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31/01/2026

Confusão de línguas

Habitat de Ophioglossum polyphyllum em Lanzaote

As línguas-de-cobra (género Ophioglossum) são propícias à confusão, por falta de características diferenciadoras que separem claramente as diversas espécies. O botânico norte-americano Robert T. Clausen, numa revisão da família Ophioglossaceae publicada em 1938, concluiu que nem a venação das folhas, nem o seu formato, nem o tamanho ou ornamentação dos esporos, podiam, cada um por si, ser usados para delimitar as espécies de Ophioglossum de modo fiável. Certas pequenas diferenças evidenciadas por populações restritas, ou às vezes apenas por indivíduos isolados, perdiam, segundo esse autor, todo o significado quando vistas no contexto da distribuição mais alargada das espécies. O resultado de estudos parcelares ou muito localizados, valorizando diferenças miúdas, teria sido a proliferação de novas espécies de validade duvidosa — que, na opinião de Clausen, nunca deveriam ter sido publicadas.

O trabalho de Clausen foi assim, em grande medida, o de reunir, para cada uma das espécies que considerou válidas, todos os nomes que, no seu entender, representariam simples sinónimos dessa espécie, não merecendo especial reconhecimento taxonómico. Do Ophioglossum vulgatum, uma das espécies do género mais disseminadas a nível mundial, Clausen contabilizou nada menos que 15 sinónimos.

Acontece que a taxonomia botânica evoluiu muito desde 1938, e nas últimas décadas foi revolucionada de alto a baixo pelos estudos moleculares. Espécies que visualmente mal se distinguem podem agora ser certificadas como distintas por via genética. Além disso, um estudo mais minucioso das diferenças observadas, a par de considerações sobre a distribuição, pode levar ao reconhecimento, como espécies distintas, de entidades morfologicamente próximas mas geografi­camente afastadas. Por exemplo, ao contrário do que defendia Clausen, não se considera hoje que o verdadeiro O. vulgatum ocorra na América do Norte: o que lá há são espécies semelhantes como O. pycnostichum (na costa leste) e O. pusillum (com uma distribuição mais nortenha).

A um olhar contemporâneo, Clausen avulta como praticante extremo de lumping, o acto de amalgamar coisas muito diversas sob o mesmo nome, adoptando conceitos muito latos de espécie e desvalorizando diferenças com o estafado argumento das “formas intermédias” — como se a existência de mulas demonstrasse que cavalos e burros são da mesma espécie.

Ophioglossum azoricum e Ophioglossum polyphyllum são dois dos nomes que, segundo Clausen, seriam sinónimos de Ophioglossum vulgatum. Ambas essas espécies são hoje reconhecidas como válidas — e, nos exemplares típicos, a diferença entre elas e o O. vulgatum é flagrante: são plantas muito mais pequenas, em geral com duas ou mais folhas em vez de uma só, e estas parecem brotar directamente do solo (as do O. vulgatum têm pecíolos muito longos), sendo lanceoladas em vez de largas e rombudas; além disso, cada espiga tem no máximo uns 20 pares de esporângios, quando no O. vulgatum esse número pode chegar aos 40.

Ophioglossum polyphyllum A. Braun


Resta a questão de diferenciar o O. polyphyllum do O. azoricum. Para isso, ilustramos o texto com fotos de ambas as espécies, as da primeira obtidas em Lanzarote, em Dezembro de 2025, perto da playa del risco, as da segunda em Maio de 2022 num prado húmido no concelho de Miranda do Douro. O período de visibilidade destas espécies é desde logo um dado importante: o O. polyphyllum surge no Inverno, o O. azoricum só o faz com a Primavera em velocidade de cruzeiro. Também salta à vista a diferença de habitat: o O. polyphyllum foi fácil de fotografar porque se destacava do solo argiloso-arenoso praticamente nu; o O. azoricum, camuflado numa confusão de mini-herbáceas, fez tudo para dificultar a tarefa do fotógrafo. Quanto às diferenças morfológicas, as folhas do O. polyphyllum são mucronadas e têm um vinco longitudinal notório; as hastes férteis são amiúde ultrapassadas pelas folhas, e o seu ponto de inserção situa-se na base da lâmina foliar (no O. azoricum a folha e a haste fértil separam-se quase a nível do solo); por fim, a espiga dos esporângios é nitidamente mais engrossada no O. polyphyllum do que no O. azoricum.

Ophioglossum azoricum C. Presl
O O. azoricum distribui-se sobretudo pela Europa ocidental, de Itália a Portugal e deste à Grã-Bretanha, Irlanda e Islândia; e, além de estar presente nos Açores, foi assinalado na Madeira e, muito residualmente, nas Canárias. O O. polyphyllum, por seu turno, está presente também em Cabo Verde e tem uma distribuição muito vasta em zonas tropicais e subtropicais de África, Ásia, Austrália e América Central; e, apesar de velhas notícias em contrário, está totalmente ausente da Europa. Só nas Canárias é que as duas espécies coexistem, mas não nos mesmos habitats e nem sequer em lugares próximos.

J. Amaral Franco & M. Rocha Afonso, no livro (de 1982) Distribuição de pteridófitos e gimnospérmicas em Portugal, informam que o O. polyphyllum ocorre em Portugal, algures nas margens da Douro perto da Régua. Além de o habitat favorável não existir nessa região (nem, provavelmente, em nenhuma parcela do território português), o desenho com que os autores pretendem ilustrar a espécie em nada se assemelha às plantas que vimos em Lanzarote. É provável, portanto, que perfilhem um conceito da espécie diferente daquele que é aceite na actualidade. A que se deve tal discrepância?

O nome Ophioglossum polyphyllum foi originalmente publicado em 1844, pelo alemão Moritz Seubert, no seu livro Flora Azorica, sendo então atribuído a plantas que os também alemães Hochstetter (pai e filho) haviam colhido na Terceira no final da década de 1830. Contudo, o nome da espécie e a sua descrição, tal como aparecem no livro, são da autoria de A. Braun, e referem-se a exemplares colhidos por este último em 1837 na Península Arábica. A conclusão da posteridade foi que as plantas árabes são diferentes das açorianas, e portanto o nome Ophioglossum polyphyllum, ainda que aparecido num livro dedicado à flora dos Açores, não pode ser aplicado às plantas açorianas. Os mesmos exemplares colhidos pelos Hochstetter na Terceira serviram de base à descrição, publicada em 1845 pelo botânico checo Carl Presl, do Ophioglossum azoricum; e, ainda que se tenha posteriormente constatado não estarem elas confinadas aos Açores, é esse o nome válido que hoje as ditas plantas ostentam. Para agravar a confusão, o O. azoricum foi, a dada altura, subordinado ao O. vulgatum sob os nomes de O. vulgatum var. ambiguum ou O. vulgatum subsp. ambiguum. Assim, os exemplares colhidos pelos Hochstetter, ainda que pertencentes todos à mesma espécie, levaram a que autores mais incautos decretassem nos Açores (e, em particular, na Terceira) a existência de nada menos que três espécies: O. azoricum, O. polyphyllum e O. vulgatum. Só a primeira dessas línguas-viperinas é que ocorre no arquipélago, embora na verdade haja lá mais uma — O. lusitanicum — que, por ser minúscula, é impossível confundir com qualquer uma dessas três.

Toda esta confusão de línguas foi deslindada cabalmente pelo italiano Rodolfo E. G. Pichi-Sermolli, em 1954, num trabalho dedicado à flora etíope (Adumbratio Florae Aethiopicae 3. Ophioglossaceae, Osmundaceae, Schizaeaceae). O jugo italiano sobre a Etiópia durou apenas de 1936 a 1941, mas treze anos depois ainda havia quem trabalhasse nos despojos do frustrado império. Na parte que nos interessa, desde 1954 que o conceito de O. polyphyllum deveria ter deixado de suscitar dúvidas, pelo que insistir que esse feto existe em Portugal (seja no Continente ou nos Açores) ou em algum lugar da Europa continental só revela distracção ou teimosia.

13/01/2023

Maria José & José Maria

Lotus glinoides Delile


Ensina o dicionário que uma escada é uma «série de degraus», e esclarece a mesma obra que um degrau é «cada uma das partes de uma escada». Está assim fechado o círculo: temos um par de palavras, degrau e escada, em que cada uma é definida em função da outra, e quem não souber o significado de nenhuma delas não tirará qualquer ensinamento útil da consulta do dicionário. Para que a comunicação entre humanos seja possível, é necessário estarmos de acordo quanto ao significado das palavras usadas — e, quando desconhecemos alguma, procurarmos saber como ela se define à custa de outras que já conhecemos. No entanto, este processo de explicar conceitos complexos decompondo-os noutros mais simples tem alguma vez que parar. Deve existir um núcleo de palavras ou de conceitos que, por serem de entendimento generalizado, não precisam de ser (ou não podem ser) dissecados ou definidos à custa de outros. Constituem as chamadas noções primitivas, sem as quais a linguagem se pulverizaria numa névoa destituída de significado. No caso da escada e do degrau, qual será a noção primitiva?

A taxonomia botânica funciona muito por comparação: são frequentes, nos nomes científicos das plantas, os epítetos que se referem à semelhança com outras plantas. É como explicar uma planta relacionando-a com outra possivelmente mais bem conhecida pela comunidade botânica ou pelo público em geral. Consideremos, por exemplo, a leguminosa ilustrada nas fotos: o nome Lotus glinoides indica que esta planta tem aparência semelhante às do género Glinus, incluído na família das Cariofiláceas. No intuito de perceber melhor a comparação, atentemos na única espécie do género Glinus na flora europeia. Chama-se Glinus lotoides, e o epíteto é inequívoco: diz-nos que a planta é parecida com as do género Lotus. Ora nenhum Lotus se pode assemelhar mais a ela do que o Lotus glinoides, que proclama essa mesma semelhança no seu bilhete de identidade. Eis-nos perante novo círculo perfeito: o Lotus glinoides é explicado pelo Glinus lotoides que é explicado pelo Lotus glinoides. Qual dos dois constituirá a noção primitiva? Enfim, uma boa amostra do sentido de humor dos botânicos — ou talvez do gosto (muito anterior a Bertrand Russell e a Kurt Gödel) pelos paradoxos da linguagem e do raciocínio lógico.

Do ponto de vista estritamente botânico, contrapor estas plantas uma à outra é pouco ou nada elucidativo: tanto nas flores como nas folhas (simples num caso, trifoliadas no outro) nada há que as aproxime; morfológica e evolutivamente, não podiam estar mais distantes. É portanto mais instrutivo comparar o Lotus glinoides com os seus congéneres, notando que ele se singulariza pelas flores rosadas num género maioritariamente de flores amarelas. Presente em quase todas as ilhas Canárias mas mais frequente em Fuerteventura e Lanzarote, e com presença assinalada também em Cabo Verde, norte de África, Médio Oriente e Paquistão, o cuernecillo rosado é uma planta rasteira, verde-glauca, acetinada, com flores pequenas (de uns 7 mm de comprimento), apreciadora de locais secos e pedregosos, tendencialmente desérticos. Encontrámo-lo nos campos de lava do Parque Nacional de Timanfaya, em Lazarote, contrariando o negrume dominante com as suas breves pinceladas de verde e rosa.

06/07/2022

A melhor árvore para o seu deserto

As ilhas Canárias, tal como as do arquipélago da Madeira, são poiso de muitas margaridas, distribuídas por vários géneros, alguns endémicos. Mas a que lhe mostramos hoje é especial. Ora veja se concorda.


Kleinia neriifolia Haw.


Parece um cacto, por ter folhas suculentas (de largura variável conforme as ilhas) e ramos articulados (lembrando os dragoeiros), grossos e nodosos. É um arbusto alto (pode atingir os 3 metros), perene, embora de folhagem caduca: depois da floração, fase muito perfumada entre Agosto e Novembro, muda bastante de aspecto. As folhas são coriáceas e sésseis, formando rosetas verdes no topo dos ramos, caindo no início da estação mais seca. As inflorescências em corimbos terminais, com um pé longo, agrupam inúmeras florinhas tubulares de um tom geral amarelo pálido, com corolas brancas de cinco pétalas. Os aquénios (estruturas modificadas, semelhantes a pára-quedas para facilitar a dispersão das sementes pelo vento) são tantos e tão aveludados que, antes de se desprenderem, dir-se-ia que a planta agarrou uma nuvem com que cobre a cabeça.

Esta espécie ocorre em todas as ilhas das Canárias e é muito frequente nas zonas costeiras. Aprecia ravinas pedregosas com clima semi-árido, entre os 50 e os 1000 metros de altitude, mas pequenas variações da temperatura. Crê-se que vive só de ar, mas as raízes são longas e não desperdiçam nenhuma da água que se acumula nas fissuras das rochas.

Quererá agora o leitor voltar às fotos acima para conferir estes detalhes? Está bem, nós esperamos.

O nome do género é dedicado a Jakob Theodor Klein (1685-1759), um botânico alemão que criou uma classificação controversa para os organismos vivos (enfim, alguns animais) baseada em características morfológicas simples e fáceis de detectar (número de patas, e assim), e que, com o trabalho mais científico e metódico de Lineu, caiu no esquecimento. Para nós, matemáticos, a Kleinia bem poderia ser uma homenagem ao geómetra Felix Klein (1849-1925), autor de uma teoria unificada em Geometria, entre muitos outros contributos matemáticos, e também da famosa superfície não orientável conhecida como garrafa de Klein.

22/03/2022

Erva-pulgueira (com ou sem lã)



Como símbolo de resistência e de esperança, uma flor no deserto é mais eficaz se o encontro com ela for inesperado. Para quem estiver armado de experiência e conhecimento, e souber que o fenómeno nada tem de raro, a flor mais ou menos solitária não funciona como revelação, mas apenas como confirmação apaziguadora de que, no nosso planeta, a vida é a regra e nunca a excepção. A península de Jandía, no extremo sul de Fuerteventura, nunca há-de ter as suas planuras arenosas convertidas em prados floridos: a chuva aqui é desconhecida; e, mesmo que ela caísse, só uma cobertura vegetal rala poderia medrar neste terreno esquelético. Essa vegetação esparsa e rasteira já existe; e, entre as plantas que se adaptaram a condições tão agrestes, são especialmente vistosas estas asteráceas rasteiras com grandes capítulos dourados.

Pulicaria canariensis Bolle subsp. canariensis


O nome científico Pulicaria pode traduzir-se como erva-das-pulgas, o que sugere uma função (a de repelir esses desagradáveis insectos) que nem todas as espécies do género estão equipadas para cumprir. À Pulicaria canariensis, que é endémica das ilhas de Fuerteventura e de Lanzarote, basta-lhe ser bonita; ninguém pede que justifique a existência trabalhando em nosso proveito. É uma planta atarracada, que forma pequenas moitas, com hastes de 10 a 20 cm de altura rematadas por capítulos amarelos de 3 a 5 cm de diâmetro. As folhas são curtas, espatuladas, e toda a planta é coberta por uma penugem mais ou menos espessa. É aliás pelo grau de pilosidade que se diferenciam as duas subespécies que lhe são reconhecidas: a subespécie nominal (fotos em cima, tiradas em Fuerteventura), que ocorre em Fuerteventura e em Lanzarote, é menos tomentosa, e a planta é de cor verde; a subespécie lanata, que só existe em Lanzarote (onde as fotos em baixo foram obtidas), tem um indumento lanoso muito mais desenvolvido, o que dá à planta um tom esbranquiçado.

Pulicaria canariensis subsp. lanata (Font Quer & Svent.) Bramwell & G. Kunkel


Ver plantas tão agasalhadas em lugares tão quentes pode suscitar estranheza. Afinal, quando o calor é muito estamos habituar a despir agasalhos e a reduzir as vestes ao mínimo que a decência impõe. Mas os povos que vivem no deserto, em lugar de usarem trajes sumários, cobrem-se de mantas e capas que lhes tapam o corpo da cabeça aos pés. É a mesma sageza que leva plantas de deserto como esta Pulicaria a protegerem-se revestindo-se com uma espessa penugem: ao minimizarem as perdas de água por transpiração, estão mais aptas a sobreviver à secura impenitente. Mas que água? A que a penugem capta de nevoeiros e orvalhos, e que é depois conduzida sem desperdício às raízes pela folhagem em roseta.

03/03/2022

Cebolona albarrã



Esta é a imagem que retemos da chegada ao Barranco de Las Peñitas, em Fuerteventura. Por aqui já correu um rio, o Palmas, num desfiladeiro fundo ladeado por impressionantes taludes rochosos. Do rio e das suas águas pouco resta, para além do gigantesco paredão da albufeira que o aprisionava para que ele não fugisse para o mar sem antes ter alguma serventia. A impressão à entrada é, portanto, desoladora: um calor intenso no ar seco e sem brisa, nenhuma esperança de sombra, e um silêncio da passarada que nos avisa que o lugar é inóspito e que, se insistirmos em prosseguir a caminhada, o problema é nosso.

E lá fomos. Uns minutos depois cruzámo-nos com meia dúzia de pessoas, cansadas, suadas, de semblante carregado, rostos castanhos de poeira, sem sinal de regozijo. Mau sinal, pensámos. Dois passos adiante, porém, encontrámos as primeiras plantas que vínhamos ver, da espécie Volutaria bollei, endémica de Lanzarote e Fuerteventura. É certo que só havia plantas mirradinhas, mas ficámos contentes por saber que será possível noutra altura (entre Janeiro e Maio) vermo-las ali formosas e fresquinhas.

Animados, avançámos em direcção a um núcleo de palmeiras (Phoenix canariensis, muito vulgares em jardins portugueses), parte do que terá sido outrora um oásis de verdura. Apesar da sombra escassa, nos rochedos das margens notavam-se pequenas cavidades onde a temperatura era bastante mais amena. Encavalitados como cabritos, espreitámos. Começámos por ver inúmeros tufos de Cosentinea vellea, um feto de frondes peludinhas que aprecia fissuras de rochas em locais secos e soalheiros, e que suporta a desidratação por períodos prolongados. Isto está a correr bem, dissemos. Mais adiante, aconchegados à sombra de uma espécie muito comum nas Canárias, Launaea arborescens, havia também muitos pés de Caralluma burchardii, um endemismo canariense raro, da lista de espécies em perigo. Antes de descermos cautelosamente a encosta rochosa reparámos numa forma tubular roxa ondulante, escondida num desvão escorregadio e de difícil acesso — mas perfeitamente alcançável pelo fotógrafo destemido que ilustra este blogue.

Scilla latifolia Willd. [= Autonoe latifolia (Willd.) Speta]


Esta Scilla robusta, com inflorescências densas que lembram caudas de raposa, é nativa de Marrocos e das ilhas Canárias. Floresce no Outono, por isso foi uma sorte vê-la florida em Dezembro. Fortuna que parece ter bafejado apenas a nós, naquele dia de tantos visitantes ao Barranco de Las Peñitas.

20/02/2021

Passaporte falsificado



Argyranthemum maderense (D. Don) Humphries



Quem por estes dias chegar a Inglaterra vindo de Portugal, declarando falsamente ter estado apenas em Espanha, comete um crime punível com dez anos de prisão. Não sabemos se a pena é só para pessoas ou se também abrange plantas e animais de companhia. Vem a propósito recordar um episódio histórico de falsificação de passaporte, mas em sentido contrário, envolvendo um malmequer arbustivo de comprovado mérito ornamental que, na década de 1830, se instalou no Chelsea Physic Garden fazendo-se passar por madeirense quando na verdade era originário da ilha de Lanzarote, nas Canárias. O botânico e bibliotecário David Don, que em 1836 primeiro descreveu a espécie baseando-se nos exemplares cultivados nesse jardim botânico londrino, confiou nos documentos com que a planta certificava a sua espúria nacionalidade. Eis o que na sua boa-fé escreveu David Don no tomo VII (de 1836) de The British Flower Garden: “Só recentemente esta elegante espécie arbustiva foi adicionada à nossa colecção pelo Sr. Webb, da Madeira. Parece diferenciar-se distintamente das várias espécies arbustivas nativas das Canárias (...) que se enquadram, sem dúvida, no mesmo género.” Como todas as outras plantas apresentadas nessa obra, a descrição da então chamada Ismelia maderensis era acompanhada por uma ilustração primorosa, muito melhor do que as fotos hoje em dia usadas em livros de divulgação botânica.

O Sr. Webb a que se refere David Don era Philip Parker-Webb (1793–1854), co-autor, com o francês Sabin Berthelot, da monumental Histoire Naturelle des Îles Canaries, publicada em 9 volumes entre 1836 e 1850. Webb viveu vários anos nas Canárias — e, se não é impossível ter visitado a Madeira, é certo que não se lhe conhecem quaisquer estudos sobre a flora dessa ilha. A fama, nesses tempos, circulava devagar e demorava a estabelecer-se, e é perfeitamente desculpável que David Don ignorasse que Webb, cuja obra maior ainda estava por vir, residia nas Canárias e não na Madeira, onde afinal eram muitos os britânicos expatriados.

O nome genérico Ismelia, que lembra o Ismael bíblico e foi depois preterido por Argyranthemum, é motivo de alguma curiosidade. O autor do nome, o francês Henri Cassini (1781-1832), absteve-se de lhe explicar o significado aquando da sua publicação, datada de 1826. Talvez o tenha usado apenas porque lhe soou bem, o que é uma razão tão válida como outra qualquer. E é pena que as regras da taxonomia botânica tenham excluído esses malmequeres das ilhas do género Ismelia. Se assim não tivesse sucedido, talvez na Madeira e nas Canárias se falasse hoje de ismélias em vez de estreleiras ou margaritas. O género Ismelia não foi varrido dos anais da botânica, mas ficou reduzido à única espécie descrita por Cassini, a marroquina Ismelia versicolor.

Quanto ao equivocamente chamado Argyranthemum maderense, impõe-se reconhecer que este endemismo de Lanzarote — um arbusto de não mais que 70 cm de altura, florescendo entre Janeiro e Maio, com capítulos de um bonito amarelo sulfuroso — é talvez o mais atraente de um género formado quase todo ele por plantas de decidida vocação ornamental. Não é só a cor das flores (quase todos os outros Argyranthemum as têm brancas), mas também a sua abundância e o seu contraste com a folhagem glauca e luzidia. Porém, mais do que vê-lo em jardins, é emocionante encontrá-lo no seu habitat natural, que são os montes e crateras comparativamente frescos do norte de Lanzarote, em especial aqueles que formam o maciço de Famara.

06/03/2020

Salada de estrelas

São duas as estrelas, ambas de Lanzarote, que hoje disputam a nossa atenção. A referência aos corpos celestes não está apenas em Asteriscus, nome do género a que as plantas pertencem e que significa pequena estrela, mas também na própria família, Asteraceae, em que elas estão filiadas. É curioso assinalar que as estrelas não seriam para aqui chamadas se há dez ou vinte anos falássemos das mesmas plantas: em vez de Asteriscus, elas integravam então o género Nauplius; e a família Asteraceae era designada por Compositae. Dessas mudanças, a segunda reflecte apenas uma actualização da nomenclatura, em obediência à regra de que o nome de cada família botânica deve derivar do género que a tipifica e não de alguma característica morfológica das plantas da família (assim, tal como Compositae passou a Asteraceae, que vem de Aster, também Leguminosae passou a Fabaceae, que vem de Faba, e Palmae passou a Arecaceae, que vem de Areca). Quanto à substituição de Nauplius por Asteriscus, isso não corresponde a uma mudança de género, mas sim a uma absorção de um género por outro. Entendeu-se que não havia diferença relevante entre Nauplius e Asteriscus, passando os dois géneros a ser um só; e, para o género resultante da unificação, as regras da nomenclatura botânica impuseram o uso do nome mais antigo, que é Asteriscus. Ao mesmo tempo que era reforçado com novas aquisições, o género Asteriscus via-se despojado de algumas das suas espécies emblemáticas, entre elas uma das plantas mais bonitas da Costa Vicentina, que mudou de Asteriscus maritimus para Pallenis maritima. O resultado da dança de nomes é que nove das dez espécies actuais de Asteriscus eram antes Nauplius. E quatro delas são endémicas (ou quase endémicas) das ilhas Canárias.


Asteriscus intermedius (DC.) Pit. & Proust [= Nauplius intermedius (DC.) Webb]


À excepção de uma herbácea anual (A. aquaticus), os Asteriscus são plantas de caules lenhosos que formam pequenos e intrincados arbustos, com folhas sésseis, mais ou menos espatuladas, dispostas em espiral. As brácteas involucrais são longas e verdes, semelhantes às folhas, e os capítulos de centro amarelo exibem numerosas lígulas também amarelas – brancas apenas no caso do A. schultzii.

O Asteriscus intermedius (em cima) é muito frequente em Lanzarote, e é provável que seja endémico dessa ilha, sendo dúbia a sua presença em Fuerteventura. Tem uma atraente folhagem acetinada e floresce mais intensamente entre Janeiro e Junho. Os seus abundantes capítulos amarelos têm de 2,5 a 3,5 cm de diâmetro. Em Fuerteventura existe uma espécie endémica semelhante, A. sericeus, de capítulos maiores e folhas mais largas.

O Asteriscus schultzii (em baixo) compensa o porte rasteiro pela beleza da floração. Tem uma distribuição mais ampla do que o seu congénere – ocorre em Lanzarote, Fuerteventura e no sudoeste de Marrocos – mas é raro e com populações muito esparsas, e à escassez populacional junta-se a ameaça da colheita para fins ornamentais. Em Lanzarote está apenas presente na zona de Famara, tanto sobre areias como entre os matos ralos que revestem a base das falésias.


Asteriscus schultzii (Bolle) Pit. & Proust [= Nauplius schultzii (Bolle) Wiklund]

20/02/2020

Parasita graciosa

Orobanche gratiosa (Webb) Linding. [= Phelipanche gratiosa (Webb) Carlón & al.]
Para quem vive de rendimentos bem ou mal adquiridos, uma vida de sol e praia nas Canárias parece a materialização de um sonho. A chuva é um fenómeno quase desconhecido, a temperatura amena nunca exige um agasalho extra, e os dias, mesmo quando são curtos, nunca são demasiado curtos. É nestas ilhas que entendemos que uma vida sem horários nem compromissos é que é a verdadeira vida, e como é violenta e contranatura a simples ideia de trabalhar.

Há só a chatice de o mundo deixar de funcionar se o ócio passar a ser o modo de vida de toda a gente. Mesmo numa ilha vocacionada para o veraneio a tempo inteiro é preciso que alguém limpe o quarto, ponha o pequeno-almoço na mesa, mantenha restaurantes e supermercados abertos e, de um modo geral, torne possível a existência civilizada e higiénica a que julgamos ter direito. Para cada cigarra ociosa, quantas infatigáveis formigas cirandam à sua volta?

Fica assim estabelecido que as Canárias são ilhas ideais para o dolce far niente, desde que tal ocupação seja apenas o privilégio de poucos. Se procurarmos um paralelo no mundo vegetal, encontramos, nas mesmas ilhas, certas plantas que nada fazem pelo seu próprio sustento, preferindo alimentar-se à custa de outras. Chamam-se elas plantas parasitas — um adjectivo que, pela sua rudeza, evitamos aplicar às relações humanas. Dentro dessa categoria, o género Orobanche é o mais populoso do arquipélago, contando com doze espécies, três das quais endémicas. À mesma família pertence a formosa parasita amarela que encontrámos nas dunas de Lanzarote.

Uma das espécies endémicas é a Orobanche gratiosa. Adaptando o nome vernáculo que por cá costumamos dar às espécies do género, poderíamos talvez chamar-lhe erva-toira-graciosa. Contudo, isso seria um erro: o epíteto gratiosa não se refere à presumível beleza da planta mas sim à sua ocorrência na Graciosa, a mais pequena ilha habitada do arquipélago canário. O nome correcto da planta (que ocorre também em Lanzarote, Fuerteventura e Grã-Canária) seria pois erva-toira-da-Graciosa.

A Orobanche gratiosa vive em solos arenosos costeiros, aparecendo também em locais pedregosos a baixa altitude. Apresenta hastes ramificadas, de 15 a 30 cm de altura (por vezes mais), e as flores são de um tom lilás muito pálido (a O. ramosa, espécie aparentada que tembém ocorre nas Canárias, tem flores mais escuras). A sua época de floração oficial estende-se de Dezembro a Março, mas por altura da nossa visita, no final de Dezembro, ela permanecia invisível no seu habitat dunar usual. O único exemplar que avistámos morava, talvez por engano, no Barranco de Tenegüime, a uns 4 km da linha de costa e à vertiginosa altitude de 150 metros, o que é de todo desaconselhável para a saúde da planta.

05/02/2020

Giroflando por Lanzarote


Matthiola bolleana Webb ex Christ


Entre as lengalengas ou cantigas infantis que todos os portugueses de tenra idade foram ensinados a trautear avulta o Jardim da Celeste. Que nos conste, é só aí que aparecem giroflé e a sua variante giroflá, palavras que não têm qualquer uso ou significado em português corrente, embora alguns dicionários apontem girofle (sem acento) como sinónimo de cravo-da-Índia. Não seria inadequado que numa cantiga sobre um jardim as palavras desconhecidas designassem plantas, mas é só num idioma que agora as crianças não aprendem, o francês, que se revela toda a verdade sobre o giroflé. Envolve prévia operação de mudança de género, o que daria ao assunto sobeja relevância em contexto educativo. Transmudado para giroflée, palavra feminina que deve pronunciar-se carregando bem no erre, é nome de umas tantas plantas crucíferas de flores cor-de-rosa, amarelas, brancas ou vermelhas, plantas essas que por cá conhecemos como goivos. O verbo giroflar, neologismo que faz aqui a sua estreia pública, descreve pois o acto de observar goivos, por nós praticado com regularidade durante uma visita a Lanzarote.

A Matthiola bolleana, ou goivo-das-Canárias, é frequente em Lanzarote (também em La Graciosa) e, mais ainda, no sul de Fuerteventura, em dunas ou zonas pedregosas a baixa altitude. É rara nas restantes ilhas do arquipélago, e está ausente de El Hierro e de La Gomera. Trata-se de uma pequena planta perene, de 10 a 30 cm de altura, ramificada desde a base, com folhas geralmente inteiras, lineares e obtusas. As flores perfumadas, dispostas em hastes que pouco excedem o comprimento das folhas, são quase sésseis, com pétalas de uns 15 mm de comprimento, onduladas, de cor rosa-violeta mas brancas na base. Tem evidentes semelhanças com a espécie mediterrânica Matthiola fruticulosa, mas as diferenças (na forma das folhas, na coloração das pétalas, no porte geral) não são menos óbvias, e por isso é algo exagerado despromover a M. bolleana, como fazem certos autores, a simples variedade da M. fruticulosa.

À Matthiola bolleana estão associados importantes pioneiros novecentistas no estudo da flora canarina. Quem a baptizou foi o inglês Philip Barker-Webb (1793-1854), autor, com o francês Sabino Berthelot (1794-1880), de uma monumental L'Histoire Naturelle des Îles Canaries, publicada em nove volumes entre 1836 e 1844. Em nenhum desses volumes, porém, se menciona a M. bolleana, cuja primeira descrição só veria o prelo em 1887 por mão do suíço Konrad H. Christ (1833–1933), que realizou um estudo dos escritos não publicados de Webb. O epíteto refere-se ao naturalista alemão Carl August Bolle (1821-1909), que colheu a planta na península de Jandía, em Fuerteventura, aquando da sua primeira visita às Canárias, em 1852. Ao mesmo Carl Bolle se devem dezenas de descrições de novas espécies da flora do arquipélago, em especial das ilhas menos estudadas até então: Lanzarote, Fuerteventura, El Hierro e La Gomera.