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04/04/2018

Narciso amarelo-limão


Narcissus bulbocodium subsp. citrinus (Baker) Voss [sinónimo: Narcissus gigas (Haw.) Steud.]
Referindo-se, uma vez, ao conceito directo das coisas, que caracteriza a sensibilidade de Caeiro, citei-lhe, com perversidade amiga, que Wordsworth designa um insensível pela expressão:

A primrose by the river's brim
A yellow primrose was to him
And it was nothing more.

E traduzi (omitindo a tradução exacta de primrose, pois não sei nomes de flores nem de plantas): «Uma flor à margem do rio para ele era uma flor amarela, e não era mais nada.» O meu mestre Caeiro riu. «Esse simples via bem: uma flor amarela não é realmente senão uma flor amarela.» Mas, de repente, pensou. «Há uma diferença», acrescentou. «Depende se se considera a flor amarela como uma das várias flores amarelas, ou como aquela flor amarela só.» E depois disse: «O que esse seu poeta inglês queria dizer é que para o tal homem essa flor amarela era uma experiência vulgar, ou coisa conhecida. Ora isso é que não está bem. Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma. O próprio amarelo não pode ser já o mesmo. É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então éramos todos felizes.»

Álvaro de Campos
Obras de Fernando Pessoa, Lello & Irmão - Editores, Porto, 1986

17/12/2010

Vale do rio Beredo


Betula alba L.

No alto ermo dos montes naturais temos, quando chegamos, a sensação do privilégio. Somos mais altos, de toda a nossa estatura, do que o alto dos montes. O máximo da Natureza, pelo menos naquele lugar, fica-nos sob as solas dos pés. Somos, por posição, reis do mundo visível. Em torno de nós tudo é mais baixo: a vida é encosta que desce, planície que jaz, ante o erguimento e o píncaro que somos.

Tudo em nós é acidente e malícia, e esta altura que temos, não a temos; não somos mais altos no alto do que a nossa altura. Aquilo mesmo que calcamos, nos alça; e, se somos altos, é por aquilo mesmo de que somos mais altos.

Respira-se melhor quando se é rico; é-se mais livre quando se é célebre; o próprio ter de um título de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artifício, mas o artifício nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-nos até ele, ou nascemos na casa do monte.

Grande, porém, é o que considera que do vale ao céu, ou do monte ao céu, a distância que o diferença não faz diferença. Quando o dilúvio crescesse, estaríamos melhor nos montes. Mas quando a maldição de Deus fosse raios, como a de Júpiter, de ventos, como a de Éolo, o abrigo seria o não termos subido, e a defesa o rastejarmos.

Sábio deveras é o que tem a possibilidade da altura nos músculos e a negação de subir no conhecimento. Ele tem, por visão, todos os montes; e tem, por posição, todos os vales. O sol que doura os píncaros dourá-los-á para ele mais
[que] para quem ali o sofre; e o palácio alto entre florestas será mais belo ao que o contempla do vale que ao que o esquece nas salas que o constituem de prisão.

Com estas reflexões me consolo, pois que me não posso consolar com a vida. E o símbolo funde-se-me com a realidade quando, transeunte de corpo e alma por estas ruas baixas que vão dar ao Tejo, vejo os altos claros da cidade esplender, como a glória alheia, das luzes várias de um sol que já nem está no poente.


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

10/06/2010

Rodou três vezes


Convolvulus fernandesii P. Silva & Teles

.....Endemismo lusitano, exclusivo da Serra da Arrábida.



Arribas do Cabo Espichel

30/07/2009

Fidalguinha azul


Centaurea cyanus L.

É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.

Uma flor azul é, desde Novalis (1772-1801) e a obra Henry Von Ofterdingen, símbolo literário do romantismo, premonição de amor e desejo, ou um vislumbre do que parece inalcançável. Recentemente, com a ajuda desta centáurea, a ciência abeirou-se da quimera.

A coloração das flores é obtida através de uma grande variedade de pigmentos feitos de moléculas que reflectem a luz de modo distinto. O azul é conferido por antocianinas, glicosídios solúveis em água e responsáveis por cerca de 30% do tecido das pétalas dessa cor, através de estratégias complexas de variação dos níveis de acidez e oxidação dentro das células. Biólogos e químicos rodearam-se de flores de Centaurea cyanus (e de Commelina communis, Ipomoea acuminata, Salvia patens e Hydrangea macrophylla) e decifraram o código das cores. A tecnologia e a manipulação genética fizeram o resto, e nasceu a primeira rosa azul.

Ficou, então, neste mundo de almas, a ruína visível, a desgraça patente, sem a treva que a cobrisse do seu carinho falso. As almas viram-se tais quais eram.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

22/06/2008

A noite mais curta


Hydrangea serrata «Blue Bird»

«Quando o estio entra entristeço. Parece que a luminosidade, ainda que acre, das horas estivais devera acarinhar quem não sabe quem é. Mas não, a mim não me acarinha. (...)

Tenho principlmente sono. Não um sono que traz latente, como todos os sonos, ainda os mórbidos, o privilégio físico do sossego. Não um sono que, porque vai esquecer a vida, e porventura trazer sonhos, traz na bandeja com que nos vem até à alma as oferendas plácidas de uma grande abdicação. Não: este é um sono que não consegue dormir, que pesa nas pálpebras sem as fechar, que junta num gesto que se sente ser de estupidez e repulsa as comissuras sentidas dos beiços descrentes. (...)

Só quando vem a noite de algum modo sinto, não uma alegria, mas um repouso que, por outros repousos serem contentes, se sente contente por analogia dos sentidos. Então o sono passa, a confusão do lusco-fusco mental que esse sono dera esbate-se, esclarece-se, quase se ilumina. Vem, um momento, a esperança de outras coisas. Mas essa esperança é breve. O que sobrevém é um tédio sem sono nem esperança, o mau despertar de quem não chegou a dormir. E da janela do meu quarto fito, pobre alma cansada de corpo, muitas estrelas; muitas estrelas, nada, o nada, mas muitas estrelas...»


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

14/05/2008

Norça-branca


Bryonia cretica subesp. dioica

....Sim, tudo é certo logo que o não seja.
....Amar, teimar, verificar, descrer...
....Quem me dera um sossego à beira-ser
....Como o que à beira-mar o olhar deseja.

Fernando Pessoa (1929)

27/04/2008

Bandeira azul


Lathyrus angulatus L. - vale do Tua

....O calor, como uma roupa invisível, dá vontade de o tirar.

Fernando Pessoa

12/04/2008

O princípio da aliança*

«Como uma esperança negra, qualquer coisa de mais antecipador pairou: a mesma chuva pareceu intimidar-se, um negrume surdo calou-se sobre o ambiente. E súbito, como um grito, um formidável dia estilhaçou-se. Uma luz de inferno frio visitara o conteúdo de tudo, e enchera os cérebros e os recantos. Tudo pasmou. Um peso caiu de tudo porque o golpe passara. A chuva triste era alegre com o seu ruído bruto e humilde. Sem querer, o coração sentia-se e pensar era um estonteamento. Uma vaga religião formava-se no escritório. Ninguém estava quem era, e o patrão Vasques apareceu à porta do gabinete para pensar em dizer qualquer coisa. O Moreira sorriu, tendo ainda nos arredores da cara o amarelo do medo súbito. E o seu sorriso dizia que sem dúvida o trovão seguinte deveria ser já mais longe. Uma carroça rápida estorvou alto os ruídos da rua. Involuntariamente o telefone tiritou. O patrão Vasques, em vez de retroceder para o escritório, avançou para o aparelho da sala grande. Houve um repouso e um silêncio e a chuva caía como um pesadelo. O patrão Vasques esqueceu-se do telefone, que não tocara mais. O moço mexeu-se, ao fundo da casa, como uma coisa incómoda.

Uma grande alegria, cheia de repouso e de livração, desconcertou-nos a todos. Trabalhámos meio tontos, agradáveis, sociáveis com uma profusão natural. O moço, sem que ninguém lho dissesse, abriu amplas as janelas. Um cheiro a qualquer coisa fresca entrou, com o ar de água, pela grande sala adentro. A chuva, já leve, caía humilde. Os sons da rua, que continuavam os mesmos, eram diferentes. Ouvia-se o som dos carroceiros, e eram realmente gente. Nitidamente, na rua ao lado, as campainhas dos eléctricos tinham também uma socialidade connosco. Uma gargalhada de criança deserta fez de canário na atmosfera limpa. A chuva leve decresceu.

Eram seis horas. Fechava-se o escritório. O patrão Vasques disse, do guarda-vento entreaberto, «Podem sair», e disse-o como uma benção comercial. Levantei-me logo, fechei o livro e guardei-o. Pus a caneta visivelmente sobre a depressão do tinteiro, e, avançando para o Moreira, disse-lhe um «até amanhã» cheio de esperança, e apertei-lhe a mão como depois de um grande favor.»

Fernando Pessoa, Livro do desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

*Letras em Lisboa - Portugal, Brasil, África
Casa Fernando Pessoa / Teatro Municipal de São Luiz
(só até amanhã)


Na foto: Daucus carota (cenoura-brava)

20/03/2008

Rua de Ruben A.


Prunus sp.

«Não é nos largos campos ou nos jardins grandes que vejo chegar a primavera. É nas poucas árvores pobres de um largo pequeno da cidade. Ali a verdura destaca como uma dádiva e é alegre como uma boa tristeza.

Amo esses largos solitários, intercalados entre ruas de pouco trânsito, e eles mesmos sem mais trânsito que as ruas. São clareiras inúteis, coisas que esperam, entre tumultos longínquos. São de aldeia na cidade.

Passo por eles, subo qualquer das ruas suas afluentes, depois desço de novo essa rua, para a eles regressar. Visto do outro lado é diferente, mas a mesma paz deixa dourar de saudade súbita - sol no ocaso - o lado que não vira na ida. (...)

Um ocaso de mágoa leve paira vago em meu torno. Tudo esfria, não porque esfrie, mas porque entrei numa rua estreita e o largo cessou.»


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

17/01/2008

Bosque encantado


Hampstead Heath - Londres

«Passávamos, jovens ainda, sob as árvores altas e o vago sussurro da floresta. Nas clareiras, subitamente surgidas do acaso do caminho, o luar fazia-as lagos e as margens, emaranhadas de ramos, eram mais noite que a mesma noite. A brisa vaga dos grandes bosques respirava com som entre o arvoredo. Falávamos das coisas impossíveis; e as nossas vozes eram parte da noite, do luar e da floresta. Ouvíamo-las como se fossem de outros.

Sim, não são os êxtases do abstracto, nem as maravilhas do absoluto que podem encantar uma alma que sente: são os lares e as encostas dos montes, as ilhas verdes nos mares azuis, os caminhos através de árvores e as largas horas de repouso nas quintas ancestrais, ainda que as nunca tenhamos. Se não houver terra no céu, mais vale não haver céu.»

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

17/12/2007

O primeiro espelho



«O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.

Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.

O criador do espelho envenenou a alma humana.»


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

18/11/2007

Allium alexejanum



«A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite. (...)

Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.»


Fernando Pessoa, Livro do desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

26/10/2007

Violet queen


Cleome sp. - Sintra (fotos gentilmente cedidas por Paulo)

«Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da civilização - uma modificação anónima da natureza. As plantas estão ali, mas há ruas - ruas. Crescem árvores, mas há bancos por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente. (...)

Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro como um figurante numa tragédia cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar, aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo.»

Fernando Pessoa, Livro do desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

05/07/2007

Narciso à beira-mar



Narciso-das-areias (Pancratium maritimum) - Parque das Dunas da Aguda

É doce morrer no mar,
Nas ondas verdes do mar.

...................Dorival Caymmi

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

........................................................Fernando Pessoa

Este narciso, que completa todo o seu curto ciclo de vida à beira-mar, nunca perde, nas flores que são o seu rosto, a brancura sem mácula das heroínas dos romances vitorianos, que viviam fechadas em casa e não punham pé na praia sem a protecção do guarda-sol e de várias camadas de saias. Murcham-lhe as flores e tomba-lhe a haste, mas nunca um vermelhão ou inopinado bronze lhe desmancham a alvura da tez. Tem assomos de amarelo nos estames, mas são como toques de um pó-de-arroz matizado, que mais realçam, pelo delicado contraste, a palidez do conjunto. Conclusão? Os acasos da evolução condenaram o nosso narciso a uma forma de vida que violenta a sua índole. É com horror que vê chegar hordas de banhistas para torrarem ao sol. O que lhe vale, no Parque das Dunas da Aguda, é a cerca que delimita claramente a sua área exclusiva.

04/07/2007

Andar na cidade como quem anda no campo

.
«Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ela era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...
»

Poema III de "O Guardador de Rebanhos" de Alberto Caeiro >
Transcrito daqui
> (O Farol das Letras)

26/02/2007

Leucojum aestivum



Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...

É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.


Alberto Caeiro

02/07/2006

Begonia tuberosa



Lua de prata de leite
Que tens um ar de amarela,
Quem foi que te pôs de enfeite
Ao céu, se não és estrela?

Fernando Pessoa (1934)

09/12/2005

O problema da flor


Foto: pva 0512 - Camellia sasanqua no Parque da Cidade do Porto

A luz que vem das estrelas,
Diz - pertence-lhes a elas?
O aroma que vem da flor,
É seu? Dize, meu amor.

Problemas vastos, meu bem,
Cada cousa em si contém.
Pensando claro se vê
Que é pouco o que a mente lê
Em cada cousa da vida,
Pois que cada cousa, enfim,
É o ponto de partida
Da estrada que não tem fim.

Perante este sonho eterno
Falar em Deus, céu, inferno...

Ah! dá nojo ver o mundo
Pensar tão pouco profundo.


Fernando Pessoa
(poema inédito de 1908 publicado no último JL)

01/12/2005

Chuva Oblíqua

I
Atravessa esta paisagem o meu sonho de um porto infinito
E a cor dar flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

E o porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro....

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...
(...)
Fernando Pessoa

Nos 70 anos da sua morte e numa altura em que a sua obra volta a cair no domínio público

18/08/2005

Pingos-de-mel

Quando tiraste da cesta
Os figos que prometeste
Foi em mim dia de festa
Mas foi a todos que os deste.


Fernando Pessoa, Quadras (Assírio & Alvim, 2002)