a conversa que com elas mantemos no campo (ou, neste caso, nas ilhas) são mais proveitosas se lhes conhecermos a biografia. Assim, quando demos de caras com a Pericallis lanata (ex-Cineraria lanata) em Tenerife, pudemos falar-lhe dos jardins citadinos onde a sua descendente todos os anos vem passar uma temporada, e perguntar-lhe por que razão, morando ela e a P. cruenta na mesma ilha, não tinham optado por consumar o enlace amoroso em plena natureza, sem a alcovitice dos jardineiros.

Ou somos ainda incapazes de interpretar a linguagem das plantas, ou a P. lanata recusou-se a falar connosco. Apesar da desfeita, não deixamos de reconhecer que ela (fotos em baixo) é a mais mimosa e singular de todas as do seu género: é uma planta miniatural, rasteira, de base lenhosa, com folhagem miúda semelhante à da hera, e que adopta um hábito pendente quando cresce em taludes; os seus capítulos florais são solitários, em vez de agrupados em cachos como nas Pericallis mais convencionais (de que é exemplo a P. webbi, acima ilustrada, endémica da Grã-Canária). Endémica de Tenerife, a P. lanata é frequente na metade sul da ilha, quente e ensolarada, mas prefere escarpas sombrias ou o abrigo de arbustos mais xerófilos. A sua floração decorre de Março a Maio.

Pericallis lanata (L`Her.) B. Nord.

29/11/2020

Perpétuas de outras praias

Schizogyne sericea (L. f.) DC.


Em Tenerife, ao longo de toda a linha costeira, em zonas de mato baixo ou em substratos arenosos, este pequeno arbusto prateado, profusamente florido nos meses da Primavera, cumpre o papel que nas praias do continente europeu está reservado à perpétua-das-areias (Helichrysum italicum). É a mesma folhagem linear, a mesma ramificação desordenada, os mesmos capítulos desprovidos de «pétalas» — e é, sobretudo, o mesmo amarelo dourado alegrando habitats semi-desérticos. De facto, os dois arbustos pertencem à mesma divisão (ou tribo) da família das asteráceas, tribo essa que, grosso modo, se caracteriza pelos capítulos só com flores tubulares formando corimbos mais ou menos densos. Fazem também parte da tribo arbustos como o alecrim-dos-paredes (Phagnalon saxatile) e ervas ruderais como o Pseudognaphalium luteo-album. São plantas generosas em néctar que devem o seu sucesso na natureza às honestas relações de proveito mútuo que estabelecem com os polinizadores.

O francês Alexandre Henri Gabriel de Cassini (1781-1832), que em 1823 cunhou o nome Schizogyne (que significa fêmea fendida, numa alusão à morfologia das flores femininas), admitiu que o novo género era muito próximo de Phagnalum; mas, quebrando a tradição, preferiu não usar um anagrama dessa palavra para o baptizar. Já então um quase anagrama, Gnaphalium, era o nome válido de um género botânico, e dentro da mesma tribo são vários os anagramas de Filago (por exemplo, Logfia e Ifloga) que também designam géneros botânicos.

A Schizogyne sericea, espontânea em todas as ilhas das Canárias à excepção de Fuerteventura, e conhecida no arquipélago como «salado blanco», só não é um endemismo canarino por ter sido assinalada nas Selvagens. Se não fosse esse percalço geo-político, o próprio género Schizogyne seria exclusivo das Canárias, já que a única outra espécie conhecida é endémica da Grã-Canária. Trata-se da Schizogyne glaberrima (fotos em baixo), que pelo tom verde da folhagem se distingue facilmente da sua congénere, e que no vernáculo local é apropriadamente chamada «salado verde». 

Misteriosamente, Cassini, no mesmo artigo em que inagura o nome Schizogyne, descreve uma espécie, S. obtusifolia, que seria hoje a terceira do género se a sua existência fosse reconhecida. Cassini baseia a descrição em material guardado no herbário de um Sr. Mérat, e a incerteza quanto ao local de colheita chega a ser cómica: pode ter sido nas ilhas Maurícias ou em Tenerife, ou ainda no Cabo da Boa Esperança. Contudo, a planta que Cassini descreve corresponde, com quase perfeita exactidão, àquela que hoje conhecemos como Schizogyne sericea, nome que lhe foi atribuído apenas em 1836 por Augustin de Candolle (1778–1841). Não sabemos por que razão Candolle, que obviamente conhecia o trabalho de Cassini, achou necessário o novo nome, mas é improvável que Cassini tenha descrito uma planta cujo paradeiro actual seja desconhecido. Certos portais de referência insistem porém que Schizogyne obtusifolia é um nome válido, e sustentam mesmo que a planta em questão é endémica de Tenerife (exemplos: 1, 2). Contudo, esse nome não é incluído em nenhuma listagem actual da flora do arquipélago (exemplos: 3, 4).

Schizogyne glaberrima DC.

23/11/2020

Medronheiro canarino

A maioria das plantas da nossa flora inicia agora um merecido descanso, no que são acompanhadas por várias espécies da fauna. Muitas árvores ficam carecas de folhas, com o tronco envelhecido de musgos e um ar desolado, mas sabemos que adormecem para rejuvenescer. Há, porém, excepções. A floração do medronheiro (Arbutus unedo), arbusto de folhagem perene, está agora a começar: as flores branco-rosadas e perfumadas, agrupadas em cachos, dividem o espaço na copa com frutos da época anterior, corados de frio mas ajudando a atrair os poucos polinizadores que ainda por aí andam nesta época do ano. Os medronhos, com textura e cor de morangos maduros mas quase sem sabor, ficam bem em compotas, bolos, rebuçados e aguardente. E esse uso tem beneficiado a planta, por interessar a fruticultores e destilarias a expansão da sua área de distribuição, que outrora se restringiu à região mediterrânica e Europa ocidental.

Arbutus canariensis Veill. ex Duhamel


Uma vez que uma parte significativa da flora das Canárias descende da flora mediterrânica, não foi surpresa descobrir que há uma espécie de medronheiro endémica das ilhas dos grupos central e oriental deste arquipélago (Tenerife, La Gomera, Grã-Canária, El Hierro e La Palma). Tal como o parente continental, o Arbutus canariensis tem um tronco avermelhado, que pode atingir os 7 metros de altura e se descasca com a idade. As folhas são maiores e mais escuras do que as do medronheiro continental, mas têm também aspecto coriáceo e margens serradas. As flores exibem um leve tom cor-de-rosa e pedicelos com inúmeros pêlos glândulares, detalhe que ajuda a distinguir a espécie canariense do A. unedo.

O A. canariensis está ameaçado pela perda de habitat, sobretudo nas ilhas em que as reservas de água estão mais perto do fim e os fogos de Verão se têm intensificado — regimes extremos de seca e calor a que o medronheiro canariense não parece adaptar-se. Esta espécie aprecia taludes da floresta laurissilva com bastante humidade mas solo enxuto, e onde a concorrência com outros arbustos e árvores é menor. Os registos mais recentes indicam que as populações silvestres em La Palma e La Gomera estão perto da extinção. As fotos são de exemplares do barranco de Valsendero na Grã-Canaria.

23/08/2020

Melancias de bolso


Bryonia verrucosa Dryand.


Melancias, melões e meloas fazem-nos dar graças à vida por existir o Verão. Esquecemos o calor, as queimaduras, os mosquitos, os fios de suor a escorrer pela cara, e só queremos lembrar aquele momento em que o melão gelado e doce se nos enrola na língua, deslizando depois goela abaixo para nos refrescar o âmago. Tal como a abóbora, mais associada ao Inverno, esses excelsos frutos são produzidos por plantas da família Cucurbitaceae, cultivadas pelo homem há centenas ou milhares de anos. É uma família constituída por plantas rastejantes ou trepadeiras, amiúde anuais, com flores de cinco pétalas em vários tons de amarelo, caracteristicamente lanudas ou frisadas. Além de podermos vê-las crescer nos mais modestos quintais, também há cucurbitáceas na natureza, só que dão frutos de menor tamanho, por vezes tão tóxicos que nem a medicina popular lhes quer dar uso. Sofrem desse óbice as duas únicas espécies espontâneas em Portugal continental, Ecballium elaterium e Bryonia dioica.

Os frutos da Bryonia dioica parecem tomatinhos. Em contraste, a Bryonia verrucosa, endémica das Canárias, produz perfeitas melancias em miniatura (foto em baixo), de não mais que 3 cm de diâmetro, com as faixas verde-escuras alternando com faixas claras tal como nas melancias genuínas. Claro que as aparências enganam, e nem um nem outro destes frutos miniaturais se deixam ou devem comer. Não por acaso, a Bryonia verrucosa é conhecida nas Canárias como venenillo. Além da desproporção de tamanhos, outra diferença marcante entre o venenillo e a melancia está no ciclo de vida: a Bryonia verrucosa (tal como a B. dioica) é uma planta perene, enquanto que o Citrullus lanatus (melancia) é anual.

Presente em todas as ilhas das Canárias com excepção de Fuerteventura, a Bryonia verrucosa é uma trepadeira de modesto alcance, com hastes que raramente ultrapassam os dois metros de comprimento e flores com cerca de 2 cm de largura. Vive em matos, ou ocasionalmente sobre muros velhos, em zonas de média ou baixa altitude, quase sempre abaixo dos 500 metros. A floração e frutificação decorrem de Outubro a Março, que em latitudes menos bonançosas são os meses de Outono e Inverno. O exemplar das fotos acima, que foram captadas em Dezembro do ano passado, vive numa berma de estrada na Grã-Canária, perto da reserva de Los Tilos de Moya.