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01/08/2020

Linária sozinha


Linaria intricata Coincy
Na berma de um estradão florestal a norte de Bragança, num ponto onde o pinhal vai dando lugar às estevas em formação cerrada, uma tímida linária fazia abrir, no final de Junho, as primeiras flores da temporada. A canícula estival não tardaria a instalar-se e a temporada adivinhava-se curta. E ademais solitária, pois nenhuma outra planta da mesma espécie se descortinava nas redondezas. Exactamente um ano mais tarde, nem um exemplar foi possível encontrar nesse local. Contudo, a 1 ou 2 km de distância, em clareira de uma mata de carvalho-negral, por entre rosetas de Rhaponticum exaltatum que nunca pensaram em dar flor, novo exemplar solitário da mesma linária dedicava-se à difícil tarefa de existir.

Linaria intricata é como se chama esta diminuta e esquiva planta anual, endémica da Península Ibérica, baptizada em 1900 pelo botânico francês Auguste-Henri de Coincy (1837-1903) a partir de exemplares colhidos na província de Córdova. A descrição original, que pode ser aqui consultada, parece ajustar-se bem ao exemplar das fotos, em particular no que diz respeito à glandulosidade dos cálices e das margens das folhas. Ao contrário do que sugere o epíteto intricata, o grau de ramificação é escasso, talvez por se tratar de um exemplar ainda jovem. Onde a discrepância é notória é na cor das flores, que Coincy diz serem amarelas mas no exemplar fotografado se apresentam de um lilás pálido. Contudo, a revisão do género Linaria na Flora Iberica, surgida em 2009, admite essas variações de cor, que aliás não são invulgares no género. A linária das nossas praias nortenhas (Linaria polygalifolia subsp. polygalifolia) dá flores amarelas, mas a mesma planta (ou aquilo que os entendidos afirmam ser a mesma planta) dá flores rosadas ou arroxeadas em alguns pontos da costa galega (por exemplo, em Corrubedo - veja-se a foto em baixo).

Em Portugal a Linaria intricata já foi conhecida como Linaria coutinhoi. O autor da segunda combinação apontou subtis diferenças entre as duas espécies que os autores da Flora Iberica, ao subordinarem a segunda à primeira, optaram por desvalorizar. O exemplar em que se baseou a descrição da L. coutinhoi foi colhido por Gonçalo Sampaio nas areias do rio Douro, perto do Porto. Seja qual for o nome usado, há muitas décadas que a planta não é avistada no vale do Douro em território nacional. É mais uma das muitas vítimas das barragens que ao longo da segunda metade do século XX foram seccionando o rio, transformando-o numa sucessão de pachorrentas albufeiras. Nos últimos anos, a L. coutinhoi (ou L. intricata) tem sido avistada, esporadicamente, em certos pontos da margem portuguesa do Douro internacional, em substrato arenoso ou gravilhento, em zonas muito declivosas. E outras pessoas além de nós a têm encontrado nos arredores de Bragança, em zonas incluídas no Parque Natural de Montesinho. Em todas essas ocasiões, só muito raramente o número de exemplares detectados ultrapassa a dezena. As excepções estão ligadas à ocorrência de incêndios: em áreas recém-ardidas, a planta pode formar "autênticas pradarias", como testemunhou Anabela Amado, que a observou em 2007 nessas felizes condições. Quando a vegetação de novo se adensa, a planta tende a desaparecer gradualmente.

Dependendo presumivelmente dos incêndios para sobreviver, talvez a Linaria intricata não ache graça à ideia impossível, mas que vai fazendo escola, de um Portugal sem fogos. No âmbito da Lista Vermelha da Flora de Portugal, a espécie foi estudada e prospectada; mas o carácter fugaz e imprevisível das suas populações, a grande oscilação do número de exemplares de ano para ano e um fraco conhecimento da sua ecologia fizeram com que os dados disponíveis fossem tidos como insuficientes para a atribuição de qualquer estatuto de ameaça.


Linaria polygalifolia Hoffmanns. & Link subsp. polygalifolia - nas dunas de Corrubedo, Galiza

04/12/2019

Passarinhos em voo rasante


Kickxia sagittata (Poir.) Rothm.



O costume de dar nomes de bichos a plantas levou a que nas Canárias se chamasse bico-de-passarinho (picopajarito) à Kickxia sagittata, herbácea de porte rastejante que é endémica das quatro ilhas mais orientais do arquipélago (Lanzarote, Fuerteventura, Grã-Canária e Tenerife). Em vez disso, e sem sair do âmbito da fauna alada, preferimos imaginar que estas flores de um amarelo intenso, dispostas em fiadas, são bandos de canários empoleirados em cabos aéreos antes de se lançarem em voo. A analogia passeriforme é também usada nas plantas do género Linaria, aparentado com Kickxia. Serve de exemplo a Linaria triornithophora, em que o epíteto do nome científico nos informa que a planta dá três pássaros, por serem três as flores que compõem cada inflorescência.

As plantas do género Kickxia, todas com o mesmo figurino básico, apresentam hastes alongadas onde as flores de pedúnculo fino e muito comprido vão surgindo entremeadas com as folhas. Face às espécies peninsulares, a Kickxia sagittata distingue-se por ser uma planta de caules e folhas glabras, por atingir dimensões consideráveis (vários metros de extensão, comportando-se às vezes como trepadeira), e por ter flores bem maiores (3 a 4 cm de comprimento, contra 1 a 2 cm das da K. elatine). As mesmas características, e a mesma cor amarela das flores, são partilhadas pelas restantes duas ou três espécies de Kickxia endémicas das Canárias, devendo-se a incerteza no número à divergência de opiniões sobre a delimitação das espécies. Da Kickxia sagittata, por ser muito polimorfa, foram descritas pelo menos duas variedades que alguns autores tratam como espécies autónomas. As plantas nas fotos pertencem à variedade nominal, com folhas caulinares estreitas e amiúde sagitadas, havendo contudo plantas da mesma variedade com folhas muito mais largas. Em Lanzarote, e talvez endémica dessa ilha, existe a variedade subsucculenta, de porte compacto e folhas carnudas não sagitadas (veja-se a 2.ª foto nesta página).

Florindo entre Dezembro e Abril, a Kickxia sagittata é fácil de encontrar nas zonas costeiras de Lanzarote, tanto em areias como na rocha ou em outros substratos secos, às vezes misturando-se com a vegetação arbustiva dominada pela tabaiba-doce (Euphorbia balsamifera).

25/09/2019

Selvagem procura-se


Misopates salvagense D. A. Sutton
O Misopates salvagense não é candidato a nenhuma medalha de mérito da Royal Horticultural Society. As suas minúsculas e escassas flores brancas, timidamente raiadas de rosa, são de pobre efeito ornamental, embora denunciem o parentesco com as populares bocas-de-lobo (Antirrhinum majus). O que há de mais notável nesta planta é que ela não esteja extinta e seja possível observá-la com alguma facilidade. Pela nossa parte, encontrámo-la em Dezembro de 2018 na costa sudoeste de Lanzarote, nos arredores de El Golfo, em clareiras de matos dominados por tabaibas (Euphorbia balsamifera).

A primeira descrição da planta surgiu apenas em 1988, incluída em A revision of the tribe Antirrhineae, monografia de 575 páginas sobre bocas-de-lobo e plantas afins da autoria de David A. Sutton. Para descrever a nova espécie, o autor baseou-se num único exemplar de herbário, sem flores nem folhas, que havia sido colhido na Selvagem Grande 120 anos antes, algures entre 1860 e 1867. A planta não mais voltou a ser vista nas Selvagens e não foram localizados outros exemplares em herbários. Os frutos e sementes desse exemplar único distinguiam-no claramente dos Misopates conhecidos, mas a descrição da nova espécie foi necessariamente lacunar, e era grande a probabilidade de ela já se encontrar extinta.

Até que, já neste século, a planta foi reencontrada não já nas Selvagens mas nas Canárias, nas ilhas de El Hierro, Fuerteventura e Lanzarote. No artigo onde se dá a notícia [Apuntes florísticos y taxonómicos para la flora de las Islas Canarias, Acta Botánica Malacitana 34 (2009): 242-251 - PDF], os autores reportam que o Misopates salvagense é frequente em zonas costeiras áridas de Lanzarote e Fuerteventura, e que antes ele terá sido confundido, nessas ilhas, com o Misopates orontium. Este último está presente em todas as ilhas do arquipelago canário, mas tem flores maiores, em geral cor-de-rosa, e é densamente glanduloso na inflorescência.

De endemismo nado-morto das ilhas Selvagens, o Misopates salvagense passou assim a ser um elemento relativamente banal da flora nativa canária. Talvez o exemplar colhido no século XIX nas Selvagens represente um episódio fortuito: sementes arrastadas pelo vento desde as Canárias que germinaram mas não lograram estabelecer uma população permanente. Ou talvez a Selvagem Grande seja mesmo o berço da espécie, e ela tenha tido a sorte de colonizar as Canárias antes de se extinguir na sua ilha de origem por acção dos herbívoros (cabras, coelhos e murganhos) lá introduzidos. É muito improvável que o mistério alguma vez seja deslindado.

06/01/2019

Crista de galo

Sendo o mundo vasto e a natureza pródiga, há muitas plantas que só conhecemos através de fotos. Uma alternativa a este conhecimento em dimensão 2 é a possibilidade de ver as plantas em jardins botânicos, onde as exibem com fins ornamentais ou pedagógicos. Por exemplo, os Kew Gardens têm uma colecção gigantesca de herbáceas, arbustos e árvores, talvez mais do que se pode ambicionar conhecer em pormenor numa vida. Tais jardins funcionam como os parques zoológicos, que enjaulam a selva em nome da conservação das espécies, e são muitas vezes o instrumento mais eficaz na preservação da biodiversidade. Em casos excepcionais, conseguimos passar deste conhecimento teórico, digamos, para o que realmente entusiasma os botânicos: ver a planta no seu habitat natural. Foi o que aconteceu com esta Isoplexis: vimo-la exuberante de flores, num mês de Agosto há uns anos, nos Kew Gardens; e revimo-la, em Dezembro de 2017, num bosque sombrio de laurissilva na serra de Anaga, em Tenerife.


Isoplexis canariensis (L.) J. W. Loudon


Dezembro? Mas a floração não decorre de Abril a Agosto? Pois sim, mas talvez não tenha sido apenas por sorte que uma planta ainda floria em Dezembro. Trata-se provavelmente de uma adaptação a novos polinizadores. Segundo algumas referências, o polinizador oficial da I. canariensis ter-se-á extinto nas Canárias (e a isso se atribuía a raridade desta planta), mas sabe-se agora que a I. canariensis tem outros visitantes, a quem agrada o tipo de néctar que ela oferece e se adequa um período mais longo de floração.

Vários autores consideram Isoplexis como uma secção do género Digitalis, onde Lineu colocou duas espécies de Isoplexis por notar a semelhança no formato das flores (apesar de as da Isoplexis terem um lóbulo grande superior e as da Digitalis terem-no inferior). Após algumas oscilações de opinião, foi finalmente decidido no início deste século, com base em estudos genéticos, manter Isoplexis como género autónomo.

Como já aqui referimos, há registo de apenas quatro espécies de Isoplexis: uma é endémica da Madeira (I. sceptrum); as outras são endemismos de algumas das ilhas Canárias (I. canariensis, I. chalcantha e I. isabelliana). Estão ainda na lista de retratos a visualizar em 3D.

14/10/2018

Alecrim do mar

Apesar do turismo intenso na ilha durante todo o ano, a flora do litoral de Tenerife superou as nossas expectativas. Claro que ajuda à conservação da biodiversidade que as falésias à beira mar sejam íngremes, com ladeiras pedregosas e escorregadias, onde a aridez e o vento desaconselham as visitas e evitam o pisoteio. E que seja precisamente esse habitat, que nos parece tão inóspito, o que algumas das espécies mais bonitas preferem.


Campylanthus salsoloides (L.f.) Roth


O alecrim-do-mar (em espanhol, romero marino) é um endemismo das ilhas Canárias, presente em quase todas elas mas quase sempre em núcleos escassos. Há registo de duas variedades, uma de flores violeta-carmim (a mais frequente) e outra bastante rara de flores brancas, ambas com a base das pétalas claras e o interior do tubo amarelo. É um arbusto perene e lenhoso (diz-se que dos seus troncos secos se faziam outrora cachimbos), ramificado desde a base, com folhas cilíndricas e carnudas a lembrar as de algumas espécies do género Salsola. As suas flores agrupam-se em arranjos terminais, e o seu formato sugeriu a A. W. Roth (em 1821) o nome do género: Campylanthus provém dos termos gregos kampylos (encurvado) e anthos (flor), aludindo à curvatura do tubo floral (que se nota na 3ª foto) e às pétalas ligeiramente recurvadas para trás. Cerca de quarenta anos antes, o filho de Lineu designara esta espécie como Eranthemum salsoloides, de que se preservou o epíteto específico aquando da mudança de género.

Vimos estes exemplares em Dezembro de 2017, há muito passada a época oficial de floração desse ano (que, segundo as Floras, se prolonga de Janeiro a Julho). Mais um mês, e as inflorescências do ano seguinte mostrar-se-iam assim mais vistosas.

07/03/2018

Menina para sempre


Erinus alpinus L.


Siempreniña é o nome comum por que é conhecida em espanhol esta planta, cuja floração enfeita em Maio rochedos calcários por toda a Cantábria. Hesitámos na tradução. Talvez a designação vernácula pretenda aludir ao porte diminuto da planta (como referência, anote que os cálices destas flores têm 3 a 7 mm de altura e as corolas 6 a 12 mm de diâmetro), como se ela vivesse eternamente na infância. Mas ficámos a saber pela Flora Iberica que a planta parece aumentar de volume no período de frutificação, como se de uma gravidez se tratasse: a inflorescência, que é densa enquanto as flores estão aptas para a polinização, fica mais larga e lassa quando as flores amadurecem, talvez para acomodar melhor os frutos que aí vêm.

O género Erinus tem uma distribuição vasta pelas montanhas do sul da Europa e do norte de África, abrigando umas trinta espécies. Não há registo em Portugal da única espécie que ocorre na Península Ibérica, apesar dos inúmeros afloramentos calcários do país à disposição para ela colonizar. A falta de frio intenso nas nossas montanhas pode ser o entrave mais relevante à sua vinda para cá; na serra da Estrela ainda neva, mas não há lá o substrato básico que esta espécie prefere.

Guardemos destas fotos, ou destas outras um pormenor que ajuda a identificar este género: as corolas tubulares terminam em geral em cinco lóbulos, dois deles mais estreitos, juntos e erectos como duas orelhas de coelho. Dirá de imediato o leitor que, por exemplo, as flores das lobélias também têm estas características. Pois sim, mas as correspondentes «orelhas» são de esquilo, não acha?

06/06/2017

Dedaleira do Douro


Digitalis amandiana Samp.


A dedaleira é das plantas mais comuns no nosso país, e uma das poucas a que a generalidade dos portugueses sabe dar nome. Aprendemos, ainda crianças, que as dedaleiras são tóxicas, embora de facto só sejam perigosas se ingeridas em doses significativas. É pouco provável que tenhamos alguma indisposição só por enfiar o dedo numa flor (pois ela parece mesmo um dedal) ou por rebentá-la na palma da mão. Nesta época do ano, em que as dedaleiras floridas alegram terrenos baldios e bermas de estrada, cabe lembrar que mesmo uma planta tão corriqueira não é isenta de mistérios. Esses cachos de flores rosadas, bonitos mas gastos aos nossos olhos pela habituação, não podem, em rigor, ser declarados inconfundíveis, porque são várias as espécies que se escondem sob o mesmo aspecto geral. É verdade que aquela que Lineu baptizou como Digitalis purpurea é a mais abundante, mas no interior do país entre o Douro e o Tejo a Digitalis thapsi (dedaleira-peganhenta ou pegajo) faz-lhe aguerrida concorrência, chegando a suplantá-la na prontidão com que coloniza os taludes das auto-estradas. E, em certas zonas do alto Douro vinhateiro, particularmente em Carrazeda de Ansiães, a D. purpurea é substituída por uma espécie endémica da região, a D. amandiana, originalmente descrita por Gonçalo Sampaio em 1905. (A descrição de Sampaio foi reproduzida por Júlio Henriques, em 1906, no vol. XXII do Boletim da Sociedade Broteriana.) Tal como a sua congénere, a D. amandiana dá-se bem em terrenos perturbados, conseguindo assim sobreviver à fúria herbicida com que os vinicultores vêm dizimando a flora espontânea duriense.

Se compararmos a Digitalis amandiana (fotos em cima) com a D. purpurea (em baixo), as diferenças são notórias. O caule da D. amandiana é inteiramente glabro, enquanto que o da D. purpurea é peludo de alto a baixo. As folhas da D. amandiana são glabras, luzidias, estreitas, grosseiramente serradas nas margens -- em completo contraste com as da D. purpurea, que são penugentas, baças, largas, finamente dentadas. A corola da D. amandiana é exteriormente glabra, enquanto que a da D. purpurea está coberta de pêlos. Há também diferenças no cálice: os da D. amandiana são abertos, com sépalas largas e arredondadas; os da D. purpurea têm as sépalas comparativamente estreitas, mais ou menos pontiagudas, e encostadas à corola. Tudo somado, são mais óbvias as disparidades entre a D. amandiana e a D. purpurea do que entre a segunda e a D. thapsi. Não por acaso, são frequentes os híbridos entre a D. thapsi e a D. purpurea nas zonas onde as duas coexistem, mas nunca ninguém reportou um híbrido natural entre a D. amandiana e a D. purpurea.

Contudo, o reconhecimento deste endemismo duriense não tem sido unânime. João do Amaral Franco, que por certo nunca viu a planta, decretou, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 2, 1984), que D. amandiana era simples sinónimo de D. purpurea subsp. purpurea. A Flora Iberica (vol XIII, 2009) não cometeu esse erro, substituindo-o por outro um pouco menos grave: considerou que a singularidade da D. amandiana merecia apenas ser reconhecida ao nível de subespécie, ficando ela a chamar-se D. purpurea subsp. amandiana. Não menos plausível, embora igualmente arbitrário, teria sido subordiná-la à D. thapsi, chamando-lhe D. thapsi subsp. amandiana ou, como já sucedeu, D. thapsi var. amandiana.

(Sobre a Digitalis amandiana, leia-se ainda o informativo texto que, em 2009, Carlos Aguiar aqui publicou.)


Digitalis purpurea L.

06/12/2016

Memória das Índias

Logo à entrada do Parque Natural de Corrubedo (complexo dunar e lagoas de Carregal e Vixán), na Galiza, há avisos mais ou menos explícitos para que cada visitante cumpra todas as directivas que minimizem o impacto da sua presença naquele ecossistema. Mas o excelente estado de preservação deste vasto habitat, que então testemunhámos, não se devia apenas a esta sinalética de advertência. O parque contava com um grupo de biólogos rodeados de Floras que, além de receberem os visitantes esclarecendo-os sobre a biodiversidade que ali poderiam apreciar, garantiam primorosamente a conservação do parque. Alguns de nós tiveram até a ventura de receber uns guias de bolso muito bem elaborados sob a égide da Xunta de Galicia, da Dirección Xeral de Conservación da Natureza e da Consellería de Medio Ambiente e Desenvolvemento Sostible, com informação detalhada sobre aves, coleópteros, anfíbios e répteis, orquídeas e outra flora. Na nossa primeira visita a Corrubedo, demos sobretudo atenção às populações de Epipactis palustris e de Omphalodes littoralis (esta guardada por um verdadeiro polícia), mas, entusiasmados, agendámos uma segunda visita para admirar o resto.

Quando lá voltámos uns anos depois, a equipa de biólogos e vigilantes da natureza tinha sido dispensada, e o centro de atendimento de visitantes encerrara de vez. Lamentámos que o investimento na divulgação e promoção da ciência não tivesse escapado, pela sua importância, ao crivo da austeridade. E, tristonhos, seguimos para a lagoa de Vixán porque íamos à procura da Glaux maritima, uma Primulacea que já terá frequentado os estuários da costa norte portuguesa mas de que não há registos actuais. Sem sucesso, porém. Apesar de termos encontrado vários exemplares de uma planta que, segundo a foto de um dos livrinhos que nos ofereceram em Corrubedo, é a Glaux maritima.



Bacopa monnieri (L.) Wettst.


Mas não é. Trata-se de uma espécie perene de margens de regatos perto do mar, com talos rasteiros, folhas opostas, espatuladas, suculentas e pintalgadas de glândulas, que tem alguma tendência invasora. É famosa (como denunciam as inúmeras designações em inglês: waterhyssop, brahmi, thyme-leafed gratiola, herb of grace, Indian pennywort) em ervanária por conter alcalóides antioxidantes prescritos para fortalecer a memória (ainda que estas virtudes não estejam acima de qualquer dúvida). Mais frequentemente, é usada para ornamentar aquários. Tem uma distribuição cosmopolita, preferindo no entanto regiões tropicais, mas é nativa da Índia, Austrália, parte da Europa, África, Ásia, América do Norte e do Sul. Em Portugal, ter-se-á instalado no Minho, mas nunca lá a vimos e é certamente (ainda) rara.

Crê-se que o epíteto monnieri homenageia Louis Guillaume Le Monnier (1717-1799), um médico e naturalista francês que foi professor de Botânica no Jardin du Roi (mais tarde Jardin des Plantes) em Paris.

01/07/2016

A erva que queria ser árvore



Plantago arborescens Poir. subsp. maderensis (Decne.) A. Hansen & G. Kunkel


Um Plantago convencional tem uma arquitectura fácil de reconhecer: de uma roseta de folhas basais, muitas vezes comprimida contra o solo, saem hastes simples rematadas por espigas florais não muito vistosas, em que apenas sobressaem os longos estames e o amarelo das anteras. Na flora de Portugal continental, o Plantago afra é o único que foge, e de modo vincado, a este figurino, com folhas opostas distribuídas ao longo de hastes várias vezes ramificadas. No Porto Santo, que afinal é mais perto de África do que da Europa, o P. afra não aparece, mas faz-se substituir pelo Plantago arborescens, que levou a sua heterodoxia ao ponto de se transformar em arbusto. Arbusto rasteiro, é verdade, mas de ramificação intrincada e de hastes indubitavelmente lenhosas. A energia gasta para fortalecer o corpo não lhe permitiu cuidar das flores: as espigas (última foto em cima) são abreviadas e esféricas, ainda mais sumárias que as do P. afra. O que até se compreende, pois um arbusto que dura muito anos não precisa de reproduzir-se com a mesma urgência de uma planta anual. Pesem embora as diferenças de tamanho e fenologia, a afinidade entre o P. arborescens e o P. afra justifica que, dentro do género Plantago, ambos integrem o subgénero Psyllium; houve já propostas para promover Psyllium a um género autónomo, mas essa ideia, embora pareça justificar-se do ponto de vista morfológico, não terá sido corroborada pelos estudos genéticos.

Surgindo no Porto Santo a altitudes variadas, o Plantago arborescens é um arbusto mais encorpado nos picos ventosos do interior da ilha do que nas falésias litorais. Os exemplares que vimos na subida para o Pico de Ana Ferreira quase atingiam um metro de altura, formando moitas bem visíveis à distância; na Fonte da Areia, já no litoral, não ultrapassavam os 15 ou 20 cm; além disso, os primeiros eram quase glabros (2.ª foto) e os segundos pubescentes (5.ª foto). Face a estas variações, é mais fiável identificá-lo pelo recorte das folhas e das espigas do que pelo aspecto geral. Assim, as folhas são lineares, pulverulentas, com um máximo de 7 cm de comprimento e tendência a acumularem-se nas extremidades dos ramos; e as espigas, que têm cerca de 1 cm de diâmetro, são formadas por quatro a seis flores.

O P. arborescens é endémico da Macaronésia, exclusivo da Madeira e das Canárias. Considera-se dividido em duas subespécies, distinguindo-se a subsp. maderensis (apenas do arquipélago da Madeira) da subespécie nominal (apenas das Canárias) por esta última exibir alguns pêlos longos nas folhas e nas hastes.

03/05/2016

Sobre os pés


Plantago serraria L.


Quem sabe latim - ou não sabe mas vai aprendendo umas migalhas à custa dos nomes botânicos - por certo não desconhece que planta e têm quase o mesmo significado, como aliás denuncia a expressão planta do pé. Dir-se-ia até, falseando a etimologia, que as duas palavras têm a mesma raiz, mas enquanto que nós, os donos dos pés, podemos ter raízes metafóricas, as plantas têm-nas de verdade. É porém um facto indesmentível que tanto plantas como pés foram feitos, de um modo geral, para assentar no chão. Daí que a palavra latina planta se aplique de igual modo ao vegetal (em especial na fase de rebento) e a essa parte basilar da anatomia humana.

Se, por via do latim, todas as plantas têm alguma coisa a ver com os pés, já as do género Plantago se destacam por manter com eles uma relação mais íntima. Plantago, dizem os entendidos, traduz-se justamente por planta do pé - o que, como agora sabemos, é uma expressão algo pleonástica. Tal designação dever-se-á à forma das folhas de certas espécies: as do Plantago major fazem lembrar chinelos dispostos em círculo, com os calcalhares virados para dentro. Em espécies de folha mais estreita, como P. lanceolata ou P. maritima, a semelhança pedestre é bem menos vincada. Há porém outra afinidade entre estas plantas e os nossos pés: são várias as espécies de Plantago que se dão muito bem em lugares pisoteados tais como caminhos ou parques de estacionamento. Quanto mais calcamos os rebentos de P. coronopus e P. major que espreitam entre as pedras mais eles ganham forças para se reproduzirem. E à mesma escola masoquista pertence de pleno direito o Plantago serraria, o primeiro dos dois que hoje aqui mostramos.

A roseta basal do Plantago serraria, formada por folhas grandes, por vezes com mais de 20 cm de comprimento, é inconfundível (ver 1.ª foto) e permite identificá-lo em qualquer altura do ano. Preferindo substratos calcários e solos argilosos, vive no centro e sul de Portugal continental e na metade oeste da bacia mediterrânica. É presença habitual nas clareiras dos matos de zimbro que revestem o litoral de Sintra e Cascais.


Plantago bellardii All.
O Plantago bellardii é anual e de porte discreto, e por isso mais difícil de observar, embora não seja menos frequente e beneficie até de uma distribuição mediterrânica mais ampla. Ao contrário do seu congénere, não consta que fique grato quando lhe põem um pé em cima. A sua haste raramente atinge os 10 cm de altura, e as folhas ficam-se pelos 5 cm de comprimento; a sua espiga é compacta, contrastando com a espiga alongada do P. serraria. Vimo-lo nos pinhais da Tocha, mas, exigindo sempre solos ácidos, é suficientemente versátil para aparecer também em montados longe da costa.

23/01/2016

Verónica cantábrica


Veronica ponae Gouan


Com a discrição que nos é própria, celebrámos aqui, há catorze meses, a nossa primeira dúzia de verónicas, o que significa que já mostrámos quase três quintos das espécies do género que integram a flora portuguesa. Há géneros mais populosos, como Carex ou Silene, cada um deles com 40 ou mais espécies em Portugal, mas é indiscutível que as verónicas nos caíram no goto. Tanto que, alargando a nossa prospecção para lá da fronteira, avançamos sem receios supersticiosos para a décima terceira verónica, trazida esta das montanhas cantábricas.

A Veronica ponae foi baptizada por Antoine Gouan logo a abrir a sua obra Illustrationes et Observationes Botanicae, de 1773. O francês Antoine Gouan (1733-1821) correspondeu-se com Lineu e foi o primeiro botânico do seu país a publicar uma flora (Hortus Regius Monspeliensis, de 1762) seguindo o sistema taxonómico lineano. Além de descrever a espécie, Gouan fornece uma ilustração que capta o aspecto geral da planta mais fielmente do que muitas fotos. Como informação complementar, diga-se que a Veronioa ponae é perene, de base lenhosa, com hastes que não costumam ultrapassar os 40 cm de altura. As folhas, em geral cobertas de pêlos nas duas páginas, são opostas, de pecíolo curto e margens serradas, e têm um máximo de 6 ou 7 cm de comprimento. As inflorescências, em forma de cacho terminal, alongam-se significativamente na frutificação. Como quase todas as espécies de alta montanha, tem uma floração tardia, que no seu caso está concentrada em Junho-Julho mas se pode estender até Setembro.

Frequentadora de rochas e bosques húmidos e de prados junto a linhas de água, a Veronica ponae só não é um endemismo pirenaico-cantábrico porque, apesar de ausente das montanhas do sistema central ibérico, surge de surpresa no sul de Espanha, na serra Nevada.