Bando de pássaros
Com a saudável desatenção às notícias durante o Verão, talvez o leitor não tenha reparado que foi descrita em Agosto uma nova espécie de Linaria em Portugal continental. Trata-se de um endemismo raro do Algarve que ocorre em prados e orlas de matos. Junta-se a outra descoberta recente (divulgada em Janeiro), presente em arribas costeiras com solo calcário ou arenoso, e que é um endemismo da Estremadura; e a duas novas espécies de Linaria que são endemismos do Algarve, descritos há poucos anos.
Surpreende-nos que ainda se descubram novidades botânicas em locais relativamente acessíveis em Portugal. Neste caso, porém, isso resultou de um estudo morfológico e genético mais apurado, parte de um plano abrangente de arrumação da flora portuguesa. Que surjam novidades no género Linaria, que abriga cerca de 200 espécies anuais ou perenes, também se compreende, dada a sua fácil adaptação a substratos muito diversos, incluindo dunas no litoral e locais perturbados com solo seco ou pobre em nutrientes. Além disso, é um género propício a variações na folhagem e na pigmentação das flores, embora estas pouco mudem de formato: cada flor resume-se a uma corola levemente inchada com dois lábios (um superior dentado, como duas orelhas, e um inferior que serve de pista de aterragem para os polinizadores), cuja entrada é assinalada por uma coloração mais forte, frequentemente alaranjada, terminando com um esporão mais ou menos longo, mais ou menos curvado, onde guarda o néctar. O resultado é uma flor com perfil de passarinho, embora haja quem ali veja uma boquinha-de-sapo.
O género Linaria é nativo das regiões temperadas da Europa, Norte de África e Ásia, com um pico de diversidade na bacia do Mediterrâneo, beneficiando a Península Ibérica de uma fatia considerável de espécies endémicas. As fotos seguintes, de plantas do sul de Espanha, mostram espécies vizinhas de Linaria que, além do território, decerto também partilham polinizadores e que, curiosamente, desenvolveram uma pigmentação distinta nas flores.









Pode dar-se o caso de estas diferenças facilitarem a detecção da flor por este ou aquele polinizador, e este sucesso ser o principal responsável pela invulgar diversidade nestas plantas. Mas, dada a reconhecida compatibilidade genética entre espécies do género Linaria, outra origem plausível de tantas manchas, riscas e pintas, em matizes variados, poderá ser a hibridação natural entre espécies. A mistura de genes é capaz de produzir gradações de cor inteiramente novas, e até versões multi-coloridas. A selecção natural faz o resto se a nova coloração atrair mais polinizadores.
Naturalmente, nada disto seria possível se o mecanismo químico que determina a coloração das flores não contivesse uma paleta de amarelos, laranjas, azuis, violetas, carmins, etc, suficientemente vasto. E é isso mesmo que os estudos moleculares mostram: o género Linaria desenvolveu um sistema complexo (alguns dirão inteligente) de gestão de pigmentos que, por exemplo, se serve de um gene para ajustar a intensidade das cores (e assim gerar um violeta-claro ou um amarelo-intenso) e de alterações genéticas durante a divisão celular para desenhar, em certas zonas da flor, salpicos em tom púrpura que contrastam com o fundo homogéneo da corola.
Os polinizadores destas flores têm de ter uma língua longa e vigorosa para aceder ao néctar. Esta dependência de polinizadores tão especializados, cuja escassez se pode agravar com as alterações no clima a que vamos assistindo, é um perigo para várias espécies de Linaria, cujas populações estão já em declínio por outras ameaças ao habitat. Se não houver programas de conservação que protejam de facto as espécies mais vulneráveis de Linaria, daqui a alguns anos a notícia que aqui lhe daremos será infelizmente outra.
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