6.11.19

Serralha marroquina



Sonchus pinnatifidus Cav.


O limite ocidental da cordilheira do Anti-Atlas (ou Pequeno Atlas), no sudoeste de Marrocos, apresenta uma paisagem e uma vegetação que, a julgar por fotos, lembram irresistivelmente as das vizinhas ilhas Canárias. São os mesmos picos áridos e acidentados, de cores quentes, com a mesma vegetação rala dominada por arbustos rasteiros. Essa região costeira, com vales muito cavados, propícios a servirem de refúgio a um grande número de espécies vegetais, terá sido, noutras eras geológicas, o mais importante berçário da flora canária, fornecendo a maioria das plantas que iriam depois diversificar-se num número assombroso de endemismos. As afinidades observadas levaram alguns botânicos a propor a inclusão dessa região marroquina no conceito bio-geográfico de Macaronésia (cuja realidade é aliás algo dúbia, por abarcar quatro arquipélagos -- Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde -- com coberturas vegetais muito díspares). As convulsões climáticas do período Quaternário afectaram contudo de modo muito mais sério as massas continentais do que as ilhas atlânticas, e as duas floras, pese embora a semelhança das paisagens, reflectem uma acentuada divergência. De acordo com um artigo de 1999 dos botânicos franceses Frédéric Médail e Pierre Quézel (The Phytogeographical Significance of S.W. Morocco Compared to the Canary Islands), das cerca de 1400 espécies ou subespécies registadas no sudoeste de Marrocos menos de 3% são comuns às Canárias. Além disso, a flora das Canárias, ao contrário da de Marrocos, tem um grau muito elevado de endemicidade: de acordo com o mesmo artigo, cerca de 39% das espécies canarinas são exclusivas do arquipélago, enquanto que em Marrocos a percentagem de endémicas ronda os 9%.

A Astydamia latifolia, a Polycarpea nivea e o Sonchus pinnatifidus são alguns dos vinte e poucos endemismos partilhados por Marrocos e Canárias. Ao Sonchus pinnatifidus, hoje no escaparate, que nas Canárias apenas existe nas ilhas de Lanzarote e Fuerteventura, não será despropositado chamar serralha-marroquina. Não é fácil saber em qual das duas regiões tiveram origem estes endemismos partilhados. As colonizações podem funcionar nos dois sentidos, e uma espécie que tenha evoluído nas ilhas atlânticas, descendente de um remoto antepassado continental, pode muito bem fazer a viagem oposta e estabelecer-se no continente. É provável que tenha sido isso mesmo que sucedeu com a serralha-marroquina, representante de uma estirpe do género Sonchus, caracterizada por caules lenhosos (subgénero Dendrosonchus), que, tirando esta tímida incursão no continente africano, é exclusiva das Canárias e da Madeira.

Face a outras serralhas lenhosas como o Sonchus fruticosus da laurissilva madeirense, o S. pinnatifidus impressiona pouco, raras vezes ultrapassando um metro de altura. O porte mais atarracado reflecte a adaptação a um habitat soalheiro, árido e ventoso, onde as plantas, muito mais do que competirem entre si (como seria regra no ambiente luxuriante mas sombrio da laurissilva), tiveram de inventar mecanismos de sobrevivência. Único da sua estirpe nas duas ilhas mais orientais do arquipélago, e frequente (às vezes abundante) na metade norte de Lanzarote, o Sonchus pinnatifidus é um verdadeiro caso de sucesso adaptativo.

31.10.19

Capuchinhos azuis (e amarelos)

Com notáveis excepções, é raro que as plantas surjam na literatura pelo nome próprio. A muitos escritores basta a menção a árvores anónimas, a florestas verdejantes ou a rosas para sentirem o cenário dos seus textos cheio de natureza. Mas algumas plantas conseguem não ser desconhecidas de todo, e por vezes até são os personagens principais do enredo. É o caso do Aconitum napellus, uma planta extremamente venenosa de origem europeia cujas flores lembram os capuchos de alguns monges. São atributos que a tornam particularmente atractiva para novelas policiais, muito útil na protecção contra vampiros e essencial à mitologia - e justificaram o seu uso em setas de caça ou para eliminar inimigos num tempo em que ainda não se conheciam os malefícios dos materiais radioactivos.


Aconitum napellus L.



Trata-se de uma herbácea perene que pode atingir os dois metros de altura, de folhas palmadas muito divididas que nascem num arranjo em espiral muito bonito, e flores de um tom azul arroxeado típico na família Ranunculaceae. As suas flores, com inúmeros estames, alimentam algumas espécies de traças com línguas compridas, que lhes permitem aceder ao néctario no topo da flor. Também há borboletas de língua curta que tentam lamber o néctar furando o capucho por cima, mas não tardam a ser dissuadidas pelo veneno da planta.

As cinco espécies do género Aconitum na Península Ibérica gostam de manter as raízes em solo rico, húmido mas bem drenado, com a folhagem exposta ao sol. Por isso, é mais fácil encontrá-las em margens de rios ou na orla de bosques com árvores de folha caduca. As fotos acima foram tiradas na serra de Gredos, no centro de Espanha, onde a planta se encontra ocasionalmente em pastagens frescas (o gado, que nasce ensinado, não a consome). Também a vimos nos Pirenéus aragoneses, onde é mais frequente e onde ocorrem quatro espécies adicionais do género: A. burnatti e A. variegatum, de flores azuis; A. vulparia e A. anthora (fotos abaixo), de flores amarelas. Em Portugal, por contraste, apenas existe o A. napellus. A única população conhecida, pequena e em risco de desaparecer, vegeta à sombra de amieiros nas margens do rio Angueira, em Trás-os-Montes.


Aconitum anthora L.

23.10.19

Reseda de Lanzarote


Reseda crystallina Webb & Berthel. [= Reseda lancerotae Webb & Berth. ex Delile]


O nome Reseda, usado por Plínio na História Natural (séc. I DC) e acolhido por Lineu no Species Plantarum (1753), deriva do verbo latino resedo, que significa acalmar, sossegar. Estas plantas, contudo, nunca terão tido grande uso medicinal, e talvez o único efeito calmante que possam produzir advenha do acto de as contemplar. As flores minúsculas não facilitam tal tarefa, obrigando ao uso de lupa ou de outros auxiliares de visão, mas a sua peculiaridade compensa bem o esforço. Caracterizam-se por um número variável (geralmente 5 ou 6) de pétalas amiúde fimbriadas e pelos estames salientes, numerosos, densamente agrupados, rematados por anteras muito engrossadas (foto). Os frutos, com três ou quatro "bicos" na ponta (correspondentes aos estigmas), são cápsulas mais ou menos cilíndricas: alguns têm aspecto insuflado e fazem lembrar sacolas (como os da Reseda phyteuma); outros, como mostram as fotos acima, são estreitos e alongados. As folhas costumam ter margens onduladas (foto) e apresentar lobos irregulares (foto).

Distribuídas pela Europa, norte de África e sudoeste da Ásia, são quarenta a cinquenta as espécies do género Reseda. A mais famosa, por ter sido amplamente usada em tinturaria antes do advento dos corantes sintéticos, é a Reseda luteola, uma erva ruderal de porte erecto muito comum no nosso país e por toda a Europa. A Reseda crystallina, que já se chamou Reseda lancerotae e é endémica de quatro ilhas do arquipélago canário (Lanzarote, Fuerteventura, Grã-Canária e Tenerife), é uma herbácea de porte modesto, ficando-se pelos 5 a 20 cm de altura. É fácil de identificar pela disposição das flores, em geral concentradas no topo de hastes que se vão alongando à medida que a frutificação progride. A forma e sobretudo a cor das flores também são distintivas, contrastanto o amarelo vivo das pétalas com as pétalas brancas habituais nas espécies do género. Nem a Reseda lutea nem a R. luteola, apesar de os epítetos sugerirem o contrário, têm flores verdadeiramente amarelas, apresentando, em vez disso, pétalas de um creme pálido, quase branco.

A Reseda crystallina é frequente em Lanzarote e Fuerteventura, em lugares arenosos ou rochosos e a altitudes relativamente baixas. Tolera um alto grau de secura e é capaz de ocupar os lugares mais inóspitos. Encontrámo-la, por exemplo, na subida para a montanha de Los Ajaches, no sul de Lanzarote: um lugar onde a aridez natural foi agravada, ao longo dos séculos, pelo pastoreio e por outras acções de desbaste da vegetação, havendo grandes extensões de solo esquelético onde nenhuma planta consegue medrar.

17.10.19

Massaroco de Lanzarote

O leitor decerto concorda que o género Echium é dos mais fáceis de reconhecer quando em flor. É que as flores, de cor azul ou arroxeada (com raras excepções), são sempre taças com o bordo revirado e listadas na face interior, exibindo longos estames rosados a lembrar as línguas das víboras. Este é um género rico em espécies, algumas de distribuição tão ampla que não nos surpreende que ele esteja também abundantemente representado na flora das ilhas Canárias. Claro que, uma vez nas ilhas, a colonização não se fez sem adaptações, do que resultaram plantas com diferenças morfológicas suficientemente relevantes para que se tornassem autónomas das que lhes deram origem. É o caso deste endemismo canariense, das falésias do maciço de Famara, em Lanzarote.



Echium decaisnei subsp. purpuriense Bramwell [= Echium famarae Lems & Holzapfel]


Curiosamente, tal como aconteceu com algumas espécies açorianas (veja-se, por exemplo, o Centaurium portense, de flores cor-de-rosa, que nos Açores evoluiu para uma espécie que só dá flores brancas), as flores e os estames deste Echium são brancas, agrupando-se em inflorescências cónicas muito vistosas (ainda que menos espectaculares do que as do Echium wildpretii). Além disso, as folhas são longas (cerca de 12 cm) e quase glabras. A maior diferença, porém, é que esta é uma espécie arbustiva e lenhosa, atingindo cerca de um metro de altura. Um tal porte talvez resulte do clima ameno, da menor competição com outras espécies e do solo seco e rochoso mas cheio de nutrientes que muitas plantas apreciam.

Por boas razões, os taxonomistas distinguem duas subespécies, E. decaisnei ssp. decaisnei, da Gran Canaria, e E. decaisnei ssp. purpuriense, de Lanzarote e Fuerteventura (esta também denominada E. famarae em algumas Floras). O epíteto homenageia Joseph Decaisne (1807-1882), um agrónomo belga que começou a sua carreira como jardineiro em Paris e, enquanto botânico, foi descritor de inúmeras espécies novas.

9.10.19

Cores do deserto



Um deserto não é um lugar vazio: tem plantas e tem bichos, embora pouco de cada. A água que não se vê e quase nunca cai do céu esconde-se nas profundezas ou condensa-se com a friagem nocturna, e há sempre plantas capazes de aproveitar essa improvável e invisível humidade. Desertos há muitos e variados: há os de areia como o de Sahara; os de terra vermelha e pedregosa, ornamentada com cactos, como os que aparecem nos westerns; e os desertos de lava onde a cobertura vegetal obliterada pelas erupções vulcânicas ensaia um regresso que é trabalho para séculos.

O Parque Nacional de Tymanfaya, no sudoeste da ilha de Lanzarote, é um deserto do último tipo. As erupções que deram origem a esta paisagem de pedra negra semeada de vulcões iniciaram-se em 1730, duraram seis anos, e tiveram um encore um século mais tarde, em 1824. O regresso da vegetação tem sido vagaroso, mas o negro absolutamente dominante já vai admitindo algumas tímidas pinceladas de verde, difíceis de detectar à distância. Nas bermas dos caminhos, a maior acumulação de solo, ajudada pela grande carga de visitantes, tem permitido o estabelecimento de uma vegetação de carácter sobretudo ruderal. Certamente para impedir essa contaminação, e para que a vegetação evolua de forma o mais possível natural, boa parte do Parque de Tymanfaya foi vedada a visitantes. Mesmo na parte acessível, as tabaibas e outras plantas nativas vocacionadas para a secura têm colonizado esparsamente campos de lava, fendas de rocha e zonas cascalhentas.



Polycarpaea divaricata (Aiton) Poir.


Pese embora a nudez aparente da paisagem, a lista da flora do Parque Nacional de Tymanfaya não é curta: dados oficiais reportam mais de 300 espécies de plantas vasculares, a que se somam umas 150 espécies de briófitos, fungos e líquenes. A Polycarpaea divaricata, acima ilustrada, é uma das duas espécies do seu género que ocorrem em Tymanfaya. Endémica das Canárias, presente em todas as ilhas do arquipélago, é conhecida como pata conejo (= pata de coelho), nome também dado a outras congéneres suas. É uma planta rasteira, glabra ou com pubescência rala, de textura herbácea mas às vezes com base lenhosa, com folhas lanceoladas ou espatuladas, de ápice agudo ou arredondado. As inflorescências são terminais, ramificadas, com uma atraente coloração entre verde, rosa e laranja que é dada pelas sépalas. As flores são diminutas, com cinco pétalas brancas e cinco estames, e parecem abrir cada uma de sua vez: a cada momento a maioria delas apresenta-se fechada.

A Polycarpaea nivea (em baixo), que encontrámos também em Lanzarote, é uma planta mais encorpada, que alcança porte quase arbustivo e que, pelo menos nessa ilha, vive apenas em areias e rochas litorais. As dunas a norte da ilha, encaixadas entre o Malpaís de La Corona e o porto de Orzola, não são muito extensas, mas são das mais bonitas que alguma vez vimos. Elegantes arbustos da família Chenopodiaceae (Suaeda, Salsola, Atriplex, etc.) acolhem a surpresa amarela da Cistanche lutea, aqui e ali surgem tapetes coloridos de Frankenia, um malmequer de flores amarelas (Senecio leucanthemifolius) forma compactas almofadas de folhas carnudas, e até a nossa bem conhecida Euphorbia paralias faz uma breve aparição. É a essa colecção que se junta a Polycarpaea nivea, planta de folhas suculentas, densamente coberta de penugem prateada, que surge em todas as ilhas do arquipélago canário com excepção de La Gomera. Está também assinalada em Marrocos, Mauritânia e Cabo Verde, quase sempre em zonas costeiras muito áridas.

O nome feminino Polycarpaea significa "com muitos frutos". É um género sobretudo africano, sem representantes na flora europeia. Polycarpon, que significa exactamente o mesmo mas no masculino, é nome de um género diferente (embora pertença à mesma família), esse sim integrando espécies europeias. Entre elas avulta o Polycarpon tetraphyllum, uma pequena herbácea anual muito comum no nosso país, sendo até usual encontrá-la em muros urbanos.


Polycarpaea nivea (Aiton) Webb

3.10.19

Vieiras de Tenerife



Nos últimos tempos, em que as visitas de turistas a Portugal cresceram tanto que já não se restringem ao Verão e à semana da Páscoa, nota-se uma tendência de globalização preocupante: o país parece sentir a obrigação de oferecer serviços e entretenimento idênticos àqueles a que o turista está habituado no lugar onde vive. Há decerto benefício em imitar os melhores, mas a cópia terá sempre menos valor do que o genuíno, o que só existe no reduto que se visita. Afinal não deveríamos viajar centenas de quilómetros para apreciar o que é comum ao pé de casa. É por isso que ninguém escapa ao fascínio das espécies endémicas, as que só se podem conhecer em habitats restritos do planeta. A planta que vos mostramos hoje, fotografada nas rochas da berma da estrada do Teno, está nesse pacote excepcional pois só existe no noroeste da ilha de Tenerife.



Vieraea laevigata (Brouss. ex Willd.) Webb


O porte erecto, com talos que podem atingir um metro de altura, e as flores amarelas de margarida lembram as da Inula crithmoides, sendo ambas apreciadoras de taludes rochosos à beira mar; as folhas bicudas assemelham-se às da Inula salicina, mas, além de serem carnudas, são mais largas, glabras, dentadas e glaucas. A inflorescência mede cerca de 5 centímetros de diâmetro, e é difícil vê-la fresca depois de passada a Primavera.

Por falta de detalhes morfológicos que a irmanassem a alguma espécie de asterácea conhecida, foi criado um género novo (Vieraea) de que esta é a única espécie, chamada laevigata em alusão às folhas glabras. O nome do género é uma homenagem a José de Viera y Clavijo (1731-1813), historiador nascido em Tenerife e autor da obra Las bodas de las plantas (1806), um longo poema que explica alguma da ciência então conhecida sobre a polinização das flores.

25.9.19

Selvagem procura-se


Misopates salvagense D. A. Sutton
O Misopates salvagense não é candidato a nenhuma medalha de mérito da Royal Horticultural Society. As suas minúsculas e escassas flores brancas, timidamente raiadas de rosa, são de pobre efeito ornamental, embora denunciem o parentesco com as populares bocas-de-lobo (Antirrhinum majus). O que há de mais notável nesta planta é que ela não esteja extinta e seja possível observá-la com alguma facilidade. Pela nossa parte, encontrámo-la em Dezembro de 2018 na costa sudoeste de Lanzarote, nos arredores de El Golfo, em clareiras de matos dominados por tabaibas (Euphorbia balsamifera).

A primeira descrição da planta surgiu apenas em 1988, incluída em A revision of the tribe Antirrhineae, monografia de 575 páginas sobre bocas-de-lobo e plantas afins da autoria de David A. Sutton. Para descrever a nova espécie, o autor baseou-se num único exemplar de herbário, sem flores nem folhas, que havia sido colhido na Selvagem Grande 120 anos antes, algures entre 1860 e 1867. A planta não mais voltou a ser vista nas Selvagens e não foram localizados outros exemplares em herbários. Os frutos e sementes desse exemplar único distinguiam-no claramente dos Misopates conhecidos, mas a descrição da nova espécie foi necessariamente lacunar, e era grande a probabilidade de ela já se encontrar extinta.

Até que, já neste século, a planta foi reencontrada não já nas Selvagens mas nas Canárias, nas ilhas de El Hierro, Fuerteventura e Lanzarote. No artigo onde se dá a notícia [Apuntes florísticos y taxonómicos para la flora de las Islas Canarias, Acta Botánica Malacitana 34 (2009): 242-251 - PDF], os autores reportam que o Misopates salvagense é frequente em zonas costeiras áridas de Lanzarote e Fuerteventura, e que antes ele terá sido confundido, nessas ilhas, com o Misopates orontium. Este último está presente em todas as ilhas do arquipelago canário, mas tem flores maiores, em geral cor-de-rosa, e é densamente glanduloso na inflorescência.

De endemismo nado-morto das ilhas Selvagens, o Misopates salvagense passou assim a ser um elemento relativamente banal da flora nativa canária. Talvez o exemplar colhido no século XIX nas Selvagens represente um episódio fortuito: sementes arrastadas pelo vento desde as Canárias que germinaram mas não lograram estabelecer uma população permanente. Ou talvez a Selvagem Grande seja mesmo o berço da espécie, e ela tenha tido a sorte de colonizar as Canárias antes de se extinguir na sua ilha de origem por acção dos herbívoros (cabras, coelhos e murganhos) lá introduzidos. É muito improvável que o mistério alguma vez seja deslindado.

17.9.19

Amarelo revisitado

Acreditando que a natureza não é uma entidade caprichosa, nem age com um propósito, notamos, porém, que por vezes parece que faz rascunhos como nós, que edita linhas e corrige gralhas. Os taxonomistas afadigam-se então para entenderem as diferenças entre as várias plantas, nem sempre com sucesso, como quem examina com raios x os rabiscos preliminares de um pintor escondidos sob uma obra de arte famosa. Senão vejamos.

Nos sapais da ria Formosa e nas dunas adjacentes viceja entre marés uma planta notável, que aprecia o habitat misto de água doce e salgada, e parasita várias espécies da família Chenopodiaceae. Trata-se da Cistanche phelypaea, que floresce no fim da Primavera e se alimenta através das garras com que se crava nas raízes lenhosas das plantas vizinhas. Quando em flor, não há dúvidas de que espécie se trata. Não? E então a Cistanche lutea?



Cistanche lutea (Desf.) Hoffmanns. & Link


A controvérsia em torno da variabilidade da C. phelypaea e o seu vínculo com a C. lutea é assunto de vários artigos científicos, que ora discutem a pertinência da descrição de duas espécies face às diferenças morfológicas e de ecologia, ora se esmeram a justificar o simples desdobramento em subespécies porque a diferenciação genética não é conclusiva. Uma é rascunho da outra, digamos. Para quem as distingue, a C. phelypaea é endémica da costa atlântica da Península Ibérica, enquanto a C. lutea ocorre no sudeste da Península Ibérica e no noroeste de África. As fotos são de Lanzarote, e há também registo da C. lutea em Fuerteventura e nas Selvagens. Por falar no norte de África, em podendo, não deixe de ver este outro rascunho do género Cistanche, igualmente inspirado.

11.9.19

Histórias da Lista Vermelha: Isatis platyloba



Vistos do alto de São João das Arribas, em Miranda do Douro, os barcos de cruzeiro deslizando no rio parecem brinquedos de criança, e as grandes aves de rapina que os sobrevoam reduzem-se ao tamanho de passarinhos. Nestas escarpas onde cair parece tão fácil e apetecível (não está o rio lá em baixo para nos abraçar?) vive uma planta crucífera de flores amarelas, capaz de atingir um metro de altura, que durante mais de um século se julgou exclusiva deste lugar. Trata-se da Isatis platyloba, assim baptizada em 1821 pelo alemão Ernst Gottlieb von Steudel mas já mencionada por Brotero na sua Flora Lusitanica em 1804 sob o nome de Isatis lusitanica. Sabe-se hoje que a planta existe nas duas margens do Douro pelo menos entre São João das Arribas e a barragem de Picote, e que também ocorre nos rios Duratón e Riaza, afluentes espanhóis do Douro. Talvez a preferência por estes precipícios rochosos escavados pelas águas limite a expansão da planta, afastando-a daqueles troços fluviais onde as margens são menos vertiginosas.

Sem nome vernáculo conhecido, não será inapropriado chamar-lhe pastel-português - não pastel de comer, mas de colorir. A Isatis platyloba, de distribuição tão restrita, é à primeira vista quase indistinguível do verdadeiro pastel, Isatis tinctoria, que se distribui por vastas zonas da Ásia, Europa e norte de África, e foi, até ao primeiro quartel do século XX, um dos mais importantes fornecedores de matéria-prima para a indústria tintureira. Curiosamente, o pigmento que se extrai das folhas verdes e ainda tenras do pastel é azul. Quando o caule se desenvolve e a planta floresce já as folhas pouca cor têm para dar. A afinidade entre as duas espécies de Isatis leva a suspeitar que o pastel-português também tenha vocação tintureira, e há notícias desse antigo uso nas aldeias de Miranda do Douro. Não é contudo improvável que os aldeões usassem o genuíno pastel, pois é sabido (como aqui documentou Francisco Clamote) que as duas plantas coexistem no planalto mirandês, e que a Isatis tinctoria, ao contrário da I. platyloba, tende a ocupar sítios acessíveis como bermas de estrada e terrenos baldios.



Isatis platyloba Link ex Steud.



Além de terem ecologias distintas, as duas Isatis divergem nos seus ciclos de vida: a Isatis platyloba é anual, enquanto que a I. tinctoria é bienal, formando uma roseta de folhas no primeiro ano e florescendo no seu segundo e último ano. Morfologicamente, há pequenas diferenças nas folhas, mas são pouco fiáveis. É quando produzem frutos que a distinção entre as duas espécies se torna óbvia: os da I. platyloba são orbiculares (foto aqui), contrastando com os frutos oblongos da I. tinctoria (foto aqui).

Na Lista Vermelha da Flora de Portugal, a Isatis platyloba está classificada como vulnerável. O contingente da espécie em Portugal, que talvez fique aquém dos mil indivíduos (número sujeito às oscilações próprias de uma planta anual), tem-se mantido aparentemente estável, sem que grandes estragos ou alterações afectassem o habitat em anos recentes. Tê-los-á havido, e sérios, com a construção das grandes barragens do Douro internacional na segunda metade do século passado. Contudo, a limpeza obsessiva da vegetação espontânea tem vindo a debilitar a população da planta em São João das Arribas, que é a mais numerosa que se conhece. Se essa tendência não for refreada, ou se não tiver em conta o ciclo de vida da planta, ela corre o risco de desaparecer do local.