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04/08/2026

A zimbrar na praia



Trinta quilómetros a oeste do grande rochedo, continuamos no estreito de Gibraltar. O céu encoberto promete chuva; o mar inquieto e cor de chumbo já se vai demarcando, pela ferocidade, do plácido lago mediterrânico. Para aqui chegarmos, cruzámos uma imensa duna que ameaçava a qualquer momento soterrar a estrada, mas neste lugar, na praia de Punta Paloma, estamos a salvo de avalanches. Pinheiros-mansos, sabinas, zimbros, estevas, sargaços, piornos, lentiscos e demais vegetação arbustiva dão estabilidade às areias e preparam o habitat para uma variada colecção de herbáceas. Também nos forneceriam o aconchego de uma sombra se precisássemos dela, mas hoje o sol parece incapaz de sacudir a camuflagem de nuvens.

Embora estejamos encantados com tudo o resto — pois raras vezes vimos vegetação dunar tão rica e bem conservada como esta do Parque Natural del Estrecho —, viemos aqui por causa do Juniperus macrocarpa. Trata-se de um zimbro que vive nas areias marítimas do sul de Espanha, entre Gibraltar e a fronteira portuguesa, e reaparece, muitas centenas de quilómetros a leste, em diversos pontos da bacia mediterrânica. Este arbusto ou pequena árvore, tão destemido no modo como se expõe aos salpicos das ondas, não é muito diferente do zimbro-comum (Juniperus oxycedrus) que encontramos nos socalcos do Douro; mas, além do habitat radicalmente diferente, o zimbro-das-areias distingue-se pelas folhas mais largas, pelas bagas maiores, e pela ramificação mais intricada.

Juniperus macrocarpa Sm.


Nesta praia vive também a sabina (Juniperus turbinata) que conhecemos das dunas do nosso litoral centro. Aqui, neste encontro de dois mares, zimbros e sabinas misturam-se com tal profusão que seria difícil avaliar qual deles detém a primazia. Que ambos são Juniperus é atestado pela presença das características bagas carnudas, mas dentro desse género eles representam duas linhagens bem diferenciadas: nas sabinas a folhagem é escamiforme, e nos zimbros ela é formada por agulhas. Há até botânicos defendendo que as duas estirpes deveriam ser tratadas como géneros separados, ficando o nome Juniperus reservado a zimbros e aparentados, e segregando-se as sabinas e espécies afins no género Sabina.

A primeira categoria — a dos zimbros e aparentados — é bastante diversa em território português: além do Juniperus oxycedrus, inclui uma espécie de montanha (J. communis, no Gerês e na serra da Estrela), uma espécie dunar (J. navicularis, maioritariamente no litoral a sul do Tejo), uma espécie da floresta de nuvens açoriana (J. brevifolia, o famoso cedro-do-mato), e uma espécie da laurissilva madeirense (J. maderensis), a que se soma a presença, muito residual e precária, do J. macrocarpa no Algarve. Tanto o J. navicularis como o J. macrocarpa foram em tempos considerados subespécies do Juniperus oxycedrus, mas estudos filogenéticos recentes (veja-se este artigo de 2024) afiançam-nos ser mais apropriado tratá-los como espécies autónomas. Os mesmos estudos revelam, para nossa surpresa, que o J. navicularis (fotos em baixo) é espécie-irmã do J. brevifolia, estando portanto evolutivamente mais próximo do cedro-do-mato açoriano do que do zimbro duriense.

Juniperus navicularis Gand.

25/07/2017

O voo do Corvo



Informações inúteis

Como ir. De avião pela SATA, ou de barco desde as Flores usando a lancha Ariel ou um semi-rígido. Os horários da SATA são flexíveis: o passageiro deve chegar com a antecedência regulamentar ao aeroporto, mas a transportadora exerce invariavelmente o seu direito de anunciar atrasos de última hora. No entanto, os atrasos das diversas ligações costumam encaixar na perfeição uns com os outros. Se uma das escalas for nas Flores, então nos melhores dias pode ser brindado com a mais paradoxal das surpresas, que é a chegada ao destino antes da hora da partida. Como é possível? O voo entre as Flores e o Corvo (ou vice-versa) dura cinco minutos; e, se já tiverem embarcado todos os passageiros, não há motivo para o avião não descolar de imediato. No nosso caso, com um total de seis passageiros que, para equilibrar o peso, se sentaram todos na parte de trás do avião, mais o comissário de bordo na outra ponta a despachar as instruções de segurança, levantámos voo oito minutos antes da hora marcada. Das ligações por mar, quem quiser ver golfinhos e saltar como eles sobre as ondas, com grandes borrifos de água salgada, deve escolher os fogosos semi-rígidos. Para os menos arrojados, recomenda-se a lancha Ariel da Atlânticoline, que costuma cancelar as ligações quando o mar está agitado e, nas festas das Flores ou do Corvo (ininterruptas em Julho e Agosto), só tem lugar para os previdentes que compram passagem com semanas ou meses de antecedência.

Onde comer. Quem faz turismo gastronómico não tem no Corvo um destino de eleição. Entre as nossas duas visitas à ilha, a primeira em Junho de 2016 e a segunda em Julho de 2017, há contudo novidades substanciais a reportar. Em 2016 havia dois restaurantes: o Caldeirão, junto ao aeroporto, e o Traineira, junto ao porto; ou, em rigor, já que distam 250 metros um do outro, os dois junto ao aeroporto mas o segundo mais encostado ao porto. Tendo jurado nunca servir peixe fresco aos clientes, pois quase tudo o que é pescado na ilha é vendido para o continente ou para as outras ilhas, tinham ainda assim pratos aceitáveis, com o Caldeirão esmerando-se um pouco mais e o Traineira monopolizando a clientela operária (há sempre no Corvo dezenas de trabalhadores vindos para obras do Governo regional). O duopólio permitia-nos diversificar as refeições, almoçando no Traineira e jantando no Caldeirão, ou almoçando no Caldeirão e jantando no Traineira. Nos dias em que algum deles fechava, íamos duas vezes ao que estivesse aberto, aproveitando a segunda ocasião para degustar o outro prato do dia. Se dispensássemos o luxo sibarita de uma segunda refeição completa no mesmo dia, podíamos ir ao BBC (Bar dos Bombeiros do Corvo, um must da noite corvina) para nos regalarmos com uma tosta mista (podia ser francesinha, se quiséssemos) regada com um néctar de pêssego ou de laranja (apesar de ter muitas e variadas bebidas alcoólicas, o BBC trata com igual afabilidade os que preferem bebidas não inebriantes). Por último, havia a opção ascética de, com pão, fruta e outros géneros adquiridos no comércio local (uma mercearia, duas lojas generalistas e uma padaria), improvisar um jantar ligeiro na sala de estar do hotel. De 2016 para 2017, BBC, mercearia, lojas e padaria (aberta só de manhã de segunda a sábado) mantiveram-se iguais a si próprias, mas um dos restaurantes deixou de funcionar como tal. Era isso mesmo que esperávamos, pois em 2016 soubéramos que os então concessionários do Caldeirão se iriam embora no final do Verão. Afinal o Caldeirão reabriu com nova gerência, e foi o Traineira que deixou de ser restaurante por ter perdido a cozinheira. Mantém-se aberto, mas servindo apenas sopas, sandes e bebidas. À porta, onde dizia Horário do restaurante diz agora Horário do; as horas de abertura e os dias de descanso são os mesmos. Esta oferta depauperada ainda mais se reduziu no fim-de-semana de 8 e 9 de Julho, quando todos os estabelecimentos de comes-e-bebes estiveram fechados: o Caldeirão o dia todo, o Traineira e o BBC a partir do meio da tarde. O motivo eram as festas da ilha, onde algumas barracas vendiam refeições: para garantir a afluência de clientes, toda a ilha se pôs de acordo em não lhes deixar alternativa. Mas a canja de galinha e a morcela com inhame até estavam boas.

Transportes. Na ilha há três ou quatro táxis; todos acorrem de pronto à chamada e fazem a volta à ilha cobrando 10 euros por pessoa. Quem for poupado e não quiser deslocar-se a pé facilmente arranja boleia numa carrinha de caixa aberta. Apesar de serem muitos os carros no Corvo, a ponto de os habitantes se terem desabituado de andar a pé mesmo em distâncias curtíssimas, não é possível alugar carros na ilha.



Agora a sério

Os parágrafos anteriores são o nosso contributo para moderar a afluência turística ao Corvo. Há lugares que foram feitos para o silêncio e combinam mal com multidões. Mas quem nos leu até aqui, e esteja disposto a despojar-se de alguns dos seus hábitos de vida urbana, merece saber que o Corvo é um lugar extraordinário. Não para visitar a correr, como fazem os que chegam de barco por umas horas, sobem de táxi à grande cratera, tiram umas fotos e já está, mas para ficar alguns dias, dando tempo a que os sentidos se ajustem e se possa entender como uma ilha de 6 Km de comprimento por 4 Km de largura, com 430 habitantes, também é um mundo. As refeições não serão um luxo, mas o alojamento não tem que ser espartano. O Hotel Comodoro (ou Guest House Comodoro), único da ilha, é mais acolhedor, confortável e asseado do que muitos hotéis cheios de estrelas. Não tendo a ilha, com excepção da fábrica de queijos, indústria que se veja ou uma economia de serviços, cada habitante cumpre muitos papéis: um taxista é também pescador e cultiva os seus legumes no quintal; muitos têm afazeres diurnos mas ao fim da tarde sobem às pastagens para ordenhar as vacas; e o dono do hotel pode ser presidente da câmara.

E quanto à natureza? Numa paisagem dominada por pastagens, de onde a manta arbórea original há muito foi extirpada, a maioria das árvores e arbustos refugiam-se em sebes ou em linhas de água temporárias. Os bosques de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) que cobrem grandes extensões da vizinha ilha das Flores estão quase totalmente ausentes do Corvo, sobrando, como últimas amostras significativas, um povoamento de algumas centenas de árvores adultas no Morro da Fonte e um outro, de menor expressão, no troço final do ribeiro da Cancela do Pico, perto do farol. Contudo, são frequentes pela ilha os exemplares isolados de cedro-de-mato, alguns de provecta idade. Ao contrário do que sucede nas restantes ilhas, a conteira (Hedychium gardnerianum) não é um problema no Corvo e parece, aliás, ter sido completamente eliminada. O galardão de infestante mais nociva ficou para a hortênsia (Hydrangea macrophylla), que invade ribeiros de forma sufocante e ameaça ocupar de alto a baixo as vertentes do Caldeirão, lugar onde se concentra um número apreciável de endemismos botânicos. Apesar disso, o Caldeirão do Corvo é, sem favor, a mais fotogénica cratera vulcânica do arquipélago e, mesmo com o pastoreio intensivo de gado bovino, guarda habitats preciosos tanto no bordo como nas lagoas e turfeiras que lhe preenchem o fundo. Dado que o coberto vegetal ralo não representa obstáculo à nossa passagem, é fácil descer ao fundo, vencendo um desnível de 150 metros, e caminhar em redor das lagoas, com a necessária cautela não vão os pés afundar-se no terreno pantanoso. As muitas vacas que vamos cumprimentando são pacíficas e estão habituadas às visitas. Estas lagoas têm boas populações de Isoetes azorica, um raríssimo feto aquático que é também um endemismo açoriano, e que no início de Julho, tendo já largado os esporos, deixa ver as suas folhas como longos cabelos verdes e flutuantes. Outras raridades aquáticas igualmente discretas que aqui se fazem comuns são a Littorella uniflora e a Elatine hexandra, acompanhadas por Eleocharis palustris, Potamogeton polygonifolius e Juncus effusus. Nas valas que escoam a água das encostas para as lagoas aparecem grandes fetos (Osmunda regalis, Woodwardia radicans), escoltados aqui e ali por indivíduos dispersos de Vaccinium cylindraceum, Juniperus brevifolia e Ilex perado subsp. azorica.


Isoetes azorica Milde



Myosotis azorica H. C. Watson
Por muito interessante que fosse o fundo do Caldeirão, era no seu bordo que devíamos procurar o tesouro que o mau tempo de Junho de 2016 não nos permitiu alcançar, obrigando ao nosso regresso um ano mais tarde. Conforme comprovativo fotográfico acima, a persistência foi recompensada. Sem batota e sem ajuda, seis anos depois de iniciarmos a busca na ilha das Flores, encontrámos finalmente a Myosotis azorica na natureza. Todos os nossos encontros anteriores com este endemismo das Flores e do Corvo, devorado até à beira da extinção por cabras assilvestradas, tinham sido com plantas cultivadas. Desta vez, vimos umas trinta plantas em flor, duas que pudemos tocar e as restantes em lugares vertiginosamente inacessíveis. Por perto residiam outros dois endemismos destas ilhas, a Veronica dabneyi e a Euphrasia azorica, a segunda muito abundante no bordo da Caldeirão.


Festuca francoi à esquerda e Deschampsia foliosa à direita
Nem só de plantas floridas vive o ecossistema hiper-húmido e quase sempre ventoso do Caldeirão. Mesmo no bordo há muitas zonas turfosas, dominadas por Sphagum, e nos afloramentos rochosos várias gramíneas endémicas abanam as espigas ao vento. As dominantes são a Festuca francoi e, de menor tamanho e com folhas mais curtas, a Deschampsia foliosa. Vê-las lado a lado, como na foto em cima, é a melhor maneira de aprender a distingui-las.


Deschampsia foliosa Hack.

02/04/2015

O lince e a sequóia

Imagine-se que, depois de toda a comoção e efervescência mediática com o retorno do lince-ibérico a Portugal, é chegado o momento de soltar na natureza os primeiros linces criados em cativeiro. Com muitos jornalistas, fotógrafos, operadores de câmara, políticos e biólogos a postos para a ocasião, eis que os bichos que saem das jaulas de transporte, algo sobressaltados por tanta gente à sua volta, são simples gatos domésticos e não os desejados linces. Contudo, não se ouve qualquer reparo. Talvez apenas ao ministro pareça que alguma coisa nas orelhas dos felinos agora postos em liberdade (e que rapidamente desaparecem de vista) não bate certo com as fotos que consultou à socapa na Internet antes de vir para a cerimónia. O ministro, porém, acha prudente calar-se: não lhe cabe pôr em dúvida a competência dos técnicos especializados que ajudaram a criar os alegados linces, e que agora se quedam emocionados vendo-os ir à sua vida. Quanto aos jornalistas, estão ali para propagar a boa nova e não para fazer perguntas impertinentes. E assim acontece: televisões, redes sociais, imprensa escrita — toda a comunicação social, mostrando imagens dos gatinhos, garante que os linces estão de volta a Portugal. Como de costume, há um ou outro São Tomé empedernido que duvida até do que vê, mas felizmente ninguém leva a sério esses poucos incréus que tentam refutar a notícia chamando a atenção para o pormenor das orelhas.

Se um tal episódio de ignorância e credulidade colectivas é manifestamente improvável quando se trata de animais (embora seja comum a confusão entre lobos e cães assilvestrados), já o mesmo não sucede com as árvores. De facto, a história que a Câmara do Porto engendrou à volta do abate e substituição da sequóia-gigante do Jardim do Carregal teve um desfecho não menos burlesco do que a história imaginária do lince-que-afinal-era-gato. Nem sequer faltaram jornalistas para amplificar o dislate. Jornalistas que, quando para ele alertados, responderam com o silêncio que as pessoas de bem reservam aos interlocutores inconvenientes.

A Câmara Municipal do Porto (CMP) não trata as árvores com especial carinho, sendo bem mais lesta a abatê-las (por razões que nem sempre se entendem) do que a substituí-las. As tílias que há três ou quatro anos foram cortadas à frente dos jardins do Palácio de Cristal nunca foram substituídas. Pelo contrário, encheram-se as caldeiras com paralelipípedos. Noutros locais da cidade onde se fez o mesmo (e foram muitos) usou-se cimento ou alcatrão, mas o resultado foi idêntico: desapareceram não só a árvore mas o próprio lugar da árvore. E o modo como a CMP lida com as suas árvores em nada se alterou com a mudança do poder político.

Mas houve uma coisa que mudou. Se ao vereador faltam força política, competência ou vontade para melhorar os serviços sob a sua tutela, já lhe sobra argúcia para entender que, muito mais do que fazer as coisas bem, importa noticiá-las bem. Entre nós, o desvelo encenado pela árvore ou pela natureza, mesmo sendo oco (coisa que nenhum jornalista se dá ao trabalho de averiguar), garante sempre boa imprensa. Em vez de se plantarem as árvores que fazem falta nas ruas que a CMP se encarregou de despir, o vereador determina que será plantada uma só árvore, mas essa árvore e os eventos criados a propósito dela hão-de ser notícia do maior destaque.

E as coisas pareciam correr a preceito. A morte da sequóia-gigante (Sequioadendron giganteum) do Jardim do Carregal e a sua longamente anunciada substituição renderam, só no jornal Público, nada menos que quatro notícias ao longo de 15 meses (1, 2, 3, 4). Era o vereador a lamentar a perda de uma árvore classificada (coisa que ela nunca foi), era a promessa de que seria substituída por outra da mesma espécie, era o painel com a foto da falecida em contra-luz, era a colaboração dos alunos de Belas Artes.

O leitor por certo já adivinhou o desfecho da história. No meio de tanta festa e animação cultural à volta da árvore, ninguém se lembrou de olhar para ela com olhos de ver. No lugar da anunciada Sequoiadendron giganteum (sequóia-gigante), o que mora no Jardim do Carregal desde 19 de Março é mais um exemplar de Sequoia sempervirens (sequóia-sempre-verde). A segunda destas espécies, ao contrário da primeira, é frequente nos jardins do Porto e de outras cidades portuguesas. No próprio Jardim do Carregal há mais uns vinte exemplares de sequóia-sempre-verde, alguns deles a meia dúzia de metros do exemplar agora plantado.

As duas sequóias têm folhagens muito diferentes, e não é preciso ser-se um fino conhecedor de árvores para as distinguir. Isso mesmo é ilustrado pelas fotos que se seguem, tiradas esta semana nos jardins do Carregal e da Cordoaria (é no último que vegeta uma das duas únicas sequóias-gigantes do Porto; a outra está no Parque de Serralves).


Sequoia sempervirens (D. Don) Endl. — plantada em 19 de Março de 2015 no Jardim do Carregal


Sequoiadendron giganteum (Lindl.) J. Buchholz — fotografada no Jardim da Cordoaria

18/02/2014

Esplendor púrpura


Luzula purpureo-splendens Seub.


Quem no início de Junho visitar a zona central da ilha das Flores, não deixará de notar, assomando entre os almafadões de Sphagnum um pouco acima da altura do joelho, uma profusão de inflorescências vermelhas encimando esguias hastes. Se a névoa for tão espessa que não deixe sequer adivinhar as lagoas, a impressão é de estarmos mergulhados numa grande taça de morangos com chantilly. Bom, talvez essa imagem só ocorra a quem seja dotado da visão privilegiada dos míopes, e em todo o caso é uma absurda quantidade de chantilly para tão diminutos "morangos". Se alguém tiver uma comparação mais sugestiva para essa substância envolvente, leitosa, semi-opaca, esparsamente pontilhada de vermelho, então esteja à vontade para reescrever o texto.

O vermelho-púrpura da Luzula purpureo-splendens vem não só das tépalas das flores mas também das brácteas na base das inflorescências. À medida que as flores se desenvolvem, as tépalas abrem e deixam ver o branco luminoso dos estigmas e das anteras. Quando os frutos estão formados, o vermelho converte-se em castanho. Chegando Agosto, já as sementes foram disseminadas e não sobram vestígios da haste floral. A parte visível da planta reduz-se agora a um tufo de folhas compridas e brilhantes, com margens ciliadas.

O saragasso, nome pelo qual é conhecido no arquipélago, é um endemismo açoriano que só não ocorre nas duas ilhas menos húmidas, Graciosa e Santa Maria. Dá provas, apesar disso, de alguma versatilidade ecológica, pois nas Flores está presente desde os sítios mais encharcados da parte alta da ilha até às pastagens comparativamente secas próximas do litoral. Quando, porém, nessa ilha tão vertiginosamente escarpada, temos o mar quase debaixo dos pés, a queda ainda pode ser superior a 300 metros. Como nesta imagem da descida para a Fajã Grande, em que um velho cedro-do-mato (Juniperus brevifolia) tem a rodeá-lo à direita um molho de saragassos, e à esquerda um tufo de fetos-pente (Blechnum spicant).

11/04/2011

Junípero, genebra, gin

Juniperus communis subsp. alpina Suter


Talvez seja deformação profissional esta mania de mostrar o que é comum só depois de termos esgotado o que é invulgar. Ou então vaidade de coleccionador que se alimenta da inveja dos outros. Já admirámos o zimbro-galego no vale do Tua, já visitámos a sabina-da-praia nas matas do litoral, já voámos até aos Açores para vermos o cedro-do-mato aconchegado na sua nuvem. São três Juniperus mais ou menos incomuns que frequentam lugares especializados. Só agora chega a vez do Juniperus communis — ou, traduzido em vernáculo, do zimbro-comum.

Podemos alegar como atenuante que, em território português, o Juniperus communis é a menos comum das quatro espécies. Apesar da sua amplíssima distribuição nas regiões frias e temperadas do hemisfério norte, em Portugal ele só se encontra, e em populações escassas, nos lugares mais altos das serras da Estrela e do Gerês. De folhagem perene mais ou menos aciculada, é um arbusto que em geral não ultrapassa os 60 cm de altura mas ocasionalmente pode atingir os 2 metros.

O porte do Juniperus communis é aliás motivo de alguma controvérsia. Entre as suas inúmeras subespécies, há duas — subsp. alpina e subsp. hemisphaerica — que estão assinaladas em Portugal. Distinguem-se elas sobretudo pelo tamanho: os indivíduos rasteirinhos integrariam a subsp. alpina e os outros, mais encorpados, a subsp. hemisphaerica. Se usarmos esse critério então o arbusto das fotos em cima pertence sem dúvida à segunda das subespécies. Contudo, os especialistas assinalam também uma diferença na folhagem: a da subsp. alpina teria as folhas pontiagudas e encurvadas para diante. A essa luz, a folhagem que fotografámos é claramente da subsp. alpina. Os dois critérios encaixam pois o mesmo indivíduo em duas subespécies distintas. A maneira de desfazer a confusão é (como fez João Honrado na sua tese Flora e Vegetação do Parque Nacional da Peneda-Gerês) decidir que no Gerês ocorre uma só subespécie, a alpina, de morfologia altamente variável.

As coníferas dão em geral frutos lenhosos, mas os juníperos têm a particularidade de produzir "bagas" carnudas. As do Juniperus communis têm usos tradicionais em culinária, seja para temperar carnes ou mesmo para adicionar um travo peculiar a certas bebidas alcoólicas. De facto, elas são um ingrediente indispensável na preparação do gin, termo que aliás derivará de genièvre, designação francesa para junípero.

15/11/2010

Da Serreta à Lagoinha

Juniperus brevifolia (Seub.) Antoine
Na véspera do passeio ao Monte Assombrado já eu ensaiara uma incursão às nuvens. Bastou-me apanhar às 10h30, à frente do Jardim Duque da Terceira, a carreira n.º 1, Angra-Biscoitos, e apear-me na Serreta uns 45 minutos mais tarde. Usar as camionetas de passageiros é a segunda melhor forma de conhecer o litoral da ilha; a melhor é ir a pé; a pior é alugar um carro. É que a velocidade é inimiga da fruição, e as paragens a que os transportes públicos são obrigados dão tempo para nos impregnarmos da paisagem. A pé ainda teríamos mais tempo, tanto que não caberia num dia só e poderíamos nem chegar às nuvens.

Um dos percursos pedestres recém-marcados na Terceira vai da vila da Serreta até à Lagoinha, um pequeno lago perfeitamente circular ao fundo de uma das muitas caldeiras vulcânicas que existem na metade ocidental da ilha. Medido a partir da estrada, o percurso terá, com ida e volta, uns 8 km de extensão, partindo de uma altitude de 240 metros e atingindo no bordo da cratera um máximo de 800 metros. Com excepção da extenuante subida final para a Lagoinha, a maior parte do percurso é feito em declives suaves. As marcações, importantíssimas para quem não conhece o terreno e em locais onde a vegetação é muito cerrada, estavam todas bem visíveis.

É acima dos 500 metros que o carácter da vegetação muda por completo: a certa altura avançamos por um estradão onde de um lado vemos criptomérias e do outro juníperos. Tomamos um desvio, deixando para trás a plantação florestal e embrenhando-nos na floresta das ilhas tal como ela era antes da ocupação humana. Acreditamos que esta relíquia é para preservar e que o estradão marca uma fronteira que já não será devassada.

O Juniperus brevifolia, que os açorianos conhecem como cedro-do-mato, é uma conífera de até 12 metros de altura, de copa larga e tronco retorcido, endémica do arquipélago e apenas ausente da Graciosa. É a árvore mais numerosa e mais característica da floresta húmida dos Açores, dando abrigo a um riquíssimo mosaico de plantas raras ou endémicas. Cortado em grande escala pela sua madeira de alta qualidade, só nas ilhas do Pico, Faial, Terceira e Flores persistem populações abundantes de cedro-do-mato; contudo, a consciência gradual do valor destas raras manchas florestais parece ter conseguido travar a sua destruição. E, se outros benefícios ambientais não trouxe a monocultura da criptoméria, pelo menos fornece madeira e alivia a pressão sobre a floresta autóctone.

Lagoinha da Serreta


Das plantas que se podem observar pelo caminho, empoleiradas nos juníperos ou à sua sombra, se contará noutras ocasiões. Agora quero só falar da Lagoinha num dia em que as nuvens optaram por reter a carga aquífera em forma de névoa, gentileza que agradeço apesar de com isso não ter ficado muito mais enxuto. Disseram-me que lá de cima, nos dias bons, se avistam a Graciosa e São Jorge, mas há aqui um equívoco na adjectivação. Os dias bons são aqueles em que as árvores parecem flutuar no vácuo, em que o mundo parece ter no máximo uns cinquenta metros de diâmetro e vai sendo criado e apagado à medida que avançamos. Quando desci para a margem do lago, fechou-se atrás de mim a cortina de juníperos por onde acabara de romper: encontrava-me como que numa grande câmara circular pendurada a toda a volta com grandes reposteiros verdes. Por momentos achei que nunca redescobriria a saída, e não me importei nada com isso.

12/11/2010

Floresta de nuvens

Morro Assombrado — ilha Terceira
What are here called the Gods might almost alternatively be called the Day-Dreams. To compare them to dreams is not to deny that dreams can come true. To compare them to traveller's tales is not to deny that they may be true tales, or at least truthful tales. In truth they are the sort of tales the traveller tells to himself. All this mythological business belongs to the poetical part of men. It seems strangely forgotten nowadays that a myth is a work of imagination and therefore a work of art. It needs a poet to make it.

The point of the puzzle is this: that all this vagueness and variation arise from the fact that the whole thing began in fancy and in dreaming; and that there are no rules of architecture for a castle in the clouds. The crux and crisis is that man found it natural to worship; even natural to worship unnatural things. The posture of the idol might be stiff and strange; but the gesture of the worshipper was generous and beautiful. He not only felt freer when he bent; he actually felt taller when he bowed. We therefore feel throughout the whole of paganism a curious double feeling of trust and distrust. There seems a disproportion between the priest and the altar or between the altar and the god. The priest seems more solemn and almost more sacred than the god.

We know the meaning of all the myths. We know the last secret revealed to the perfect initiate. And it is not the voice of a priest or a prophet saying 'These things are.' It is the voice of a dreamer and an idealist crying, 'Why cannot these things be?'


G.K. Chesterton, Man and Mythologies (The Everlasting Man, 1925)

05/07/2010

Loder Valley

Sequoiadendron giganteum
mansão em Wakehurst Place / vistas de Loder Valley
Não muito longe do aeroporto de Gatwick, no condado de Sussex, existe um jardim botânico que só não rivaliza com os Kew Gardens porque é gerido pela mesma instituição. Wakehurst Place (assim se chama o jardim) é, de facto, uma sucursal dos Kew Gardens incrustada na bucólica e ondulante província inglesa. E esse é o primeiro ponto a seu favor: não é um oásis no meio de um subúrbio incaracterístico, mas sim um local onde uma envolvente naturalmente verdejante é sublimada pela arte da jardinagem. Uma arte de efeitos calculados, mas também discreta no modo como o artificialismo de um jardim, que se estende ao longo de um riacho com pedras e cascatas ao jeito japonês, se dilui gradualmente em bosques de grandes árvores que mal traem a sua origem exótica. E mesmo esse quase nada de exotismo acaba por soçobrar em Loder Valley, reserva natural de 60 hectares centrada num grande lago e formada por bosques, prados e terrenos húmidos. (O lago chama-se Ardingly Reservoir e é na verdade um reservatório de água.)

Wakehurst Place é pois o lugar onde a jardinagem e o coleccionismo botânico se deixam como que dissolver na natureza. E o terreno acidentado onde o jardim se desenvolve potencia a existência de nichos recatados que — muito mais do que nos Kew Gardens, onde à planura do terreno acresce a multidão de visitantes — parecem muito longe do bulício moderno.

[Já se adivinha que o maior óbice é a dificuldade em lá chegar não se indo de automóvel, mas Wakehurst Place é servido por autocarros que, três ou quatro vezes por dia (excepto aos domingos), fazem a ligação à vila de Haywards Heath, de onde há comboios frequentes para Londres. Quem planeie uma visita deverá estudar os horários com atenção.]

Cumpridas já duas visitas, ainda não consegui pôr os pés (ou os olhos) em grande parte dos 200 hectares que perfazem Wakehurst Place, e nem sequer conheço o Banco de Sementes para o Milénio. Em ambas as ocasiões gastei três ou quatro horas no circuito que percorre de uma ponta a outra a reserva de Loder Valley, e não sobrou tempo para mais. Os bosques são dominados por avelaneiras, mas também há bétulas, amieiros, faias e carvalhos. Várias parcelas de bosque, sobretudo de avelaneiras e de faias, são desbastadas periodicamente (talvez de 20 em 20 anos), numa prática que vem de tempos antigos e ajuda a manter o ecossistema em equilíbrio: há plantas que só com essa luminosidade extra conseguem medrar. Depois de cortadas pela base, árvores e arbustos voltam a brotar de raiz, e em meia-dúzia de anos o bosque refaz-se. A lenha resultante é vendida na loja do jardim com o selo BarbiKew.

Uma vez por outra, junto ao lago, abre-se uma clareira no arvoredo e surgem prados pontilhados por flores silvestres. Têm elas a fortuna de escapar ao pisoteio porque as visitas à reserva são, em cada dia, limitadas a 50 pessoas; e, pelo que pude ver, é comum ficarem muito aquém desse número.

Ajuga reptans L.
A flora das ilhas britânicas é bem menos rica e diversa do que a nossa, mas em todo o caso, e se descontarmos a exuberância dos bluebells, o início de Maio nunca seria a melhor altura para a observar; teria sido preferível fazê-lo em meados de Junho. Porque ainda não tinha comparecido no blogue, de tudo quanto vi escolhi mostrar a búgula (Ajuga reptans), uma bonita plantinha de uns 20 cm de altura que é também espontânea em Portugal. Por cá começa a florir logo em Março, e abunda especialmente em lugares sombrios e húmidos do noroeste do país. Multiplicando-se por estolhos, é frequente formar populações numerosas. Mesmo sendo atrevida e expansionista, caiu nas boas graças dos jardineiros, talvez por se assemelhar a uma vela onde crepita uma chama vermelha com laivos de azul.

09/02/2010

Sabina e o mar

Juniperus phoenicea L. subsp. turbinata (Guss.) Nyman


Como vão? Afadigados? Mas agora estão sentadinhos, não é? Então conversemos nesta esquina, desse modo descansam e eu tenho a graça da vossa companhia.

Sabem o que é um sabino? Eu nunca tinha usado esta palavra. É um cavalo de pelagem branca mesclada de vermelho e preto. Curiosamente, uma sabina não é uma égua, e até pertence a outro reino: é um junípero que tem frutos igualmente coloridos. O das fotos, acompanhado por um pinheiro moribundo, tem copa turbinata, que traz à memória um pião, aquele brinquedo de madeira em forma de pêra com uma ponta metálica.

[Hã?... E conseguiam jogá-lo para ele bailar aprumado, manipulando o fio sem o fazer tropeçar na dança? Eu não. O pião era brinquedo de meninos. Agora vendem-se em cristal, prenda desajeitada. Felizmente a ciência não é esquisita quanto ao género que a estuda, e a requintada física deste movimento está acessível a todos. Mas estou a desviar-me, onde é que eu ia?]

Ah, sim, a copa densa deste junípero tem o formato de um pião grande, excepto se o vento exagera e a obriga a rastejar, torcendo-lhe a vontade. Como o cavalo ou o pião, a sabina (referenciada por alguns como Juniperus turbinata Guss.) tem encantos. Mora em matagais litorais, dunas fixas e areais, ou vales quentes e secos da região mediterrânica. Floresce de Fevereiro a Abril e distingue-se de outros juníperos por ter frutos ruivos quando maduros (com costuras na casca), e alguns ramos que se juntam numa ponta alargada, como uma cauda, excedendo a grossura da ramagem adjacente; além disso, as folhinhas cobrem os talos, em disposição tão justa que estes são suaves ao tacto. Como é frequente na família Cupressaceae, as folhas juvenis (três por cada nó, aciculares, de uns 15 mm de comprimento) são distintas das adultas (estreitas, escamiformes, com glândulas resinosas no dorso). Os cones masculinos e femininos nascem na mesma planta (raramente em pés distintos).

É espécie longeva e protegida em alguns habitats. O que significa isso? Pouco, para falar verdade. A madeira é compacta, de grão fino, duradoura e aromática, por muitos a preferida para as lareiras. Por isso, e porque cresce lentamente, são escassos os exemplares bem desenvolvidos.

06/01/2010

Portela de Leonte

Chamaecyparis lawsoniana (A. Murray) Parl.


Criado oficialmente em 1971, o Parque Nacional da Peneda-Gerês é o único espaço natural do país a merecer esse estatuto máximo de protecção. E também parece ser o único verdadeiramente a salvo da acção danosa de um primeiro-ministro que fez da destruição da natureza uma prioridade governativa. Quando tiverem desaparecido os vales do Tua e do Sabor, quando todos os rios tiverem sido transformados em obesos espelhos de água, quando os campos agrícolas estiverem semeados de eucaliptos, quando não houver cume sem ventoinhas nem serra não devassada por largas estradas poeirentas, quando os Projectos de Interesse Nacional tiverem feito tábua rasa dos planos de ordenamento — quando chegar esse tempo funesto que em larga medida é já aquele que vivemos, ainda vamos ter, mais ou menos intocados, os montes e vales do Gerês.

A estrada por vezes íngreme, cheia de curvas e contracurvas, que vai da pequena vila termal do Gerês até à fronteira da Portela do Homem proporciona a mais fácil introdução à variada ecologia do Parque. São tantos os cursos de água à nossa volta — rios, ribeiros, cachoeiras, escorrências, regos cavados na berma da estrada — que a serra parece ser, toda ela, um manancial inesgotável de água cristalina. Há os carvalhos e os medronheiros da Preguiça, um pouco adiante aparecem bétulas e, já perto de Espanha, rodeia-nos a frondosa e formosa mata de Albergaria. Da Portela de Leonte, junto à casa florestal, parte um trilho que, subindo pela serra, nos leva a visitar pinheiros-silvestres, azevinhos e carvalhos-negrais antes de nos conduzir a miradouros formados por grandes rochas empilhadas.

As casas florestais, como a da Portela de Leonte, são despojos de uma profissão que, em Portugal, já não existe: a de guarda-florestal. À volta dela vemos os ciprestes-de-Lawson que os serviços florestais de meados do século XX plantaram pela serra em companhia de outras coníferas exóticas: abetos-de-Douglas, sequóias, ciprestes-do-Buçaco. As suas copas pontiagudas, à maneira de fusos, emprestam um tom dissonante à paisagem, mas o Gerês não é floresta virgem, e outras alterações houve por mão humana que causaram estragos bem mais sérios. Não menos do que a casa a que fazem escolta, os empertigados ciprestes-de-Lawson são parte da história do nosso único Parque Nacional.

29/07/2009

Gigantes da Beira



É o rio Côa que se vislumbra entre as ramagens deste cedro. Mais acima, na mesma ladeira, ficam o Museu e o Auditório municipais da cidade do Sabugal. Foi lá que decorreu, a 25 de Junho, a primeira parte do seminário Árvores monumentais - importância e conservação, de que o Pedro Santos publicou há dias na Sombra Verde uma reportagem em três partes (confira aqui, aqui e aqui).

A mascote não oficial do encontro foi a sequóia-gigante centenária que arrebita a sua elegante flecha no jardim contíguo ao auditório. Trata-se de uma árvore admirável, e foi graças às diligências do Pedro que esse carácter de excepção lhe foi reconhecido em Agosto de 2008, quando a Autoridade Florestal Nacional a declarou árvore de interesse público. É a segunda árvore do concelho do Sabugal que ostenta esse galardão; antes dela, em 2004, tinha sido classificado um dos veneráveis castanheiros que visitámos no passeio de 26 de Junho.


Sequoiadendron giganteum (Lindl) J. Buchholz

Já antes explicámos ao leitor as razões para nos sentirmos pequeninos face a estas sequóias, que são, no seu habitat natural (Sierra Nevada, na Califórnia), as mais volumosas árvores do mundo, e também das mais longevas. Em lugar de nos repetirmos, convidamo-lo a recapitular aqui a matéria dada. A sequóia do Sabugal, ainda longe de atingir o porte das suas irmãs mais velhas, vale como promessa. E é à conta dessa promessa (que a seu tempo cumprirá, se a tratarem bem) que vai tendo o ego bem afagado, como presença já habitual na blogosfera lusa.


Sequoiadendron giganteum - Parque do Hospital da Guarda

Há uma segunda espécie de sequóia (Sequoia sempervirens), também nativa da Califórnia, que, por se ter adaptado melhor ao nosso clima, se encontra em parques e jardins um pouco por todo o país. A Sequoiadendron giganteum, porém, originária de uma zona de montanha (entre os 1500 e os 2000 metros de altitude), prefere climas mais secos e frios. Em Portugal, as condições ideiais para o seu desenvolvimento parecem concentrar-se na Beira Interior, num triângulo com vértices na Guarda, no Trancoso e no Sabugal. Na cerca do Hospital da Guarda, antigo sanatório, há um conjunto de mais de cinquenta sequóias-gigantes plantadas na primeira década do século XX, num parque inaugurado pelo rei D. Carlos em 1907; a mais alta supera actualmente os 47 metros de altura. O parque será uma miniatura quase infantil das famosas florestas de sequóias na Califórnia; mas, por muito pequenas e poucas que sejam essas árvores na Guarda quando medidas por tão exigente bitola, são senhoras bem capazes de nos suscitar respeito e admiração.