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05/06/2021

Linária das neves

Linaria alpina (L.) Mill.
Os cumes das grandes cadeias montanhosas são, a seguir ao fundo dos oceanos, os lugares menos acessíveis do planeta, mantendo-se com ecossistemas mais ou menos intocados por serem pouco propícios à presença humana. Claro que o desejo pela aventura e, mais tarde, a vontade de tornar esses lugares acessíveis aos menos enérgicos acabaram por devassar alguns deles com teleféricos, pistas de esqui, estradas, hotéis e toda a parafernália do turismo de massas. Ainda assim, nos Pirenéus, Alpes, Picos de Europa, Gredos e tantas outras montanhas pela Europa fora, a grande maioria dos cumes não se alcança sem esforço e uma boa dose de coragem. Até que a certa altura compreendemos que, pela idade ou circunstâncias de vida, há lugares que para sempre nos estarão vedados, e isso é algo que não devemos lamentar.

No nosso caso, há plantas que nunca iremos ver, alcandoradas nos picos para que nunca lhes falte o aconchego gelado que tanto apreciam. Mas na verdade não são assim tantas as plantas que estão restritas às maiores altitudes. Acontece é que aquelas que se distribuem desde os mil e poucos metros até bem acima dos dois mil vão florindo ordenadamente de baixo para cima, acompanhando o degelo — e, no período estival, quem as queira ver floridas tem que subir mais alto. Na visita que há uns anos em Agosto fizemos aos Pirenéus, onde nos ficámos preguiçosamente pelos grandes vales, poucas foram as plantas que vimos em flor.

Uma das excepções foi esta Linaria alpina, que vimos tanto na serra de Gredos como nos Pirenéus, e que com relutância nos mostrou duas ou três flores em ambas as ocasiões. É uma planta anual rasteira, de floras roxas ou azuladas com distintivas manchas amarelas no labelo, que se distribui por todas as grandes cadeias montanhosas da Europa ocidental. Aparece geralmente em altitudes acima dos 1500 metros, e atinge os 3300 nos Pirenéus. A serra da Estrela, embora compreendida nesse intervalo altitudinal, fica fora da área de distribuição da espécie, culpa dos invernos menos rigorosos causados pela proximidade do Atlântico. Por isso não desfrutámos do conforto burguês de termos a planta à mão de fotografar ao apearmo-nos do automóvel. Em Gredos, onde as estradas se quedam muito abaixo dos cumes, foram 5 ou 6 km por um trilho sempre a subir para a encontrarmos a uma altidude modesta, rondando os 2200 metros.

11/10/2020

Erva do Parnasso


O Sistema Central é um alinhamento de montanhas no centro da Península Ibérica que se estende de Guadalajara até à serra da Estrela. O estudo da biodiversidade notável deste vasto território mostra como a variação climática tem tido um efeito nefasto em ecossistemas onde a presença humana até é reduzida. Por exemplo, o clima mais quente e atlântico na serra da Estrela, com episódios de neve mais curtos e menos intensos do que no centro montanhoso de Espanha, tem condenado a uma distribuição restrita, ou mesmo à extinção, boa parte da flora dos pisos mais elevados da serra. Contam-se aqui como muito raros o Asplenium septentrionale, o Cryptogramma crispa, a Alchemilla transiens, o Carex furva ou o Lycopodium clavatum, que em Espanha têm populações mais viçosas. A juntar a este efeito climático, nota-se um uso desregrado dos cervunais, uma alteração significativa nos bosques mediterrânicos e a destruição de prados nas terras mais baixas. Não surpreendentemente, teme-se que a renovação do caudal de vários afluentes dos rios Douro, Mondego e Tejo esteja a tornar-se menos eficiente.

Um maior número de cumes em Gredos, e dos mais altos, talvez seja a razão para algumas espécies de montanha serem aí tão abundantes. É o caso da herbácea perene de que vos falamos hoje, de pequeno porte (10 a 30 cm) e que floresce em pleno Verão nas margens de riachos e turfeiras. As folhas são arredondadas mas com base reentrante, como corações sem bico, e têm um pé longo, evitando a humidade excessiva. A haste floral emerge da base das folhas, e no topo empoleira-se uma flor solitária e muito perfumada.

Parnassia palustris L.


A polinização destas flores merece um comentário. No centro da flor nota-se o ovário rodeado por cinco leques enfeitados com bolinhas brilhantes da cor do mel (que prometem néctar) que são outros tantos falsos estames (veja-se a 2ª foto). Para que serve tanto adorno e fingimento? Note-se que é benéfico para as espécies evitar a auto-fecundação, mas numa flor hermafrodita a proximidade das componentes masculina e feminina pode tornar a auto-polinização mais frequente do que a polinização cruzada. Pois bem: a presença dos estames falsos dá a impressão ao polinizador de que a flor já desabrochou e está a servir o néctar. Inebriados pelo aroma a mel, eles pousam na flor e roçam o corpo pelo pólen, esvoaçando pouco depois para outra flor onde julgam que, aí sim, o néctar já está na mesa. Mas enquanto os estames falsos iludem o polinizador, alguns dos estames verdadeiros mantêm-se inclinados sobre o ápice do ovário, expondo as anteras de pólen mas cobrindo o estigma (veja-se esse pormenor aqui). Só quando o último estame murcha é que o estigma está integralmente exposto.

Esta estratégia ajuda a evitar a auto-polinização mas, como se refere neste artigo, há o risco de o polinizador não transportar o pólen no local do corpo que vai contactar com o estigma da outra flor. Segundo os autores, o género Parnassia parece ter resolvido este problema: os estames verdadeiros amadurecem e movem-se coordenadamente, separando-se do ovário em sequência. Este processo faz com que, em cada dia, os estames com o pólen fresquinho estejam sobre o estigma (logo o polinizador recolhe o pólen nessa posição, que é a de um estigma receptivo, e que manterá noutras visitas), mas depois de maduros se afastem dessa posição central, permitindo que o estigma seja polinizado.

21/12/2019

Genciana de meio palmo



Durante as duas ondas de calor que no fim da Primavera atingiram o centro de Espanha, a serra de Gredos penou de aridez. Com algumas excepções, os prados tipicamente verdes e floridos nas montanhas lembravam pastos de palha seca. A juntar a este cenário desolador, as margens dos riachos mais promissores estavam completamente pisoteadas pelo gado que, sequioso, derrubou cercas e foi beber onde ainda havia alguma água. A vegetação, com uma sabedoria não surpreendente, tratou de despachar a floração, e no incício de Agosto eram poucas as turfeiras com algo que merecesse uma visita. Foi preciso subir mais, até às gigantescas pistas de esqui a mais de 2000 metros de altura, desactivadas no Verão, para encontrar o que procurávamos.


Gentiana boryi Boiss.


Tal como as gencianas que ocorrem em Portugal (G. pneumonanthes, com mais populações no norte do país, e G. lutea, na serra da Estrela), esta espécie aprecia cervunais frescos de alta montanha, permanentemente húmidos e com solo ácido e rico. Por depender de um habitat ameaçado e ter uma distribuição restrita, está incluída, com o estatuto de vulnerável, na lista vermelha da flora de Espanha. De caules prostrados, não ultrapassa em geral os 10 cm de altura, mas forma, entre Julho e Setembro, vastos tapetes de flores minúsculas (a corola plissada tem pouco mais do que 1 cm de diâmetro) que nascem frequentemente aos pares, com um lindo tom de azul a contrastar com um atraente centro amarelo pintalgado.

Esta genciana é um endemismo espanhol cuja presença está registada na serra Nevada, na serra de Gredos e na Cantábria. O seu nome é mais uma homenagem ao naturalista francês Jean Baptiste Bory de Saint-Vincent (1778-1846).

31/10/2019

Capuchinhos azuis (e amarelos)

Com notáveis excepções, é raro que as plantas surjam na literatura pelo nome próprio. A muitos escritores basta a menção a árvores anónimas, a florestas verdejantes ou a rosas para sentirem o cenário dos seus textos cheio de natureza. Mas algumas plantas conseguem não ser desconhecidas de todo, e por vezes até são os personagens principais do enredo. É o caso do Aconitum napellus, uma planta extremamente venenosa de origem europeia cujas flores lembram os capuchos de alguns monges. São atributos que a tornam particularmente atractiva para novelas policiais, muito útil na protecção contra vampiros e essencial à mitologia — e justificaram o seu uso em setas de caça ou para eliminar inimigos num tempo em que ainda não se conheciam os malefícios dos materiais radioactivos.


Aconitum napellus L.



Trata-se de uma herbácea perene que pode atingir os dois metros de altura, de folhas palmadas muito divididas que nascem num arranjo em espiral muito bonito, e flores de um tom azul arroxeado típico na família Ranunculaceae. As suas flores, com inúmeros estames, alimentam algumas espécies de traças com línguas compridas, que lhes permitem aceder ao néctario no topo da flor. Também há borboletas de língua curta que tentam lamber o néctar furando o capucho por cima, mas não tardam a ser dissuadidas pelo veneno da planta.

As cinco espécies do género Aconitum na Península Ibérica gostam de manter as raízes em solo rico, húmido mas bem drenado, com a folhagem exposta ao sol. Por isso, é mais fácil encontrá-las em margens de rios ou na orla de bosques com árvores de folha caduca. As fotos acima foram tiradas na serra de Gredos, no centro de Espanha, onde a planta se encontra ocasionalmente em pastagens frescas (o gado, que nasce ensinado, não a consome). Também a vimos nos Pirenéus aragoneses, onde é mais frequente e onde ocorrem quatro espécies adicionais do género: A. burnatti e A. variegatum, de flores azuis; A. vulparia e A. anthora (fotos abaixo), de flores amarelas. Em Portugal, por contraste, apenas existe o A. napellus. A única população conhecida, pequena e em risco de desaparecer, vegeta à sombra de amieiros nas margens do rio Angueira, em Trás-os-Montes.


Aconitum anthora L.