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21/12/2019

Genciana de meio palmo



Durante as duas ondas de calor que no fim da Primavera atingiram o centro de Espanha, a serra de Gredos penou de aridez. Com algumas excepções, os prados tipicamente verdes e floridos nas montanhas lembravam pastos de palha seca. A juntar a este cenário desolador, as margens dos riachos mais promissores estavam completamente pisoteadas pelo gado que, sequioso, derrubou cercas e foi beber onde ainda havia alguma água. A vegetação, com uma sabedoria não surpreendente, tratou de despachar a floração, e no incício de Agosto eram poucas as turfeiras com algo que merecesse uma visita. Foi preciso subir mais, até às gigantescas pistas de esqui a mais de 2000 metros de altura, desactivadas no Verão, para encontrar o que procurávamos.


Gentiana boryi Boiss.


Tal como as gencianas que ocorrem em Portugal (G. pneumonanthes, com mais populações no norte do país, e G. lutea, na serra da Estrela), esta espécie aprecia cervunais frescos de alta montanha, permanentemente húmidos e com solo ácido e rico. Por depender de um habitat ameaçado e ter uma distribuição restrita, está incluída, com o estatuto de vulnerável, na lista vermelha da flora de Espanha. De caules prostrados, não ultrapassa em geral os 10 cm de altura, mas forma, entre Julho e Setembro, vastos tapetes de flores minúsculas (a corola plissada tem pouco mais do que 1 cm de diâmetro) que nascem frequentemente aos pares, com um lindo tom de azul a contrastar com um atraente centro amarelo pintalgado.

Esta genciana é um endemismo espanhol cuja presença está registada na serra Nevada, na serra de Gredos e na Cantábria. O seu nome é mais uma homenagem ao naturalista francês Jean Baptiste Bory de Saint-Vincent (1778-1846).

31/10/2019

Capuchinhos azuis (e amarelos)

Com notáveis excepções, é raro que as plantas surjam na literatura pelo nome próprio. A muitos escritores basta a menção a árvores anónimas, a florestas verdejantes ou a rosas para sentirem o cenário dos seus textos cheio de natureza. Mas algumas plantas conseguem não ser desconhecidas de todo, e por vezes até são os personagens principais do enredo. É o caso do Aconitum napellus, uma planta extremamente venenosa de origem europeia cujas flores lembram os capuchos de alguns monges. São atributos que a tornam particularmente atractiva para novelas policiais, muito útil na protecção contra vampiros e essencial à mitologia - e justificaram o seu uso em setas de caça ou para eliminar inimigos num tempo em que ainda não se conheciam os malefícios dos materiais radioactivos.


Aconitum napellus L.



Trata-se de uma herbácea perene que pode atingir os dois metros de altura, de folhas palmadas muito divididas que nascem num arranjo em espiral muito bonito, e flores de um tom azul arroxeado típico na família Ranunculaceae. As suas flores, com inúmeros estames, alimentam algumas espécies de traças com línguas compridas, que lhes permitem aceder ao néctario no topo da flor. Também há borboletas de língua curta que tentam lamber o néctar furando o capucho por cima, mas não tardam a ser dissuadidas pelo veneno da planta.

As cinco espécies do género Aconitum na Península Ibérica gostam de manter as raízes em solo rico, húmido mas bem drenado, com a folhagem exposta ao sol. Por isso, é mais fácil encontrá-las em margens de rios ou na orla de bosques com árvores de folha caduca. As fotos acima foram tiradas na serra de Gredos, no centro de Espanha, onde a planta se encontra ocasionalmente em pastagens frescas (o gado, que nasce ensinado, não a consome). Também a vimos nos Pirenéus aragoneses, onde é mais frequente e onde ocorrem quatro espécies adicionais do género: A. burnatti e A. variegatum, de flores azuis; A. vulparia e A. anthora (fotos abaixo), de flores amarelas. Em Portugal, por contraste, apenas existe o A. napellus. A única população conhecida, pequena e em risco de desaparecer, vegeta à sombra de amieiros nas margens do rio Angueira, em Trás-os-Montes.


Aconitum anthora L.