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04/02/2019

Grafonola altaneira


Convolvulus floridus L. f.



As cores muito olhadas e admiradas são mais altas - como uma torre - e as cores irrelevantes são mais baixas. E sobre todos os fenómenos do mundo, e da tua casa, poderás colocar essa grelha de perceber, que são as dimensões: grande e pequeno.

Tudo tem dentro de si espaço para ser pequeno ou grande. E até as coisas inchadas têm dentro de si oportunidade para serem minúsculas.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, Caminho 2010

13/09/2014

As grafonolas do Porto Pim


Faial: praia do Porto Pim

O cronista Gaspar Frutuoso (1522-1591) faz menção ao Porto Pim no sexto livro das suas Saudades da Terra por ser então o melhor porto das ilhas, excepto quando o vento sudoeste o fustigava. De facto, é uma enseada larga de areia escura, em costa rasa, a formar uma praia extensa como não é frequente encontrar nos Açores. Confirmámos como é batida por ventania, que levanta a areia fina e incomodaria os apreciadores de praia se acaso por lá estivesse algum. No topo do morro que emoldura o porto resta algum do património imóvel da família Dabney na Horta; por perto está uma antiga fábrica, hoje felizmente só museu, de produtos baleeiros e, mais adiante, um centro de interpretação para os turistas aprenderem o que é, e como vive, uma baleia. Ao contrário das praias de pedra viva, ou biscoito, em cujos interstícios encontramos muitas plantas (azorinas, camarinhas, lótus, cubres, miosótis, eufórbias, fetos, etc.) e inúmeros ninhos, as areias de Porto Pim são quase um deserto. Com atenção, porém, descobrimos que mora ali uma planta rara, a que os ingleses chamam beach morning-glory.



Ipomoea imperati (Vahl) Griseb.


Lembra certa trepadeira roxa que é invasora no continente e ilhas, pertence ao mesmo género e tem origem na América trópical e talvez na região mediterrânica. Aprecia sítios expostos junto ao mar, tem hábito rastejante e dá-se bem nas dunas primárias. Poderia confundir-se com a prima Calystegia soldanella, mas a distinção entre elas é fácil até pelas folhas. A grafonola açoriana tem flores em geral solitárias, com duas brácteas sésseis no pecíolo de cada flor, que a mantêm erecta, um cálice de cinco sépalas e uma corola branca tubular, com um centro amarelo ou manchado de púrpura. Abrem ao nascer do sol e murcham na tarde do mesmo dia.

A primeira citação desta espécie nos Açores é de Watson (1843-44) e o registo é precisamente do Porto Pim. Em 1932, Tutin e Warburg encontram-na na ilha do Pico, num só local próximo da Madalena e, em 1973, Hansen e Pinto da Silva referem duas outras localizações, desta vez na ilha Terceira. Para esta escassez há muitas conjecturas. Primeiro, as raízes podem afastar-se até 2 metros do centro da planta mas não são muito profundas, por isso não sobrevivem a temporais que movimentem demasiado as areias na costa; além disso, apesar da proximidade ao mar, esta é uma planta terrestre cujas sementes têm pouca viabilidade se ficarem submersas por um período longo; finalmente, parece que os insectos polinizadores, que utilizam a corola como plataforma de pouso e têm de se empinar, de costas, para lamber o néctar no fundo do cálice, receiam os perigos de uma tal exposição e preferem as grafonolas de cores escuras que lhes dão melhor camuflagem. Se juntarmos a isto o facto de esta planta não se auto-fertilizar, e o infortúnio de as plantas novas não vingarem junto das adultas, entendemos como é pequena a produção de sementes e ineficiente a sua dissseminação. Resta acrescentar que também é rara na Madeira (foi anunciada em 2002 uma população numa praia de Porto Santo) e que, ao que se sabe, ocorre num só local em Cabo Verde.

O nome imperati refere-se ao boticário italiano Ferrante Imperato (1550-1625), viajante incansável e autor de uma Historia Naturale.

11/06/2010

Três cores em convulsão


Convolvulus tricolor L.

Esta planta já veio ataviada para fazer do jardim a sua casa de eleição. Uma tão caprichosa combinação de cores em planta não tropical costuma ser o resultado de hibridações e apuramentos sucessivos praticados por pacientes viveiristas. Mas a corriola-das-três-cores, planta mediterrânica que ocorre de Portugal até à Grécia e ainda no norte de África, já é assim vistosa de sua própria natureza. E, se ao azul-branco-amarelo das flores adicionarmos o verde das folhas e o avermelhado das hastes, são cinco as cores de que ela se veste: quase um arco-íris a rasar o chão.

Aqui vão os dados biográficos que as fotos não revelam: a Convolvulus tricolor é perene mas de vida curta; tem um hábito rastejante e não costuma ultrapassar os 60 cm de altura; cada flor (com cerca de 4 cm de diâmetro) dura um dia só, mas a floração é abundante e prolonga-se de Março a Junho; a sua distribuição em Portugal parece cingir-se a sebes, vinhas e pomares do centro e do sul.

Foi num olival a caminho da Fórnea, na Serra dos Candeeiros, que a encontrámos. Trata-se de uma exploração tradicional: as árvores vivem com a água que cai do céu e as plantas herbáceas não são inimigas a exterminar. Coisa muito diferente são os olivais de regadio para produção intensiva que se têm vindo a multiplicar no Alentejo, e que são talvez, como aqui se pode ler, a ameaça mais séria à rica biodiversidade da região.

10/06/2010

Rodou três vezes


Convolvulus fernandesii P. Silva & Teles

.....Endemismo lusitano, exclusivo da Serra da Arrábida.



Arribas do Cabo Espichel

12/10/2009

Enleia-me nos teus cabelos


Cuscuta campestris Yunck.

Ao contrário de outras parasitas, que, apesar de causarem estranheza a olhares mais atentos, ainda se conseguem disfarçar de plantas convencionais, a Cuscuta tem uma aparência decididamente extra-terrestre. A sua vocação é protagonizar filmes catastrofistas em que alienígenas malignos invadem a Terra para saquear e destruir. Uma vez definido o alvo, a Cuscuta lança os seus tentáculos sobre as vítimas, enredando-se nelas como se quisesse estrangulá-las, ao mesmo tempo que as penetra com orgãos sugadores (chamados haustórios) para lhes chupar a seiva. Não produz clorofila, e por isso o seu sustento depende inteiramente da planta hospedeira; e, como cedo se livra das raízes, por elas de pouco lhe servirem, nem sequer vive agarrada à terra. Leva uma existência aérea, como peruca mal-amanhada que o bom senso e o bom gosto são impotentes para descartar.

Apesar de amaldiçoada pelos agricultores, a Cuscuta (género cosmopolita, com mais de 150 espécies, presente nos cinco continentes) já gozou de algum prestígio medicinal: a C. epythimum, uma das espécies europeias mais comuns, era usada, não se sabe com que eficácia, para combater maleitas da vesícula, baço e fígado, e em especial para tratar a icterícia. E em Portugal, há que reconhecê-lo, a Cuscuta não constitui problema: é uma planta pouco comum e, tendo um ciclo de vida anual, não chega a incomodar seriamente as suas hospedeiras. Por contraste, há espécies de climas quentes que, crescendo continuamente durante anos a fio, conseguem revestir as copas das árvores com amplas cabeleiras rosadas ou cor de palha.

É algo problemático distinguir entre si as três ou quatro espécies de Cuscuta espontâneas em Portugal. A planta da foto não é certamente a C. epythimum, que tem galhos avermelhados e flores cor-de-rosa. Por exclusão de partes, e atendendo às melenas alaranjadas e às flores brancas com um toque esverdeado, julgamos tratar-se da C. campestris. Encontrámo-la nas cercanias da Pateira de Fermentelos, parasitando duas espécies de asteráceas: Bidens tripartita e Xanthium strumarium.

31/07/2009

Traços de família


Convolvulus althaeoides L.

Com possível excepção de Jesus Cristo, ninguém escolhe a família em que nasce. Devemos, pois, lutar contra o preconceito, e julgar cada indivíduo pelas suas qualidades intrínsecas. Essa regra de conduta vale tanto para o mal como para o bem: o filho do ladrão só é criminoso se tiver cometido um crime, e o filho da nobreza só é excepcional se os seus feitos assim o comprovarem.

Está bem, está bem, mas é ou não verdade que quem sai aos seus não degenera e que filho de peixe sabe nadar? (Este povo é incorrigível, sempre de lugar-comum engatilhado para abortar qualquer embrião de pensamento.) Ou, adaptando o chavão ao reino vegetal, é ou não verdade que filha de invasora sabe invadir?

Saber, lá isso sabe, mas a verdade é que não invade muito, pois a Convolvulus althaeoides (ou corriola-rosada), ainda que espalhadiça como quase todas as convolvulácias, tem uma distribuição esparsa em território nacional. (Globalmente, é nativa da Península Ibérica e dos países da bacia mediterrânica.) Com vistosas flores cor-de-rosa de 4cm de diâmetro produzidas de Abril a Agosto, e folhas recortadas fazendo lembrar as da malva, a sua beleza valeu-lhe ser cultivada nos jardins do norte da Europa. Mas não sem cautelas: para evitar a propagação descontrolada, recomenda-se que seja plantada em vasos ou noutros recipientes enterrados no solo.

Encontrámos esta planta no final de Maio, à margem de uma das estradas que serpenteiam pela Serra dos Candeeiros. A experiência ensinara-nos que as plantas da serra (e de outros lugares semelhantes) se dividem em duas classes disjuntas: as que vegetam junto às estradas, e as que enfeitam os percursos pedestres recomendados para visitantes. Por isso, sabendo que não a reencontraríamos, não hesitámos em parar o carro. Às vezes dá pena que nas auto-estradas não dê para fazer o mesmo. Será para evitar atitudes como esta de algum botânico amador tresloucado que nas auto-estradas portuguesas se rapa à escovinha a vegetação dos taludes?

27/07/2009

Corriola-campestre


Convolvulus arvensis L.

A corriola-campestre, pequena herbácea trepadeira ou rastejante do género Convolvulus, é a terceira convolvulácia malcomportada, europeia como a Calystegia silvatica, que aqui apresentamos por ordem decrescente de malignidade. Esta hierarquia de danos vale em território português, mas não noutras paragens: nos Estados Unidos, por exemplo, a corriola é uma invasora de campos agrícolas que provoca enormes prejuízos. Em Portugal, porém, como planta nativa que é, ela tem todo o direito de existir, e não é raro encontrá-la em jardins sem ter sido convidada. Porque é bonita, não fica deslocada nem se deixa intimidar pelas plantas com pedigree; até lhes acrescenta alguma graça, como sucedeu no jardim da praça da Galiza, onde resolveu enredar-se numa bordadura de alfazemas. E, apesar de vadia, dá-se ares de aristocrata: em dias em que o sol não aparece, fecha-se em casa e recusa-se a mostrar as flores (que são pequenas e delicadas, com não mais que 2,5 cm de diâmetro).

Em suma, uma vadia com estilo, que é um gosto receber em casa. Se ela quisesse, bem que podia instalar-se na floreira que temos à janela, desocupada desde que os últimos inquilinos, débeis plantas de viveiro, sucumbiram a um ataque de afídios.

24/07/2009

Bom dia, glória da manhã


Calystegia silvatica (Kit.) Griseb.

Eis uma versão com flores brancas da trepadeira que aqui denunciámos como perigosa invasora. As duas plantas, com folhas e flores semelhantes (8 a 9 cm de diâmetro), até são conhecidas em Portugal pelo mesmo nome: bons-dias. É sabido, porém, que os nomes vernáculos originam grandes confusões, sugerindo parentescos que na verdade não existem. Bons-dias é como nós chamamos à generalidade das plantas convolvuláceas, com flores em forma de funil ou de altifalante. Nos países de língua inglesa, os britânicos usam bindweed e os americanos preferem morning glory. O primeiro nome é pragmático: essas plantas exibem muitas vezes um comportamento desregrado (são weeds - ou plantas daninhas), e têm por hábito agarrar-se (bind) às outras. Morning glory, nome poético, explica-se por as flores (que são realmente bonitas, talvez gloriosas) abrirem de manhã e durarem poucas horas: a meio da tarde, em regra, já estão murchas. Os nossos bons-dias representam uma terceira via entre o pragmatismo e o embevecimento: observamos que as flores desabrocham de manhã, cumprimentamo-las educadamente, mas abstemo-nos por timidez de lhes comentar o aspecto.

Posto que em menor grau do que os bons-dias azuis, estes bons-dias brancos também podem ser infestantes e cobrir largas manchas de terreno; é isso que documenta a primeira foto em cima. Acontece que a Calystegia silvatica está praticamente a jogar em casa, e por isso lhe desculpamos estes desmandos: não sendo embora espontânea em Portugal, é originária do sul da Europa, da Espanha até à Turquia.

Dadas as semelhanças entre os dois géneros, como distinguir a Ipomoea da Calystegia? Se o leitor comparar as fotos de perfil, verifica como são diferentes os cálices de uma e de outra flor. Na Calystegia há duas brácteas (folhas modificadas) que envolvem e escondem as sépalas; na Ipomoea as sépalas estão bem visíveis. (Esquecendo termos técnicos, as flores da Calystegia têm um cálice reforçado, muito mais gordo que o da Ipomoea.)

Ainda que menos comum, existe também a Calystegia sepium, essa sim espontânea em Portugal e muito semelhante à C. silvatica. Contudo, dá flores um pouco mais pequenas (de 5 a 7 cm), e as brácteas que envolvem o cálice não têm a base inchada, como visivelmente têm na C. silvatica. (Pode ver a flor da Calystegia sepium aqui.) E, claro está, há a Calystegia soldanella, plantinha cosmopolita que dá cor e graça às dunas de todo o mundo.

23/07/2009

Manhã de Verão


Ipomoea acuminata (Vahl) Roemer & Schultes [bons-dias, glória-da-manhã]

......Manhã, tão bonita manhã
......Na vida, uma nova canção

......Luís Bonfá, Manhã de Carnaval


Um dos poucos serviços públicos que em Portugal nunca desilude os utentes é aquele que tem por incumbência fornecer-nos estridências musicais quando circulamos a pé pelas ruas do nosso Verão. Quem não puder ter IPod (é favor ler «ai pode?», com ponto de interrogação e tudo, não vá escapar-lhe o trocadilho) nem por isso andará com os ouvidos desocupados, e é aí que reside a essência do serviço público: os que tiverem posses e pose para tanto adquirem no sector privado a sua fonte sonora para exclusivo ensurdecimento pessoal; os desabonados ou botas-de-elástico, por seu turno, têm para seu uso (mesmo que involuntário) o caudal sonoro gratuito e universal que a empresa pública Verões de Portugal faz chegar aos altifalantes instalados em todas as nossas ruas, do Minho até ao Algarve.

Foram as flores desta Ipomoea, reminiscentes, como todas as da família Convolvulaceae, das velhas grafonolas, que me suscitaram este devaneio para-musical. Mas outros paralelismos podem ser invocados: à semelhança dos altifalantes nas ruas, estas flores aparecem sobretudo no Verão; tanto eles como elas estão por todo o lado; e, tal como a música na via pública se cala pelo final da tarde, também as flores só estão abertas durante o dia.

A Ipomoea acuminata, originária da América tropical e do Havai e introduzida no nosso país como ornamental, é uma das 30 espécies classificadas como invasoras em território nacional pelo Decreto Lei 565/99. Planta herbácea trepadeira, multiplica-se vegetativamente (qualquer fragmento de caule pode dar origem a uma infestação) e forma espessas mantas em jardins abandonados: cobre muros, riachos e taludes, e é mesmo capaz de sufocar árvores. Essa vocação expansionista é partilhada por muitas plantas convolvuláceas; mesmo em Portugal outras há, de origem europeia, que merecem ser denunciadas pelo seu mau comportamento (coisa que faremos oportunamente).

A agravar o currículo desta planta, há, entre as mais de quinhentas congéneres suas, várias delas (Ipomoea tricolor, I. violacea e I. purpurea, por exemplo) que produzem sementes de onde se extrai o ácido lisérgico, base do famoso psicotrópico LSD, que tanta música pop alucinada deu ao mundo. Música que você, amigo leitor, não escapará de ouvir este Verão, como em todos os verões anteriores, num altifalante demasiado perto de si.

01/10/2007

Dia Mundial da Música


Calystegia soldanella, grafonola-da-praia

A imagem associa-se hoje à histórica marca discográfica His Master's Voice: um cachorro pintado por Francis Barraud a ouvir atentamente a voz do dono através do que alguns consideram ser uma trompa ou um megafone, mas, conjecturamos nós, é de facto a flor desta Convolvulaceae. Entende-se agora a origem dos ruídos que acompanhavam as audições dos discos de vinil: as espirais que guiavam a agulha tinham ondas de mar, sons de búzios e alguma areia. Para assinalar a efeméride do título, eis a solução há tanto esperada deste mistério.