31/10/2019

Capuchinhos azuis (e amarelos)

Com notáveis excepções, é raro que as plantas surjam na literatura pelo nome próprio. A muitos escritores basta a menção a árvores anónimas, a florestas verdejantes ou a rosas para sentirem o cenário dos seus textos cheio de natureza. Mas algumas plantas conseguem não ser desconhecidas de todo, e por vezes até são os personagens principais do enredo. É o caso do Aconitum napellus, uma planta extremamente venenosa de origem europeia cujas flores lembram os capuchos de alguns monges. São atributos que a tornam particularmente atractiva para novelas policiais, muito útil na protecção contra vampiros e essencial à mitologia — e justificaram o seu uso em setas de caça ou para eliminar inimigos num tempo em que ainda não se conheciam os malefícios dos materiais radioactivos.


Aconitum napellus L.



Trata-se de uma herbácea perene que pode atingir os dois metros de altura, de folhas palmadas muito divididas que nascem num arranjo em espiral muito bonito, e flores de um tom azul arroxeado típico na família Ranunculaceae. As suas flores, com inúmeros estames, alimentam algumas espécies de traças com línguas compridas, que lhes permitem aceder ao néctario no topo da flor. Também há borboletas de língua curta que tentam lamber o néctar furando o capucho por cima, mas não tardam a ser dissuadidas pelo veneno da planta.

As cinco espécies do género Aconitum na Península Ibérica gostam de manter as raízes em solo rico, húmido mas bem drenado, com a folhagem exposta ao sol. Por isso, é mais fácil encontrá-las em margens de rios ou na orla de bosques com árvores de folha caduca. As fotos acima foram tiradas na serra de Gredos, no centro de Espanha, onde a planta se encontra ocasionalmente em pastagens frescas (o gado, que nasce ensinado, não a consome). Também a vimos nos Pirenéus aragoneses, onde é mais frequente e onde ocorrem quatro espécies adicionais do género: A. burnatti e A. variegatum, de flores azuis; A. vulparia e A. anthora (fotos abaixo), de flores amarelas. Em Portugal, por contraste, apenas existe o A. napellus. A única população conhecida, pequena e em risco de desaparecer, vegeta à sombra de amieiros nas margens do rio Angueira, em Trás-os-Montes.


Aconitum anthora L.

23/10/2019

Reseda de Lanzarote


Reseda crystallina Webb & Berthel. [= Reseda lancerotae Webb & Berth. ex Delile]


O nome Reseda, usado por Plínio na História Natural (séc. I DC) e acolhido por Lineu no Species Plantarum (1753), deriva do verbo latino resedo, que significa acalmar, sossegar. Estas plantas, contudo, nunca terão tido grande uso medicinal, e talvez o único efeito calmante que possam produzir advenha do acto de as contemplar. As flores minúsculas não facilitam tal tarefa, obrigando ao uso de lupa ou de outros auxiliares de visão, mas a sua peculiaridade compensa bem o esforço. Caracterizam-se por um número variável (geralmente 5 ou 6) de pétalas amiúde fimbriadas e pelos estames salientes, numerosos, densamente agrupados, rematados por anteras muito engrossadas (foto). Os frutos, com três ou quatro "bicos" na ponta (correspondentes aos estigmas), são cápsulas mais ou menos cilíndricas: alguns têm aspecto insuflado e fazem lembrar sacolas (como os da Reseda phyteuma); outros, como mostram as fotos acima, são estreitos e alongados. As folhas costumam ter margens onduladas (foto) e apresentar lobos irregulares (foto).

Distribuídas pela Europa, norte de África e sudoeste da Ásia, são quarenta a cinquenta as espécies do género Reseda. A mais famosa, por ter sido amplamente usada em tinturaria antes do advento dos corantes sintéticos, é a Reseda luteola, uma erva ruderal de porte erecto muito comum no nosso país e por toda a Europa. A Reseda crystallina, que já se chamou Reseda lancerotae e é endémica de quatro ilhas do arquipélago canário (Lanzarote, Fuerteventura, Grã-Canária e Tenerife), é uma herbácea de porte modesto, ficando-se pelos 5 a 20 cm de altura. É fácil de identificar pela disposição das flores, em geral concentradas no topo de hastes que se vão alongando à medida que a frutificação progride. A forma e sobretudo a cor das flores também são distintivas, contrastanto o amarelo vivo das pétalas com as pétalas brancas habituais nas espécies do género. Nem a Reseda lutea nem a R. luteola, apesar de os epítetos sugerirem o contrário, têm flores verdadeiramente amarelas, apresentando, em vez disso, pétalas de um creme pálido, quase branco.

A Reseda crystallina é frequente em Lanzarote e Fuerteventura, em lugares arenosos ou rochosos e a altitudes relativamente baixas. Tolera um alto grau de secura e é capaz de ocupar os lugares mais inóspitos. Encontrámo-la, por exemplo, na subida para a montanha de Los Ajaches, no sul de Lanzarote: um lugar onde a aridez natural foi agravada, ao longo dos séculos, pelo pastoreio e por outras acções de desbaste da vegetação, havendo grandes extensões de solo esquelético onde nenhuma planta consegue medrar.

17/10/2019

Massaroco de Lanzarote

O leitor decerto concorda que o género Echium é dos mais fáceis de reconhecer quando em flor. É que as flores, de cor azul ou arroxeada (com raras excepções), são sempre taças com o bordo revirado e listadas na face interior, exibindo longos estames rosados a lembrar as línguas das víboras. Este é um género rico em espécies, algumas de distribuição tão ampla que não nos surpreende que ele esteja também abundantemente representado na flora das ilhas Canárias. Claro que, uma vez nas ilhas, a colonização não se fez sem adaptações, do que resultaram plantas com diferenças morfológicas suficientemente relevantes para que se tornassem autónomas das que lhes deram origem. É o caso deste endemismo canariense, das falésias do maciço de Famara, em Lanzarote.



Echium decaisnei subsp. purpuriense Bramwell [= Echium famarae Lems & Holzapfel]


Curiosamente, tal como aconteceu com algumas espécies açorianas (veja-se, por exemplo, o Centaurium portense, de flores cor-de-rosa, que nos Açores evoluiu para uma espécie que só dá flores brancas), as flores e os estames deste Echium são brancas, agrupando-se em inflorescências cónicas muito vistosas (ainda que menos espectaculares do que as do Echium wildpretii). Além disso, as folhas são longas (cerca de 12 cm) e quase glabras. A maior diferença, porém, é que esta é uma espécie arbustiva e lenhosa, atingindo cerca de um metro de altura. Um tal porte talvez resulte do clima ameno, da menor competição com outras espécies e do solo seco e rochoso mas cheio de nutrientes que muitas plantas apreciam.

Por boas razões, os taxonomistas distinguem duas subespécies, E. decaisnei ssp. decaisnei, da Gran Canaria, e E. decaisnei ssp. purpuriense, de Lanzarote e Fuerteventura (esta também denominada E. famarae em algumas Floras). O epíteto homenageia Joseph Decaisne (1807-1882), um agrónomo belga que começou a sua carreira como jardineiro em Paris e, enquanto botânico, foi descritor de inúmeras espécies novas.

09/10/2019

Cores do deserto



Um deserto não é um lugar vazio: tem plantas e tem bichos, embora pouco de cada. A água que não se vê e quase nunca cai do céu esconde-se nas profundezas ou condensa-se com a friagem nocturna, e há sempre plantas capazes de aproveitar essa improvável e invisível humidade. Desertos há muitos e variados: há os de areia como o de Sahara; os de terra vermelha e pedregosa, ornamentada com cactos, como os que aparecem nos westerns; e os desertos de lava onde a cobertura vegetal obliterada pelas erupções vulcânicas ensaia um regresso que é trabalho para séculos.

O Parque Nacional de Tymanfaya, no sudoeste da ilha de Lanzarote, é um deserto do último tipo. As erupções que deram origem a esta paisagem de pedra negra semeada de vulcões iniciaram-se em 1730, duraram seis anos, e tiveram um encore um século mais tarde, em 1824. O regresso da vegetação tem sido vagaroso, mas o negro absolutamente dominante já vai admitindo algumas tímidas pinceladas de verde, difíceis de detectar à distância. Nas bermas dos caminhos, a maior acumulação de solo, ajudada pela grande carga de visitantes, tem permitido o estabelecimento de uma vegetação de carácter sobretudo ruderal. Certamente para impedir essa contaminação, e para que a vegetação evolua de forma o mais possível natural, boa parte do Parque de Tymanfaya foi vedada a visitantes. Mesmo na parte acessível, as tabaibas e outras plantas nativas vocacionadas para a secura têm colonizado esparsamente campos de lava, fendas de rocha e zonas cascalhentas.



Polycarpaea divaricata (Aiton) Poir.


Pese embora a nudez aparente da paisagem, a lista da flora do Parque Nacional de Tymanfaya não é curta: dados oficiais reportam mais de 300 espécies de plantas vasculares, a que se somam umas 150 espécies de briófitos, fungos e líquenes. A Polycarpaea divaricata, acima ilustrada, é uma das duas espécies do seu género que ocorrem em Tymanfaya. Endémica das Canárias, presente em todas as ilhas do arquipélago, é conhecida como pata conejo (= pata de coelho), nome também dado a outras congéneres suas. É uma planta rasteira, glabra ou com pubescência rala, de textura herbácea mas às vezes com base lenhosa, com folhas lanceoladas ou espatuladas, de ápice agudo ou arredondado. As inflorescências são terminais, ramificadas, com uma atraente coloração entre verde, rosa e laranja que é dada pelas sépalas. As flores são diminutas, com cinco pétalas brancas e cinco estames, e parecem abrir cada uma de sua vez: a cada momento a maioria delas apresenta-se fechada.

A Polycarpaea nivea (em baixo), que encontrámos também em Lanzarote, é uma planta mais encorpada, que alcança porte quase arbustivo e que, pelo menos nessa ilha, vive apenas em areias e rochas litorais. As dunas a norte da ilha, encaixadas entre o Malpaís de La Corona e o porto de Orzola, não são muito extensas, mas são das mais bonitas que alguma vez vimos. Elegantes arbustos da família Chenopodiaceae (Suaeda, Salsola, Atriplex, etc.) acolhem a surpresa amarela da Cistanche lutea, aqui e ali surgem tapetes coloridos de Frankenia, um malmequer de flores amarelas (Senecio leucanthemifolius) forma compactas almofadas de folhas carnudas, e até a nossa bem conhecida Euphorbia paralias faz uma breve aparição. É a essa colecção que se junta a Polycarpaea nivea, planta de folhas suculentas, densamente coberta de penugem prateada, que surge em todas as ilhas do arquipélago canário com excepção de La Gomera. Está também assinalada em Marrocos, Mauritânia e Cabo Verde, quase sempre em zonas costeiras muito áridas.

O nome feminino Polycarpaea significa "com muitos frutos". É um género sobretudo africano, sem representantes na flora europeia. Polycarpon, que significa exactamente o mesmo mas no masculino, é nome de um género diferente (embora pertença à mesma família), esse sim integrando espécies europeias. Entre elas avulta o Polycarpon tetraphyllum, uma pequena herbácea anual muito comum no nosso país, sendo até usual encontrá-la em muros urbanos.


Polycarpaea nivea (Aiton) Webb

03/10/2019

Vieiras de Tenerife



Nos últimos tempos, em que as visitas de turistas a Portugal cresceram tanto que já não se restringem ao Verão e à semana da Páscoa, nota-se uma tendência de globalização preocupante: o país parece sentir a obrigação de oferecer serviços e entretenimento idênticos àqueles a que o turista está habituado no lugar onde vive. Há decerto benefício em imitar os melhores, mas a cópia terá sempre menos valor do que o genuíno, o que só existe no reduto que se visita. Afinal não deveríamos viajar centenas de quilómetros para apreciar o que é comum ao pé de casa. É por isso que ninguém escapa ao fascínio das espécies endémicas, as que só se podem conhecer em habitats restritos do planeta. A planta que vos mostramos hoje, fotografada nas rochas da berma da estrada do Teno, está nesse pacote excepcional pois só existe no noroeste da ilha de Tenerife.



Vieraea laevigata (Brouss. ex Willd.) Webb


O porte erecto, com talos que podem atingir um metro de altura, e as flores amarelas de margarida lembram as da Inula crithmoides, sendo ambas apreciadoras de taludes rochosos à beira mar; as folhas bicudas assemelham-se às da Inula salicina, mas, além de serem carnudas, são mais largas, glabras, dentadas e glaucas. A inflorescência mede cerca de 5 centímetros de diâmetro, e é difícil vê-la fresca depois de passada a Primavera.

Por falta de detalhes morfológicos que a irmanassem a alguma espécie de asterácea conhecida, foi criado um género novo (Vieraea) de que esta é a única espécie, chamada laevigata em alusão às folhas glabras. O nome do género é uma homenagem a José de Viera y Clavijo (1731-1813), historiador nascido em Tenerife e autor da obra Las bodas de las plantas (1806), um longo poema que explica alguma da ciência então conhecida sobre a polinização das flores.