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25/07/2020

Amarelo boreal

Na nossa última visita aos Pirenéus, em Agosto de 2019, agendámos um dia para passear no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, com intenção de conhecer, em particular, o edelweiss (Leontopodium alpinum, planta que inspirou a canção homónima do filme The Sound of Music). Permitindo um número limitado de visitantes por dia, era preciso comprar previamente um bilhete e disputar depois lugar num autocarro oficial, único veículo autorizado a circular nos meses de Verão na estrada até ao vale de Ordesa. Às 7 horas da manhã, já a fila para estes demorados preliminares era longa e desencorajadora. Desistimos para não perder o dia na espera, e seguimos para a aldeia de Chisagüés, em direcção à fonte de Petramula. De novo, as medidas de conservação deste espaço natural exigiam o pagamento de uma entrada (comprada na vila de Bielsa), mas desta vez poderíamos circular no nosso carro, desde que ele tivesse tracção às quatro rodas porque a estrada era de piso acidentado, íngreme, estreita e sem protecções laterais. Informados previamente desta exigência, seguimos por vários quilómetros num todo-o-terreno, envoltos em pó mas seguros, quase sem companhia de outros veículos.



Em pleno Verão, a floração de quase todas as plantas deste lugar, que vivem meio ano cobertas de neve, já tinha terminado. Mas acima dos 2000 metros ainda havia flores.


Saxifraga aizoides L.




Todas as saxífragas de que há registo em território nacional dão flores brancas, ainda que algumas das espécies apresentem as cinco pétalas pintalgadas de amarelo ou rosa. Mas em Espanha, e nas regiões mais frias da Europa, ocorrem espécies de Saxifraga com corolas de outras cores. A espécie que hoje vos mostramos é perene, cespitosa, de folhagem densa e marcescente (não se desprende da planta mesmo depois de seca, servindo-lhe certamente de agasalho). Em geral de baixa estatura (cerca de 15 cm), floresce em corimbos de tom amarelo, laranja ou púrpura, por vezes com as pétalas pintalgadas. Curiosamente, as outras partes da flor parecem sintonizadas com a corola: pétalas mais escuras são acompanhadas por um cálice em tom verde mais intenso, e por estames e carpelos também escurecidos. Dir-se-ía que as flores têm dez pétalas, mas só possuem cinco do mesmo tamanho das sépalas. No centro de cada flor, pode notar-se (na 5.ª foto, ali onde está a formiga) um apetitoso anel com néctar a rodear a base da coluna de carpelos. As cápsulas com numerosas sementes abrem quando a neve regressa, ligeiramente e só num dos topos, para garantir (dizem os especialistas) que a libertação de sementes só se faça quando haja algum vento e uma superfície escorregadia de neve, aumentando assim a distância a que as sementes são dispersadas.

A Saxifraga aizoides forma tapetes em taludes bem irrigados, em margens de arroios ou fissuras de rochas, e é abundante em solos calcários nas montanhas mais altas da Europa. O epíteto aizoides indica que Lineu, em 1753, encontrou parecenças entre esta planta e as do género Aizoon.

27/06/2020

Muros de Villaescusa



Villaescusa de las Torres é uma aldeia de 22 habitantes, uma igreja e uma trintena de casas, situada na província de Palência, em Espanha, a três quilómetros da vila de Aguilar de Campoo. O rio Pisuerga, apesar do compasso de espera a que o obriga a albufeira de Aguilar, tem um caudal generoso à passagem pela vila e pela aldeia, criando uma serpenteante fita azul e verde que une a paisagem edificada às amplas extensões de campos cultivados. A uma altitude rondando os 900 metros, onde a neve cai quase todos os anos, não é lugar para refúgio do hipotético crocodilo que terá sido avistado, no início de Junho, uns 150 km a sul, na foz do Pisuerga em Valladolid. Por altura da nossa visita, há dois anos, ninguém suporia que este rio de margens tranquilas pudesse abrigar tão agressiva fauna exótica.

O planalto palentino, que faz a transição entre a monótona planura de Castela e a acidentada cordilheira cantábrica, é rasgado aqui e ali por afloramentos calcários de grandes dimensões. O próprio Pisuerga corre, em certos troços, apertado entre escarpadas paredes de rocha branca. Muros e casas de Villaescusa são feitos da mesma pedra, deixada ao natural ou caiada de branco ou bege. O calcário é a escolha de eleição para muitas plantas, garantindo uma diversidade florística muito superior à que é de regra noutros substratos. E, apesar de não faltarem em redor da aldeia habitats naturais em quantidade e qualidade, não são poucas as plantas que colonizam muros e telhados. Para aquelas que vivem nas bolsas de solo que se acumulam em fissuras de rochas, os muros tradicionais de pedra solta são até um habitat preferencial, por reproduzirem em versão concentrada as condições do habitat natural.



Saxifraga cuneata Willd.


Mais do que a Arenaria e o Alyssum, que só timidamente se aventuram em muros, é a Saxifraga cuneata que entre Maio e Junho enfeita com empenho as três ou quatro ruas de Villaescusa. Como o nome indica (Saxifraga significa partir pedra), estas plantas, de que há umas sessenta espécies só na Península Ibérica, sentem-se em casa em habitats pedregosos, algumas preferindo o calcário e outras o granito ou o xisto. Esta S. cuneata é irrepreensivelmente decorativa tanto nas folhas como na floração exuberante, mas talvez ao vê-la nos acometa uma impressão de déjà-vu. De facto, ela é quase igual à Saxifraga trifurcata, endémica das montanhas do norte de Espanha e também de peferências calcícolas. Não que seja problemático distingui-las: as folhas são claramente diferentes, mais recortadas as da S. trifurcata, que além do mais, ao contrário da S. cuneata, costuma apresentar hastes avermelhadas. Mas há um ar de família indisfarçável, e as duas saxífragas, juntamente com a S. portosanctana, formam uma tríade muito homogénea.

A Saxifraga cuneata vive na metade norte da Península Ibérica, com uma localização adicional em França perto da fronteira com Espanha. É especialmente frequente em Palência nos afloramentos calcários ao longo do curso superior do rio Pisuerga. Este ano o desconfinamento já vem tarde para quem queira admirar-lhe a floração.

24/01/2018

Flor sem maquilhagem

É raro que, vendo uma flor bonita ou tocando numa folha macia, não tentemos cheirá-las para guardar esse dado na memória. Curiosamente, não é fácil descrever um aroma (ora tente dizer como é o da laranja), embora seja trivial reconhecê-lo quando está presente. Acontece o mesmo com muitos dos ingredientes deste mundo, sejam eles cores, texturas ou sons, para os quais há nomes em muitas línguas mas que não conseguimos definir com exactidão. Não são abstracções, como os números ou os electrões, mas também não nos parecem tão reais como o dia ou a chuva. Por isso, muitas vezes falamos do amarelo-limão, do verde-alface ou do preto-andorinha, e com uma palavra extra a cor ganha forma ou sabor, e uma outra existência.


Saxifraga paniculata Rydb.


As flores cor-de-pérola que hoje vos mostramos, na ponta de hastes florais de uns 30 cm, são de uma das espécies mais charmosas do género Saxifraga. Nem é tanto pelas panículas de flores, bem menos maquilhadas que as da S. spathularis; é que as folhas de margens debruadas a branco-de-sal parecem ter dentinhos, num arranjo sorridente em roseta que parece feito por florista inspirada. Esta espécie é perene, e ocorre na América do Norte, Gronelândia e montanhas do centro e sul da Europa, em geral acima dos 1000 m. Os exemplares da foto são do Parque Natural Saja-Besaya, na Cantábria.

Custa revelar esta contabilidade que nos desfavorece, mas há que reconhecê-lo: em Espanha há mais de sessenta espécies de Saxifraga, género que parece apreciar o frio em fissuras e rochedos de montanha. Em Portugal continental, só nove espécies se adaptaram ao nosso clima mais ameno, algumas delas em populações escassas. Temos, porém, o galardão de possuir uma espécie endémica, a S. cintrana.

Talvez este ano voltemos ao norte de Espanha para ver a magnífica S. longifolia e rever a única que conhecemos com flores cor-de-rosa.

07/11/2017

Irmã cantábrica

Havendo bons carvalhais na Cantábria, a verdade é que a árvore aí dominante nos bosques naturais mais bem conservados é a faia (Fagus sylvatica), que, a não ser em jardins ou em plantações florestais, não existe neste nosso rectângulo ocidental. Essa diferença em ponto grande anuncia outras diferenças em ponto pequeno: também os arbustos e herbáceas que revestem o sub-bosque são outros que não os que existem por cá. Com excepções importantes, como o Hypericum androsaemum, a Linaria triornithopora, a Daboecia cantabrica, o Polygonatum odoratum e a Aquilegia vulgaris. Essas espécies tão características dos nossos bosques nortenhos sentem-se igualmente em casa em habitats nemorais no extremo norte de Espanha -- embora, em rigor, a versão da erva-pombinha (Aquilegia vulgaris) que se encontra na cordilheira cantábrica se distinga da nossa pelo maior tamanho das flores e pela sua diferente coloração.



Saxifraga hirsuta L.


Esta saxífraga, que encontrámos em bosques, taludes frescos, margens de ribeiros e de um modo geral em lugares húmidos permanentemente ensombrados, foi um desses casos em que ao reconhecimento se sucedeu a estranheza. O que reconhecemos, por serem exactamente iguais às da Saxifraga spathularis, que sabíamos frequentar lugares semelhantes, foram as hastes erectas, avermelhadas e peludas de onde brotavam inúmeras floritas brancas salpicadas de amarelo ou rosa. Mas as folhas de pecíolo longo e fino, limbo arredondado e hirsuto, cordiforme na base, não batiam certo com as folhas coriáceas, glabras e (quem diria?) espatuladas da S. spathularis. Essa variação foliar, de tão marcada, impunha que se tratasse de outra espécie. E assim era: a Saxifraga hirsuta teve a honra de ser baptizada por Lineu, que lhe pôde dar um nome inteiramente apropriado na sua simplicidade. Sorte de pioneiro, quando os nomes simples e óbvios ainda estavam todos por usar. Mas Brotero, que deu nome à Saxifraga spathularis, também não tem razões de queixa.

As folhas das duas espécies, S. spathularis e S. hirsuta, dispõem-se em rosetas basais compactas que vão surgindo espaçadamente ao longo dos rizomas, formando tapetes de extensão apreciável. Nos Pirenéus espanhóis ocorre uma terceira saxífraga ibérica muito semelhante a estas duas, a S. umbrosa, e já fora da Península Ibérica, desde a vertente francesa dos Pirenéus até aos Alpes, uma derradeira espécie, a S. cuneifolia, vem completar um quarteto de (quase) sósias.

Em quase toda a extensão da cordilheira cantábrica, a S. hirsuta é a única representante do quarteto, mas no extremo leste ela já se faz acompanhar pela S. umbrosa, e nas Astúrias, a caminho da Galiza, vai dando lugar à S. spathularis. Chegámos a ver as duas espécies nos taludes da mesma estrada, mas não, infelizmente, nos mesmos lugares, perdendo assim a oportunidade de observar possíveis híbridos. A hibridação é quase inevitável quando elas partilham o mesmo espaço: não parecem existir quaisquer barreiras genéticas entre as duas espécies, e os híbridos, ao contrário da norma, são férteis, capazes de se reproduzir por semente. Dito de outro modo, se (como muitas vezes se defende) fosse a interfertilidade a determinar o conceito de espécie, então a S. hirsuta e a S. spathularis seriam a mesma espécie, apesar das evidentes diferenças morfológicas entre elas.

Em teoria, esta promiscuidade pode fazer com que uma das espécies seja inteiramente assimilada pela outra, ou que as duas convirjam para uma forma intermédia. Não há grande receio de isso suceder na Península Ibérica, onde a área de contacto é pequena, mas na Irlanda, onde ambas também ocorrem, o perigo é real. Aí a S. spathularis é dominante e a S. hirsuta é rara, mas todos os núcleos conhecidos da segunda estão bem dentro da área de distribuição da primeira. Um artigo publicado em 2014 (ver aqui) concluiu que, na Irlanda, as populações híbridas já suplantam as de S. hirsuta; e que mesmo as populações tidas como desta espécie raramente são formadas por indivíduos "puros", tendo em média 20% do material genético herdado da S. spathularis.

Noutras paragens, a "extinção por hibridação" é uma ameaçada potenciada pelo aquecimento global, afectando em particular as espécies de alta montanha. O mecanismo é simples: espécies que, devido ao habitat inóspito, permanceram isoladas durante milénios, ganham a companhia de congéneres arrivistas que, com as temperaturas mais amenas, conseguem agora sobreviver em altitudes mais elevadas. Se houver compatibilidade reprodutiva, as segundas, mais versáteis, podem absorver as primeiras, assim se perdendo endemismos de distribuição muito restrita. Este tema foi explorado num artigo de 2015 com um título premonitório: The silent extinction: climate change and the potential hybridization-mediated extinction of endemic high-mountain plants.

12/07/2017

Cantábria em Porto Santo

A ilha de Porto Santo, parte de uma cadeia montanhosa submarina muito antiga, terá emergido há uns 8 milhões de anos. Relativamente plana (o Pico do Facho com 516 metros é o local mais elevado) e de clima muito seco, tem habitats que parecem pedaços de deserto. Entretanto, terá sido colonizada por espécies que se lançaram à descoberta a partir do que são hoje a Europa e a África. Traçar a história da migração destas plantas não é talvez tema de investigação que receba grande incentivo financeiro, e não conhecemos informação científica publicada sobre ela. Mas no caso particular da Saxifraga portosanctana, os botânicos Webb e Press, quando sobre ela escreveram em 1987, sugeriram que descenderia de alguma saxifraga europeia, notando as semelhanças na morfologia das flores e das folhas com a Saxifraga cuneata e com a Saxifraga trifurcata. Estas espécies ocorrem em rochedos calcários das montanhas do norte de Espanha e, em Maio, fomos visitar uma delas à Cantábria.



Saxifraga trifurcata Schrad.


Comparando as flores e as folhas da S. portosanctana com as da S. trifurcata, acredita-se que uma é um esboço da outra, que não é fortuita a parecença entre as rosetas basais, o verde da folhagem, os segmentos em garfo das folhas coriáceas, as inflorescências erectas, as pétalas brancas imbrincadas e longas.

As praias de areia fininha de origem calcária de Porto Santo poderão ter sido uma tentação para o parente europeu, mas as mudanças de latitude e clima obrigaram-no a adaptações drásticas. Nas montanhas das Astúrias, a planta, que é perene, está sujeita a geadas, chuva impenitente e meio ano de neve, tirando proveito de todo o calor solar que por sorte lhe caiba e não tolerando a sombra.



Com este perfil, não se esperaria que os exemplares migrados conseguissem sobreviver meses seguidos sob sol intenso. Refugiaram-se, portanto, nos locais da ilha mais frescos e sombrios, sobretudo em fissuras de penhascos permanentemente velados por neblina dos pontos mais altos da ilha. Tiveram ainda de abdicar da ementa puramente calcária que apreciavam na Europa, mas mantiveram a preferência por solos pobres e secos. E cumprem, como o seu antepassado, a tradição de florir entre Maio e Julho. Como muitos emigrantes, é através destes pequenos detalhes que se sentem próximos das suas origens.

30/05/2016

Flora endémica do Porto Santo: Saxifraga portosanctana



Sabíamos que este endemismo de Porto Santo vive apenas em fissuras de escarpas rochosas nos picos mais altos da ilha. Planeámos começar por procurá-lo no Pico do Facho, o mais alto mas também um dos mais difíceis de escalar. Quase no topo, num nicho sombrio, surgiu a primeira população, com muitos indivíduos prontos a florir mas sem uma única flor aberta. Além disso, a rocha estava longe de mais para que alguma fotografia pudesse revelar os pormenores das folhas. Descemos desiludidos, a pensar que teríamos de repetir o esforço, sem a certeza de virmos a obter boas fotos nos poucos dias que nos restavam de visita à ilha. Contornámos então a base da escarpa, onde um caminho ladeia uma torre de controlo aéreo e há um habitat, protegido por uma plantação de ciprestes (Cupressus macrocarpa), que o nevoeiro e a neblina que vêm do mar raramente abandonam. Depois de detectarmos vários pés da orquídea Gennaria diphylla (já sem flor) e um manto de Sibthorpia peregrina (ainda sem flor), encontrámos um talude não florestado, com muita urze (Erica scoparia subsp. maderincola) e ventania. E ali estavam felizes inúmeros coxins de S. portosanctana em plena floração.



Saxifraga portosanctana Boiss.


Esta é uma herbácea perene e completamente glabra, com umas poucas glândulas nos pecíolos e pedicelos. As folhas são carnudas e flabeladas, de base acunheada, geralmente com três lobos, de cor verde intenso, por vezes com tonalidades avermelhadas. As flores reúnem-se em cimeiras axilares e as pétalas brancas são longas e estreitas, maiores do que as sépalas. Conhecem-se umas seis populações na ilha, todas potencialmente sujeitas a alguns riscos graves: a erosão das rochas e o deslizamento de terras; a recolha de espécimes por coleccionadores ou colectores; a competição com espécies exóticas invasoras.

Num artigo de 1987 intitulado The genus Saxifraga L. in the Madeiran Archipelago, publicado na revista Bocagiana do Museu Municipal do Funchal, os botânicos D.A. Webb e J.R. Press compararam as saxifragas endémicas do arquipélago da Madeira, reafirmando o carácter específico da S. portosanctana (que tinha sido descrita em 1856 por Pierre Edmond Boissier) essencialmente pelo seu aspecto glabro e por ter inflorescências axilares. Comentam ainda que, apesar de ser nativa de paragens tão a sul, se mostrou muito resistente em Dublin, para onde foi levada e cultivada fora de estufa, tendo suportado temperaturas negativas. O que, segundo os autores, sugere que descende de uma espécie europeia (uma das que com ela tem maiores afinidades é a cantábrica S. trifurcata). Haverá, decerto, botânicos portugueses interessados em desvendar a genealogia deste endemismo de Porto Santo, desde que não lhes faltem apoios laboratoriais e acesso a testes genéticos decisivos.

05/08/2014

Quaresmas em Trás-os-Montes


Saxifraga carpetana Boiss. & Reut.


O nordeste transmontano está cada vez mais perto do litoral. Não é (ainda) porque o mar esteja a galgar a costa desenfreadamente, reduzindo a largura do país, nem é (por enquanto) resultado das ligações aéreas de baixo custo entre Porto e Bragança. Descontando o atropelo das obras do túnel do Marão, o famigerado IP4 e a meia dúzia de pontos na autoestrada A4 onde decorrem eternos melhoramentos, já é possível ir do Porto a Mogadouro em pouco mais de duas horas. Um despacho, sem dúvida, mas caro em portagens, o que dificulta para muitos o usufruto desta comodidade. Por sempre terem sido meândricas e esburacadas as vias até ao interior, só a valiosa correspondência epistolar entre naturalistas amadores e botânicos nas universidades impediu que a flora transmontana fosse ignorada por mais meio século.

A 14 de Maio de 1929, o padre J. M. Miranda Lopes, em Vimioso (hoje em dia, por estrada, a cerca de 35 Km de Mogadouro), escrevia mais uma vez ao botânico Gonçalo Sampaio, no Porto, enviando-lhe amostras de plantas que tinha observado: «debaixo d’um calor extraordinario, em direcção a Vimioso, e percorrendo montes e vales, ora a pé, ora a cavalo, cheguei por fim, às 2 da tarde, ao local onde pela 1ª. vez encontrei a Saxifraga Blanca, no dia 18 de Abril. Depois de verificar que à beira do caminho numa extensão de 200 metros aproximadamente não havia nada, entrei num lameiro proximo, e, logo ao primeiro golpe de vista dei com uma pequena colónia desta linda planta, colhendo os exemplares que por este correio lhe envio em três papeis separados.» Tratava-se da Saxifraga carpetana Boiss. & Reut. subsp. carpetana, desconhecida até então no nosso país. Os descritores desta espécie, Boissier (1810-1885) e Reuter (1805-1872), haviam publicado em 1842 a descoberta, informando em latim que a observaram na serra de Guadarrama, no sistema montanhoso central da Península Ibérica; Willkomm, porém, havia-a designado, em 1881, como Saxifraga blanca numa obra sobre a flora da Península Ibérica e as Ilhas Baleares decerto mais divulgada entre nós.

E foi num lameiro extenso em Mogadouro, colorido de azul por centenas de exemplares de Scilla ramburei, que vimos esta Saxifraga. Tem parecenças com a Saxifraga dichotoma, mas esta só aparece em afloramentos de rochas ultrabásicas. Inicialmente julgámos tratar-se de S. granulata, mas há diferenças nítidas na indentação das margens das folhas (só levemente crenadas na S. granulata), no formato da inflorescência (paniculada no caso da S. granulata) e na coroa de glândulas na base das pétalas (as pétalas da S. granulata são glabras). Tal como a S. dichotoma, em Portugal só se conhecem populações de S. carpetana em Trás-os-Montes. Mas esta planta perene é também espontânea em Espanha, Marrocos, Argélia e na parte mais ocidental da região mediterrânica.

18/05/2013

De Sintra para o mundo




Saxifraga cintrana Kuzinsky ex Willk.

Apesar de ser endémica de Portugal, restrita, tanto quanto se sabe, às serras de Sintra, Montejunto, Aire e Candeeiros, esta planta foi primeiramente descrita por um botânico alemão, em 1889, na revista Oesterreichische Botanische Zeitschrift. Uma desatenção dos botânicos portugueses: Coutinho também a reconheceu como novidade para a flora portuguesa, que designou por Saxifraga hochstetteri, mas apenas em 1910. Heinrich Moritz Willkomm (1821-1895), que estudou a flora ibérica em duas longas visitas a Portugal (de 1844 a 45) e Espanha (em outras duas ocasiões, cerca de trinta anos mais tarde), deixou um legado notável de plantas colectadas e uma mão-cheia de cartas a Júlio Henriques (1838-1928) que podem ser consultadas na Universidade de Coimbra. No artigo da revista austríaca, Willkomm traça o retrato de uma planta que terá visto na serra de Sintra, florida em Maio, a que chama Saxifraga Cintrana Kuz., atribuindo o mérito da descoberta a P. A. Kuzinsky, cuja esposa Willkomm homenageia na designação de um outro endemismo português, o Omphalodes kuzinskyanae Willk.

Esta saxífraga é perene e rupícola, de fendas de rochas calcárias ou clareiras de matagais pouco desenvolvidos, tirando sustento das pequenas bolsas de terra rica que se acumulam entre as rochas. No aspecto geral faz lembrar a S. granulata L., a qual, porém, é mais esguia, não exige substratos calcários e tem a face superior das pétalas sem pêlos glandulosos (repare na 4ª e 6ª fotos).

A S. cintrana é uma planta baixinha (10-30 cm) de caule erecto e ramoso. As folhas na base têm pecíolo longo e são reniformes e pubescentes. As folhas caulinares são de formato parecido mas mais pequenas e quase sésseis. No topo da haste, entre Março e Junho, surge uma panícula densa de flores com sépalas ovadas e pétalas brancas com menos de 1 cm de diâmetro onde se notam três nervuras de tom lilás ou esverdeado.

Sendo tão rara e especial mal se aceita que esteja ameaçada pela extracção de inertes, pela construção de infra-estruturas e pelos veículos todo-o-terreno que sobem pelas encostas das serras sem olhar ao que esmagam.

01/04/2013

Flor da serpentina



Saxifraga dichotoma Willd.

Há quem lhe chame uvas-de-gato, em alusão talvez aos bolbilhos acobreados nas axilas das folhas basais, que seriam subterrâneos se esta planta não optasse por fendas de rocha. Apesar de, em Espanha, ela se distribuir amplamente em pastos de solo arenoso acima dos 600 metros, em Portugal só há registo da sua ocorrência no nordeste, em afloramentos de rochas ultrabásicas. Sendo assim rara, foi uma sorte vê-la nos primeiros dias de Março já em flor, até porque a floração oficial decorre de Março a Maio. É parecida com a Saxifraga granulata, mas as flores são menores, têm pétalas brancas tingidas de rosa com página superior glandulosa, e as folhas (as basais com pecíolo longo, as caulinares sésseis), além do contorno reniforme, exibem seis ou mais lóbulos muito recortados, como dedinhos todos iguais, cada um deles depois novamente dividido.

Esta saxífraga é perene e nativa da região mediterrânica ocidental (Espanha, norte de Portugal, norte de Marrocos e Argélia) e de zonas montanhosas no interior da Península Ibérica. O género Saxifraga abriga ainda um endemismo português de que vos falaremos em breve.

01/09/2011

Estrela da serra


Saxifraga stellaris L.

Quando o Joaquim nos mostrou esta planta, agarrada a uma rocha ressumante já perto do cume da Serra da Estrela, saudámo-la como quem reencontra uma velha conhecida. Com que então por aqui? Já não nos víamos desde a última ida a Pitões. Ainda a florir? Pois, a 1900 metros de altitude há sempre atrasos. Então passe muito bem.

E afinal estávamos enganados. Comportámo-nos como alguém que encontra um conhecido na rua e, depois de meter conversa, conclui que afinal não conhece tal pessoa e foi iludido por uma semelhança fortuita. Como as plantas não têm a capacidade de nos embaraçar, em vez de um pedido de desculpas e de uma despedida envergonhada, optámos por regressar ao local uma semana mais tarde.

Em resumo, a planta que vimos na Serra da Estrela, apesar da vincada parecença com a Saxifraga lepismigena, pertence a outra espécie, de seu nome Saxifraga stellaris. E a diferença, ao contrário do que por vezes sucede em taxonomia botânica, não se reduz ao nome ou a pormenores morfológicos só visíveis à lupa. Ora vejamos. A S. stellaris tem as folhas glabras, formando uma roseta compacta e bem definida; a S. lepismigena tem folhas com pêlos claramente visíveis, agrupadas de forma solta. E há as flores: na S. stellaris as cinco pétalas são mais ou menos iguais, mas na S. lepismigena duas das pétalas, além de terem forma diferente, não são manchadas de amarelo como as outras três.

No que as duas espécies se equiparam é no valor conservacionista. A Saxifraga lepismigena é um endemismo do noroeste peninsular com exigências ecológicas peculiares, e como tal uma preciosidade a proteger. A Saxifraga stellaris, que prefere lugares montanhosos onde a neve se demora boa parte do ano, tem uma distribuição muito mais vasta (Europa incluindo Grã-Bretanha e Islândia, mas também Gronelândia e América do Norte), mas em Portugal só existe na Serra da Estrela, acima dos 1700 m de altitude.