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14/06/2020

Trevo do inferno



Lotus eriophthalmus Webb [= Dorycnium eriophthalmum (Webb) Webb & Berthel.]


Esbarrar na parede é muitas vezes a sina de quem procura explicação para os nomes das plantas. Vejamos o Dorycnium: ensina a Flora Iberica que o nome vem, por via latina, do grego Dorýknion, e terá sido dado na antiguidade a um pequeno arbusto de folhas prateadas a que hoje chamamos Convolvulus cneorum, e também, sem qualquer semelhança ou relação com este, à peçonhenta figueira-do-inferno (Datura stramonium). Estes dois exemplos bastam para comprovar que o termo em si é desprovido de significado, podendo ajustar-se, como um pronto-a-vestir versátil, a qualquer planta que careça de nome. O francês Tournefort (1656–1708), antecessor de Lineu, chamou Dorycnium a um género de plantas leguminosas, e o inglês Philip Miller (1691-1771), outro dos pioneiros da moderna taxonomia, acolheu a sugestão, umas décadas mais tarde, no seu The Gardeners Dictionary. Curiosamente, o nome foi também usado por Lineu, mas como epíteto específico: Lotus dorycnium foi como ele chamou ao Dorycnium pentaphyllum. De facto, muitas das espécies posteriormente conhecidas como Dorycnium (incluindo as três que são espontâneas em Portugal) foram por Lineu incluídas no género Lotus.

Os Lotus costumam ser herbáceas mais ou menos rasteiras, enquanto que os Dorycnium atingem porte arbustivo e têm geralmente caules lenhosos. Mas a flora da Madeira e das Canárias ensina-nos que bastam uns poucos milénios de evolução para que se dê o salto entre o pequeno e o grande, e entre o herbáceo e o lenhoso. Se ignorarmos o tamanho e atendermos à morfologia das folhas e das flores, a diferença entre Dorycnium e Lotus não é muito convincente. Pior ainda: a variação dentro do género Dorycnium é de tal ordem que certas espécies assemelham-se mais a alguns Lotus do que às suas supostas congéneres.

Chegados ao século XXI, os estudos moleculares vieram dar razão a Lineu, com vários artigos a sustentar que o género Dorycnium deveria ser absorvido pelo género Lotus. A maioria das espécies transferidas foi integrar uma mesma secção do género Lotus, apropriadamente chamada Dorycnium, mas entre as que ficaram noutras secções estão as três que são endémicas das ilhas Canárias. Isso significa que essas espécies (incluindo a das fotos) estão evolutivamente mais próximas de alguns Lotus convencionais (como o L. creticus e o L. azoricus) do que das suas ex-congéneres europeias (como o D. pentaphyllum). Assim, mesmo que houvesse razões para manter Dorycnium como género indpendente, as espécies das Canárias teriam que ser arrumadas noutra gaveta.

Os três “Dorycnium” canários são arbustos que podem alcançar os dois metros de altura, todos muito semelhantes, distinguindo-se pela coloração das flores e pela pilosidade (ou ausência dela) nos cálices. O “Dorycniumeriophthalmum, que ocorre em cinco ilhas (El Hierro, La Palma, Grã-Canária, Tenerife e La Gomera), é, ainda que escasso, o mais comum dos três; fotografámo-lo no Barranco do Inferno, em Tenerife. Os outros são Dorycniumspectabile, de flores rosadas, endémico de Tenerife, e Dorycniumbroussonetii, com flores de cor creme como as do D. eriophthalmum mas de cálice hirsuto, que é endémico de Tenerife e da Grã-Canária; ambos estão em perigo de extinção.

10/04/2020

Calçada das Carquejeiras

A carqueja (Pterospartum tridentatum), de que já aqui falámos, é uma planta subarbustiva muito ramificada e áspera, com folhas rudimentares reduzidas a três picos. Quando secos, os talos de abas onduladas são capazes de magoar quem lhes passe a mão. Está agora em flor (acredite, apesar de não poder ir confirmá-lo).



A designação carqueja é de facto ambígua pois há registo de três subespécies espontâneas em Portugal (ssp. tridentatum, ssp. cantabricum e ssp. lasianthum), que se distinguem facilmente pela largura das asas dos talos e pela penugem, ou falta dela, no estandarte das flores. A carqueja que abunda nas serras e matos em redor do Porto, sobretudo onde o solo é seco e rico em sílica, pertence à subespécie cantabricum.


Pterospartum tridentatum subsp. cantabricum (Spach) Talavera & P. E. Gibbs


Já quase não se usa em culinária, mas foi outrora um bem precioso. Não por ser rara, mas por ter sido essencial para acender os fornos das padarias e as lareiras, e por isso ter permitido a muitas mulheres pobres ter trabalho. Dito assim, parece ter sido um privilégio. Mas não: esta mão-de-obra feminina no transporte da carqueja para a cidade decorreu em condições próximas da escravatura, sem que o país oferecesse alternativa para a sobrevivência dessas mulheres. No caso do Porto, a história resume-se a isto. A tarefa de recolher a carqueja seca e a agrupar em molhos era feita nas serras, como a da Boneca, viajando então de barco até ao cais da Ribeira. Aí começava a dura servidão feminina (e também de alguns, poucos, homens), porque era preciso levar os molhos da beira-rio para o topo da cidade. Calcorreando uma calçada muito íngreme de piso escorregadio (uns 300 metros com um declive de cerca de 22%), mulheres e crianças descalças subiam em ziguezague, derreadas por fardos gigantescos de carqueja espinhosa (diz-se que alguns pesariam 50 quilos), como gigantescos ouriços a cambalear ladeira acima.



As carquejeiras chegavam ao topo sem fôlego, mas havia ainda que ir vender longe a carqueja, para de novo descerem a calçada e repetirem a viagem, pois o magro salário media-se em molhos transportados. José Rentes de Carvalho descreve assim, no seu livro Ernestina (Quetzal, 2009), esta estranha paisagem: “Via mais longe as mulheres da carqueja, curvadas sob molhos incríveis, subindo dos barcos «rabelos» para o cais e, Calçada da Corticeira acima, aos rodeios, com uma lentidão e persistência de insectos. A Calçada da Corticeira, ruim de subir, ruim de descer, tão íngreme que parecia um traço quase vertical na encosta.” A alternativa a este esforço desumano seria o uso de carros-de-bois que seguissem por outras vias, mas isso encareceria o preço da carqueja, do pão e dos biscoitos, ou, pior, reduziria os lucros de meia dúzia. Só em 1931 o governador civil do Porto proibiu este trabalho indigno, embora se saiba que ele persistiu por mais duas dezenas de anos pois, em Dezembro de 1951, uma inspeção sanitária às «profissionais do transporte de carqueja na cidade do Porto» dá conta de que a tragédia continua porque o desemprego se mantém avassalador.

Por iniciativa louvável de alguns portuenses genuinamente preocupados com a memória da cidade, a ladeira chama-se hoje Calçada das Carquejeiras; e, junto ao topo, foi inaugurada no passado dia 1 de Março uma estátua do escultor José Lamas que é uma homenagem e um pedido de desculpas da cidade às mulheres-de-carga.


20/03/2020

Vulnerária brigantina



Anthyllis vulneraria subsp. sampaioana (Rothm.) Vasc.



Do centro de Bragança à aldeia de Alimonde são 12 quilómetros por uma estrada com curvas moderadas que, contornando a vertente norte da serra da Nogueira, nos permite um vislumbre de alguns bonitos carvalhais de Quercus pyrenaica. Ainda mal saímos da cidade, já uma placa na estrada nos convida a exprimir, algo prematuramente, o nosso deleite com a paisagem observada: Gostei, proclama a tabuleta. Embora evitando a estridência das maiúsculas e do ponto de exclamação, quem colocou a tabuleta teve a arrogância de dar voz ao que presume serem os nossos sentimentos. Ou afinal não é bem assim, pois várias fontes asseguram que o Gostei da placa é mesmo o nome de uma povoação. Comemorará tão singular topónimo algum remoto visitante ilustre que, no final da estadia, terá proclamado, qual César em tempos de paz, vim, vi e gostei?

Deixemos o mistério para ser deslindado por algum historiador local em opúsculo editado pela junta de freguesia, e avancemos até Alimonde. No início de Junho já a Primavera vai dando sinais de cansaço, mas nos taludes florescem ainda algumas orquídeas tardias. Em vários pontos, o amarelo sulfuroso do Alyssum serpyllifolium denuncia a presença de rochas ultrabásicas. Já perto de Alimonde, em local onde os desbastes frequentes depauperaram a vegetação arbustiva, um amarelo mais vivo cobre centenas de metros quadrados de uma ladeira, penetrando no interior de um pinhal. Trata-se da versão para substratos ultrabásicos da vulnerária (Anthyllis vulneraria), uma leguminosa rasteira, com folhas pinadas e flores de cálices insuflados agrupadas em glomérulos terminais, que encontramos, sob múltiplos disfarces, em ecologias muito diversas, incluindo terrenos calcários, rochas costeiras e dunas.

Um olho não treinado em subtilezas botânicas satisfaz-se com esta diferença óbvia: no nosso país, a vulnerária brigantina é a única com flores amarelas; as outras (as das praias do noroeste ou as dos calcários do centro, por exemplo) têm-nas geralmente vermelhas ou rosadas, havendo ainda, em Trás-os-Montes, uma vulnerária anual de aspecto débil, A. vulneraria subsp. lusitanica, que dá, frequentemente, flores de cor creme. Por essa Europa fora, contudo, ou mesmo apenas na Península Ibérica, a cor das flores é fraco critério para distinguir as dezenas de subespécies de A. vulneraria. A subespécie nominal, que não ocorre nos países ibéricos mas é a mais abundante nas zonas costeiras dos países do norte da Europa, dá normalmente flores amarelas (veja-se esta foto tirada na Cornualha, em Inglaterra). Nos Pirenéus há plantas de flores amarelas que são diferentes das de Bragança, embora as opiniões a esse respeito sejam desencontradas. E ao longo da Cordilheira Cantábrica, em substratos calcários, encontra-se a subsp. alpestris, igualmente de flores amarelas.

Como se explica tal variabilidade dentro de uma só espécie? Sabe-se que a Anthyllis vulneraria tem uma forte tendência para a autogamia. Com isso, as diversas populações ficam reprodutivamente isoladas, acabando por desenvolver peculiaridades morfológicas que podem justificar algum reconhecimento taxonómico. Nem todos os autores valorizam por igual essas variações: as subespécies reconhecidas por uns podem não o ser por outros, e o âmbito geográfico de certa subespécie pode ser mais ou menos amplo de acordo com a interpretação que dela se faz. O exemplo da A. vulneraria subsp. sampaioana é esclarecedor: para alguns, trata-se de um endemismo das rochas ultrabásicas do nordeste português; para o revisor do género na Flora Iberica, exactamente a mesma subespécie ocorre nos Pirenéus e nos Alpes.

19/06/2019

Louro de bico dourado



A costa norte de Tenerife, marcada por falésias abruptas, tem poucas praias para uso balnear. Aqui não chegaram (ainda?) os aldeamentos turísticos massificados que tomaram de assalto a costa sul da ilha, e a afluência de forasteiros é moderada. No entanto, as povoações sucedem-se continuamente, e não há pedaço de costa acessível ao visitante que não esteja marcado pela intervenção humana. Mas isso não significa que o coberto vegetal seja desinteressante: como sucede em quase toda a ilha (e na generalidade do arquipélago canário), a maioria das plantas que encontramos são nativas ou mesmo endémicas que se adaptaram ao destrutivo convívio humano. O Puertito del Sauzal é uma zona de fácil acesso, muito visitada, com caminhos pavimentados que podemos percorrer nas calmas, sempre à vista das rochas negras batidas pelo mar. O estacionamento é amplo, e o único inconveniente é a estrada íngreme até lá não permitir em muitos pontos o cruzamento de dois carros. O constante rodopio de visitantes não parece ter provocado, porém, mudanças muito notórias no elenco das plantas que enfeitam as falésias. Todas as plantas que aparecem na foto acima são cidadãs de pleno direito da ilha e daquele local: não há vislumbre de plantas exóticas ou infestantes. A intervenção humana é, neste caso, paradoxalmente revelada pelo aspecto natural e "intocado" da paisagem. Este lugar, apesar da intensa visitação, insere-se numa área de paisagem protegida, e é muito provável que a ausência de plantas indesejáveis se deva a um controlo activo.


Lotus maculatus Breitf.
A coroa de glória da Paisaje Protegido de la Costa de Acentejo, de que o Puertito del Sauzal faz parte, é uma planta leguminosa rasteira de flores douradas, pontiagudas, com laivos avermelhados, de seu nome Lotus maculatus, conhecida popularmente como pico de paloma. O mesmo nome popular é atribuído ao também tenerifenho Lotus berthelotii, com flores vermelhas, que apresenta um aspecto geral semelhante e vive (ou vivia) nas zonas montanhosas da ilha. A boa fortuna que os dois bicos-de-pomba (convertidos em bicos-de-papagaio para efeitos de exportação) alcançaram no mundo da jardinagem contrasta com o triste destino das suas populações naturais: no Atlas y Libro Rojo de la Flora Vascular Amenazada de España (datado de 2004), os dois Lotus foram considerados em "Perigo Crítico", e de facto ambos estão em grave risco de extinção na natureza. Os números referidos no Libro Rojo eram alarmantes: do Lotus maculatus sobrariam uns 10 exemplares, todos no Puertito del Sauzal, já que a planta desparecera do seu outro local conhecido de ocorrência (um dos ilhéus de Anaga); e o Lotus berthelotii, permanecendo embora em dois locais com uma vintena de exemplares em cada um deles, na prática já se teria extinguido se não tivessem sido realizadas acções de reforço populacional (todas as plantas existentes à data, excepto uma, provinham dessas acções).


Lotus maculatus Breitf.


A grande raridade destes Lotus na natureza não se deve apenas (nem talvez principalmente) às acções humanas directas ou indirectas. É sabido, por exemplo, que o Lotus berthelotii é auto-incompatível (o pólen de uma planta é incapaz de fecundar as flores da mesma planta) e que a produção de sementes viáveis é um evento raríssimo. Já o Lotus maculatus parece ser auto-compatível, mas a sua taxa de reprodução em ambiente natural é muito baixa. A estes problemas intrínsecos juntar-se-iam factores externos, que no caso do L. maculatus parecem ter sido mitigados: já não há rebanhos de cabras ou ovelhas a pastar na zona, e o acesso ao local onde se acolhe a planta foi condicionado. Na nossa ingenuidade, imaginávamos chegar lá sem problemas, bastando descer por um escadote de ferro preso à rocha para atingir o extremo do promontório. Mas um aviso (não podemos fingir que não entendemos castelhano) dizia que o acesso era só para pessoas autorizadas, e um helicóptero sobrevoando insistentemente as nossas cabeças parecia estar à espreita de um acto de desobediência da nossa parte para de imediato entrar em acção. Forçados a retroceder, acabámos por encontrar, a umas centenas de metros, uns exemplares do desejado Lotus maculatus protegidos por redes: pelo menos uma dúzia, e vigorosos, um deles tendo já saltado a vedação e crescendo sob o resguardo de um muro. Esse visível sucesso na reintrodução da planta em pequenos nichos favoráveis permite olhar o seu futuro com algum optimismo.

01/05/2019

Histórias da Lista Vermelha: Genista berberidea

Quando se invoca a necessidade da limpeza de matos para minorar o risco de grandes incêndios, é de giestas, tojos e urzes que estamos a falar. Mais recentemente, esses arbustos passaram simplesmente a ser chamados de combustíveis, como se o facto de arderem quando se lhes pega fogo os singularizasse entre tudo o que existe à face da Terra. Assim, em vez de limpeza de matos ganhou voga a expressão controlo de combustíveis, tarefa para a qual pareceriam mais vocacionados os proprietárias de postos de gasolina do que os velhos aldeões do nosso despovoado interior.

Uma característica irritante do mato é que depois de cortado (ou de ardido) ele rapidamente volta a crescer. Desta verdade elementar parecem não ter noção aqueles citadinos que lamentam haver ainda, passado mais de ano e meio sobre os catastróficos incêndios de 2017, tanto mato para desbastar por esse país fora. Mesmo que se lhes mova guerra sem tréguas, com o país invadido por afincados exércitos de roçadores, as giestas, tojos e urzes crescerão sempre mais depressa do que podem ser cortadas.

Parece assim ponto assente que essa classe de plantas não tem problemas em crescer e multiplicar-se, e delas não esperaríamos que integrassem uma lista vermelha da flora. Se por absurdo estivessem em risco, então a guerra contra elas estaria a ser ganha, com a consequente diminuição generalizada do risco de incêndio. Quem acharia isso uma má notícia? Resposta: todos aqueles para quem "ecologia" não é palavra oca e que não anseiam por viver num deserto.



Genista berberidea Lange



O problema é que nomes como "giesta" ou "tojo" aplicam-se a uma profusão de diferentes plantas leguminosas, algumas vulgares ou mesmo abundantes em vastas zonas do país, outras raras e ameaçadas, por vezes com áreas de distribuição muito restritas. Só do género Genista existem em Portugal continental quinze espécies. Às que são espinhosas, como a que mostramos nas fotos, é costume chamar tojos, embora essa designação seja mais própria dos arbustos do género Ulex, de que também não são poucas (dez) as espécies portuguesas.

Na Lista Vermelha da Flora de Portugal, a Genista berberidea está classificada como "Vulnerável". É um arbusto que atinge metro e meio de altura e se apresenta como um emaranhado de ramos espinhentos, com as folhas curiosamente aglomeradas nas extremidades dos curtos raminhos laterais. Endémico da Galiza e do noroeste de Portugal, vive em turfeiras, prados húmidos e margens de linhas de água. A sua presença foi assinalada na serra do Caramulo, no Grande Porto e em vários locais do Minho; mas a destruição generalizada do habitat fez com que hoje em dia, na maioria dos raros lugares onde subsiste, ele surja em muito escasso número. A única excepção a este triste panorama acontece no topo da serra de Arga, onde se mantém uma boa população totalizando duas a três mil plantas, perfeitamente adaptadas à herbivoria de vacas e garranos. Na Primavera de 2018, um frio inesperado, com neve à mistura, atrasou por algumas semanas a floração, que decorre por um período curto e costuma iniciar-se nos finais de Março.

O epíteto berberidea não remete para o norte de África, mas sim para o género Berberis, com o qual Johan Lange (1818–1898), que baptizou esta Genista, considerou ter ela afinidades. De facto, tanto a Berberis vulgaris como a Genista berberidea são pequenos arbustos espinhentos, e as folhas de ambos não são totalmente dissemelhantes.

15/05/2018

Ervilhas quadradas

Tantas plantas, tão sábias e tão silenciosas! Desde o início, parecem sobreviver sem apelar a sons, embora não saibamos se o nosso ruído as beneficia, as desgosta, ou se nem reparam nele. Experimentamos esse mundo surdo e mudo em que a flora vegeta quando passeamos em locais onde não se ouvem passarinhos ou rãs, nem o quebrar de folhas sob os pés, nem o embate da chuva no chão. Um sossego, retemperador para os desgastados pela agitação da cidade, dirão; mas a proximidade do vazio é pouco agradável, e o nada no escuro causa mesmo algum receio. Todavia, se alguma vez as plantas adquirirem voz que oiçamos, com as árvores animadas em longas conversas nas noites de Verão, as herbáceas a cavaquearem diariamente e as flores a sussurrarem entre si sem descanso, teremos de abandonar o planeta para local mais sereno.


Tetragonolobus maritimus (L.) Roth


Até lá, conversemos sobre ervilhas quadradas. O termo ervilha tanto designa a semente polposa de algumas fabáceas (tal qual as que se usam no arroz-de-ervilhas), como se refere à vagem que as contém. Este invólucro das sementes é espalmado no feijão-verde mas não no caso da planta das fotos. O fruto dela tem secção transversal que parece um anel com quatro apêndices exteriores. O arranjo resulta da presença de quatro asas salientes nas duas faces da vagem, que, como é usual nestes frutos, se abre ao longo de duas costuras para libertar as sementes. Essas asas formam os quatro ângulos a que alude o nome tetragonolobus; a configuração final sugeriu uma curiosa designação vernácula para este género de plantas, dente-de-dragão. Não havia ainda frutos do T. maritimus para fotografar, mas pode verificar este pormenor morfológico nas imagens do Tetragonolobus conjugatus ou do Tetragonolobus purpureus, duas espécies que ocorrem em Portugal continental. Ou, em alternativa, analisar os diagramas elucidativos da Flora Ibérica.

O T. maritimus é espécie perene, de folhas glaucas e exuberantes flores amarelas com o dorso do estandarte pintalgado de vermelho. Nativa da Europa, norte de Africa e Ásia, floresce no Verão e, diz a Flora Ibérica, aprecia prados húmidos em pleno sol. Os exemplares que vimos em Soncillo, na província de Burgos (Cantábria), cobriam luxuriantes o (de resto deselegante) talude do caminho que acompanha uma das margens do ribeiro Saúl.

24/04/2018

A avidez dos burros


Onobrychis viciifolia Scop.


Há quem veja em cada flor precoce um anúncio da Primavera e um motivo de regozijo. Aos olhos inocentes desses panteístas, as plantas que florescem normalmente no Inverno, como os narcisos ou as camélias, cometem um erro de calendário com o único intuito de nos encher de alegria. Quem pratique essa admiração ingénua pelas obras da natureza há-de embevecer-se ao contemplar, em Janeiro ou Fevereiro, as margens de um rio pintadas do amarelo das mimosas em flor, ou um prado brilhando com o amarelo pálido das azedas (Oxalis pes-caprae). O equívoco, nesse caso, é duplo: tão exuberante floração não é sinal de Primavera, mas sim de Inverno, que é a estação em que tais flores aparecem; e essas invasoras em flor não são uma amostra da força regeneradora da natureza, mas sim uma prova dolorosa do estado de degradação a que nós, humanos, reduzimos essa mesma natureza.

Mesmo nesta coisa de flores silvestres, há pois que aprender a desconfiar dos efeitos fáceis. Podemos, num primeiro instante, admirar os campos revestidos de flores todas iguais, mas depois convém saber de onde elas vieram, se deveriam estar ali, e se a sua presença massiva não significa afinal uma perda de biodiversidade. Em Maio do ano passado, entre Reinosa e Fontibre, na Cantábria, tivemos oportunidade de pôr à prova estes ensinamentos. A planta que tentou seduzir-nos pelo vermelho artificioso das suas flores pintava muitos quilómetros de berma de estrada. Resistindo estoicamente a tão desbragado assédio, parámos para uma sessão fotográfica que serviria de base ao posterior auto de identificação. Lavrou-se de seguida (quase um ano depois) a competente nota de culpa, que se transcreve abaixo.

Culpa afinal moderada, e com várias circunstâncias atenuantes. A Onobrychis viciifolia, planta perene de uns 70 cm de altura, é talvez exótica na Península Ibérica, mas não há certeza disso. É uma daquelas plantas que durante séculos foram cultivadas para forragem e das quais não se sabe a origem exacta, admitindo-se que seja nativa da bacia mediterrânica, daquela região onde a Europa se vai confundindo com a Ásia. Ao contrário do que sugere o nome científico, a planta não era consumida só por burros: gado de todos os tamanhos e feitios considerava-a um pitéu delicioso. Não foi por os bichos se queixarem dela que a planta deixou de ser cultivada em meados do século XX, mas por se ter dado preferência a outras leguminosas forrageiras (sobretudo trevos e luzernas) de maior produtividade. Como podemos levar a mal que uma planta apátrida, mas certamente europeia de origem, se tenha naturalizado, a uma escala afinal modesta, naqueles países europeus onde foi um importante recurso agrícola? Assim sendo, já estamos autorizados a declará-la bonita e a sentirmo-nos felizes quando a vemos florir numa berma de estrada.

27/03/2018

Super-chícharo das altas montanhas



Lathyrus laevigatus subsp. occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Breistr.
[sinónimo: Lathyrus occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Fritsch nom. illeg.]


As altas montanhas onde vive o super-chícharo são os Alpes, os Pirenéus e a cordilheira cantábrica. Não é nos cumes gelados que ele encontra o seu lugar, mas no aconchego reconfortante dos bosques das encostas e do sopé dos montes: segundo a Flora Iberica, a sua zona de conforto altitudinal situa-se entre os 400 e os 2100 metros. E foi a uns 1000 metros de altitude, numa estrada sinuosa ensombrada por faias (Fagus sylvatica), que o aviso laranja dos seus cachos de flores nos obrigou a uma paragem de emergência.

O nome super-chícharo que atribuímos a este Lathyrus justifica-se pelo espanto de boca aberta que ele nos provocou. Só uma demorada consulta dos manuais nos permitiu enquadrá-lo num género ao qual nunca suporíamos que pertencesse. As espécies de Lathyrus em Portugal (confira aqui), ainda que muito variadas, não têm flores desta cor, nem dispostas em espigas como velas acesas. As folhas compostas pinadas, desprovidas de gavinhas, são tão grandes que fazem lembrar as das glicínias (Wisteria sinensis). E os caules erectos e robustos não são guarnecidos pelas membranas laterais que caracterizam muitos dos nossos chícharos (exemplos: 1, 2).

Tratando-se de planta tão vistosa, quem viva em climas temperados mas frescos pode até encomendar sementes para com ela ajardinar o bosque nas traseiras de casa. A fama e do proveito não a livram contudo da controvérsia taxonómica, havendo quem a subordine, como subespécie, a Lathyrus laevigatus, e outros que a promovem a espécie autónoma, sob o nome de Lathyrus occidentalis. A primeira opção parece mais razoável, porque as diferenças entre a subsp. occidentalis (de que aqui tratamos) e a subsp. laevigatus (que ocorre na Europa do Leste e na Rússia ocidental) são de pouca monta, resumindo-se à indumentação (a primeira é algo pubescente, a segunda quase glabra), à largura dos folíolos (os da segunda são um pouco mais largos) e ao comprimento dos dentes do cálice. A Flora Iberica alinhou pelos autonomistas, mas o nome que escolheu padece de ilegalidade: Karl Fritsch, ao chamar em 1895 Lathyrus occidentalis a esta planta, repetiu um nome que tinha sido usado em 1838 por Thomas Nuttall para designar uma espécie completamente diferente (tida hoje como sinónimo de Lathyrus palustris L.). Quando um mesmo nome é usado para coisas diferentes, o Código Internacional de Nomenclatura Botânica (ICBN) impõe que só é aceite o uso validado pela publicação mais antiga. Resumindo: para poder apresentar-se como espécie independente, falta a este super-chícharo um nome válido à luz do ICBN.

03/05/2017

Maias da Madeira

Este é um mês venturoso para as giestas, piornos e tojos. Com folhagem nova, alindam os taludes das estradas com racimos de flores de um amarelo sedoso. No campo, de espinhos afiados (os que os têm) para evitar o gado predador, rescendem a frutos verdes. E por todo o lado, mas em murmúrio, a tradição atribui-lhes o poder de esconjurar o mal. Noutros tempos, os ramos unidos eram também ágeis vassouras ou boa lenha para o fogão, e havia ainda espécies usadas no fabrico de tinta. Algumas, muito melíferas, constituem no início das Primavera fonte importante de alimento para as abelhas que, agradecidas, nem notam que as flores se abrem como se explodissem, soltando uma chuva de pólen que aterra no dorso dos polinizadores. Um truque que talvez justifique o sucesso destas fabáceas, de que a Península Ibérica e a região mediterrânica abrigam dezenas de espécies.

A giesta-da-Madeira (Genista tenera, a que a Flora de JT Press e MJ Short chama giesta de piorno) é um arbusto endémico da ilha da Madeira, ocorrendo em lugares soalheiros e secos de ravinas perto do mar e penhascos de montanha. Perene e coberto por um indumento acetinado, não cresce além dos 2,5 metros mas exibe flores grandes entre Março e Julho. Os frutos são vagens espalmadas, com um gancho na ponta e contendo muitas sementes acastanhadas.



Genista tenera (Jacq. ex Murray) Kuntze


A segunda leguminosa que vos mostramos hoje é também endémica da Madeira (e da Deserta Grande) - e, tal como a primeira, é conhecida na ilha pelo nome popular de piorno. Já se chamou Genista maderensis (Webb & Berthel) Lowe, assim como Cytisus maderensis (Webb & Berthel.) Masf., e com razão. De facto, as suas flores têm o cálice como os do género Genista, mas a semente é mais parecida com as do género Cytisus. Por isso, houve quem propusesse que deveria pertencer, com outras espécies das Canárias, a um género próprio, Teline.

Esta maia da Madeira (Teline maderensis) é um arbusto perene que pode chegar aos 6 metros de altura, de ramos penugentos e folhas trifoliadas, com folíolos mucronados de cor verde acinzentada. Prefere a laurissilva, mas também se encontra em escarpas junto ao mar, especialmante na Fajã da Ovelha e em São Vicente. As versões marítima e de montanha diferem sobretudo na cor do indumento, de prateado a castanho, e no tamanho do ápice aguçado dos folíolos. Pormenores que levam alguns taxonomistas a distinguir duas variedades, Teline maderensis var. maderensis e Teline maderensis var. paivae.


Teline maderensis Webb & Berthel.