16/02/2008
21/08/2007
Calados, a vassourar

Acer negundo - Serralves
Visto de baixo, o arvoredo
é renda verde de luar,
desmanchada ao vento crespo
que à noite regressa ao mar.
Vão passando os varredores;
vão passando e vão varrendo
a terra, a lembrança, o tempo.
E, de momento em momento,
varrem seu próprio passar...
Cecília Meireles, in Mar absoluto e outros poemas (1945)
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21.8.07
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26/07/2007
Os carneirinhos

...
.........Todos querem ser pastores,
.........quando encontram, de manhã,
.........os carneirinhos,
.........enroladinhos
.........como carretéis de lã.
...
.................Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo (1964)

Cordeirinhos-da-praia (Otanthus maritimus)
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Maria Carvalho
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26.7.07
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19/01/2007
Freixo de flores à cinta

Fraxinus ornus - Abril de 2006
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.
Fraxinus pennsylvanica - Janeiro de 2007
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu.
Fraxinus angustifolia - Setembro de 2005
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, - por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade.
Cecília Meireles, Primavera (1957) - Obra em Prosa, vol. 1
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19.1.07
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04/01/2007
Mudança

Tulipa linifolia
As águas não eram estas,
há um ano, há um mês, há um dia...
Nem as crianças, nem as flores,
nem o rosto dos amores...
Onde estão águas e festas anteriores?
Cecília Meireles, Domingo na praça (in Mar Absoluto e Outros Poemas - 1945)
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4.1.07
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29/08/2006
Sensitiva

Pergunto a Deus se estou viva,
se estou sonhando ou acordada.
Lábio de Deus! - Sensitiva
tocada.
Cecília Meireles, Noite (in Mar absoluto e Outros poemas, 1945)
A Mimosa sensitiva é uma leguminosa tropical cujas folhas se retraem ao contacto (os folíolos opostos das folhas aproximam-se) conhecida no Brasil como arranha-gato, malícia, maria-fecha-a-porta. Ou sensitiva, palavra com presença recorrente na obra da pastora de nuvens, a poetisa da mudança, do transitório e da morte.
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29.8.06
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29/06/2006
Canção mínima
No mistério do Sem-Fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.
Cecília Meireles, Vaga Música (1942)
Flores de Stokesia laevis
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29.6.06
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30/01/2006
Realização da vida
Não me peças que cante,
pois ando longe,
pois ando agora
muito esquecida.
Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.
E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.
E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida
- nisto que se buscara
pelas estrelas,
com febre e lágrimas,
e que era a vida.
Cecília Meireles, Mar absoluto (1945)
Foto: pva 0504 - papoila-da-Califórnia (Eschscholtzia californica)
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30.1.06
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21/08/2005
Jardins

Foto: pva 0506 - Nymphaea caerulea
«As casas que os possuíam vão sendo substituídas por outras construções e cada palmo de terra anda tão valorizado que é difícil encontrar quem o defenda para domicílio de uma planta. (...) A sensação de beleza, o sentimento de perfeição que residem na harmoniosa arquitetura das flores são lições para a vida humana. Pudéssemos ser também assim, tão exactos como as flores em suas pétalas, tão silenciosos na realização de um destino impecável, e tão prontos para morrer no momento justo! (...)
Tudo isto me ocorre porque estou diante de uma flor. De uma simples flor, fiel à sua genealogia, à sua linguagem, ao seu prazo de vida. (...) Assim estou (guardadas todas as distâncias), diante da minha flor solitária, que resume, na sua simples presença, muitos ramos, muitos jardins, muitos campos floridos. E contemplo-a com muito amor, porque amanhã certamente já teremos outro rosto; e ela não sabe, mas eu sei o que é sobre qualquer rosto, a passagem de cada dia.»
Cecília Meireles, Folha [de S. Paulo], 1964
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06/08/2005
Memórias em flor

Foto: pva 0505 - Solanum rantonnetii
«Nossos avós sentimentais associavam seus prazeres e seus pesares à imagem de uma folha ou de uma flor: abrimos por acaso algum livro antigamente lido e amado, e o vento leva de dentro dele velhos amores-perfeitos reduzidos a uma seda tão seca e tão leve; folhas de roseira finamente distendidas; violetas que são apenas uma cinza ainda imobilizada...
Oh, os nossos avós deixaram seus amores entrelaçados em monogramas pelos troncos de outrora; e ainda hoje há grandes árvores admiradas da mão que lhes vai gravando coração, flechas, iniciais, com uma suave preserverança - e os jardins ficam de braços tatuados, com o sopro da tarde secando suas poéticas feridas...»
Cecília Meireles, Nossas irmãs, as plantas - Obra em prosa (in A manhã, 1945)
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6.8.05
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21/12/2004
Gota d'água
Foto: mdlr 02 folha de Tropaeolum majus
EPIGRAMA N.º 5
Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.
Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.
Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exacto.
E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do acto.
Cecília Meireles, Viagem (1939)
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21.12.04
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05/12/2004
Árvores do Jardim do Carregal #4


Fotos: pva 0411 - Carregal - Sequioadendron giganteum com pormenor da folhagem
Já nem tenho vontade de falar
senão com árvores, vento,
estrelas e águas do mar.
E isso pela certeza de saber
que nem ouvem meu lamento
nem me podem responder.
Cecília Meireles
A algumas sequóias-gigantes têm consentido viver neste silêncio, nem inimigo nem irmão, por mais de mil anos. Nativa de Sierra Nevada, na Califórnia, região dos Estados Unidos com zonas áridas e verões quentes e secos, a Sequoiadendron giganteum, conífera da família Taxodiaceae e única espécie do seu género, retira sabiamente a humidade de que precisa da névoa em que a sua copa alta (que pode atingir os 100 metros de altura) mergulha em cada madrugada. É uma espécie monóica, competidora poderosa em florestas, elevando-se rapidamente acima das demais árvores para ganhar um maior quinhão de sol. Cultivada na Europa desde 1853, está presente em jardins portuenses desde 1860, mas não sem ter sofrido alguns percalços iniciais na sua adaptação ao nosso clima.
O exemplar do Jardim do Carregal tem cerca de 105 anos, 18.2 metros de altura e um PAP (perímetro do tronco à altura do peito) de 3.85 metros; como é típico nesta espécie, apresenta um tronco grosso na base, fibroso e avermelhado (daí o nome comum redwood), quase sem ramagem na parte inferior; a copa é cónica no topo, os ramos pendentes com extremos curvados para cima e lembrando, na forma, uma coroa. A folhagem é persistente, de cor verde-azulado (o que permite realçar a árvore nas fotografias), com escamas que espiralam nos ramos e os revestem completamente. Produz pinhas abundantes no fim do verão, mas não parece de boa saúde, resultado por certo da agressão a que inevitavelmente as obras do túnel do Carregal a têm submetido.
A sequóia-gigante mais famosa no Porto é ainda a do Jardim da Cordoaria, mencionada em várias crónicas e jornais de horticultura nos séculos XIX e XX. Mas o exemplar mais formoso é sem dúvida o de Serralves, com uns 60 anos de idade, que vegeta no bosquete em frente à casa rosa, junto à alameda de castanheiros-da-Índia.
Esperemos que, como corais, estes espécimes continuem por alguns séculos mais a contemplar-nos tranquilos e com rumo seguro.
Anteriores na mesma série: #1, #2, #3
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Maria Carvalho
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5.12.04
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31/10/2004
Encomenda
Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
Cecília Meireles, Vaga Música (1942)
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31.10.04
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07/10/2004
Nossas irmãs, as plantas
«Não sei como a humanidade se conforma em não viver pelo menos quinhentos anos. Mesmo que os vivêssemos, acharíamos a vida curta, se os empregássemos em aprender tudo o que não sabemos, em ler todos os livros que devem ser lidos, visitar todos os países, conhecer todos os mares, saber como são os grandes rios, as grandes florestas, e mirar as folhas de todas as plantas...
(...)
Há, decerto, pessoas felizes, que sabem os nomes das plantas. (...) Mais felizes são as pessoas que, com sangue ou seiva de bamadríade, habitam verdadeiramente no interior dos mistérios botânicos, banhando-se em águas de plantas fervidas, borrifando-se com infusões de plantas, bebendo cozimento de folhas e raízes, falando das propriedades de flores e cascas com certezas tão familiares que bem se vê serem de uma estirpe diferente da nossa, e andarem por este mundo humano extraviadas, sem adaptação possível, saudosas do prestigioso encanto das selvas. Passam por nós trescalando florestas; seu corpo é como madeira aromática.
(...)
Só a lembrança de um jardim já serve de refrigério para as fadigas deste mundo. Os árabes, que conheceram a dureza dos desertos, inventaram com felicidade, para sossego das suas opressões, esses recantos perfumosos onde as plantas mais adoráveis oferecem seus dons com uma graça quase pecadora; e até construíram a esperança de outros jardins, por onde se possa transitar depois que os desta vida já forem inúteis à nossa transfigurada sombra...
(...)
Hoje nós somos criaturas sem sossego, perdidas em lutas urgentes e difíceis, amarguradas e envenenadas, de tão mergulhadas no puramente humano. Quando amanhã pudermos descansar, olharemos em redor, procurando nestas cidades de cimento um lugar para o sonho tranquilo, e então nos lembraremos dos jardins, das árvores, de qualquer flor. Sentiremos que estamos mais perfeitos, que já somos melhores, quando pudermos sorrir diante de um ramo que desabrocha, e olhar com doçura para qualquer folha que cai - e que hoje, nesta pressa bárbara, nem sentimos que existe, nem nos importamos que acabe...»
Cecília Meireles, Crónicas em geral (texto de 1945)
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7.10.04
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23/09/2004
Motivo da rosa
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.
E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
Cecília Meireles, Mar absoluto (Antologia Poética, 2002)
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23.9.04
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02/09/2004
Viajante
«Tenho a alma cheia de campo, depois de atravessar estas distâncias (...). Os camponeses tomam um punhado de terra, desmancham-na entre os dedos, tomam-lhe o cheiro, sorriem... Nós só vemos aquele pequeno torrão escuro, que se desagrega; eles, não: eles estão vendo semeaduras, colheitas, o vento folgazão, a chuva maternal, o sol poderoso, mulheres, crianças, a casa levantada, a mesa posta... Os olhos dos camponeses são feitos de paisagens prósperas. Estas são criaturas que não podem separar-se da terra. A terra é o seu corpo, e sua alma. Ramos, raízes, flores, tudo isso está em seus braços, em seus cabelos, em seu rosto.»
Cecília Meireles, Crónicas de Viagem (1953)
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Maria Carvalho
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2.9.04
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