13/06/2008
29/05/2008
Silk vine
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo (1945)


Periploca graeca
Antes que o riso vos dobre pela cintura e as lágrimas vos impeçam de ler o resto do texto, entendamos que Periploca deriva das palavras gregas peri, em torno, e ploke, entrançado. Graecum é grego... em latim. Ou seja, esta é uma trepadeira comum na região dos Balcãs que se enrosca, modesta mas sincera, em qualquer pérgula que se lhe ponha no caminho.
Uma vida assim em permanente reviravolta, sempre com o perdão na ponta da gavinha, tinha de deixar marcas, algumas azedas. Sossegada em cada manhã com o sol acima da cabeça, aflita com ele à tarde debaixo dos pés, tem folhas opostas em ininterrupta oração; produz flores cautelosas na coloração (exterior da corola verde, vermelho-púrpura no interior), com formato de estrela para ter algum céu a que se agarrar; e os frutos, vagens frágeis recheadas de sementes empenachadas de seda, são confessadamente indigestos.
Além de ser endémica no sudeste europeu, esta Periploca, dando um salto de milhares de quilómetros por cima da Turquia, consegue também ser espontânea no sudoeste asiático.
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29.5.08
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25/05/2008
Pedradas

Paphiopedilum sp.
«Amodorrado, que posso eu fazer para vencer este frio, esta pedrada de frio?
Saco de água quente no regaço, ao alcance da mão o bagaço, (...) trazer, atada à nuca, uma pedra de gelo.
Quando a pedra derrete, o que só acontece muitas horas decorridas, o frio que, então, se sente é, praticamente, calor.»
Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou (Assírio & Alvim, 2008)
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22/05/2008
Cravo lilás

Dianthus monspessulanus subesp. sternbergii
«Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo. (...)
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.»
Eugénio de Andrade, Primeiramente (As Palavras Interditas, 1951)
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Maria Carvalho
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14/05/2008
Norça-branca

Bryonia cretica subesp. dioica
....Sim, tudo é certo logo que o não seja.
....Amar, teimar, verificar, descrer...
....Quem me dera um sossego à beira-ser
....Como o que à beira-mar o olhar deseja.
Fernando Pessoa (1929)
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11/05/2008
Glory of the sun

Leucocoryne coquimbensis
....Que fizeste das palavras?
....Que contas darás tu dessas vogais
....de um azul tão apaziguado?
....E das consoantes, que lhes dirás,
....ardendo entre o fulgor
....das laranjas e o sol dos cavalos?
....Que lhes dirás, quando
....te perguntarem pelas minúsculas
....sementes que te confiaram?
Eugénio de Andrade, Matéria Solar (1980)
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31/03/2008
Flor-de-alecrim

Rosmarinus officinalis
....Março voltou, esta
....ácida loucura de pássaros
....está outra vez à nossa porta,
....o ar
....de vidro vai direito ao coração.
....Também elas cantam, as montanhas:
....somente nenhum de nós
....as ouve, distraídos
....com o monótono silabar do vento
....ou doutros peregrinos.
....Já sabeis como temos ainda restos
....de pudor,
....e pelo mundo
....uma enorme, enorme indiferença.
Eugénio de Andrade, Branco no branco (1984)
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16/02/2008
Jasminum polyanthum

.....Manhã clara
.....Casas brancas
.....Nuvem branca
.....Pombos brancos
.....Jasmins
.....Tomo nas mãos a primeira folha de papel
.....Que se pode escrever de tão claro?
.....Cecília Meireles (1961)
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16.2.08
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19/01/2008
Mackaya bella

..............Haverá para os dias sem memória
............. outro nome que não seja morte?
............. Morte das coisas limpas, leves:
............. manhã rente às colinas,
............. a luz do corpo levada aos lábios,
............. os primeiros lilases do jardim.
............. Haverá outro nome para o lugar
............. onde não há lembrança de ti?
........... Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1989)
........... (19 de Janeiro de 1923 - 2005)
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20/12/2007
Em brasa


Crocus serotinus
.... A verdade é que nunca soube o nome
.... dessa flor que nalguns olhos
.... abre logo de madrugada.
.... Agora para saber é tarde.
Eugénio de Andrade, Branco no branco (1984)
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28/11/2007
William Blake (1757-1827)

....A poison tree
....I was angry with my friend:
....I told my wrath, my wrath did end.
....I was angry with my foe:
....I told it not, my wrath did grow.
....And I watered it in fears,
....Night & morning with my tears:
....And I sunned it with smiles,
....And with soft deceitful wiles.
....And it grew both day and night,
....Till it bore an apple bright.
....And my foe beheld it shine,
....And he knew that it was mine.
....And into my garden stole,
....When the night had veild the pole;
....In the morning glad I see,
....My foe outstretched beneath the tree.
....Songs of experience (1794)
......Determining the bounds of the material world
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13/11/2007
Três modos de ser flor


....Chega impressentida
....Nunca esperada
....Ela que é na vida
....A grande esperada.
....Dos homens, ai! dos homens
....Que matam a morte
....Por medo da vida.
Vinicius de Moraes, Poemas, sonetos e baladas (1946)
A Bidens pilosa é uma herbácea da América tropical muito prolífera que se dispersou facilmente pelo mundo. Sobressai agora nos nossos prados pelos aquénios castanhos feitos de garfinhos de fondue com 5 a 9 mm de comprimento e 2 ou 3 aristas (que justificam a designação latina bidens). Tem múltiplos usos medicinais mas é uma invasora séria em campos de cultivo.
O sol de ontem foi o último a aquecer a flor da foto, envelhecendo-a sem lhe permitir que se apegasse à vida. Hoje já ela se parece mais com um pincel de estames, a que também não sobram muitas horas: em breve nascerá dele um belo aquénio, redondo de sementes ancoradas ao fado de gerar mais flores. Esta morte planeada, anunciada, sem mistérios, ceifa sempre pela ordem certa. Nem parece morte.
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16/10/2007
Lugares do Outono

......Outono, labirinto de silvas,
......de sílabas, digo: pupila lenta,
......rio de inumeráveis águas
......e de amieiros onde canta
......a derradeira luz das cigarras,
......de vidro ainda, e leve, e branca.
Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1988)
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23/09/2007
Fim do Verão

Emil Nolde (1867-1956)
Museu Amadeo de Souza Cardoso, 2006
Sei de uma pedra onde me sentar
à sombra de setembro
e vou falar dos girassóis,
essa flor quase de areia
que ombro a ombro com o sol
faz do peso da sua solidão
o ardor
e a glória dos grandes dias de verão.
Eugénio de Andrade
O peso da sombra (1982)
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25/08/2007
A figueira

Não tenho mãos para o azul.
Sonho com o mar
que não está longe mas não vejo
arder.
Só a sombra parece estar em casa
debaixo dos meus ramos:
canta baixinho enquanto se descalça.
Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1988)
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Maria Carvalho
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21/08/2007
Calados, a vassourar

Acer negundo - Serralves
Visto de baixo, o arvoredo
é renda verde de luar,
desmanchada ao vento crespo
que à noite regressa ao mar.
Vão passando os varredores;
vão passando e vão varrendo
a terra, a lembrança, o tempo.
E, de momento em momento,
varrem seu próprio passar...
Cecília Meireles, in Mar absoluto e outros poemas (1945)
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15/08/2007
"En mi pecho florido..."
.
«En mi pecho florido
Que entero, para él solo, se guardaba.
Mi bien quedó dormido.
Y yo le regalaba
Y el ventalle de cedros aire daba.
El aire de la almena,
Cuando ya sus cabellos esparcia
Con su mano Serena,
En mi cuello hería
Y todos mis sentidos suspendía »
San Juan de La Cruz- Noche oscura del alma
Los Mártires, Granada, 1586
Poema transcrito daqui
Ver foto do "famoso cedro bajo el cual San Juan de la Cruz escribió parte da obra". Trata-se de um Cupressus lusitanica (conhecido vulgarmente entre nós por Cedro-do Buçaco)
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11/08/2007
Negrilho revisitado
No centenário do poeta
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Fotos Abril 2006 - Um dos lugares de Miguel Torga: Largo de Eirô em S. Martinho de Anta- povoação do concelho de Sabrosa onde nasceu em 12 de Agosto de 1907. Ver fotografia deste negrilho ou ulmeiro (Ulmus minor) ainda vivo.
Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.
Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!
Miguel Torga in Diário VII (1956)
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ManuelaDLRamos
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06/08/2007
Cardo-marítimo


Eryngium maritimum
Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Eugénio de Andrade, Os trabalhos da mão (in Ofício de Paciência - 1994)
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Maria Carvalho
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26/07/2007
Os carneirinhos

...
.........Todos querem ser pastores,
.........quando encontram, de manhã,
.........os carneirinhos,
.........enroladinhos
.........como carretéis de lã.
...
.................Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo (1964)

Cordeirinhos-da-praia (Otanthus maritimus)
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Maria Carvalho
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