06/10/2026

Paparraz



Em dias de sol ou ao luar, a sombra que cada um de nós projecta por ser um corpo opaco é uma mancha bidimensional com a nossa silhueta, mais ou menos longa de acordo com a altura do sol, que reproduz os nossos gestos e não nos larga. Por denunciar a nossa presença, ter sombra poderá ter sido perigoso há milhares de anos; talvez por isso, todos temos uma preferência instintiva por locais abrigados do sol. Não temos o que se possa chamar um uso diário para a nossa sombra, mas estranharíamos a sua ausência. Na ópera Die Frau ohne Schatten (A mulher sem sombra), de Richard Strauss, com libreto de Hugo von Hofmannsthal, a falta de sombra numa das personagens simboliza uma imperfeição tão sinistra num ser humano, que ela tenta comprar uma sombra a qualquer preço. Mas, para além da sua dimensão artística, a sombra que cada pessoa gera não parece servir para nada.

Pelo contrário, a sombra criada pelos outros, especialmente árvores e edifícios altos, é essencial ao nosso conforto e à saúde geral do planeta. Para algumas plantas, o ar e o solo frescos mantidos na sombra são até indispensáveis à sua sobrevivência. É o caso de alguma vegetação do nordeste do país, onde no Verão as temperaturas podem manter-se por muitos dias e noites perto dos 40ºC. Nos bosques frondosos de azinheiras, carvalhos ou castanheiros, a temperatura que se sente é bastante inferior, e os arroios e prados mantêm a humidade por mais tempo. Não é, por isso, surpresa que estes sejam habitats previlegiados, de uma riqueza florística invulgar.

Delphinium staphisagria L.


O Delphinium staphisagria é uma espécie anual ou bienal robusta, que pode atingir 1 metro de altura. Floresce no início do Verão e resiste bem ao calor e à secura se puder estar sempre à sombra, e em locais próximos de cursos de água. A inflorescência é uma espiga lassa, com flores de morfologia complicada: uma coroa colorida por fora, com pétalas falsas, e um miolo ao centro com pétalas verdadeiras um pouco escondidas. Mais precisamente, e como é usual nas espécies de Delphinium, as flores têm duas camadas: a exterior com 5 sépalas que imitam pétalas, uma delas prolongada para trás formando um cone oco inclinado para cima, o esporão, que lembra um golfinho (daí deriva o nome do género) e cuja entrada está protegida; e a camada interna, feita por 4 pétalas pequenas no centro da flor, duas das quais nectaríferas e outras duas que separam a zona onde estão os estames, com o pólen, da entrada do esporão e do acesso ao néctar e ao estigma.

As folhas desta espécie são grandes, palmatilobadas, com 3-7 lóbulos, e pubescentes. O que a destaca das outras espécies de Delphinium é o porte, bastante maior do que a maioria, e o azul intenso das flores. Os exemplares destas fotos vivem ns margem direita do Douro, em Torre de Moncorvo, perto da foz do rio Sabor.

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